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domenica 21 dicembre 2025

RETIRO ESPIRITUAL DE ADVENTO DOMINGO 21 DEZEMBRO 2025

 




 

Primeira meditação

 

José: a simplicidade que acolhe o Mistério

Quando José acordou do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara e levou sua esposa para casa (Mt 1:24).

Nunca gostei muito da figura de São José. Austero e silencioso demais, estranho demais. Sempre achei que Maria merecia algo melhor. A tradição, baseada em textos apócrifos, apresenta José como um pai idoso e viúvo de seis filhos (quatro meninos e duas meninas). Nos tempos modernos, ele teria acabado na prisão, acusado de pedofilia, visto que Maria tinha doze anos na época do noivado. Além disso, o silêncio de José no Novo Testamento é surpreendente. O Evangelho de Marcos, que, segundo a tradição, é o mais antigo, não faz nenhuma referência direta a José, e o próprio Jesus é lembrado como filho de Maria. No Evangelho de João, os irmãos e irmãs de Jesus são mencionados, mas nem mesmo um vestígio de José. Somente nos Evangelhos de Mateus e Lucas há alguma referência a José, mas ele nunca fala, ou seja, nenhuma palavra lhe é atribuída. Por que tanto silêncio? Não é estranho? O que está por trás disso?

 

Ao buscar respostas em textos de outras fontes, como as judaicas, é possível fazer suposições que desmantelam e desconstroem as construções estabelecidas em outros lugares. Pirké Avot 5:23 nos diz que, na tradição judaica, o casamento era marcado para um rapaz aos dezoito anos, enquanto para uma moça, aos doze. Portanto, seguindo essa linha de pesquisa, José era um jovem galante apaixonado por Maria. Sinceramente, prefiro essa versão porque é mais realista e porque, de certa forma, torna a história de Maria e José mais autêntica. Em vez da história de um noivado forçado entre um homem idoso e uma jovem, ela conta uma história imbuída dos verdadeiros sentimentos que constituem nossas histórias de amor. Além disso, pensar em José como um jovem de dezoito anos nos permite compreender melhor a perplexidade de Maria diante da proposta do anjo. Ao escolher a vontade de Deus de se tornar a mãe do Senhor, Maria não fugiu da perspectiva de se casar com um homem idoso, mas fez uma escolha de amor autêntico, vivido de uma maneira diferente e original com seu jovem noivo José. 

Mas não termina aqui. É possível dar outro passo significativo na desconstrução de uma tradição que, para "salvar" a virgindade de Maria, alterou dados históricos que, na realidade, nos legaram um José mais humano e autêntico, conferindo ainda maior valor à figura de Maria. De fato, José é apresentado pela tradição do Novo Testamento como um homem justo, cuja retidão derivava de sua fidelidade à tradição de seus pais. Contudo, refletindo cuidadosamente sobre essa tradição, se José tivesse sido completamente fiel à sua noiva, isso teria sido motivo para o assassinato de Maria. Segundo a tradição do Antigo Testamento, Maria deveria ter morrido porque o filho que carregava não era de seu futuro marido, e José, se tivesse sido justo no sentido de fiel à tradição, deveria tê-la repudiado publicamente. Mas não. Como sabemos, as coisas aconteceram de forma diferente, porque José desobedeceu, rebelou-se contra a lei de seus pais, que queriam que sua futura esposa fosse apedrejada. Naquele exato momento, José ouviu seu coração, seus sentimentos, em vez da Lei, o que ele, um jovem apaixonado, sentia por Maria. E o amor abriu seu coração à misericórdia, deixando de lado o sacrifício, antecipando o que seu jovem filho mais tarde indicaria como o caminho autêntico daqueles que amam o Pai: "Quero misericórdia, mais do que sacrifício". Foi a rebeldia de José que permitiu ao Espírito Santo entrar na história e, assim, nos dar a mãe de quem nasceria o Salvador: Maria. Obrigado, José!

Eu oro e imploro de bom grado a um José como ele: 

 

Ó São José, vós que desobedecestes à Lei dos Padres que queriam Maria apedrejada até a morte.

 

Eu te imploro:

Dá-me forças para me rebelar contra todas as leis injustas.

Ajude-me a rejeitar radicalmente a religião que mata.

Ensina-me, em todas as circunstâncias da vida, a colocar em primeiro lugar, como tu fizeste, o amor pela Lei e o apreço pela tradição.

Imprime em mim a força do Espírito, para que eu não desanime em situações de conflito que pareçam difíceis de resolver.

Ajuda-me, enfim, a olhar para a vida com serenidade e confiança, como um dom maravilhoso de um Pai que deseja de nós, seus filhos, que ajamos na lógica da misericórdia, em vez da obediência cega às tradições, que matam.

Amém

 

No fio silencioso da história sagrada, José surge como um homem comum, porém profundamente extraordinário. Sua vida se desenrola pelas ruas empoeiradas de Nazaré, em meio à madeira de sua oficina e ao som discreto das orações, mas em seu coração ele carrega um sonho que transfigura tudo. É um sonho que nasce não da ambição pessoal, nem da busca pela grandeza, mas da escuta humilde e fiel de uma voz que sussurra em seu íntimo. José nos ensina que a presença do Mistério não se impõe com estrondo, mas se revela onde quer que a vida flua, onde quer que sejamos capazes de acolher cada dia como uma dádiva inesperada.

Joseph vive imerso na simplicidade dos pequenos gestos. Todas as manhãs, ele abre sua oficina e suas mãos, marcadas pelo trabalho, movem-se com a sabedoria herdada de seus antepassados. Ele aplaina, serra, prega: o ritmo da transformação da madeira acompanha seus dias. Ele não busca o excepcional, não persegue o sucesso; em vez disso, encontra o extraordinário no ordinário, a beleza no trabalho honesto. Até mesmo a sinagoga, com o calor da comunidade e a voz ancestral das Escrituras, é um lugar de aprendizado e descanso. Joseph sabe que a fé se alimenta da perseverança, que a oração se entrelaça com o trabalho, que a esperança se nutre nos detalhes mais humildes da vida.

