mercoledì 15 dicembre 2021

Epifania do Senhor

 



(Is 60,1-6; Sal 72; Ef 3,2-3.5-6; Mt 2,1-12)

 

Paolo Cugini

 

1. As solenidades do tempo de Natal encerram com a Epifania do Senhor. A Epifania explica de antemão o sentido da vinda de Jesus no meio de nós: ele veio para unir aquilo que estava dividido: “Os pagãos são admitidos á mesma herança, são membros do mesmo corpo” (Ef 3, 6). Se isso é verdade, a solenidade da Epifania desvende também o caminho que a Igreja deve realizar neste mundo: ser sinal de comunhão e instrumento de paz. As comunidades devem se tornar espaços abertos, aonde qualquer pessoa de qualquer povo possa se sentir bem à vontade e acolhido. É claro que essa abertura toda envolve cada um de nós, naquele espaço de mundo no qual é chamado a viver. Mas o mundo que Jesus veio a apaziguar para se tornar instrumento de comunhão é a nossa mesma humanidade: é em nós que deve acontecer a comunhão. Os braços abertos do menino Jesus são os mesmos da cruz: uma humanidade aberta, que sabe somente se doar. Este é o caminho que a Epifania aponta.

Problema: como a nossa humanidade estragada pelo egoísmo, pode conseguir a se tornar aquele espaço aberto aonde as diferenças vivem em comunhão e os antagonistas se reconciliam?

 

2. São membros do mesmo corpo, são associados á mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (Ef 3, 6).

 

A nossa humanidade poderá tornar-se espaço aberto somente em Jesus e por meio do Evangelho. Palavras simples, mas amiúde esquecidas. Quantas vezes encontrei nestes anos de sacerdote, pessoas que se massacravam para melhorar as próprias atitudes, mas era evidente que o esforço apoiava tudo sobre eles mesmos, apesar das aparências e das abluções cultuais. Ou, também, quantas pessoas, depois de ter tentado com imediato insucesso de melhorar a própria humanidade, desistem conformando-se á uma vida de baixo nível moral?  Jesus Cristo é o único capaz de sarar a nossa humanidade e faz isso através do Evangelho, porque, segundo são Paulo o Evangelho é potencia de Deus

 (cf. Rom 1,16), ou seja, aquela mesma força que agiu na Ressurreição de Jesus, age no Evangelho. Cabe então a nós fazer espaço na nossa vida ao Evangelho de Jesus para deixar a sua luz entrar e iluminar as nossas trevas; deixar a sua verdade bagunçar a nossa vida mergulhada na mentira. São os braços abertos de Jesus no presépio que apontam o caminho que devemos realizar, que é o caminho da confiança sem opor resistência, sem querer saber de antemão aquilo que não podemos saber. Os reis magos caminharam atrás de uma estrela sem saber aonde os levava: esta é a fé! O Evangelho aperfeiçoará as nossas vidas se o seguiremos assim como ele é, e não como nós queremos que seja. A Epifania do Senhor aponta para uma humanidade de braços abertos, uma humanidade sorridente, que olha constantemente na direção do seu Salvador, uma humanidade que aprende a não se queixar toda hora por coisas fúteis, sem nenhuma importância, mas esbanja esperança por todos aqueles que se aproximam.

 

 

3. “ Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém”( Mt 2, 3).

 

Uma humanidade aberta, disponível e generosa, perturba o juízo dos egoístas e hipócritas deste mundo: os carinhas ficam malucos! Logo que Jesus entrou no mundo, Herodes e os poderosos como ele ficaram doidos, porque? Quem é acostumado a controlar tudo,a controlar a própria vida e a vida dos outros para ficar tranqüilo,  não aceita a novidade. Só que o Espírito é novidade, é criativo, não sabe de onde vem e aonde vai (cf. Jo 3). E os cristãos também são livres, simples, amigos de todos, disponíveis a si doar gratuitamente. Esta é a tarefa da Igreja: ser sinal de contradição (Lc 2, 34), incomodando o mundo (Ap 11,10),tirando o mundo do serio. O ódio de Herodes para com o menino Jesus e de deixar pasmos: porque tanta raiva? O que pode fazer um menino para provocar a morte de tantas criancinhas? A Verdade, a Luz, o Amor, a Justiça se fez carne e veio a morar entre nós: é este o problema! Acolhendo o Evangelho na nossa vida, não apenas estaremos deixando espaço para a força de Deus transformar as nossas vidas, mas também nos tornaremos possibilidade de conversão para os outros. E tudo isso tem um preço: o ódio do mundo. “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia” (1Jo 3,13). A solenidade da Epifania, que hoje celebramos, nos lembra que, quem busca Jesus como os Magos que vieram do Oriente para adorar o Senhor, sofre o ódio do mundo que não gosta de Deus e do seu Filho Jesus. Só que nós sabemos que “Deus nos deu a vida eterna e esta vida está em seu Filho(1Jo 5, 11).

Fitar os olhos no presépio, no menino Jesus não significa permanecer num infantilismo religioso que busca uma espiritualidade ligada a sentimentos passados; pelo contrario preencher os olhos de Jesus menino neste tempo natalino, significa manter viva a esperança que é em nós, para enfrentarmos com mais coragem e força o ódio do mundo.

 

4. “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” ( Mt 2,12).

 

Quem busca a Deus de coração puro não ficará desamparado. Quem entrega a própria vida nas mãos de Deus, descobre o sentido do versículo acima citado. Os Magos deixaram tudo para procurar a Verdade e, apesar de tantas dificuldades, voltaram para a sua terra despojados do ouro, incenso e mirra, mas enriquecidos de um encontro que preencherá as vidas deles para sempre. Esta é a verdade misteriosa da fé, que nos coloca num plano diferente da realidade, o plano do Espírito, das coisas do céu (cf Col 3,1), que pode acreditar somente quem vê, e pode ver somente quem busca e é encontrado pelo Senhor. Pois a realidade é esta: Deus em Jesus se manifestou (Epifania) e nele  colocou a vida: cabe a nós descobri-lo para conhecê-lo e, conhecendo-o, amá-lo e amando-o viver para sempre.

 

 

 

Pintadas-Ba       2011                                                                         Pe Paolo Cugini

 

 

 

 

 

 

Vigília de Natal-2007

 



(Is 9, 1-6; Sal 96; Tt 2, 11-14; Lc 2, 1-14)

 

 

Paolo Cugini

1. Chegamos a esta noite com o coração vibrante de alegria pelo evento que estamos contemplando: nesta noite o eterno entra no tempo, o infinito se faz finito, aquilo que é imperecível se faz perecível. Contemplamos extasiados o mistério do Deus menino, o Onipotente solapado no pequeno corpo de uma criança recém nascida. Ficamos pasmos, sem fôlego por esta aproximação impressionante de Deus para conosco. Aproximação que expressa mais uma vez o grande desejo de Deus de encontrar o homem, a mulher. O Natal é isso mesmo: o cumprimento do sonho antigo de Deus se fazer presente no meio da humanidade, de morar no meio de nós e, para realizar este sonho, Deus se faz homem, o tudo de Deus entra no fragmento pequeno do corpo humano. Mistério sublime que desvende até a que ponto chega o amor verdadeiro de Deus, o amor que pela sua intrínseca natureza exige a doação, a partilha e, por isso, não mede riscos, não calcula as conseqüências.  E, assim, por todos nós neste momento são autenticas as palavras do salmista quando, perante o mistério de Deus contemplado na criação, se pergunta: “É o que o homem para merecer tudo isso?” (Salmo 8). Nós também nesta noite tão luminosa nos perguntamos deslumbrantes: oh Deus porque fez tudo isso? Será que a gente merece um tão grande presente? Será que precisava mesmo que Deus se fizesse menino para nos encontrar? E é o que isso significa? O que Deus quis nos dizer com a sua vinda?

