martedì 22 settembre 2026

Quando o Evangelho dissolve os grilhões da noite

 




Paulo Cugini

 

 

Há momentos na vida em que tudo está em silêncio, e é precisamente nesses instantes que as mudanças mais profundas se tornam audíveis. No silêncio da noite interior, percebemos que a jornada espiritual não se resume ao que pensamos sobre Deus, mas sim à forma como habitamos o mundo e nos relacionamos com os outros. O Evangelho, quando verdadeiramente acolhido, não se limita a corrigir certas ideias: ele abre novos caminhos, transforma nossa perspectiva e gera relacionamentos pessoais inesperados.

Aqueles que seguem a orientação de Jesus descobrem gradualmente um tipo diferente de parentesco, não baseado em laços de sangue, mas na escuta, na confiança e no desejo compartilhado por uma vida transformada. As pessoas encontradas ao longo do mesmo caminho tornam-se presenças capazes de compreender questões que, em outros lugares, permanecem sem nome. Elas não substituem automaticamente nossos afetos habituais, mas revelam que a comunhão também pode nascer além das fronteiras comuns, onde duas liberdades reconhecem a mesma vocação.

É sob essa perspectiva que os relacionamentos familiares também podem se transformar. Alguns laços preservam boas raízes, memórias e gratidão; outros, porém, permanecem presos a dinâmicas antigas, a papéis inquestionados, a expectativas que os limitam. Quando não crescem na direção do Evangelho e da vida espiritual, até mesmo relacionamentos que nascem para proteger podem se tornar espaços onde a pessoa luta para respirar.

Não se trata de desprezar o afeto ou fugir da responsabilidade. Os vínculos afetivos desempenham um papel importante, por vezes fundamental, na infância e na adolescência: oferecem abrigo, pertencimento e continuidade. Mas o que sustenta os primeiros passos nem sempre acompanha a vida adulta da mesma forma. Se não for reinterpretado a partir de uma nova perspectiva espiritual, um vínculo pode exigir obediência em vez de amor, medo em vez de confiança, imobilidade em vez de crescimento.

A liberdade dos discípulos do Senhor também se manifesta na capacidade de reconhecer e romper com o que aprisiona. Às vezes, o distanciamento é necessário: não como vingança, mas como um ato de verdade. Há proximidade que nutre e proximidade que consome; há distâncias que dividem e distâncias que restauram a identidade de cada pessoa. Na noite, quando as sombras alongam tudo, devemos aprender a distinguir um laço de uma corrente.

Romper o cordão umbilical é uma das exigências mais difíceis da maturidade espiritual. Não significa apagar a própria história, mas deixar de aceitar dela a permissão para existir. Significa aceitar que ninguém, nem mesmo aqueles que nos amaram, pode viver a vocação que nos foi confiada em nosso lugar. O Evangelho nos conduz para fora dos aposentos em que permanecemos crianças temerosas e nos convida a caminhar com responsabilidade, sob um céu ainda escuro, mas já transpassado pela promessa da aurora.

Só uma pessoa liberta pode proclamar a liberdade sem transformar a mensagem em um novo vínculo. A missão surge aqui: não da necessidade de reter alguém, mas da capacidade de encontrá-lo sem possuí-lo; não do desejo de reproduzir dependências, mas da alegria de acompanhá-lo rumo a uma vida plena. Aqueles que ousaram desatar os nós que os aprisionavam trazem uma presença mais clara aos seus encontros, capaz de abrir portas em vez de fechá-las.

Assim, no âmago da noite espiritual, a separação já não se apresenta como uma perda, mas como uma transição. Alguns laços transformam-se, outros desfazem-se, outros ainda renascem, mais verdadeiramente. E à medida que a escuridão se dissipa lentamente, compreendemos que o Mistério não nos chama a uma existência sem afeto, mas sim a relações livres do medo e da possessividade. Este é o esplendor do Evangelho: uma luz discreta que desata correntes, restaura o caminho e nos ensina a amar sem deixar de ser livres.

 

 

lunedì 21 settembre 2026

Liberdade que atravessa a noite

Somente aqueles que reconhecem e rompem as correntes construídas pelos homens podem adentrar a noite do mundo sem contribuir para a sua escuridão.

 

 


Paulo Cugini

 

 

Há uma hora da noite em que os ruídos se dissipam e as coisas se revelam como realmente são. As palavras perdem suas defesas, os hábitos deixam de parecer inevitáveis ​​e, no silêncio, podemos distinguir melhor o que provém do Mistério daquilo que os homens construíram em seu nome. Lendo o Evangelho nessa hora interior, a liberdade de Jesus impressiona: uma liberdade tranquila e radical, que não precisa de autocontrole, pois nasce de um olhar límpido.

Jesus não se deixa aprisionar pelas leis criadas por religiosos, nem pelas circunstâncias que buscam impor gestos, distâncias e palavras preestabelecidas. Onde outros veem uma regra a ser cumprida, ele vê uma pessoa. Onde outros avaliam a correção de um ritual, ele ouve uma ferida, uma fome, um desejo de ser acolhido. Ele não pede que aqueles à sua frente se curvem primeiro às formalidades da tradição; ele lhes restaura a dignidade, os encontra como são e lhes abre um espaço para respirar.

Sua liberdade vem do amor. Seu olhar se dirige diretamente ao rosto que encontra, sem se deter nos rótulos que lhe são atribuídos. Jesus quer que cada pessoa se sinta alcançada, reconhecida, finalmente em casa. Por isso, acolhe a todos com misericórdia: não uma benevolência distraída, mas uma proximidade capaz de penetrar nos recônditos mais obscuros da existência sem temer a sua sombra.

E é precisamente para com aqueles que as tradições humanas distanciaram que essa atenção se torna mais intensa. Homens de poder religioso muitas vezes transformaram comportamentos, fraquezas e diferenças em julgamentos; chamaram de pecado aquilo que não compreendiam, separando as pessoas do Mistério justamente no momento em que afirmavam preservar a sua presença. Jesus, porém, ultrapassa essas fronteiras. Ele estende a mão aos estigmatizados, senta-se ao lado dos considerados impuros, toca naqueles que ninguém quer tocar.

Ele veio para aproximar a todos do Pai, sem exceção. Por isso, estende a mão às margens, onde a noite parece mais profunda e o abandono mais definitivo. Busca os que foram deixados de lado, aproxima-se dos que aprenderam a se esconder, abraça os que já não ousam esperar por um abraço. Em sua misericórdia, o Pai aparece não como o guardião de um limiar, mas como aquele que sai ao encontro de seus filhos e reabre a casa.

Mas essa liberdade não surge da improvisação. Ela exige uma longa e profunda exploração do eu, onde as vozes do medo e da obediência cega continuam a falar mesmo quando tudo está em silêncio. É necessário mergulhar nas tradições recebidas, questionar suas raízes, distinguir a sabedoria do engano e a fé dos artifícios com que o poder se protege. Nem tudo que é antigo é sagrado; nem tudo que se repete leva à vida.