Nos dias que se sucedem, sempre iguais e sempre novos, José cultiva a semente da consciência. Cada gesto, por menor que seja, torna-se uma oportunidade para aprender a amar a realidade como ela se apresenta, sem querer moldá-la aos próprios desejos. Sua consciência nasce do silêncio e da escuta: um coração que se deixa educar pelos ritmos da vida, que se abre ao que acontece, sem resistir. É nos detalhes, o pão partilhado, o olhar voltado para Maria, o cuidado com o Menino, que José constrói uma consciência justa, que não se deixa dominar pelo medo ou pela dúvida, mas que se entrega, com simplicidade, à bondade do Mistério que guia todas as coisas.

Acolher o Mistério significa dar espaço ao inesperado, permitindo que a revelação penetre no tecido mundano da vida cotidiana. Joseph faz isso discretamente, sem alarde: não busca sinais extraordinários, deixa-se surpreender pela presença do Mistério nas entrelinhas do dia a dia. Seu sonho não é uma fuga da realidade, mas uma nova perspectiva sobre a própria realidade. Em cada encontro, em cada esforço, ele percebe um eco do Mistério que transforma coisas simples em sinais da eternidade. Assim, o trabalho, o afeto, o sofrimento e a alegria tornam-se lugares de revelação, onde o divino se aproxima e a vida adquire um significado mais profundo.

Ao longo dos séculos, José permanece um exemplo brilhante de alguém que sabe abraçar a vida com um coração livre e grato. Sua justiça não é formalismo, mas a disposição de ser moldado pelo Mistério que se manifesta até mesmo e, sobretudo, nas pessoas mais simples. Sua história nos ensina que a verdadeira mudança não vem por meio de gestos espetaculares, mas sim por meio de uma fidelidade obstinada à realidade, vivenciada como um dom e um dever. Seguindo seus passos, aprendemos que a consciência se forma em gestos cotidianos, que a beleza da vida se esconde na simplicidade e que o Mistério só pode ser encontrado por aqueles que, como José, abraçam cada dia com admiração e confiança silenciosa.

 

Segunda meditação

Eles não tinham filhos. A história de Elisabeth

 

Eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos eram de idade avançada (Lc 1:6).

 O tema da esterilidade perpassa toda a Bíblia e, então, vale a pena abordá-la.

É difícil passar despercebida a esterilidade de todas as esposas dos três primeiros patriarcas, Sara, Rebeca e Raquel, esposas de Abraão, Isaac e Jacó, respectivamente. Esse dado bíblico retomado em outras partes das Escrituras, em vez de indicar que é Deus quem dá vida e não o homem, sublinha que não é o pai que cumpre as promessas. Na verdade, é Deus quem torna Sarah, Rebeca e Rachel capazes de conceber um filho e não seus respeitáveis maridos. O que está em jogo não é tanto a autoria desses homens que, como sabemos, já eram pais por causa da estrutura poligâmica da cultura atual, mas a maternidade das mulheres que Deus escolheu para cumprir suas promessas. Desde o início, a promessa divina relativiza os laços familiares e o relacionamento pai‑filho, rompe a ordem da sucessão patriarcal e funda a casa de Israel através das mulheres, oferecendo-nos uma estrutura igualitária.

Junto com isso, existe na Bíblia o tema fortemente simbólico da esterilidade do deserto que é transformado em planilha, com rios de água (Is 35; Is 40).

Há um mistério, profundo e silencioso, que permeia a essência da nossa existência: o da esperança que perdura para além dos limites da racionalidade, da fé que ousa acreditar onde tudo parece intransponível. A história de Isabel e Zacarias ergue-se como um farol na noite, dizendo-nos que o impossível pode, de fato, tornar-se possível. É uma história de expectativas consumidas pelo tempo, de desejos sepultados pela poeira do cotidiano, mas também de reviravoltas inesperadas que subvertem todas as previsões humanas. Meditar sobre essa história nos leva a reconhecer o valor inestimável da esperança, capaz de restaurar o sentido e um futuro onde tudo parecia irremediavelmente perdido.

Isabel e Zacarias vivenciam a esterilidade e a velhice, condições que, na cultura da época, representavam o selo definitivo da impossibilidade de descendência, de uma terra sem brotos e de um amanhã sem promessas. Nessa condição, o desespero não é um sentimento passageiro, mas um companheiro silencioso que se insinua nas dobras dos dias e pesa sobre os sonhos. O ventre estéril de Isabel é uma metáfora para todas as situações humanas em que a esperança parece ter deixado de brotar: relacionamentos interrompidos, planos desfeitos, expectativas que se transformam em resignação. A idade avançada deles também representa uma vida que se aproxima do crepúsculo, onde esperar por um milagre parece quase loucura.

Há uma lição sutil e profunda que nos chega com Isabel e Zacarias: a de abraçar a própria fragilidade, aceitar a própria identidade e que ela seja diferente dos outros, de não fugir dos sinais da perda, mas de permanecer neles com coragem. Aprender a conviver com os sintomas da morte, sejam eles solidão, decepção, doença ou vazio, significa permanecer fiel a si mesmo, mesmo quando as circunstâncias parecem nos despojar de toda a esperança. O apego deles à vida, mesmo em tempos de provação, já é um ato de fé: eles não deixam o desespero ter a última palavra, mas continuam a voltar seus corações para aquele Além invisível que pode surpreender.

Elisabeth personifica, com humildade e firmeza, a força silenciosa daqueles que jamais desistem. Sua fé não é ostensiva nem gritada, mas sussurrada dia após dia, numa perseverança que não teme a poeira do tempo. Diante do olhar crítico da sociedade, diante do peso de suas próprias dúvidas, Elisabeth não perde sua dignidade nem a doçura de seu coração. Sua coragem reside em permanecer aberta ao dom, em cultivar a possibilidade mesmo quando tudo indica que ela deveria ser rejeitada. Nela, o milagre da confiança inabalável se realiza, uma luz que arde sob as cinzas do hábito.

