mercoledì 12 agosto 2026

A luz em nosso abismo





Paulo Cugini

 

 

Há pensamentos que surgem apenas à noite, quando o ruído do dia se dissipa lentamente e as coisas, imersas no silêncio, parecem revelar sua verdadeira face. É então que compreendemos, talvez com maior clareza, que viver não se resume a navegar pelas horas, fazer gestos, defender nosso espaço, mas sim a assumir, a cada dia, uma responsabilidade para com aqueles que caminham ao nosso lado.

Não somos ilhas perdidas no mar escuro da existência. Mesmo quando nos sentimos autossuficientes, mesmo quando nos trancamos em nossos aposentos interiores e diminuímos as luzes para evitar perturbações, a vida continua a nos lembrar que estamos conectados uns aos outros. Vivemos juntos, respiramos dentro de uma teia de relações, e esse pertencimento traz consigo um chamado silencioso, porém exigente: proteger uns aos outros.

Caminhamos juntos na mesma noite, muitas vezes com passos incertos. Às vezes, um enxerga melhor, outras vezes é o outro que percebe um perigo, um desvio, uma ferida que não conseguimos reconhecer sozinhos. Por isso, quando alguém comete um erro, é importante apontá-lo. Não para julgar, não para humilhar, não para nos sentirmos mais justos, mas porque o verdadeiro amor não permanece indiferente ao que pode ferir, extinguir ou nos distanciar da verdade.

Contudo, chamar um irmão ou irmã de "irmão" não é um gesto simples. Requer uma delicadeza semelhante à de quem entra num quarto escuro com uma pequena lâmpada nas mãos: é preciso ter cuidado para não ofuscar, para não ferir os olhos de alguém que há muito se acostumou à penumbra. Requer paciência, escuta e respeito pelo tempo. Nem todos estão prontos para aceitar uma palavra de correção; nem todos conseguem reconhecer imediatamente no olhar do outro uma oportunidade de crescimento. Portanto, mesmo quando se tem razão, às vezes é mais sábio esperar o momento certo, a abertura certa, aquele instante em que o coração do outro se abre sem se sentir atacado.

Na verdade, os relacionamentos humanos não podem ser improvisados. Devem ser cultivados diariamente, como luzes acesas ao longo de um caminho que, de outra forma, se tornaria intransitável. Somente em relacionamentos nutridos com cuidado, sinceridade e ternura é possível receber uma palavra difícil sem se sentir condenado. Somente onde há confiança é que a ligação pode se tornar uma dádiva, não uma ferida; uma orientação, não uma imposição.

É a dimensão comunitária da vida que nos ajuda a descobrir quem somos. Nossa identidade nasce não apenas no segredo de nossos pensamentos, mas também no olhar dos irmãos e irmãs que nos encontram, nos observam, falam conosco, nos questionam. Precisamos do olhar do outro para crescer como seres humanos, porque ninguém se vê por completo. Há lados luminosos que ignoramos e que os outros nos ajudam a reconhecer; mas também há áreas sombrias, pontos obscuros, dobras ocultas que clamam por iluminação.

Aprender a conviver pacificamente em meio a confrontos e repreensões significa compreender que a vida é uma relação, e que essa relação exige humildade. Significa aceitar que os outros podem ver em nós algo que não queremos ver. Significa não fugir quando uma palavra nos atinge em nosso ponto mais vulnerável, mas permanecer, respirar, deixar a turbulência se dissipar, questionando-nos se, naquela palavra, reside uma pequena verdade capaz de abrir uma porta.

Na jornada da vida em companhia de outros, aprendemos a não nos isolar, a não pensar que podemos resolver tudo sozinhos, a não transformar a solidão em força. Em vez disso, descobrimos que a beleza da vida nos chega justamente através das pessoas que encontramos pelo caminho: aquelas que nos apoiam quando vacilamos, aquelas que nos contradizem quando nos perdemos, aquelas que nos amam o suficiente para não nos deixar prisioneiros de nossas ilusões.

Talvez rejeitemos os comentários negativos daqueles que nos rodeiam porque, no fundo, temos medo de nós mesmos. Temos medo do que poderíamos descobrir se realmente aceitássemos olhar para dentro. Temos medo do trabalho interior que deveríamos empreender, também porque não estamos acostumados à vida interior. Muitas vezes permanecemos no limiar, preferindo o brilho artificial das distrações à escuridão fértil do silêncio.

Contudo, se ao menos uma vez na vida tivéssemos a coragem de mergulhar em nosso interior, com determinação e confiança, superando o medo inicial de encontrar a escuridão das nossas profundezas, descobriríamos que essa escuridão não é apenas uma ameaça. É também um lugar de espera, um ventre de transformação, um espaço onde algo pode nascer. Depois da escuridão, se não fugirmos, surge uma luz diferente: não uma luz violenta, mas discreta; não uma resposta imediata, mas um Mistério que nos envolve e nos chama.

Esta é talvez a luz mais verdadeira: aquela que surge quando aceitamos ser observados, corrigidos, amados e acompanhados. Uma luz que não apaga as sombras, mas nos ensina a atravessá-las. Uma luz que nos torna mais autênticos, mais humanos, mais capazes de caminhar juntos. Porque ninguém se salva sozinho, ninguém cresce sozinho, ninguém se torna plenamente si mesmo sem o rosto, a palavra e a presença dos outros.

 

martedì 11 agosto 2026

Na noite da pequenez

 


 



 

Paulo Cugini

 

 

A noite tem o poder de revelar as coisas. Quando o ruído do dia se dissipa e as vozes se tornam mais silenciosas, aquilo que muitas vezes tentamos esconder durante as horas de luz se torna mais evidente: a necessidade de sermos vistos, reconhecidos, favorecidos. No silêncio, a alma descobre que carrega dentro de si uma pergunta antiga, quase infantil, porém persistente: qual é o meu valor? Sou suficiente? Sou maior do que alguém? É como se, no fundo de nós, houvesse sempre uma questão de tamanho que nos perturba, uma medida invisível pela qual comparamos nossas vidas às dos outros.

Muitas das nossas lutas surgem precisamente dessa medida. Não nos basta viver: queremos nos destacar. Não nos basta ser amados: queremos ser preferidos. Não nos basta caminhar: queremos estar um passo à frente. O instinto de sobrevivência, que protege e defende a vida, pode facilmente se transformar em orgulho, e o orgulho, por sua vez, busca sinais de superioridade, diferenças, distâncias. Nos tranquiliza pensar que estamos à frente, mais capazes, mais justos, mais importantes. Mas essa segurança é frágil, porque depende do olhar alheio, dos aplausos que vêm e vão, da comparação que nos excita hoje e nos fere amanhã.