 

2.O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1).

Assim como o profeta Isaias o profetiza, Jesus pela humanidade é uma luz. Deus enviando Jesus quis nos iluminar, ou seja, decidiu de nos tirar das trevas. Neste sentido a vinda de Jesus manifesta o julgamento de Deus sobre a humanidade. Com a vinda de Jesus Deus declara definitivamente derrotado o projeto de mundo que os homens construíram e continuam construindo independentemente de Deus. O mundo sem Deus é obscuro, é treva: é isso que o Natal de Jesus revela pela humanidade toda. O mesmo salmo 95 que foi proclamado hoje aponta o mesmo sentido: “O Senhor vem para julgar a terra inteira”. A luz de Deus que o nascimento de Jesus trouxe ao mundo representa o julgamento de Deus sobre o projeto de mundo que a humanidade desobediente criou e, ao mesmo tempo, é a indicação do caminho que a humanidade toda deve percorrer pra se afastar do projeto errado para entrar na trilha certa. Este me parece ser o sentido primeiro do Natal: a manifestação definitiva do julgamento de Deus sobre o mundo. A partir do evento do presépio, a humanidade toda depara com o pensamento de Deus, com a sua Verdade definitiva sobre nós. Verdade que se manifesta no seu lado negativo de julgamento, sobre tudo aquilo que ao longo dos séculos se ergueu orgulhosamente como projeto autônomo, criando o mundo da morte, dominado pelo egoísmo e pela ganância. Ao mesmo tempo o julgamento de Deus se manifesta como misericórdia por toda a humanidade vitima deste projeto terrível, por toda a humanidade que tenta com todas as forças de permanecer fiel ao projeto de amor de Deus.  Esta misericórdia de Deus que se estende ao mundo é muito bem representada pelos braços abertos de Jesus menino no presépio da manjedoura de Belém, que não é apenas uma cena sentimental, que mexe com o nosso lado sentimental, mas um quadro realista daquilo que Deus está querendo com o mundo.

 

3. Porque nasceu para nós um menino” (Is 9,50).

Esta luz que Jesus com o seu nascimento trouxe ao mundo se manifesta como vida. De fato, aquilo que Deus promete para salvar a humanidade da morte é uma criança. Isso não apenas foi profetizado pela boca do profeta Isaias, mas se cumpriu na historia com o nascimento do menino Jesus. Jesus é a Vida verdadeira que acusa a morte do projeto mundano. Se quisermos viver uma vida que permanece no tempo e nunca desfalece, precisamos nos aproximar do presépio. Jesus menino de braços abertos é o julgamento de Deus sobre o mundo fechado do egoísmo, da ganância, da soberbia. Além do mais, este menino recém nascido de braços abertos nos convida a fazer parte do seu Reino, que é o Reino do amor, da paz, da justiça e da vida autentica.  Aquela vida que todos nós buscamos com todas as nossas forças ao longo da vida e que não conseguimos alcançar, esta mesma vida veio ao nosso encontro, se ofereceu gratuitamente. É isso que devemos aprender a vislumbrar no menino Jesus: A Vida. É Ele que veio para apagar as nossas angustias, veio para preencher o nosso vazio, a nossa falta de sentido. É este menino indefeso que tem nas suas mãos o segredo da vida, a direção que a nossa existência humilde deve tomar. Se nos aproximarmos a este grande tesouro com uma mentalidade humana, material, seriamos tentados a nos perguntar o custo para obter tudo isso. O Evangelho, porém, vem ao nosso encontro com uma resposta simples: “Encontrareis o recém nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). A vida autentica que Deus nos oferece no menino Jesus, não se apresenta com os critérios humanos do poder e da força, mas com os sinais divinos da simplicidade e da humildade. E assim, se quisermos acolher a Vida autentica manifestada no meninoJesus, precisamos nos despojar do nosso orgulho e do nosso egoísmo. A Vida autentica pode ser somente acolhida para ninguém se ufanar de algo que não lhe pertence. É isso que é difícil entender para nós acostumados a medir o valor das coisas pelo peso exterior, pelo preço. Jesus, a vida verdadeira, se oferece gratuitamente, não tem preço: pode ser somente acolhido. Também isso representa um julgamento da nossa maneira de olhar as coisas e medi-las.

 

4. A noite de Natal é uma noite feliz, como somos acostumados a cantar, porque Deus veio a morar no meio de nós, assumindo a nossa condição humana, uma condição estragada pelo pecado e pela morte. É incrível como isso possa acontecer, como Deus possa caminhar e viver conosco, ao nosso lado. Se Ele decidiu isso não foi apenas por um sentimento de solidariedade, mas para nos salvar, ou seja, para transformar a nossa condição humana de morte, numa condição de vida, a nossa condição de sofrimento e conflito numa condição de paz. O Natal de Jesus que hoje celebramos com o maior respaldo possível, pela Igreja quer ser muito mais de uma lembrança passada: deseja ser a indicação de um estilo de vida novo, aquele estilo que produz uma transformação radical em todos aqueles que a levem a serio. Que seja este o sentido do Natal, pelo menos entre nós e nas nossas famílias.

 

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-Ba.

martedì 14 dicembre 2021

DOMINGO XXV/C

 



(Am 8, 4-7; Sal 113; 1 Tim 2, 1-8; Lc 16, 1-13)

 

Paolo Cugini

1. Sempre procuramos, pelo menos as pessoas que estão buscando uma vida de fé mais autentica e verdadeira, a essência da vida cristã, aquilo que mesmo deveria ser o foco, o eixo da caminhada, mas nos perdemos em mil riachos laterais sem nuca chegar ao rio. Isso é visível não apenas em nós, mas também em pessoas que há tempo estão no Caminho. Passamos o tempo inventando projetos, organizando eventos, ficando às vezes angustiados porque não saíram do jeito que a gente quis ou, pelo menos, tinha esperado. O tempo vai passando e nós ficando com um punhado de moscas nas mãos, nos questionando se a vida cristã é assim mesmo ou se deveria ser diferente. O grande perigo, nesta fase de angustia, que pode se protelar a vida toda, é ficar repetindo os mesmos erros, as mesmas situações. Quando a insegurança toma conta da gente, ficamos até com medo de pensar, de ousar algo de novo para não sermos criticados, julgados, dedados. Vivemos, assim, uma vida em defesa, sem élan nenhum, sem empolgação. E aqui vem o questionamento das leituras de hoje: o Espírito Santo que recebemos no Batismo e continuamos recebendo nos sacramentos, deve produzir esta vida segura, monótona, rotineira, ou tem algo a mais?

