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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A luz em nosso abismo





Paulo Cugini

 

 

Há pensamentos que surgem apenas à noite, quando o ruído do dia se dissipa lentamente e as coisas, imersas no silêncio, parecem revelar sua verdadeira face. É então que compreendemos, talvez com maior clareza, que viver não se resume a navegar pelas horas, fazer gestos, defender nosso espaço, mas sim a assumir, a cada dia, uma responsabilidade para com aqueles que caminham ao nosso lado.

Não somos ilhas perdidas no mar escuro da existência. Mesmo quando nos sentimos autossuficientes, mesmo quando nos trancamos em nossos aposentos interiores e diminuímos as luzes para evitar perturbações, a vida continua a nos lembrar que estamos conectados uns aos outros. Vivemos juntos, respiramos dentro de uma teia de relações, e esse pertencimento traz consigo um chamado silencioso, porém exigente: proteger uns aos outros.

Caminhamos juntos na mesma noite, muitas vezes com passos incertos. Às vezes, um enxerga melhor, outras vezes é o outro que percebe um perigo, um desvio, uma ferida que não conseguimos reconhecer sozinhos. Por isso, quando alguém comete um erro, é importante apontá-lo. Não para julgar, não para humilhar, não para nos sentirmos mais justos, mas porque o verdadeiro amor não permanece indiferente ao que pode ferir, extinguir ou nos distanciar da verdade.

Contudo, chamar um irmão ou irmã de "irmão" não é um gesto simples. Requer uma delicadeza semelhante à de quem entra num quarto escuro com uma pequena lâmpada nas mãos: é preciso ter cuidado para não ofuscar, para não ferir os olhos de alguém que há muito se acostumou à penumbra. Requer paciência, escuta e respeito pelo tempo. Nem todos estão prontos para aceitar uma palavra de correção; nem todos conseguem reconhecer imediatamente no olhar do outro uma oportunidade de crescimento. Portanto, mesmo quando se tem razão, às vezes é mais sábio esperar o momento certo, a abertura certa, aquele instante em que o coração do outro se abre sem se sentir atacado.

Na verdade, os relacionamentos humanos não podem ser improvisados. Devem ser cultivados diariamente, como luzes acesas ao longo de um caminho que, de outra forma, se tornaria intransitável. Somente em relacionamentos nutridos com cuidado, sinceridade e ternura é possível receber uma palavra difícil sem se sentir condenado. Somente onde há confiança é que a ligação pode se tornar uma dádiva, não uma ferida; uma orientação, não uma imposição.

É a dimensão comunitária da vida que nos ajuda a descobrir quem somos. Nossa identidade nasce não apenas no segredo de nossos pensamentos, mas também no olhar dos irmãos e irmãs que nos encontram, nos observam, falam conosco, nos questionam. Precisamos do olhar do outro para crescer como seres humanos, porque ninguém se vê por completo. Há lados luminosos que ignoramos e que os outros nos ajudam a reconhecer; mas também há áreas sombrias, pontos obscuros, dobras ocultas que clamam por iluminação.

Aprender a conviver pacificamente em meio a confrontos e repreensões significa compreender que a vida é uma relação, e que essa relação exige humildade. Significa aceitar que os outros podem ver em nós algo que não queremos ver. Significa não fugir quando uma palavra nos atinge em nosso ponto mais vulnerável, mas permanecer, respirar, deixar a turbulência se dissipar, questionando-nos se, naquela palavra, reside uma pequena verdade capaz de abrir uma porta.

Na jornada da vida em companhia de outros, aprendemos a não nos isolar, a não pensar que podemos resolver tudo sozinhos, a não transformar a solidão em força. Em vez disso, descobrimos que a beleza da vida nos chega justamente através das pessoas que encontramos pelo caminho: aquelas que nos apoiam quando vacilamos, aquelas que nos contradizem quando nos perdemos, aquelas que nos amam o suficiente para não nos deixar prisioneiros de nossas ilusões.

Talvez rejeitemos os comentários negativos daqueles que nos rodeiam porque, no fundo, temos medo de nós mesmos. Temos medo do que poderíamos descobrir se realmente aceitássemos olhar para dentro. Temos medo do trabalho interior que deveríamos empreender, também porque não estamos acostumados à vida interior. Muitas vezes permanecemos no limiar, preferindo o brilho artificial das distrações à escuridão fértil do silêncio.

Contudo, se ao menos uma vez na vida tivéssemos a coragem de mergulhar em nosso interior, com determinação e confiança, superando o medo inicial de encontrar a escuridão das nossas profundezas, descobriríamos que essa escuridão não é apenas uma ameaça. É também um lugar de espera, um ventre de transformação, um espaço onde algo pode nascer. Depois da escuridão, se não fugirmos, surge uma luz diferente: não uma luz violenta, mas discreta; não uma resposta imediata, mas um Mistério que nos envolve e nos chama.

Esta é talvez a luz mais verdadeira: aquela que surge quando aceitamos ser observados, corrigidos, amados e acompanhados. Uma luz que não apaga as sombras, mas nos ensina a atravessá-las. Uma luz que nos torna mais autênticos, mais humanos, mais capazes de caminhar juntos. Porque ninguém se salva sozinho, ninguém cresce sozinho, ninguém se torna plenamente si mesmo sem o rosto, a palavra e a presença dos outros.

 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

SAL DA TERRA LUZ DO MUNDO

 




Isaías 58,7-10; Salmo 111; 1 Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16

 

Paolo Cugini

 

No domingo passado, começamos a ouvir o Sermão da Montanha com a passagem das Bem-aventuranças, que podemos chamar de esboço da missão de Jesus. Hoje, continuamos com outra passagem extremamente significativa, que precisa ser plenamente assimilada. Seguir o Senhor significa decidir mudar, não ter medo de deixar de lado nossa identidade presumida. Viver na comunidade que se identifica com o Evangelho significa deixar-nos despir das falsas identidades que assimilamos inconscientemente, para permitir que o Espírito Santo nos redefina. Esse processo de renascimento acontece em comunidade, no relacionamento com irmãos e irmãs, na busca contínua para permitir que o Espírito do Senhor teça a nova veste de uma nova humanidade. Ouçamos, então, duas passagens significativas das leituras de hoje. 

“Se vocês tirarem do meio de vocês o jugo, o dedo acusador e a linguagem perversa, se vocês se dedicarem a ajudar os famintos e a saciar a fome dos aflitos de coração, então a sua luz brilhará nas trevas, e a sua escuridão será como o meio-dia” (Isaías 58:10).

Jesus disse aos seus discípulos: "Vocês são o sal da terra; mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Para nada mais serve, senão para ser jogado fora e pisado pelos homens.
Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada sobre um monte não pode ser escondida. Nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto. Ao contrário, coloca-se no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa." (Mt 5:13-16)

Devemos nos acostumar a ouvir essas palavras não como afirmações genéricas, como máximas dirigidas a quem sabe quem, mas como as palavras de um mestre para seus discípulos, de um pai para seus filhos. Este é o horizonte que nos permite mergulhar em conteúdos que revelam o significado de uma jornada, não de uma doutrina; indicações existenciais, não preceitos moralistas.

