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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A Noite da falsa sabedoria

 




 

Paulo Cugini

 

Ai de vós, advogados! Porque tirastes a chave do conhecimento; não entrastes vós mesmos, e impedistes os que estavam a entrar (Lc 11:52).

 

É noite. O ruído do dia se dissipou, as ruas esvaziaram-se, e restam apenas as perguntas, aquelas que conseguimos manter à distância sob a luz do sol. Na escuridão, as coisas se apresentam de forma diferente: despojam-se de suas máscaras, e o que parecia sólido durante o dia revela suas rachaduras. É nessas horas que gostaria de fazer uma pausa e refletir sobre um caminho do conhecimento que não ilumina, mas obscurece; que não liberta, mas aprisiona.

Existe um caminho do conhecimento que é negativo. Não é imediatamente reconhecível, pois está revestido de palavras pomposas, livros, títulos e autoridade. Mas no silêncio da noite, sua verdadeira natureza emerge: é aquele conhecimento que, em vez de ser colocado a serviço da Sabedoria, se transforma em uma necessidade de posse. Não busca mais a verdade para ser transformada por ela; busca-a para agarrá-la, enclausurá-la e administrá-la. A sabedoria nascida desse caminho é, na realidade, uma grande fraude: um engano colossal, inteiramente voltado para obter e manter o poder. Manipula o conhecimento autêntico, molda-o aos seus próprios interesses, reduz-o a uma ferramenta. E assim, lentamente, como uma névoa que se eleva das valas nas noites de outono, distancia as pessoas da verdade. Quando o conhecimento se torna um fim em si mesmo, gera-se um ciclo vicioso: em vez de abrir fronteiras, ele as fecha; em vez de escancarar janelas para o mistério, ergue muros e tranca portas.

Quando essas pessoas ocupam os assentos do poder, é o povo comum que sofre. Aqueles que, por natureza, confiam nos poderosos; que acreditam nas palavras dos comandantes a ponto de fazerem o que lhes é decidido. É nesse nível que a tragédia se desenrola, em silêncio, como certas coisas acontecem nas horas mais sombrias: sem testemunhas, sem alarde, mas deixando feridas profundas. A tragédia se torna ainda mais grave quando envolve conhecimento religioso. Quando aqueles que guiam a religião desenvolvem conhecimento e, com ele, leis feitas sob medida para manter seu próprio poder, o que oferecem não é mais um caminho para o Mistério, mas um caminho perverso que leva para longe do Mistério. E o povo se perde, como um viajante que segue uma lanterna na noite, confundindo-a com uma estrela, e se vê cada vez mais distante de casa.

A religião é um tema sensível porque toca as cordas mais profundas da consciência humana, aquela parte de nós que permanece desperta mesmo quando tudo o mais está adormecido, sensível ao que transcende a realidade material. São as pessoas simples que percebem a presença misteriosa de um Mistério que lhes chega, sobretudo nas situações mais desesperadoras da vida. São elas que se entregam a esse Mistério quando tudo ao seu redor está envolto em trevas: nas vigílias junto aos doentes, nas esperas sem resposta, nas noites em que o pão é escasso e o futuro parece um caminho sem lua.

A tragédia ocorre quando aqueles que se apresentam como mediadores do conhecimento do Mistério, em vez de ajudarem essas pessoas a trilhar seus caminhos, as afastam. Em vez de lançar luz, acrescentam escuridão à escuridão. Sobrecarregam suas vidas com preceitos que apenas alimentam a culpa, como pedras colocadas sobre ombros já curvados. E aqueles que buscam consolo encontram apenas julgamento; aqueles que buscam reconhecimento encontram apenas uma lei.

Dessa perspectiva, o Evangelho se apresenta como um caminho que leva ao conhecimento do Mistério: um Mistério que se manifesta não como ameaça, mas como amor, justiça e misericórdia. Não é um conhecimento a ser zelosamente guardado, mas uma lâmpada a ser colocada sobre a mesa para iluminar a todos na casa. O acesso pessoal ao Mistério torna vã qualquer forma de mediação que pretenda controlá-lo: ninguém pode ficar no limiar decidindo quem entra e quem fica de fora. Uma das maiores obras de Jesus foi justamente desmantelar a religião humana e sua falsa sabedoria. Ele fez isso sentando-se à mesa com os excluídos, tocando aqueles considerados impuros, perdoando sem pedir permissão às autoridades do templo. Falou com pescadores e pescadoras, com os doentes e pecadores, com aqueles que a sabedoria dos poderosos havia deixado do lado de fora. E a essas pessoas simples, revelou o que havia permanecido oculto aos sábios e inteligentes.

Por isso, o Evangelho pode ser considerado o caminho da liberdade: um caminho que todo homem e mulher pode percorrer, sem precisar pedir permissão a nenhum guardião do conhecimento. É um caminho que não esmaga sob o peso da culpa, mas eleva; que não fecha fronteiras, mas as abre; que não retém a luz, mas a espalha. A noite, mais cedo ou mais tarde, termina. E aqueles que tiveram a coragem de atravessá-la sem se apoiar nas falsas lanternas do poder descobrem que o Mistério não estava longe: caminhava ao nosso lado, em silêncio, como um amigo que aguardava o amanhecer conosco.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Liberdade que atravessa a noite

Somente aqueles que reconhecem e rompem as correntes construídas pelos homens podem adentrar a noite do mundo sem contribuir para a sua escuridão.

 

 


Paulo Cugini

 

 

Há uma hora da noite em que os ruídos se dissipam e as coisas se revelam como realmente são. As palavras perdem suas defesas, os hábitos deixam de parecer inevitáveis ​​e, no silêncio, podemos distinguir melhor o que provém do Mistério daquilo que os homens construíram em seu nome. Lendo o Evangelho nessa hora interior, a liberdade de Jesus impressiona: uma liberdade tranquila e radical, que não precisa de autocontrole, pois nasce de um olhar límpido.

