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sabato 28 dicembre 2024

DIA DA SANTA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

 



(Lc 2, 41-52)

 

Paolo Cugini

 

A festa da Sagrada Família recorda-nos que a dinâmica da fé, o conhecimento dos seus mistérios e as indicações do caminho que somos chamados a percorrer acontecem na vida familiar. Esta já é uma primeira e profunda indicação. Encontramos Deus, o seu caminho até nós, quando vivemos autenticamente as relações que o Senhor nos deu. Na verdade, não escolhemos o nosso pai, a nossa mãe, os nossos avós, os nossos irmãos e irmãs, mas os encontramos ao nascer. Não são como amigos, que conhecemos ao longo da vida e que mudamos a partir dos lugares e contextos em que vivemos. As pessoas de uma família são o dom que Deus nos dá para crescermos humanamente. A atenção às relações familiares é o primeiro passo significativo, não só para o nosso caminho de humanização, mas também espiritualmente. Compreender este aspecto da vida de fé envolve imediatamente o compromisso de investir cada vez mais na qualificação das nossas relações familiares, na atenção a quem nos rodeia, a quem partilha todos os dias o caminho da vida.

O segundo aspecto significativo que aparece na festa da Sagrada Família é a sua pobreza. Deus decide nascer não só numa família pobre, mas também numa região e território caracterizados pela pobreza. Deus escolheu não nascer rico, num castelo, mas pobre entre os pobres. Jesus nasceu e cresceu com uma mãe analfabeta, um pai carpinteiro, considerado, naqueles tempos, um trabalho infame, um lar pobre. Jesus cresce experimentando em primeira mão o fruto das desigualdades sociais, em que poucos recebem a maior parte dos benefícios, enquanto a maioria vive de migalhas. Jesus e a sua família viviam, como muitos outros, de migalhas. Este aspecto da pobreza de Jesus, que encontramos também nos anos de maturidade, da sua vida pública, deve ser levado seriamente em consideração. O que nos ensina este fato bíblico que, ao mesmo tempo, é uma escolha de Deus? Diz-nos que a nossa fé não amadurece em riqueza, luxo e conforto. Pelo contrário, uma vida essencial, uma família que se esforça continuamente por partilhar o que tem, não investe apenas para responder às suas próprias necessidades, mas abre-se aos outros, aos pobres que encontra no caminho, esforçando-se continuamente por manter uma vida estilo baixo, essencial, cria o terreno para que a fé, a confiança na justiça de Deus, na sua bondade e misericórdia possam amadurecer.

O terceiro aspecto que podemos sublinhar desta sagrada família é a liberdade de cada membro com a tradição dos pais. Maria aceita a escandalosa proposta de ser mãe antes do casamento, colocando-se imediatamente numa situação gravíssima do ponto de vista da lei mosaica. Maria confia-se a Deus e aceita o risco de ser morta pela comunidade porque transgride o preceito. Não menos importante é José, que é definido como justo, ou seja, um homem que obedece aos mandamentos de Deus. Chocado com a notícia da gravidez de Maria, aceita em sonho a proposta do anjo e transgride a lei mosaica, que previa o apedrejamento. caso de adultério, leva-a consigo e fica com ela. Finalmente, todos sabemos o que o seu filho Jesus fará quando iniciar a atividade pública. Desde o início do seu ministério, Jesus transgride o primeiro e fundamental mandamento cuja transgressão levou à morte: o respeito pelo sábado. Uma família, portanto, de rebeldes, de rebelião contra uma lei que sufoca a vida, na busca contínua da vontade de amor do Pai. Também neste caso, como em outros, encontramos na humanidade de Jesus, no seu estilo, os traços salientes dos seus pais, que eram pobres, mas grandes em sabedoria e amor ao Pai.

