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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Na noite da pequenez

 


 



 

Paulo Cugini

 

 

A noite tem o poder de revelar as coisas. Quando o ruído do dia se dissipa e as vozes se tornam mais silenciosas, aquilo que muitas vezes tentamos esconder durante as horas de luz se torna mais evidente: a necessidade de sermos vistos, reconhecidos, favorecidos. No silêncio, a alma descobre que carrega dentro de si uma pergunta antiga, quase infantil, porém persistente: qual é o meu valor? Sou suficiente? Sou maior do que alguém? É como se, no fundo de nós, houvesse sempre uma questão de tamanho que nos perturba, uma medida invisível pela qual comparamos nossas vidas às dos outros.

Muitas das nossas lutas surgem precisamente dessa medida. Não nos basta viver: queremos nos destacar. Não nos basta ser amados: queremos ser preferidos. Não nos basta caminhar: queremos estar um passo à frente. O instinto de sobrevivência, que protege e defende a vida, pode facilmente se transformar em orgulho, e o orgulho, por sua vez, busca sinais de superioridade, diferenças, distâncias. Nos tranquiliza pensar que estamos à frente, mais capazes, mais justos, mais importantes. Mas essa segurança é frágil, porque depende do olhar alheio, dos aplausos que vêm e vão, da comparação que nos excita hoje e nos fere amanhã.

Nessa escuridão interior, a proposta de Jesus surge como uma luz diferente, não ofuscante, mas profunda. Ele não alimenta nosso anseio por grandeza; não nos convida a vencer a corrida mundana, nem a conquistar o primeiro lugar com meios mais refinados. Pelo contrário, aponta para um caminho que parece quase impossível: abandonar o desejo de superioridade e desejar o último lugar, a pequenez, até mesmo aquela forma de insignificância que nos liberta da necessidade de nos provarmos constantemente. A conversão, portanto, não é simplesmente corrigir algum comportamento externo, mas mudar o centro do nosso coração: deixar de nos buscar acima dos outros e aprender a estar com os outros, ao lado dos outros, sob o seu peso quando precisamos servi-los.

O Reino dos Céus é, portanto, uma perspectiva invertida em comparação com o reino do mundo. O mundo chama de grandes aqueles que ocupam espaço, que impõem sua voz, que ascendem esmagando, que constroem um nome para si mesmos mesmo à custa de humilhar os que ficam para trás. A grandeza mundana é frequentemente presunçosa: precisa se exibir, se vangloriar, buscar consenso, se defender de toda sombra. Mas no Reino de Deus, os grandes são os pequenos; são aqueles que não precisam mais ampliar sua imagem porque descobriram uma dignidade mais profunda, recebida e não conquistada. Sua grandeza não depende da opinião alheia, mas do amor que sentem em sua alma, da silenciosa certeza de serem filhos e filhas do Mistério.

Por isso, libertar-se da lógica do mundo é difícil. Significa caminhar contra a corrente, atravessar a escuridão do próprio ego, renunciar à luz artificial da aprovação para buscar uma luz mais interior e verdadeira. Ninguém consegue fazer isso sozinho. Precisamos de um guia, alguém que já escolheu o caminho do serviço, da humildade e da misericórdia; alguém que se humilhou não por autodesprezo, mas porque encontrou no amor o verdadeiro sentido da vida. Jesus é esse guia: ele não domina, mas acompanha; ele não humilha, mas eleva; ele não nos pede que nos tornemos invisíveis para nos obliterarmos, mas para nos libertar do ídolo da visibilidade.

Na noite, então, a pequenez deixa de ser uma derrota. Torna-se um lugar onde a alma pode respirar sem ter que competir. Torna-se um espaço de igualdade, de escuta, de compaixão. Aqueles que aceitam o último lugar não por necessidade, mas por amor, descobrem uma liberdade que os poderosos desconhecem: a liberdade de não ter que parecer maior do que são. E talvez ali mesmo, no ponto mais baixo, onde o mundo não olha nem aplaude, a verdadeira grandeza comece a brilhar: a grandeza humilde, oculta, gentil, que não esmaga ninguém, mas ilumina lentamente tudo o que encontra.