Só quem reconhece e rompe as correntes construídas pelos homens pode adentrar a noite do mundo sem aumentar sua escuridão. Só quem aprendeu a ser livre pode aproximar-se dos outros sem dominá-los, desatar nós sem impor novos laços, proferir palavras que não julgam, mas abrem caminhos. A liberdade de Jesus é essa luz discreta: não ofusca, não humilha, não exclui. Permanece acesa ao lado de cada rosto, até que cada um possa reencontrar o caminho para o Pai e descobrir que jamais foi esquecido.

 

venerdì 11 settembre 2026

O caminho para a essência: preservar a interioridade para encontrar o outro

 




 

Paulo Cugini

 

Primeiro, tire a trave do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão (Lc 6:42). 

Existe um caminho que ninguém pode trilhar por nós. É o caminho para o centro da consciência, para aquele lugar secreto e luminoso onde a pessoa deixa de viver apenas na superfície e começa a questionar quem realmente é, de onde vem e para qual realização foi chamada. Não é uma jornada espetacular, nem uma conquista da noite para o dia: é, antes, uma fidelidade diária, humilde e paciente, composta de escuta, silêncio, discernimento e coragem.

A vida interior não cresce por acaso. Ela precisa ser nutrida como uma chama frágil exposta ao vento. Diariamente, somos atormentados por ruídos, impulsos, medos, desejos confusos e julgamentos precipitados. Se não aprendermos a nos ouvir, corremos o risco de sermos levados pela correnteza sem compreender o que se passa dentro de nós. Cuidar do nosso interior começa com um ato simples, porém radical: parar. Fazer uma pausa para ouvir o nosso coração, reconhecer as nossas contradições, nomear as nossas feridas, permitir que aquilo que muitas vezes preferimos esconder venha à tona.

Olhar para dentro nem sempre é reconfortante. Às vezes, no fundo, encontramos áreas sombrias: egoísmo, ressentimento, medos ancestrais e fragilidades que nos assustam. No entanto, é aí que começa a maturidade espiritual. Não são aqueles que fogem de si mesmos que se libertam, mas sim aqueles que aceitam a sua própria verdade sem desespero. A consciência se purifica quando paramos de fingir e permitimos que a luz alcance até mesmo o que permaneceu oculto. Esse olhar sincero não humilha: liberta. Não destrói: restaura. Não condena: abre a porta para a possibilidade do renascimento.

Trabalhar a consciência nos proporciona uma perspectiva mais verdadeira da vida. Quando uma pessoa começa a se conhecer, ela deixa de viver perdida em mil autoimagens, nem prisioneira do olhar alheio. Ela descobre lentamente sua essência, o núcleo profundo de onde emergem as escolhas mais autênticas. Desse centro interior surge uma pergunta crucial: para onde estou indo? Porque a vida não é apenas uma sucessão de dias, mas uma vocação, uma direção, um chamado. Aqueles que cultivam sua alma aprendem a interpretar sua história não como uma soma de incidentes, mas como uma jornada repleta de significado.

Somente aqueles que começaram a buscar seriamente respostas para as grandes questões da vida podem estender a mão aos outros com um amor que não é ingênuo, mas consciente. Encontrar nossa própria fragilidade nos torna mais sensíveis à fragilidade alheia. Aqueles que conhecem suas próprias feridas não precisam mais julgar as dos outros; aqueles que experimentaram a necessidade de serem aceitos compreendem o quão precioso é oferecer aceitação. Ternura não é fraqueza: é a força gentil daqueles que sabem se aproximar sem invadir, corrigir sem ferir, acompanhar sem possuir.

Cada pessoa que encontramos carrega uma história que não compreendemos completamente. Por trás de um semblante duro pode haver uma dor silenciosa; por trás de uma atitude agressiva pode se esconder um medo ancestral; por trás de uma mente fechada pode haver uma ferida ainda à espera de alguém capaz de se aproximar com respeito. É por isso que o julgamento violento não cura: ele aprofunda a distância, reabre a ferida, endurece o coração. O que cura é o bálsamo da ternura, o gesto que não grita, a palavra que não esmaga, o olhar que reconhece no outro um irmão, uma irmã, um ser ainda em jornada.

A jornada rumo à essência, portanto, não nos separa do mundo: ela nos torna mais capazes de habitá-lo. Quanto mais nos aprofundamos em nossa própria verdade, mais nos abrimos ao encontro do outro sem arrogância. Cuidar de nossa consciência gera um olhar sereno, capaz de suspender o desprezo e escolher a compaixão. É desse trabalho oculto, cotidiano e fiel que nasce a autêntica fraternidade: não fundada na ilusão de que ninguém se machuca, mas na certeza de que toda ferida pode ser visitada pela ternura e que todo coração, se acolhido, pode se abrir à luz.

mercoledì 19 agosto 2026

A motivação: o sol que te faz recomeçar

 




Paulo Cugini

 

 

 

Há um momento do dia em que tudo parece parar: o sol se põe lentamente, a luz se suaviza, as sombras se alongam e tudo parece perguntar silenciosamente qual direção tomar. É a hora do pôr do sol, mas também é a hora da consciência. Nesse instante, se pararmos e ouvirmos com atenção, podemos perceber uma pergunta fundamental dentro de nós: o que nos faz mover? O que nos arranca da cadeira, nos faz levantar do sofá da rotina, nos impulsiona a buscar alguém, a alertar, a construir, a partir?

A resposta tem um nome simples e decisivo: motivação. É como uma luz interior que ilumina o caminho quando tudo ao redor parece confuso. Sem motivação, a vida corre o risco de se tornar um cômodo fechado, um sofá confortável, porém estéril, o tempo passando sem deixar rastro. Quantas pessoas permanecem sentadas no sofá da vida, desperdiçando dias preciosos sem direção, sem desejo, sem uma razão capaz de dar forma às horas? Força nem sempre falta; significado, muitas vezes, é o que falta. Tempo nem sempre falta; frequentemente, falta uma razão para usá-lo com sabedoria.

Por isso, a adolescência e a juventude são fases cruciais. São como o céu em chamas ao pôr do sol: ainda não é noite, já não é dia pleno, mas carregam cores intensas, questões decisivas e promessas ainda em aberto. É durante esse período que a pessoa deve aprender a buscar as motivações que guiarão sua existência. Não motivações superficiais, baseadas apenas em aplausos, aprovação ou sucesso imediato, mas motivações profundas, capazes de resistir às dificuldades e iluminar até mesmo os momentos mais incertos.