De repente, o vento do Mistério agita as cortinas de sua casa: onde antes havia aridez, agora a vida floresce; onde reinava o silêncio, agora ressoa a alegria. O sofrimento de Elizabeth se transforma em canção, seu ventre em um berço de nova esperança. A realização de um sonho impossível não é apenas a satisfação de um desejo pessoal, mas um sinal de que o Mistério da Vida pode surpreender e subverter todas as previsões humanas. A alegria que brota nasce da espera fiel, da vigilância constante mesmo quando a noite parece interminável.

Esta história revela a lógica paradoxal do Mistério: o amor manifesta-se precisamente onde as sombras parecem mais densas, a vida brota do deserto, a graça insinua-se nas brechas da nossa vulnerabilidade. A fé de Elisabeth e Zacarias não é obstinação cega, mas uma abertura confiante ao imprevisível. É a luz de um Amor que não pode ser vencido pelas trevas, que transforma a noite em aurora. Esta luz ensina-nos que o significado profundo da vida não é compreendido através de cálculos humanos, mas é revelado àqueles que sabem esperar e acolher.

A história de Elisabeth e Zacarias convida-nos a redescobrir o valor da oração silenciosa, da meditação que mergulha nas profundezas do coração e abre espaço ao Mistério. É na meditação que aprendemos a arte de ouvir o que a vida nos sussurra, de distinguir a voz da esperança do zumbido do medo. A jornada espiritual não é uma fuga da realidade, mas uma imersão mais profunda nela, a ponto de reconhecer um plano maior na teia dos acontecimentos. Rezar é confiar as próprias feridas ao Mistério, meditar é deixar-se moldar pela certeza de que, mesmo quando não se vê, algo já está brotando.

A história de Elisabeth e Zacarias torna-se hoje profecia e provocação: convida-nos a acreditar na possibilidade, a não temer os desertos interiores, a não desistir quando tudo indica que devemos deixar de ter esperança. Num mundo muitas vezes dominado pela eficiência e pela lógica dos resultados, a espiritualidade lembra-nos que a vida floresce precisamente onde aprendemos a esperar, a confiar, a deixar-nos surpreender. Que a coragem de Isabel nos sirva de exemplo: na noite, a luz espera apenas para ser acolhida. E talvez, quando tudo parecer perdido, o Mistério nos surpreenda novamente, permitindo-nos vislumbrar que o impossível é o espaço onde a esperança habita.

 

domenica 22 settembre 2024

RETIRO ESPIRITUAL PAROQUIAL - Ezequiel 47, 1-12

 




COMPENSA-MANAUS 22 setembro 2024

 


Introdução

Acho importante, no atual contexto histórico e, sobretudo, no nosso contexto social, escutar palavras de esperança, que convidam a olhar pra frente de forma positiva, alimentando a nossa consciência de sonhos, de imagens grandiosas que orientam a nossa vida rumo uma perspectiva positiva. É isso que escutamos na página de Ezequiel 47: um grito de esperança, uma mensagem que enche os pulmões de um ar novo, para respirar com entusiasmo.

O dato interessante, que vale a pena mencionar, é o contexto em que foi escrita esta página. Contrariamente a quanto se poderia pensar,

Um chamado que envolve a pessoa na sua totalidade. Nada vem do profeta, mas tudo é obra de Deus. O profeta responde.

Mediação. Ezequiel investiga a promessa de Deus liderado não pelo próprio Deus, mas por um de seus mensageiros. A mediação faz parte da ação de Deus para conosco. A aventura da fé desenrola-se não na visão daquele a quem pertence a palavra, mas à sombra de um mensageiro que a transmite.

Águas que saem de uma Casa que é o Santuário (1.12). Ezequiel não descobre a fonte mítica da eterna juventude. A água que se torna torrente e que gera vida flui da Casa de Deus, é seu dom. Desce da fachada, que fica a leste, porque a vitória diária da luz sobre as trevas está no Leste. Vida abundante, história e mundo curados e renovados vêm de Deus. Diante de um povo e de um país em ruínas, não se trata antes de tudo de “arregaçar as mangas”, mas de recuperar uma passividade fundamental: porque é. Deus que dá a vida e que a cura. Ezequiel é convidado a entrar no leito da ação de Deus, a deixar-se levar por ela para que tudo volte à vida. Através do seu Jeremias contemporâneo, o Senhor dirá: «O meu povo cometeu duas iniquidades: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas rachadas que não retêm água» (Jr 2, 13).

Um mundo curado. Não é só o homem que é curado pelas águas da vida: de facto, tal como o ambiente vital foi criado antes do homem na criação, também aqui as águas, as plantas e os animais são os primeiros beneficiários da ação das águas. Invadem uma terra sem vida, seca (8a) e doente até nas águas que restam (8b.9), e tudo que se move nas águas recebe vida (9). Os peixes ali serão numerosos e o pequeno Mar Morto não invejará de forma alguma o grande Mediterrâneo: porque mesmo em haverá peixes de todo tipo. E na orla há árvores de todas as espécies destinadas à alimentação, que darão frutos “de acordo com os meses”, para que nunca faltem. As águas curativas transmitirão poder curativo às folhas. Tudo será para o homem num universo que redescobriu a sua harmonia. No Éden (Gn 1-2) não havia necessidade de remédios: o mundo emergiu saudável das mãos de Deus. Na visão de Ezequiel sentimos um mundo curado de uma situação doente. É uma nova criação, feita sobre as ruínas da primeira.

Abundância. As águas crescem enormemente, as árvores são “muito numerosas”, assim como os peixes. A vida que o Senhor dá não tem medida. É típico de Deus ir além do cálculo. É esta misericórdia superabundante que Ele também nos pede para usar (Lc 6,36-38), enquanto o cálculo faz parte de uma justiça humana a ser abandonada (Mt 5,20).

O homem no trabalho (10). Neste mundo renovado surge o homem, em atitude activa: os pescadores colocar-se-ão nas águas, tirando com o seu trabalho (redes, pesca) desta vida abundante (10). Haverá ainda reservas de sal, para utilidade do homem e para lhe permitir fazer sacrifícios (43.24). Ele comerá frutas diferentes todo mês, e até as folhas serão úteis, como remédio.

