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sexta-feira, 31 de maio de 2024

IX DOMINGO ano B

 




(Dt 5.12-15; Sal 80; 2Cor 4.6-11; Mc 2.23-3.6)

 

 Paulo Cugini

 

Guarda o dia de sábado para santificá-lo, como o Senhor teu Deus te ordenou [...] Lembra-te de que foste escravo na terra do Egito e que o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão forte e mão estendida braço (Dt 4, 12.14).

O tema do descanso, evocado na primeira leitura, é sem dúvida importante na vida das pessoas. Na verdade, através do descanso recuperamos as forças para poder realizar as atividades que a vida exige. Sem descanso teríamos dificuldade para trabalhar, pensar, mas também para nos divertir. Não é por acaso, portanto, que desde as primeiras páginas da Bíblia encontramos este tema que, com o tempo, adquire uma importância decisiva na própria vida religiosa. É interessante notar que entre a escrita do livro do Gênesis e a do Deuteronômio o tema do descanso ganha novos significados. Não é mais lembrado apenas como o dia em que o Senhor descansou depois de criar o céu e a terra. A memória estende-se também à experiência da escravidão no Egito, para a qual o descanso sabático se torna necessário para recordar o evento de libertação que Deus realizou entre o seu povo. O descanso torna-se sinal de libertação e, na memória, o povo tem a possibilidade de dar sentido à sua história como passagem da escravidão à libertação.

Os fariseus lhe disseram: Veja, por que fazem no sábado o que não é permitido? (Marcos 2:23). O Evangelho mostra a transformação negativa que ocorreu no mandamento de Deus sobre o sábado. Os fariseus, de fato, transformaram este mandamento de Deus, significativo em si e com a sua beleza existencial, numa nova escravidão. Ao longo de alguns séculos, o povo de Israel passou assim da escravidão no Egito à escravidão às prescrições dos homens do templo, o que tornou a vida do povo insuportável. É neste contexto religioso que deve enquadrar-se o trecho evangélico de hoje.

Havia um homem que tinha uma mão atrofiada, e eles estavam observando-o para ver se ele iria curá-lo no sábado e depois acusá-lo. A narrativa da passagem pretende mostrar até que ponto a ação sacerdotal sobre as leis mosaicas havia chegado a um ponto de distorção e, em particular, sobre aquela que era considerada a prescrição que regia todas as outras, a do sábado. A atenção obsessiva à lei torna-se tão rígida que não consegue compreender a contradição que leva ao endurecimento do coração, a não sentir misericórdia mesmo para com uma pessoa gravemente doente, como é o caso do homem da mão atrofiada. É a afirmação radical do primado da lei sobre a consciência e o bem das pessoas, que distorce o sentido autêntico das leis e da sua função, a de estar ao serviço das pessoas. A lei não pode tornar-se absoluta, como no caso em questão, caso contrário o contexto idólatra torna-se evidente.

. Ele disse ao homem cuja mão estava atrofiada: “Fique no meio!” Depois perguntou-lhes: “É lícito no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou tirá-la?”. Mas eles ficaram em silêncio. É o sentido da comunidade cristã: colocar no centro os pobres, as pessoas que sofrem. Jesus faz um gesto que deve ser um exemplo para as futuras comunidades que se inspirem na sua mensagem. Não é possível que as leis levem à indiferença para com aqueles que sofrem. O silêncio dos fariseus diante da pergunta de Jesus, que procura estimular as suas consciências, revela até que ponto atingiu a mistificação da lei mosaica. Ao colocar o homem da mão atrofiada no centro da comunidade, Jesus abre um caminho de desmascaramento das leis desenvolvidas pela classe sacerdotal que, diante de uma situação real, mostra todo o seu vazio. O debate sobre o significado do sábado não se realiza, de fato, a nível doutrinal, mas a nível existencial. É diante de uma pessoa concreta que se decide a validade de uma lei e seu verdadeiro significado. É lícito no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou tirá-la? Uma lei é válida na medida em que se manifesta de forma coerente com a essência daquele de quem se diz provir: a misericórdia. A falta de piedade, de misericórdia para com quem sofre, é o sinal claro de que a lei foi subvertida e manipulada a ponto de se tornar irreconhecível e já não ter utilidade.

E os fariseus saíram imediatamente com os herodianos e reuniram-se contra ele para matá-lo. Não há conversão dos fariseus mesmo diante de evidências contundentes como o caso da cura da mão atrofiada. Jesus desmascara a hipocrisia dos homens do templo, interessados ​​em manter um sistema que lhes desse lucro e poder. Eles não estão interessados ​​no bem das pessoas, mas em serem respeitados e bem pagos. O processo de desmascaramento levado a cabo por Jesus, que expõe a hipocrisia da religião do templo, terá de pagar o pesado preço da perseguição e da morte. Não é por isso, como sabemos, que Jesus desistirá da sua missão de libertação. Com efeito, as suas palavras e os seus gestos tornar-se-ão cada vez mais claros e libertadores. É, então, verdade que com Jesus «veio ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todo homem» (Jo 1, 9).

 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

INDICAÇÕES DE ESPIRITUALIDADE EVANGELICA




O que acontece ou deveria acontecer com as pessoas que respondem ao chamado de Jesus

Assembleia das comunidades da paróquia são Vicente de Paulo

Compensa Manaus 5-7 janeiro 2024

 

Paolo Cugini

 

 

Entre vós não deve ser assim (Mc 10, 32-45). O seguimento á Jesus deve provocar uma mudança radical nas nossas atitudes humanas. Se até então éramos movidos pelo instinto de sobrevivência que nos leva a proteger a nossa vida e ativar dinâmicas agressivas para como os outros, de agora em diante tudo deve ser diferente.

A vida humana nasce e se desenvolve de forma instintual. É o instinto que sugere ao cérebro o que fazer e, para isso, provoca dinâmicas especificas que condicionam os nossos relacionamentos. Estas dinâmicas movidas pelo instinto de sobrevivência têm como característica proteger a própria vida, defendê-la das ameaças exteriores. Isso, claramente, é positivo, pois sem este instinto a nossa vida estaria em constante perigo.

Qual é o sentido da frase de Jesus? O que ele quis dizer quando disse entre vós não deve ser assim? Assim como? Escutando com atenção o texto Jesus se refere aquelas dinâmicas de rivalidades que se instauraram entre os discípulos. Este é já um dato interessante, porque está dizendo que, apesar destes homens ter aceitado de seguir Jesus, a humanidade deles é ainda condicionada pelo instinto de sobrevivência e não pelo Espírito Santo. Isso quer dizer que não basta participar da Igreja, de culto, atividades para ser uma pessoa nova. Aquilo que importa é sermos disponíveis para a ação do Espírito Santo que modifica a nossa natureza. O problema que o seguimento a Jesus apresenta é este: quero mudar de vida? Quero ser uma pessoa diferente que aprende a olhar as pessoas como irmãos e irmãs e não como rivais?

