Paulo Cugini
Há pensamentos que surgem
apenas à noite, quando o ruído do dia se dissipa lentamente e as coisas,
imersas no silêncio, parecem revelar sua verdadeira face. É então que
compreendemos, talvez com maior clareza, que viver não se resume a navegar
pelas horas, fazer gestos, defender nosso espaço, mas sim a assumir, a cada
dia, uma responsabilidade para com aqueles que caminham ao nosso lado.
Não somos ilhas perdidas no
mar escuro da existência. Mesmo quando nos sentimos autossuficientes, mesmo
quando nos trancamos em nossos aposentos interiores e diminuímos as luzes para
evitar perturbações, a vida continua a nos lembrar que estamos conectados uns
aos outros. Vivemos juntos, respiramos dentro de uma teia de relações, e esse
pertencimento traz consigo um chamado silencioso, porém exigente: proteger uns
aos outros.
Caminhamos juntos na mesma
noite, muitas vezes com passos incertos. Às vezes, um enxerga melhor, outras
vezes é o outro que percebe um perigo, um desvio, uma ferida que não
conseguimos reconhecer sozinhos. Por isso, quando alguém comete um erro, é
importante apontá-lo. Não para julgar, não para humilhar, não para nos
sentirmos mais justos, mas porque o verdadeiro amor não permanece indiferente
ao que pode ferir, extinguir ou nos distanciar da verdade.
Contudo, chamar um irmão ou
irmã de "irmão" não é um gesto simples. Requer uma delicadeza
semelhante à de quem entra num quarto escuro com uma pequena lâmpada nas mãos:
é preciso ter cuidado para não ofuscar, para não ferir os olhos de alguém que
há muito se acostumou à penumbra. Requer paciência, escuta e respeito pelo
tempo. Nem todos estão prontos para aceitar uma palavra de correção; nem todos
conseguem reconhecer imediatamente no olhar do outro uma oportunidade de
crescimento. Portanto, mesmo quando se tem razão, às vezes é mais sábio esperar
o momento certo, a abertura certa, aquele instante em que o coração do outro se
abre sem se sentir atacado.
Na verdade, os relacionamentos
humanos não podem ser improvisados. Devem ser cultivados diariamente, como
luzes acesas ao longo de um caminho que, de outra forma, se tornaria
intransitável. Somente em relacionamentos nutridos com cuidado, sinceridade e ternura
é possível receber uma palavra difícil sem se sentir condenado. Somente onde há
confiança é que a ligação pode se tornar uma dádiva, não uma ferida; uma
orientação, não uma imposição.
É a dimensão comunitária da
vida que nos ajuda a descobrir quem somos. Nossa identidade nasce não apenas no
segredo de nossos pensamentos, mas também no olhar dos irmãos e irmãs que nos
encontram, nos observam, falam conosco, nos questionam. Precisamos do olhar do
outro para crescer como seres humanos, porque ninguém se vê por completo. Há
lados luminosos que ignoramos e que os outros nos ajudam a reconhecer; mas
também há áreas sombrias, pontos obscuros, dobras ocultas que clamam por
iluminação.
Aprender a conviver
pacificamente em meio a confrontos e repreensões significa compreender que a
vida é uma relação, e que essa relação exige humildade. Significa aceitar que
os outros podem ver em nós algo que não queremos ver. Significa não fugir quando
uma palavra nos atinge em nosso ponto mais vulnerável, mas permanecer,
respirar, deixar a turbulência se dissipar, questionando-nos se, naquela
palavra, reside uma pequena verdade capaz de abrir uma porta.
Na jornada da vida em
companhia de outros, aprendemos a não nos isolar, a não pensar que podemos
resolver tudo sozinhos, a não transformar a solidão em força. Em vez disso,
descobrimos que a beleza da vida nos chega justamente através das pessoas que
encontramos pelo caminho: aquelas que nos apoiam quando vacilamos, aquelas que
nos contradizem quando nos perdemos, aquelas que nos amam o suficiente para não
nos deixar prisioneiros de nossas ilusões.
Talvez rejeitemos os
comentários negativos daqueles que nos rodeiam porque, no fundo, temos medo de
nós mesmos. Temos medo do que poderíamos descobrir se realmente aceitássemos
olhar para dentro. Temos medo do trabalho interior que deveríamos empreender,
também porque não estamos acostumados à vida interior. Muitas vezes
permanecemos no limiar, preferindo o brilho artificial das distrações à
escuridão fértil do silêncio.
Contudo, se ao menos uma vez
na vida tivéssemos a coragem de mergulhar em nosso interior, com determinação e
confiança, superando o medo inicial de encontrar a escuridão das nossas
profundezas, descobriríamos que essa escuridão não é apenas uma ameaça. É
também um lugar de espera, um ventre de transformação, um espaço onde algo pode
nascer. Depois da escuridão, se não fugirmos, surge uma luz diferente: não uma
luz violenta, mas discreta; não uma resposta imediata, mas um Mistério que nos
envolve e nos chama.
Esta é talvez a luz mais
verdadeira: aquela que surge quando aceitamos ser observados, corrigidos,
amados e acompanhados. Uma luz que não apaga as sombras, mas nos ensina a
atravessá-las. Uma luz que nos torna mais autênticos, mais humanos, mais
capazes de caminhar juntos. Porque ninguém se salva sozinho, ninguém cresce
sozinho, ninguém se torna plenamente si mesmo sem o rosto, a palavra e a
presença dos outros.


