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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A Noite da falsa sabedoria

 




 

Paulo Cugini

 

Ai de vós, advogados! Porque tirastes a chave do conhecimento; não entrastes vós mesmos, e impedistes os que estavam a entrar (Lc 11:52).

 

É noite. O ruído do dia se dissipou, as ruas esvaziaram-se, e restam apenas as perguntas, aquelas que conseguimos manter à distância sob a luz do sol. Na escuridão, as coisas se apresentam de forma diferente: despojam-se de suas máscaras, e o que parecia sólido durante o dia revela suas rachaduras. É nessas horas que gostaria de fazer uma pausa e refletir sobre um caminho do conhecimento que não ilumina, mas obscurece; que não liberta, mas aprisiona.

Existe um caminho do conhecimento que é negativo. Não é imediatamente reconhecível, pois está revestido de palavras pomposas, livros, títulos e autoridade. Mas no silêncio da noite, sua verdadeira natureza emerge: é aquele conhecimento que, em vez de ser colocado a serviço da Sabedoria, se transforma em uma necessidade de posse. Não busca mais a verdade para ser transformada por ela; busca-a para agarrá-la, enclausurá-la e administrá-la. A sabedoria nascida desse caminho é, na realidade, uma grande fraude: um engano colossal, inteiramente voltado para obter e manter o poder. Manipula o conhecimento autêntico, molda-o aos seus próprios interesses, reduz-o a uma ferramenta. E assim, lentamente, como uma névoa que se eleva das valas nas noites de outono, distancia as pessoas da verdade. Quando o conhecimento se torna um fim em si mesmo, gera-se um ciclo vicioso: em vez de abrir fronteiras, ele as fecha; em vez de escancarar janelas para o mistério, ergue muros e tranca portas.

Quando essas pessoas ocupam os assentos do poder, é o povo comum que sofre. Aqueles que, por natureza, confiam nos poderosos; que acreditam nas palavras dos comandantes a ponto de fazerem o que lhes é decidido. É nesse nível que a tragédia se desenrola, em silêncio, como certas coisas acontecem nas horas mais sombrias: sem testemunhas, sem alarde, mas deixando feridas profundas. A tragédia se torna ainda mais grave quando envolve conhecimento religioso. Quando aqueles que guiam a religião desenvolvem conhecimento e, com ele, leis feitas sob medida para manter seu próprio poder, o que oferecem não é mais um caminho para o Mistério, mas um caminho perverso que leva para longe do Mistério. E o povo se perde, como um viajante que segue uma lanterna na noite, confundindo-a com uma estrela, e se vê cada vez mais distante de casa.

A religião é um tema sensível porque toca as cordas mais profundas da consciência humana, aquela parte de nós que permanece desperta mesmo quando tudo o mais está adormecido, sensível ao que transcende a realidade material. São as pessoas simples que percebem a presença misteriosa de um Mistério que lhes chega, sobretudo nas situações mais desesperadoras da vida. São elas que se entregam a esse Mistério quando tudo ao seu redor está envolto em trevas: nas vigílias junto aos doentes, nas esperas sem resposta, nas noites em que o pão é escasso e o futuro parece um caminho sem lua.

A tragédia ocorre quando aqueles que se apresentam como mediadores do conhecimento do Mistério, em vez de ajudarem essas pessoas a trilhar seus caminhos, as afastam. Em vez de lançar luz, acrescentam escuridão à escuridão. Sobrecarregam suas vidas com preceitos que apenas alimentam a culpa, como pedras colocadas sobre ombros já curvados. E aqueles que buscam consolo encontram apenas julgamento; aqueles que buscam reconhecimento encontram apenas uma lei.

Dessa perspectiva, o Evangelho se apresenta como um caminho que leva ao conhecimento do Mistério: um Mistério que se manifesta não como ameaça, mas como amor, justiça e misericórdia. Não é um conhecimento a ser zelosamente guardado, mas uma lâmpada a ser colocada sobre a mesa para iluminar a todos na casa. O acesso pessoal ao Mistério torna vã qualquer forma de mediação que pretenda controlá-lo: ninguém pode ficar no limiar decidindo quem entra e quem fica de fora. Uma das maiores obras de Jesus foi justamente desmantelar a religião humana e sua falsa sabedoria. Ele fez isso sentando-se à mesa com os excluídos, tocando aqueles considerados impuros, perdoando sem pedir permissão às autoridades do templo. Falou com pescadores e pescadoras, com os doentes e pecadores, com aqueles que a sabedoria dos poderosos havia deixado do lado de fora. E a essas pessoas simples, revelou o que havia permanecido oculto aos sábios e inteligentes.

