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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

ESTUDO BIBLICO LUCAS 3

 



Paolo Cugini

O capítulo 3 de Lucas começa com um cenário deliberadamente suntuoso, poderíamos dizer redundante. Vamos ouvir. No décimo quinto ano do reinado de Tibério César. Tibério sucedeu a Augusto em agosto de 14 d.C., então começa com o mais alto representante do poder, um imperador que não era apenas imperador, mas se considerava o Filho de Deus, portanto o pináculo mais alto.

Enquanto Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, este é filho de Herodes, o Grande, isto é, Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, e Filipe, seu irmão, tetrarca da Itureia e Traconites, e então o evangelista também vai encontrar um certo Lisânias, um príncipe semi-desconhecido, tetrarca de Abilene, sob os sumos sacerdotes Anás e Caifás. Mas o sumo sacerdote era um. O evangelista acrescenta uma, e veremos por quê.

Por que o evangelista começa com esse cenário? Mostra os sete grandes da terra. E por isso ele acrescentou dois sumos sacerdotes em vez de um, para chegar ao número sete, que indica a totalidade. Poderíamos dizer em linguagem corrente que o evangelista apresenta o G7, os sete grandes da terra. Então, desde o imperador que acredita e se apresenta como filho de Deus, até os sumos sacerdotes que são os representantes de Deus.

E o evangelista cria suspense. A palavra de Deus veio... Quando lemos o evangelho, para apreciá-lo, devemos nos colocar no lugar dos primeiros ouvintes ou leitores que não conheciam o resto. O evangelista apresentou os grandes da terra, desde o imperador filho de Deus, até os sumos sacerdotes, representantes de Deus, e a palavra de Deus sobre quem ela descerá? Ela cairá sobre o imperador, cairá sobre os sumos sacerdotes? Mas aqui está a novidade trazida pelo evangelista: 

quando Deus deve intervir na história, ele evita cuidadosamente os lugares sagrados e as pessoas religiosas, ou os palácios do poder, porque sabe que estes são refratários e hostis a qualquer mudança.

E aqui está a surpresa: a palavra de Deus veio a João, filho de Zacarias, no deserto.

Por que no deserto? Por que João, filho do sacerdote Zacarias, não é sacerdote como seu pai e não está no templo, o lugar sagrado por excelência? João, não, não escolheu o sacerdócio como seu pai – e ainda assim teve que fazê-lo como filho do sacerdote Zacarias – mas ele permanece no deserto.

E é no deserto, longe de Jerusalém e do templo, que começa o que poderíamos definir como a desclericalização do povo por Deus. Sua palavra desce ali, portanto fora de qualquer ambiente sagrado, de qualquer ambiente religioso.

Ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo – o batismo era uma imersão em água – de arrependimento para o perdão dos pecados. O termo grego usado pelo evangelista para indicar “conversão” significa “mudar de ideia, mudar uma maneira de ver”, ou seja, se até agora você pensou por si mesmo, pense agora pelos outros.

Agora entendemos por que uma mensagem de mudança não foi dirigida aos sacerdotes, escribas e religiosos. Na verdade, não poderia ter sido dirigido à casta sacerdotal, que tem medo de qualquer coisa nova. No mundo religioso, reina o imperativo “sempre foi feito assim”, então qualquer proposta de mudança é vista como um ataque à segurança de alguém.

Bem, João prega o batismo como sinal de mudança de vida, para o perdão dos pecados. O desafio que João enfrenta é tremendo. O perdão dos pecados era obtido indo a Jerusalém, ao templo, através de um rito religioso. Não, Deus não age na adoração, mas na vida. O perdão dos pecados ocorre pela mudança da existência, pela mudança da vida. Em vez de viver para si mesmo, para seus próprios interesses, para suas próprias necessidades egoístas, esteja atento às necessidades e exigências dos outros. Essa atitude apaga o passado pecaminoso.