 

2. E o Senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos dos filhos da luz” (Lc16, 8).

A parábola que Jesus narra no Evangelho de hoje termina com uma moral, que tão moral não parece. Porque será que Jesus elogia a esperteza do administrador desonesto? Além do mais, porque Jesus elogia uma pessoa desonesta: não é uma grande contradição perante tudo aquilo que ele vem pregando de amor, respeito e tudo mais? Na realidade, se prestarmos bem atenção às palavras de Jesus, Ele não elogia nem a desonestidade nem a esperteza, mas sim a criatividade do homem. De fato, o protagonista da Parábola, usou ao maximo a própria inteligência para se sair bem de uma situação que tinha tudo para ser ruim pra ele. Esta historia traz pra nós um grande ensinamento. O questionamento que Jesus traz por dentro da comunidade dos discípulos, entre os quais estamos hoje também nós, é este: o que estamos fazendo da Palavra de Jesus e do Seu Espírito Santo? O Espírito Santo em Jesus agiu de uma forma que progressivamente transformou toda a sua humanidade em amor, doação, partilha. Alem do mais, o Espírito em Jesus o levava a criar continuamente novas situações para que o reino de Deus fosse anunciado. O exemplo mais claro são as parábolas que ele inventava para chamar á atenção do povo e, assim, induzi-lo a pensar, refletir sobre a própria vida, se converter á Cristo. A verdade do Espírito Santo que Em Cristo agiu desta maneira e que Ele entregou pra nós em cima da cruz (cf. Jo 19, 30), não pode ser desperdiçado, mas deve gerar continuamente amor e, sobretudo, de uma forma criativa. O problema, então, é esse: porque somos tão resistentes á ação do Espírito Santo? O que em nós está bloqueando o Espírito Santo, impedindo que invente algo de novo? Porque somos tão passivos, renunciatarios e preguiçosos a ponto de prejudicar a obra criativa de Deus? Varias poderiam ser as respostas: vou apontar somente algumas.

Em primeiro lugar, aquilo que atrapalha a ação do Espírito Santo na nossa vida é o medo. Este medo se manifesta de muitas formas e maneiras: medo que o outro não goste de nós; medo de dizer algo que fere os outros; medo de não sermos aceitados. Ficamos trancados em nós mesmos para não correr o risco de ficarmos ofendidos, de sofrer por causa de uma magoa: a que ponto chega o nosso egoísmo, não é? E assim perdemos a ocasião de experimentarmos o prazer e a felicidade de uma vida diferente, uma vida de doação aos irmãos e as irmãs, uma vida fora da rotina corriqueira, mais criativa e dinâmica. É o dinamismo do Espírito que impulsiona a nossa vida a criar situações sempre nova para permitir a graça e Deus de moldar a humanidade através da nossa disponibilidade. É a força daquele mesmo Espírito que levava Jesus a enfrentar com coragem os poderosos do tempo, que deve agir em nós para não ficarmos calados perante a injustiça que encontramos no mundo, mas sim inventarmos novas situações para que o povo mais simples possa viver num mundo mais justo e solidário. Somos passivos porque amedrontados daquela diferença qualitativa que o Evangelho nos apresenta e que em Jesus se tornou bem visível. Tememos o julgamento dos amigos, dos colegas, até dos familiares e, por causa disso recuamos, voltamos atrás, preferindo a tristeza da vidinha medíocre da massa, á grande felicidade dos poucos discípulos de Cristo. O cara, deixa de frescura e segue a Jesus: tá?

 

3. Usai o dinheiro injusto para fazer amigos... Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16, 9.13b).

Como é que se manifesta esta novidade, esta criatividade que o Espírito deveria realiza em nós? O exemplo que Jesus traz é em referencia ao nosso relacionamento com o dinheiro. Estes últimos versículos do Evangelho de hoje expressam, de uma forma contundente a economia de Jesus, a teoria econômica que sai com força das paginas do Evangelho. O dinheiro é sempre injusto: esta é a sentença clamorosa e, ao mesmo tempo escandalosa de Jesus.  È claro que não é a qualquer dinheiro que Jesus se refere, o dinheiro que serve para comprar o pão, os remédios, e tudo aquilo que necessita para manter a nossa vida. O dinheiro é injusto quando é acumulado, guardado nos cofres dos bancos, porque este é todo dinheiro tirado do povo, que gera desigualdade e pobreza. Em um mundo ganancioso como é aquilo no qual vivemos, esta proposta de Jesus, que o Espírito Santo deveria produzir na nossa vida real, parece como uma verdadeira provocação. Na realidade, ou seja, na Verdade do Evangelho, esta é exatamente a diferença, a diversidade que o Evangelho, impulsionado pela ação do Espírito Santo, deveria realizar no meio de nós. Vida despojada porque Cristo se despojou de tudo para dar a nós o tudo de Deus.  Vida simples, despojada, porque é o amor de Deus que é derramado em nós pelo Espírito (cf. Rom 5,5) e isso nos basta, é suficiente para vivermos. Só o Espírito Santo pode impelir em nós idéias tão revolucionarias e ousadas como estas pra deixar de queixo aberto todos aqueles que vivem mergulhados no egoísmo do mundo. E nós, então, passamos fechando a boca deles, convidando-os a não desperdiçar a própria única vida se apegando aquilo que passa, mas se doando totalmente aos irmãos e as irmãs, sobretudo mais pobres, para conseguirmos um tesouro no céu, tesouro que sem duvida ninguém vai roubar (nem os políticos corruptos que andam nas nossas cidades).

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

 

DOMINGO XXIV/C

 



(Ex 32,7-11.13-14; Sal 51; 1 Tim 1, 12-17; Lc 15, 11-32)

 

Paolo Cugini

1.Um homem tinha dois filhos” (Lc 15,11).

Dizia um grande poeta e filosofo francês, Charles Péguy, que quando estas palavras são proclamadas, ninguém agüenta: toda a humanidade chora. A parábola do filho pródigo, que acabamos de ouvir, mexe com as nossas entranhas, com o nosso emocional, porque chega na profundeza da nossa interioridade desvendando a nossa mesma realidade, a verdade de quem somos nós mesmos. Em outras palavras o conteúdo da Parábola do filho pródigo contem uma verdade tão profunda e autentica que ninguém consegue se esconder: arrebenta a nossa alma. Por isso é importante lê-la em silencio, meditá-la no escondido, para saborear aquilo que tem a dizer para mim, pela nossa conversão e, sobretudo, pela autenticidade da nossa seqüela ao Senhor. Se analisarmos com atenção a parábola do filho pródigo tem dois ensinamentos fundamentais. De um lado revela algo sobre a condição humana e do outro a mesma parábola revela algo sobre Deus. OS dois filhos são o símbolo da humanidade: por isso é importante parar a nossa atenção sobre eles pra ver o que a postura deles tem pra nós ensinar.

 

2.O filho mais novo disse ao Pai: ‘Pai dá-me a parte de herança que me cabe’. E o Pai dividiu os bens entre eles” (Lc 15, 12).