Jesus não se deixa aprisionar pelas leis criadas por religiosos, nem pelas circunstâncias que buscam impor gestos, distâncias e palavras preestabelecidas. Onde outros veem uma regra a ser cumprida, ele vê uma pessoa. Onde outros avaliam a correção de um ritual, ele ouve uma ferida, uma fome, um desejo de ser acolhido. Ele não pede que aqueles à sua frente se curvem primeiro às formalidades da tradição; ele lhes restaura a dignidade, os encontra como são e lhes abre um espaço para respirar.

Sua liberdade vem do amor. Seu olhar se dirige diretamente ao rosto que encontra, sem se deter nos rótulos que lhe são atribuídos. Jesus quer que cada pessoa se sinta alcançada, reconhecida, finalmente em casa. Por isso, acolhe a todos com misericórdia: não uma benevolência distraída, mas uma proximidade capaz de penetrar nos recônditos mais obscuros da existência sem temer a sua sombra.

E é precisamente para com aqueles que as tradições humanas distanciaram que essa atenção se torna mais intensa. Homens de poder religioso muitas vezes transformaram comportamentos, fraquezas e diferenças em julgamentos; chamaram de pecado aquilo que não compreendiam, separando as pessoas do Mistério justamente no momento em que afirmavam preservar a sua presença. Jesus, porém, ultrapassa essas fronteiras. Ele estende a mão aos estigmatizados, senta-se ao lado dos considerados impuros, toca naqueles que ninguém quer tocar.

Ele veio para aproximar a todos do Pai, sem exceção. Por isso, estende a mão às margens, onde a noite parece mais profunda e o abandono mais definitivo. Busca os que foram deixados de lado, aproxima-se dos que aprenderam a se esconder, abraça os que já não ousam esperar por um abraço. Em sua misericórdia, o Pai aparece não como o guardião de um limiar, mas como aquele que sai ao encontro de seus filhos e reabre a casa.

Mas essa liberdade não surge da improvisação. Ela exige uma longa e profunda exploração do eu, onde as vozes do medo e da obediência cega continuam a falar mesmo quando tudo está em silêncio. É necessário mergulhar nas tradições recebidas, questionar suas raízes, distinguir a sabedoria do engano e a fé dos artifícios com que o poder se protege. Nem tudo que é antigo é sagrado; nem tudo que se repete leva à vida.

Só quem reconhece e rompe as correntes construídas pelos homens pode adentrar a noite do mundo sem aumentar sua escuridão. Só quem aprendeu a ser livre pode aproximar-se dos outros sem dominá-los, desatar nós sem impor novos laços, proferir palavras que não julgam, mas abrem caminhos. A liberdade de Jesus é essa luz discreta: não ofusca, não humilha, não exclui. Permanece acesa ao lado de cada rosto, até que cada um possa reencontrar o caminho para o Pai e descobrir que jamais foi esquecido.

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A noite da escolha

 




 

Paolo Cugini

 

 

Há um tempo na vida em que tudo parece silencioso. Ainda não amanheceu, e, no entanto, a noite já não é apenas escuridão: é útero, expectativa, profundidade. Nessa hora, o homem compreende, talvez pela primeira vez, que viver não significa permanecer suspenso diante de todas as possibilidades, como se estivesse diante de um céu repleto de estrelas inalcançáveis, mas aceitar que uma única estrela se torna orientação, direção, destino.

A metáfora do grão de trigo que morre para dar fruto fala precisamente desta misteriosa lei da existência: nada se torna frutífero a menos que primeiro aceite a sua perda. A semente, quando lançada à terra, desaparece. Não conserva a sua forma, não defende a sua pequena integridade, não permanece protegida pela casca. Adentra a escuridão, deixa-se cobrir, entrega-se a uma transformação que se assemelha ao fim. Contudo, é precisamente aí, nessa perda silenciosa, que começa uma nova vida.

Isso também se aplica a todas as pessoas. Chega um momento em que não basta mais se agarrar a sonhos, hipóteses e desejos dispersos. Precisamos escolher. Precisamos reunir nossas forças dispersas, nossas energias internas, nossas intuições, nossas feridas, nossas esperanças e concentrá-las em um objetivo específico. A escolha final não nasce da improvisação: é o fruto secreto de anos em que a alma teve tempo para amadurecer, questionar a si mesma, ler, orar, meditar, cometer erros, se reerguer e vivenciar experiências capazes de abrir novos caminhos na consciência.

A adolescência e a juventude, portanto, não são meramente fases cronológicas, mas tempos interiores de preparação. São a longa vigília antes de uma decisão, a jornada pela noite onde se aprende a escutar o que realmente chama. Aqueles que nunca tiveram tempo para mergulhar em si mesmos, para guardar sua alma, para habitar o silêncio e o questionamento, dificilmente serão capazes de fazer uma escolha profunda. Podem ser atraídos por muitos caminhos, mas incapazes de se comprometer com apenas um.

Escolher, portanto, é como morrer. Não porque a escolha destrua a vida, mas porque a liberta da incerteza. Toda decisão autêntica traz consigo uma renúncia: ao escolher um caminho, abandono para sempre todos os outros caminhos possíveis. O que poderia ter sido permanece como uma constelação distante. Mas somente aqueles que aceitam essa perda podem se tornar adultos. O adulto não é alguém que deixou de desejar, mas sim alguém que compreendeu que o desejo, para não se consumir em um sonho, precisa ser concretizado em uma direção.

Uma decisão definitiva não elimina as crises; na verdade, muitas vezes as supera. Haverá noites em que o caminho escolhido parecerá estreito demais, dias em que o peso das limitações pessoais, das falhas e das contradições abalará o coração. Mas, justamente nesses momentos, manter-se firme na decisão tomada significa reconhecer que a existência humana não deve ser desperdiçada em mil possibilidades não realizadas. Ela deve ser vivida em uma única vida e, acima de tudo, ser vivida autenticamente.