Como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías, e o evangelista cita a segunda parte do profeta Isaías, onde é descrito o êxodo da Babilônia para Jerusalém, há um novo êxodo, uma libertação do cativeiro de uma instituição religiosa, que fez das pessoas escravas. E, citando Isaías, o evangelista escreve: 

“Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai os seus caminhos! Todo vale será aterrado, e toda montanha e colina serão rebaixadas; os caminhos tortuosos se tornarão retos e os acidentados, suaves.” Então, trata-se de preparar o caminho para o Senhor, e então o evangelista muda o final. “Toda a carne verá a salvação de Deus”, o texto de Isaías fala da “glória do Senhor”.

Por que essa mudança? Porque a glória do Senhor se manifesta a todos os homens na sua salvação, ao propor-lhes uma mensagem de plenitude de vida. E é importante especificar que esta salvação é para todos os homens, sem exceção. Isso é típico da teologia de Lucas: o amor de Deus por toda a humanidade, um amor do qual ninguém pode se sentir excluído. Como Pedro formulará tão bem nos Atos dos Apóstolos: “Porque o Senhor me mostrou que nenhum homem pode ser considerado impuro”.

Não há pessoa no mundo que, por sua condição e sua situação, possa se sentir excluída do amor de Deus. É com esse cenário grandioso que começa a pregação de João Batista, anunciando a vinda de Jesus.

João Batista no deserto havia anunciado um batismo como sinal de conversão, isto é, de mudança. da vida, para o perdão dos pecados. A resposta é inesperada: todas as pessoas se aglomeram em volta dele. As pessoas têm entendido que o perdão dos pecados não pode ter lugar no templo, com um ato litúrgico, com um sacrifício ao Senhor, mas através de uma mudança de vida. Mas se o povo acreditou e correu para João Batista, as autoridades religiosas, os líderes, não o fizeram, sempre refratários. a qualquer apelo por mudança. 

Porque o povo estava e todos se perguntavam em seus corações se João não seria o Cristo, isto é, o Messias.

O povo acredita ter identificado neste profeta do deserto o esperado libertador de Israel. Mas João imediatamente deixa claro que não é. João respondeu a todos: “Eu vos batizo com água”, isto é, eu te mergulho em um líquido que é externo ao homem, o que é um sinal de uma mudança de vida para obter o perdão dos pecados. “Mas aquele que é mais poderoso do que eu está chegando”, e aqui o evangelista usa uma expressão que deve ser colocada no contexto cultural da época entenda isso. “Não sou digno de desatar as correias das suas sandálias.”

O que João Batista quer dizer com essa expressão? Havia uma lei na instituição do casamento da época, que era chamada de "do levirato". Em que consistia essa lei? Quando uma mulher permaneceu viúva sem filhos, seu cunhado tinha a obrigação de engravidá-la. A criança nascida carregaria o nome do marido falecido. Era a maneira de perpetuar o nome da pessoa. Quando o cunhado se recusava a engravidar esta mulher provavelmente por razões de interesse porque a mulher sem filhos, sem descendência, era enviada de volta ao seu clã familiar. Aquele que na escala social e legal tinha o direito depois dele, ele procedia com a cerimônia de descalçar, tirar as sandálias dessa pessoa. Foi um gesto simbólico que significava “o seu direito de engravidar esta viúva pertence a você”. Agora é meu".

Eis, pois, o significado desta expressão de João Baptista, que encontramos no antigo testamento, nas histórias de Rute e nos vários livros. Eu não sou digno de desatar as correias das tuas sandálias, significando "não sou eu quem tem que engravidar esta viúva", o povo de Israel era considerado como uma viúva, “mas aquele que vem depois de mim”. Porque “Ele vos batizará com o Espírito Santo”. Enquanto eu te mergulhava na água, símbolo de uma mudança de vida, ele irá te encharcar, te imergir, te impregnar com a mesma vida divina. “E fogo.” Então aqui a liturgia corta alguns versículos que indicam a eliminação de João Batista. É a resposta do poder de conversão. Os poderosos nunca querem mudar. Mas é também a estupidez do poder porque a perseguição sempre faz a vida florescer, ela não a extingue. Toda vez que os poderosos querem desligar um voz, aí vem uma ainda mais poderosa e forte.