Para aprofundar a reflexão nos ajuda são Paulo. Segundo ele cada um de nós tem duas possibilidades de estilo de vida. A primeira é a vida segundo a carne. Este estilo de vida é aquilo que nós herdamos e que tem como protagonista o instinto de sobrevivência que ativa dinâmicas de defesa e de conservação. Segundo são Paulo a vida segundo a carne, ou seja, conforme ao instinto, se manifesta em formas externas especificas.

Os que vivem segundo os instintos egoístas inclinam-se para os instintos egoístas; mas os que vivem segundo o Espírito inclinam-se para aquilo que é próprio do Espírito. Os desejos dos instintos egoístas levam à morte, ao passo que os desejos do Espírito levam para a vida e a paz.

De fato, os desejos dos instintos egoístas estão em revolta contra Deus, porque não se submetem à lei de Deus; (Rom 8, 5-7).

As obras dos instintos egoístas são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, discórdia, ciúme, ira, rivalidade, divisão, sectarismo, inveja, bebedeira, orgias e outras coisas semelhantes. Repito o que já disse: os que fazem tais coisas não herdarão o Reino de Deus.

 Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si. Contra essas coisas não existe lei. Os que pertencem a Cristo crucificaram os instintos egoístas junto com suas paixões e desejos. Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também sob o impulso do Espírito. Não sejamos ambiciosos de glória, provocando-nos mutuamente e tendo inveja uns dos outros (Gal 5,16-26).

Interessante é que, na análise de são Paulo, os instintos egoístas afetam a humanidade em três pontos fundamentais da vida: a sexualidade, a religião e as relações humanas. Das 15 especificações de situações provocadas pelos instintos egoístas mais da metade – 8 – se referem as relações interpessoais. Isso é muito significativo, pois está dizendo que o âmbito mais afetado pelos instintos egoístas é mundo das relações sociais, humanas. ´na maneira de nos relacionamos com os irmãos e os irmãos que se percebe quem é o nosso mestre.

O dato importante é que, quem segue a Jesus e se disponibiliza para um caminho de mudança pode passar de uma vida dominada pelo egoísmo para uma vida guiada pelo Espírito Santo. Este é o sentido da vida cristã: um caminho de conversão. Este caminho pode ser sintetizado pelas palavras de Paulo:

Jesus morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por ele morreu e ressuscitou (2 Cor 15).

Esta é a conversão: passar de uma vida egoísta onde penso somente em mi mesmo e não me interessa dos outros, para uma vida para os outros, para Jesus, que se despojou de tudo para nós. Esta é exatamente o trabalho do Espírito, pois esta passagem de estilo de vida não é humana, não é fruto de esforço humano, mas somente pela ação gratuita do Espírito Santo, capaz de transformar o homem, mulher velho em homem, mulher novos.

 

Vocês devem deixar de viver como viviam antes, como homem velho que se corrompe com paixões enganadoras. É preciso que vocês se renovem pela transformação espiritual da inteligência, e se revistam do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vem da verdade (Ef 4, 22-24).

Esta é uma outra maneira de Paulo falar da conversão como passagem de uma situação para outra. Conversão como passagem do homem velho, marcado pelas paixões da carne, movido pelos instintos egoístas, para um homem novo, impelido pela força do Espírito Santo, que o leva a se doar gratuitamente e de forma desinteressada.

Se trata de uma transformação profunda que chega até a modificar a maneira de pensar e de organizar, planejar a própria vida.

Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável a ele, o que é perfeito (Rom 12,2).

A disponibilidade que nós damos ao Espírito Santo para sermos pessoas novas, se percebe das decisões que tomamos, da maneira de pensar. Esta nova mentalidade, esta nova inteligência transmite os frutos do Espírito Santo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si (Gal 5,26).

Esta maneira nova de pensar provocada pela assimilação cotidiana do Evangelho é bem expressada também nesta passagem da primeira carta aos Coríntios:

Nós temos o pensamento de Cristo (1 Cor 2, 16). O Espírito Santo trabalha de uma forma que chega até a modificar a estrutura dos nossos pensamentos.

Última passagem. Existe um critério para entender se de verdade estamos num processo de conversão, se estamos deixando agir o Espírito Santo na nossa vida ao ponto de nos tornarmos pessoas novas que pensam até de forma nova? Seguindo sempre as intuições de Paulo este critério se encontra na nossa maneira de liar com o passado. ´isso que Paulo fala na carta aos Filipenses:

Por causa de Cristo, porém, tudo o que eu considerava como lucro, agora considero como perda. E mais ainda: considero tudo uma perda, diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com ele. E isso, não mais mediante uma justiça minha, vinda da Lei, mas com a justiça que vem através da fé em Cristo, aquela justiça que vem de Deus e se apoia sobre a fé. Quero, assim, conhecer a Cristo, o poder da sua ressurreição e a comunhão em seus sofrimentos, para tornar-me semelhante a ele em sua morte, a fim de alcançar, se possível, a ressurreição dos mortos (Fil 3, 7-11).

Quem fica amarrado ao passado e não consegue desgrudar disso, vive ainda conforme ao princípio da carne, conforme os instintos egoístas. O Espírito Santo que entre em nós abrindo a nossa mente nos ajuda a perceber a presença de Cristo na História e nos mostra os novos caminhos que Deus prepara para nós. A inteligência nova provocada pelo Espírito nos ajuda a sermos pessoas de mente aberta, que sabem olhar futuro com o coração cheio de esperança porque sabe muito bem que, apesar das aparências matérias negativas, na realidade o futuro é já marcado pela vitória de Cristo sobre a morte. São coisas novas que o Espírito prepara para nós. O dato interessante, e concluo com isso, é que já o profeta Isaias partilhava esta ideia:

Não fiquem lembrando o passado, não pensem nas coisas antigas; vejam que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem? (Is 43, 18-19).

 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

HOMILIA XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

 





Jr 20, 7-9; Sal 62; Romanos 12:1-2; Mt 16:21-27

 

Paulo Cugini

Acompanhar o caminho percorrido por Jesus, ouvir as suas palavras, meditar nas suas escolhas, ajuda-nos a compreender o sentido do nosso caminho, a compreender quem somos e para onde somos chamados a ir. O que chama a atenção em Jesus é a clareza de suas posições, a serenidade que o leva a enfrentar cada obstáculo. É também impressionante a capacidade de dizer a verdade não só às pessoas que lhe são hostis, como os fariseus e os líderes religiosos, mas também aos amigos e, de modo particular, como acontece no Evangelho de hoje, aos seus discípulos. Seguir Jesus significa estar aberto a uma mudança contínua de mentalidade, a questionar a própria experiência para dar lugar ao novo. O segredo do sucesso da nossa vida está nas mãos dele: vamos ouvir o que ele tem para nos dizer hoje.