Autenticidade não é uma pureza ideal, nem a pretensão de nunca falhar. É ser verdadeiro consigo mesmo, a capacidade de aceitar as próprias limitações, reconhecer as próprias sombras, acolher até mesmo os aspectos dolorosos das próprias escolhas. Escolhas autênticas não apagam as falhas: elas as acolhem, as assimilam e as transformam. Assim como a terra não rejeita uma semente apodrecida, mas a acolhe para que se torne uma raiz, a vida acolhe o que parece perdido dentro de nós e o integra a uma fertilidade maior.

Aqueles que não decidem permanecem prisioneiros de uma juventude sem realizações. Acreditam ser livres por manterem todas as possibilidades em aberto, mas essa liberdade, se nunca se concretiza, torna-se um quarto fechado. O mito de sempre poder escolher o amanhã consome lentamente o presente. No fim, aqueles que não lançam sua semente à terra descobrem que ela permaneceu intacta, sim, mas estéril. Aqueles que pensam que podem se salvar não escolhendo, na verdade, estão perdidos. Aqueles que não escolhem, morrem sem ter dado frutos.

Nascemos para amar, e o amor é sempre uma escolha. Não uma emoção passageira, não uma luz repentina que encanta e depois se apaga, mas um compromisso que absolve um rosto, uma vocação, um caminho, um bem. O amor abarca a infinidade de possibilidades e a concentra num único sim. É por isso que assusta: porque nos pede para deixar tudo para trás. Mas é precisamente por isso que salva: porque impede que a vida se dissolva no nada de alternativas inexploradas.

Até mesmo a liberdade, para ser verdadeira, precisa cruzar esse limiar. Ela não consiste em permanecer eternamente disponível a tudo, mas em desejar verdadeiramente algo, em se comprometer com aquilo que se reconhece como bom, em dizer: este é o meu caminho, esta é a terra na qual aceito ser lançado, este é o lugar onde desejo frutificar. Liberdade sem escolha é um céu sem aurora; a liberdade que escolhe, porém, conhece a noite, mas através da própria noite prepara o dia.

O grão de trigo, então, nos ensina que a vida autêntica não é possuída ao se apegar a ela, mas ao entregá-la. Ela não é salva permanecendo intacta, mas permitindo-nos ser transformados. Cada escolha definitiva é uma pequena morte e, ao mesmo tempo, uma promessa de ressurreição: algo termina para que algo possa finalmente começar. Na calada da noite, sob a terra, invisível aos olhos, a semente morre. Mas é precisamente ali que a vida, silenciosamente, prepara seu fruto.

 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

A raiz de tudo: viver para os outros

 




Semana de retiro espiritual às irmãs adoradoras do sangue de Cristo

6-12 setembro 2024 – Manaus

 


 

Paolo Cugini

 

A fonte de uma vida fraterna é o Evangelho, pois nele encontramos o caminho de uma vida autêntica, que não se manifesta somente exteriormente, mas nos oferece também os instrumentos para vivermos aquilo que lemos. O Evangelho apresenta uma proposta que exige a disponibilidade a se deixar questionar, a sair dos próprios caminhos, dos próprios projetos, para permitir de nascer do novo, do alto, pela ação do Espírito. Nas nossas relações humanas corriqueiras, que vivemos na comunidade, é fácil ver que tipo de caminho estamos realizando, ou seja, se estamos deixando o Espírito de Deus agir em nós, o se estamos segurando a nossa vida. Mais uma vez o nosso ponto de referência é Jesus, é ele que devemos observar, compreender as suas atitudes, a sua maneira de ser, de se relacionar com as pessoas. Tem algo de diferente nele que deve nosso inspirar e, ao mesmo tempo, provoca uma atração. Jesus é o protótipo da humanidade nova. Jesus manifesta a ideia que estava na origem da criação da humanidade.

Nessa altura do discurso poderíamos nos questionar: qual é a essência da vida de Jesus, da sua humanidade, do seu jeito de ser? Qual é a característica que marca a diferença, que o torna tão especial? Observando com atenção ao estilo de vida de Jesus a resposta não pode que ser uma: Jesus é o homem que vive para os outros, que vive para o Pai. Na existência humana de Jesus não encontramos uma célula de egoísmo, um átomo de individualismo, um fragmento mínimo de fechamento em si mesmo. Vamos então folear o Evangelho para apontar os momentos em que é visível esta atitude.

A sogra de Simão estava de cama, com febre e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela. Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los. À tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio. Toda a cidade estava reunida diante da porta.  Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversas doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam (Mc 1, 30-35).

Esta página apresenta um dia típico de Jesus: mergulhado no sofrimento do mundo, uma vida totalmente dedicada para os outros, sobretudo os doentes, os pobres, os marginalizados. DO outro lado se percebe o desinteresse pela vida de Jesus, as suas exigências. De um lado, então, temos o homem Jesus totalmente despojado se doando totalmente para o próximo. Do outro lado, encontramos a humanidade egoísta, que pensa só em si mesma, na própria doença, fechada na própria dor e exige que Jesus cure. É uma página que desmascara a nossa realidade de humanidade mergulhada no egoísmo, que se torna cega, incapaz de olhar o outro, perceber o cansaço, a fatiga. É importante refletir sobre isso para não ter uma visão de um Jesus sobre-humano, super-homem. Isso acontece com todas as pessoas que se doam de forma gratuita e desinteressada: vivem a contato com uma humanidade cínica e egoísta que, se não tomar cuidado, com o tempo te esgota as energias. Por isso, depois de um dia deste jeito, encontramos Jesus se entregando na oração (Mc 1,36). É impossível aguentar o egoísmo e a superficialidade do mundo sem apreender a preencher a própria alma do amor do Pai. Este é o método de Jesus.

Outro dato interessante que manifesta a atitude a viver para os outros é o jeito de acompanhar os discípulos. Tomamos como exemplo a história de Pedro. No Evangelho de João Pedro é o discípulo que, no contexto da ceia derradeira, declara perante os outros a disponibilidade a morrer para Jesus. Depois de algumas horas, o mesmo Pedro renegará por três vezes de conhecer aquele homem que estava sendo condenado a morte. É de grande importância aquilo que acontece nas aparições depois da ressurreição assim como são narradas em são João.

Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?, e respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas (João 21,15-17).

Jesus tem uma humanidade que não guarda o rancor, mas é sempre atenta ao outro. Na perspectiva do Evangelho de João, ninguém pode anunciar o Evangelho a não ser os discípulos e as discipulas. Pedro, na noite da paixão de Jesus, tinha renegado o Mestre, rasgando o próprio discipulado. Jesus não pensa aquilo que Pedro fez com Ele mesmo, mas é preocupado com ele, com a sua caminhada de discípulo, a liderança que Jesus mesmo entregou para ele perante o grupo dos discípulos. Depois da ressurreição Jesus dedica tempo para que Pedro possa renovar o próprio discipulado e, assim, exercer o seu ministério de chefe da comunidade.

Tem um outro aspecto que vale a pena apontar na vida de Jesus: como viveu os últimos instantes da vida.

Eram conduzidos ao mesmo tempo dois malfeitores para serem mortos com Jesus.  Chegados que foram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, como também os ladrões, um à direita e outro à esquerda. E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. Eles dividiram as suas vestes e as sortearam (Lc 23, 32-34).

Quando sofremos e vivemos situações de grande dor, a nossa humanidade tende a fechar-se em si mesma: é a força do instinto de sobrevivência. Em Jesus a humanidade permanece aberta para os outros também num momento de grande dor e sofrimento físico e moral. Este aspecto vale a pena aprofundar, pois é uma grande novidade. Poderíamos afirmar que a verdade do nosso relacionamento com o Mistério se mede na força de dominar o instinto de sobrevivência. Em Jesus isso é visível. A oração é autêntica e verdadeira se chega ao ponto de ser mais forte do instinto. Por isso, nas grades experiencias místicas, se trabalhava muito com a penitência e o jejum, para aprender a dominar os instintos. Jesus nos ensina que o caminho para chegar ao domínio de si, é outro, ou seja, um constate olhar em direção ao Pai. É o amor o único elemento que pode dobrar a força do instinto.

Nessa altura do discurso poderíamos nos questionar: a final de conta, qual é a característica de uma vida evangélica, o que reproduz em nós e como se manifesta na vida corriqueira? Mais uma vez é Paulo que nos oferece a resposta.

 Ele morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu (2 Cor 5,15).

Segundo Paulo a conversão é uma passagem de uma vida para si, concentrada em si mesmo, para uma vida pelos outros, por Deus. A essência da vida de Jesus, de como se manifestou na história é isso mesmo: uma vida para os outros. Quando no dia a dia encontramos fragmentos de vida gratuita e desinteressada, momentos silenciosos de vida doada gratuitamente para os outros, ali é presente o Espírito do Senhor. Por isso Jesus indicava o perfeito caminho do discipulado afirmando:

 Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína? (Lc 9,23-25).

Este é o versículo que marca o discipulado, a possibilidade de um estilo de vida diferente, liberado totalmente do orgulho e do egoísmo para uma vida de doação gratuita de si, passa através da liberdade no confronto de si mesmo, do próprios projetos humanos, deixando o espaço livre para o Espirito de Deus agir.

 

sábado, 7 de setembro de 2024

Liberdade, alma dos relacionamentos humanos

 




 

Paolo Cugini

Continuando a reflexão sobre o relacionamento de amizade na perspectiva bíblica, percebemos que um elemento fundamental que permite uma relação de amizade é a liberdade. Poderíamos dizer que, sem liberdade, é impossível tecer laços de amizade autêntica. Esta poderia ser a chave de leitura da aproximação do Mistério com Moisés. Este encontro teve com objetivo de propor um caminho de libertação, pois sem liberdade é impossível amar a Deus. O ato de fundação do povo de Deus é, então, uma libertação. Nesta perspectiva podemos dizer que a liberdade é dom de Deus.

 O Senhor disse: “Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel, lá onde habitam os cananeus, os hiteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus (Ex 3,7-8).

Este dom de Deus que é a liberdade, que fundamenta a aliança exige uma resposta do homem, da mulher, do povo. Exemplo disso é a assembleia de Siquém (Josué 24).

. Nós também, nós serviremos o Senhor, porque ele é o nosso Deus... Josué disse-lhes: Sois testemunhas contra vós mesmos de que escolhestes o Senhor para prestar-lhe culto. Somos testemunhas! Responderam eles (Josué 24, 15.18).

A passagem do Mar Vermelho foi percebida como uma experiencia de passagem: da escravidão para a libertação (cf Ex 14-15).

Em várias circunstâncias Moises coloca o povo perante uma escolha: a vida o a morte.

Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a I tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais (Ex 30, 19-20).

A liberdade é em sintonia com a vida e, para escolhê-la é necessária uma situação interior de sintonia com Deus, a sua Palavra, a sua vontade.

Os profetas anunciaram um caminho de liberdade. Entre eles podemos citar Isaias e Jeremias.

O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade (Is 61,1).

Num contexto histórico onde a situação do povo de Israel tinha voltado a piorar, Deus promete, através do profeta Isaias, a liberdade dos prisioneiros.

A liberdade não si identifica com o espontaneísmo: o perigo é nos tornarmos escravos de nós mesmos, os nossos instintos, os nossos vícios. Por isso Moises oferece uma lei para o povo (cf Ex 20). A liberdade para brotar na nossa via exige uma orientação, um guia: é este o sentido dos dez mandamento que, como sabemos, não conseguiram a endireitar o povo. Por isso o profeta Jeremias, no meio do conflito que levou o povo de Israel no exilio em Babilônia anuncia uma nova aliança:

 Dias hão de vir - oráculo do Senhor - em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente da que concluí com seus pais no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito, aliança que violaram embora eu fosse o esposo deles.  Eis a aliança que, então, farei com a casa de Israel - oráculo do Senhor: Incutir-lhe-ei a minha lei gravá-la-ei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo.  Então, ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: Aprende a conhecer o Senhor, porque todos me conhecerão, grandes e pequenos - oráculo do Senhor -, pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar nenhuma lembrança de seus pecados (Jer 31, 31-34).