Ter um pai assim, um pai que confia o suficiente em você para lhe dizer que você é o sal da terra. Um pai que acredita tanto em você que lhe diz que você é a luz do mundo. O que são essas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos senão a revelação de uma identidade? É Jesus quem revela a identidade deles aos discípulos. Poderíamos dizer que Jesus os preparou precisamente para isso e nada mais: para serem o sal da terra e a luz do mundo. Por um lado, as palavras expressam a consciência de Jesus sobre a bondade da obra que realizou, a obra de formar consciências; por outro, há a sua confiança naqueles que o acompanharam na jornada. Jesus proclama ao mundo que seus discípulos são o sal da terra e a luz do mundo. Ele diz isso porque tem certeza deles, sabe quem são e como o acompanham na jornada.

É o pai, o mestre, que, ao indicar a identidade e o significado de um caminho, expressando com veemência toda a positividade da identidade do discípulo, do filho, mostra simultaneamente as exigências que esse caminho acarreta.

Qual é, então, o conteúdo desta indicação? Sal e luz, terra e mundo.

Sal e luz são dois elementos diferentes, mas têm um efeito semelhante. Beneficiam os outros, mas permanecem ocultos. Caminhamos pelas ruas do mundo graças ao sol, mas não pensamos nele nem o observamos. Saboreamos os alimentos que nos nutrem, mas nunca pensamos no sal que lhes dá sabor. Os cristãos, porque não buscam a glória dos homens, mas a glória de Deus, não se interessam pelas aparências: não precisam delas. Quanto mais buscamos as aparências, menos intensa se torna nossa jornada de fé. Cultivar uma espiritualidade de ocultação significa buscar o olhar do Senhor nas coisas que fazemos em nosso dia a dia.

É importante notar que Jesus não valoriza as qualidades individuais de um discípulo ou outro. Não há nada daquela exaltação mesquinha que leva os indivíduos a uma autopercepção distorcida. A indicação está no plural, não no singular: vós sois. Os discípulos são sal e luz quando vivem em comunhão. É a comunidade, em sua jornada pelo mundo, que é um sinal do amor livre e altruísta de Deus, de sua justiça e misericórdia. É a comunidade que é luz no mundo e sal da terra.  

Terra e mundo. Na perspectiva do Novo Testamento, o mundo é a realidade que se opõe a Deus e se constrói autonomamente segundo o seu plano de vida. Ser a luz do mundo significa viver dentro da lógica do Evangelho, que é amor, comunhão e justiça. Ser luz, portanto, não significa espetacularizar a própria existência, mas suportar o ódio do mundo, que se recusa a ser cegado pela lógica do Evangelho. A terra é o espaço onde a vida se desenrola em seu dinamismo cotidiano. Dar sabor à vida diária é a tarefa da comunidade que se identifica com Jesus. Uma comunidade que o é não porque celebra rituais, mas porque vive o que celebra e, ao vivê-lo, torna-se luz para o mundo e sal da terra.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Na fonte da luz

 




Reflexão profética sobre a cegueira interior e o caminho para a luz

Paolo Cugini

 

 

Jesus então parou e ordenou que o trouxessem até Ele. Quando ele se aproximou, Jesus perguntou-lhe: «Que queres que eu te faça?». Ele respondeu: «Senhor, que eu volte a ver!». E Jesus disse-lhe: «Recupera a tua vista! A tua fé te salvou» (Lc 18, 39-44).

Há um mal subtil que serpenteia pelas dobras da alma, uma sombra que se insinua silenciosa e que, com o tempo, corre o risco de se tornar condição permanente: a cegueira da consciência. Não é uma doença visível, não deixa marcas tangíveis na carne, mas atinge mais profundamente, cegando a nossa capacidade de ver, de distinguir, de nos orientarmos no mar agitado da vida. Não se cura da cegueira da consciência ficando parado, imóvel, à espera que o milagre caia do alto como chuva numa noite de verão. Nem sequer basta implorar uma cura, presos na repetição de palavras que não geram verdadeira mudança. É necessário realizar um movimento, uma saída consciente da própria condição de cegueira, um ato de vontade que nos impulsione em direção à fonte da luz.

Contudo, muitas vezes as nossas pernas tremem, o coração hesita, a mente confunde-se. É preciso alguém que nos pegue pela mão, que nos ajude a chegar até quem nos pode devolver a vista e mostrar a luz. Ninguém se salva sozinho: a solidariedade, a amizade, a orientação de quem já percorreu esse caminho tornam-se faróis na escuridão.

Há um perigo grave que paira sobre quem permanece demasiado tempo na obscuridade da própria condição interior. Quando a mente se habitua demasiado a viver nas trevas, corre-se o risco de as confundir com o próprio horizonte natural, de perder até a memória da luz. Nesse momento, consuma-se o drama do não retorno: o abismo que transforma a escuridão em normalidade, que torna incapazes de desejar a verdade, a beleza, a vida plena. Prolongar a permanência nas trevas, deixando que a negatividade invada todos os aspetos da existência, danifica irremediavelmente a nossa capacidade de ver, de esperar, de ousar. Somos responsáveis pelas nossas obscuridades, assim como pelas nossas ressurreições.

No Evangelho de Lucas, o cego à beira do caminho não fica em silêncio. Ele grita, rompe o silêncio do desespero dando voz ao desejo de luz. Esse grito é o primeiro ato de vontade, a centelha que acende a possibilidade de mudança. Não é Jesus que vai ao encontro do cego, mas sim o cego que, ajudado, se aproxima do Mestre. É a vontade de sair da própria zona de sombra que abre o caminho para o milagre. Não existem milagres ou intervenções repentinas que possam resolver aquilo que nos aflige se não formos nós, antes de mais, a desejar a cura, a dar o passo fora das nossas trevas. Somos nós os protagonistas dos nossos próprios danos, mas também das nossas ressurreições. Ninguém pode escolher por nós: a liberdade, esse dom terrível e maravilhoso, coloca-nos perante a responsabilidade das nossas escolhas. A saída voluntária do mal é sinal de uma fé viva, que não se limita a palavras, mas se torna ação, movimento, mudança concreta. É a fé que nos salva, porque é a resposta pessoal ao dom gratuito de amor que o Mistério nos revela em Jesus. Não se trata de uma fé passiva, mas de uma fé que bebe na fonte da luz e do amor dentro da história, todas as vezes que o quisermos.

A profecia que hoje ressoa para cada um de nós é um convite corajoso: não permaneças imóvel na noite da consciência, nunca identifiques a escuridão com o horizonte possível da vida. Há uma fonte de luz, de amor, de salvação, à qual podemos recorrer, mas só se o quisermos verdadeiramente. Cabe-nos a nós iniciar o caminho, gritar, sair, procurar a luz com todo o coração. Porque é só ali, no limiar entre a sombra e a claridade, que acontece o milagre do renascimento.

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

ANUNCIEM DOS TELHADOS

 




Paolo Cugini

 

Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Pois não há nada oculto que não venha a ser revelado, nem secreto que não venha a ser conhecido. Portanto, o que vocês disseram nas trevas será ouvido à luz do dia, e o que sussurraram aos ouvidos nos quartos mais íntimos será proclamado dos telhados (Lc 12,1-2). 