Naquele momento, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que deveria ir a Jerusalém e sofrer muito com os anciãos, principais sacerdotes e escribas, e ser morto e ressuscitar no terceiro dia. Jesus está consciente das consequências das palavras e das escolhas feitas até agora. Ele sabe muito bem que se chegar a Jerusalém, como pretende, será preso e sofrerá violência até a morte. Se ele sabe dessas coisas, por que continua o caminho? Por que ele não vai para outro lugar? Jesus sabe muito bem que a bondade das suas palavras e das suas escolhas, o próprio sentido do que disse e fez, só pode ser compreendido se Ele for coerente consigo mesmo até ao fim. É precisamente isto que diz o evangelista João quando, antes dos trágicos acontecimentos da última ceia, que conduzirá à morte de Jesus na cruz, afirma: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim" (Jo 13,1). Este é o segredo da vida de Jesus, que nos é dado com a sua trágica morte: para dar fruto no coração das pessoas, a semente lançada na existência dos amigos só dará fruto se Ele morrer, só se for coerente até ao fim (cf. Jo 12). É de como morremos que depende a bondade ou a negatividade de nossas escolhas.

Pedro chamou-o à parte e começou a repreendê-lo dizendo: «Deus não permita, Senhor; isso nunca vai acontecer com você. Mas ele, virando-se, disse a Pedro: «Vai atrás de mim, Satanás! Você é um escândalo para mim, porque não pensa segundo Deus, mas segundo os homens!». Deste diálogo resulta claramente que Jesus tinha razão quando, no trecho ouvido no domingo passado, disse que a afirmação de Pedro sobre a identidade de Jesus era fruto de uma revelação do alto e que não dependia diretamente dele. No trecho que acabamos de ouvir emerge o que Pedro tem no coração e que não é muito diferente das expectativas dos outros discípulos: um messias poderoso e a possibilidade de reinar politicamente com ele. O discurso do sofrimento e da morte não entra na perspectiva de quem segue o Senhor cultivando sonhos humanos. Nem entra em todos aqueles que procuram o templo para obter favores pessoais.Há muita idolatria nos caminhos religiosos, muito paganismo, que Jesus veio purificar. Por isso o Senhor afasta Pedro com palavras muito duras. Pensar segundo Deus significa procurar todos os dias a sua vontade, acolher o seu Espírito que nos permite viver em conformidade com o caminho percorrido, apesar de tudo. Pensar segundo Deus, manifestado em Jesus, significa deixar de buscar favores pessoais, usando a religião para se promover.

Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo , tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á. Este é o Evangelho, a boa notícia, o acolhimento da vida que vem de Jesus, do seu amor, da sua sede de justiça. O seguimento que iniciamos desde a juventude deve ajudar-nos a abrir-lhe espaço, a amadurecer uma escolha definitiva a ser renovada a cada dia, aproveitando as riquezas que encontramos ao longo do caminho. Decidir acolher o amor do Senhor implica renunciar a tudo o resto, negar aqueles projetos infantis que ficaram a crescer na alma no período em que Ele ainda não estava no horizonte.

Aprender a fixar o olhar no Senhor, assimilar a sua Palavra, acolher O seu Espírito, para fazer com que tudo na vida seja orientado para Ele e a partir Dele, permite-nos permanecer firmes no caminho, especialmente nos períodos mais difíceis. De fato, quando a tensão espiritual enfraquece, se abre o espaço dentro de nós para que as ilusões entrem e estas, progressivamente, enfraquecem as motivações. É precisamente nestes momentos em que se sente o peso negativo da renúncia, em vez do valor do amor livremente aceito do Senhor, que é necessário trabalhar o desejo, redirecionando-o para o Senhor, não permitindo assim a frustração. que a ilusão gera, fazendo-nos querer o que não temos, é removida pela raiz.

O sentido da oração pessoal, do tempo que dedicamos à reflexão sobre as palavras de Jesus tem o objetivo de nos lembrar de onde viemos: atraídos pelo seu amor. Não é por acaso que hoje a liturgia da Palavra nos oferece uma página do diário de Jeremias, o jovem profeta que teve que enfrentar tantas opressões por causa do anúncio da Palavra de Deus. Enquanto o profeta lamenta a situação que considera insuportável e medita em seu coração para desistir de tudo, ele confidencia os sentimentos que surgiram em seu íntimo: “ Eu disse a mim mesmo: «Não pensarei mais nele, não falarei mais em seu nome!». Mas no meu coração havia como um fogo ardente, guardado nos meus ossos; Tentei conter, mas não consegui”. É este fogo que somos chamados a cultivar, o fogo do amor do Senhor que molda a nossa alma e nos dá forças para enfrentar os momentos difíceis do caminho, que são a nossa cruz.

Que bem terá um homem se ganhar o mundo inteiro, mas perder a vida? Esta é a frase que devemos repetir constantemente para nós mesmos sempre que as motivações parecem ceder à violência das ilusões. Qual é a utilidade de ganhar o mundo se depois perdermos a nossa alma: esse é o problema. Façamos, portanto, nossas as palavras do salmo hoje ouvido, que nos convida a procurar sempre o nome do Senhor, para manter viva a sede dele: Ó Deus, tu és o meu Deus, desde o amanhecer te procuro, ele tem sede da minha alma, a minha carne te deseja em terra seca, com sede, sem água.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

HOMILIA DOMINGO 13 AGOSTO 2023

 


 

XIX DOMINGO HORÁRIO COMUM

1 Reis 19,9a.11-13a; Sal 84; Rm 9,1-5; Mt 14:22-33

 

Paolo Cugini

Enquanto acompanhamos o caminho que Jesus faz de Norte a Sul, de Nazaré a Jerusalém, a incompreensão dos discípulos perante a proposta do seu anúncio, torna-se cada vez mais clara e, ao mesmo tempo, constrangedora. Afinal, os discípulos, mesmo com toda a boa vontade, eram portadores do ideal messiânico cultivado na tradição judaica, ou seja, um poderoso messias que viria com seu exército para destruir os inimigos. Jesus, pelo contrário, apresenta-se como o portador da paz, encarnando as profecias messiânicas de Isaías, que anunciava a chegada de um mundo sem violência: «já não aprenderão a arte da guerra » (Is 2,4). Vamos ver a página do Evangelho de hoje.

Jesus obrigou os discípulos a entrar no barco e precedê-lo para o outro lado. Verso estranho, mas muito revelador. Por que Jesus teve que forçar seus discípulos a entrar no barco? A resposta mais imediata é: porque não queriam ir. Aqui, então, surge um problema: por que os discípulos não queriam ir com Jesus para o outro lado? O que há do outro lado? Existem os pagãos e, os discípulos, não querem ouvir o anúncio de um amor universal, de uma misericórdia infinita também para eles. A mensagem de Jesus é chocante e, antes de tudo, chocou os ouvintes de seu tempo e, entre eles, os próprios discípulos. De fato, eles estavam acostumados a ouvir palavras de ódio contra seus inimigos e, em vez disso, Jesus os convida a amá-los e a rezar por eles. Jesus está anunciando um Deus totalmente diferente daquele a que não só os discípulos estavam acostumados, mas todo o povo. A de Jesus é uma novidade tão grande que gera resistências, rejeições, polêmicas sem fim.