A lei de Deus que será imprimido no coração das pessoas é o amor e, na forma mais alta, o amor de Deus se manifesto na pessoa de Jesus. Pensando nisso são Paulo dirá que:

 E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rom 5,5).

Existe então, um caminho de libertação que o homem e a mulher são chamados a realizar, caminho que se torna possível através da ação do Espírito Santo que derrama em nós o amor de Deus que se manifestou no seu Filho Jesus. Este é um dato importante. Jesus é o homem livre que age com liberdade, não é condicionado nem de elementos internos nem externos.

Neste itinerário bíblico chama atenção a grande liberdade de Jesus nas relações humanas. Se sente livre nas relações com as pessoas que a lei considerava impuras, como os leprosos (cf. Mc 1,40). Livre, também, no relacionamento com as mulheres (cf. Lc 8,1-3). Jesus manifestava grande liberdade no confronto das tradições religiosas como o sábado (cfr. Mc 3,1-6), ou como o adultério (cfr. Jo 8, 1s) e ele explica também o porquê (Cfr. Mc 7). Grande liberdade Jesus manifestava, também, com aquelas categorias de pessoas que os chefes religiosos consideravam pecadores, como os cobradores de impostos (cfr. Mt 9,10-13). Interessante e cheia de significado é a liberdade de jesus acompanhando o caminho dos discípulos e discipulas. Um exemplo claríssimo é o dinamismo do discipulado de Pedro, assim como é apresentado no Evangelho de João. Pedro renega de conhecer jesus e, depois da ressurreição, Jesus se apresenta para reconstruir o discipulado de Pedro. Jesus não guarda mágoa, rancor: é uma pessoa livre. Nessa altura podemos nos perguntar: de onde vem a liberdade de Jesus é nos ensina o que?

Acredito que a grande liberdade interior que permite a ele de tecer laços de amizades profunda com qualquer pessoa, seja ela que for, é fruto do seu profundo relacionamento com Deus, o Pai. Mais uma vez é o caminho da interioridade que o estilo de vida de Jesus aponta. Se quisermos ser pessoas livres precisamos escolher o caminho da interioridade, do cuidado com a nossa alma. Somente pessoas livres tecem laços de amizade autenticas, pis, somente quem é livre pode libertar os outros. Jesus foi Mestre nisso.

 

sábado, 29 de junho de 2024

MISSÃO DE JESUS: LIBERTAR O MUNDO DA RELIGIÃO - DOMINGO XIV/B

 



(Ez 2, 2-5; Sl 122; 2 Cor 12,7-10; Mc 6,1-6)

Paulo Cugini

 

A liturgia de hoje oferece-nos uma reflexão sobre alguns temas interligados, que dizem respeito à dificuldade que Jesus encontrou no seu ministério e, em geral, à dificuldade encontrada por todos aqueles que desejam orientar espiritualmente a sua vida, tendo como marco Deus e a sua Palavra. É uma dificuldade que não diz respeito a um povo ou período histórico específico. É, de facto, um problema que encontramos em todas as épocas e em todos os tempos. Claro, é notável a resistência que Jesus teve de mostrar à sua proposta, especialmente por parte daqueles que deveriam ter aceitado esta proposta, ou seja, as pessoas religiosas.

“Quando chegou o sábado, ele começou a ensinar na sinagoga. E muitos, ouvindo, ficaram maravilhados e disseram: «De onde vêm estas coisas?” (Marcos 6:2). No Evangelho de Marcos, Jesus entra três vezes na sinagoga. No primeiro foi interrompido. No segundo foi pior porque tentaram matá-lo porque Jesus curou uma pessoa no sábado, despertando a ira dos fariseus. Para Jesus o bem da pessoa vem antes da observância da lei, aliás a observância das leis de Deus está a serviço do bem do povo. O terceiro tempo corresponde ao episódio do evangelho de hoje e há todas as premissas positivas de um encontro que deverá correr bem pelo fato de ele ir a Nazaré, sua cidade natal, entre seus parentes e amigos. Mas mesmo aqui Jesus encontra fortes resistências, porque o seu ensinamento não é como o dos escribas que repetem fórmulas e realizam rituais pré-estabelecidos sempre da mesma maneira. Pelo contrário, o ensinamento de Jesus é a proposta de uma nova relação com Deus, que não se baseia na observância das suas leis, mas na aceitação do seu amor, que exige novas relações com os irmãos e irmãs da comunidade. É precisamente esta novidade que causa espanto entre os que estão na sinagoga, a ponto de questionarem o seu ensinamento.

 “De onde vêm essas coisas?” Uma questão que expressa todo o ceticismo em relação às palavras de Jesus Questiona-se a proveniência divina e a investigação do ambiente de origem da sua doutrina apontada como feitiçaria. A referência, de fato, às mãos - as maravilhas como as realizadas por suas mãos - indica uma origem mágica ou mesmo de feitiçaria e, consequentemente, uma pesada acusação de um impostor, de um vigarista, de alguém que quer chamar a atenção das pessoas enganando-as. com alguns truques. Os homens da sinagoga, da religião do templo, ficam incomodados com a forma gratuita e desinteressada da ação do Mestre Jesus, atento aos fracos, que dá lugar aos pobres. Muito pelo contrário dos líderes religiosos, interessados ​​em dinheiro, em serem homenageados pelo povo, que se vestiam luxuosamente. O estilo de Jesus desmascara a hipocrisia dos líderes religiosos que, para se defenderem, não têm outro instrumento senão a calúnia e a mentira.

“Não é ele…”. Embora Jesus esteja no seu país e, portanto, seja conhecido, os líderes religiosos não o mencionam, mas insultam-no. Ao defini-lo, de facto, como filho de Maria, os líderes religiosos insinuam que Jesus, por um lado, não é digno do seu pai e, por outro, que não presta. Nunca em Israel o homem é definido como filho da mãe, mas sempre do pai, em virtude da cultura patriarcal que considerava o homem como o verdadeiro e autêntico transmissor da paternidade.

