Visualizzazione post con etichetta sábado santo. Mostra tutti i post
Visualizzazione post con etichetta sábado santo. Mostra tutti i post

sabato 4 aprile 2026

SÁBADO SANTO

 




Paolo Cugini

Que noite triste devem ter passado os teus discípulos, Senhor, sabendo que estavas morto. Pensando em ti no túmulo. Como podem aceitar tal vazio? Como podem resistir à angústia deste nada? Sem ti, o mundo vive nas trevas. É estranho pensar que José de Arimateia supervisionou o sepultamento. Nos quatro Evangelhos, ele é o único personagem mencionado consistentemente nesse contexto. José de Arimateia surge na narrativa evangélica como se viesse do nada, como se sua tarefa eterna fosse sepultar o corpo de Jesus. Assim como o outro José, o carpinteiro mencionado no início do Evangelho que sustentou as pequenas famílias de Belém.

Assim, no mistério da Encarnação, há um José no início e um José no fim. Há um José, uma figura humilde, que não faz alarde, uma "pessoa boa e justa", um "membro do Sinédrio", "que se tornou discípulo de Jesus".

José de Arimateia, aquele homem bom que cuidadosamente depositou Jesus no túmulo.

José de Arimateia continua sendo, para mim, um mistério incompreensível.

Jesus nasceu pobre e morreu no túmulo de um homem rico.

Jesus nasceu em uma manjedoura e morreu no túmulo de um rei.

Ele era ou não era o rei dos judeus?

Ele era ou não era rei? De um reino que não era deste mundo, mas ainda assim um reino!

José de Arimateia coloca o corpo do Senhor em um novo túmulo (o seu próprio?) escavado na rocha. Um novo túmulo no meio de um jardim. Um novo túmulo onde ninguém jamais havia estado antes. Jesus nasceu pobre, morreu como bandido e assassino, e foi sepultado num túmulo novo no meio do Jardim por um homem bom e justo do Sinédrio que se tornou discípulo de Jesus.

Quem pode depositar o corpo do Justo, o único e verdadeiro Justo, no túmulo, senão uma pessoa boa e justa? José, o bom — o justo que deposita o Justo. José, o bom — o justo que deposita o Justo, punido precisamente por sua bondade.

José de Arimateia foi predestinado desde a eternidade a não permitir que o corpo do Santo permanecesse pendurado na cruz e depois fosse lançado junto com os outros.

 

José de Arimateia, um homem bom e justo, separa as mãos e os pés do Justo da madeira da cruz. É José quem liberta as mãos de Jesus dos pregos. Quem sabe que perguntas rondavam a mente do bom José de Arimateia quando recebeu o corpo nu de Jesus morto em suas mãos.

Jesus, por que confiaste o teu corpo morto a um estranho? Sim, é verdade que ele era justo e bom, mas ainda assim era um estranho. Por que não escolheste André, ou Simão, Tiago, filho de Zebedeu, ou João, seu irmão, Filipe, ou Bartolomeu, Tomé, ou Mateus, Tiago, filho de Alfeu, ou Tadeu, ou Simão, o Zelote? Estes eram os que tu escolheste para estarem contigo e aprenderem as palavras que o Pai te havia dito para lhes falares.

 Por que você não permitiu que eles a vissem no auge da sua humanidade? Talvez você temesse que vê-la indefesa e sem vida os perturbasse tanto que eles nem sequer acreditariam mais na sua Ressurreição? Pedro já a havia negado três vezes; Judas Iscariotes a havia traído por algumas moedas. Os outros haviam fugido, exceto João, o discípulo a quem você amava. Talvez ele pudesse ter removido os pregos da madeira da sua cruz. Talvez ele pudesse ter abraçado seu corpo sem vida. No entanto, após a sua morte, ele acompanhou sua mãe até em casa, e a partir daquele momento ela se tornou dele.

E você estava lá, sozinho, morto na cruz. Que silêncio no Calvário. Que escuridão dentro e fora de Jerusalém! Horas intermináveis. Minutos pesados ​​como chumbo. Quem poderia suportar o peso da sua ausência? Por três dias o mundo viveu na sua ausência. Que mistério, o Deus que exalou seu último suspiro, que entregou seu espírito. Que desolação para a humanidade, órfã de seu Deus!