“Ele me fez ir e voltar” (6). Ir e voltar é símbolo de senhorio, de plena liberdade. Ezequiel descobre que nada lhe pertence: nem a água que cura, nem os frutos que ela produz. No final do seu longo ministério, ele tem a graça de perceber que tudo o que conquistou, o arrependimento, a conversão, a esperança que acendeu nos seus irmãos exilados são obra de Deus. Ele vem e vai, mas ele. está perfeitamente imóvel, ou seja, “está” diante de seu Deus, sem nenhum pensamento ou ato que não seja gerado pelo próprio Deus. É a paz daquele em quem Deus curou todo o orgulho, porque absorveu o seu coração, a sua mente, a sua vida. Ezequiel, ao descobrir que tudo lhe é dado, descobre a sua liberdade. Paulo dirá: “O que você tem que não recebeu? E se você o recebeu, por que se vangloria como se não o tivesse recebido?” (1 Coríntios 4.7).

“Deus tinha algo melhor em mente para nós” (Hb 11:40). Não se sabe se Ezequiel testemunhou o retorno dos exilados a Jerusalém. Algo grande, mas também quotidiano, com o sofrimento de encontrar uma cidade e um templo destruídos, e outros proprietários nos seus campos. A promessa, estava claro, não era para aqueles dias, convidava-nos a olhar mais adiante. O templo será reconstruído e inaugurado em 525 AC. Herodes, o Grande, tornará isso esplêndido no tempo de Jesus. No entanto, a promessa não foi cumprida. A promessa de Deus era realmente um mundo paradísico? O que foi aquele templo, o que foi aquela água, o que foi aquela vida abundante?

“Destruí este templo e em três dias o reconstruirei” (Jo 2,19). Cinco séculos depois apareceu um homem. Ele disse sobre si mesmo:

“«Destruam este templo e em três dias o reconstruirei»…(E falou do templo do seu corpo)”.

“Acredite, mulher, chegou o tempo em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai… Mas chegou o tempo, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura tais adoradores” (Jo 4,21.23).

««Quem tem sede venha a mim e quem crê em mim beba; como diz a Escritura: do seu interior fluirão rios de água viva”. (Isso ele disse referindo-se ao Espírito que aqueles que nele cressem receberiam: na verdade, o Espírito ainda não existia, porque Jesus ainda não havia sido glorificado)” (Jo 7,37-39).

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

De qual templo ele falava teria sido visto em seu “levantamento”, quando os véus rasgados teriam dado um vislumbre do verdadeiro Santo dos Santos, do verdadeiro rosto de Deus, de um coração dilacerado pelo amor: “Dobrando o seu cabeça, ele soltou o espírito… Um dos soldados bateu-lhe no lado com o lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,30.34). Ressuscitado, «soprou sobre os discípulos e disse: «Recebei o Espírito Santo; cujos pecados você perdoar serão perdoados, e aqueles cujos pecados você não perdoar permanecerão sem perdão” (Jo 20,23).

Um mundo curado pela esperança. O próprio Ezequiel teria ficado surpreso com esse cumprimento. Que como Lar, Deus daria o corpo do Filho morto e ressuscitado; como as águas, ele daria o Espírito; como vida, sua vida eterna; como frutos, os seus dons de justiça, alegria, paz, amor; como cura, a cura do coração. O aqui e agora é assim curado a partir do além.

 Trilhas de reflexão

• A pergunta do anjo ao profeta é feita ao próprio leitor. Também nós somos convidados a ouvir, a ver, a deixar-nos levar nesta visão.

• Muitos acreditam que Deus não é mais útil, que é uma muleta pertencente a uma fase atrasada da humanidade. Hoje temos todos os meios para nos ajudar. E a forma como o mundo deve ser governado é ditada pelas regras do mercado. Lancemo-nos todos, indivíduos e sociedades, numa corrida livre: a lei da oferta e da procura será o nosso guia. Qualquer proteção dos fracos é um artifício arcaico. O mundo encontrará o seu equilíbrio guiado pelo novo deus: o interesse. As águas que curam tudo, nós as conhecemos, são o dinheiro e a inteligência humana. Graças a eles a alimentação será abundante e variada, as doenças serão curadas. E Deus, se existir, só pode abençoar esta raça, cujas leis estão na ordem da lógica.

• Este é o mundo com câmeras apontadas para a cabeça da corrida. Se virarmos as câmeras lentamente para trás, aparece uma população enorme, lutando e, atrás, muitos que já caíram. Se os apontarmos para o universo, veremos que ele expeliu poluição; muitos animais desapareceram silenciosamente, terras anteriormente férteis tornaram-se áridas, chuvas torrenciais enterraram outras partes do mundo. A corrida não é pacífica: conflitos mortais irrompem entre os competidores e enormes grupos caem, mas outros encontram nova velocidade para a linha de chegada.

• Sim, a linha de chegada. Qual? Você pode fazer uma viagem turística à lua, pode ser uma conquista. Ou aproveitar tudo ao máximo também é uma conquista. Ao virar da esquina, porém, indomável, está o inimigo à espera, o inimigo de quem só se pode comprar um adiamento, nunca definitivo: a morte. É por isso que corremos tanto? (Lucas 12:20).

• Ezequiel nos pega pela mão e nos faz seguir o seu caminho. Um caminho pelo qual podemos ser conduzidos, mas apenas aparentemente simples. Porque decidimos que espaço a fé deve ter nas nossas vidas e que espaço deve ter a nossa livre iniciativa. Seria ingénuo deixar-se envolver totalmente, como ele, na aventura da fé. Acreditamos, mas com bom senso. A passividade é então um risco enorme, uma aventura em que tudo perde e parece demais arriscar tudo. Gostaríamos de manter o mundo e o paraíso.

• Há uma aventura que o mundo precisa curar, a única verdadeira, a única nova. Administrar significa abraçar verdadeiramente o mundo e dar-lhe vida.

 

giovedì 12 settembre 2024

Em que cidade realizar a amizade?