Tendo despedido a multidão, subiu sozinho ao monte para orar. Ao anoitecer, ele ficou lá em cima, sozinho. Há muita solidão na vida de Jesus, fruto da incompreensão de quem o segue. O anúncio do Evangelho, quando autêntico, cria este tipo de situação existencial. É precisamente nestes momentos difíceis que encontramos Jesus em oração. Se quisermos aprender a rezar como Jesus rezava, devemos olhar para estes momentos. A oração de Jesus não é feita de repetição de palavras, de fórmulas, de pedidos pessoais. Há muito silêncio em torno da sua oração, um silêncio que fala de uma escuta profunda e prolongada do Pai. Na oração Jesus mergulha no amor do Pai. Sem dúvida, existe uma oração comunitária, que tem seu próprio valor intrínseco. A própria oração comunitária, porém, perde muito do seu sentido se não for acompanhada de preparação, de prolongados momentos de oração pessoal, com o estilo que Jesus ensinou no Evangelho.

Enquanto isso, o barco já estava a muitos quilômetros da terra e era agitado pelas ondas: na verdade, o vento era contrário. No final da noite, ele veio até eles caminhando sobre o mar. Quem anda sobre as águas, na tradição judaica, é um só: Deus. As águas do mar são o símbolo do desconhecido, mas também da morte, porque sob as águas vivem os predadores, mas também aqueles peixes que, como o Leviatã ou o hipopótamo, podem destruir o homem. Quem, então, pode caminhar calmamente sobre as águas sem ser dominado pelo medo? Neste versículo há uma indicação profunda da vida espiritual que é tal, quando nos permite enfrentar os problemas mais dramáticos da vida sem perder a calma e o equilíbrio. Nisto se manifesta a divindade de Jesus: é a sua humanidade que contém traços divinos, que estão ao nosso alcance, porque Jesus assumiu a nossa própria natureza humana e a redimiu.

 Ao vê-lo andando sobre o mar, os discípulos ficaram chocados e disseram: "É um fantasma!" e eles gritaram de medo. Mas imediatamente Jesus lhes falou dizendo: «Coragem, sou eu, não temais!». Os discípulos não conseguem ver a presença de Deus em Jesus, estão cegos pela ideia do Deus do Antigo Testamento, o Deus poderoso e glorioso, o Senhor dos Exércitos, para usar uma expressão de Isaías e, por isso, eles estão com medo, justamente porque o Deus da antiga aliança é assustador. Diante do Deus manifestado por Jesus, não há mais o que temer, porque ele é o Deus verdadeiro, o Deus misericordioso, que veio trazer amor a todos, que nos acolhe e se ajoelha diante de nós para nos lavar os pés. São as nossas ideias que nos afastam de Deus, ideias assimiladas na infância e nunca aprofundadas, sobretudo, nunca verificadas seriamente à luz do Evangelho. O caminho que Jesus nos convida a percorrer exige a vontade de mudar de opinião, de nos deixarmos transformar para dar lugar ao amor do Pai, que vem em nós para nos fazer sentir o seu amor e nos ajudar a redescobrir a nossa natureza de filhos e filhas.

Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: "Verdadeiramente tu és o Filho de Deus!" Os discípulos que testemunharam o prodigioso acontecimento chegam a uma solene profissão de fé. Do jeito que as coisas aconteceram, sabemos que a mudança de perspectiva só acontecerá depois da ressurreição de Jesus.A conversão, a mudança de mentalidade é um processo lento que exige paciência e atenção aos acontecimentos. Só o Senhor da história e da vida nos pode ajudar neste caminho: permaneçamos fiéis ao Evangelho que, como diz São Paulo, é o caminho da nossa salvação (cf. Ef 1, 13).

quinta-feira, 14 de abril de 2022

QUINTA-FEIRA SANTA 2022

 




(Jo 13: 1-15)

Paolo Cugini

 

Quinta-feira Santa significa João 13, aquela página do Evangelho que nos faz estremecer, empalidecer, chorar. Encontramos Deus na humanidade de Jesus, é isso que o Evangelho e a Igreja nos ensinam. Isso significa que no gesto de Jesus lavando os pés de seus discípulos encontramos Deus.

O que significa esse gesto? É o mestre que lava os pés do discípulo, é o maior que se rebaixa ao menor: este é o ensinamento de Jesus, esta é a sua humanidade. Significa que quando reproduzimos essa atitude no cotidiano encontramos Deus, percebemos nossa humanidade que foi criada à imagem de Deus, não de qualquer Deus, mas do Deus que se manifestou na humanidade de Jesus, um gesto de amor de Jesus para com seus discípulos. É o que está descrito no início da passagem: Jesus, sabendo que era chegado o seu tempo de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim (Jo 13, 1) . O amor é um caminho de rebaixamento em direção a quem você ama. Não há teste de força, enrijecimento, mas abaixamento. Jesus teria todos os motivos do mundo para endurecer-se com seus discípulos, mas não o faz, porque não quer perdê-los. Jesus veio para salvar tudo e todos, por isso se humilha continuamente ensinando-nos que na humilhação está o mistério do amor que deseja ganhar alguém a qualquer custo, colocá-lo nas mãos do Pai. Você ama seu filho: desça, lave os pés dele. Ele merece dois tapas: deixe de lado os rancores, as reclamações, o rancor, mas conquiste-o com amor: abaixe-se, lave-lhe os pés. É o teste final do amor.

“Durante a ceia, Jesus, sabendo que o Pai lhe dera tudo e que ele vinha de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, despiu as roupas, pegou uma toalha e a enrolou na cintura. Em seguida, derramou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha que estava usando”.

 O texto diz que a ação de Jesus não é espontânea, mas pensada. Jesus sabendo. O que Jesus sabe, o que ele entendeu? Que o Pai lhe dera tudo em suas mãos : o que significa esta afirmação? Significa que Jesus não nasce instruído, mas, sendo um verdadeiro homem, como todos os homens e mulheres, aprende, compreende. Na narração de João, parece que Jesus compreendeu a grandeza de sua identidade nas últimas horas de sua vida. Com essa compreensão de si mesmo, ele vai na mesma direção em que sua humanidade sempre o conduziu, ou seja, não a serviço de um narcisismo exacerbado que não lhe pertence, mas num caminho de amor para com as pessoas que encontra.