Estar motivado significa ter compreendido um ponto importante na vida e ter decidido trabalhar nele. Significa perceber que existe algo pelo qual vale a pena se levantar, se comprometer, aprender, corrigir e recomeçar. A motivação não é um impulso cego: é uma energia direcionada. Ela caminha lado a lado com o desejo, esse impulso profundo que nos atrai para os outros e para além dos limites do egoísmo e da imobilidade. O desejo abre a janela; a motivação nos tira de casa.

Mas a motivação precisa ser cultivada. Ela não prospera apenas em sonhos distantes, nem em palavras ditas com entusiasmo e depois esquecidas. Ela se alimenta de metas alcançadas, atividades realizadas e passos concretos dados dia após dia. Cada meta alcançada, por menor que seja, é como um raio de luz que permanece no céu após o pôr do sol: a confirmação de que a jornada não foi em vão, de que o esforço deu forma, de que o desejo pode se tornar história.

Por isso, a motivação exige, acima de tudo, duas coisas. A primeira é a conquista dos nossos objetivos: porque a motivação que nunca se traduz em ação corre o risco de ser consumida como uma promessa quebrada. A segunda é a reflexão sobre o caminho percorrido: porque agir sem parar para compreender significa precipitar-se sem saber para onde se está indo. As pessoas motivadas são aquelas que monitoram seus passos, reavaliam as escolhas que fizeram, reconhecem os erros sem se deixarem paralisar por eles, mudam de rumo quando necessário e continuam a buscar o cerne de seu objetivo.

A reflexão, portanto, não é uma pausa sem propósito. É como sentar-se por um instante diante do pôr do sol para apreciar o dia que acabou de ser vivido. Aqueles que refletem não param para desistir, mas para aprimorar sua jornada, para torná-la mais verdadeira, mais coerente, mais humana. Uma vida motivada não é uma corrida frenética em busca de resultados sempre novos; é um movimento inteligente, capaz de unir desejo e responsabilidade, ímpeto e discernimento, sonhos e disciplina.

Pessoas motivadas costumam ser serenas, não porque não enfrentem dificuldades, mas porque vivem uma vida repleta de significado. Seus significados não permanecem estáticos: renovam-se com o passar do tempo, com as escolhas feitas, com o que é construído em coerência com o ponto de partida. A serenidade surge quando se percebe que os dias não são dispersos, mas sim organizados em torno de um propósito; quando os esforços, mesmo os mais discretos, contribuem para um objetivo maior.

É por isso que as pessoas motivadas estão sempre em movimento. Elas não deixam o tédio as atrasar, nem se aprisionam no conforto estéril. Se param, é para refletir sobre a jornada que percorreram, para purificá-la, para revitalizá-la. São como o sol poente: parece estar se pondo, mas, na verdade, prepara um novo dia. Assim, a motivação, mesmo quando atravessa o crepúsculo da fadiga, já carrega em si o alvorecer de um novo começo.

lunedì 17 agosto 2026

A riqueza que não faz barulho

 



 

Paulo Cugini

 

 

À noite, quando a cidade silencia e as janelas iluminadas parecem olhos suspensos na escuridão, o que permanece oculto durante o dia sob o ruído das aparências torna-se mais claro: não é verdade que a riqueza traga felicidade. É possível perceber isso, se tivermos a coragem de olhar com atenção, nos rostos daqueles que possuem muito. Há, frequentemente, uma sutil inquietação em seus olhares, um tremor que não provém da carência, mas do excesso; não da pobreza, mas daquela fome que cresce mesmo quando saciada. Os ricos não são necessariamente aqueles que têm, mas aqueles que não conseguem mais parar de desejar.

Visto de fora, a vida dos ricos pode parecer uma constelação de luzes: casas grandes, viagens, roupas, carros, cômodos repletos de objetos e mesas postas como cenários de teatro. Tudo parece emanar abundância, segurança, vitória. Mas a noite, mestra da verdade, despoja as coisas de seu esplendor teatral e as devolve à sua nudez. As luzes se apagam, os corredores se esvaziam, os espelhos não aplaudem mais. Então, o homem permanece, a mulher permanece, o coração permanece contemplando a si mesmo. E, muitas vezes, esse coração não encontra paz.

Porque a riqueza, quando se torna absoluta, não sacia: ela comanda. Ela penetra lentamente na alma, como uma sombra que a princípio parece protetora e depois se torna uma prisão. Aqueles que se aventuram no caminho da vontade de poder acabam identificando seu ser com suas posses. Não dizem mais: Eu sou; dizem, sem perceber: Eu possuo. Não buscam mais significado, mas controle. Não escutam mais o silêncio, mas o cálculo. E em certo ponto, a matéria corrói a consciência: ocupa-a, preenche-a, devora-a, até não deixar espaço para questões mais profundas, porque os ricos, se você prestar atenção, só falam de dinheiro.

É então que a vida interior se empobrece mesmo em meio à abundância. Pode-se estar rodeado de coisas e ainda sentir frio. Pode-se dormir em lençóis preciosos e ficar acordado até o amanhecer. Diz-se que os ricos não dormem: não porque lhes falte uma cama, mas porque lhes falta descanso. Precisam contar, prever, defender, aumentar. Ganhos, perdas, rendimentos, investimentos, poder: a linguagem de suas noites não é feita de palavras, mas de números. E os números, quando substituem as palavras, não consolam ninguém.

Assim, a insônia torna-se o símbolo de uma escravidão invisível. Não há correntes nos pulsos, mas a alma está aprisionada. Não há muros, mas a liberdade é distante. Quem pensa apenas em bens materiais acaba se rendendo às coisas, e as coisas não têm piedade: exigem atenção, manutenção, defesa, acumulação. Cada posse gera o desejo por mais; cada conquista revela uma nova carência. É uma fome sem pão, uma sede sem água, uma busca que desgasta as pernas e embota a visão.

Por isso, quando você se aproxima de alguém que parece ter tudo, pode descobrir uma tristeza escondida sob a aparente ordem das coisas. O olhar é fixo, pensativo, cansado; o rosto carrega o peso daquilo que não consegue deixar para trás. A felicidade ostensiva quase se torna uma máscara necessária, uma vitrine a ser mantida iluminada para que ninguém suspeite da escuridão interior. Mas a noite conhece o segredo das vitrines: por trás do vidro, muitas vezes, não há vida, apenas exposição.

Quando a matéria consome a consciência, a vida encolhe. Não termina biologicamente, mas perde sua amplitude, sua profundidade, seu mistério. Porque é o espírito que dá vida à vida; é a vida interior que dá sentido à matéria. As coisas precisam de um lugar, e esse lugar não pode ser o trono. Devem servir, não governar. Devem acompanhar, não possuir. O homem e a mulher tornam-se verdadeiramente livres somente quando aprendem a dominar a matéria, não com desprezo, mas com ordem; não fugindo do mundo, mas impedindo que o mundo invada todo o espaço da alma.