 




 

Semana de retiro espiritual às irmãs adoradoras do sangue de Cristo

6-12 setembro 2024 – Manaus

 

 

 

Paolo Cugini

 

Parece uma pergunta estranha, que não tem nada ver com o tema que estamos desenvolvendo e que está chegando ao fim. Na realidade tem a ver e muito. A história da salvação é uma narração que se desenvolve em algumas cidades que, por isso, tem um caráter simbólico, que desvenda alguns conteúdos importantes. O Egipto (Alexandria), Tiro, Babilônia e Jerusalém: são esta as cidades que acompanharão a nossa reflexão.

O Egipto. É a terra onde o povo encontrou alívio na figura de José. Depois da morte do povo que conheceu José, o Egito se torna um país hostil para o povo de Israel, que fica escravizado. A intervenção de JHWH na história é para libertar o povo da escravidão (cfr. Ex 3). O Egito, de terra da salvação se torna terra da maldição da qual precisa fugir. Os padres da Igreja (por exemplo, Cirilo de Jerusalém) nas pregações sobre o batismo, identificaram o Egito como a terra do pecado. De fato, o mar Vermelho, antecipação do Batismo, representa uma passagem purificadora de uma situação de escravidão do pecado (Egito), para um caminho de salvação na terra prometida. Nesta perspectiva, fugir do pecado significava fugir do Egito.

Tiro. Tiro é o símbolo da cidade arrogante e orgulhosa, que se coloca acima de tudo, se achando a dona do mundo. Interpreta o próprio sucesso e a própria força como algo que não depende de ninguém. Usa o poder para pisar e humilhar os outros.

Quem, pois, tomou essa decisão contra Tiro, essa cidade coroada, cujos mercadores eram soberanos, e os traficantes, fidalgos da terra? Foi o Senhor dos exércitos quem o decidiu, para ferir o orgulho da nobreza e para aviltar os mais considerados da terra... Naquele tempo, Tiro será esquecida durante setenta anos (Is 23, 1s).

Deus não deixa impune que pisa nos outros. Deus não dá moleza com os orgulhosos que se acham melhores dos outros. Deus entra na história para restabelecer a igualdade.

Babilônia. É a cidade símbolo da exilio do povo de Israel, a cidade cujo rei, Nabucodonosor derrubou Jerusalém, e levou no exilio, como escravos. Por isso Babilônia assume na história da salvação o símbolo do mal. Muitas são as páginas dedicada a esta cidade. Sobretudo os profetas falam dela.

Fugi do recinto de Babilônia, abandonai a Caldéia! Sede como os cabritos à frente do rebanho, porque vou suscitar e conduzir contra Babilônia uma coligação de grandes nações vindas do norte. Contra ela se hão de enfileirar e a levarão de vencida. Suas setas são as de hábil guerreiro que não dispara sem atingir o alvo (Jer 50, 8-9).

Babilônia simboliza o mal que parece vencer o bem. Este conflito do bem como o mal é narrado no último livro da Bíblia, o Apocalipse, simbolizado por duas cidades: Jerusalém e Babilônia. A dinâmica desta luta é que, até um certo ponto parece que Babilônia ganhe esta luta, que o mal domine para sempre o bem. Até chegar ao grito de vitória do capítulo 14 e reiterado no capitulo 18.

Outro anjo seguiu-o, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia, por ter dado de beber a todas as nações do vinho de sua imundície desenfreada (Ap 14, 8).

 Clamou em alta voz, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis, porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo... Hão de chorar e lamentar-se por sua causa os reis da terra que com ela se contaminaram e pecaram, quando avistarem a fumaça do seu incêndio. Parados ao longe, de medo de seus tormentos, eles dirão: Ai, ai da grande cidade, Babilônia, cidade poderosa! Bastou um momento para tua execução! ... Então um anjo poderoso tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a grande cidade, e jamais será encontrada (Ap 18,1s).

 

Jerusalém. É a cidade onde foi construído o templo de JHWH, em cima do monte Sião. Jerusalém a casa de Deus construída pelos homens não deu certo. Etimologicamente Jerusalém quer dizer cidade da paz. São interessantes as páginas dos profetas que continuamente anunciam a destruição de Jerusalém e a sua reconstrução. Muitas páginas são dedicas seja a construção do primeiro tempo que do secundo. Dramáticas são as páginas do livro das Lamentações onde o autor descreve, de forma poética, os motivos da queda de Jerusalém:

Desapareceu da filha de Sião toda a sua glória. Seus príncipes se tornaram como cervos que não encontraram pastagens e que fogem, esgotados, diante dos que os perseguem. Nestes dias de males e vida errante, recorda-se Jerusalém das delícias dos tempos idos. Agora que seu povo sucumbiu sob os golpes do inimigo e ninguém vem socorrê-la! Olham-na seus inimigos, e zombam de sua devastação.  Graves foram os pecados de Jerusalém: ela ficou uma imundície. Quem a honrava, agora a despreza porque lhe viram a nudez. E ela geme e esconde o rosto.  Vê-se sua mancha sobre suas vestes. Ela não previra esse fim. É imensa a sua decadência, e ninguém vem consolá-la. “Olhai, Senhor, para a minha miséria, porque o inimigo se ensoberbece (Lamentações 1,1-8).

 

Nesta perspectiva, impressionantes são os capítulos 40-48 do profeta Ezequiel. Jerusalém é também a cidade que vive a história de amor entre a Sulamita e o seu namorado, símbolo do relacionamento entre Deus e seu povo.

Sou morena, mas sou bela, filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão. Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração ama procurei-o, sem o encontrar.  Vou levantar-me e percorrer a cidade, as ruas e as praças, em busca daquele que meu coração ama procurei-o, sem o encontrar. Os guardas encontraram-me quando faziam sua ronda na cidade. Vistes acaso aquele que meu coração ama? (Cant. 1,1. 2,1s).

É importante salientar que a Bíblia termina com a imagem da descida da Jerusalém celeste.

Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia.  Eu vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o esposo.  Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles.  Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição.  Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.  Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. O vencedor herdará tudo isso e eu serei seu Deus, e ele será meu filho (Ap 21,1-7).