Existe toda uma humanidade que sonha a realização da própria vida fora do alcance de Deus. São as pessoas que um dia levantam da cama decidindo que a vida é deles e a ninguém devem prestar conta. É aquela convicção que vem da juventude, da saúde, das condições materiais que nos levam a acreditar que somos os únicos senhores da nossa vida. Perante esta arrogância acho extremamente interessante a postura do Pai: não questiona nada, mas faz aquilo que o filho pede: o deixa livre de realizara sua vida do jeito que ele quiser. É um grandíssimo ensinamento para os pais: a paternidade é fecunda quando é alicerçada na liberdade, pois a liberdade é um reflexo da imagem de Deus. Quando pelo contrario os pais querem fazer de tudo para impedir que os filhos façam besteiras, chegando até a si substituir á liberdade dos próprios filhos, é ali que o bicho pega. Nessa altura podemos questionar: mas porque o pai não disse e não fez nada para impedir que o filho saísse de casa? Ao longo do texto podemos encontrar varias respostas. A primeira é que o pai era tranqüilo na própria tarefa de Pai. Ele sabia que tudo aquilo de bom que tinha semeado no coração do filho na infância e na adolescência, antes ou depois teria surtido efeito. De fato, na hora do grande sofrimento e da grande perdição quando o filho entrou em si mesmo, quem encontrou no fundo do seu coração? O Pai! É na infância e na adolescência que as forças educativas e espirituais devem ser dobradas para colocar os filhos no caminho da realidade. A segunda resposta ao problema sobre colocado é que o pai conhecia muito bem o seu filho e sabia que era daquela raça rebelde de cabeça dura, metido a sabido, que não vai com a cara de ninguém, que se acha o tal e que quando bota na cabeça uma idéia não tem jeito algum para tirá-la. Existe toda uma humanidade que para descobrir a própria identidade, para descobrir o sentido da própria vida parece que deve quebrar a cara. O filho que sai de casa descobre que o tesouro maior que tinha na vida estava exatamente lá aonde tinha decido de se afastar. São os mistérios da vida: às vezes precisamos rodear o mundo para descobrirmos aquilo que está perto de nós. Tem um terceiro ensinamento que podemos tirar da historia deste filho rebelde. Os prazeres da carne, junto com os prazeres materiais que o mundo nos oferece são puras ilusões, não proporcionam a felicidade, mas sim esvaziam a pessoa que entra neste caminho. Tudo mundo sabe disso, mas poucos conseguem ficar de fora do caminho da perdição. Porque? Porque a força dos sentidos é devastadora, e que não aprende a lidar com a própria interioridade desde a infância, para controlar os instintos e assim dirigi-los aonde nós quisermos, se torna escravo deles. É isso que nos ensina esta historia triste: o caminho da liberdade está no amor do Pai, é Ele a fonte da nossa vida.

 

3.O filho mais velho estava no campo... Ficou com raiva e não queria entrar”(Lc 15, 25.28).

A postura do filho mais velho nos ensina que não adianta ficar perto do Pai: depende como ficamos. Podemos, de fato, fugir da nossa realidade, permanecendo no lugar. Quantas vezes nas nossas famílias têm familiares que não ligam com nada, parece que estejam sempre voando. E quando nos distanciamos da realidade, começamos a pensar besteiras, a fantasiar, botando gosto ruim naquilo que é bom. “E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos”. Oh, coitado! Quando perdemos o contato com a realidade, nos fechando em nós mesmos, construindo no nosso imaginário um mundo de fantasia, transformamos o bem em mal, prejudicando assim o nosso relacionamento positivo com os outros, sobretudo com as pessoas que mais amamos.  Interessante é também um outro dato. Foi necessário o filho mais novo se mandar e estragar a sua vida, para que pudesse emergir aquilo que se escondia no fundo do coração do filho mais velho. Quer dizer isso? Acho que esta Palavra nos ensina a não julgar os eventos na sua manifestação factual, mas precisamos sempre colocar tudo nas mãos de Deus, esperando que seja Ele á abrir os nossos olhos para interpretarmos assim a historia do jeito que Deus a está escrevendo. De uma certa forma é a perdição do irmão mais novo que salva o irmão mais velho do abismo do seu egoísmo. Tudo isso é bastante impressionante, porque nos mostra o lado providencial de Deus, que respeita a nossa liberdade e sabe realizar historia bonitas com os pedaços da nossa humanidade esbagaçada.

 O filho mais velho, apesar de ter sido fiel ao pai permanecendo perto dele, precisou sentir uma verdade: “Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu”. Mais uma vez é o Pai que com a sua realidade, que é a mesma Verdade, purifica as ilusões falsas formadas ao longo do tempo na nossa cabeça, restituindo paz e serenidade a alma. É a Palavra do Pai que precisamos escutar para que tudo na nossa vida seja renovado. É o amor do Pai que devemos acolher, amor que purifica e renova constantemente as nossas vidas. Por isso vale a pena estarmos aqui reunidos no redor desta Eucaristia, para nos alimentarmos do pão da Palavra de Deus que alimenta a nossa alma, nos orientando sobre o cominho a ser tomado, e para nos alimentarmos do corpo de Cristo que infunde nos nossos corações o amor de Deus, do pai misericordioso, que almeja a toda hora a nossa salvação. Amém.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA.

DOMINGO XXIII/C

 



(Sab 9, 13-18; Sal 90; Filêmon 9-10.12-17; Lc 14, 25-33)

 

Paolo Cugini

1.Ensinai-nos a contar os nossos dias e daí ao nosso coração sabedoria!” (Sal 90).

Este versículo do salmo 90 nos ajuda bastante a entrar na liturgia da Palavra de hoje. É de fato, um versículo que chama a nossa atenção sobre a realidade da nossa vida que é uma e corremos o risco de desperdiçá-la. Aprender a contar os dias da nossa vida significa, então, aprender a viver a vida como um projeto, como um caminho único com uma meta bem definida. Por isso o salmista pede sabedoria, para que ao longo da vida o caminho possa manter-se firme, para não desviar nem à direita nem à esquerda. E é isso mesmo que também nós queremos pela nossa vida: chegar ao final dos dias da nossa vida para agradecermos a Deus de termos conseguido viver fieis ao projeto ao qual Ele nos chamou. No começo desta reflexão, então, nos perguntamos: como é possível uma vida fiel á vocação que Deus nos confiou?

 

2.Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26).

O que Jesus quis dizer com estas palavras duríssimas e quase incompreensíveis?  Será que Ele não exagerou? E, a final de conta, é mais importante ser discípulo que amar a minha mãe? Não é demais isso?

Na realidade o discurso que Jesus hoje puxa no Evangelho é extremamente profundo. Discípulo é uma pessoa que caminha atrás de Jesus, ou seja, é uma pessoa que entendeu que a vida, o amor, tudo encontra-se nele: não existe no mundo todo alguém que possa oferecer aquilo que Jesus oferece. Por isso alguém se coloca em movimento para buscar aquilo que não foi encontrado em lugar nenhum. De fato, se é verdade que minha mãe me deu a vida e que ela merece por isso todo o nosso carinho, é também verdade que ela mesma não pode nos proporcionar uma vida eterna. Assim também é verdade que o amor de uma mulher é algo de sublime, incomparável, mas é também verdade que nunca o amor humano é puro: fica sempre algo de egoístico, de interesseiro que ao longo dos anos emerge e provoca desavenças. Também nas historias de amor mais deslumbrantes existe algo que deve ser purificado para que a confiança possa se tornar total. O problema, então, é entrar em mi mesmo para mi perguntar: eu quero o que? Quero a vida verdadeira, o amor verdadeiro? Então somente Jesus pode me oferecer isso: levanta-te e caminha! Desapega-te dos amores terrenos e anda atrás do Senhor, para que seja Ele a transformar o egoísmo em amor, a desconfiança em confiança.

 

3.Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 27).