E eis que, enquanto todo o povo estava sendo batizado assim o povo entendeu, entre Jerusalém, o templo onde, através de um sacrifício ao Senhor, obteve o perdão dos pecados, e o deserto através de um rito de imersão, o povo entendeu que a verdade está lá. 

Aí vem Jesus, que também vai ser batizado. Mas por que Jesus é batizado? O batismo foi um símbolo de morte para o povo. Morrer para o passado, para o que era um estado, para começar uma vida novo. Também para Jesus o batismo é um sinal de morte, não de um passado de pecado que ele não tem, mas a aceitação da morte no futuro. Jesus dirá mais tarde neste mesmo evangelho que há um batismo no qual ele deve ser batizado e fica angustiado até que chegue esse momento.

Isto é sobre a sua morte. Então, para Jesus, ser batizado significa: fidelidade ao amor de Deus aceita a perseguição e até a morte. Jesus, tendo também recebido o batismo, estava orando, o céu se abriu. O que significa esse céu se abrindo? É a comunicação permanente e definitiva do homem com Deus. O céu indica a realidade divina. Quando há um homem que se compromete a manifestar fielmente o amor de Deus, então o a comunicação entre Deus e o homem é contínua. Com Jesus essa comunicação será ininterrupta.

E o Espírito Santo desceu sobre ele, o artigo definido indica totalidade. O Espírito é a força, a energia do amor de Deus, que desce sobre Jesus. Por que o evangelista indica em forma corpórea? Para dizer realmente, completamente; como uma pomba. A imagem da pomba evoca vários elementos, diz respeito a criação quando o Espírito de Deus pairava sobre as águas e na interpretação rabínica foi dito que era como uma pomba, então em Jesus está a nova criação. Lembra sobretudo a pomba que Ele deixa a arca de Noé depois do dilúvio como sinal de perdão.

Jesus é o perdão de Deus. Mas também lembra um provérbio palestino que diz: “como o amor de uma pomba para o seu ninho”. A pomba é aquele animal que permanece afetuoso e muito apegado ao seu ninho de origem. Você pode mudar o ninho dela, fazer um novo, mas ela não quer saber disso. Então Jesus é o ninho do Espírito, é onde se manifesta a plenitude do amor de Deus.

E uma voz veio do céu, portanto de Deus. E aqui o evangelista faz uma colagem de vários textos do antigo testamento, do profeta Isaías, um salmo, o livro do Gênesis: “Tu és meu Filho, o amado – o amado indica o herdeiro, aquele que herda tudo do pai – “com você estou muito satisfeito”. Então Deus confirma que em Jesus está toda a sua realidade, e o povo só tem que acolhê-lo.


sábado, 28 de dezembro de 2024

BATISMO DO SENHOR - domingo 12 janeiro 2025

 




Paolo Cugini

 

         Começamos o ano com a festa do batismo do Senhor, oportunidade que a liturgia nos oferece para refletir sobre o significado do nosso batismo, para que esteja em harmonia com o batismo de Jesus. Na liturgia de hoje, dois significados do batismo. são apresentadas nas leituras, que encontramos unidas no rito atual, nomeadamente o batismo com água, que foi o fornecido por João Batista e o batismo com o Espírito Santo proposto por Jesus através das leituras que nos são propostas,. procuramos aprofundar o significado autêntico do Batismo.

No deserto prepare o caminho para o Senhor,

abra o caminho para o nosso Deus na estepe. Que

todo vale seja exaltado,

toda montanha e toda colina sejam rebaixadas;

o terreno acidentado torna-se plano

e o terreno íngreme torna-se um vale (Is 40).