É a vida essencial que nos leva a nos apegarmos à Palavra do Senhor para buscar conforto Nele e descobrir Sua delicada presença em algumas experiências pessoais nas quais nossas forças são testadas até o limite. São precisamente estas situações extremas que tornam importante ter alguém familiar que nos possa apoiar, aconselhar e com quem possamos conversar e partilhar a nossa situação. A sagrada família de Nazaré, vista de perto, ensina tudo isto e ainda mais.


domenica 31 dicembre 2023

DOMINGO DA SAGRADA FAMÍLIA

 




 

Paulo Cugini

 

Há uma história de Tolstoi, o grande escritor russo do século XIX, que conta a história de um jovem que um dia decidiu sair de casa em busca de um tesouro. Este homem passou a vida viajando por mares e rios, vivendo em vários países em busca de tesouros, mas nunca os encontrou. Quando suas forças falharam devido à idade, ele decidiu voltar para casa. Certa manhã, enquanto procurava algo que havia deixado cair, ao mover o fogão, notou um alçapão. Ele o moveu e logo abaixo do alçapão encontrou o tesouro que procurava durante toda a vida. A moral da história de Tolstoi é que as coisas mais preciosas da vida estão perto de nós, ao nosso alcance.

   Esta consideração aplica-se à celebração de hoje. Na verdade, Jesus, o Filho de Deus, ao vir à terra e nascer numa família, comunicou-nos que todos os materiais, todas as ferramentas que necessitamos para dar sentido à nossa existência, para humanizá-la, temos debaixo do nariz, isto é, em nossa família. Vamos à igreja para nos tornarmos mais humanos, mais sensíveis, mais atentos aos outros e pessoas menos egoístas. Pois bem, o Natal nos diz que Deus colocou na família tudo o que é necessário para esta jornada. Na verdade, foi assim também para Jesus, Jesus aprendeu também com a vida familiar, com a sua relação com José e Maria, com os seus familiares o que significa ser e tornar-se homem. A divindade de Jesus encontra-se nos traços da sua humanidade, que se moldou ao longo do tempo graças também à relação com Maria e José. E, de fato, são ditos vários traços da humanidade de Jesus sobre sua mãe Maria e seu pai José.

O Evangelho que ouvimos fala-nos também de elementos essenciais da identidade de Jesus, que se manifestarão na sua vida adulta.  Terminados os dias da purificação ritual, segundo a lei de Moisés, [Maria e José] levaram o menino [Jesus] a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor - como está escrito na lei do Senhor: «Cada o primogênito macho será consagrado ao Senhor » - e oferecer em sacrifício um par de rolas ou dois pombinhos, como prescreve a lei do Senhor» (Lc 2,22-23).

De um ponto de vista geral, o trecho evangélico fala-nos da missão de Jesus, nascido de mulher, nascido sob a lei, para libertar os homens e as mulheres do peso da lei, não a anulando, mas mostrando, por um lado, as deformações produzidas a partir dos interesses humanos e, por outro, mostrando o seu significado autêntico. Jesus vem ao mundo para mostrar que a única lei que deve ser seguida é a do amor e, desta forma, desmascara todas aquelas leis, inclusive as religiosas, que, ao contrário, vinculam o homem e a mulher, aprisionam-nos numa rede de preceitos com o único objetivo de controlá-los.

 Os pais trazem Jesus para o momento de cumprir dois requisitos da lei. A primeira é a purificação de Maria que, de acordo com o Livro do Levítico (Lv 12, 1), considera impura a mulher que dá à luz um filho e, por isso, deve purificar-se e deve permanecer trinta e três dias para purificar, se livrou do sangue dele, pois neste estado não conseguia acessar o Templo (no caso de uma filha os dias de purificação são 66! Da série: a força assustadora da cultura patriarcal). A segunda prescrição é a redenção dos primogênitos, com dinheiro ou, para as famílias pobres, como é o caso de Maria e José, com duas rolas ou dois pombos. Como diz Paulo aos Gálatas: « Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei» (Gl 4,4-5).

Enquanto Maria e José sobem ao Templo, o homem do Espírito, o profeta Simeão, vem do Templo, como se quisesse impedir o rito inútil. Simeão pega a criança nos braços e bendiz a Deus: será luz para iluminar as nações, as etnias, o que indica os povos pagãos. O amor do Senhor é universal e chega até aos pagãos. Mensagem chocante para ouvidos acostumados a ouvir uma palavra de mão única, referindo-se apenas à salvação do povo judeu. O messias, longe de ser o salvador apenas dos judeus, leva o amor de Deus a todas as nações. Esta discussão aplica-se também a nós que recebemos e acolhemos o Espírito do Senhor: a comunidade cristã deve tornar-se progressivamente um espaço aberto a todos.