 Por algumas horas, alguém pode ter pensado que a escuridão cairia para sempre; que o nada pairaria para sempre sobre o mundo.

Porque o espírito havia sido expirado, retornado ao Pai, àquele que o havia dado. Alguns poderiam ter pensado que aquele momento duraria para sempre. Que o espírito havia expirado para sempre e jamais retornaria. Pensamentos sombrios. Cheios de angústia. Abandono total. Desconcertação.

Alguns podem ter se perguntado o que deveriam fazer se a escuridão permanecesse na Terra. Para sempre. E alguns pensaram que não era certo, não era certo que aquele que era o Caminho, a Verdade, a Vida permanecesse ali, no topo da montanha, pendurado na Cruz, nu.

Alguém, esse bom e justo José, achou prudente remover dos olhos de todos o escândalo, a vergonha perturbadora, o Deus crucificado! E, depois de remover cuidadosamente os pregos, tomou-o em suas mãos, perfumou-o com especiarias e o envolveu em um sudário. Então, colocou-o em um túmulo novo, escavado na rocha, nunca antes usado. Tomou-o em suas mãos. Aquele corpo morto. O cadáver de Jesus. O corpo sem vida do Filho de Deus. Talvez tenha olhado em seus olhos. Buscou seu olhar. Mas não o encontrou. Suas pálpebras estavam fechadas. Como um morto. Como todos os mortos. Porque Jesus estava morto. E um estranho o estava retirando da cruz. Um estranho estava retirando o Rei da Vida da cruz. Um estranho, de quem ninguém jamais ouvira falar, tomou o Jesus morto em seus braços. E olhou para ele, tocou-o, aquele corpo inerte e sem vida. Mas por que um estranho poderia fazer isso?

Por que coube a ele, José de Arimateia, ver e tocar o corpo morto do Vivente? Um estranho é testemunha do mistério da humanidade.

Porque aquele que veio trazer a vida eterna morreu na cruz. E Ele o viu. E até o tocou.

Porque aquele que curava os cegos e purificava os leprosos morreu. E ele é testemunha disso.

Porque ele arrancou os pregos de suas mãos frias. Da morte.

 Porque aquele que ressuscitou Lázaro dentre os mortos foi transpassado na lateral por uma lança. E ele está ali para testemunhar. E ele só pode dizer que tudo isso é verdade. SIM, Jesus está morto. Ele pode dizer isso. Ele procurou o seu olhar, mas não o encontrou. Sentiu a sua pele fria. Como a de um morto.

 Porque Ele, o Vivente, estava morto.

Quão doloroso deve ter sido para os doze (onze) lamentar não terem estado presentes na morte de seu mestre. É verdade que João o vira morrer na cruz, mas não foi ele quem removeu os pregos das mãos do Senhor. Ele, como os outros, deixou que um estranho tocasse o corpo morto de Jesus.

( 18 de abril de 1992, Sábado Santo)

 

sabato 30 marzo 2024

SÁBADO SANTO: O SILÊNCIO DO DIA TREMENDO

 





Paulo Cugini

 

Devemos ter a coragem de ouvi-la, sem subterfúgios, sem preencher significados, sem querer adoçar a todo custo. Porque não se pode adoçar o que não é doce, não se pode sorrir no dia mais triste do ano: o Sábado Santo. Nunca entendi o que há de sagrado neste dia horrendo. Como você pode, de fato, chamar de sagrado o dia mais vazio de todos, o dia do absurdo absoluto, o dia em que toda a humanidade fica sem fôlego, com a respiração suspensa. Porque toda a humanidade se levantou naquele dia sem saber a quem rezar, sem poder rezar a nenhum Deus, porque Deus havia morrido no dia anterior, barbaramente assassinado. E nem sempre dá para brincar de faz de conta, sem querer ver, sem querer ouvir. Sentimos falta de mulheres como Maria Madalena, que sabem chorar pelo seu mestre morto, que sabem sofrer intensamente sem fingir, sem esconder nada: isto é amor. Aquele amor que brota do coração e não do cálculo, aquele amor que é pura paixão e não racionalidade controlada, que calcula, que sabe fazer cálculos até com os sentimentos. E você não pode fingir que nada aconteceu e correr direto para o domingo, não pode ignorar esse dia terrível porque tem medo do escuro e fingir que nada aconteceu; você não pode fechar os olhos e os ouvidos para ir direto para a manhã de domingo. Acima de tudo, porém, o Domingo da Ressurreição não pode ser antecipado para o sábado de manhã, como infelizmente acontece muitas vezes em certas igrejas, que começam a preparar as decorações dominicais, como se não existisse o sábado de grande silêncio. Que falta de respeito!