Somente quem se desapega dos afetos terrenos e se decide com firmeza a caminhar atrás de Jesus descobre um dos maiores mistérios da humanidade: o amor é sofrimento. O símbolo maior do amor é a cruz de Cristo: porque? Qual foi o sentido da Cruz? A cruz é o símbolo do amor extremo, impossível, sobre-humano, divino. A cruz é o símbolo do amor espantoso do homem-Deus de nome Jesus, que não fugiu perante as ameaças da morte. A Cruz é o símbolo do amor de Jesus, que não lançou a esponja perante a traição daquele que Ele amava, os seus discípulos, mas decidiu enfrentar a humilhação e ir até o fim. Nunca teve na historia da humanidade decisão tão sofrida. Amor não é identificável com algo de espontâneo, da forma que o mundo passa, mas sim decisão continuamente renovada. Amor não se identifica com uma paixão do momento, mas é fidelidade extrema, ao projeto que um dia foi vislumbrado como único e não repetível. Além do mais, ninguém consegue carregar a sua cruz, vivendo com fidelidade a própria vocação se não tiver a humildade de se colocar sempre e continuamente atrás do Senhor. A vida, neste sentido, é uma continua caminhada de aprendizagem. Quem se acha o tal, quem acha de ter já entendido tudo sobre a vida de fé, é destinado a quebrar a cara. A vocação seja ela qual for, o matrimonio ou a vida consagrada, é cruz, sofrimento, morte a si mesmo e ao mundo. É isso que Jesus quis comunicar para os seus discípulos. Se quisermos abastecer a nossa alma do amor que vem de Deus e da vida eterna que só Ele pode oferecer, não existe outro caminho que este. Se Deus é eterno tudo aquilo que Ele produz tem este marco de eternidade, marco que aqui na terra é pago ao preço duríssimo da incompreensão, solidão, perseguição. Por isso é necessário manter os olhos constantemente fitos em Deus, para não ficarmos confundidos com as ilusões que constantemente o mundo nos proporciona. É nessa altura que entra no discurso que estamos realizando mais uma pergunta: o que precisa fazer para mantermos a nossa caminhada firme no Senhor? Como podemos segurar a nossa vocação para nunca cair?

 

4.Com efeito, qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos” (Lc 14, 28).

 

O seguimento a Jesus exige calculo, ou seja, uma constante atitude a pensar, avaliar, refletir sobre as condições de possibilidade da caminhada. Ninguém pode ser tão ingênuo pra pensar de poder seguir á Jesus dentro este mundo devastado do egoísmo, sem abastecer a própria alma e a própria mente de tudo aquilo que Deus nos proporcionou em Cristo. Este sentar-se e calcular os gastos, podemos interpretá-lo como o tempo da juventude, aonde torna-se fundamental passar muito tempo na reflexão para entender e depois se decidir sobre a vocação á qual o Senhor nos chama. É o tempo do namoro, por exemplo, para os jovens que Deus chama á vocação do matrimonio. É o tempo do seminário ou do convento para os jovens que Deus chama á amar na vida consagrada. Este ato, porem, do sentar-se para calcular, ou seja, para avaliar as condições de possibilidade da caminhada, é sem duvida alguma uma atitude que deve acompanhar toda a nossa vida. Ao longo dos anos, de fato, não apenas mudam as condições de vida, mas mudamos também nós mesmos. Por isso torna-se necessário um continuo entrar em si mesmo para atualizar o percurso realizado, renovando as energias, reintegrando dentro da caminhada as experiências positivas e negativas realizadas.

 A vida entendida como caminhada atrás de Jesus é sim cruz, sofrimento, mas é um sofrimento que surge de uma experiência de amor incomensurável, que é alimentado pelas mesmas provações sofridas ao longo do caminho: é por isso e, só por isso, que a cruz se torna leve. Pedimos a Deus nesta Eucaristia de permanecer sempre conosco e de manifestar o seu amor, sobretudo nas horas tristes e sofridas da nossa vida.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

 

VII°DOMINGO-C

 



(1 Sam 26,2.7-9.12-13.22-23; Sal 103; 1 Cor 15, 45-49; Lc 6, 27-38)

 

Paolo Cugini

 

1. O Evangelho que acabamos de ouvir joga na nossa cara um problema radical: a incapacidade de amar o inimigo que, em outras palavras, podemos chamar de ódio. Não existe um cristão sequer que admita isso, mas na realidade se trata disso mesmo: o ódio. E o ódio não vem de fora, mas de dentro de nós (Cf. Mc 7). Por isso não queremos admiti-lo: é duro demais. Ninguém quer ser considerado um monstro, pior ainda se for um cristão conceituado, de respeito. Não posso aceitar algo que, com as palavras e a postura externa, estou negando. A coisa pior que pode acontecer é a justificação do ódio como algo de natural. Quando isso acontecer, quer dizer que a Palavra de Deus não tem mais poder sobre nós. Então, as leituras de hoje são por aquelas pessoas que, perante uma Palavra forte e clara, não ficam resistindo, se justificando, mas se questionam, procurando melhorar a própria existência.

 

2.Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam e rezai por aquele que vos caluniam” (Lc 6,27-28).

Engolir estas palavras não é pouca coisa não. Pensar que a nossa vida cristã deve passar necessariamente pela atitude que Jesus acabou de apontar, requer uma verdadeira mudança de vida. Talvez seja este o fascínio do Evangelho e da proposta cristã: é algo fora das possibilidades humanas, é algo possível somente através de uma intervenção do alto. Só Deus mesmo pode nos ajudar á amar as pessoas que nos odeiam, que infernizam a nossa vida, que cada dia tentam de destruir a nossa existência, que falam mal da gente na rua. O problema, colocado de um ponto de vista humano seria o seguinte: precisa amar estas pessoas? Porque dar ousadia para alguém que me odeia, que não gosta de mim e faz questão de tudo mundo saber disso? Aquilo que nós resolvemos fazer em circunstâncias aparecidas é fechar a cara, não dar ousadia, viver como se estas pessoas não existissem. Na realidade, apesar dos nossos esforços, o ódio das pessoas afeta a nossa alma ,deixa a gente mais fraca, debilitada. O homem, a mulher, não tem poder de enfrentar o ódio. Ignorar o ódio, fechar a cara com os nossos inimigos, não resolve o problema na raiz: vai chegar o dia que estouramos, que não agüentamos mais, pois, o ódio acumulado no tempo destrói e corroe devagarzinho a nossa alma. É como um câncer que, lentamente, afeta o organismo humano.

Amai os inimigos” é a única forma de destruir o câncer do ódio. Só opondo o amor ao ódio, este devagarzinho desfalece, desmorona. O mesmo são Paulo, encerrando a carta aos Romanos, aconselhava de responder com o bem, o mal que recebemos. Somente encontrando o amor, o ódio perde a própria força devastadora, aniquiladora. E aqui entra o nosso problema: aonde encontrar uma força dessa? Como conseguir aquela lucidez que nos leva a retrucar com o amor ao ódio que recebemos, num momento aonde a nossa mente está totalmente confundida, por causa dos golpes mortais do ódio? É fácil falar, escrever, meditar em cima disso, mas quando na vida cotidiana estamos sendo massacrados por alguém, como conseguir a viver o conselho evangélico de Jesus?

 

3. “Então a vossa recompensa será grande e sereis filhos do altíssimo” (Lc 6, 35).