Conclusão. A cidade em decidimos de morar é a cidade que se realize com tudo aquilo que Deus nos oferece. A nossa cidade é terrena, mas a nossa tarefa é humanizá-la. O Evangelho é a proposta para que este desejo possa se realizar. Cabe a nós arregaçar as mangas todo dia para que a cidade que construímos seja semelhante àquela que desce do céu.

 

 

martedì 10 settembre 2024

A raiz de tudo: viver para os outros

 




Semana de retiro espiritual às irmãs adoradoras do sangue de Cristo

6-12 setembro 2024 – Manaus

 


 

Paolo Cugini

 

A fonte de uma vida fraterna é o Evangelho, pois nele encontramos o caminho de uma vida autêntica, que não se manifesta somente exteriormente, mas nos oferece também os instrumentos para vivermos aquilo que lemos. O Evangelho apresenta uma proposta que exige a disponibilidade a se deixar questionar, a sair dos próprios caminhos, dos próprios projetos, para permitir de nascer do novo, do alto, pela ação do Espírito. Nas nossas relações humanas corriqueiras, que vivemos na comunidade, é fácil ver que tipo de caminho estamos realizando, ou seja, se estamos deixando o Espírito de Deus agir em nós, o se estamos segurando a nossa vida. Mais uma vez o nosso ponto de referência é Jesus, é ele que devemos observar, compreender as suas atitudes, a sua maneira de ser, de se relacionar com as pessoas. Tem algo de diferente nele que deve nosso inspirar e, ao mesmo tempo, provoca uma atração. Jesus é o protótipo da humanidade nova. Jesus manifesta a ideia que estava na origem da criação da humanidade.

Nessa altura do discurso poderíamos nos questionar: qual é a essência da vida de Jesus, da sua humanidade, do seu jeito de ser? Qual é a característica que marca a diferença, que o torna tão especial? Observando com atenção ao estilo de vida de Jesus a resposta não pode que ser uma: Jesus é o homem que vive para os outros, que vive para o Pai. Na existência humana de Jesus não encontramos uma célula de egoísmo, um átomo de individualismo, um fragmento mínimo de fechamento em si mesmo. Vamos então folear o Evangelho para apontar os momentos em que é visível esta atitude.

A sogra de Simão estava de cama, com febre e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela. Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los. À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio. Toda a cidade estava reunida diante da porta.  Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversas doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam (Mc 1, 30-35).

Esta página apresenta um dia típico de Jesus: mergulhado no sofrimento do mundo, uma vida totalmente dedicada para os outros, sobretudo os doentes, os pobres, os marginalizados. DO outro lado se percebe o desinteresse pela vida de Jesus, as suas exigências. De um lado, então, temos o homem Jesus totalmente despojado se doando totalmente para o próximo. Do outro lado, encontramos a humanidade egoísta, que pensa só em si mesma, na própria doença, fechada na própria dor e exige que Jesus cure. É uma página que desmascara a nossa realidade de humanidade mergulhada no egoísmo, que se torna cega, incapaz de olhar o outro, perceber o cansaço, a fatiga. É importante refletir sobre isso para não ter uma visão de um Jesus sobre-humano, super-homem. Isso acontece com todas as pessoas que se doam de forma gratuita e desinteressada: vivem a contato com uma humanidade cínica e egoísta que, se não tomar cuidado, com o tempo te esgota as energias. Por isso, depois de um dia deste jeito, encontramos Jesus se entregando na oração (Mc 1,36). É impossível aguentar o egoísmo e a superficialidade do mundo sem apreender a preencher a própria alma do amor do Pai. Este é o método de Jesus.

Outro dato interessante que manifesta a atitude a viver para os outros é o jeito de acompanhar os discípulos. Tomamos como exemplo a história de Pedro. No Evangelho de João Pedro é o discípulo que, no contexto da ceia derradeira, declara perante os outros a disponibilidade a morrer para Jesus. Depois de algumas horas, o mesmo Pedro renegará por três vezes de conhecer aquele homem que estava sendo condenado a morte. É de grande importância aquilo que acontece nas aparições depois da ressurreição assim como são narradas em são João.

Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?, e respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas (João 21,15-17).

Jesus tem uma humanidade que não guarda o rancor, mas é sempre atenta ao outro. Na perspectiva do Evangelho de João, ninguém pode anunciar o Evangelho a não ser os discípulos e as discipulas. Pedro, na noite da paixão de Jesus, tinha renegado o Mestre, rasgando o próprio discipulado. Jesus não pensa aquilo que Pedro fez com Ele mesmo, mas é preocupado com ele, com a sua caminhada de discípulo, a liderança que Jesus mesmo entregou para ele perante o grupo dos discípulos. Depois da ressurreição Jesus dedica tempo para que Pedro possa renovar o próprio discipulado e, assim, exercer o seu ministério de chefe da comunidade.

Tem um outro aspecto que vale a pena apontar na vida de Jesus: como viveu os últimos instantes da vida.

Eram conduzidos ao mesmo tempo dois malfeitores para serem mortos com Jesus.  Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda. E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam (Lc 23, 32-34).

Quando sofremos e vivemos situações de grande dor, a nossa humanidade tende a fechar-se em si mesma: é a força do instinto de sobrevivência. Em Jesus a humanidade permanece aberta para os outros também num momento de grande dor e sofrimento físico e moral. Este aspecto vale a pena aprofundar, pois é uma grande novidade. Poderíamos afirmar que a verdade do nosso relacionamento com o Mistério se mede na força de dominar o instinto de sobrevivência. Em Jesus isso é visível. A oração é autêntica e verdadeira se chega ao ponto de ser mais forte do instinto. Por isso, nas grades experiencias místicas, se trabalhava muito com a penitência e o jejum, para aprender a dominar os instintos. Jesus nos ensina que o caminho para chegar ao domínio de si, é outro, ou seja, um constate olhar em direção ao Pai. É o amor o único elemento que pode dobrar a força do instinto.