São sete os verbos que descrevem a ação de Jesus , que é uma ação que descreve seu amor, pois seu amor toma forma na concretude da vida cotidiana. Ainda. Não são ações feitas por acaso, mas que surgem de um entendimento. De fato, o texto diz: Jesus conhecendo... Há uma consciência que provoca uma ação consciente: o que Jesus faz não é por acaso, mas quer comunicar alguma coisa. Ele faz um gesto que comunica um conteúdo. O amor manifestado por Jesus sempre propõe palavras e ações que vão na lógica oposta das razões humanas, vão na direção do amor que se torna serviço humilde. É um gesto que segue a mesma lógica das palavras que Jesus diz na cruz para seus algozes: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que estão fazendo.

Durante a ceia, quando o diabo já havia colocado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse. O gesto de Jesus de lavar os pés dos discípulos, além das considerações feitas acima, deve ser enquadrado, emoldurado no que Jesus entendeu, ou seja, a traição de Judas e a negação de Pedro que, entre outras coisas, estão entre os protagonistas desta passagem, no sentido em que são citados. Mais uma vez, Jesus tinha todos os motivos para enviar aquele grupo de inúteis de seus discípulos para aquele país, mas faz um gesto que vai na direção oposta de suas razões. Jesus lava os pés daqueles que ele sabia que o trairiam, o renegavam. O caminho do seguimento do Senhor não se baseia no sucesso humano, mas exclusivamente no amor do Pai. Há um olhar de amor entre Jesus e o Pai que filtra todos os relacionamentos. Jesus aprendeu a não basear suas escolhas no sucesso humano: também este é um grande ensinamento.

Então ele foi ter com Simão Pedro e lhe disse: "Senhor, você está lavando os meus pés?" Jesus respondeu: 'O que estou fazendo você não entende agora; você vai entender mais tarde ». Pedro lhe disse: "Você não vai lavar meus pés para sempre!"

 Há outro aspecto interessante na cena do lava-pés, destacado pela atitude de Pedro. O discípulo não quer que Jesus lave seus pés. Como traduzir a resistência de Pedro? É o símbolo da não aceitação de que a humanidade de Jesus nesta sua manifestação extrema é a ponte para o encontro com Deus. A atitude de Pedro descreve a dificuldade que todos aqueles que não conseguem se livrar de suas idéias sobre Deus, aquelas idéias que recebemos da tradição, ou que simplesmente nos são transmitidos pelo senso comum, que pensa Deus como algo totalmente diferente do homem, do mundo e, consequentemente, deve ser reverenciado. Pedro é o símbolo daqueles que não aceitam que é Deus quem reverencia o homem, não aceitam o Deus que se humilha, que se faz pequeno, porque não querem se envolver neste caminho de humilhação: querem continuar a manter distância, para poder fazer o que eles querem. Jesus, por outro lado, lava-nos os pés para nos fazer caminhar com Ele, para nos ajudar a compreender que o sentido profundo da vida não está em fazer o que se quer, mas em dar-se de forma livre e desinteressada.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

III° Domingo do tempo comum/C

 



(Ne 8, 2-6.8-10; Sal 19; 1 Cor 12, 12-30; Lc 1,1-4;4,14-21)

 

 

Paolo Cugini

 

1. “Jesus voltou para a Galiléia com a força do Espírito e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam” (Lc 4,14).

 

No começo deste ano litúrgico a liturgia da Palavra está nos propondo os primeiros passos da ação evangelizadora de Jesus. E, assim, o encontramos hoje pregando nas sinagogas da Galiléia provocando a admiração do povo. Elogios que já de antemão sabemos que não surtiram nenhum efeito, mas, pelo contrario, provocaram a raiva dos fariseus e dos chefes religiosos do tempo. Isso para nós é já uma indicação importante: a Palavra de Deus que Jesus pronunciou, não serve para provocar a nossa admiração, mas a nossa conversão, a mudança das nossas atitudes humanas. Também porque a Palavra de Deus não tem como objetivo golpear os nossos sentidos carnais, mas a nossa alma.

É de fato, uma Palavra cuja essência não é aquela de ficar em superfície, mas, pelo contrario de “penetrar até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4, 12).

 A Palavra é vida, é a vida eterna por aqueles que a acolhem. É por isso que os fariseus procuravam matar Jesus: “porque a minha Palavra não penetrou em vós” (Jo 8, 37).

 Jesus é a luz verdadeira que ilumina todo homem, é a luz que brilha nas trevas, mas as trevas não a acolheram (Cf. Jo 1, 1-14).  Mais uma vez, não basta ficarmos entusiasmados para aquilo que sentimos numa celebração, num momento litúrgico, numa missa o numa outra experiência religiosa: aquilo que conta é abrir espaço para que Jesus entre na nossa vida. O objetivo de Jesus não é produzir uma empolgação nos ouvintes, mas o desejo de segui-lo, de mudar de vida. De fato o Evangelho de hoje encerra com este versículo deslumbrante:

 “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21).

 Jesus se apresenta como o cumprimento da Escritura, quer dizer que a Palavra de Deus não é uma letra morta, mas uma pessoa viva, um estilo de vida, um jeito de ser, de viver, de amar: a Palavra de Deus é o mesmo Jesus. É o seu estilo que deve penetrar dentro de nós, para moldar a nossa existência e assumir a forma de Cristo, a Palavra que se fez carne, que se manifestou e veio a morar no meio de nós.

 

2. O problema, então, é o seguinte: como isso pode acontecer? O que precisa para o homem, a mulher acolher a Palavra de Deus? Quais são as condições necessárias para que a Palavra de Deus não fique na superfície da nossa vida, mas penetre na nossa alma?

 

“Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até o meio dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei” (Ne 8, 3).

 

São duas as características necessárias para a Palavra de Deus entrar na vida de uma pessoa: a possibilidade de compreender e a atenção.

Compreender, neste contexto, não se refere às capacidades humanas, a inteligência humana, mas ao desejo de entender o caminho de Deus, a sua vontade. Tarefa da Igreja, nessa altura, é criar as condições para que a leitura da Palavra possa ser compreendida. Jesus mesmo um dia falou que não podemos jogar as perolas aos porcos, ou seja, não podemos pregar a Palavra de Deus num contexto aonde o povo não está predisposto ao entendimento. Em segundo lugar, para que a Palavra de Deus penetre nas almas dos fieis, precisa de atenção, ou seja, do esforço de limpar a própria vida de qualquer coisa que possa atrapalhar o entendimento daquilo que estamos escutando. Uma pessoa que anda distraída não irá sem duvida nenhuma criar espaço na sua alma para a Palavra de Deus entrar.

3. Quais são os primeiros frutos da Palavra de Deus quando penetra na alma da pessoa?

“Não fiquei tristes nem choreis, pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da lei... Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força” (Ne 8, 9.10).