Nessa escuridão interior, a proposta de Jesus surge como uma luz diferente, não ofuscante, mas profunda. Ele não alimenta nosso anseio por grandeza; não nos convida a vencer a corrida mundana, nem a conquistar o primeiro lugar com meios mais refinados. Pelo contrário, aponta para um caminho que parece quase impossível: abandonar o desejo de superioridade e desejar o último lugar, a pequenez, até mesmo aquela forma de insignificância que nos liberta da necessidade de nos provarmos constantemente. A conversão, portanto, não é simplesmente corrigir algum comportamento externo, mas mudar o centro do nosso coração: deixar de nos buscar acima dos outros e aprender a estar com os outros, ao lado dos outros, sob o seu peso quando precisamos servi-los.

O Reino dos Céus é, portanto, uma perspectiva invertida em comparação com o reino do mundo. O mundo chama de grandes aqueles que ocupam espaço, que impõem sua voz, que ascendem esmagando, que constroem um nome para si mesmos mesmo à custa de humilhar os que ficam para trás. A grandeza mundana é frequentemente presunçosa: precisa se exibir, se vangloriar, buscar consenso, se defender de toda sombra. Mas no Reino de Deus, os grandes são os pequenos; são aqueles que não precisam mais ampliar sua imagem porque descobriram uma dignidade mais profunda, recebida e não conquistada. Sua grandeza não depende da opinião alheia, mas do amor que sentem em sua alma, da silenciosa certeza de serem filhos e filhas do Mistério.

Por isso, libertar-se da lógica do mundo é difícil. Significa caminhar contra a corrente, atravessar a escuridão do próprio ego, renunciar à luz artificial da aprovação para buscar uma luz mais interior e verdadeira. Ninguém consegue fazer isso sozinho. Precisamos de um guia, alguém que já escolheu o caminho do serviço, da humildade e da misericórdia; alguém que se humilhou não por autodesprezo, mas porque encontrou no amor o verdadeiro sentido da vida. Jesus é esse guia: ele não domina, mas acompanha; ele não humilha, mas eleva; ele não nos pede que nos tornemos invisíveis para nos obliterarmos, mas para nos libertar do ídolo da visibilidade.

Na noite, então, a pequenez deixa de ser uma derrota. Torna-se um lugar onde a alma pode respirar sem ter que competir. Torna-se um espaço de igualdade, de escuta, de compaixão. Aqueles que aceitam o último lugar não por necessidade, mas por amor, descobrem uma liberdade que os poderosos desconhecem: a liberdade de não ter que parecer maior do que são. E talvez ali mesmo, no ponto mais baixo, onde o mundo não olha nem aplaude, a verdadeira grandeza comece a brilhar: a grandeza humilde, oculta, gentil, que não esmaga ninguém, mas ilumina lentamente tudo o que encontra.

 

lunedì 10 agosto 2026

A noite da escolha

 




 

Paolo Cugini

 

 

Há um tempo na vida em que tudo parece silencioso. Ainda não amanheceu, e, no entanto, a noite já não é apenas escuridão: é útero, expectativa, profundidade. Nessa hora, o homem compreende, talvez pela primeira vez, que viver não significa permanecer suspenso diante de todas as possibilidades, como se estivesse diante de um céu repleto de estrelas inalcançáveis, mas aceitar que uma única estrela se torna orientação, direção, destino.

A metáfora do grão de trigo que morre para dar fruto fala precisamente desta misteriosa lei da existência: nada se torna frutífero a menos que primeiro aceite a sua perda. A semente, quando lançada à terra, desaparece. Não conserva a sua forma, não defende a sua pequena integridade, não permanece protegida pela casca. Adentra a escuridão, deixa-se cobrir, entrega-se a uma transformação que se assemelha ao fim. Contudo, é precisamente aí, nessa perda silenciosa, que começa uma nova vida.

Isso também se aplica a todas as pessoas. Chega um momento em que não basta mais se agarrar a sonhos, hipóteses e desejos dispersos. Precisamos escolher. Precisamos reunir nossas forças dispersas, nossas energias internas, nossas intuições, nossas feridas, nossas esperanças e concentrá-las em um objetivo específico. A escolha final não nasce da improvisação: é o fruto secreto de anos em que a alma teve tempo para amadurecer, questionar a si mesma, ler, orar, meditar, cometer erros, se reerguer e vivenciar experiências capazes de abrir novos caminhos na consciência.

A adolescência e a juventude, portanto, não são meramente fases cronológicas, mas tempos interiores de preparação. São a longa vigília antes de uma decisão, a jornada pela noite onde se aprende a escutar o que realmente chama. Aqueles que nunca tiveram tempo para mergulhar em si mesmos, para guardar sua alma, para habitar o silêncio e o questionamento, dificilmente serão capazes de fazer uma escolha profunda. Podem ser atraídos por muitos caminhos, mas incapazes de se comprometer com apenas um.

Escolher, portanto, é como morrer. Não porque a escolha destrua a vida, mas porque a liberta da incerteza. Toda decisão autêntica traz consigo uma renúncia: ao escolher um caminho, abandono para sempre todos os outros caminhos possíveis. O que poderia ter sido permanece como uma constelação distante. Mas somente aqueles que aceitam essa perda podem se tornar adultos. O adulto não é alguém que deixou de desejar, mas sim alguém que compreendeu que o desejo, para não se consumir em um sonho, precisa ser concretizado em uma direção.

Uma decisão definitiva não elimina as crises; na verdade, muitas vezes as supera. Haverá noites em que o caminho escolhido parecerá estreito demais, dias em que o peso das limitações pessoais, das falhas e das contradições abalará o coração. Mas, justamente nesses momentos, manter-se firme na decisão tomada significa reconhecer que a existência humana não deve ser desperdiçada em mil possibilidades não realizadas. Ela deve ser vivida em uma única vida e, acima de tudo, ser vivida autenticamente.

Autenticidade não é uma pureza ideal, nem a pretensão de nunca falhar. É ser verdadeiro consigo mesmo, a capacidade de aceitar as próprias limitações, reconhecer as próprias sombras, acolher até mesmo os aspectos dolorosos das próprias escolhas. Escolhas autênticas não apagam as falhas: elas as acolhem, as assimilam e as transformam. Assim como a terra não rejeita uma semente apodrecida, mas a acolhe para que se torne uma raiz, a vida acolhe o que parece perdido dentro de nós e o integra a uma fertilidade maior.

Aqueles que não decidem permanecem prisioneiros de uma juventude sem realizações. Acreditam ser livres por manterem todas as possibilidades em aberto, mas essa liberdade, se nunca se concretiza, torna-se um quarto fechado. O mito de sempre poder escolher o amanhã consome lentamente o presente. No fim, aqueles que não lançam sua semente à terra descobrem que ela permaneceu intacta, sim, mas estéril. Aqueles que pensam que podem se salvar não escolhendo, na verdade, estão perdidos. Aqueles que não escolhem, morrem sem ter dado frutos.