Depois, voltando-se para Maria Simeão, acrescenta: “uma espada traspassará também a tua alma, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 35). Toda uma tradição deturpou este versículo, interpretando-o com imagens de dor, embora o significado seja bem diferente. A espada, de fato, na Bíblia, é a imagem da Palavra de Deus, como nos lembra a carta aos Hebreus onde se diz que: “A Palavra de Deus é viva e eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até a divisão da alma e do Espírito” (Hb 4:12). Simeão diz a Maria que as Palavras do seu Filho a levarão a escolhas dolorosas. Assim como Maria acolheu as palavras do anjo e se tornou Mãe de Jesus, agora deverá acolher as Palavras de seu Filho para continuar o caminho e tornar-se discípula, protótipo de todos os discípulos do Senhor. 

 O Evangelho convida-nos a seguir Jesus no seu caminho fora do templo e da religião de preceitos e doutrinas que aprisionam o homem e a mulher e os brutalizam, para abraçar a fé, a confiança no Pai, que deseja relações novas e autênticas para os seus filhos e filhas.

 

giovedì 23 dicembre 2021

SANTA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ ; 26 DE DEZEMBRO 2021

 




(Lk 2, 41-52)

 

Paolo Cugini

 

A festa da sagrada família recorda-nos que a dinâmica da fé, o conhecimento dos seus mistérios e as indicações do caminho que somos chamados a percorrer, se realizam na vida familiar. Esta já é uma primeira e profunda indicação. Encontramos Deus, seu caminho para nós, quando vivemos com autenticidade as relações que o Senhor nos deu. Na verdade, não escolhemos o pai, a mãe, os avós, os irmãos e as irmãs, mas os encontramos ao nascer. Não são como os amigos, que encontramos ao longo da vida e que mudamos a partir dos lugares e situações em que vivemos. As pessoas de uma família são o dom que Deus nos dá para crescermos humanos. A atenção às relações familiares é o primeiro passo significativo, não só para o nosso caminho de humanização, mas também espiritual. A compreensão deste aspecto da vida de fé, passa imediatamente pelo compromisso de investir cada vez mais na qualificação das relações familiares, atenção aos que nos rodeiam, àqueles que compartilham o caminho da vida todos os dias.

O segundo aspecto significativo que aparece na festa da sagrada família é a sua pobreza. Deus decide nascer não apenas em uma família pobre, mas também em uma região e território caracterizado pela pobreza. Deus escolheu não nascer rico, em um castelo, mas pobre entre os pobres. Jesus nasceu e foi criado com uma mãe analfabeta, pai carpinteiro, considerado, naquela época, um trabalho infame, uma casa pobre. Jesus cresce vivendo sobre a própria pele o fruto das desigualdades sociais, nas quais poucos detêm a maior parte dos benefícios, enquanto a maioria vive da migalha. Jesus e sua família viveram, como muitos, de migalhas. Este aspecto da pobreza de Jesus, que também encontramos de novo nos anos de maturidade, de sua vida pública, deve ser levado a sério. O que nos ensina esse fato bíblico que, ao mesmo tempo, é escolha de Deus? Diz-nos que a nossa fé ,não amadurece na riqueza, no luxo, no conforto. Ao contrário, uma vida essencial, uma família que se esforça continuamente para compartilhar o que tem, investe não só para responder às próprias necessidades, mas se abre para os outros, para os pobres que encontra ao longo do caminho, se esforçando continuamente para manter um baixo estilo, essencial, cria o terreno para que a fé amadureça, a confiança na justiça de Deus, na sua bondade e misericórdia.