 

Em primeiro lugar quando a Palavra encontra espaço na vida das pessoas, provoca o choro. A Palavra descortina as trevas, o amor de Deus desvende o ódio escondido na nossa alma, a gratidão de deus manifesta o nosso egoísmo. Não existe pessoa tão dura de coração que possa agüentar a verdade da Palavra de Deus. É o choro de Pedro na noite da morte de Jesus, quando o Mestre o olhou depois de Pedro ter renegado Jesus por três vezes. Aquele olhar fez Pedro desmoronar, sentiu o mesmo olhar de Deus dentro de si. Ou, também, o choro da mulher adultera aos pés de Jesus: ninguém agüenta a santidade de Deus. Este é o primeiro fruto da Luz que esbanja a Palavra de Deus: tomar consciência da tristeza da minha vida mergulhada no pecado. Só que não podemos apenas ficar chorando o tempo todo. É por isso que ao mesmo tempo A Palavra de Deus deve suscitar em nós o sorriso, a alegria. Deus, de fato, com Jesus, a Palavra viva, nos mostra uma saída, uma chance de uma vida nova, uma possibilidade concreta de viver buscando antes de tudo o Reino de Deus e a sua Justiça (Cf. Mt 6,22-32). Quem não vislumbra na Palavra um caminho diferente de vida, uma possibilidade de sair concretamente da multidão anônima para uma vida mais autentica, não chorou  ainda com sinceridade sobre a própria condição, ou seja, não tomou ainda claramente consciência da própria situação de pecado e de que forma este estrague a vida.

 

Que a Palavra de Deus possa ser a nossa verdadeira e única esperança.

 

 

Tapiramutá.                                                                                               Pe Paolo Cugini

 

 

 

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

JOGA FORA A CAPA

 




DOMINGO XXX / B

(Mc 10, 46-52)

Paolo Cugini

 

No Evangelho da semana passada, o evangelista Marcos colocou como protagonistas da narração dois discípulos, Tiago  e João, chamados pelos ímpetos e exuberâncias dos filhos do trovão, que manifestam sua surdez para a Palavra de Jesus. O pedido que fizeram de sentar-se à sua direita e à sua esquerda, revela a incompreensão do conteúdo da proposta de Jesus: para eles vale o ditado: têm ouvidos, mas não ouvem. No Evangelho proposto neste domingo, continua a apresentação das dificuldades que os discípulos têm para compreender plenamente a mensagem do Mestre, dificuldade que se manifesta na incapacidade de se distanciar do próprio pensamento e de projetar sobre jesus expectativas que não pertencem a ele. Mas vamos à história.

Jesus deixou Jericó com seus discípulos e uma grande multidão. A expressão de Jesus que parte de Jericó é indicativa, porque foi justamente em Jericó que a conquista da terra prometida começou pelas mãos de Josué. É como se Marcos quisesse enfatizar que a terra que representava o sonho da liberdade em relação ao domínio egípcio, tornou-se agora uma terra de escravidão da qual é melhor sair, escravidão por causa daquelas leis que, em vez de libertar o homem, aprisionaram dele.

Bartimeu, filho de Timeu, que era cego, estava sentado à beira da estrada mendigando. Ouvindo que era Jesus de Nazaré, ele começou a clamar e dizer: "Filho de Davi, Jesus, tem misericórdia de mim!"

Bartimeu é um nome composto por uma palavra aramaica - bar - que significa: filho, e timaios , palavra de origem grega que significa: honrado. Parece, portanto, que se trata de uma repetição do mesmo nome, talvez para indicar os dois discípulos protagonistas da narração anterior, a saber, Tiago e João. Nome simbólico, portanto, que indica o discípulo que está cego pelas suas ideias a ponto de não poder "ver" a novidade da proposta de Jesus. Na verdade, o cego chama Jesus de: filho de David, aquela denominação que vem daquela tradição profética que identifica o messias, sucessor de Davi, como aquele que libertará Israel do opressor com força e violência. No entanto, Jesus, desde o início em suas palavras e em suas escolhas, manifestou-se tudo, menos violento. Jesus veio para anunciar o Reino de Deus, uma possibilidade de vida fora dos esquemas de abuso e violência, mas dominada pela igualdade e pelo amor. Chamar Jesus pelo nome de filho de Davi significa não ter entendido sua mensagem, não ter apreendido a novidade de sua proposta. Esta é a grande cegueira de Bartimeu, que simboliza a cegueira dos discípulos, daqueles que deturpam e não compreendem a fala de Jesus, porque estão cegos pelas próprias ideologias.

Jesus parou e disse: «Chame-o!». Chamaram o cego, dizendo: «Coragem! Levanta, ele te chama! ». Ele tirou o manto, deu um pulo e foi até Jesus, que lhe disse: "O que você quer que eu faça por você?" E o cego respondeu-lhe: "Rabi, posso ver de novo!"

É o cego que se encaminha para Jesus, movimento que indica o caminho da conversão, da mudança de mentalidade. Existe, em primeiro lugar, a voz de Jesus chamando-o. Ouvir a palavra do Senhor é a única que nos pode abalar das nossas certezas, que não nos permitem viver em plenitude, de forma autêntica. Então, é a comunidade que convida os cegos a se levantarem. Destaca-se o papel da comunidade, chamada a ajudar as pessoas no caminho de compreensão de sua mensagem. Em qualquer caso, nem a Palavra do Senhor nem a comunidade podem produzir qualquer tipo de mudança se não houver envolvimento pessoal da pessoa em questão. Antes de se levantar de um salto, o cego tira o manto, claro símbolo daquelas ideologias que até agora não lhe permitiram "ver" o Senhor, perceber a bondade da sua proposta. A pergunta de Jesus fala da liberdade necessária no caminho de fé, que é uma proposta e não uma imposição.

Jesus disse-lhe: "Vai, a tua fé te salvou."

São Paulo tem razão quando afirma na carta aos Romanos que é a fé que salva o homem e a mulher de uma vida inautêntica. O que é fé? No caso em questão é o caminho percorrido pelo cego, um caminho que vai desde a escuta da Palavra, até à ajuda da comunidade e, sobretudo, desde o seu gesto de atirar fora o manto e depois levantar-se e partir. A fé é a coragem de jogar fora o que nos impede de nos levantar, de ver. O manto é o símbolo daquela realidade feita de tradições humanas que não nos permitem apreender a beleza do Evangelho, Jogar fora o manto: é o que o Evangelho nos pede hoje.

 

sábado, 3 de julho de 2021

JESUS VEIO PARA NOS LIBERTAR DA RELIGIÃO

 



DOMINGO XIV / B

(Ez 2, 2-5; Sal 122; 2 Cor 12,7-10; Mc 6: 1-6)

Paolo Cugini

 

A liturgia de hoje nos propõe uma reflexão sobre algumas questões interligadas, relacionadas com a dificuldade que Jesus encontra em seu ministério e, em geral, as dificuldades enfrentadas por aqueles que desejam orientar espiritualmente suas vidas , tendo Deus e Sua Palavra como um ponto de referência. É uma dificuldade que não diz respeito a um povo específico ou a um período histórico específico. Na verdade, é um problema que encontramos em todas as épocas e em todos os tempos. Certamente, a resistência que Jesus teve de registrar contra sua proposta é notável, especialmente por parte daqueles que deveriam ter aceitado esta proposta, isto é, os religiosos.