 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Se alguém quiser ser o primeiro, deve ser o último

 



DOMINGO XXV/B

 

Paulo Cugini

 

 Quem se reúne ao redor da mesa do Senhor no domingo, são aqueles que orientam suas vidas em seus ensinamentos. Além disso, como nos diz o apóstolo Paulo, a fé em Jesus depende precisamente da escuta da sua palavra, que não fala simplesmente de coisas passadas, mas que, pela ação do Espírito Santo que, como nos recorda o Concílio Vaticano II (DV ,5), move o coração internamente para Deus, para que possamos compreender e viver a Palavra de Jesus. Por isso no domingo, dia do Senhor, ouvimos o Evangelho, para compreendê-lo, interiorizá-lo e vivê-lo durante a semana. em conformidade com o que ouvimos. O que então nos diz o Evangelho de hoje?

Ele ensinou os seus discípulos e disse-lhes: «O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens e eles o matarão; mas uma vez morto, depois de três dias ele ressuscitará." Porém, eles não entenderam essas palavras e tiveram medo de questioná-lo.

Jesus partilha com os seus discípulos o que vê como o resultado da sua viagem rumo a Jerusalém. Os fariseus e líderes religiosos de Israel não aceitam o seu ensino, a sua forma de interpretar a Lei mosaica e entendem que, continuando neste ritmo, não conseguirá escapar da morte. Um resultado muito diferente das expectativas dos seus discípulos, que esperavam que Jesus fosse o messias esperado na forma do libertador do opressor. É por isso que Marcos diz que eles não compreenderam, ou seja, não quiseram compreender, não quiseram aceitar as palavras de Jesus que destruíram as suas perspectivas humanas. Por um lado, portanto, está o que Jesus é e veio demonstrar; de outro, o mundo das nossas expectativas, das nossas motivações. Para seguir Jesus no caminho da vida autêntica, precisamos dar-nos tempo para nos escutarmos em profundidade e esclarecermos, eliminando progressivamente tudo o que não nos permite compreender profundamente o significado da proposta de Jesus.

Eles chegaram a Cafarnaum. Quando estava em casa, perguntou-lhes: “O que vocês estavam discutindo na rua?”. E eles ficaram em silêncio. Na verdade, na rua eles discutiam entre si quem era maior.

 É interessante a nota que Marcos continua a sublinhar nos momentos em que os discípulos demonstram claramente quais são as suas expectativas. Na verdade, o texto diz que os discípulos estão a caminho. Mais uma vez a referência que está no horizonte é a palavra do semeador e dos quatro tipos de solo onde caem os grãos de trigo. A estrada é o local onde as sementes caídas são imediatamente comidas pelos pássaros. Existe uma maneira de seguir o Senhor que não leva a nada, a nenhuma diferença. Enquanto não nos damos tempo para meditar, interiorizar a palavra ouvida, continuamos a frequentar a igreja com a nossa mentalidade, a nossa lógica, sem permitir que a Palavra de Jesus os transforme, sem permitir que a nossa consciência forme o pensamento do Senhor, e então ajamos de acordo.

Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: “Se alguém quiser ser o primeiro, deve ser o último de todos e o servo de todos”. E pegando um menino, colocou-o entre eles e, abraçando-o, disse-lhes: «Quem acolher apenas um destes filhos em meu nome, a mim me acolhe; e quem me acolhe não é a mim que me acolhe, mas sim aquele que me enviou”.

 Jesus se senta. Não há necessidade de pressa. Jesus conhece muito bem a dificuldade que os discípulos encontram para assimilar um estilo de vida totalmente novo, uma forma de pensar radicalmente nova. Na verdade, se na lógica do mundo contam aqueles que são mais fortes e aqueles que se tornam mais importantes a qualquer preço, gerando uma sociedade de pessoas desiguais, com a consequência de uma sociedade de muitas pessoas excluídas e marginalizadas, este não é o caso na proposta de Jesus e, tomando um menino, colocou-o entre eles. Pelas narrativas pascais sabemos muito bem que o centro é o lugar de Jesus na comunidade, para que todos possam ter acesso a Ele igualmente. Pois bem, quando a comunidade coloca no centro as crianças que, em sentido figurado, são aquelas que ainda não desenvolveram dinâmicas de rivalidade, significa que Jesus está no centro da comunidade. Acolhê-Lo nos nossos irmãozinhos significa acolher o Pai. As pronunciadas por Jesus não são simples palavras do passado, mas a indicação de um estilo de vida que torna Deus presente e, quando isso acontece, o mundo tem a possibilidade de ver e acreditar.