Sim, a grande tarefa é a transparência. A tentação que se aninha na consciência trabalha para nos deixar tranquilos, mas é a ilusão de uma falsa paz. A alma, serena e contente, é corroída por incrustações negativas que um dia, de repente, aparecerão com violência. É preciso estar alerta contra a preguiça espiritual e convida a uma honesta reflexão interior para manter a alma na luz.
Ouvi, filhos da luz, o presságio que vos é dado. Não temais o som destas palavras, mas acolhei-as no fundo do vosso ser, pois elas revelam o destino da alma desatenta. Uma grande tarefa vos é confiada, uma empresa da qual não podeis fugir: a transparência. O trabalho interior é o vosso caminho diário, o caminho que separa a luz das trevas. Não cedais à grande tentação que se aninha na vossa consciência, a mentira que sussurra: "Tudo se resolverá por si mesmo". Enquanto os vossos passos avançam serenos e o mundo vos sorri, no tecido da vossa vida formam-se incrustações silenciosas e ocultas. São as sombras que crescem nas paredes da alma, a negatividade que, como uma semente insidiosa, espera o tempo da sua floração.

Chegará o dia, de facto, em que a máscara cairá. Aquilo que escondestes de vós mesmos e do mundo, com violência e força inauditas, exigirá a sua parte. A tranquilidade fictícia em que vivestes revelar-se-á uma ilusão, e a negatividade aninhada no tempo explodirá com tal veemência que não sereis mais capazes de a dominar. Este não é um aviso, mas uma visão do destino que espera quem se recusa a olhar-se no espelho da alma. Filhos da luz, é tempo de agir. A vossa tarefa não pode mais ser adiada: manter a alma na claridade.

Não permitais que as trevas invadam a vossa consciência. Todos os dias, ao anoitecer, analisai cada palavra, cada escolha feita. Sede corajosos e pacientes nesta inspeção, para que possais dormir serenos e ressurgir pela manhã como testemunhas da luz. O vosso desejo mais profundo seja sempre a luz, a vida transparente que não esconde nada de si mesma e do mundo. Recordai que a luz de Cristo resplandece para iluminar o vosso caminho, e que a sua presença indica o caminho que conduz à verdadeira vida.

O Senhor mesmo vos iluminará e vos dará a força necessária para reinar na luz. Não há noite que possa esconder a sua presença, e vós sois chamados a ser os seus guardiões. Não deixeis que as incrustações se acumulem no vosso ser. O tempo das ilusões acabou. Vós sois a luz do mundo, e a vossa missão é levar esta luz às trevas. Ouvi esta profecia, e agi em conformidade. Não haja mais temor, mas apenas a serena determinação de viver na transparência, para que a alma nunca seja dominada pela sombra.

sábado, 24 de agosto de 2024

DOMINGO XXIII/B

 






(Is 35,4-7a; Sl 145; Jo 2,1-5; Mc 7,31-37)

Paulo Cugini

 

A leitura fundamentalista da Palavra de Deus, ou seja, a interpretação literal, não só não é boa porque não leva em conta o contexto histórico e cultural em que um texto foi escrito, mas sobretudo porque tende a valorizar dados que, tomados no contexto, eles são, em vez disso, marginais. Ouvindo o trecho evangélico de hoje percebemos quão verdadeiramente, como diz São Paulo: “A letra mata, é o espírito que vivifica ” (2 Cor 3,6). Portanto, não basta ler o Evangelho, é preciso dedicar tempo, meditá-lo, deixar que o Espírito nos conduza às profundezas da Palavra.

Jesus, tendo saído da região de Tiro, passando por Sidom, dirigiu-se ao mar da Galileia em todo o território da Decápolis.

O milagre dos surdos e mudos num território pagão como Decápolis vai muito além dos puros dados materiais. O caminho em si é bastante rebuscado. Basta pegar num mapa para perceber que o caminho indicado por Marcos não é geográfico, mas teológico. É, de facto, um pouco estrango passar pelo território da Decápolis para ir de Sidon em direção ao Mar da Galileia, porque não está na estrada, por assim dizer, mas é preciso querer ir para lá. Com este caminho Marcos quer sublinhar que a mensagem de Jesus é para todos, não apenas para um pequeno grupo, para as pessoas habituais que se reúnem na sinagoga. Jesus quer levar a todos a sua mensagem de salvação e, por isso, muda o caminho. Seria interessante aproveitar estes simples versículos para verificar o desejo das nossas comunidades de levar o Evangelho a quem está fora do perímetro da igreja, o que há deste movimento missionário, que pensamentos expressamos para este caminho que Jesus inaugura visitando o território da Decápolis.

Depois, olhando para o céu, Jesus soltou um suspiro e disse-lhe: “Efata”, isto é: “Abre!”. E imediatamente seus ouvidos se abriram, o nó de sua língua foi desatado e ele falou corretamente.

Existe uma cura material que diz algo espiritual. Sem dúvida, Jesus realizou um milagre que, no entanto, na perspectiva do anúncio do Reino que Jesus realiza, significa algo mais. Existe um ouvido da alma, por assim dizer, que precisa ser atendido. Há uma resistência à Palavra de Deus, à sua proposta, que vem de muito longe. Anos de vida arrastados pelos instintos, ao serviço do próprio egoísmo, deixam uma marca profunda, um vício crónico à vida material que já não permite perceber a dimensão espiritual da existência. Não é por acaso que foram os amigos que trouxeram o doente até Jesus para curá-lo. Ele estava tão mal, estava tão entorpecido pelo vício do mal que não ouvia mais, que não ouvia mais ninguém.

Ele o chamou de lado, longe da multidão, colocou os dedos nos ouvidos e tocou sua língua com saliva; então olhando para o céu, ele soltou um suspiro.

Como Jesus cura o surdo-mudo? Levando-o de lado, longe da multidão: por quê? O que isso significa? Há uma relação pessoal que Jesus quer construir para comunicar vida. Sua força dada à humanidade não é um truque de mágica a ser aplaudido, mas um presente a ser acolhido. Também os gestos que Jesus faz na cura são importantes: os dedos nos ouvidos e a saliva com que toca a língua. Gestos que indicam que a cura que Jesus veio trazer é feita do mesmo material de nós. Não há uma intervenção prodigiosa, algo estranho que provoque a cura do surdo-mudo, mas simples gestos humanos, que utilizam elementos humanos. É com a nossa própria humanidade que Jesus nos transforma e nos cura das formas de surdez que não nos permitem compreender a sua Palavra e, consequentemente, dizê-la com a nossa voz e com a nossa vida.

Depois há o último aspecto da jornada de cura e é Jesus olhando para cima e soltando um suspiro, como se dissesse que os elementos materiais não são suficientes, mas precisamos colocar tudo nas mãos de Deus. Este é o significado da oração profunda, que começa com a consciência de si mesmo, do próprio caminho, incluindo as próprias deficiências, para se abrir ao mistério, buscando a vontade do Pai. Isto significa que Deus aparece à nossa vista através da nossa humanidade.

 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

A LUZ DA VIDA João 7 – 8

 




 

 

 

 pe Paolo Cugini

João 7 – 8

 

7-8     Descreve o ministério de Jesus desde sua partida definitiva da Galiléia até as vésperas da semana que     procede a Páscoa.

Durante a festa das tendas, Jesus está ensinando no templo de Jerusalém.