Nascemos para amar, e o amor é sempre uma escolha. Não uma emoção passageira, não uma luz repentina que encanta e depois se apaga, mas um compromisso que absolve um rosto, uma vocação, um caminho, um bem. O amor abarca a infinidade de possibilidades e a concentra num único sim. É por isso que assusta: porque nos pede para deixar tudo para trás. Mas é precisamente por isso que salva: porque impede que a vida se dissolva no nada de alternativas inexploradas.

Até mesmo a liberdade, para ser verdadeira, precisa cruzar esse limiar. Ela não consiste em permanecer eternamente disponível a tudo, mas em desejar verdadeiramente algo, em se comprometer com aquilo que se reconhece como bom, em dizer: este é o meu caminho, esta é a terra na qual aceito ser lançado, este é o lugar onde desejo frutificar. Liberdade sem escolha é um céu sem aurora; a liberdade que escolhe, porém, conhece a noite, mas através da própria noite prepara o dia.

O grão de trigo, então, nos ensina que a vida autêntica não é possuída ao se apegar a ela, mas ao entregá-la. Ela não é salva permanecendo intacta, mas permitindo-nos ser transformados. Cada escolha definitiva é uma pequena morte e, ao mesmo tempo, uma promessa de ressurreição: algo termina para que algo possa finalmente começar. Na calada da noite, sob a terra, invisível aos olhos, a semente morre. Mas é precisamente ali que a vida, silenciosamente, prepara seu fruto.

 

martedì 30 giugno 2026

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM/A

 



 

Zc 9, 9-10; Sal 144; Rm 8, 9. 11-13; Mt 11, 25-30

 

Paolo Cugini

 

O capítulo 11 do Evangelho de Mateus inicia a seção sobre o mistério do Reino dos Céus, que, no capítulo 13, apresenta as sete parábolas do Reino. O conteúdo do capítulo relata a resistência e a rejeição manifestadas à proposta de Jesus. Apesar dos milagres realizados e relatados nos capítulos 8 e 9, na seção sobre a pregação de Jesus, há uma clara rejeição por parte de uma geração que não aceita Jesus como o Filho de Deus. O povo de Israel, e especialmente seus líderes religiosos, provavelmente esperavam algo diferente. É nesse contexto que devemos ler as palavras que o Evangelho nos oferece hoje, que são os versículos finais do capítulo 11.

Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim o propuseras (Mt 11,25). Numa leitura superficial, estas palavras de Jesus podem parecer uma rejeição do conhecimento e da sabedoria, como se fossem um obstáculo à compreensão dos mistérios do Reino. Na realidade, Jesus não está falando da sabedoria em geral, mas de um tipo específico de sabedoria: qual? ​​Ele se refere àquele tipo de conhecimento que pretende conhecer a Deus a ponto de fazê-lo dizer o que Ele nunca disse. É a sabedoria dos escribas, dos fariseus e dos doutores da lei que, ao longo do tempo, criaram uma perigosa identificação entre Deus e os preceitos que inventaram. Segundo eles, só é possível chegar a Deus através da obediência a uma infinidade de regras, preceitos e rituais, que só produzem, naqueles que tentam segui-los, uma série de sentimentos de culpa que os aprisionam. Jesus, diante dessa situação, afirma que o conhecimento que vem de Deus não é acessível à sabedoria proposta pelos doutores da lei, mas requer um novo caminho de conversão e abertura. Os pequeninos a quem se abrem as portas da sabedoria de Deus são os discípulos, homens e mulheres, aqueles que, atraídos pela bondade da proposta do Senhor, partiram na senda que Ele seguiu. A revelação da presença de Deus na história não se dá pela obediência a preceitos humanos, mas sim seguindo o caminho traçado pelo Senhor.

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27). Este é o conhecimento que somos chamados a assumir: a partir de agora, o mistério de Deus se manifesta no Filho, e Ele o revela somente àqueles que O seguem. De fato, é escutando a Sua Palavra e procurando colocá-la em prática que descobrimos que a sabedoria do Senhor se manifesta no amor pelos irmãos e irmãs que encontramos no caminho da vida. É seguindo-O que descobrimos que a essência da vida não reside nas coisas materiais, no dinheiro, na posse de bens, mas em acolher os outros, no esforço constante para melhorar a qualidade dos nossos relacionamentos. É estranho notar como os líderes religiosos rejeitaram esta proposta de Jesus. Estranho, considerando também o fato de que os profetas da Primeira Aliança já haviam anunciado o modo como o Filho de Deus se comportaria ao vir entre os homens e as mulheres para anunciar a boa nova. Não é por acaso que a liturgia, na primeira leitura, nos oferece alguns versículos do profeta Zacarias que nos lembram da bondade desta novidade: “ Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Fará desaparecer de Efraim os carros e de Jerusalém os cavalos; o arco de guerra será quebrado; ele proclamará paz às nações” (Zacarias 9:9-10). Zacarias é o profeta que acompanhou a construção do Segundo Templo por volta de 520 a.C. É precisamente neste contexto de reconstrução, que é também um contexto marcado pela alegria do regresso e pela possibilidade de viver novamente na sua própria terra, que Zacarias recorda ao povo a forma como o Messias se manifestará. Em consonância com as profecias de Isaías 45:1, que pregou ao povo do Reino do Norte por volta do século VIII a.C., o profeta declara que o Messias-Rei não virá montado em um cavalo, com o poder de armas e exércitos para guerrear, mas virá humildemente, montado em um jumento, para destruir os instrumentos de guerra e trazer a paz. De agora em diante, com a presença do Senhor, devemos aprender a buscar a Deus nos sutis sinais de paz entre os povos, com humildade e mansidão. É essa novidade que desagrada aqueles que transformaram a religião em um poderoso instrumento de controle sobre o povo e em uma arma de conflito entre as nações.

Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,29). Este é o caminho que devemos trilhar: deixar de lado o pesado e opressivo jogo da religião, composto de preceitos e leis, que apenas sobrecarregam nossa jornada e nossas mentes, devastando nossas almas com sentimentos de culpa, para abraçar a doçura da proposta de Jesus, que, libertando-nos do fardo da religião, nos permite caminhar livremente e viver plenamente a experiência do amor compartilhado com os irmãos e irmãs que encontramos pelo caminho. Fazer a transição da religião para a fé significa passar do cansaço para o descanso, de uma vida sobrecarregada pelo esforço de caminhar em direção a Deus com preceitos, experimentando diariamente nossa incapacidade, para acolher o dom de um Deus que vem a nós com o Evangelho do Filho, convidando-nos a fazer de nossas vidas uma experiência de amor livre e altruísta. Boa sorte em sua jornada. 