O terceiro aspecto que podemos destacar desta sagrada família é a liberdade de cada membro com a tradição dos pais. Maria aceita a escandalosa proposta de ser mãe antes do casamento, colocando-se imediatamente em uma situação gravíssima do ponto de vista da lei mosaica. Maria se entrega a Deus e aceita o risco de ser morta pela comunidade, porque transgride o preceito. Não menos importante é José, que os evangelos o definem como justo, isto é, um homem que obedece aos mandamentos de Deus. Chocado com a notícia da gravidez de Maria, aceita a proposta do anjo em sonho e transgride a lei mosaica, que previa o apedrejamento em caso de adultério, ele a leva consigo e a guarda, cuidando dela. Finalmente, todos nós sabemos o que o filho Jesus fará, seria melhor dizer aprontará,  quando começará a atividade pública. Desde o início do seu ministério, Jesus transgrediu o primeiro e fundamental mandamento cuja transgressão levava à morte: o respeito pelo sábado. Uma família, portanto, de rebeldes, uma rebelião contra uma lei que sufoca a vida, na busca contínua da vontade de amor do Pai. Também neste caso, como em outros, encontramos na humanidade de Jesus, em seu estilo, os traços marcantes de seus pais, que eram pobres, mas grandes em sabedoria e amor ao Pai.

É a vida essencial que nos leva a apegar-nos à Palavra do Senhor, para buscarmos o seu conforto e descobrir sua delicada presença em algumas experiências pessoais, nas quais nossas forças são testadas até o limite. É precisamente nestas situações extremas, que se torna importante ter alguém familiar que nos possa apoiar, aconselhar e com quem nós próprios possamos falar, partilhar a nossa situação. A sagrada família de Nazaré, vista de perto, ensina tudo isso e muito mais.

 

martedì 22 dicembre 2020

NATAL: CAMINHO DE HUMANIZAÇÃO

 



 

Paolo Cugini

 

Dizia o filósofo Mircea Eliade que, um dos rituais comuns encontrados nos povos antigos, era contar a origem das coisas antes de semear. Essa narração, constituiu uma espécie de bênção para a colheita, pois foi uma forma de colocar ordem na realidade, de voltar simbolicamente no tempo dos começos. Ouvir a narração do Natal do Senhor pode, portanto, ter o significado profundo de refazer o caminho que a mensagem de Jesus fez na história, é uma espécie de "retorno às origens", que nos permite começar tudo de novo, para tentar transpor aquele fosso que parece intransponível entre o Evangelho e o Cristianismo, entre Jesus e a doutrina, entre o início da história e a atualidade da comunidade.

«Maria deu à luz o seu filho primogénito, envolveu-o em panos e colocou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles no alojamento » (Lc 2, 7). 

É sempre fascinante ouvir a página do Evangelho de Lucas, em que se narra o nascimento de Jesus, estranha narrativa pelo profundo realismo que contém. Quem poderia ter inventado, de fato, tal história, em que o nascimento do Salvador do mundo é descrito de forma tão diferente do que se esperaria? Quem poderia ter narrado o nascimento de um rei em um contexto de pobreza e rejeição? É, portanto, um fato importante que deve ser levado em consideração por todos aqueles que se identificam com a massagem do Evangelho. A primeira forma de ser fiel ao Evangelho consiste em aderir à realidade como Deus quis manifestá-la, sem querer embelezá-la ou adoçá-la, porque é na realidade que a verdade se manifesta. Talvez, nunca como neste contexto cultural pós-moderno, o Ocidente tenha tido a oportunidade de aderir à realidade, de ouvi-la como ela é, sem precedê-la de sistemas conceituais. Ensinamento primeiro do presépio, parece-me precisamente isto: recolocarmo-nos em silêncio, ouvir a realidade, estar disponíveis para apreender o mistério da vida tal como se manifesta, para nos maravilharmos, como o fazem as crianças quando descobrem as coisas. Com efeito, Jesus não disse: « se não voltares como crianças, não entrarás no reino dos céus» (Mt 18, 3)? Natal significa, então, disposição para deixar de lado nossas presunções, nossos preconceitos, para ouvir a realidade como as crianças, ou seja, como se fosse a primeira vez.