 “Um profeta não é desprezado exceto em sua própria terra, entre seus parentes e em sua própria casa”. Este é o problema subjacente. Jesus, de facto, não se identifica com o sacerdócio, que era dominante na sua época. Jesus identifica a sua pessoa e a sua missão na linha profética, no caminho de quem viveu a religião, a relação com Deus não como uma profissão, ou como um conjunto de preceitos a serem obedecidos, mas como uma profunda experiência de amor com o Mistério, que tentaram transmitir aos seus discípulos.

“E lá ele não conseguiu fazer nenhum milagre”. A conclusão é terrível e muito triste. Onde há religião, Jesus não pode se manifestar. Onde a relação com Deus é mediada por ritos, tradições humanas, doutrinas e dogmas que não conseguem captar o verdadeiro bem das pessoas, Jesus e o seu espírito não podem agir. A tarefa da Igreja é, portanto, libertar os homens e as mulheres da religião, ajudá-los a entrar numa relação profunda de confiança com Deus, num estilo de vida essencial e simples, sinal autêntico da presença do Deus de Jesus Cristo no mundo.

 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

VI DOMINGO TEMPO COMUM B

 




Mc 1,40-45

 

Paolo Cugini

Ao ler o Evangelho e observar atentamente a ação de Jesus na história, na vida quotidiana dos homens e mulheres do seu tempo, fica claro o significado das suas ações, que pode estar contido nesta expressão: libertar a humanidade da lepra da falsa religião. Isto é claramente visível no Evangelho de hoje: Mc 1,40-45. É um Evangelho cheio de estranheza. Por que, de fato, o leproso não pede para ser curado, mas para ser purificado? Isto é muito estranho. A palavra purificar é repetida quatro vezes em alguns versículos. É clara a referência àquela teologia que provavelmente surgiu na época do Javismo, em que a doença é interpretada como sinal de pecado. Como sabemos, este não será apenas um tema que encontramos frequentemente nos salmos, mas também o tema central do livro de Jó.

Nestas primeiras linhas está o drama do leproso que não é apenas marginalizado pela sociedade, mas também pela religião. Se a exclusão do contexto social é compreensível, a exclusão religiosa o é muito menos. Qual Deus, podemos perguntar, é aquele que exclui os marginalizados? Onde está sua misericórdia? Como podemos nos aproximar de um Deus assim? A quem recorre o marginalizado se até Deus o açoita? Sem dúvida, o que   se apresenta aqui não é o Deus da revelação, mas o deus dos homens, o deus dos poderosos, que têm interesse em manter homens e mulheres subjugados. Na verdade, enquanto os homens precisarem de se apresentar ao sacerdote, isso significa que o poder religioso e político poderá controlá-los. Existe toda uma religião, a falsa religião que escraviza homens e mulheres, tornando-os prisioneiros de regras e rituais.

Ao purificar o leproso, Jesus liberta a humanidade da falsa religião, dos falsos ídolos, da religião dos preceitos, da falsa teologia, daquela teologia que surge do poder político e religioso para controlar a vida dos homens e das mulheres. Jesus cura o leproso e o liberta. Purificando o leproso, Jesus declara que a teologia que aponta a doença como sinal de pecado não vem de Deus, mas dos homens. Desta forma, Jesus adverte a humanidade contra a falsa religião, contra a falsa teologia.

Como entendemos se estamos seguindo uma teologia falsa ou verdadeira? Como podemos entender se estamos enganados? Assim que o leproso é purificado, ele sai livre, feliz com seu novo estado de vida. Antes, quando era leproso, teve que se esconder, foi rejeitado, foi excluído da vida social e religiosa. Quem vive subjugado pela falsa teologia tem medo de se expressar, de dizer a verdade. A liberdade que Jesus traz ao mundo, que desmascara a lógica da morte das supostas teologias e dos supostos ídolos, torna o homem e a mulher ávidos de liberdade e de comunicar a todos a sua nova situação. Este é o critério para discernir entre a adesão à verdadeira ou à falsa teologia: a liberdade de contar a todos o que se vive.

Por que o leproso não se apresenta ao sacerdote e não se importa com as prescrições de Moisés, como Jesus lhe havia ordenado? Porque já não precisa, agora está livre e, consequentemente, não tem contas para ninguém, mas apenas para Deus. Ao libertar o leproso da sua doença e da sua escravidão, Jesus quebra o sistema religioso e político opressivo. Estes gestos provocarão a ira dos fariseus, dos saduceus e dos doutores da lei. Será o caminho de libertação do homem e da mulher da falsa religião, dos ídolos e da falsa teologia opressiva que levará rapidamente Jesus à cruz.

Eventualmente a situação se inverte. Foi Jesus quem purificou e curou o leproso que não pode mais entrar publicamente numa cidade. Foi Jesus quem se tornou leproso. Por quê? É o preço que pagamos para nos tornarmos seus discípulos, arautos da verdade que vos liberta, da verdade que desmascara a hipocrisia e os interesses do poder. É deste Evangelho que necessitamos se quisermos viver autenticamente, não passando toda a vida fechados nos nossos pequenos corações por medo do mundo, mas livres para gritar a todos a beleza da vida em Cristo.

 

sábado, 16 de dezembro de 2023

ADVENTO: O CAMINHO DA LIBERDADE

 



III DOMINGO DO ADVENTO/B

 

Paulo Cugini

 

Há uma força na história que ninguém pode tirar. Há um desejo de vida e justiça que Deus tem impresso na história pela ação de seus profetas, que superficialidade humana, isto é, a atitude que homens e mulheres costumam ter, não pode fazer a menor diferença. Talvez às vezes você tenha a impressão de que a realidade a física, aquela que aparece no nível material, é tudo menos certa, tudo tudo menos pacífico, tudo menos marcado pelo amor. Ainda assim, para aqueles que estão renasce pelo Espírito, para quem acolhendo a Palavra renasce do alto, a percepção da justiça de Deus na história dos homens e das mulheres é um facto estabelecido. “Então o Senhor Deus fará crescer a justiça e o louvor diante de todo o povo” (É 61,11). É desta segurança que necessitamos, segurança que, pelo menos ao mesmo tempo, é uma certeza. Quem pode ter o dom de tais palavras? Quem pode ser o portador de palavras tão seguras e firmes, senão aquele que as possui você experimenta em si mesmo? E quem pode experimentá-los sem se tornar, até certo ponto de vida, uma pessoa tão livre que não depende mais de si mesma existência de causas externas?