Por isso, o tempo dedicado ao silêncio, à meditação, à leitura, à oração ou à contemplação não é tempo subtraído da vida: é tempo que a preserva. No silêncio, aprendemos a distinguir o que nos pesa daquilo que nos nutre, o que brilha daquilo que nos ilumina. Aqueles que cultivam a interioridade desde a juventude constroem dentro de si um lar que nenhuma perda pode destruir. Podem ter pouco e sentir-se ricos; podem caminhar pela noite sem serem engolidos por ela; podem olhar para as coisas sem se ajoelharem diante delas.

Os maiores tesouros, na verdade, não residem no poder ou na acumulação, mas naquilo que não se pode comprar sem perder: o amor genuíno de uma relação verdadeira, a confiança recebida, um sorriso nascido de boas ações, um carinho dado a uma criança que chora, uma mão estendida a quem nada pode retribuir. Essas são riquezas que não fazem alarde, não enchem contas, não aumentam o prestígio, mas abrem o coração. Nelas reside uma felicidade humilde, noturna e profunda: uma luz que não ofusca, mas acompanha.

Talvez a verdadeira felicidade seja como uma lâmpada acesa na noite: não pretende dominar o céu, não desafia as estrelas, não quer ser vista de longe. Simplesmente ilumina o pequeno espaço que lhe é confiado. Quem vive assim não precisa ostentar sua abundância, pois carrega dentro de si uma paz que dispensa aplausos. E enquanto outros permanecem acordados contando o que ainda lhes falta, a alma espiritual repousa, tendo descoberto que o sentido da vida não é ter mais, mas ser mais: mais livre, mais amorosa, mais autêntica.

 

venerdì 14 agosto 2026

Consciência no alvorecer da realidade

 



Paolo Cugini

 

Existe uma dureza de coração que não surge da noite para o dia. Não vem de repente como uma tempestade de verão, mas se instala lentamente, como poeira fina sobre coisas intocadas por muito tempo. É uma dureza que se molda com o tempo, dentro da consciência, quando homens e mulheres param de ouvir e simplesmente começam a se defender; quando não olham mais para a vida que lhes é apresentada, mas preferem se refugiar atrás de fórmulas prontas, julgamentos preestabelecidos, preceitos aprendidos, jamais tocados pela compaixão.

Acontece então que o preceito, em vez de ser uma luz no caminho, torna-se um muro. Aquilo que deveria nos ajudar a discernir, orientar e proteger a vida, acaba por ter precedência sobre a própria realidade. E quando os preceitos são construídos longe da carne concreta da existência, partindo de ideias abstratas, esquemas pré-fabricados, interesses pessoais ou comunitários disfarçados de verdades universais, eles deixam de libertar: aprisionam. Não abrem caminhos: fecham portas. Não acompanham homens e mulheres no trabalho árduo da vida: medem-no à distância, como se a vida pudesse ser compreendida sem nos debruçarmos sobre ela.

A realidade, porém, nunca é tão empobrecida quanto nossos conceitos. Ela é mais ampla, mais inquieta, mais ferida e mais luminosa. Traz consigo rostos, histórias, lágrimas, contradições, expectativas, fracassos, esperanças que mal se reacendem. Portanto, quando tentamos impor uma regra de cima para baixo sem nos confrontarmos com o que a realidade manifesta e indica, surge a rigidez. Retraemo-nos para dentro de nós mesmos, confundimos nossas próprias ideias com o mundo inteiro, confundimos nossa segurança com lealdade, nosso medo com prudência, nossa imobilidade com virtude.

A rigidez moral é uma das feridas mais profundas que podem surgir, mesmo dentro de uma vida religiosa, quando esta se separa da realidade e deixa de aceitar ser questionada por ela. Emergem então dois mundos opostos: de um lado, o mundo dos religiosos e religiosas, com suas ideias ordenadas, suas definições claras, sua moralidade aparentemente intocável; do outro, o mundo das pessoas que vivem o cotidiano, onde tudo é mais complexo, mais frágil, mais exposto. Nesse meio-termo, muitas vezes, não há diálogo, mas distância; não escuta, mas suspeita; não misericórdia, mas julgamento.

A dureza de coração é o sinal mais evidente de um encontro perdido. É a marca de uma escuta falha, de uma palavra de outro deixada do lado de fora, de uma vida observada sem ser tocada. O coração endurece quando renuncia ao risco do relacionamento, quando prefere a fria clareza da distância ao calor da proximidade. Endurece quando não quer mais aprender, quando se recusa a ser surpreendido, quando pensa que tudo o que é verdade já deve coincidir com o que estabeleceu de uma vez por todas.

Essa dureza também abriga muita preguiça. É mais fácil sentar-se no pedestal da justiça e julgar impiedosamente as situações da vida, que quase nunca se apresentam como puras, simples e lineares. É mais fácil sentir-se em paz por ter cumprido o dever moral, por ter proferido uma sentença de acordo com leis consideradas justas, do que se perturbar com a história concreta de uma pessoa. É mais fácil dizer o que deve ser feito do que acompanhar alguém que já não sabe por onde começar. É mais fácil condenar uma ferida do que curá-la.

No entanto, a realidade, com o tempo, exige seu espaço. Recusa-se a ser enjaulada, silenciada, sufocada por categorias excessivamente restritas. A realidade continua a falar, mesmo quando ninguém quer ouvir. Fala em corpos cansados, em lares habitados pelo trabalho árduo, em relacionamentos rompidos, em desejos confusos, em solidões ocultas, em alegrias simples, em fracassos que clamam por uma segunda chance. Fala como o amanhecer: não faz barulho, mas lentamente força a noite a recuar.

A realidade sempre se manifesta no presente, e por essa mesma razão não pode ser possuída de uma vez por todas. Sua dimensão mais profunda é a pluralidade: as situações da vida são muitas, a existência se oferece e exige ser compreendida de muitas maneiras. Não apenas a razão humana, com seus critérios e deduções, mas também os sentimentos, as paixões, a memória, o corpo, a criação que nos rodeia. Plantas, animais, pedras, estrelas e o sol nos falam; a terra nos fala quando geme, a água nos fala quando lhe falta, o vento nos fala quando atravessa as coisas e nos lembra que nada é verdadeiramente estático.

Tentar forçar toda essa complexidade nos limites estreitos de um conceito elaborado por nossas mentes limitadas é sinal de grande presunção. É como tentar abarcar o mar em uma tigela ou reter o amanhecer com as mãos. Dessa presunção surgem tensões, lacerações, exclusões. Nasce uma palavra religiosa que, em vez de consolar, fere; em vez de apontar o caminho, fecha o horizonte; em vez de gerar vida, produz medo.