A primeira simples resposta ao problema levantado pelo mesmo Evangelho é esta: não deixar que o mau presente obscureça o horizonte da nossa vida. Manter constantemente a nossa mente, o nosso coração em Deus. É aquilo que nos aconselha o autor da carta aos Hebreus quando no capitulo 12 escreve: “Caminhai fitando os olhos em Cristo, o autor da vossa fé”. Para que a nossa mente fique constantemente em Deus, pensando constantemente aquilo que Deus realiza em nós através de seu Filho, ou seja, a possibilidade de nós mesmos nos tornarmos filhos de Deus, precisa abastecer a nossa alma da sua Palavra. Este é o sentido autentico da oração. De fato, devo aprender a procurar a Deus não apenas na hora do aperto, da dificuldade, mas manter um constante dialogo com Ele. Só assim o mal recebido no momento presente, poderá ser colocado dentro um horizonte de vida e de caminhada bem maior. Quando o ódio me afeta de uma forma tal que não me deixa dormir, é um sintoma claríssimo que não estou imunizado contra isso, e não estou imunizado porque a minha vida não é alicerçada em Deus, mas em mi mesmo. Uma vida embrulhada no egoísmo, em outras palavras uma vida orgulhosamente em busca de si mesma, não agüenta a força devastadora do mal, do ódio. Quem não reza será forçado a sucumbir ao ódio do mundo.

Em segundo lugar, a melhor maneira para aprendermos a viver o Evangelho nestes momentos terríveis, é abastecer a nossa alma com a vida daquele que doou a própria vida para todos nós, perdoando no mesmo momento da morte violenta, os próprios algozes. Por isso a Eucaristia é fundamental nessa caminhada. Na Eucaristia nós comemos o Corpo de Cristo, o Corpo do Filho de Deus, que não apenas nos convidou á amar os inimigos, mas fez ele primeiro aquilo que falou para nós. Alimentando a nossa alma com consciência daquilo que estamos fazendo e não por costume, o amor de Cristo derramado em nós pelo sacramento que recebemos, transformará o ódio que mora em nós em amor. Este é o sentido da nossa fé em Deus e no seu Filho Jesus. A Igreja nos ensina á acreditar que, aquilo que ouvimos e vimos na humanidade de Jesus, se realiza já nesta vida presente em todos e todas as pessoas que se alimentam do seu corpo. Não existe possibilidade de amar a não ser em Cristo, por Cristo e em Cristo.

 

4. Como, então, saber se as Eucaristias que estamos participando, estão surtindo efeito? Qual é a prova que estamos amando os inimigos e não apenas lidando com eles excluindo-os da nossa existência?

“Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva” (Lc 6, 30).

A verdade do amor de Deus na nossa vida, não se esgota num simples sentimento interior, mas se manifesta exteriormente no desapego ás coisas materiais. O amor verdadeiro que vem de Deus e que nós vimos realizado em Jesus Cristo, liberta as pessoas. A verdade desta Eucaristia não é o cumprimento de um preceito, mas a transformação da nossa vida, das nossas atitudes, dos nossos relacionamentos. A verdade de cada Missa, é um pouco mais de liberdade na nossa vida. Comer o Corpo de Cristo no Domingo significa aceitar que seja Ele o principio inspirador da nossa existência. Aquilo que deve acontecer fora da porta da Igreja é uma experiência de vida nova, aquela vida nova moldada pelo amor de Cristo. Pois esta é a verdade: em Cristo somos criaturas novas, homens e mulheres novas. Vivamos, então, conforme aquilo que recebemos.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

 

                                                                                                                                             

IV°DOMINGO DO TEMPO COMUM/C

 




(Jer 1,4.5-17;Sal 71; 1 Cor,31-13,13; Lc 4,21-30)

 

 

Paolo Cugini

 

1. Estamos celebrando os primeiros domingos do tempo comum e a liturgia da Palavra nos oferece a oportunidade de aprofundar o nosso conhecimento de Jesus, o Salvador do mundo e da nossa vida. A presença de Jesus na historia é algo de radicalmente novo: nunca houve uma pessoa com um carisma tão grande que até hoje, depois de dois mil anos, influencia a vida de milhões de pessoas. Nunca teve um homem que se declarou Deus e que, nos atos, manifestou a verdade da própria identidade. Escutar essa pessoa, ficar atentos, fitar os olhos nele para captar a sua proposta, que para nós é vida: é isso a tarefa de um Cristão. Para conseguirmos realizar isso, precisamos limpar a nossa mente, a nossa alma, fazer espaço na nossa vida dos falsos conhecimentos, da superficialidade que nos caracteriza. O perigo é identificar a proposta inovadora de Jesus com um programa político, ou com uma proposta humanitária. O grande perigo é puxar Jesus do nosso lado, fazendo dele um ídolo, sem ter entendido nada  da sua proposta, perdendo assim a ocasião de conhecê-lo por aquilo que Ele é: o Santo de Deus.

 

2. No evangelho que acabamos de ouvir Jesus, logo que entra no mundo, que manifesta a sua identidade, provoca uma reação negativa. Isso é já um sinal que deve ser escutado, absorvido: Jesus não veio ao mundo para agradar ninguém. A proposta de Jesus não é política, mas espiritual. Jesus é o Caminho proposto para o Pai para permitir ao homem de sair do seu egoísmo, do orgulho, de uma vida negativa mergulhada na mentira. A vida de Jesus, o seu jeito de ser, de viver, de agir, de falar manifesta isso, descortina a nossa loucura, a nossa vida sem rumo e sem sentido. A vida cheia de Jesus, repleta de sentido, desvende o nosso vazio: existencial, moral, religioso. De fato, quantas pessoas que o mundo apresenta como heróis, na realidade não apresentam nenhuma proposta positiva? E também, quantas pessoas assim chamadas “religiosas”, não representam para nós uma proposta atraente?  Todo este vazio, este nada que o mundo tenta esconder com as suas artimanhas, perante Jesus aparece em toda a sua verdade, ou seja, em toda a sua miséria. Perante a pessoa de Jesus o mundo aparece como miserável e todos aqueles que estão mergulhados nas propostas mundanas aparecem como um monte de miseráveis, perdidos, sem futuro. É isso que doe e que ninguém quer escutar. Por isso logo que Jesus entra no mundo e se manifesta, provoca raiva. É a raiva do mundo.

 

Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se o expulsaram da cidade” (Lc 4, 28-29).

 

Jesus mexe com o alicerce do mundo, com aquilo que fundamenta e, ao mesmo tempo alimenta o mundo, ou seja, a ignorância. O mundo é ignorante, não conhece a verdade porque não conhece a Palavra de Deus. De fato, perante a postura dos judeus que questionavam as palavras de Jesus, ele cita dois trechos do Antigo Testamento que mostram a verdade da sua atitude. O mundo é ignorante e, sendo assim, vive na ignorância, na ausência de conhecimento. Uma pessoa que vive na ignorância não sabe distinguir a verdade da mentira. Desta forma, podemos afirmar que, as pessoas mundanas, vivem na ignorância.  O mundo é interessado a deixar as pessoas na ignorância, para que não vivam da verdade. O mundo egoísta e orgulhoso se alimenta de mentiras, não quer saber de caridade alguma.

 

A Caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa não se ensoberbece, não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor” (1 Cor, 13, 4-5).