“Meu enviou para proclamar a liberdade dos escravos” (Is 61, 2). Para quê é necessário o advento: para isso, sair da escravidão, escapar de uma vida bloqueado e, consequentemente, frustrado. Isto é o que a Igreja deve fazer o resto é inútil, o resto é um acompanhamento desnecessário. Quanto mais nos tornamos uma minoria, insignificante do ponto de vista social, mais seremos obrigados a regressar ao essencial. Então o tempo do advento nos lembra que a essência de um caminho de fé, o significado da vinda de Jesus à terra e o objetivo do discipulado é tornar-se pessoas livres.

Podemos nos perguntar então: grátis de que? Em primeiro lugar, da tentação de procurar a glória dos homens e mulheres e basear a nossa identidade no julgamento dos outros. O exemplo o aspecto positivo deste caminho é João Baptista, que a liturgia nos mostra no Evangelho. João Batista, em diálogo com os levitas e os sacerdotes, demonstra uma clareza impressionante sobre sua identidade. “Quem é você? Ele confessou e não negou. Eu confesso: Eu não sou o Cristo” (Jo 1, 20). Ele sabe que não é o messias, porque sabe muito bem o sentido da sua própria existência, ele sabe qual é o seu lugar na história. Esta é, na minha opinião, a primeira grande liberdade que somos chamados a amadurecer não só durante o Advento, mas ao longo da vida: liberdade de comparação com os outros, liberdade da tirania de buscar benefícios nos outros confirmações da nossa identidade. Esta liberdade é alcançada lentamente, de uma só vez esforço contínuo de reflexão e viagem interior. João Batista em este é um ótimo exemplo, tendo desenvolvido um senso de lugar no mundo, no silêncio do deserto, à escuta de uma Palavra que se torna realidade e caminho de revelação para quem o vive.  

Em segundo lugar, na época de Advento somos chamados a libertar-nos do mal. Paulo nos lembra disso no segundo leitura: “Examine tudo e guarde isso é bom. Abster-se de todo tipo de mal” (1 Tessalonicenses 5:17). No contexto em que vivemos, não é fácil desenvolver esta liberdade todos os dias. Ele disse A filósofa francesa Simone Weil a este respeito: “Amar a Deus significa não apegar o coração a coisas vãs”. Não é sobre isso de um simples exercício negativo, porque se fosse assim não conseguiríamos nunca faça. Vence quem fixa o olhar no bem e não abre mão do bem que enxerga. “Fixem o olhar em Jesus, autor e consumador da nossa fé” (Hb 12). Durante o tempo de Advento vamos praticar então, procurar o que há de bom em tudo que está ao redor nós, antes de tudo entre as pessoas que amamos. Procuramos com todos nós a beleza que está ao nosso redor e dentro de nós. Só assim poderemos chegar ao Noite de Natal e ver a Luz no meio da escuridão da noite. 

 

quarta-feira, 10 de março de 2021

SOMENTE AMOR

 





IV DOMINGO DA QUARESMA / B

 

Paolo Cugini

 

“O Senhor, o Deus de seus pais, séria e incessantemente enviava seus mensageiros para adverti-los, porque tinha compaixão de seu povo e de sua habitação. Mas zombavam dos mensageiros de Deus ”(2 Cr 36,15).

O tempo da Quaresma é o momento de retomar a busca do Deus de Jesus Cristo não no céu, mas na terra, porque ele veio habitar entre nós, colocou uma tenda de estábulo entre nós. A atenção à história significa também, a capacidade de ter um olhar sincero e retrospectivo, a coragem de olhar o passado com outros olhos, atento para descobrir a presença do Senhor, para reler a própria história, para interpretar os acontecimentos à luz do o Evangelho, para finalmente descobrir a passagem de Deus em nossa vida. É o que nos ensina o segundo livro das Crônicas na primeira leitura, que, em mais um esforço de reler o passado, cria vínculos, descobre presenças, identifica novas explicações para os mesmos acontecimentos. “No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para cumprir a palavra do Senhor falada pela boca de Jeremias, o Senhor despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia” (2 Cr 36, 22). E então Ciro, uma figura histórica também indicada na literatura paralela, torna-se um instrumento de Deus para libertar o povo de Israel, retornar à sua terra e reconstruir o Templo de Jerusalém. Compreender a própria história como parte do projeto de Deus é a grande novidade da fé do povo de Israel, que recebemos aprofundada e enriquecida na história de Jesus, Deus que caminha conosco e entre nós.

“Pela graça sois salvos” (Ef 2,5). Nesse processo de contínuas releituras históricas que nos permitem descobrir a presença de Deus em nossa história, São Paulo capta um aspecto fundamental do sentido da vinda de Jesus entre nós. De fato, ele realizou por nós, em nosso lugar, o que não podíamos fazer, ou seja, levar uma vida totalmente imbuída de amor gratuito. Sair da mesquinhez de uma vida egoísta, que não consegue ver no outro senão um inimigo a ser derrotado, com a alma cheia de sentimentos de inveja e ciúme, agora é possível graças à vida de Jesus, ao seu histórico caminho, que o conduziu a levar uma humanidade como a nossa, deste mundo marcado por limites e contingências, ao mundo do Pai (cf. Jo 13, 1). São Paulo ajuda-nos a compreender que não são as nossas obras que nos salvam, ainda que uma vida de seguimento do Senhor indubitavelmente nos leve a viver como Ele, procurando criar relações não mais baseadas em sentimentos de rivalidade, mas de gratidão e doação gratuita. Foi Jesus quem nos salvou de uma vez por todas, com uma vida de amor ao Pai que viveu até o fim, sem medir o preço muito difícil a pagar, que é a cruz, e é esse amor que somos livres para aceitar ou rejeitar.