 

sabato 20 giugno 2026

DOMINGO XII/A

 



 


Jeremias 20:10-13; Salmo 68:1; Romanos 5:12-15; Mt 10:26-33

Paolo Cugini

 

No domingo passado, começamos a ler o capítulo 10 do Evangelho de Mateus, e o concluiremos na próxima semana. Este capítulo contém o que se chama de discurso missionário de Jesus, concluindo a seção da pregação do Reino dos Céus , que vai dos capítulos 8 a 10. O Evangelho de hoje, portanto, nos leva ao cerne do discurso missionário de Jesus, que, como veremos, tem uma única preocupação: exortar os discípulos, infundir neles coragem diante dos conflitos que encontrarão. É importante ressaltar que o envio dos discípulos ocorre durante a jornada, não no final. Há um mundo que precisa urgentemente da mensagem de alegria e paz que é a Boa Nova. Aqueles que experimentaram a beleza do estilo de vida proposto por Jesus anseiam por compartilhá-lo. Há amor, alegria, justiça, paz: é disso que o mundo precisa, e ele precisa saber onde encontrar esse tesouro de vida nova. A comunidade cristã, ao ouvir essas passagens do Evangelho, deve sentir-se encorajada a considerar caminhos de evangelização, para levar ao mundo a beleza do que está vivenciando.

Não tenham medo dos homens (Mt 10,26). Três vezes em poucos versículos, Jesus exorta seus discípulos a não terem medo: por que e do que deveriam ter medo? Os problemas que os discípulos enfrentarão estão todos ligados à novidade da mensagem do Evangelho, que desorienta os ouvintes, os desafia e provoca rejeição naqueles que não têm a intenção de se questionar. A mensagem de liberdade de Jesus é profunda e radical, porque se sustenta em seu estilo de vida livre. Jesus é livre do apego aos bens materiais e ao dinheiro e ensina a todos os que o seguem um estilo de vida simples, centrado na busca do Reino de Deus (Mt 6,32ss.). Em um contexto como o que vivemos, onde o dinheiro constantemente corre o risco de direcionar nossas escolhas, fazendo-nos perder o conteúdo essencial de uma vida plena, a mensagem de Jesus, quando vivida em comunidade, provoca irritação. O mesmo se aplica ao modelo de igualdade que ele propõe por meio de uma comunidade de homens e mulheres iguais, esvaziando de dentro o senso de patriarcado, um modelo cultural que ainda molda a cultura ocidental atual e determina estilos de vida marcados pela desigualdade e discriminação. Numa cultura dominada pelos homens, como a semítica, que considerava as mulheres inferiores aos homens e sujeitava-as a uma discriminação generalizada, a proposta de Jesus provocou fortes tensões. É por isso que Jesus adverte os seus discípulos para não terem medo. Este é também o significado de uma vida espiritual baseada no seguimento do Senhor: acolher o seu Espírito, que nos capacita a suportar as tensões, a aprender a viver com elas e a não perder a nossa serenidade.

Ouvi a calúnia de muitos: "O terror está por toda parte! Denunciem-no! Sim, nós o denunciaremos (Jeremias 20:10).

Por tua causa suporto insultos, e a vergonha cobre o meu rosto (Salmo 68).

Não é por acaso que a liturgia nos leva a ouvir uma passagem das confissões de Jeremias, na qual o profeta lamenta a perseguição a que é submetido por pregar a Palavra de Deus. O mesmo se pode dizer do protagonista do Salmo 68, proclamado na liturgia de hoje, que expressa todo o sofrimento causado, também por ele, por ser uma testemunha fiel do plano de amor do Senhor. Em ambos os casos, os protagonistas experimentam a proximidade do Senhor. Precisamente no momento de maior tensão, Jeremias sente a presença do Senhor perto de si: " Mas o Senhor está ao meu lado como um poderoso guerreiro ". Permanecer em comunhão com o Senhor, mesmo em tempos de tensão, conduz-nos a uma experiência interior d'Ele, que poderíamos definir como mística. É como se fosse uma passagem necessária, que nos conduz a outra dimensão, separando-nos definitivamente do modelo cultural do mundo em que nascemos e do qual fomos assimilados, para nos introduzir mais profundamente no mundo do amor, acolhendo o Espírito da Vida que sopra onde quer e é sentido por aqueles que o seguem.

Contudo, nenhum deles cairá por terra sem a vontade de vosso Pai. Entre outras coisas, a narrativa do capítulo 10 de Mateus é marcante, como no versículo citado acima, por seus verbos no plural. O discurso missionário não se dirige a indivíduos, nem é um convite a se tornarem heróis, mas sim à comunidade. De fato, é a comunidade que é missionária, pois permite que o mundo das relações trinitárias que acolhe continuamente brilhe através de suas escolhas e estilo de vida. A verdade de nossa caminhada seguindo o Mestre se revela quando, decisiva e definitivamente, abandonamos uma perspectiva individualista para caminhar junto com os irmãos e irmãs que o Senhor colocou ao nosso lado, cuidando deles, especialmente dos mais pobres e vulneráveis. Esse aspecto também perturba o modelo de mundo centrado em critérios meritocráticos, que produz tantos desastres existenciais em nosso meio. A proposta do reino de Deus que os discípulos são chamados a proclamar com suas palavras e suas vidas é aquela minúscula semente que produz caminhos de vida nova tão evidentes que os tornam, paradoxalmente, insuportáveis ​​aos olhos do mundo e, precisamente por isso, proféticos. 

 

mercoledì 10 giugno 2026

Vida eterna e Resurreição em João 11

 




Paolo Cugini


"Quem vive e crê em mim jamais morrerá" é a novidade trazida por Jesus, que libertou a comunidade não do medo da morte, mas da própria morte, e a tranquilizou: "Quem vive e crê em mim jamais morrerá". À comunidade que chorava a morte de alguém, ele dizia: "Se esta pessoa creu em mim, mesmo que agora esteja morta, saibam que ela continua a viver, e vocês, que estão vivos e me são fiéis, jamais experimentarão a morte". Esta é a mudança de mentalidade que Jesus queria trazer à comunidade cristã. Os primeiros cristãos entenderam isso; eles não acreditavam que seriam ressuscitados após a morte, mas que já haviam ressuscitado; eles entenderam que Jesus não ressuscita os mortos, mas dá aos vivos uma vida de tal qualidade que ela continua para sempre. Com Jesus, a vida eterna não é um prêmio para o futuro, mas uma condição do presente, e assim entendemos certas afirmações estranhas nas cartas de São Paulo: "Ele também nos ressuscitou e nos fez assentar no céu". Como assim, nos ressuscitou? Mas não existe vida, morte e ressurreição?

São Paulo diz: nós que já ressuscitamos. Esta é a fé da comunidade cristã. Não há ressurreição após a morte, há uma ressurreição na vida. Jesus disse: quem crê tem a vida eterna, mas não terá a vida eterna. No momento em que um indivíduo entrega sua fidelidade a Jesus, uma vida de tal qualidade eterna é enxertada nele, de modo que ele nunca experimentará a morte. Em nossa hora, outros nos verão como alguém que morre; nós não experimentaremos a morte; continuaremos nossa existência.