O batismo que João Batista prega é o batismo com água e ele o faz com palavras duras, chamando a multidão: “ raça de víboras ”, convidando à conversão, à mudança de vida. Há, portanto, um primeiro nível na vida de fé, que consiste no compromisso de realizar gestos concretos de mudança de vida, que consistem em abandonar hábitos negativos, vícios, paixões que perturbam a existência. Não é por acaso que João Baptista, quando prega, utiliza o texto de Isaías, que a liturgia de hoje nos propôs na primeira leitura. Trata-se de pavimentar o caminho da nossa vida para que o Senhor possa entrar, resolver os terrenos acidentados, preencher os vales. Todas estas são expressões que nos convidam a mudar de vida, porque não podemos apelar ao Senhor continuando a viver um estilo de vida que contradiz aquilo que invocamos. O Baptismo com água pretende simbolizar este esforço de “limpeza” externa da nossa vida, uma limpeza que nós próprios somos chamados a realizar.

Depois há a entrada em cena de Jesus, que cumpre em parte as expectativas de João Baptista. Jesus vem trazer o Espírito Santo, que é vida plena para todos de forma gratuita. Este Espírito de vida dado gratuitamente a todos é graças à vida dada por amor por Jesus. Quando Jesus cita a expressão de João que falava do futuro messias que ele batizaria no Espírito Santo e no fogo, falará apenas do futuro messias. Espírito, mas não do fogo. Jesus é apenas amor e não castigo. Há uma oferta indignada de vida a todos. O céu se abriu : Deus corresponde à disponibilidade da vida com o dom de si mesmo. No Antigo Testamento pensava-se que o céu estava fechado devido à dureza do coração do povo de Israel, mas abre-se definitivamente com Jesus e torna-se caminho de salvação para todos. O Espírito Santo é a energia de Deus, em forma corpórea, como uma pomba. Nesta passagem há uma clara referência ao livro do Gênesis, que fala do espírito sobre as águas, que era simbolizado pelos judeus com a pomba. Em Jesus há a nova criação que não termina com a morte, mas com a vida. Em Jesus só há vida e não condenação, por isso não há menção ao fogo em suas palavras. Jesus veio trazer uma mensagem de salvação para todos, sem excluir ninguém.

 Quando apareceu a bondade de Deus, nosso salvador,

e o seu amor pelos homens ,

ele nos salvou,

não por obras justas realizadas por nós,

mas pela sua misericórdia,

com uma água que regenera e renova no Espírito Santo,

que Deus derramou sobre nós em abundância

por meio de Jesus Cristo, nosso salvador,

para que, justificados pela sua graça,

nos tornemos, na esperança, herdeiros da vida eterna (Tito 2).

Paulo, na carta a Tito que nos é proposta na segunda leitura, reitera o discurso do Evangelho de Lucas. O amor que recebemos de Deus em Jesus Cristo não é fruto do mérito pelas obras que realizamos, mas é um dom gratuito da sua misericórdia. Entrar nesta nova perspectiva de fé significa ter a coragem de sair da lógica da religião do mérito, feita de obediência às regras e aos preceitos, que acalmam a consciência, mas não permitem entrar na esfera da gratuidade de Deus, manifestada pela Jesus Cristo.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Domingo 24 de junho: Natividade de são João Batista

 



(Is 49, 1-6; Sal 139; At 13, 22-26; Lc, 1, 57-66.80)

 

Paolo Cugini

 

1. Celebramos, neste domingo, a solenidade do nascimento de João Batista, do homem escolhido por Deus para anunciar ao mundo a vinda de Jesus Cristo, o nosso Salvador. Não é por acaso, então, se a liturgia da Palavra de hoje nos oferece textos os quais nos convidam a refletir sobre o mistério da vocação. A importância de João Batista na economia da historia da salvação é evidenciada pelo mesmo Jesus que define João “o maior entre os nascidos de mulher”, pelo fato que foi escolhido para anunciar a presença do Cristo no mundo. A vida de João Batista se destacará pela dureza de vida que levava, pela sobriedade, pela força da sua pregação e pelo convite á conversão. João Batista se preparou à vinda de Jesus no deserto, batizando as multidões com a água do rio Jordão, batismo que era um convite a mudar de vida, a buscar o caminho de Deus. João nasceu em circunstâncias estranhas, não comuns. A mãe Isabel era estéril e o pai Zacarias já de idade avançada. Desde o nascimento, tudo na vida de João é envolvido no mistério, no ignoto. Aproveitamos, então, das leituras de hoje, para tentarmos penetrar o mistério do chamado de Deus. Pedimos ao Espírito Santo que abra a nossa mente para entendermos o sentido do nascimento e da vida de João Batista pela humanidade e para nós.