«Deus, de facto, não enviou o Filho ao mundo para o condenar, mas para que o mundo seja salvo por ele» (Jo 3, 15). Até o evangelista João, refletindo sobre seu caminho de discipulado, apreendeu um aspecto importante da vida de Jesus, de seu estilo tão diferente das mesmas expectativas do povo de Israel, que esperava por um messias que castigaria os pecadores. João, no diálogo com Nicodemos, nos faz entender que a ação e a vida de Jesus é só amor, só misericórdia, que ele não veio para condenar e julgar ninguém, mas apenas para acolher, amar, ajudar as pessoas a se levantarem e se recuperarem no caminho. A atenção aos acontecimentos da vida de Jesus e às releituras propostas pela primeira comunidade, permite-nos purificar a nossa visão religiosa dos destroços ainda presentes de uma mentalidade do Antigo Testamento, rígida, incapaz de se abrir à novidade trazida pelo Espírito do Senhor.

A quaresma, então, nesta perspectiva, pode se tornar um caminho no qual aprendemos a reler nossas vidas marcadas pela presença do Senhor, na qual somos continuamente remodelados a partir de nossas resistências, nossos resíduos, como o barro na mão do oleiro que é continuamente remodelada, porque nada em nossa vida é jogado fora e nada é considerado negativo, para ser descartado. Com efeito, o próprio Jesus é a pedra residual (cf. Sl 117) que o Pai escolheu para construir uma nova história, não mais marcada pelo ódio e pelo desprezo pelo outro, mas pelo amor e pela misericórdia para com todos.

domingo, 28 de junho de 2015

A LIBERDADE EM PAULO



(Anotações para um retiro espiritual)

 Paolo Cugini

·        O homem nasceu livre e tem uma obrigação para com Deus.
·        O homem não se encontra mais nesta situação original.
·        Agora o homem utiliza a liberdade de forma arbitrária.
- Segundo São Paulo o problema da Liberdade se desenrola no momento que a vida humana é colocada perante o mandamento de Deus.

O homem se sente chamado para que faça algo.
      Paulo vê como a liberdade doada as criaturas, e por estas exercidas como um dom, na sua aparição histórica , transforma-se arbitrariamente na injustiça e no fazer justiça com os próprios meios.

·        Pervertido pelo pecado na minha liberdade eu me levanto contra a lei, assim o mundo se ergue na história e na natureza como uma potencia que dita a lei (cfr Gal. 4, 1-8).
O Espírito do tempo me liga ao seu domínio.

O homem histórico continua pensando de poder realizar a vida no exercício da liberdade que usurpou (ilusão).

Da liberdade do homem que aparece historicamente, faz parte a ilusão (Rom 1, 22).

Cada liberdade em que o homem “se acha” se enche de vaidade, acha de caminhar sozinho, se auto realiza, é sempre unida a ilusão de conquistar pra este caminho o mundo. Porém esta liberdade não liberta.

Nessa o homem se liga a morte. O pecado leva a morte, a definitiva destruição das criaturas. (cfr. Rom 6, 21, 8, 6).

A liberdade em que o homem tende a si mesmo por si mesmo, destrói a vida aberta a Deus e ao próximo (exemplos)

O homem pode ser liberado só distanciando-se da sua liberdade para aceitar a liberdade nova originária.

II

Esta libertação aconteceu.
João 8, 36; gal 5, 1
Esta liberdade não vem mais da criação, mas da eternidade de Deus. Essa vem por Jesus Cristo. (Rom 5, 15)

Segundo Paulo Jesus Cristo é o liberto por excelência Encontrando Ele encontramos o homem já libertado.

A liberdade de Jesus manifesta-se na sua devoção a Deus e ao próximo. (Rom 15, 3-7).

Jesus Cristo não viveu pra si mesmo, para buscar prazer pra si, não buscou a si mesmo, mas doou a própria vida por Deus. A liberdade de Jesus se manifestava na sua obediência a Deus.

Gal 1, 11, 2,21
A liberdade já faz parte integrante da verdade do Evangelho. Em que consiste a liberdade cristã?

Circuncisão: Gen. 17,10-13.14

: 1) absurdo impor a circuncisão aos pagãos
  2) uma base dividida da vida Cristã é a fé em Cristo.

1 Cor 7, 17-10.24  a conversão a Cristo nos conduz a renunciar ao pecado, mas não requer a assunção de atitudes espécies particulares.

Tese central: gal. 2, 16: a justificação por meio da fé é na base da liberdade cristã.

[gal. 2, 19: morta a lei – Jesus morreu por causa da lei (Jo 19, 7).
 Mc 14, 64 – Cristo morreu por meio da lei – a lei não tem mais poder sobre um morto.

Gal 4, 4-5

Risco de uma liberdade mal entendida

Serviço por amor Gal 5, 13;  Mt 20,28;  Mc 10, 45; Jo 10, 18

Jesus se ver servo por amor até a obediência da cruz (Fil 4, 78) nesta maneira realizou plenamente a sua liberdade.

Gal 5, 14 é livre quem se deixa guiar do amor que vem de Cristo.

·        A lei cristã está no resistir às tentações da carne: como é possível obter este salvação?

5, 16-15
Pra vencer não são suficientes as forças humanas – Gal 5, 16 a potencia do Espírito é maior da potencia de como é suficiente escolher a ação do Espírito.

A nossa liberdade encontra-se numa situação de completo enfraquecimento, que requer uma contínua decisão pessoal para acolher a salvação de Cristo..

Gal 5, 17: não podemos fazer tudo aquilo que nós queremos, não podemos seguir o Espírito e ao mesmo tempo os instintos egoístas: devemos tomar uma decisão.