segunda-feira, 2 de outubro de 2023

PEQUENO COMO UMA CRIANÇA




Paulo Cugini

 

Em verdade vos digo: se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus. Portanto, quem se faz tão pequeno como esta criança é o maior no reino dos céus (Mt 18.4). É a indicação do dia. Trabalhar para nos tornarmos pequenos, para não buscar a grandeza do mundo, a visibilidade, a consideração dos outros. Este é o significado do caminho espiritual evangélico: manter a discrição. Isto é possível não só através de um trabalho de reflexão e meditação, mas sobretudo associando-nos aos pobres, aos menos favorecidos, aos excluídos, aos marginalizados e aos discriminados. Estar com eles ajuda a desmoronar o individualismo e as formas de egoísmo que impulsionam a visibilidade, a busca de autoafirmação. Tornar-nos como crianças, que não vivenciam a complexidade do mundo e que ainda estão cheias de sonhos, de desejos simples. As crianças brincam, se divertem e, quando precisam, procuram a mãe e o pai, buscam o seu abraço.

  A criança sabe que tem necessidades: é um facto natural. Tornar-se criança também tem esta indicação profunda: recuperar a relação natural com o Pai e perceber a própria identidade de filho. Isto significa um caminho para sair da mentalidade que empurra as pessoas para o individualismo, a autoafirmação, a busca do próprio interesse, para permanecer com os pés no chão, na realidade, que nos lembra que somos pessoas quando vivemos a relação original de filhos-filhos, que precisam do Pai. Voltar às crianças para fugir à lógica da grandeza que turva a mente e nos conduz por caminhos desumanos, que em vez de nos fazerem sentir irmãos e irmãs, empurram-nos para a competição e a rivalidade.

Voltamos a ser crianças para vivermos como filhos amados pelo Pai. Afinal, se pensarmos bem, é obra do Espírito Santo que atua tentando colocar dentro de nós o pensamento do Filho, os seus desejos de amor, a sua sede de justiça, de atenção aos irmãos mais pobres e necessitados. e irmãs. Deixemo-nos moldar pelo Espírito do Senhor, que nos torna pequenos no mundo e grandes no Reino dos céus.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Homilia Domingo XIV°/A tempo comum



(Zc 9, 9-10;Sal 145; Rom 8,9.11-13; Mt 11, 25-30)

Paolo Cugini

1. O cristianismo é sem duvida nenhuma um caminho de salvação que oferece para os seguidores um estilo de vida com valores e atitudes especificas. As leituras deste tempo comum que estamos acompanhando nesta época do ano oferecem varias sugestões para refletirmos sobre a nossa vida cristã, para descobrirmos se estamos seguindo o Senhor, ou se estamos simplesmente disfarçando, querendo ser, mas incapazes de viver como Jesus nos pede por causa da nossa incapacidade de abrir mão daquilo que achamos importante na nossa vida mundana. A vida cristã é uma vida espiritual no sentido que é aberta constantemente á ação do Espírito que ao longo dos anos forma na nossa humanidade os mesmos sentimentos que eram no Cristo (cf. Fil 2,5). Entre estes sentimentos tinha a humildade, a simplicidade, a docilidade á uma Palavra que orienta o caminho. É disso que as leituras de hoje nos falam e que queremos aprofundar para que a nossa vida se torna sempre mais aparecida com aquela do nosso mestre o Senhor Jesus.

2. “Eis que vem o teu rei ao teu encontro, ele é justo e ele salva; é humilde e vem montado num jumento” (Zc 9,9).