 

São palavras de Paulo que ouvimos na segunda leitura de hoje: a caridade, que é Jesus, a sua vida, a sua maneira de ser é exatamente o contrario do egoísmo do mundo. Entre o mundo e Jesus não tem amizade: precisa escolher. Se na nossa vida estamos tentando amenizar a proposta de Jesus, querendo mostrar que a nossa vida mundana não tem nada a ver com a religião, é porque estamos totalmente mergulhados na mentira do mundo e, quem vive no mundo e do mundo, não, sabe de nada porque não enxerga a verdade.

O fato que sinto raiva de Jesus, não é totalmente negativo: é pior aquele que não sente nada. De fato, se as Palavras de Jesus doem dentro de mim, quer dizer que ainda estou sensível, ainda a verdade mexe comigo. Esta sensibilidade á Palavra de Jesus é o primeiro passo da conversão. Deve acontecer um dia que alguém me mostre a minha real situação espiritual. Se não tiver este encontro com a Verdade de uma forma que descortina de uma vez as minhas maracutaias, dificilmente conseguirei seguir Jesus.

 

3. “ Não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna Del ferro, num muro de bronze contra todo o mundo” (Jer 1, 17-18).

 

Tudo aquilo que aconteceu em Jesus, em virtude do seu Espírito que recebemos no Batismo, deve acontecer conosco. Quer dizer que como por Jesus, também por nós, a nossa existência deve se tornar tão transparente, tão santa da incomodar as pessoas, até os nossos amigos e parentes. Deus decidiu de salvar o mundo mandando o seu mesmo Filho para que tudo mundo pudesse ter a possibilidade de deparar com a Verdade. Jesus hoje é presente na sua Igreja, é presente nos cristão que se reconhecem pelo fato que incomodam, pelo fato que a vida deles é diferente. De fato a vida do cristão, não é baseada no egoísmo, no desejo de aparecer ou de querer sempre mais, mas, pelo contrario, um cristão, seguindo o exemplo de Jesus, deseja se doar, partilhar com os irmãos, deseja contribuir á realização do Reino de Deus, que é um reino de Justiça, de Paz e de fraternidade. Só que, logo que se esforça de viver isso com entusiasmo e dedicação, o mundo vai encima dele com tudo. É isso mesmo aconteceu também com o profeta Jeremias, cuja historia escutamos na primeira leitura. Perante a sua queixa por aquilo que estava acontecendo com ele, Deus não prometeu de amenizar o sofrimento, mas de fortalecer a sua vida, para que sentindo a presença de Deus, não recuasse de um passo perante a maldade do mundo, ma avançasse sem medo.

 

4. É isso mesmo que pedimos a Deus como fruto desta Eucaristia: de ficar firmes na nossa caminhada, também perante as dificuldades e as criticas do mundo, para sermos sinal de uma vida diferente, mais autentica e verdadeira. Pedimos a Deus que faça de nós não pessoas medrosas, inconsistentes, incapazes de levar em frente a sua proposta de amor, mas, pelo contrario pedimos que esta Eucaristia nos transforme para conseguirmos ser como Jeremias, “cidades fortificadas”, que ninguém poderá derrubar.  Seja, então, o Senhor a nossa única força.

 

Pe Paolo Cugini- Tapiramutá-BA

 

 

 

 

III° Domingo do tempo comum/C

 



(Ne 8, 2-6.8-10; Sal 19; 1 Cor 12, 12-30; Lc 1,1-4;4,14-21)

 

 

Paolo Cugini

 

1.Jesus voltou para a Galiléia com a força do Espírito e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam” (Lc 4,14).

 

No começo deste ano litúrgico a liturgia da Palavra está nos propondo os primeiros passos da ação evangelizadora de Jesus. E, assim, o encontramos hoje pregando nas sinagogas da Galiléia provocando a admiração do povo. Elogios que já de antemão sabemos que não surtiram nenhum efeito, mas, pelo contrario, provocaram a raiva dos fariseus e dos chefes religiosos do tempo. Isso para nós é já uma indicação importante: a Palavra de Deus que Jesus pronunciou, não serve para provocar a nossa admiração, mas a nossa conversão, a mudança das nossas atitudes humanas. Também porque a Palavra de Deus não tem como objetivo golpear os nossos sentidos carnais, mas a nossa alma.

É de fato, uma Palavra cuja essência não é aquela de ficar em superfície, mas, pelo contrario de “penetrar até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4, 12).

 A Palavra é vida, é a vida eterna por aqueles que a acolhem. É por isso que os fariseus procuravam matar Jesus: “porque a minha Palavra não penetrou em vós” (Jo 8, 37).

 Jesus é a luz verdadeira que ilumina todo homem, é a luz que brilha nas trevas, mas as trevas não a acolheram (Cf. Jo 1, 1-14).  Mais uma vez, não basta ficarmos entusiasmados para aquilo que sentimos numa celebração, num momento litúrgico, numa missa o numa outra experiência religiosa: aquilo que conta é abrir espaço para que Jesus entre na nossa vida. O objetivo de Jesus não é produzir uma empolgação nos ouvintes, mas o desejo de segui-lo, de mudar de vida. De fato o Evangelho de hoje encerra com este versículo deslumbrante:

 “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21).

 Jesus se apresenta como o cumprimento da Escritura, quer dizer que a Palavra de Deus não é uma letra morta, mas uma pessoa viva, um estilo de vida, um jeito de ser, de viver, de amar: a Palavra de Deus é o mesmo Jesus. É o seu estilo que deve penetrar dentro de nós, para moldar a nossa existência e assumir a forma de Cristo, a Palavra que se fez carne, que se manifestou e veio a morar no meio de nós.

 

2. O problema, então, é o seguinte: como isso pode acontecer? O que precisa para o homem, a mulher acolher a Palavra de Deus? Quais são as condições necessárias para que a Palavra de Deus não fique na superfície da nossa vida, mas penetre na nossa alma?

 

Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até o meio dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei” (Ne 8, 3).

 

São duas as características necessárias para a Palavra de Deus entrar na vida de uma pessoa: a possibilidade de compreender e a atenção.

Compreender, neste contexto, não se refere às capacidades humanas, a inteligência humana, mas ao desejo de entender o caminho de Deus, a sua vontade. Tarefa da Igreja, nessa altura, é criar as condições para que a leitura da Palavra possa ser compreendida. Jesus mesmo um dia falou que não podemos jogar as perolas aos porcos, ou seja, não podemos pregar a Palavra de Deus num contexto aonde o povo não está predisposto ao entendimento. Em segundo lugar, para que a Palavra de Deus penetre nas almas dos fieis, precisa de atenção, ou seja, do esforço de limpar a própria vida de qualquer coisa que possa atrapalhar o entendimento daquilo que estamos escutando. Uma pessoa que anda distraída não irá sem duvida nenhuma criar espaço na sua alma para a Palavra de Deus entrar.

3. Quais são os primeiros frutos da Palavra de Deus quando penetra na alma da pessoa?

Não fiquei tristes nem choreis, pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da lei... Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força” (Ne 8, 9.10).