Por isso, o Evangelho pode ser considerado o caminho da liberdade: um caminho que todo homem e mulher pode percorrer, sem precisar pedir permissão a nenhum guardião do conhecimento. É um caminho que não esmaga sob o peso da culpa, mas eleva; que não fecha fronteiras, mas as abre; que não retém a luz, mas a espalha. A noite, mais cedo ou mais tarde, termina. E aqueles que tiveram a coragem de atravessá-la sem se apoiar nas falsas lanternas do poder descobrem que o Mistério não estava longe: caminhava ao nosso lado, em silêncio, como um amigo que aguardava o amanhecer conosco.

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM/A

 



 

Zc 9, 9-10; Sal 144; Rm 8, 9. 11-13; Mt 11, 25-30

 

Paolo Cugini

 

O capítulo 11 do Evangelho de Mateus inicia a seção sobre o mistério do Reino dos Céus, que, no capítulo 13, apresenta as sete parábolas do Reino. O conteúdo do capítulo relata a resistência e a rejeição manifestadas à proposta de Jesus. Apesar dos milagres realizados e relatados nos capítulos 8 e 9, na seção sobre a pregação de Jesus, há uma clara rejeição por parte de uma geração que não aceita Jesus como o Filho de Deus. O povo de Israel, e especialmente seus líderes religiosos, provavelmente esperavam algo diferente. É nesse contexto que devemos ler as palavras que o Evangelho nos oferece hoje, que são os versículos finais do capítulo 11.

Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim o propuseras (Mt 11,25). Numa leitura superficial, estas palavras de Jesus podem parecer uma rejeição do conhecimento e da sabedoria, como se fossem um obstáculo à compreensão dos mistérios do Reino. Na realidade, Jesus não está falando da sabedoria em geral, mas de um tipo específico de sabedoria: qual? ​​Ele se refere àquele tipo de conhecimento que pretende conhecer a Deus a ponto de fazê-lo dizer o que Ele nunca disse. É a sabedoria dos escribas, dos fariseus e dos doutores da lei que, ao longo do tempo, criaram uma perigosa identificação entre Deus e os preceitos que inventaram. Segundo eles, só é possível chegar a Deus através da obediência a uma infinidade de regras, preceitos e rituais, que só produzem, naqueles que tentam segui-los, uma série de sentimentos de culpa que os aprisionam. Jesus, diante dessa situação, afirma que o conhecimento que vem de Deus não é acessível à sabedoria proposta pelos doutores da lei, mas requer um novo caminho de conversão e abertura. Os pequeninos a quem se abrem as portas da sabedoria de Deus são os discípulos, homens e mulheres, aqueles que, atraídos pela bondade da proposta do Senhor, partiram na senda que Ele seguiu. A revelação da presença de Deus na história não se dá pela obediência a preceitos humanos, mas sim seguindo o caminho traçado pelo Senhor.

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27). Este é o conhecimento que somos chamados a assumir: a partir de agora, o mistério de Deus se manifesta no Filho, e Ele o revela somente àqueles que O seguem. De fato, é escutando a Sua Palavra e procurando colocá-la em prática que descobrimos que a sabedoria do Senhor se manifesta no amor pelos irmãos e irmãs que encontramos no caminho da vida. É seguindo-O que descobrimos que a essência da vida não reside nas coisas materiais, no dinheiro, na posse de bens, mas em acolher os outros, no esforço constante para melhorar a qualidade dos nossos relacionamentos. É estranho notar como os líderes religiosos rejeitaram esta proposta de Jesus. Estranho, considerando também o fato de que os profetas da Primeira Aliança já haviam anunciado o modo como o Filho de Deus se comportaria ao vir entre os homens e as mulheres para anunciar a boa nova. Não é por acaso que a liturgia, na primeira leitura, nos oferece alguns versículos do profeta Zacarias que nos lembram da bondade desta novidade: “ Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Fará desaparecer de Efraim os carros e de Jerusalém os cavalos; o arco de guerra será quebrado; ele proclamará paz às nações” (Zacarias 9:9-10). Zacarias é o profeta que acompanhou a construção do Segundo Templo por volta de 520 a.C. É precisamente neste contexto de reconstrução, que é também um contexto marcado pela alegria do regresso e pela possibilidade de viver novamente na sua própria terra, que Zacarias recorda ao povo a forma como o Messias se manifestará. Em consonância com as profecias de Isaías 45:1, que pregou ao povo do Reino do Norte por volta do século VIII a.C., o profeta declara que o Messias-Rei não virá montado em um cavalo, com o poder de armas e exércitos para guerrear, mas virá humildemente, montado em um jumento, para destruir os instrumentos de guerra e trazer a paz. De agora em diante, com a presença do Senhor, devemos aprender a buscar a Deus nos sutis sinais de paz entre os povos, com humildade e mansidão. É essa novidade que desagrada aqueles que transformaram a religião em um poderoso instrumento de controle sobre o povo e em uma arma de conflito entre as nações.

Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,29). Este é o caminho que devemos trilhar: deixar de lado o pesado e opressivo jogo da religião, composto de preceitos e leis, que apenas sobrecarregam nossa jornada e nossas mentes, devastando nossas almas com sentimentos de culpa, para abraçar a doçura da proposta de Jesus, que, libertando-nos do fardo da religião, nos permite caminhar livremente e viver plenamente a experiência do amor compartilhado com os irmãos e irmãs que encontramos pelo caminho. Fazer a transição da religião para a fé significa passar do cansaço para o descanso, de uma vida sobrecarregada pelo esforço de caminhar em direção a Deus com preceitos, experimentando diariamente nossa incapacidade, para acolher o dom de um Deus que vem a nós com o Evangelho do Filho, convidando-nos a fazer de nossas vidas uma experiência de amor livre e altruísta. Boa sorte em sua jornada. 

 

domingo, 2 de dezembro de 2018

EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 20





Estudo Bíblico para CEBs
 Paolo Cugini

1-8. Nestes poucos versículos Jesus demonstra que o cristão não deve ser bobo, mas muito astuto e inteligente. Acreditar em Deus não quer dizer se entregar, aceitar tido, mas avaliar a esperteza do mundo e responder com inteligência.

9-19. São palavras claramente dirigidas aos escribas e sumos sacerdotes que ao longo dos séculos maltrataram os profetas que Deus enviava para alertar o povo, e ultimamente maltratam também Jesus. É Jesus a pedra que os construtores descartaram, porque não acreditaram nele e é sobre esta pedra que Deus constrói o seu Reino e quem não aceita o seu Evangelho será esmagado.

20-26. Mais uma prova da grande inteligência de Jesus e da sua capacidade de prestar atenção a todo tipo de provocação. Neste caso Jesus responde à provocação escutando com atenção e respondendo a partir da realidade que ele analisa, sem nenhuma forma de preconceito.

Se a Deus devemos tudo então o que devemos dar a Cesar, símbolo do poder político? A tentação imediata é responder: nada. Na realidade, porém, se a Deus devemos tudo isso quer dizer que à política devemos dar Deus. Não é de qualquer forma que podemos entrar na vida política, mas com Deus na alma e no coração. Como nos lembra a Igreja (documento Lumen Gentium do Concilio Vaticano II) os leigos são convidados a transformar o mundo, a santifica-lo e, por isso, também o âmbito político por dentro. Pode santificar o âmbito político somente as pessoas que estão buscando santificar a própria vida.

27-40. Primeiro ensinamento: o matrimonio é uma realidade terrena, pois na vida eterna não haverá matrimonio porque seremos com anjos no céu (o sexo, a sexualidade pertence à dimensão terrestre). Este é um versículo que valoriza a vida celibatária dos padres e das freiras que são no mundo sinal daquilo que viveremos no céu.

A ressureição dos mortos é já testemunhada no livro do Êxodo (Ex 3,6), apesar deste dado ser aprofundado somente na literatura sapiencial a partir do IIIº sec. A. C., no livro da sabedoria e dos provérbios.

41-44. É um versículo um pouco complicado que deveria demostrar a superioridade de Cristo comparado com David, pois o mesmo David chama de meu Senhor o mesmo filho de David. Além disso são versículos que demostram a ressureição.
45-47. Jesus alerta o povo sobre a atitude daqueles que deveriam ser os mestres, pois buscam apenas a aparência, buscando ser vistos e cumprimentados. Quem está na frente do povo deve ser exemplo de simplicidade e humildade.