Neste versículo do profeta Zacarias é bem claro que já no Antigo Testamento o Messias, na sua realeza, era anunciado como humilde. Este é já um dado repleto de sentido espiritual que merece a nossa atenção. De fato, na profecia de Zacarias é anunciada a vinda de um rei que se apresentará não com pompas e cavalos, mas sim humilde montado num jumento. Poder e humildade que sempre são apresentados como dois elementos antagônicos, neste contexto são apresentados quase como sinônimos: porque? O messias anunciado, o Salvador da humanidade manifestará o seu poder não na forma que o mundo o apresenta, ou seja, com a força e com a arrogância, mas sim com a humildade. É esta maneira humilde de Deus entrar na historia que torna-se sinal evidente da diversidade de Deus no confronto com o poder do mundo. Isso quer dizer que lá aonde encontramos violência, arrogância, egoísmo Deus não é presente. Pelo contrario aonde encontramos humildade, doçura, simplicidade sem duvida Deus é presente. Tudo isso que foi anunciado pelos profetas se tornou bem visível em Jesus que de rico que era se fez pobre (Cf. 2 Cor 8,9), e que não se apegou á sua condição divina, mas se despojou de tudo para se aproximar a nós. Além disso, o Evangelho de João nos lembra que Jesus, na hora em que percebeu que o Pai tinha colocado todo o poder nas suas mão, se ajoelhou e lavou os pés dos seus discípulos. Verdadeiramente o poder de Deus está escondido nos atos humildes do seu Filho Jesus e hoje este poder se encontra todas as vezes que a Igreja se ajoelha para servir os mais fracos, os mais pobres e necessitados.

3. “Eu te louvo, o Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25).

Este é mais um versículo na nova lógica do Evangelho que confunde as nossas idéias. Verdadeiramente para entendermos a proposta de Jesus precisamos de uma conversão, de uma mudança de mentalidade.  É impossível fazer parte do Reino de Deus sem antes se dispor para uma mudança radical. Este é o sentido da docilidade da qual falávamos no começo destas reflexões. Jesus trouxe algo de totalmente novo, totalmente diferente e distante da nossa mentalidade corriqueira para podermos entender o sentido profundo da sua proposta. Porque o Pai escondeu “estas coisas” aos sábios? Podemos tentar uma resposta pensando que Deus não queira que ninguém pense de merecer a salvação. Não existe ninguém no mundo que posa se apresentar perante Deus com ousadia, cobrando dele a salvação. Por isso este mistério da salvação Deus o escondeu aos sábios, no sentido que o Reino de Deus fica fora do alcance das possibilidades humanas e, por isso, é um dom que pode ser somente acolhido. 
A lógica do Reino de Deus não está no mérito, na lógica do mais forte, do mais inteligente. A lógica do Reino de Deus é a lógica da gratuidade, do dom. Somente as pessoas humildes, as pessoas que reconhecem Jesus como o único Senhor da vida percebem nele a fonte da vida e o único caminho da salvação. Por essa razão o caminho que o Evangelho propõe é o caminho da simplicidade, para se tornar como crianças que imediatamente reconhecem o Pai e se jogam nos seus braços. A que serve, de fato, buscar a grandeza do mundo, quando depois se perde a alma! A que serve o poder dos homens, o dinheiro se depois se perde a vida, porque é somente Deus que tem o poder de dar e tirar a vida! Idéias simples como simples é o Evangelho que todo dia nos aconselha de tirar o olhar daquilo que não presta, para aprendermos a fitar o olhar em Deus.

4. “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29).

São lindas estas palavras de Jesus, pois são repletas de humanidade, daquela humanidade que dificilmente encontramos no nosso dia a dia.  São palavras que nos convidam a deixar de lado as preocupações, ou melhor, a entregar nas mãos do Senhor toda a nossa vida. É esta uma grandíssima indicação espiritual. Se tudo vem de Deus e tudo deve ser transformado pela ação do Espírito Santo, então devemos aprender a viver constantemente perante o Senhor, sem nada esconder o guardar somente para nós. Viver perante o Senhor quer dizer transparência, honestidade, sinceridade: todos valores que infelizmente encontramos raramente nos relacionamentos da vida corriqueira. É o Senhor que nos convida a sair da angustias, de uma vida presa em amarguras inúteis, pois Ele é presente na história para aliviar o peso da nossa vida e, ao mesmo tempo, consolar as nossas tristezas. É sempre o Senhor que nos convida a descansar nele, a não considerar a vida religiosa somente nas horas alegres, mas sim a aprender a buscar o Pai quando vivemos mergulhados nos problemas da vida, da mesma forma que Jesus fazia. Aprender a se entregar em Deus, a buscar a sua justiça, a sua misericórdia e compreensão. Fazer a experiência da humildade de coração de Jesus e da sua mansidão, como remédios ao ódio e ao egoísmo do mundo. “Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.