 

Em primeiro lugar quando a Palavra encontra espaço na vida das pessoas, provoca o choro. A Palavra descortina as trevas, o amor de Deus desvende o ódio escondido na nossa alma, a gratidão de deus manifesta o nosso egoísmo. Não existe pessoa tão dura de coração que possa agüentar a verdade da Palavra de Deus. É o choro de Pedro na noite da morte de Jesus, quando o Mestre o olhou depois de Pedro ter renegado Jesus por três vezes. Aquele olhar fez Pedro desmoronar, sentiu o mesmo olhar de Deus dentro de si. Ou, também, o choro da mulher adultera aos pés de Jesus: ninguém agüenta a santidade de Deus. Este é o primeiro fruto da Luz que esbanja a Palavra de Deus: tomar consciência da tristeza da minha vida mergulhada no pecado. Só que não podemos apenas ficar chorando o tempo todo. É por isso que ao mesmo tempo A Palavra de Deus deve suscitar em nós o sorriso, a alegria. Deus, de fato, com Jesus, a Palavra viva, nos mostra uma saída, uma chance de uma vida nova, uma possibilidade concreta de viver buscando antes de tudo o Reino de Deus e a sua Justiça (Cf. Mt 6,22-32). Quem não vislumbra na Palavra um caminho diferente de vida, uma possibilidade de sair concretamente da multidão anônima para uma vida mais autentica, não chorou  ainda com sinceridade sobre a própria condição, ou seja, não tomou ainda claramente consciência da própria situação de pecado e de que forma este estrague a vida.

 

Que a Palavra de Deus possa ser a nossa verdadeira e única esperança.

 

 

Tapiramutá.                                                                                               Pe Paolo Cugini

 

 

 

 

II DOMINGO DO TEMPO COMUM/C

 



(Is 62, 1-5; Sal 96; 1Cor 12,4-11; Jo 2,1-11)

 

 

Paolo Cugini

 

1. Buscamos a gloria dos homens: é isso que, deste a infância, se torna a nossa maior preocupação.  E é também por isso que ficamos angustiados. Buscamos a gloria dos homens como manifestação do desejo de viver. E depois chega um dia em que percebemos que, para o mundo, não somos nada e nunca valeremos algo.  Também porque, para ser alguma coisa no mundo, tem que pagar um preço que nem tudo mundo é disposto a pagar. Agora ai vem a pergunta: pra que viver? Por que vale a pena viver se, depois da nossa morte, ninguém lembrará mais de nós? Talvez os filhos, os amigos mas, com a andança dos tempos, não é fácil arrumar um filho ou um amigo no qual confiar. Do outro lado a gente percebe que apesar destas descobertas, a vida deve ser, de uma qualquer forma, preenchida: não dá pra ficar o tempo todo, a vida toda parados, sem fazer nada. Mas, então, fazer o que? Cantar: pra que e pra quem? Escrever? Mesma resposta. Qualquer atividade humana realizada por nós humanos, necessita de um fim, um objetivo: se não for assim, parece que não tem graça. Além disso, este objetivo, esta meta deve ser daquela bem pesada. Isso vale também pelos relacionamentos: porque buscamos alguém? Porque uma festa não é boa se não arrumamos alguém? Precisamos de aprovação, de alguém que goste de nós, diversamente ficamos tristes, abatidos, perdidos. O homem, a mulher, parece um bicho super complicado.

 

2. “ E manifestou a sua gloria” (Jo 2,11).

Jesus procurava a gloria de Deus. Por isso em tudo aquilo que ele fazia, Deus era glorificado. No milagre que acabamos de escutar, Deus foi glorificado. Só que o evangelista nos alerta para olharmos além do dato material do milagre. Transformando a água em vinho Jesus quis dizer algo que está escondido ao entendimento humano. Para descobrirmos o sentido profundo deste milagre, precisamos sair de uma mentalidade materialista, para entendermos o sentido espiritual. Se Cristo revelou para nós o sentido da vida humana, então é pra ele que devemos olhar para vivermos uma vida mais autentica. Na nossa vida, como na vida de Jesus, deve manifestar-se a gloria de Deus e isso acontece quando a nossa humanidade é atingida pela graça de Deus. Qual é, então, o sentido desta transformação apontada pelo milagre?

O primeiro é a vida sacramental. Se a água aponta para o Batismo e o vinho para a Eucaristia, então de uma certa forma o Evangelho de hoje nos sugere que o Batismo que recebemos deve transformar-se em Eucaristia, ou seja em vida de gratidão, em ação de graça. Por isso são Paulo na segunda leitura nos revela que o único Espírito que recebemos deve produzir uma diversidade de carismas, de dons. A verdade do batismo que recebemos está no descobrimento da nossa identidade, da nossa vocação. Ninguém merece um batizado paradão, que vai à Igreja só para sentar de braços cruzados. O Espírito que recebemos nos sacramentos tem como objetivo de transformar a nossa vida, mostrando o sentido autentico da nossa identidade, apontando o motivo autentico da nossa existência. É por isso que participamos da Igreja, não com a mentalidade mundana que nos leva a querer algo em troca, mas com a mentalidade e o pensamento de Cristo que se doou por amor, gratuitamente.

Um segundo sentido do milagre narrado do evangelho o encontramos observando com atenção aquilo que aconteceu. Se a água transformada em vinho é símbolo da vida e, então da nossa humanidade, isso quer dizer que nascemos para sermos transformados. A nossa humanidade deve ser transformada pela graça de Deus, para realizar e se tornar conforme aquilo que foi pensada deste a eternidade, ou seja imagem de Deus. Uma humanidade que não se abre á ação santificadora de Deus, é destinada a ficar estragada pela ação do pecado. De fato, não precisa de muita inteligência para observar o que acontece com as pessoas que não buscam a Deus.

 

3. O sentido mais profundo do sinal que Jesus realizou no Evangelho de hoje o encontramos na primeira leitura. As finais de contas poderiam nos perguntar: como podemos saber que estamos deixando a graça de Deus transformar a nossa humanidade?

Poderíamos responder que este marco de Deus em nós é a inteligência que se concretiza na capacidade projetar.

”Serás chamada com um nome novo, que a boca do Senhor há de designar” (Is 62, 2).

 Quando Deus quer uma coisa, não a realiza em cima da hora, mas planeja por tempo o processo para alcançar o objetivo. Isso é bem visível na profecia de Isaias da primeira leitura. De fato, Isaias revela o projeto de Deus de fazer de Israel, que estava passando por um período ruim da própria historia, algo de novo, estava até querendo mudar o seu nome para evidenciar este projeto de uma forma contundente. Esta maneira criativa e inteligente de Deus entrar na historia, deveria ser a característica dos cristãos. Uma humanidade renovada pela ação do Espírito Santo entra na historia com inteligência, com criatividade, não assume um compromisso para abrir de mão no momento da dificuldade. Um cristão que se abre á ação do Espírito Santo aprende a enfrentar os problemas não em cima da hora, mas organizando o seu tempo, planejando as estratégias para que a tarefa assumida saia do papel. Toda vez que não levamos enfrente uma tarefa da Igreja ou de qualquer outra instituição é porque não estamos acreditando naquilo que estamos fazendo. A transformação da água em vinho quer dizer que a nossa vida tem sabor quando conseguimos realizar as tarefas que assumimos.

 

4. Cantai ao Senhor Deus um canto novo” (Sal 96)

Se for verdade que cada Eucaristia é um encontro misterioso com Cristo, então rezemos para que neste encontro de hoje, a sua humanidade toque e transforme a nossa, para uma vida com mais sabor e sentido.

 

 

Tapiramutá, 14.1.2007                                                                                   Pe Paolo Cugini