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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Quando a noite desata as correntes

 




Paulo Cugini

 

 

"Mulher, você está livre da sua enfermidade" (Lc 13:12)

Há noites em que o silêncio não consola: ele interroga. A casa repousa, as vozes se dissipam, e algo continua a falar dentro de nós, algo que já não sabemos se chamar consciência ou medo. As frases que ouvimos quando crianças retornam, as proibições aprendidas antes mesmo de as entendermos, as expectativas alheias que lentamente se tornam nosso destino. Nessas horas, quando não há mais ninguém a quem agradar, surge uma pergunta simples e vertiginosa: a vida que estou vivendo realmente me pertence?

Talvez a vida espiritual comece aqui mesmo. Não na busca por um lugar distante da Terra, mas na disposição de descer aos recônditos mais obscuros da própria existência. É um longo processo de cura interior: nomear as feridas, reconhecer os medos, distinguir o que sustenta a vida daquilo que a impede de prosperar. Não se trata de se tornar perfeito, portanto, mas de aprender a estar presente para si mesmo sem ter que esconder constantemente uma parte de quem se é.

As correntes mais resistentes raramente fazem barulho. Apresentam-se como hábitos, como deveres indiscutíveis, como caminhos que outros traçaram para nós. Habitamos contextos familiares, culturais e religiosos que nos precedem: herdamos palavras, gestos e afiliações, mas também imagens do que devemos nos tornar. Um legado pode nos oferecer raízes; contudo, pode se transformar em uma barreira quando ignora questionamentos e considera cada desvio uma traição. O problema não é ter uma história, mas não ser capaz de questioná-la.

É então que a culpa pode se tornar a carcereira. Não o remorso que surge por ter magoado alguém e exige reparação, mas uma culpa sem gestos ou rosto: sentir-se errado por querer um caminho diferente, por fazer uma pergunta, por não conseguir mais acreditar nas respostas que recebe. Acaba-se pedindo perdão não pelo mal que se fez, mas pela própria possibilidade de existir de outra forma. E a vida se torna insuportável quando cada movimento em direção a si mesmo parece uma ofensa a alguém.

Tornar-se adulto significa reconhecer essa confusão e superá-la. A passagem dos anos não basta: precisamos aprender a distinguir gratidão de obediência, afeto de abnegação, responsabilidade de submissão. Podemos reconhecer o que recebemos sem entregar completamente o rumo da nossa jornada a outros. Maturidade não consiste em não precisar de ninguém, mas em ser capaz de conviver com os outros sem se perder em suas expectativas.

A adolescência e a juventude podem ser o primeiro laboratório para essa liberdade. Ansiedades, questionamentos e até mesmo certos distanciamentos se tornam oportunidades para compreender quais desejos são autênticos e quais apenas refletem as expectativas de outra pessoa. Mas nenhuma fase da vida conclui definitivamente esse trabalho. Mesmo muito tempo depois, podemos descobrir que confundimos uma escolha com uma adaptação. Nunca é tarde para parar, ouvir a nós mesmos novamente e questionar uma direção que parecia irrevogável.

Sem esse trabalho interior, a liberdade corre o risco de permanecer apenas uma palavra dita sobre uma vida já decidida. Podemos nos considerar autônomos enquanto, inconscientemente, repetimos as vozes que nos moldaram. Às vezes, a teia de tradições assimiladas é tão densa que não conseguimos mais ouvir seus fios: chamamos de vontade o que é medo, de lealdade o que é hábito, de vocação o que nunca nos foi permitido discutir. Libertar-nos significa começar a enxergar esses fios, não negar tudo, mas finalmente escolher o que manter e o que deixar ir.

Na linguagem religiosa, essa questão pode se tornar particularmente desafiadora. Quando uma prescrição humana é apresentada como a vontade de Deus, a dissidência não aparece mais como uma mera divergência: parece uma culpa diante do absoluto. O medo adquire uma nova profundidade, pois diz respeito não apenas à perda de aprovação, mas à possibilidade de ser rejeitado pelo próprio mistério. Nem toda tradição religiosa produz esse aprisionamento; o problema surge quando o sagrado é invocado para tornar o poder intocável e para remover suas exigências do discernimento da consciência.

Romper essas correntes não significa necessariamente abandonar a fé. Pelo contrário, pode significar libertá-la do medo que a aprisionou. É uma transição difícil, porque as imagens de Deus recebidas na infância habitam lugares profundos, onde a razão sozinha não alcança. Leva tempo para deixar de se sentir culpado diante de uma pergunta sincera; tempo para distinguir a voz do mistério do eco daqueles que falaram em seu nome. A noite dessa transição não é vazia: é o lugar onde as antigas certezas perdem autoridade e uma confiança ainda frágil busca espaço.

Nessa busca, a verdadeira face do mistério não pode ser aprisionada por uma fórmula. Ela pode ser buscada na justiça que restaura a dignidade, na misericórdia que não aprisiona a pessoa ao seu erro, no amor que não exige abnegação para ser aceito. É um mistério em sintonia com a vida, não porque aprove cada impulso nosso, mas porque não nos aliena de nós mesmos. Ele nos convida à responsabilidade sem nos humilhar; nos abre para o outro sem silenciar nossa voz.

Talvez curar signifique precisamente isso: não eliminar todas as sombras, mas parar de deixá-las governar a casa. Reconhecer que liberdade não é isolamento e que escolher o próprio caminho não torna os laços supérfluos: torna-os mais autênticos, porque não são mais protegidos por ameaças. Um relacionamento pode finalmente se tornar um encontro quando ninguém precisa abrir mão da própria consciência para preservá-lo.

Lá fora, a noite continua. Ainda não há resposta para tudo, e talvez nunca haja. Mas no silêncio, algo mudou: a pergunta já não soa como culpa. Podemos encarar o mistério sem ceder ao medo, nossa história sem sermos obrigados a repeti-la. A jornada espiritual recomeça a partir deste pequeno limiar: uma corrente reconhecida, uma respiração menos contida, a coragem silenciosa de pertencer à vida. E a aurora, antes de surgir nas janelas, começa aqui.