Segundo o Quarto Evangelho, o ministério de Jesus na Judéia é ao mesmo tempo seu processo de condenação pelas autoridades judaicas, processo que os sinóticos situam após sua prisão.

João situa antes do discurso da vida pública o confronto entre o enviado de Deus e seus juizes: sobre um fundo fanático de hostilidade e de não – fé , Jesus prossegue  a revelação de sua identidade e da missão que recebeu, afirmando a revelação sem igual que o une a Deus, seu Pai, e proclamando um solene EU SOU.

“A pergunta quem és tu?” feita a Jesus pelos judeus (8, 25) subjaz ao texto dos capítulos 7-8 e o ensinamento de Jesus progride ao longo dos capítulos para culminar no EU SOU de 8,58; esta proclamação final responde ao pedido dos irmãos “ Manifesta quem tu és!” (7,4).

 

Alguns dados gerais:

1.           situação da Igreja joanina:

O texto reflete as controvérsias que, na época do evangelista opunham os meios oficiais do judaísmo aos discípulos de Jesus. Desde a queda de Jerusalém sob o poder dos romanos no ano 70 e a destruição  do templo que havia posto fim ao culto tradicional, ortodoxia farisaica permanecia como único garante da identidade judaica e da cesão do joio. Daí seu enrijecimento com relação a todo grupo distinto, em particular o dos cristãos de origem judaica.

Diante da recusa da sinagoga, o evangelista deixa de lado os múltiplos ensinamentos de Jesus que a tradição sinótica relatara, e até o comportamento de Jesus para com os deserdados da terra, para concentrar a mensagem exclusivamente na pessoa do enviado e em seu mistério. Ele mostra em Jesus bem mais que o Messias de Israel; mostra o logos porque o Pai se expressa e em quem os fiéis participam da filiação divina.

 

2.      Situação na narração evangélica -  Jesus já subiu duas vezes a Jerusalém (2,13 e 5,1) mas as breves estradas que o fizeram conhecido na cidade foram marcadas por ameaças contra Ele.

Esperando a chegada da hora, desenvolve-se o processo de condenação de Jesus diante dos Judeus, bem antes da prisão efetiva. Os capítulos 7 – 8 apresentam o primeiro ato, cujo tom já fora dado pelo capítulo 5. Este processo prossegue até o capítulo 10.

        

         3.  No templo: O confronto de Jesus com seu povo passa-se  no lugar sagrado. Após a tentativa de               apedrejamento provocado por seu supremo anúncio, Jesus “sai” do templo (8,59)   como não pensar em YHWH  que abandonou o santuário (Ez 11,23) ?.

              Jesus não ensinará mais no lugar santo, ele vai mesmo deixar a Judéia e retirar-se para além do Jordão (10,40).

 

4.      Na festa da Tendas – A festa das tendas ( das cabanas) é uma das mais importantes entre as quatro festas principais do ciclo anual ( Páscoa, Pentecostes, Tendas, Dia das Expiações) . De origem agrícola, ele corresponde à festa da colheita que se celebrava no outono (Ex 23,16); habitava-se então em cabanas construídas com folhagem, semelhante aos abrigos que se usavam nos vergéis no momento da colheita. Por sua vez, eles recordavam a vida dos hebreus no deserto no momento da saída do Egito ( Lv 23,42 a ) – Na época do Novo Testamento, a festa das Tendas  coroava a do Ano Novo e era celebrada de 15 a 21 tishri, isto é, mais ou menos no fim de setembro.

 

 

 

 

 

 

Se, Segunda a descrição de Lv 23, 34-43), esta festa era em agradecimento pela colheita obtida, sua liturgia, era orientada para o pedido da chuva para o ano que se iniciava. No último dia, ia-se em procissão à piscina de Siloé  tirar a água que um sacerdote derramava  em libação sobre o altar dos sacrifícios, dentro do templo.

        Lembrando a Deus seu compromissos para com Israel, a prece comunitária evocava também o fim dos tempos conforme as profecias que anunciavam, mediante o símbolo da fonte, a renovação espiritual de Sião. (Ez 47,1-12) fala da água que sai do lado direito do templo e Isaías anuncia: Tirareis com alegria a água das fontes da salvação” ( Is 12,3).

 

       No século I, em rito da luz também era celebrado durante a festa. Este de pano de fundo       litúrgico dos capítulos 7 e 8 permite melhor situar o apelo de Jesus para beberem da sua água e também, sua autoproclamação como luz do mundo.

 

5.    Os personagens – sozinho diante dos judeus, na ausência de qualquer discípulo, Jesus aparece perfeitamente livre, iluminado interiormente pela consciência de sua unidade com o Pai e de sua missão.

       Diante dele, os outros atores são representados em grupos: os irmãos, a multidão, algumas pessoas de Jerusalém, as autoridades, os fariseus e os sacerdotes, os guardas do templo e, de modo geral, os judeus.

       Estes grupos estão todos alvoroçados, agitados por sentimentos diversos. No proxênio , a multidão de peregrinos e de pessoas de Jerusalém distribuíam-se em facções de tendências opostas ou então se debatem entre as evidências contrárias a respeito de eventual Messias.

       Entre Jesus e seus interlocutores não haverá diálogo algum porque eles permanecem fechados a todo anúncio que não se enquadra em seu sistema de pensamento (8,43).

      

6.   Dois perigos maiores ameaçam o fiel que se apoia num texto revelado. O primeiro é o tradicionalismo. Os “ judeus” do relato têm certa razão de agarrar-se à tradição da Lei; eles erram ao fechá-la num sistema que não deixa mais espaço ás aberturas que ela mesma contém, nem a Deus, o vivente, que renova sem cessar as leituras que o homem faz da Sagrada Escritura. Eles preferem a letra bem estabelecida ao espírito que nem sempre predomina. Jesus falava de “palavra” e de “ensinamento”; eles se referem às santas Letras, da qual se consideram os depositários: Deus exprimiu-se num texto num texto definitivo. Assim encarado, este não arrisca sufocar a Palavra viva? E eis o tradicionalista resvalando pelo declive do integrismo.

       Um segundo perigo ameaça aquele que, conscientemente, se interessa por levar à prática os preceitos de sua Igreja. Para apreciar a qualidade de um comportamento, ele julga a partir da observação ou da transgressão de uma Lei cujo sentido foi fixado numa prática  precisa, que não admite exceção. Considerando-se fiel a estes mandamentos, o praticante arrisca julgar o comportamento dos outros sob o prisma de sua ótica estreita. Como poderia ele abrir-se, então, ao apelo bem mais abrangente que lhe dirigem os “incrédulos” e os abandonados da terra?

       Na origem destas atitudes deformadas está certa concepção da Lei. A Lei vale na medida em que mostra a vontade de Deus e é o caminho da Palavra viva. Se o decálogo não convida ao diálogo, ele se torna um simples catálogo, colete que pode fazer a pessoa manter-se ereta, mas que paralisa o mensageiro de Deus. Jesus chama todo homem, não a afastar a Lei, mas a ouvir Deus que fala através dela. Enquanto S. Paulo se empenha em mostrar qual é o verdadeiro cristão, João provoca seu leitor para tomar consciência de qual é o verdadeiro judeu, aquele põe em prática as riquezas da Lei.