Escutar a realidade, portanto, significa levar os acontecimentos do dia a dia a sério. Significa não os deixar passar como insignificantes, mas acolhê-los, meditar sobre eles, valorizá-los, assegurar que nada se perca. Cada encontro, cada pergunta, cada contradição pode se tornar um limiar. Cada fragmento da vida pode conter um chamado, uma luz, uma palavra ainda não compreendida. A consciência se acalma quando está disposta a escutar, quando não tem pressa em concluir, quando sabe que a verdade não se impõe como uma pedra, mas cresce como uma semente.

Esta é, talvez, a lei mais profunda do amor: não perder nada, não excluir ninguém, jamais confundir fidelidade com aspereza. O amor deseja abraçar tudo e todos como uma grande mãe. Não porque tudo seja igual, não porque tudo deva ser justificado, mas porque tudo deve ser visto à luz de uma misericórdia maior que o julgamento. O amor não elimina o discernimento, ele o purifica; não apaga a verdade, ele a torna habitável; não renuncia à justiça, mas a liberta da crueldade.

Quando a consciência volta a escutar, algo dentro dela se abre como a terra ao primeiro raio de sol. A aspereza já não tem a última palavra. O coração compreende que a realidade não é uma ameaça a ser dominada, mas uma revelação a ser acolhida; não um caos a ser reprimido, mas um mistério a ser abraçado. E então a vida religiosa também redescobre seu propósito original: não estar acima da realidade para julgá-la, mas dentro da realidade para servi-la; não falar antes de escutar, mas escutar até que a palavra que emerge seja capaz de proteger, curar e gerar esperança.

 

mercoledì 12 agosto 2026

A luz em nosso abismo





Paulo Cugini

 

 

Há pensamentos que surgem apenas à noite, quando o ruído do dia se dissipa lentamente e as coisas, imersas no silêncio, parecem revelar sua verdadeira face. É então que compreendemos, talvez com maior clareza, que viver não se resume a navegar pelas horas, fazer gestos, defender nosso espaço, mas sim a assumir, a cada dia, uma responsabilidade para com aqueles que caminham ao nosso lado.

Não somos ilhas perdidas no mar escuro da existência. Mesmo quando nos sentimos autossuficientes, mesmo quando nos trancamos em nossos aposentos interiores e diminuímos as luzes para evitar perturbações, a vida continua a nos lembrar que estamos conectados uns aos outros. Vivemos juntos, respiramos dentro de uma teia de relações, e esse pertencimento traz consigo um chamado silencioso, porém exigente: proteger uns aos outros.

Caminhamos juntos na mesma noite, muitas vezes com passos incertos. Às vezes, um enxerga melhor, outras vezes é o outro que percebe um perigo, um desvio, uma ferida que não conseguimos reconhecer sozinhos. Por isso, quando alguém comete um erro, é importante apontá-lo. Não para julgar, não para humilhar, não para nos sentirmos mais justos, mas porque o verdadeiro amor não permanece indiferente ao que pode ferir, extinguir ou nos distanciar da verdade.

Contudo, chamar um irmão ou irmã de "irmão" não é um gesto simples. Requer uma delicadeza semelhante à de quem entra num quarto escuro com uma pequena lâmpada nas mãos: é preciso ter cuidado para não ofuscar, para não ferir os olhos de alguém que há muito se acostumou à penumbra. Requer paciência, escuta e respeito pelo tempo. Nem todos estão prontos para aceitar uma palavra de correção; nem todos conseguem reconhecer imediatamente no olhar do outro uma oportunidade de crescimento. Portanto, mesmo quando se tem razão, às vezes é mais sábio esperar o momento certo, a abertura certa, aquele instante em que o coração do outro se abre sem se sentir atacado.

Na verdade, os relacionamentos humanos não podem ser improvisados. Devem ser cultivados diariamente, como luzes acesas ao longo de um caminho que, de outra forma, se tornaria intransitável. Somente em relacionamentos nutridos com cuidado, sinceridade e ternura é possível receber uma palavra difícil sem se sentir condenado. Somente onde há confiança é que a ligação pode se tornar uma dádiva, não uma ferida; uma orientação, não uma imposição.

É a dimensão comunitária da vida que nos ajuda a descobrir quem somos. Nossa identidade nasce não apenas no segredo de nossos pensamentos, mas também no olhar dos irmãos e irmãs que nos encontram, nos observam, falam conosco, nos questionam. Precisamos do olhar do outro para crescer como seres humanos, porque ninguém se vê por completo. Há lados luminosos que ignoramos e que os outros nos ajudam a reconhecer; mas também há áreas sombrias, pontos obscuros, dobras ocultas que clamam por iluminação.

Aprender a conviver pacificamente em meio a confrontos e repreensões significa compreender que a vida é uma relação, e que essa relação exige humildade. Significa aceitar que os outros podem ver em nós algo que não queremos ver. Significa não fugir quando uma palavra nos atinge em nosso ponto mais vulnerável, mas permanecer, respirar, deixar a turbulência se dissipar, questionando-nos se, naquela palavra, reside uma pequena verdade capaz de abrir uma porta.

Na jornada da vida em companhia de outros, aprendemos a não nos isolar, a não pensar que podemos resolver tudo sozinhos, a não transformar a solidão em força. Em vez disso, descobrimos que a beleza da vida nos chega justamente através das pessoas que encontramos pelo caminho: aquelas que nos apoiam quando vacilamos, aquelas que nos contradizem quando nos perdemos, aquelas que nos amam o suficiente para não nos deixar prisioneiros de nossas ilusões.

Talvez rejeitemos os comentários negativos daqueles que nos rodeiam porque, no fundo, temos medo de nós mesmos. Temos medo do que poderíamos descobrir se realmente aceitássemos olhar para dentro. Temos medo do trabalho interior que deveríamos empreender, também porque não estamos acostumados à vida interior. Muitas vezes permanecemos no limiar, preferindo o brilho artificial das distrações à escuridão fértil do silêncio.

Contudo, se ao menos uma vez na vida tivéssemos a coragem de mergulhar em nosso interior, com determinação e confiança, superando o medo inicial de encontrar a escuridão das nossas profundezas, descobriríamos que essa escuridão não é apenas uma ameaça. É também um lugar de espera, um ventre de transformação, um espaço onde algo pode nascer. Depois da escuridão, se não fugirmos, surge uma luz diferente: não uma luz violenta, mas discreta; não uma resposta imediata, mas um Mistério que nos envolve e nos chama.

Esta é talvez a luz mais verdadeira: aquela que surge quando aceitamos ser observados, corrigidos, amados e acompanhados. Uma luz que não apaga as sombras, mas nos ensina a atravessá-las. Uma luz que nos torna mais autênticos, mais humanos, mais capazes de caminhar juntos. Porque ninguém se salva sozinho, ninguém cresce sozinho, ninguém se torna plenamente si mesmo sem o rosto, a palavra e a presença dos outros.