Nessa altura do discurso poderíamos nos questionar: a final de conta, qual é a característica de uma vida evangélica, o que reproduz em nós e como se manifesta na vida corriqueira? Mais uma vez é Paulo que nos oferece a resposta.

 Ele morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu (2 Cor 5,15).

Segundo Paulo a conversão é uma passagem de uma vida para si, concentrada em si mesmo, para uma vida pelos outros, por Deus. A essência da vida de Jesus, de como se manifestou na história é isso mesmo: uma vida para os outros. Quando no dia a dia encontramos fragmentos de vida gratuita e desinteressada, momentos silenciosos de vida doada gratuitamente para os outros, ali é presente o Espírito do Senhor. Por isso Jesus indicava o perfeito caminho do discipulado afirmando:

 Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína? (Lc 9,23-25).

Este é o versículo que marca o discipulado, a possibilidade de um estilo de vida diferente, liberado totalmente do orgulho e do egoísmo para uma vida de doação gratuita de si, passa através da liberdade no confronto de si mesmo, do próprios projetos humanos, deixando o espaço livre para o Espirito de Deus agir.

 

Amizade e fraternidade

 



 Semana de retiro espiritual ás irmãs adoradoras do sangue de Cristo

6-12 setembro 2024 – Manaus

Paolo Cugini

Elemento importante na nossa caminhada de espiritualidade bíblica sobre o tema da amizade é a proposta da fraternidade. Já no A.T. esta proposta aparece na imagem do Povo de Deus. Israel é declarado como povo consagrado a JHWH (Dt 7, 6), um povo que Deus escolheu “para que pertenças a ele como seu povo próprio dentre todos os povos que existem na face da terra” (Dt 7,6). Israel é, então, chamado, escolhido a ser um povo que manifesta uma característica especial: pertencer a IHWH.

Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração.  Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares (Dt 6,4-7).

Para ser o povo de Deus que pertence a IHWH deve amá-lo de todo coração. O amor a Deus é o elemento que permite ao Povo de manifestar a diferença entre os outros povos. A separação produz como consequência imediata a exigência da santidade:

 Pois eu sou o Senhor, vosso Deus. Vós vos santificareis e sereis santos, porque eu sou santo. Não vos contaminareis com esses animais que se arrastam sobre a terra, porque eu sou o Senhor que vos tirou da terra do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos porque eu sou santo (Lv 11, 44-45).

 Sabemos como a história se desenvolveu e como o povo escolhido por Deus se perdeu ao longo dos séculos, não conseguindo viver as exigências pedidas por JHWH.

Jesus veio para reconstruir o novo povo de Deus. Esta ideia não é presente apenas na escolhe dos 12 apóstolos, como seguidores e representantes das doze tribos de Israel, mas sobretudo no grupo de pessoas que ele escolheu para anunciar o Evangelho junto com ele. É uma pequena comunidade que anuncia o evangelho, que é a boa nova. O anúncio de uma humanidade nova alicerçada no amor fraterno, tão radical ao ponto de exigir o amor para os inimigos, não podia ser feito que com um grupo de pessoas cuja vivência manifestava aquilo que o Mestre andava dizendo e fazendo. As bem-aventuranças são sem dúvida a carta magna deste novo estilo de vida, que manifesta uma diversidade dos irmãos e as irmãs em Cristo (Mt 5,1-11). A busca de Deus da nova comunidade deve ser visível na vida despojada, no abandono á providência:

 Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?  E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo não trabalham nem fiam.  Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?  Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?  São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.  Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado (Mt 6, 25-34).

Esta página do Evangelho é fundamental para reconhecer a nova proposta de Jesus. A santidade exigida não se mede mais num relacionamento de tipo religioso, mas no estilo de vida. É visível a busca de Deus por parte da nova comunidade de discípulos e discipulas, no estilo de vida simples e despojados. Além disso, esta diferença deve ser visível também na postura de buscar constantemente o último lugar e de não entrar em brigas pelo poder.

Nisso aproximou-se a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma súplica.  Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda.  Jesus disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? Sim, disseram-lhe. De fato, bebereis meu cálice. Quanto, porém, ao sentar-vos à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim vo-lo conceder. Esses lugares cabem àqueles aos quais meu Pai os reservou. Os dez outros, que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos.  Jesus, porém, os chamou e lhes disse: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade.  Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo.  E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo.  Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20,20-28).

Nada de busca de poder, de brigas para ser o melhor entre os irmãos e as irmãs que se reconhecem na proposta de Jesus, mas desejo de servir, de ser o último, o pequeno. É sem dúvida uma nova espiritualidade que Jesus propõe, uma espiritualidade que não é humana, não é uma filosofia, mas é fruto exclusivamente da ação do Espírito Santo, que reproduz em nós os traços da humanidade de Jesus. É aquilo que Jesus mesmo falou no diálogo com Nicodemos quando afirmou que era necessário renascer do alto. Para pertencer ao grupo de discípulos e discipulas de Jesus é necessária esta disponibilidade interior, deixar o espaço na própria alma para que o Espírito Santo possa reconstruir em nós os traços da humanidade de Jesus.

É Paulo que entendeu muito bem este aspecto da nova fraternidade de Jesus, quando em várias circunstâncias aponta dois tipos de possibilidade de vida: segundo a carne e segundo o Espírito. São duas modalidades diferentes ei viver, que manifestam atitudes e estilos contrapostos. Uma pagina exemplar disso se encontra em Gálatas:

 Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne.  Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis.  Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei.  Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, temperança. Contra estas coisas não há lei.  Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito (Gal 5, 16-25).

A vida fraterna, que expressa a amizade do Senhor entre os irmãos e as irmãs, é formada pela ação do Espírito Santo que transforma a nossa humanidade naquela mesma imagem que contemplamos quando lemos o Evangelho (cfr. 2 Cor 3,18). Quero terminar esta reflexão bíblica citando uma das tantas recomendações de Paulo para as pessoas que frequentavam a comunidade:

 Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!  Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade. O Senhor está próximo.  Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças.  E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.  Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos (Fil 4,4-8).

Tomamos a sério estas recomendações de Paulo para viver melhor e em modo mais saudável a nossa amizade em Cristo e entre nós.