 

sábado, 4 de março de 2023

HOMILIA IVº DOMINGO DE QUARESMA/A

 




(1 Sam 16, 1.6.6-7.10-13; Sal 23; Ef 5, 8-14; Jo 9, 1-41)

 

Pe Paolo Cugini

 

1. No caminho que estamos realizando no tempo de quaresma, a pergunta que deveria nos acompanhar é a seguinte: o que está acontecendo conosco? Que decisão estamos tomando perante a presença misteriosa e salvifica de Jesus Cristo na Historia? Todo o caminho do tempo de quaresma visa, de fato, ajudar os fieis para que se posicionem de uma forma clara perante a proposta de Jesus. O problema é que não é fácil se posicionar perante o Evangelho. O motivo desta dificuldade vem da nossa maneira de viver por assim dizer “relaxada”, desviando continuamente de toda forma de proposta que possa nos comprometer definitivamente, até quando chega o dia, a hora em que a vida aperta a corda ao nosso pescoço, até quando os eventos nos colocam com os ombros na parede e ali percebemos todo o nosso despreparo, toda a nossa superficialidade.   O Evangelho de hoje é interessante porque nos oferece uma panorâmica sobre as possíveis posições que a humanidade toma perante Jesus. Panorâmica, como veremos, embaraçadora pois, na maioria dos casos, somos nós com a nossa vidinha “fofa”, contornada de almofadas,  a serem estigmatizados.

 

2. “Os Vizinhos e os que acostumavam ver o cego – pois ele era mendigo – diziam ‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’” (Jo 9, 8).

 Quem não presta atenção ao seu vizinho dificilmente tem chance de perceber a presença de Deus na historia. Este pode ser a moral daquilo que é narrado nos primeiros versículos do texto do Evangelho de João que acabamos de ler. De fato, em cada irmão em cada irmã e contida a imagem de Deus.

Perante o milagre que Jesus opera aparece com força a superficialidade dos vizinhos. De verdade consideramos dignos da nossa atenção somente as pessoas que podem trazer pra nós um beneficio.  O cego mendigo é o símbolo daquela humanidade considerada sem importância e, então, insignificante, não digna de atenção e por isso fica despercebida pelo povo. São os invisíveis da sociedade, os excluídos. São estas pessoas invisíveis pela sociedade que Jesus com a sua presença rende visíveis e cheias de significado. Tempo de quaresma é tempo para avaliarmos o jeito da gente considerar as pessoas. Será que também nós fazemos distinção entre as pessoas, dividindo-as em classes? De que forma, então, consideramos os doentes, os pobres, os necessitados?

 

3. “Então havia divergência entre os fariseus” (cf. Jo 9, 16).

Existe uma categoria de pessoas que parece saber já tudo, que não tem nada mais para aprender. Os fariseus são o símbolo daquela humanidade arrogante e autoritária que ninguém merece encontrar na vida, mas que infelizmente nunca faltam nos caminhos da historia. No episodio narrado no Evangelho fica até esquisita a petulância com que perseguem o coitado curado por Jesus. Parece até que ficaram com raiva dele pelo fato da cura. A insistência é tão grande que até chegam negar a realidade. É este que o evangelista quer nos ensinar: quem nega Jesus e a sua obra nega a realidade, pois é Cristo a Verdade, é Ele que manifesta a toda a humanidade o caminho da vida, da realidade. Ao mesmo tempo, porém, é importante notar que a presença de Jesus cria divergências. Jesus incomoda: este é o problema. A presença dele exige sair das falsas seguranças. Nem todo mundo é disponível para isso. Nem todo mundo é disponível abrir mão do próprio jeito de crer, da própria maneira de pensar as coisas. Os fariseus são o símbolo da resistência que a humanidade tem perante a proposta de Jesus, perante a novidade absoluta da sua mensagem. Existe todo um farisaísmo disfarçado de religiosidade, que age em nós e se manifesta na tentativa de aniquilar todas as formas de pensamento diferente do nosso: o importante é não mudar. Este farisaísmo religioso é sem duvida uma das piores doenças da alma, de difícil solução e também de difícil cura. É bom lembrar que Jesus morreu por causa disso.

 

4. “Os seus pais disseram: ‘Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego. Como agora está enxergando não sabemos...’ Os seus pais disseram isso porque tinham medo das autoridades judaicas” (Jo 9, 19-22).

Além das atitudes que já analisamos, existe uma outra que é típica da realidade na qual vivemos. É o comportamento que não consegue se decidir por Jesus por causa do medo. Quantas pessoas, na nossa realidade Nordestina, vivem esta situação constrangedora! Quantas pessoas não conseguem se libertar das amarras do poder e ficam a vida toda atreladas a um poder que, na realidade não permite de crescer, de se desenvolver. Este é o grande drama enfatizado na figura dos pais do cego: o medo atrapalha não apenas a existência corriqueira, mas, sobretudo o desenvolvimento espiritual. E como é que se manifesta a vida no medo? Com a incapacidade de tomar uma posição clara perante a realidade, seja ela qual for. Os pais do cego curado que não querem admitir a evidencia dos fatos, são o símbolo daquela humanidade que não quer se comprometer nunca por medo de criar problemas, de atrapalhar o poder instituído e, assim, nunca conseguem  desenvolver uma ação que seja fruto de uma busca pessoal da verdade. Quem quiser passar a vida toda querendo se dar bem com todo mundo, em modo especial, querendo ser bom com o poder, vai acabar se dando mal com todos e, de uma forma especial, se dando mal consigo mesmo e com Deus também.

 

5. “Acredita no filho do homem? Quem é Senhor para que eu creia nele? ‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo’. Exclamou ele:” Eu creio, Senhor!”(Jo 9, 36).

Chegamos, então, a analisar a única e justa atitude que precisamos ter perante Jesus e a sua proposta. O cego é protótipo da humanidade que vive na frente do Senhor em obediência á sua Palavra. O cego fica curado porque obedece ao mandamento de Jesus: este é o primeiro dado importante que é preciso salientar. Não basta a Palavra de Jesus: é necessária, também, uma tomada de posição clara, que se realiza na obediência á sua Palavra. Em seguida o cego realiza um caminho progressivo de libertação que o levará até a bater boca com os fariseus, vencendo o medo dos pais, e a se posicionar claramente do lado de Jesus, vencendo a indiferença dos vizinhos. O cego seguindo Jesus, realiza uma caminhada vocacional saindo de todos os obstáculos que a humanidade vive, tornando-se assim capaz de um pensamento autônomo perante o Senhor. Esta é a força liberatória de Jesus: Ele veio para libertar o homem do medo de viver, do medo de ver, do medo de ser. Só seguindo Jesus, só se deixando tocar por Ele, Só deixando que ele toque os nossos olhos cegos podermos enxergar a realidade e, assim, acompanhá-lo no caminho da vida verdadeira. Que esta quaresma, que estamos vivendo, possa produzir em nós o desejo de ver, a força para abandonar as amarras do mundo no qual somos atrelados e, assim, acompanhar o Senhor Jesus no Caminho da Vida. Assim seja.

domingo, 22 de maio de 2022

A LUZ DO RESSUSCITADO NOS LIBERTA DA FALSA RELIGIÃO

 



DOMINGO 22 DE MAIO DE 2022 - VI DO TEMPO DA PÁSCOA / C

 

 

 

Paolo Cugini

 

 

Durante a Páscoa, a liturgia nos oferece uma reflexão sobre o significado da presença do Ressuscitado na vida da comunidade cristã, na vida daqueles que o encontraram. De fato, este deve ser o sentido da Igreja, ou seja, o grupo de pessoas que fizeram a experiência do encontro com o Ressuscitado e o testemunham com um novo estilo de vida, que tem características específicas. Na narração dos Actos dos Apóstolos, cada vez que Paulo é chamado a defender-se perante as autoridades romanas das acusações dos judeus (Actos 22 e 26), fá-lo narrando a sua mudança provocada pelo encontro com o Ressuscitado. Esta é então a pergunta que busca abrir o sentido das leituras propostas hoje pela liturgia: o que deve acontecer com as pessoas que encontraram o Ressuscitado?