 

martedì 11 agosto 2026

Na noite da pequenez

 


 



 

Paulo Cugini

 

 

A noite tem o poder de revelar as coisas. Quando o ruído do dia se dissipa e as vozes se tornam mais silenciosas, aquilo que muitas vezes tentamos esconder durante as horas de luz se torna mais evidente: a necessidade de sermos vistos, reconhecidos, favorecidos. No silêncio, a alma descobre que carrega dentro de si uma pergunta antiga, quase infantil, porém persistente: qual é o meu valor? Sou suficiente? Sou maior do que alguém? É como se, no fundo de nós, houvesse sempre uma questão de tamanho que nos perturba, uma medida invisível pela qual comparamos nossas vidas às dos outros.

Muitas das nossas lutas surgem precisamente dessa medida. Não nos basta viver: queremos nos destacar. Não nos basta ser amados: queremos ser preferidos. Não nos basta caminhar: queremos estar um passo à frente. O instinto de sobrevivência, que protege e defende a vida, pode facilmente se transformar em orgulho, e o orgulho, por sua vez, busca sinais de superioridade, diferenças, distâncias. Nos tranquiliza pensar que estamos à frente, mais capazes, mais justos, mais importantes. Mas essa segurança é frágil, porque depende do olhar alheio, dos aplausos que vêm e vão, da comparação que nos excita hoje e nos fere amanhã.

Nessa escuridão interior, a proposta de Jesus surge como uma luz diferente, não ofuscante, mas profunda. Ele não alimenta nosso anseio por grandeza; não nos convida a vencer a corrida mundana, nem a conquistar o primeiro lugar com meios mais refinados. Pelo contrário, aponta para um caminho que parece quase impossível: abandonar o desejo de superioridade e desejar o último lugar, a pequenez, até mesmo aquela forma de insignificância que nos liberta da necessidade de nos provarmos constantemente. A conversão, portanto, não é simplesmente corrigir algum comportamento externo, mas mudar o centro do nosso coração: deixar de nos buscar acima dos outros e aprender a estar com os outros, ao lado dos outros, sob o seu peso quando precisamos servi-los.

O Reino dos Céus é, portanto, uma perspectiva invertida em comparação com o reino do mundo. O mundo chama de grandes aqueles que ocupam espaço, que impõem sua voz, que ascendem esmagando, que constroem um nome para si mesmos mesmo à custa de humilhar os que ficam para trás. A grandeza mundana é frequentemente presunçosa: precisa se exibir, se vangloriar, buscar consenso, se defender de toda sombra. Mas no Reino de Deus, os grandes são os pequenos; são aqueles que não precisam mais ampliar sua imagem porque descobriram uma dignidade mais profunda, recebida e não conquistada. Sua grandeza não depende da opinião alheia, mas do amor que sentem em sua alma, da silenciosa certeza de serem filhos e filhas do Mistério.

Por isso, libertar-se da lógica do mundo é difícil. Significa caminhar contra a corrente, atravessar a escuridão do próprio ego, renunciar à luz artificial da aprovação para buscar uma luz mais interior e verdadeira. Ninguém consegue fazer isso sozinho. Precisamos de um guia, alguém que já escolheu o caminho do serviço, da humildade e da misericórdia; alguém que se humilhou não por autodesprezo, mas porque encontrou no amor o verdadeiro sentido da vida. Jesus é esse guia: ele não domina, mas acompanha; ele não humilha, mas eleva; ele não nos pede que nos tornemos invisíveis para nos obliterarmos, mas para nos libertar do ídolo da visibilidade.

Na noite, então, a pequenez deixa de ser uma derrota. Torna-se um lugar onde a alma pode respirar sem ter que competir. Torna-se um espaço de igualdade, de escuta, de compaixão. Aqueles que aceitam o último lugar não por necessidade, mas por amor, descobrem uma liberdade que os poderosos desconhecem: a liberdade de não ter que parecer maior do que são. E talvez ali mesmo, no ponto mais baixo, onde o mundo não olha nem aplaude, a verdadeira grandeza comece a brilhar: a grandeza humilde, oculta, gentil, que não esmaga ninguém, mas ilumina lentamente tudo o que encontra.

 

lunedì 10 agosto 2026

A noite da escolha

 




 

Paolo Cugini

 

 

Há um tempo na vida em que tudo parece silencioso. Ainda não amanheceu, e, no entanto, a noite já não é apenas escuridão: é útero, expectativa, profundidade. Nessa hora, o homem compreende, talvez pela primeira vez, que viver não significa permanecer suspenso diante de todas as possibilidades, como se estivesse diante de um céu repleto de estrelas inalcançáveis, mas aceitar que uma única estrela se torna orientação, direção, destino.

A metáfora do grão de trigo que morre para dar fruto fala precisamente desta misteriosa lei da existência: nada se torna frutífero a menos que primeiro aceite a sua perda. A semente, quando lançada à terra, desaparece. Não conserva a sua forma, não defende a sua pequena integridade, não permanece protegida pela casca. Adentra a escuridão, deixa-se cobrir, entrega-se a uma transformação que se assemelha ao fim. Contudo, é precisamente aí, nessa perda silenciosa, que começa uma nova vida.

Isso também se aplica a todas as pessoas. Chega um momento em que não basta mais se agarrar a sonhos, hipóteses e desejos dispersos. Precisamos escolher. Precisamos reunir nossas forças dispersas, nossas energias internas, nossas intuições, nossas feridas, nossas esperanças e concentrá-las em um objetivo específico. A escolha final não nasce da improvisação: é o fruto secreto de anos em que a alma teve tempo para amadurecer, questionar a si mesma, ler, orar, meditar, cometer erros, se reerguer e vivenciar experiências capazes de abrir novos caminhos na consciência.

A adolescência e a juventude, portanto, não são meramente fases cronológicas, mas tempos interiores de preparação. São a longa vigília antes de uma decisão, a jornada pela noite onde se aprende a escutar o que realmente chama. Aqueles que nunca tiveram tempo para mergulhar em si mesmos, para guardar sua alma, para habitar o silêncio e o questionamento, dificilmente serão capazes de fazer uma escolha profunda. Podem ser atraídos por muitos caminhos, mas incapazes de se comprometer com apenas um.

Escolher, portanto, é como morrer. Não porque a escolha destrua a vida, mas porque a liberta da incerteza. Toda decisão autêntica traz consigo uma renúncia: ao escolher um caminho, abandono para sempre todos os outros caminhos possíveis. O que poderia ter sido permanece como uma constelação distante. Mas somente aqueles que aceitam essa perda podem se tornar adultos. O adulto não é alguém que deixou de desejar, mas sim alguém que compreendeu que o desejo, para não se consumir em um sonho, precisa ser concretizado em uma direção.