O silêncio é necessário para ouvir o nada, para compreender o que seria o mundo sem sentido, isto é, sem Deus. O vazio deve poder penetrar no coração do homem e na consciência da mulher pelo menos uma vez na vida, para ter depois a possibilidade de pesar todas aquelas ideologias que nada mais são do que vazios disfarçados, aos quais nos agarramos para não morrer asfixiados. Obrigados a inventar significados, quando vemos a dois quilômetros de distância que não há sentido, que estamos subindo em espelhos, que estamos conversando com o vento e não temos coragem de ficar calados por medo de sentir o vazio, de sendo penetrado pelo Nada. Este é o sentido do Sábado Santo, que é santo precisamente por isso, porque nos permite tocar as cinzas da nossa vida, o nada dos nossos planos sem Deus.

Ficar suspenso no ar, pelo menos uma vez na vida, pode ser de grande ajuda para entender a quem e a que estamos vinculando nossa vida, a quem estamos nos enforcando. Rios diários de palavras inúteis para embelezar o que é naturalmente feio, o que sai mal, o que não tem forma, porque não pode ter forma, porque estamos apenas dando a eles. Bastaria um dia ter coragem de percorrer os locais onde acontecem os encontros entre adultos, ou seja, pelo menos uma vez na vida você teria que ficar mais de duas horas num bar, na padaria, no mercado e ouvir, prestar atenção, abrir bem os ouvidos para o que se diz, para o nada que se discute durante horas e horas. Falamos sobre o que somos e o que fazemos, onde o fazer é forçado a substituir o nada do nosso ser.

 É por isso que lutamos para ficar em silêncio no Sábado Santo, lutamos para compreender a profundidade do vazio criado pela ausência de Deus no mundo, porque esse vazio, esse silêncio é revelador, esse vazio daquele dia terrível revela o vazio que nós temos dentro de nós e que vamos cultivando aos poucos em cada momento do nosso dia. Porque a vida não tem um sentido externo, não tem significados que possamos tirar de fora, porque todo sentido atribuído de fora ou elaborado pela nossa mente não corresponde à realidade das coisas e é, portanto, pura ideologia e a ideologia é uma ficção, um exagero, um absurdo disfarçado de sentido. É por isso que a ideologia não nos preenche, porque é falsa e toda falsidade nos afasta da realidade e quanto mais aumenta a distância da realidade, aumenta ao mesmo tempo a distância com a verdade. E assim, permanecemos neste processo ideológico que com o tempo nos esvazia, nos torna falsos, nos faz avançar continuamente, porque já não somos capazes, já não somos capazes de captar o momento, a verdade, o autêntico. O sentido das coisas vem de dentro do mundo, de dentro do homem, do seu coração. Apreendemo-lo quando estamos em silêncio, quando entramos em nós mesmos, percebemos nestes momentos que o sentido da vida, o sentido profundo da existência não pode vir da matéria, não pode ser algo material, temporal, acidental.

Deve haver algo mais, mais duradouro, mais verdadeiro e profundo. Talvez este seja um dos dons mais profundos do dia terrível, daquele dia cheio de desespero que é o Sábado Santo. É, de facto, neste dia que podemos tocar em primeira mão o nada da matéria, o nada de todos os pensamentos vazios quando são ditados pela pressa de preencher de sentido o que não tem sentido. É neste dia tremendo que descobrimos a saudade de Deus, o desejo do seu amor, a beleza de estar com Ele, o sentido que Ele e só Ele pode dar à vida em todos os seus aspectos. É a partir do tremendo dia do Sábado Santo que, ao pôr do sol, podemos ver a luz radiante da madrugada do domingo, do dia mais radiante e luminoso do ano: o Domingo da Ressurreição do Senhor.