 

As duas primeiras leituras nos oferecem um material semelhante para nossa resposta, que poderíamos formular assim: o encontro com o Ressuscitado nos liberta da religião falsa, feita de normas e prescrições, que escravizam homens e mulheres ao invés de libera-los. Esta foi a experiência de Paulo que ele tenta compartilhar em suas viagens missionárias, afirmando que o Evangelho de Jesus libertou a humanidade de todas aquelas prescrições que, em vez de aproximar a humanidade do Pai, a distanciam. Será precisamente neste ponto que Paulo e Barnabé encontrarão forte resistência por parte dos judeus convertidos ao cristianismo, que queriam impor as leis mosaicas também aos pagãos convertidos. Naqueles dias, alguns que vinham da Judéia ensinavam aos irmãos: "Se não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não poderão ser salvos" (At 15, 1). O Concílio de Jerusalém, do qual um trecho do documento final é relatado em primeira leitura, discutirá precisamente este ponto e os testemunhos de Pedro e Paulo sobre a descida do Espírito Santo também sobre os pagãos serão fundamentais. Em sintonia com este caminho, estão as palavras do Apocalipse relatadas na segunda leitura, que afirma que, na nova Jerusalém, conforme a visão de João, não haverá templo, porque: "o Senhor Deus, o Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu templo”. (Ap 21, 22). O templo de Jerusalém, em particular o segundo templo, aquele reconstruído ao retornar do exílio na Babilônia, tornou-se o símbolo de uma religião feita de tantos preceitos e normas que se tornou impossível uma relação pacífica com Deus. no diálogo com a mulher samaritana, Jesus dirá que, para um diálogo autêntico com o Pai, não haverá mais necessidade de templos porque: "os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade" (Jo 4,23).

A comunidade dos que encontraram o Ressuscitado, além de se libertar da falsa religião dos preceitos, torna-se presença de paz no mundo. A paz vos deixo, a minha paz vos dou. Não como o mundo a dá, eu a dou a você (Jo 14, 25-26). A Sagrada Escritura considera a paz não só como ausência de guerra, mas sobretudo como dom de Deus e como plenitude de todas as suas bênçãos. Esta é a mensagem central da esperança messiânica anunciada pelos profetas, que a vêem realizada na harmonia das origens entre o homem e a criação: "O lobo habitará com o cordeiro..." (Is 11, 6-9; Cfr. Is 65,25) e na convivência pacífica e fraterna: "Quebrarão as suas espadas e delas farão arados, das suas lanças farão foices... não aprenderão mais a arte da guerra" (Is 2: 4). É esta paz que Jesus trouxe entre nós, como rejeição de todas as formas de violência. Com efeito, Jesus, como nos diz São Paulo, reconciliou os povos em conflito atraindo o ódio deles à sua própria carne (cf. Ef 2, 14 ss). A vida do Ressuscitado é visível, então, no esforço que fazemos todos os dias para construir a paz, reconciliar as pessoas, fazer com que os opostos possam coexistir.

sábado, 16 de abril de 2022

HOMILIA DA NOITE DE PÁSCOA 2022

 




Paolo Cugini

 

A vigília é um rito muito antigo - a celebração de uma Páscoa anual já se encontra em meados do século II e que em 1900 viu algumas mudanças significativas. A reforma fundamental foi feita em 1951 por Pio XII, que trouxe a vigília de volta as horas noturnas, pois até então se celebrava na manhã do sábado, enquanto cantava, no anúncio da Páscoa, "Esta é a noite...". Em 1955 chegou a reforma de toda a Semana Santa. O Concílio desenvolveu alguns elementos, como a escolha das leituras, mas no fundo retomou uma reforma já feita

O primeiro pensamento vai para o rito do fogo, da luz . A Páscoa é a passagem da morte para a vida, das trevas para a luz. O que isso significa? Que a ressurreição de Jesus indica o caminho de humanização que somos chamados a empreender, que a partir de agora há a possibilidade de cada um de nós sair dos caminhos da morte, para ir para a vida. A ressurreição do Senhor significa que nem tudo está perdido para sempre, que há um caminho que Jesus abriu para todos, um caminho dentro da história que todos podemos acompanhar: basta seguir a luz.

Então, uma vez na igreja, foi proclamado o exultet, um hino de autor desconhecido - alguns dizem que é de Santo Agostinho - que expressa de forma original o mistério da salvação que aconteceu através da ressurreição de Jesus . necessário o pecado de Adão, que foi destruído com a morte de Cristo. Feliz culpa, que merecia ter tão grande redentor! ». É difícil encontrar palavras mais ousadas na liturgia do que estas do exultet. Neste hino tão ousado, tem um olhar diferente sobre o pecado. Uma expressão decididamente forte, mas que se conjuga com um simbolismo litúrgico igualmente sugestivo. O poeta francês Charles Péguy dizia que o pecado é como uma brecha na qual se insere a graça, o amor de Deus: aprender a olhar a própria história pessoal com os olhos do Pai, aprender a não maltratar os próprios limites, pra ser envolvido por sua misericórdia.

ouvimos as leituras , que nos contaram uma história, que é a história do povo de Israel, que é a nossa história. A história de um povo que aprendeu a reconhecer Deus dentro dos acontecimentos e não fora do mundo. Essa é a característica desse povo. Uma história em que as pessoas experimentam seus limites, a dificuldade de administrar sua humanidade e orientá-la na direção do Senhor. É uma história não linear, mas feita de momentos perdidos, de saltos para frente e paradas repentinas. Mais uma vez, deve-se dizer que a história do povo de Israel é muito semelhante à nossa e é relido pelo hino do exultet, que proclamamos há pouco.

A Vigília Pascal gira em torno de quatro sinais que dizem o ser humano transformado pela ressurreição. A luz, com o círio pascal; a Palavra , com as inúmeras leituras bíblicas; água, com o Batismo; pão e vinho , com o banquete eucarístico. Há quatro elementos essenciais para o homem: sem luz não pode haver vida; falar, comunicar é um ato fundamental; a água faz crescer, lava, regenera; depois a comida, a nutrição. E a liturgia escolhe esses elementos essenciais para contar o mistério de Cristo. Estes são elementos primordiais: Luz e trevas, águas que se dividem, etc. A ressurreição de Cristo recria o universo.

O círio pascal é preparado com os grãos de incenso enfiados em forma de cruz, pois a forma do crucifixo ressuscitado está impressa na vela; o fato de a cera iluminar-se consumindo-se é um lembrete da dimensão do dom; a cera ilumina e enquanto isso se consome, oferece- se para iluminar, como o dom da vida de Jesus Cristo.