Uma decisão definitiva não elimina as crises; na verdade, muitas vezes as supera. Haverá noites em que o caminho escolhido parecerá estreito demais, dias em que o peso das limitações pessoais, das falhas e das contradições abalará o coração. Mas, justamente nesses momentos, manter-se firme na decisão tomada significa reconhecer que a existência humana não deve ser desperdiçada em mil possibilidades não realizadas. Ela deve ser vivida em uma única vida e, acima de tudo, ser vivida autenticamente.

Autenticidade não é uma pureza ideal, nem a pretensão de nunca falhar. É ser verdadeiro consigo mesmo, a capacidade de aceitar as próprias limitações, reconhecer as próprias sombras, acolher até mesmo os aspectos dolorosos das próprias escolhas. Escolhas autênticas não apagam as falhas: elas as acolhem, as assimilam e as transformam. Assim como a terra não rejeita uma semente apodrecida, mas a acolhe para que se torne uma raiz, a vida acolhe o que parece perdido dentro de nós e o integra a uma fertilidade maior.

Aqueles que não decidem permanecem prisioneiros de uma juventude sem realizações. Acreditam ser livres por manterem todas as possibilidades em aberto, mas essa liberdade, se nunca se concretiza, torna-se um quarto fechado. O mito de sempre poder escolher o amanhã consome lentamente o presente. No fim, aqueles que não lançam sua semente à terra descobrem que ela permaneceu intacta, sim, mas estéril. Aqueles que pensam que podem se salvar não escolhendo, na verdade, estão perdidos. Aqueles que não escolhem, morrem sem ter dado frutos.

Nascemos para amar, e o amor é sempre uma escolha. Não uma emoção passageira, não uma luz repentina que encanta e depois se apaga, mas um compromisso que absolve um rosto, uma vocação, um caminho, um bem. O amor abarca a infinidade de possibilidades e a concentra num único sim. É por isso que assusta: porque nos pede para deixar tudo para trás. Mas é precisamente por isso que salva: porque impede que a vida se dissolva no nada de alternativas inexploradas.

Até mesmo a liberdade, para ser verdadeira, precisa cruzar esse limiar. Ela não consiste em permanecer eternamente disponível a tudo, mas em desejar verdadeiramente algo, em se comprometer com aquilo que se reconhece como bom, em dizer: este é o meu caminho, esta é a terra na qual aceito ser lançado, este é o lugar onde desejo frutificar. Liberdade sem escolha é um céu sem aurora; a liberdade que escolhe, porém, conhece a noite, mas através da própria noite prepara o dia.

O grão de trigo, então, nos ensina que a vida autêntica não é possuída ao se apegar a ela, mas ao entregá-la. Ela não é salva permanecendo intacta, mas permitindo-nos ser transformados. Cada escolha definitiva é uma pequena morte e, ao mesmo tempo, uma promessa de ressurreição: algo termina para que algo possa finalmente começar. Na calada da noite, sob a terra, invisível aos olhos, a semente morre. Mas é precisamente ali que a vida, silenciosamente, prepara seu fruto.

 

martedì 30 giugno 2026

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM/A

 



 

Zc 9, 9-10; Sal 144; Rm 8, 9. 11-13; Mt 11, 25-30

 

Paolo Cugini

 

O capítulo 11 do Evangelho de Mateus inicia a seção sobre o mistério do Reino dos Céus, que, no capítulo 13, apresenta as sete parábolas do Reino. O conteúdo do capítulo relata a resistência e a rejeição manifestadas à proposta de Jesus. Apesar dos milagres realizados e relatados nos capítulos 8 e 9, na seção sobre a pregação de Jesus, há uma clara rejeição por parte de uma geração que não aceita Jesus como o Filho de Deus. O povo de Israel, e especialmente seus líderes religiosos, provavelmente esperavam algo diferente. É nesse contexto que devemos ler as palavras que o Evangelho nos oferece hoje, que são os versículos finais do capítulo 11.

Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim o propuseras (Mt 11,25). Numa leitura superficial, estas palavras de Jesus podem parecer uma rejeição do conhecimento e da sabedoria, como se fossem um obstáculo à compreensão dos mistérios do Reino. Na realidade, Jesus não está falando da sabedoria em geral, mas de um tipo específico de sabedoria: qual? ​​Ele se refere àquele tipo de conhecimento que pretende conhecer a Deus a ponto de fazê-lo dizer o que Ele nunca disse. É a sabedoria dos escribas, dos fariseus e dos doutores da lei que, ao longo do tempo, criaram uma perigosa identificação entre Deus e os preceitos que inventaram. Segundo eles, só é possível chegar a Deus através da obediência a uma infinidade de regras, preceitos e rituais, que só produzem, naqueles que tentam segui-los, uma série de sentimentos de culpa que os aprisionam. Jesus, diante dessa situação, afirma que o conhecimento que vem de Deus não é acessível à sabedoria proposta pelos doutores da lei, mas requer um novo caminho de conversão e abertura. Os pequeninos a quem se abrem as portas da sabedoria de Deus são os discípulos, homens e mulheres, aqueles que, atraídos pela bondade da proposta do Senhor, partiram na senda que Ele seguiu. A revelação da presença de Deus na história não se dá pela obediência a preceitos humanos, mas sim seguindo o caminho traçado pelo Senhor.

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27). Este é o conhecimento que somos chamados a assumir: a partir de agora, o mistério de Deus se manifesta no Filho, e Ele o revela somente àqueles que O seguem. De fato, é escutando a Sua Palavra e procurando colocá-la em prática que descobrimos que a sabedoria do Senhor se manifesta no amor pelos irmãos e irmãs que encontramos no caminho da vida. É seguindo-O que descobrimos que a essência da vida não reside nas coisas materiais, no dinheiro, na posse de bens, mas em acolher os outros, no esforço constante para melhorar a qualidade dos nossos relacionamentos. É estranho notar como os líderes religiosos rejeitaram esta proposta de Jesus. Estranho, considerando também o fato de que os profetas da Primeira Aliança já haviam anunciado o modo como o Filho de Deus se comportaria ao vir entre os homens e as mulheres para anunciar a boa nova. Não é por acaso que a liturgia, na primeira leitura, nos oferece alguns versículos do profeta Zacarias que nos lembram da bondade desta novidade: “ Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Fará desaparecer de Efraim os carros e de Jerusalém os cavalos; o arco de guerra será quebrado; ele proclamará paz às nações” (Zacarias 9:9-10). Zacarias é o profeta que acompanhou a construção do Segundo Templo por volta de 520 a.C. É precisamente neste contexto de reconstrução, que é também um contexto marcado pela alegria do regresso e pela possibilidade de viver novamente na sua própria terra, que Zacarias recorda ao povo a forma como o Messias se manifestará. Em consonância com as profecias de Isaías 45:1, que pregou ao povo do Reino do Norte por volta do século VIII a.C., o profeta declara que o Messias-Rei não virá montado em um cavalo, com o poder de armas e exércitos para guerrear, mas virá humildemente, montado em um jumento, para destruir os instrumentos de guerra e trazer a paz. De agora em diante, com a presença do Senhor, devemos aprender a buscar a Deus nos sutis sinais de paz entre os povos, com humildade e mansidão. É essa novidade que desagrada aqueles que transformaram a religião em um poderoso instrumento de controle sobre o povo e em uma arma de conflito entre as nações.

Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,29). Este é o caminho que devemos trilhar: deixar de lado o pesado e opressivo jogo da religião, composto de preceitos e leis, que apenas sobrecarregam nossa jornada e nossas mentes, devastando nossas almas com sentimentos de culpa, para abraçar a doçura da proposta de Jesus, que, libertando-nos do fardo da religião, nos permite caminhar livremente e viver plenamente a experiência do amor compartilhado com os irmãos e irmãs que encontramos pelo caminho. Fazer a transição da religião para a fé significa passar do cansaço para o descanso, de uma vida sobrecarregada pelo esforço de caminhar em direção a Deus com preceitos, experimentando diariamente nossa incapacidade, para acolher o dom de um Deus que vem a nós com o Evangelho do Filho, convidando-nos a fazer de nossas vidas uma experiência de amor livre e altruísta. Boa sorte em sua jornada. 

 

sabato 20 giugno 2026

DOMINGO XII/A

 



 


Jeremias 20:10-13; Salmo 68:1; Romanos 5:12-15; Mt 10:26-33

Paolo Cugini

 

No domingo passado, começamos a ler o capítulo 10 do Evangelho de Mateus, e o concluiremos na próxima semana. Este capítulo contém o que se chama de discurso missionário de Jesus, concluindo a seção da pregação do Reino dos Céus , que vai dos capítulos 8 a 10. O Evangelho de hoje, portanto, nos leva ao cerne do discurso missionário de Jesus, que, como veremos, tem uma única preocupação: exortar os discípulos, infundir neles coragem diante dos conflitos que encontrarão. É importante ressaltar que o envio dos discípulos ocorre durante a jornada, não no final. Há um mundo que precisa urgentemente da mensagem de alegria e paz que é a Boa Nova. Aqueles que experimentaram a beleza do estilo de vida proposto por Jesus anseiam por compartilhá-lo. Há amor, alegria, justiça, paz: é disso que o mundo precisa, e ele precisa saber onde encontrar esse tesouro de vida nova. A comunidade cristã, ao ouvir essas passagens do Evangelho, deve sentir-se encorajada a considerar caminhos de evangelização, para levar ao mundo a beleza do que está vivenciando.

Não tenham medo dos homens (Mt 10,26). Três vezes em poucos versículos, Jesus exorta seus discípulos a não terem medo: por que e do que deveriam ter medo? Os problemas que os discípulos enfrentarão estão todos ligados à novidade da mensagem do Evangelho, que desorienta os ouvintes, os desafia e provoca rejeição naqueles que não têm a intenção de se questionar. A mensagem de liberdade de Jesus é profunda e radical, porque se sustenta em seu estilo de vida livre. Jesus é livre do apego aos bens materiais e ao dinheiro e ensina a todos os que o seguem um estilo de vida simples, centrado na busca do Reino de Deus (Mt 6,32ss.). Em um contexto como o que vivemos, onde o dinheiro constantemente corre o risco de direcionar nossas escolhas, fazendo-nos perder o conteúdo essencial de uma vida plena, a mensagem de Jesus, quando vivida em comunidade, provoca irritação. O mesmo se aplica ao modelo de igualdade que ele propõe por meio de uma comunidade de homens e mulheres iguais, esvaziando de dentro o senso de patriarcado, um modelo cultural que ainda molda a cultura ocidental atual e determina estilos de vida marcados pela desigualdade e discriminação. Numa cultura dominada pelos homens, como a semítica, que considerava as mulheres inferiores aos homens e sujeitava-as a uma discriminação generalizada, a proposta de Jesus provocou fortes tensões. É por isso que Jesus adverte os seus discípulos para não terem medo. Este é também o significado de uma vida espiritual baseada no seguimento do Senhor: acolher o seu Espírito, que nos capacita a suportar as tensões, a aprender a viver com elas e a não perder a nossa serenidade.

Ouvi a calúnia de muitos: "O terror está por toda parte! Denunciem-no! Sim, nós o denunciaremos (Jeremias 20:10).

Por tua causa suporto insultos, e a vergonha cobre o meu rosto (Salmo 68).

Não é por acaso que a liturgia nos leva a ouvir uma passagem das confissões de Jeremias, na qual o profeta lamenta a perseguição a que é submetido por pregar a Palavra de Deus. O mesmo se pode dizer do protagonista do Salmo 68, proclamado na liturgia de hoje, que expressa todo o sofrimento causado, também por ele, por ser uma testemunha fiel do plano de amor do Senhor. Em ambos os casos, os protagonistas experimentam a proximidade do Senhor. Precisamente no momento de maior tensão, Jeremias sente a presença do Senhor perto de si: " Mas o Senhor está ao meu lado como um poderoso guerreiro ". Permanecer em comunhão com o Senhor, mesmo em tempos de tensão, conduz-nos a uma experiência interior d'Ele, que poderíamos definir como mística. É como se fosse uma passagem necessária, que nos conduz a outra dimensão, separando-nos definitivamente do modelo cultural do mundo em que nascemos e do qual fomos assimilados, para nos introduzir mais profundamente no mundo do amor, acolhendo o Espírito da Vida que sopra onde quer e é sentido por aqueles que o seguem.

Contudo, nenhum deles cairá por terra sem a vontade de vosso Pai. Entre outras coisas, a narrativa do capítulo 10 de Mateus é marcante, como no versículo citado acima, por seus verbos no plural. O discurso missionário não se dirige a indivíduos, nem é um convite a se tornarem heróis, mas sim à comunidade. De fato, é a comunidade que é missionária, pois permite que o mundo das relações trinitárias que acolhe continuamente brilhe através de suas escolhas e estilo de vida. A verdade de nossa caminhada seguindo o Mestre se revela quando, decisiva e definitivamente, abandonamos uma perspectiva individualista para caminhar junto com os irmãos e irmãs que o Senhor colocou ao nosso lado, cuidando deles, especialmente dos mais pobres e vulneráveis. Esse aspecto também perturba o modelo de mundo centrado em critérios meritocráticos, que produz tantos desastres existenciais em nosso meio. A proposta do reino de Deus que os discípulos são chamados a proclamar com suas palavras e suas vidas é aquela minúscula semente que produz caminhos de vida nova tão evidentes que os tornam, paradoxalmente, insuportáveis ​​aos olhos do mundo e, precisamente por isso, proféticos.