Em um evangelho apócrifo, há um dito de Jesus não encontrado nos quatro Evangelhos: Quem diz que alguém morre primeiro e depois ressuscita está errado; se alguém não ressuscita primeiro, enquanto ainda está vivo, ao morrer, não ressuscita mais. Para os cristãos, a ressurreição não é no fim dos tempos; é parte da vida. Nós, que entregamos nossa fidelidade a Jesus, já temos uma vida de tal qualidade que não experimentaremos a morte; continuaremos nossa existência. Veremos outros lamentando um cadáver e não perceberemos que estamos presentes! Enquanto lamentarmos a morte de nossos entes queridos, não poderemos vivenciá-los como vivos. Enquanto Maria Madalena chora diante do túmulo de Jesus, ela não percebe que Ele está atrás dela e espera que Ele pare de chorar. Uma pessoa que viveu unicamente para si mesma, focada apenas em suas próprias necessidades e desejos, que não se projetou para os outros, não cresceu. A centelha de vida que ela tinha dentro de si atrofiou até se extinguir. Aqueles que vivem para os outros enriquecem a vida (zoe); aqueles que vivem para si mesmos a destroem. Jesus diz muitas vezes no Evangelho que dar a vida não é perder, mas ganhar; apegar-se à própria vida é perdê-la. Possuímos — como dizemos nestas reuniões — apenas o que damos; o que retemos para nós mesmos não é possuído, mas nos possui e é destruído.

Quanto mais dermos vida aos outros, mais poderosa será a vida divina (zoe), e não experimentaremos a morte. Se vivermos apenas para nós mesmos, corremos o risco de que, quando a morte física chegar, a morte definitiva da pessoa também ocorra. Jesus propõe à comunidade mudar o conceito de morte; a ressurreição não está no futuro, e ele diz a Marta: "Quem vive e crê em mim jamais morrerá."

Você acredita nisso? Para Jesus, a morte não existe. Será que Marta, a comunidade, tem essa fé? Jesus não oferece um caminho diferente para a vida eterna, mas uma vida diferente que já é ressurreição. Não se segue Jesus para ter a vida eterna, mas seguindo Jesus, descobre-se em si mesmo um poder de vida que se sente indestrutível. Finalmente, a fé cresce em Marta, na comunidade. A comunidade compreendeu que aquele que há de vir não é um profeta que deve ensinar a lei, mas o Filho de Deus que comunica o amor. Esta é a inovação trazida por Jesus: Deus não governa os homens promulgando leis que devem ser observadas, mas Deus governa os homens comunicando-lhes o seu próprio Espírito, a sua própria vida, uma capacidade indestrutível para a vida.

Jesus não precisou pegar pela mão a filha do chefe da sinagoga, nem tocar no caixão do filho da viúva de Naim; Aqui ele diz: "Lázaro, vem para fora". Ele não poderia dizer o mesmo nos dois episódios anteriores, porque estava em um ambiente judaico onde a lei divina proíbe tocar em um morto, pois isso tornaria a pessoa impura. Jesus demonstra a falsidade dessa lei: é a lei que mantém a pessoa em estado de morte; transgredindo a lei, encontra-se a vida.

sabato 6 giugno 2026

XI DOMINGO/A

 


 



Êxodo 19,2-6a; Salmo 99; Romanos 5,6-11; Mateus 9,36-10,8

Paolo Cugini

 

Aos domingos do Tempo Comum, refletimos sobre as características que aqueles que seguem Jesus devem possuir. Empreender essa jornada exige disposição para mudar, humildade para nos deixarmos desafiar pela Palavra do Mestre. Não é uma jornada fácil, pois encontramos em nós mesmos resistência à mudança, a dificuldade de uma jornada que requer uma atitude de confiança na Palavra de Deus.

Naquele tempo, Jesus, vendo as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36). A primeira atitude interior necessária para seguir os passos do Mestre é aprender a sentir compaixão por aqueles que encontramos em nosso caminho. O anúncio do Evangelho, do novo modo de vida inaugurado por Jesus, não é um ensinamento transmitido de um púlpito, mas é, antes de tudo, a comunicação de vida nova que brota de uma atitude de empatia para com os irmãos e irmãs que vêm ao nosso encontro. Sentir o sofrimento dos outros com o desejo de ajudá-los a caminhar rumo a uma vida plena é o ponto de partida dos discípulos do Mestre, que, vendo as multidões, sente compaixão por elas. Tornamo-nos cristãos e comunidades geradoras, capazes de inspirar processos de mudança, somente se abrirmos nossos corações ao amor do Senhor, à ação do seu Espírito, que nos ajuda a ver os outros com um novo olhar, atentos a eles, desejosos de comunicar vida.

Chamando a si os seus doze discípulos, deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos para os expulsarem e curarem toda a doença e enfermidade (Mt 9,37). É impossível comunicar a vida se a alma estiver obstruída por realidades contrárias e antagônicas ao amor de Deus. É impossível ser portadores da paz num contexto doente e contaminado pelo ódio. Para proclamar o Evangelho, devemos primeiro limpar o terreno, criar as condições. Um espírito imundo indica uma doença espiritual tipicamente religiosa. A impureza é uma invenção da religião para controlar as pessoas e fazê-las sentir-se indignas de se aproximarem de Deus. Sacrifícios e abluções são todos preceitos realizados pelos homens do templo para subjugar os homens e obter lucro. Não é por acaso que no templo havia um tesouro que recolhia o dinheiro de tudo o que os homens pagavam para realizar os seus ritos e entrar no templo. Jesus declara que este sistema é um fracasso e, consequentemente, capacita os discípulos a libertarem homens e mulheres desta escravidão. Para ajudar as pessoas a se libertarem dos grilhões dos homens do templo, o discípulo deve primeiro se libertar dessa escravidão religiosa. Esse é o poder que Jesus concede aos seus seguidores: ele lhes mostra a grande ilusão e farsa da religião do templo, que, em vez de aproximar homens e mulheres de Deus, os distancia. Jesus demonstra, com seu estilo de vida, com sua vinda entre nós despojado de tudo, que Deus é acessível a todos e não precisa de filtro religioso. Além disso, de que doença e de que curas Jesus está falando? Nesse nível, diversas interpretações podem ser sugeridas com base no contexto em que o Evangelho está sendo proclamado. Em nossa parte do mundo, ou seja, no Ocidente, as doenças que impedem o Evangelho de entrar e frutificar são o apego ao dinheiro, o espírito de comportamento adversarial e a dinâmica meritocrática, que fomenta o individualismo e o desejo de se sobressair aos outros a qualquer custo. Essas doenças precisam ser tratadas, pois impedem a entrada do Evangelho. O que dissemos acima também se aplica aqui. É impossível aplicar essa cura a menos que os discípulos primeiro se deixem curar pelo Senhor, libertando-se da vaidade e da busca ostentosa pela glória humana.