 


sábado, 22 de dezembro de 2018

NATAL, O NASCIMENTO DO SENHOR




Vigília de Natal-2007
(Is 9, 1-6; Sal 96; Tt 2, 11-14; Lc 2, 1-14)


Paolo Cugini

Chegamos a esta noite com o coração vibrante de alegria pelo evento que estamos contemplando: nesta noite o eterno entra no tempo, o infinito se faz finito, aquilo que é imperecível se faz perecível. Contemplamos extasiados o mistério do Deus menino, o Onipotente solapado no pequeno corpo de uma criança recém nascida. Ficamos pasmos, sem fôlego por esta aproximação impressionante de Deus para conosco. Aproximação que expressa mais uma vez o grande desejo de Deus de encontrar o homem, a mulher. O Natal é isso mesmo: o cumprimento do sonho antigo de Deus se fazer presente no meio da humanidade, de morar no meio de nós e, para realizar este sonho, Deus se faz homem, o tudo de Deus entra no fragmento pequeno do corpo humano. Mistério sublime que desvende até a que ponto chega o amor verdadeiro de Deus, o amor que pela sua intrínseca natureza exige a doação, a partilha e, por isso, não mede riscos, não calcula as conseqüências.  E, assim, por todos nós neste momento são autenticas as palavras do salmista quando, perante o mistério de Deus contemplado na criação, se pergunta: “É o que o homem para merecer tudo isso?” (Salmo 8). Nós também nesta noite tão luminosa nos perguntamos deslumbrantes: oh Deus porque fez tudo isso? Será que a gente merece um tão grande presente? Será que precisava mesmo que Deus se fizesse menino para nos encontrar? E é o que isso significa? O que Deus quis nos dizer com a sua vinda?

 “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1).
Assim como o profeta Isaias o profetiza, Jesus pela humanidade é uma luz. Deus enviando Jesus quis nos iluminar, ou seja, decidiu de nos tirar das trevas. Neste sentido a vinda de Jesus manifesta o julgamento de Deus sobre a humanidade. Com a vinda de Jesus Deus declara definitivamente derrotado o projeto de mundo que os homens construíram e continuam construindo independentemente de Deus. O mundo sem Deus é obscuro, é treva: é isso que o Natal de Jesus revela pela humanidade toda. O mesmo salmo 95 que foi proclamado hoje aponta o mesmo sentido: “O Senhor vem para julgar a terra inteira”. A luz de Deus que o nascimento de Jesus trouxe ao mundo representa o julgamento de Deus sobre o projeto de mundo que a humanidade desobediente criou e, ao mesmo tempo, é a indicação do caminho que a humanidade toda deve percorrer pra se afastar do projeto errado para entrar na trilha certa. Este me parece ser o sentido primeiro do Natal: a manifestação definitiva do julgamento de Deus sobre o mundo. A partir do evento do presépio, a humanidade toda depara com o pensamento de Deus, com a sua Verdade definitiva sobre nós. Verdade que se manifesta no seu lado negativo de julgamento, sobre tudo aquilo que ao longo dos séculos se ergueu orgulhosamente como projeto autônomo, criando o mundo da morte, dominado pelo egoísmo e pela ganância. Ao mesmo tempo o julgamento de Deus se manifesta como misericórdia por toda a humanidade vitima deste projeto terrível, por toda a humanidade que tenta com todas as forças de permanecer fiel ao projeto de amor de Deus.  Esta misericórdia de Deus que se estende ao mundo é muito bem representada pelos braços abertos de Jesus menino no presépio da manjedoura de Belém, que não é apenas uma cena sentimental, que mexe com o nosso lado sentimental, mas um quadro realista daquilo que Deus está querendo com o mundo.

 “Porque nasceu para nós um menino” (Is 9,50).
Esta luz que Jesus com o seu nascimento trouxe ao mundo se manifesta como vida. De fato, aquilo que Deus promete para salvar a humanidade da morte é uma criança. Isso não apenas foi profetizado pela boca do profeta Isaias, mas se cumpriu na historia com o nascimento do menino Jesus. Jesus é a Vida verdadeira que acusa a morte do projeto mundano. Se quisermos viver uma vida que permanece no tempo e nunca desfalece, precisamos nos aproximar do presépio. Jesus menino de braços abertos é o julgamento de Deus sobre o mundo fechado do egoísmo, da ganância, da soberbia. Além do mais, este menino recém nascido de braços abertos nos convida a fazer parte do seu Reino, que é o Reino do amor, da paz, da justiça e da vida autentica.  Aquela vida que todos nós buscamos com todas as nossas forças ao longo da vida e que não conseguimos alcançar, esta mesma vida veio ao nosso encontro, se ofereceu gratuitamente. É isso que devemos aprender a vislumbrar no menino Jesus: A Vida. É Ele que veio para apagar as nossas angustias, veio para preencher o nosso vazio, a nossa falta de sentido. É este menino indefeso que tem nas suas mãos o segredo da vida, a direção que a nossa existência humilde deve tomar. Se nos aproximarmos a este grande tesouro com uma mentalidade humana, material, seriamos tentados a nos perguntar o custo para obter tudo isso. O Evangelho, porém, vem ao nosso encontro com uma resposta simples: “Encontrareis o recém nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). A vida autentica que Deus nos oferece no menino Jesus, não se apresenta com os critérios humanos do poder e da força, mas com os sinais divinos da simplicidade e da humildade. E assim, se quisermos acolher a Vida autentica manifestada no menino Jesus, precisamos nos despojar do nosso orgulho e do nosso egoísmo. A Vida autentica pode ser somente acolhida para ninguém se ufanar de algo que não lhe pertence. É isso que é difícil entender para nós acostumados a medir o valor das coisas pelo peso exterior, pelo preço. Jesus, a vida verdadeira, se oferece gratuitamente, não tem preço: pode ser somente acolhido. Também isso representa um julgamento da nossa maneira de olhar as coisas e medi-las.

A noite de Natal é uma noite feliz, como somos acostumados a cantar, porque Deus veio a morar no meio de nós, assumindo a nossa condição humana, uma condição estragada pelo pecado e pela morte. É incrível como isso possa acontecer, como Deus possa caminhar e viver conosco, ao nosso lado. Se Ele decidiu isso não foi apenas por um sentimento de solidariedade, mas para nos salvar, ou seja, para transformar a nossa condição humana de morte, numa condição de vida, a nossa condição de sofrimento e conflito numa condição de paz. O Natal de Jesus que hoje celebramos com o maior respaldo possível, pela Igreja quer ser muito mais de uma lembrança passada: deseja ser a indicação de um estilo de vida novo, aquele estilo que produz uma transformação radical em todos aqueles que a levem a serio. Que seja este o sentido do Natal, pelo menos entre nós e nas nossas famílias.


quinta-feira, 8 de março de 2018

SALMO 27 0 SENHOR É MINHA LUZ E SALVAÇÃO: DE QUEM TEREI MEDO?