Que verdade encontramos quando ouvimos a manifestação da realidade como ela é? Sem dúvida não apreenderemos a verdade na forma de doutrina, mas sim do acontecimento que se passa na história e, consequentemente, muda ao longo do tempo porque se caracteriza pela contingência. No Ocidente, identificamos a verdade com a abstração, para nos proteger das inquietações que a manifestação da realidade no tempo presente provoca. Para isso, elaboramos as doutrinas que nos protejam da realidade, para não permitir que a dureza da realidade estraga os nossos planos. Nesta perspectiva, o Natal representa a maior subversão das doutrinas humanas, dos projetos pré-estabelecidos, das teologias feitas à medida. Deus entrou na história de maneira surpreendente, nos pegando desprevenidos, obrigando-nos a desmontar nossos sistemas presunçosos. Diante do presépio, não temos escolha: ou o escutamos e acolhemos os conteúdos que aquele acontecimento nos quer revelar, ou o rejeitamos adoçando-o, que é a forma pervertida de qualquer teologia que não aceita ser desmascarada e, conseqüentemente, modificada. Não é ao acaso  que a festejar diante do presépio não estavam os doutores da lei, mas os pastores; não haviam os comerciantes ricos, mas os pobres.



«Estando elas naquele lugar, cumpriram-se para ela os dias do parto » (Lc 2, 6). O cumprimento do tempo anunciado pelos profetas ocorre de forma inesperada e em um lugar não planejado. O que esses dados estranhos, mas significativos, significam? Talvez a aceitação do Evangelho exija a capacidade de acompanhar os acontecimentos à medida que se manifestam, também porque o mistério de Deus se anuncia no acontecimento. Educar-nos para a atenção é uma das tarefas mais importantes que temos pela frente porque, como dizia Simone Weil: “A atenção consiste em suspender o próprio pensamento, em deixá-lo disponível, vazio e permeável ao objeto [...] cada vez que se presta muita atenção é destruído um pouco do ruim em si mesmo "(Simone Weil, A espera de Deus). Natal, então, significa reeducar-nos para a surpresa do acontecimento, significa a humildade de nos deixarmos despojar das nossas teologias, dos nossos modos de pensar sobre Deus, de lançar a nossa armadura de defesa e estar, assim, disponíveis para acolher o mistério do Deus, como se manifesta no tempo presente da comunidade e da nossa própria história pessoal. 

Envolveu-o em panos e colocou-o na manjedoura " (Lc 2,7). Que liturgia espetacular! Diante desta maravilha da simplicidade, que comunica a forma autêntica de Deus entrar em contato com a humanidade, ela contrasta com o resíduo visível em nossas liturgias de cultos pagãos que, para dizer Deus, precisam revestir-se do peso da sagrado. A liturgia do berço narrado por Lucas, desmascara as estruturas pagãs do sagrado, quebra o encanto da religião, afirmando que, a partir de agora, quem tiver a intenção de encontrar Deus, não precisa mais se agarrar às formas sacrais da religião inventada pelos homens, mas ele pode enfrentá-lo na simplicidade e essencialidade da vida familiar. Que mensagem maravilhosa! A humanidade como espaço de encontro com Deus. O Natal, nesta perspectiva, significa uma proposta de humanização para todos os homens e as mulheres que desejam viver de forma autêntica. Significa também a humildade de encontrar o tesouro da própria existência no espaço do cotidiano familiar. O Natal é a estrela brilhante que indica o caminho que a humanidade pode percorrer: da religião patriarcal dos homens à comunidade de discípulos iguais criada por Jesus; do sagrado que diz distância de Deus, à redescoberta da sua aproximação a nós através do Filho, o que significa a possibilidade de investir significativamente nas relações humanas; da doutrina dos sábios à simplicidade do Evangelho, que fala aos pequenos e exige humildade.



Aproximemo-nos também do presépio, contemple-o como se fosse a primeira vez, deixemo-nos maravilhar pela surpresa do nascimento do Senhor, para assegurar que as nossas vidas, as nossas comunidades correspondam ao acontecimento contemplado e acolhido. Vamos tentar viver o que contemplamos com simplicidade.