 

2. “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome” (Is 49, 1).

São estas as primeiras palavras do segundo canto do servo, que narram a vocação de uma personagem misteriosa, que nunca a tradição conseguiu a detectar. Personagem misteriosa como misteriosa é a vida de João. Poderíamos dizer que este mistério envolve a nossa mesma vida. É interessante parar para refletir sobre este dato, ou seja, o fato que a Bíblia apresenta a vida como algo de misterioso, que está escondido nos pensamentos de Deus. Isso é um convite a não abordar a vida de uma maneira superficial, imediata, como se a vida de uma pessoa fosse medível somente pelas características externas, pelos dados materiais. A Bíblia nos ensina que o sentido da nossa vida está em Deus, ou seja, fora do nosso alcance imediato. Para tomarmos conta da nossa existência precisamos de um esforço de interiorização, precisamos entrar em contato com Deus, pois é Ele que conhece o mistério da nossa existência antes do nosso mesmo nascimento. Para quem está tomando a serio a própria vida, esta revelação representa uma grande liberdade e, ao mesmo tempo, um grande desafio. É liberdade porque somos liberados do peso de inventarmos a nossa vida: graças a Deus a nossa vida já tem um sentido e, este sentido, é Deus mesmo que o definiu desde o inicio da criação. É também um desafio, porque devemos aprender a desmaterializar a nossa existência, para aprendermos a buscar o valor da nossa vida aonde ele pode ser desvendado, ou seja, em Deus.

 

3. Estas mesmas reflexões são retomadas no famoso salmo 139, que a liturgia nos convida hoje a rezar. “Senhor vos me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto; de longe penetrais meus pensamentos” (Sal 139, 1).

Se Deus me conhece e penetra os meus pensamentos, se foi ele que me formou as entranhas e no seio de minha mãe me teceu, significa que não sou sozinho. Quanta angustia leio às vezes nos rostos das pessoas que encontro, por tudo aquilo que acontece na vida delas, que parece até mesmo que Deus não esteja presente, que tudo seja em balia do ocaso e que, de conseqüência, a nossa vida não tenha nenhum sentido. É esta a grande tentação que enche a nossa alma e a nossa mente, confundindo os nossos pensamentos, naquelas horas tristes e dolorosas em que experimentamos uma espécie de abandono de Deus.  Não, Deus não nos abandona e nós não somos forçados a inventar a nossa existência, a produzirmos sozinhos e desesperadamente um sentido da nossa vida, para não escutarmos o vazio que nela percebemos. Aliás, talvez sejam estas as horas melhores que Deus nos oferece, para não fugirmos no vazio das nossas ilusões, dos nossos castelos imaginários, para penetrarmos no mistério da nossa vida e, nessa profundeza, descobrirmos uma Palavra pessoal, única, uma palavra amiga, que somente Deus conhece. Assim, estas leituras que escutamos na festa do nascimento de são João Batista, deveriam produzir em nós o desejo de aprofundarmos o mistério da nossa vida, de entrarmos em nós mesmos e escutarmos a voz daquele que nos chama desde a criação do mundo. Só assim descobriremos quanto, aos olhos de Deus, somos preciosos, que valor imenso tem a nossa existência para Ele, valor tão grande que desde sempre preparou para nós um projeto, um caminho. Somente deparando com este projeto misterioso e fantástico de Deus, os nossos falsos projetos serão desmantelados. De fato, se a tristeza às vezes enche os nossos corações, se a angustia acompanha os nossos dias, é porque vivemos no tempo presente inventando literalmente a nossa vida, nos achando os donos da nossa existência que, desta maneira, torna-se extremamente pobre,fraca, vazia. A auto-suficiência humana é o pior pecado que podemos cometer, porque é uma forma radical de resistência ao plano de Deus. Somos mergulhados numa cultura que nos incentiva todo dia e toda hora a buscarmos o nosso caminho de forma autônoma, independente de Deus e de todos.  Aonde podemos encontrar a luz que nos ilumina? Como percebermos que o Senhor nos conhece no mais intimo (cf. Sal 139)?  Como descobrirmos, assim como aconteceu com João Batista, o sentido do nosso nome, da nossa vocação?