 

domenica 8 settembre 2024

Maldade e relações humanas

 



Semana de etiro espiritual com a congregação das Adoradoras do Sangue de Cristo


 

 

Paolo Cugini

A verdade das relações humanas de amizade depara contra um dato antropológico de grande importância: a nossa humanidade é estragada. Existe algo na estrutura do homem e da mulher que não permite realizar relacionamentos autênticos e duradouros. Este dado é narrado ao longo da história da salvação.

 O capítulo 3 do Genesis é o ponta pé desta narração. O homem e a mulher que não aguentam e desobedecem ao mandamento de Deus de não comer da arvore. O texto fala que era uma arvore desejável. Este desejo estimula a concupiscência, como diria João (cfr. 1 João 2,16) que leva a mulher a comer, desobedecendo ao mandamento de Deus. ´uma narração mítica que mostra a estrutura antropológica do homem e da mulher: existe algo nesta estrutura que dobra a vontade.

Genesis capítulo 4: na história de Caim e Abel continua uma narração que mostra o limite da estrutura humana, que leva a considerar o irmão como inimigo. Qual é a justificativa do texto sobre o crime de Caim?

Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Entretanto, se assim não fizeres, sabe que o pecado espreita à tua porta e deseja destruir-te; cabe a ti vencê-lo! (Gen 4,7).

Existe uma força, que a Bíblia chama de pecado, que se insinua no coração do homem, da mulher e o domina, o leva a fazer o mal, a estragar os relacionamentos humanos. Esta análise bíblica é sem dúvida fruto da experiencia humana. Observando a maneira das pessoas agirem, percebe-se uma fraqueza, que as leva a não conseguir viver conforme as próprias decisões, a ser infiel. A causa desta fraqueza é apontada naquilo que a Bíblia chama de pecado, uma força misteriosa que mora na pessoa humana tornando-a incapaz de viver aquilo que percebe como bem.

Este aspecto volta várias vezes na narração bíblica. A mais paradigmática se encontra na história do povo de Israel que, apesar de ter sido libertado da situação de escravidão e de sofrimento que vivia no Egito, toda vez que encontra dificuldades na peregrinação do deserto se queixa.

O Senhor disse a Moisés: “Vai, desce, porque se corrompeu o povo que tiraste do Egito. Desviaram-se depressa do caminho que lhes prescrevi fizeram para si um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: eis, ó Israel, o teu Deus que te tirou do Egito. Vejo, continuou o Senhor, que esse povo tem a cabeça dura.  Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada, mas de ti farei uma grande nação.” (Ex 32,7s).

Israel é um povo fraco, que se perde constantemente. Basta pouco para ele esquecer e adorar outros deuses, ou construindo ídolos, como no caso narrado acima. A consciência do homem e da mulher é débil, frágil, se corrompe com nada e, sobretudo, se deixa escravizar e mandar pelos instintos, que arrastam as pessoas. O livro dos Reis é cheio de chefes do povo que não prestaram e desviaram o caminho, levando o povo na idolatria. Também os profetas acusam os chefes religiosos que não cumpriram a tarefa para ele entregada e cuidara de si mesmo e dos próprios interesses, ao invés de cuidar do povo (cfr. Ez 34).

Nesta linha de apontar algo de negativo dentro da estrutura humana que estraga a vida das pessoas, afetando a vontade e provocando escolhas erradas se encontra, também, o relacionamento com Deus. Este é um dos grandes temas da pregação profética. Tem liturgias que são estragadas. Até atos penitencias, que parecem bonitos, na realidade são totalmente estragados pelo pecado. Alguns exemplos.

Vinde, voltemos ao Senhor, ele feriu-nos, ele nos curará ele causou a ferida, ele a pensará.  Dar-nos-á de novo a vida em dois dias ao terceiro dia levantar-nos-á, e viveremos em sua presença.  Apliquemo-nos a conhecer o Senhor sua vinda é certa como a da aurora ele virá a nós como a chuva, como a chuva da primavera que irriga a terra.  Que te farei, Efraim? Que te farei, Judá? Vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa.  Por isso é que os castiguei pelos profetas, e os matei pelas palavras de minha boca, e meu juízo resplandece como o relâmpago, porque eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos (Os 6,1-6).

Existe um ato penitencial que não presta, porque a atitude de quem o realiza não ditada do desejo de conversão, de arrependimento e de mudança, mas de realizar um rito que serve nada mais que para tranquilizar a própria consciência. Existe uma liturgia que é a serviço do nosso orgulho e não uma disposição interior para nos tornarmos dóceis á vontade de Deus. Este aspecto afeta, também, um elemento litúrgico como o jejum. É o profeta Isaias que denuncia:

O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor? Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo (Is 58, 6-7).

Jesus é na mesma linha dos profetas. No evangelho de Mateus, em várias circunstâncias repete o grito dos profetas: quero misericórdia, não sacrifícios (Mt 9,13). Jesus é o Mestre que revela de onde vem o material humano que estraga a vida das pessoas:

“Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem. Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem (Mc 7,20-230.

A análise mais profunda da pessoa humana incapaz de fazer o bem por causa de uma força negativa que encontra em si, é Paulo.

 Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido ao pecado.  Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero faço o que aborreço.  E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa.  Mas, então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita.  Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero.  Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita.  Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal.  Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser.  Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?… Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! (Rom 8,14-25).

Este é o grande problema, segundo são Paulo: Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. E isso porque encontramos dentro de nós algo que dobra a nossa vontade e nos condena numa vida desumana. Paulo não nos deixa com uma sensação negativa, pois nos alerta que o Espirito Santo nos dará a força de Deus para viver o bem que percebemos. É o tema do capítulo 8 de Romanos.

Não é um caso que os evangelhos sinóticos apresentam o começa da vida publica de jesus colocando-o no deserto tentado pelo satanás. Jesus é homem como nós, mas que o pecado não dobrou. Os evangelistas nos alertam que, quem está chegando no mundo e que tentará de nos orientar é um homem que o pecado, o mal nunca dobrou. Esta humanidade resistente ao mal é exatamente a obra do Espírito Santo em nós.