Estes são os Doze que Jesus enviou (Mt 10,5). Passamos de uma vida anônima para uma vida com nome próprio quando respondemos ao chamado do Senhor. Nossa vida é gradualmente moldada à imagem do Senhor, que descobrimos em nossa caminhada e contemplamos a cada dia de nossas vidas. Este é o grande dom que Ele nos dá: a vida! Viver significa nos realizarmos como pessoas capazes de amar. Jesus envia pessoas que, durante a caminhada do seguimento, se tornam pessoas com nome próprio, cuja identidade, dia após dia, se torna cada vez mais conforme ao Evangelho. Aqueles que se deixam transformar pelo amor do Senhor não permanecem mais vítimas do próprio egoísmo, que estimula a busca da autorrealização, mas se abrem à vida nova, à realidade do Reino de Deus. Esta é a tarefa da Igreja, que o é quando faz tudo para compartilhar livremente o que recebeu. Jesus nos chama a nos enviar. A comunidade tem sentido quando se torna um instrumento que gera vida, uma oportunidade que o Senhor coloca no mundo para que todos possam beber da água nova que brota da vida nova da comunidade.

Ao irem, preguem, dizendo: “O reino dos céus está próximo” (Mt 10,7). O reino veio ao mundo primeiro na vida de Jesus e depois na comunidade. A proclamação de uma vida plena pela comunidade deve ser visível em seu estilo evangelístico, que é chamado a demonstrar que existe no mundo uma parcela da humanidade que não é mais dominada pelos mecanismos do poder, do egoísmo e do antagonismo, mas unicamente pelo amor gratuito recebido do Espírito do Senhor. Quando isso acontece, a proclamação do Reino de Deus torna-se uma possibilidade concreta, porque já é visível naqueles que o proclamam.

 

sabato 16 maggio 2026

DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

 




 


Êxodo 34, 4b-6, 8-9; Dn 3,52, 56; 2 Coríntios 13, 11-13; João 3, 16-18

Paolo Cugini

 

Deus é um mistério insondável e sempre o será. Ele é a resposta imediata que damos aos problemas insolúveis da vida. Quando pensamos no sentido da vida, na imensidão do universo, nas maravilhas do cosmos, mesmo hoje, apesar dos avanços científicos que nos oferecem respostas precisas, pensamos no mistério: Deus. Ao mesmo tempo, porém, é uma palavra usada em excesso, no sentido de que a invocamos em tantos momentos e circunstâncias que nada têm a ver com o nome de Deus revelado por Jesus. Se refletirmos com atenção, a grande desconfiança e indiferença que encontramos hoje no mundo ocidental em relação à religião e a Deus talvez se devam ao fato de que o Deus que apresentamos já não fala a esta geração, e isso provavelmente ocorre porque atribuímos a Deus algo que Deus não era. Procuremos, então, prestar atenção às leituras propostas hoje para compreendermos algo sobre este Mistério.

O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e rico em amor e fidelidade (Êxodo 34:8). Estamos acostumados a definições de Deus e não conseguimos apreciar a profundidade e a novidade de algumas expressões, até mesmo o seu absurdo. Dizer que Deus é misericórdia é chocante num contexto em que o Mistério era percebido com uma série de adjetivos que buscavam apresentar Deus como o oposto exato da misericórdia. Ele é o Deus dos exércitos, vingativo, que destrói aqueles que se opõem a ele: não há nada a se brincar com um deus assim! A percepção de Deus como misericórdia é, portanto, um fato extremamente original, um produto típico do pensamento semítico que percebe a presença do mistério nessa nova modalidade de perdão misericordioso. Nessa linha, encontramos diversas passagens no Antigo Testamento, como a de Oséias, que percebe a ação do Mistério como a de uma mãe para com seus filhos. Deus tem um coração materno que vibra de amor: " O meu coração se alegra dentro de mim, e a minha compaixão se inflama " (Oséias 11:8). Se atormentamos nossa consciência quando pensamos ter caído em erro, ecoamos a sabedoria semítica que percebe que Deus não sabe o que fazer com os nossos pecados; Ele os lança para trás de si, os esquece (Hebreus 10:17), os esconde nas profundezas do abismo (Miquéias 7:18-19). Ele é o Deus de misericórdia que abre o caminho para a liberdade diante de nós, enquanto o deus terrível é uma invenção humana que serve para controlar as pessoas e mantê-las subjugadas por sentimentos de culpa.

“Vivam em paz, e o Deus de amor e paz estará com vocês. Saúdem-se uns aos outros com um beijo santo” (2 Coríntios 13:12). A relação com o Deus de amor e paz se manifesta nas relações entre os membros da comunidade. O amor e a paz que recebemos de Deus, nós os derramamos na comunidade. Este é um fato importante, que nos liberta daquelas formas de devoção que visam fomentar o individualismo religioso. A verdade da nossa relação com Deus é medida pelas nossas relações com os nossos irmãos e irmãs. Afinal, foi precisamente isso que Jesus veio demonstrar, criando uma comunidade de irmãos e irmãs iguais, vivendo com eles e ajudando-os a viver de uma nova maneira, através da partilha de bens e da atenção aos irmãos e irmãs mais necessitados. Esta é uma ideia que encontramos expressa em diversas páginas do Novo Testamento. João nos lembra, por exemplo, que é impossível dizer que amamos a Deus, a quem não vemos, e depois desprezar o irmão e a irmã que vemos. A vida no Deus que se manifestou na história e que Jesus nos revelou é, antes de tudo, uma relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e viver nEle significa viver relacionamentos novos e autênticos, baseados na paz e na misericórdia que recebemos de Deus.

Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele ” (Jo 3,17). A fé no Deus revelado por Jesus, rico em amor e misericórdia, bem como em paz e justiça, não tolera que ninguém se perca. O Deus que entra na história através da vida de Jesus e da ação do seu Espírito infunde um princípio de vida de tal intensidade que parece fazer tudo o que é possível para garantir que todos sejam salvos; isto é, que todos vivam a sua vida em amor. Há muitos exemplos no Novo Testamento que atestam isso. A parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), o encontro com a adúltera (Jo 8,1-11), mas também as palavras que Jesus dirigiu ao ladrão arrependido, seu companheiro de crucificação (Lc 23,43). O desejo de Deus de que ninguém se perca encontra-se no coração de Jesus nas palavras da oração que proferiu antes da sua morte, no Evangelho de João (Jo 17). Isso significa que crer em Deus como Jesus o revelou implica cultivar o mesmo desejo e colaborar com a história para que ele se concretize. A proclamação do Evangelho traz consigo o desejo de que todos sejam plenos em amor e paz; o desejo por um mundo sem desigualdades, pois quando estas ocorrem, corre-se o risco de alguém se perder devido à humilhação sofrida.