   “ Quando chegou o sábado, ele começou a ensinar na sinagoga. E muitos, ouvindo, maravilharam-se e disseram: «De onde vêm estas coisas? " (Mk 6,2). No Evangelho de Marcos, Jesus entra na sinagoga três vezes. Na primeira, foi interrompido. Na segunda, piorou porque tentaram matá-lo, porque Jesus curou uma pessoa no dia de sábado, despertando a ira dos fariseus. Para Jesus, o bem da pessoa vem antes da observância da lei; na verdade, a observância das leis de Deus está a serviço do bem das pessoas. A terceira vez, corresponde ao episódio do Evangelho de hoje e temos todos os pressupostos positivos de um encontro que deve correr bem pelo facto de ir a Nazaré, que é a sua terra natal, entre os seus familiares e amigos. Mas, mesmo aqui, Jesus encontra forte resistência, porque seu ensino não é como o dos escribas, que repetem fórmulas e realizam rituais pré-estabelecidos sempre da mesma maneira. Pelo contrário, o ensinamento de Jesus é a proposta de uma nova relação com Deus, que não se baseia na observância de suas leis, mas na aceitação de seu amor, o que exige novas relações com os irmãos e irmãs da comunidade. É justamente essa novidade que surpreende os que estão na sinagoga, a ponto de questionar seu ensino. "De onde vieram essas coisas?" Pergunta que diz todo o cepticismo em relação às palavras de Jesus, questiona-se a proveniência divina e a procura do ambiente de proveniência da sua doutrina indicada como feitiçaria. A referência, de fato, às mãos - os prodígios como os executados por suas mãos - indica uma origem mágica ou mesmo da bruxaria e, conseqüentemente, uma pesada acusação de impostor, vigarista, quem quer chamar a atenção das pessoas enganando-as com truques. Os homens da sinagoga, da religião do templo, incomodam-se com a forma gratuita e desinteressada da ação do Mestre Jesus, atento aos fracos, que dá lugar aos pobres. Muito pelo contrário, dos líderes religiosos, interessados ​​em dinheiro, gostavam de serem homenageados pelo povo, e vestiam-se de maneira luxuosa. O estilo de Jesus desmascara a hipocrisia dos líderes religiosos que, para se defenderem, não têm outro meio senão a calúnia e a mentira.

" Não é ele o filho de Maria? ...". Mesmo que Jesus esteja em seu país e por isso seja conhecido, os líderes religiosos não o nomeiam, pelo contrário, o insultam. Na verdade, ao chamá-lo de filho de Maria, os líderes religiosos insinuam que Jesus, por um lado, não é digno de seu pai e, por outro, é uma pessoa ruim. Nunca em Israel um homem se define como filho da mãe, mas sempre do pai, em virtude da cultura patriarcal que considerava o homem como verdadeiro e autêntico transmissor da paternidade.

« O profeta não é desprezado senão na sua pátria, entre os seus familiares e na sua casa ». Este é o problema básico. Na verdade, Jesus não se identifica com o sacerdócio, que era dominante em sua época. Jesus identifica a sua pessoa e a sua missão na linha profética, no caminho de quem viveu a religião, na relação com Deus não como uma profissão, ou como um conjunto de preceitos a serem obedecidos, mas como uma profunda experiência de amor com o Mistério, que eles tentaram transmitir aos seus discípulos.

“ E lá ele não podia fazer milagres ”. A conclusão é terrível e muito triste. Onde há religião, Jesus não pode se manifestar. Onde o relacionamento com Deus é mediado por ritos, doutrinas e dogmas que não conseguem captar o verdadeiro bem das pessoas, Jesus e seu espírito não podem agir. A tarefa da Igreja, então, é libertar os homens da religião, ajudá-los a entrar numa profunda relação de confiança com Deus, num estilo de vida essencial e simples, um autêntico sinal da presença do Deus de Jesus Cristo no mundo.

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

UMA NOVA ALIANÇA

 




V DOMINGO DA QUARESMA / B

Jr 31: 31-34; Hb 5,7-9; Jo 12,20-33

Paolo Cugini

 

Aproximamo-nos da Páscoa e a liturgia da Palavra faz-nos vislumbrar o sentido deste caminho espiritual que, ao mesmo tempo, é um caminho de humanização. Jesus é a nova aliança profetizada por Jeremias, é a luz na escuridão da noite, é o grão de trigo que morreu para nos dar vida. Podemos compreender esta novidade libertando-nos de nossas tentativas de auto-salvação, permitindo que o Espírito Santo nos toque no fundo de nossa consciência.

«Porei a minha lei neles, escreverei nos seus corações» (Jr 31,33). Em uma era, a do século VI a.C. em que a Palestina foi ameaçada de todos os lados - Egito do Sul e Nabucodonosor do Noroeste - e era perceptível a iminente ruína, que, como sabemos, acontecerá a partir de 604 a.C., o profeta tenta ajudar o povo, convidando-os a olhar para outro lugar, além da destruição iminente. Se é verdade que a Antiga Aliança não funcionou, a ponto de os sábios de Israel lerem os eventos de destruição social como resultado da desobediência do povo às leis que Deus havia confiado a Moisés, é igualmente verdade que essa falha não é simplesmente um sinal de um fracasso histórico e sem volta, mas torna-se espaço para uma nova possibilidade de vida. Jeremias encoraja o povo de Israel mostrando-lhes uma nova perspectiva, uma nova forma que Deus escolheu para revelar a sua palavra de amor, que orienta as pessoas para uma vida mais autêntica. Há, portanto, uma iniciativa de Deus que surpreendentemente intervém na história não para condenar a humanidade, mas para envolvê-la na sua infinita misericórdia: "Perdoarei as suas iniqüidades e nunca mais me lembrarei dos seus pecados" (Jr 31, 34). É nesta nova aliança de amor que as pessoas são chamadas a repensar e redescobrir uma nova forma de estar no mundo. Essa maneira de proceder de Deus manifestada pelo profeta Jeremias contém, em minha opinião, um grande ensinamento para a comunidade cristã. Em situações difíceis, como a que vivemos na pandemia, em vez de ficar reclamando e pensando nos tempos que passaram, a comunidade cristã é chamada a pensar algo novo, a implementar novas estratégias. As leituras de hoje ensinam-nos que, neste esforço de criatividade, não estamos sós, porque podemos aproveitar os conteúdos que o Espírito derramou em nós, nas nossas consciências e que nada esperam senão ser invocados.