Paolo Cugini

Crer significa ter confiança no Senhor mais de quanto se tem medo do mundo o da vida dos outros ou de nós mesmos. A fé não somente algo que se refere ao conhecimento, mas é uma atitude que envolve toda a nossa pessoa, a nossa existência. O salmo que acabamos de ler descreve a luta entre o medo e a esperança.
O protagonista deste salmo parece uma pessoa ameaçada, com um grande medo no profundo do coração: é rodeado de adversários; é acuado por falsos testemunhos; é oprimido da violência e enxerga os seus adversários como fera ferozes. Porém parece um homem de grande fé e reage perante estas ameaças com uma fé inquebrantável(cf. v.1). Começa assim e depois procura o templo para rezar. Somente ao fim da suplico tudo parece voltar a tranqüilidade.

Primeira parte do salmo
Quando uma pessoa tem fé não pode acontecer nada que possa perturbar a própria caminhada[1]. Ninguém pode destruir a vida de quem está protegido por Deus. Se tivesse que me confrontar com as forças do mundo seria tomado imediatamente do medo. Sendo, porém, que Deus é o meu Deus, para mim é luz, salvação e defensa: por isso que todas as ameaças não são capazes de afetar a minha confiança.
O relacionamento entre Deus e a luz é tradicional em todas as religiões e se encontra muitas vezes na Bíblia[2]. Do ponto de vista a vida pode ser rodeada de trevas. Não percebemos muito onde estamos, aonde estamos indo e o sentido das experiências que vivemos... Porém “O Senhor é minha luz”. As vezes parece que a vida foge do nosso controle, que a tristeza tomem conta da nossa vida, mas “ O Senhor é a minha luz”. Se os inimigos me rodeiam de todos os lados e eu não tenho defensas que possam proteger, porem “O Senhor é a minha fortaleza”, uma fortaleza construída em lugar inalcançável, aonde os inimigos não podem chegar.

vv. 2-3: existe claramente uma realidade interior de medo contra a qual estamos combatendo e da qual procuramos nos defender através do Senhor. Aqui percebe-se bem que no contraste o Senhor nos oferece a possibilidade de aprofundar e amadurecer o dialogo com Ele.
Esta defensa é algo de concreto. Quando o salmista fala de fortaleza talvez a referencia seja Jerusalém, pois ele é construído sobre um morro. Por definição o templo tem o direito de asilo, quem entra é protegido, é um lugar defeso pelo Senhor. Por isso o templo se torna a imagem da proteção de Deus
v. 4:“Pedi uma só coisa ao Senhor”: então devo pedir aquilo que é mais essencial. O salmo 16 do Levita fala que quando a terra foi dividida entre as tribos de Israel a ele tocou AP arte melhor, pois não recebeu nenhuma terra, pois a parte melhor é ser sem terra e ter em seu lugar Deus. A tribo de Levi é sem terra porque a sua herança é o Senhor, tem somente o Senhor como segurança e proteção para viver. O nosso salmista pede somente uma coisa: não a força militar nem as riquezas econômicas, mas a comunhão com o Senhor, o templo como plenitude de vida e de experiência, onde é possível contemplar a beleza de Deus. Isso quer dizer eu a experiência do templo é como fazer a experiência de uma teofania. O salmista por isso deseja morar na casa do Senhor todos os dias da sua vida. Se o Senhor nos aceita então nós faremos a experiência da liberdade e da alegria. O Senhor se torna o amparo, a rocha sobre a qual edificar a própria segurança. Somos radicalmente fracos e por isso precisamos nos agarrar á alguém para podermos viver com confiança.
vv. 5-6: Minha cabeça se ergue: isso quer dizer que não vivo mais no medo; a segurança que recebo de deus me oferece dignidade e liberdade. Os inimigos aparecem agora sem força sem a capacidade de ameaçar.
Sacrifícios de louvor: são os sacrifícios do ter’uah, que era o grito de guerra[3]; quando se ataca o adversário se começa com um grande grito que serve a tomar coragem e, ao mesmo tempo, a espantar os inimigos. Este grito se torna uma oração, uma expressão litúrgica. Temos medo, mas temos fé em Deus, como salvação, luz e defesa, proclamamos a segurança e a fé sem ambigüidade.

Segunda parte do salmo
vv. 7-8. Chegamos ao templo e deixamos expressar o medo que aperta o nosso coração. O nosso grito é uma oração que dirigimos ao Senhor, é dirigido por alguém que sabemos que escuta. Reconhecemos de sermos numa condição de pobreza, de fraqueza e precisamos que o Senhor intervenha e assuma a minha condição de pobreza, a derrote, a transforme com a força e a energia que somente ele possui: “tende piedade de mim”. 

Buscamos no nosso coração uma saída e encontramos a resposta: “Procura sua face”. Esta é uma imagem extremamente freqüente na Bíblia: o rosto de Deus. Deus, na Bíblia tem um rosto. Isso que dizer que o Deus da Bíblia tem uma identidade, que é bem especifica. O Deus da Bíblia não é um Deus qualquer, mas tem traços específicos. Se quisermos entender quem é Deus, o seu rosto, a sua identidade devemos escutar os eventos que marcaram a historia de Israel, na vida na morte de Jesus e deixar que estes eventos imprimem o marco na nossa alma, no nosso coação. O rosto de Deus é aquilo que encontramos na libertação do povo de Israel do inimigo no Egito, e depois que se manifestou nas palavras, nas ações de Cristo, na sua Cruz, na sua paixão. Este é o rosto de Deus, a sua identidade que deve deixar um marco dentro de nós, para produzir o desejo de segui-lo. A vida religiosa não é outra coisa que isso: buscar o rosto do Senhor. Aprender a ver o rosto do Senhor não do jeito que a gene quer, mas assim como Ele é na realidade, ou seja, naquela realidade que se manifestou na historia, na vida, nos atos de Cristo.
v.10: não esconda a tua face. Se Deus esconde a sua face nós somos como pessoas que descem no tumulo. Não é possível viver se Deus afasta de nós a sua face. Também se o pai e a mãe abandonam o uma criança, Deus nos acolhe com amor[4].
vv. 11-13. O salmista tem como referencia esta terra, onde a gente vive, trabalha, se relaciona com os outros. O salmista deseja, aliás ele tem certeza, que nesta vida cotidiana poderá viver e e encontrar Deus, poderá experimentar a sua aproximação nas pequenas coisas da vida cotidiana: “eu creio que verei a bondade de JHWH na terra dos vivos”.

v. 14. “Espera em JHWH, sê firme”. É um versículo que é uma espécie de recomendação do salmista por si mesmo. De certa forma relendo a salmo percebe-se que o salmista passou através de uma situação de ameaça que o amedrontou. Ele sempre sabia que Deus é um amparo, que a fé se manifesta na confiança nele. O salmista aprendeu tudo isso nas orações de Israel, freqüentando o templo. É na experiência concreta que ele teve que entender na sua mesma pele, e assim interiorizar aquelas palavras aprendidas na infância.

Crer quer dizer ter confiança em Deus mais de que temos medo do mundo, da vida, de nós mesmos. Nem sempre conseguimos vencer o medo, precisamos medir a nossa realidade humana e podemos fazer isso contemplando o rosto de Deus, que conhecemos na revelação do Senhor Jesus.


[1] Cf. Rom 8
[2] Cf. Sal 104; Gen 1, 3-5; Is 60, 1.
[3] Cf. Num 10,5.
[4] Cf. Is 49,15-16.