 

 

PENTECOSTES

 




Atos 2,1-11; Salmo 103; 1 Coríntios 12,3b-7.12-13; João 20,19-23

Paolo Cugini

 

O mistério da Ascensão nos leva a refletir sobre a nova forma da presença do Senhor. Jesus não desaparece, não abandona seus seguidores, mas os convida a segui-lo de um modo diferente, a reconhecê-lo nos sinais que deixou na história. O encontro com o Senhor em nossas vidas é essencial para dar sentido à nossa existência. Sem esse encontro, a vida permanece desprovida de seu significado mais profundo. As leituras do dia de Pentecostes nos ajudam a refletir sobre os benefícios que o Espírito Santo, que é o Espírito do Senhor, traz para a vida de todos que o acolhem. Vejamos.

E como é que cada um de nós ouve os outros falando em sua própria língua materna? (Atos 2:8). O que acontece no dia de Pentecostes, no relato de Lucas nos Atos dos Apóstolos, é um evento singular, que pode ser interpretado de muitas maneiras: vou apresentar uma delas. Aqueles que acolhem o Espírito Santo aprendem a dialogar com os outros, não preocupados em impor suas próprias ideias, mas em ouvir com empatia. É a linguagem do amor que se torna compreensível a todas as pessoas, de todas as línguas e nações. Uma linguagem que não surge espontaneamente, mas que requer um esforço diário para traduzir o que recebemos do Espírito Santo. Um aspecto que, a meu ver, é muito importante, deve ser acrescentado. O que o texto que ouvimos nos apresenta, antes de ser uma prática, é uma meta que devemos nos esforçar para alcançar todos os dias. Falar a linguagem do amor requer trabalho constante em nosso relacionamento com o Senhor e compromisso diário com nossos relacionamentos. Podemos fazer isso com a ajuda do Espírito Santo.

Existem diferentes carismas, mas o mesmo Espírito; existem diferentes ministérios, mas o mesmo Senhor; existem diferentes atividades, mas o mesmo Deus, que opera tudo em todos (1 Coríntios 12:4). O Espírito Santo produz na história um dinamismo oposto ao produzido pelo espírito do mundo. Se, de fato, este último impulsiona a humanidade para caminhos de uniformidade, onde qualquer forma de diversidade se torna um problema que pode levar à violência e à coerção, a ação do Espírito é bem diferente: em vez de fomentar a uniformidade, produz a diferença. A ação do Espírito Santo permite que cada pessoa se reconheça como filha e filho de Deus, em quem sua própria especificidade não é vivida em competição com a diversidade dos outros, mas sim como um elemento fundamental para a expressão da unidade. Ouvindo Paulo, compreende-se claramente a lógica distinta que subjaz aos modelos de humanidade produzidos pelo espírito do mundo e pelo Espírito Santo. Enquanto os primeiros não toleram a diversidade, interpretando-a como uma ameaça ao seu poder de comando, que exige submissão uniforme e silenciosa, o Espírito Santo, por outro lado, trabalha pela Unicidade e pela unidade, vendo a diversidade não apenas como um problema, mas como uma fonte de enriquecimento, e, portanto, a promove. O Espírito Santo atua em nós para nos ajudar a descobrir o sentido da nossa existência, estimulando o nosso potencial, que é ativado não para entrar em conflito com os outros, mas para contribuir significativamente para a comunhão. A comunidade, então, sob essa perspectiva, é o lugar onde a ação do Espírito Santo se manifesta.

“Jesus aproximou-se, pôs-se no meio deles e disse: ‘Paz seja convosco!’ Depois de dizer isso, mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20). O Espírito Santo, ao trilhar o caminho da unidade na diversidade do mundo, cria a paz. Esta é a primeira palavra que o Senhor ressuscitado profere. A paz é o dom que Jesus ressuscitado traz à humanidade. Onde está o Espírito do Senhor, reina a paz, porque Ele estimula caminhos de amor, compreensão, aceitação e partilha. Quando acolhemos o seu Espírito, já não temos de temer nada, porque os outros deixam de ser uma ameaça e tornam-se irmãos e irmãs. As comunidades cristãs que nascem da presença do Senhor são espaços onde se pratica a paz. Não é por acaso que Jesus, logo após o anúncio da paz, mostra as mãos e o lado: porquê? São o sinal do preço pago para trazer a paz a um mundo cheio de tensão e ódio. Ser pacificador significa estar disposto a enfrentar a arrogância e a violência do mundo, que não aceita a diversidade e faz tudo para a suprimir. Suas mãos e seu lado são o sinal tangível do compromisso de Jesus em cumprir o plano de amor e justiça de Deus. A comunidade cristã, ao acolher o Espírito do Senhor, invoca simultaneamente a força para viver em meio ao mundo como Jesus viveu, sem ser subjugada pelo ódio do mundo que incita à violência. Que a paz do Senhor Jesus esteja sempre conosco. 

 

DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR

 




Paolo Cugini

 

Como podemos garantir que este texto nos fale e nos diga algo sobre a nossa jornada? Como podemos despojá-lo das camadas míticas típicas da linguagem da época de Jesus? Desta perspectiva, os teólogos têm (em parte) razão quando afirmam a necessidade de transcender o modelo teísta utilizado durante séculos e avançar rumo a um paradigma pós-teísta, capaz de integrar dados científicos às suas narrativas e, portanto, torná-las mais compreensíveis para as mulheres e os homens de hoje. Exploremos, então, este caminho.

“Depois de ter dito isso, enquanto eles o observavam, ele foi elevado às alturas, e uma nuvem o encobriu, ocultando-o da vista deles. Enquanto eles fitavam atentamente o céu enquanto ele subia, eis que dois homens vestidos de branco se puseram ao lado deles e disseram” (Atos 1:1). Como é possível ler essas passagens no domingo — trechos com sabor de mitologia, narrativas fortemente influenciadas pelo aparato cultural da época de Jesus, com conceitos astronômicos e antropológicos hoje ultrapassados ​​— e depois ir trabalhar na segunda-feira como se nada tivesse acontecido? Ter a coragem de desmantelar construções mitológicas sem pensar que desconstruir significa negar uma verdade. De fato, é precisamente porque buscamos essa verdade manifestada na pessoa de Jesus que prosseguimos com o processo de desconstrução das categorias culturais da época para resgatar, por assim dizer, a mensagem autêntica. Abandonar toda pretensão que nos leva a falar e conversar sobre o conteúdo de uma cultura que já não nos pertence, para garantir que nossos discursos abordem os significados existenciais intrínsecos ao nosso cotidiano, é a essência de uma jornada que consegue integrar o conteúdo religioso à linguagem do dia a dia. O texto que acabamos de ouvir reflete uma visão dual da realidade — céu e terra, carne e espírito — que nada tem a ver com a percepção de um mundo interconectado, como nos transmitem diversas disciplinas científicas, um mundo em que tudo está interligado. Nesse novo texto cosmológico, onde se encaixaria o Jesus da Ascensão?