«Se o grão de trigo não morre, fica só, mas se morre dá muito fruto» (Jo 12, 24). Se quiséssemos dar um nome, uma cara à Nova Aliança anunciada pelo profeta Jeremias, só podemos citar o nome de Jesus. Ele é, de facto, a Nova Aliança, é a sua forma de viver do amor, que rompe o estilo de vida marcado pelo egoísmo, é a sua entrega desinteressada que rompe os esquemas meritocráticos tão presentes também na vida das comunidades cristãs. Só podemos ir para o outro, para a outra de forma desinteressada e livre a exemplo de Jesus, se estivermos num caminho de transformação, de relação constante com o Senhor, que vai nos despojando progressivamente dos resíduos do nosso egoísmo. É o Senhor quem nos salva do nosso destino de solidão, produzido pela tentativa de concretizar a nossa vida contando apenas com a nossa força, que nos leva a ver nos outros não irmãos e irmãs, mas inimigos a combater. Um novo mundo é possível quando aprendemos a ser visionários como o profeta Jeremias, que viu novos caminhos onde as pessoas não viam nada além de lágrimas e desespero.

Quanto a Jesus, cuja hora da manifestação de sua glória se cumpre na cruz, sinal de seu imenso amor ao Pai, assim é para nós quando, despojados de nosso egoísmo, vivemos intensamente nossa vida fraterna, manifestando assim a nova aliança que é a vida de Cristo entre nós. É isso que o mundo precisa ver para crer no Senhor: novos homens e mulheres que não vivem mais para si, mas que optam por uma vida de doação gratuita por amor.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

UM NOVO ENSINAMENTO

 




QUARTO DOMINGO NO HORÁRIO ORDINÁRIO B


 

 

Paolo Cugini

«E maravilhavam-se com o seu ensinamento: ele, de facto, ensinava como quem tem autoridade» (Mc 1, 21).

Jesus inicia a sua atividade pública longe de Jerusalém: lá chegará no final do seu caminho. Isso já é uma grande indicação do método que Jesus nos dá. Quem já visitou Cafarnaum se surpreende com sua pequenez, por ser um não-espaço, uma não-cidade, como diria um conhecido filósofo contemporâneo. Jesus recebe a tarefa de anunciar a vinda do Reino de Deus a todas as mulheres e homens e o faz a partir não da cidade grande, mas do pequeno país desconhecido e pobre. É verdade que não é o lugar que torna uma pessoa ótima, mas è a grande pessoa torna o lugar ótimo. O que é surpreendente desde o início é o estilo de Jesus, a sua forma de falar com as pessoas porque é vista como uma forma diferente de dizer as coisas. Diferente em que sentido? O termo de comparação são os escribas, que tinham grande crédito entre o povo pela tarefa de estudiosos do direito, que deviam dar respostas, tomar decisões sobre como observar a lei, mas também saber e dar a conhecer com uma autoridade geralmente reconhecida autoridade ("Da cadeira de Moisés": Mt 23: 2) as respostas e decisões anteriormente dadas, "as tradições dos antigos" (ibid. 15.2; Mc 7: 3), das quais eles contaram muito e com cuja observância eles carregavam as consciências. Das controvérsias descritas nos capítulos seguintes, podemos apreender o principal motivo dessa diferença apontada no início do Evangelho de hoje sobre a forma de ensino. Na verdade, Jesus disse: 

“Cuidado com os escribas, que gostam de andar com mantos compridos, receber saudações nas praças, ter as primeiras cadeiras nas sinagogas e as primeiras cadeiras nos banquetes. Devoram as casas das viúvas e exibem longas orações; receberão condenação mais pesada” (Mc 12,38-40).

É, portanto, um ensinamento que, com o passar do tempo, perdeu o sentido da gratuidade e da pesquisa bíblica, para dar lugar a aparência e para a busca de aprovação externa para o pessoal. Jesus condena essa deturpação, o uso descarado do conhecimento bíblico para servir aos próprios interesses em vez de servir ao povo de Deus no conhecimento crescente do Senhor e de sua Palavra. A de Jesus é uma acusação que se torna uma denúncia pública e, portanto, um desmascaramento público da hipocrisia dos escribas, da sua forma desprezível de ensinar a Palavra, da exploração da mesma para se colocarem acima do povo e não a serviço.

Se esta é a acusação contra os escribas, então qual é a novidade do ensino de Jesus, que " ensina como quem tem autoridade "? 

De onde vem essa autoridade? Encontramos uma primeira chave para a leitura na primeira leitura de hoje no livro de Deuteronômio:

«O Senhor vosso Deus suscitará para vós, entre vós, entre os vossos irmãos, um profeta como eu» (Dt 18,15).

Jesus age como os profetas do Antigo Testamento e, em particular, a referência bíblica da primeira leitura nos sugere que seu modo de agir se assemelha ao de Moisés, homem de Deus, que falou cara a cara com YHWH e que viveu entre seus irmãos e irmãs. O ensinamento de Jesus nasce da sua relação profunda com o Pai, uma relação tão autêntica que transmite aos irmãos que o acompanham no caminho de Jerusalém. Esta forma de estar no meio do seu povo, sinal do amor do Pai, dá-lhe aquela autoridade que não precisa de se levar com arrogância como os escribas, mas que lhe é entregue pelo povo. Sempre na linha profética, há uma outra passagem - citada, entre outras coisas, em correspondência com a passagem de Marcos que comentamos, da Bíblia de Jerusalém - que pode nos ajudar a aprofundar o estilo de Jesus, seu jeito diferente de vida, ensinando, o que lhe dá autoridade.

“Não gritará nem levantará o tom, não fará ouvir a sua voz na praça, não quebrará cana rachada, não apagará um pavio com chama apagada: proclamará o que é justo com a verdade ( Is 42, 2-3).

Palavras que descrevem aquele misterioso caráter do servo do Senhor indicado em quatro passagens da segunda parte do livro do profeta Isaías (40-55). Para proclamar o direito com verdade, o servo de JHWH não precisa levantar a voz nem mesmo exercer violência coercitiva, porque a mensagem que pretende comunicar passa pela sua relação com o Senhor, que lhe dá a paz e a sua fidelidade. a missão que lhe foi confiada: “não falhará e não cairá” (Is 42,4). É esse estilo manso, humilde, delicado nas relações, que também vai caracterizar o estilo de Jesus, aquele estilo que antecede as palavras ditas com a boca e, ao mesmo tempo, revela o seu significado profundo. Longe de ser um ensinamento catedrático e teórico, o que dá autoridade ao ensinamento de Jesus é estar no meio do povo com mansidão e docilidade, sinal do amor do Pai que vem a nós na paz e na comunhão.

A Palavra, portanto, nos convida a experimentar o amor de Deus na vida cotidiana e também na comunidade, experimentando a igualdade entre irmãos e irmãs, do serviço aos mais pequenos e da partilha. Quando entregamos a dócil escuta da palavra na vida cotidiana, empenhando-se em construir relações humanas baseadas no respeito mútuo e na atenção ao próximo, este ensinamento torna-se sinal da presença de Cristo entre nós (cfr. Jo 13,35) e possibilidade para o mundo acreditar nele.