 

4. “Ele vivia em lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel” (Lc 1, 80).

Não existe melhor resposta ao nosso problema, do que esta. João não teve pressa de se amostrar: esperou até perceber que estava na hora. Até não percebermos dentro de nós a paz de Cristo, é melhor ficarmos escondidos, também porque o mundo não merece a nossa agonia. João esperou a resposta ao sentido da sua vocação no deserto, ou seja, no silencio, na busca interior não desperdiçando palavras com colegas, mas procurando, sobretudo o parecer de Deus. Por isso quando saiu, arrasou! Este versículo é o programa de uma vida. Pode ser pouca coisa, mas para quem está querendo levar a serio a própria única e breve vida, vale a pena escutar o conselho.

 

 

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

JOAO BATISTA





EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 3
Estudo Bíblico para CEBs
 Paolo Cugini


1-3. A insistência de Lucas sobre os homens políticos daquele tempo é para salientar que Jesus Cristo não é uma invenção literária, mas o Filho de Deus veio ao mundo mesmo, se fez carne em um momento histórico preciso. Por isso estes dados históricos são importantes: para situar com clareza o momento preciso da vinda de Cristo na história.

4-18. A pregação de João Batista é muita dura e radical: o objetivo é provocar a conversão dos ouvintes. Citando Isaias, João Batista se coloca na tradição profética e, ao mesmo tempo, se identifica com a personagem que no A.T. era designado para preparar o cominho do Messias.
“Que devemos fazer?”. A dura pregação de João Batista surtiu efeito. De fato as pessoas se questionam e se colocam a disposição para uma mudança. A pergunta: que devemos fazer? É a pergunta da fé, da confiança em Deus, que acusa o pecado, mas ao mesmo tempo prepara caminhos de salvação.
“Quem tiver duas túnicas reparta-as”. As respostas de João Batista aos interlocutores mostram que o caminho da conversão acontece dentro da própria experiência de vida. Se quisermos nos converter de verdade, devemos concentrar a nossa atenção naquilo que estamos vivendo. A verdade do nosso seguimento a Jesus, da nossa adesão ao Evangelho, se demostra na maneira de viver no dia a dia.
Batismo com água é o batismo pregado por João Batismo, que exige uma mudança de vida, de atitude: consiste no esforço de tirar o mal da nossa vida. O Batismo no Espírito trazido pro Jesus consiste na acolhida do dom de Deus que vem do alto, que transforma a nossa humanidade. Estes versículos nos revelam que a mudança da nossa vida depende um pouco de nós, mas, sobretudo é fruto da ação de Deus que age na nossa vida somente se quisermos.

23-38. A genealogia é na linha do valor que Lucas dá aos dados históricos para mostrar que Jesus é uma personagem históricas e não uma invenção literária. Porque Lucas insiste nisso? Porque ao tempo de Lucas, mais ou menos os anos Oitenta do primeiro século da era cristã, alguns difundiram a noticia que Jesus era só um espírito e nada mais. No Evangelho de Lucas o mistério da Encarnação, ou seja, de Deus que se faz homens e entra na história, é documentado não apenas com dados históricos, mas também com uma genealogia, uma serie de nomes que demostram o parentesco de Jesus, que não era um anjo descido do céu, mas sim, um homem em carne e osso.