Vamos então extrair da ascensão do Senhor os ensinamentos que podem nos dizer algo sobre nossas próprias experiências.

O primeiro aspecto é o educativo. Toda relação educativa que almeja ser geradora deve incluir um momento de saída. Uma criança pode se tornar pai ou mãe se os pais, em determinado momento da vida, forem capazes de se retirar de cena. Os discípulos puderam se tornar mestres porque o Mestre se retirou de cena. Temos a oportunidade de crescer e explorar nosso potencial, finalmente descobrir quem somos, somente se as pessoas ao nosso redor forem capazes de desaparecer de cena. Claramente, isso será possível se, durante a fase de crescimento, o educador — pai, mãe, etc. — tiver sido capaz de estimular os aspectos geradores da pessoa. Esse aspecto é claramente visível na relação que Jesus estabeleceu com seus discípulos. No meio de sua jornada para Jerusalém, ele os enviou de dois em dois para proclamar o Reino (Lucas 10). Alguém poderia ter objetado que eles ainda não estavam prontos, que sua preparação era falha. Jesus, sem dúvida, sabia de tudo isso. Apesar disso, ele os enviou, permitiu que experimentassem, que se desafiassem, que experimentassem, mesmo que por alguns instantes, o fascínio de estarem sozinhos diante do mundo. No contexto da Última Ceia narrada no Evangelho de João, Jesus afirma em certo momento: " Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora " (Jo 16,12). Apesar dessa consciência, da preparação ainda muito superficial de seus discípulos, Jesus se retira. O que isso nos revela? Creio que o mais importante que emerge da relação de Jesus com seus discípulos é que ele estimulou neles uma dimensão geradora, a consciência de que o discípulo, homem ou mulher, deve se tornar seu próprio mestre.

“E eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28,20). Há também um aspecto espiritual que nos é comunicado pela festa da Ascensão. Jesus permanece sempre connosco. Podemos perguntar-nos: como poderá estar sempre connosco se já não estiver entre nós? Há uma nova forma de manifestar a presença de Jesus, não mais na carne, mas no Espírito. O Papa Francisco também nos recordou isto quando, na Laudato Si'i, afirma: “O Espírito de Deus encheu o universo de potencialidades que permitem que algo novo brote sempre do próprio ventre das coisas ” (LS, 80). A presença de Deus na criação não é algo distinto de Deus, “mas, ao comunicar a sua própria realidade divina, torna-a constitutiva da plenitude da criatura”. Deus comunica-se à criação, de modo que o Espírito de Deus é imanente e íntimo nas criaturas. Jesus continua presente na história para permitir que cada pessoa colabore no plano criador de Deus. O processo de criação, na verdade, nunca cessou, mas continua conosco, e o Espírito do Senhor, que também age em nós, possibilita tudo isso. O mistério da Ascensão, portanto, não afirma o desaparecimento do Senhor, mas sim uma nova presença.

Durante sua vida pública, Jesus nos ofereceu diversas situações em que sua presença se manifesta. Perceber a presença do Mistério de Deus é fundamental para quem deseja viver segundo a Palavra de Deus. Então, onde está Jesus? Primeiramente, encontramos Jesus nos pobres. Ele mesmo o disse: “ Tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; era estrangeiro, e vocês me acolheram” (Mt 25,32ss). Nossa relação com os pobres, antes de ser um fato sociológico, é teológica, espiritual. Nos pobres, encontramos o Senhor, sua presença misteriosa que nos preenche com seu amor. Ao darmos livremente, recebemos mais do que damos. Depois, encontramos Jesus na comunidade: “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles ” (Mt 18,20). Comunidades que não se identificam com formas institucionais, mas também e sobretudo com o encontro de pessoas que conheceram o Senhor, amam sua Palavra e se encontram em família. Redescobrir novas formas de ser comunidades que sentem a presença do Senhor é um dos grandes desafios da era pós-cristã que estamos testemunhando. "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Com isto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (João 13:34-35). Pequenas comunidades de pessoas que se amam e cuidam umas das outras tornam a presença do Senhor visível na história.

A ascensão significa que o Mestre não está mais entre seus discípulos em forma material, mas em uma nova forma com muitas facetas. Vamos encontrá-lo e vivenciá-lo.

 

sabato 4 aprile 2026

SÁBADO SANTO (Missa da vigilia)

 




Paolo Cugini

 

O que esta noite nos diz sobre nossa jornada de fé, sobre nossa jornada quaresmal? Ela nos diz que há esperança para todos! A noite em que recordamos a ressurreição de Jesus revela o sentido da nossa vida: nascemos para viver e para viver com sabedoria. Ela também nos diz que o mal não prevalece sobre o bem e que a luz venceu as trevas. É, portanto, uma noite que nos convida a perseverar no caminho traçado pelo Senhor, mesmo e sobretudo quando as trevas parecem prevalecer sobre a luz e já não conseguimos compreender o caminho a seguir.

Por isso, fazemos nossas as belas palavras da Proclamação Pascal: "Feliz pecado que mereceu ter tão grande redentor !" E ainda: "O santo mistério desta noite vence o mal, dissipa o ódio, amolece a dureza dos poderosos, promove a harmonia e a paz ." É a lógica do amor que Jesus escreveu na história dos homens e das mulheres. Uma história marcada pelo sofrimento e pela dor, mas que, com o nosso olhar fixo em Jesus, pode se transformar numa força que conquista o mundo.

É precisamente essa história que a liturgia da Palavra, tão rica nesta grande noite, nos contou. A história do povo de Israel também fala de nós, o povo de Deus, ansiosos por viver pelo seu amor, mas que muitas vezes experimentamos um fechamento egoísta que não deixa espaço para a luz de Deus. Uma história de desigualdade, injustiça, abuso, guerra e ódio. Contudo, aqueles que vivem buscando o Senhor vislumbram a sua presença a cada instante. Foi precisamente assim com os grandes profetas como Isaías, cujas reflexões nos foram oferecidas durante a vigília. E o mesmo se aplica às mulheres e aos homens que, em meio a tanta labuta e sofrimento, buscam a face do Senhor.

A liturgia da Vigília Pascal também nos permite redescobrir o significado do nosso batismo, nossa imersão no amor do Senhor. Foi precisamente nesta noite que a Igreja primitiva batizava os neófitos após uma longa jornada de preparação antes de serem introduzidos aos mistérios. A passagem da noite para o dia, das trevas para a luz, simbolizada pelo contexto específico da Vigília Pascal, tinha o propósito de indicar um dos significados primordiais deste sacramento. O desafio para nós, batizados, é permanecer na luz apesar das trevas que nos envolvem por dentro e por fora. É um desafio que podemos superar juntos, em comunidade, escutando a Palavra de Jesus e, sobretudo, fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para vivê-la a cada dia.

Chamados a ser testemunhas da luz do ressuscitado: esta é a nossa vocação!