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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

ESTUDO BIBLICO LUCAS 3

 



Paolo Cugini

O capítulo 3 de Lucas começa com um cenário deliberadamente suntuoso, poderíamos dizer redundante. Vamos ouvir. No décimo quinto ano do reinado de Tibério César. Tibério sucedeu a Augusto em agosto de 14 d.C., então começa com o mais alto representante do poder, um imperador que não era apenas imperador, mas se considerava o Filho de Deus, portanto o pináculo mais alto.

Enquanto Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, este é filho de Herodes, o Grande, isto é, Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, e Filipe, seu irmão, tetrarca da Itureia e Traconites, e então o evangelista também vai encontrar um certo Lisânias, um príncipe semi-desconhecido, tetrarca de Abilene, sob os sumos sacerdotes Anás e Caifás. Mas o sumo sacerdote era um. O evangelista acrescenta uma, e veremos por quê.

Por que o evangelista começa com esse cenário? Mostra os sete grandes da terra. E por isso ele acrescentou dois sumos sacerdotes em vez de um, para chegar ao número sete, que indica a totalidade. Poderíamos dizer em linguagem corrente que o evangelista apresenta o G7, os sete grandes da terra. Então, desde o imperador que acredita e se apresenta como filho de Deus, até os sumos sacerdotes que são os representantes de Deus.

E o evangelista cria suspense. A palavra de Deus veio... Quando lemos o evangelho, para apreciá-lo, devemos nos colocar no lugar dos primeiros ouvintes ou leitores que não conheciam o resto. O evangelista apresentou os grandes da terra, desde o imperador filho de Deus, até os sumos sacerdotes, representantes de Deus, e a palavra de Deus sobre quem ela descerá? Ela cairá sobre o imperador, cairá sobre os sumos sacerdotes? Mas aqui está a novidade trazida pelo evangelista: 

quando Deus deve intervir na história, ele evita cuidadosamente os lugares sagrados e as pessoas religiosas, ou os palácios do poder, porque sabe que estes são refratários e hostis a qualquer mudança.

E aqui está a surpresa: a palavra de Deus veio a João, filho de Zacarias, no deserto.

Por que no deserto? Por que João, filho do sacerdote Zacarias, não é sacerdote como seu pai e não está no templo, o lugar sagrado por excelência? João, não, não escolheu o sacerdócio como seu pai – e ainda assim teve que fazê-lo como filho do sacerdote Zacarias – mas ele permanece no deserto.

E é no deserto, longe de Jerusalém e do templo, que começa o que poderíamos definir como a desclericalização do povo por Deus. Sua palavra desce ali, portanto fora de qualquer ambiente sagrado, de qualquer ambiente religioso.

Ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo – o batismo era uma imersão em água – de arrependimento para o perdão dos pecados. O termo grego usado pelo evangelista para indicar “conversão” significa “mudar de ideia, mudar uma maneira de ver”, ou seja, se até agora você pensou por si mesmo, pense agora pelos outros.

Agora entendemos por que uma mensagem de mudança não foi dirigida aos sacerdotes, escribas e religiosos. Na verdade, não poderia ter sido dirigido à casta sacerdotal, que tem medo de qualquer coisa nova. No mundo religioso, reina o imperativo “sempre foi feito assim”, então qualquer proposta de mudança é vista como um ataque à segurança de alguém.

Bem, João prega o batismo como sinal de mudança de vida, para o perdão dos pecados. O desafio que João enfrenta é tremendo. O perdão dos pecados era obtido indo a Jerusalém, ao templo, através de um rito religioso. Não, Deus não age na adoração, mas na vida. O perdão dos pecados ocorre pela mudança da existência, pela mudança da vida. Em vez de viver para si mesmo, para seus próprios interesses, para suas próprias necessidades egoístas, esteja atento às necessidades e exigências dos outros. Essa atitude apaga o passado pecaminoso.

Como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías, e o evangelista cita a segunda parte do profeta Isaías, onde é descrito o êxodo da Babilônia para Jerusalém, há um novo êxodo, uma libertação do cativeiro de uma instituição religiosa, que fez das pessoas escravas. E, citando Isaías, o evangelista escreve: 

“Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai os seus caminhos! Todo vale será aterrado, e toda montanha e colina serão rebaixadas; os caminhos tortuosos se tornarão retos e os acidentados, suaves.” Então, trata-se de preparar o caminho para o Senhor, e então o evangelista muda o final. “Toda a carne verá a salvação de Deus”, o texto de Isaías fala da “glória do Senhor”.

Por que essa mudança? Porque a glória do Senhor se manifesta a todos os homens na sua salvação, ao propor-lhes uma mensagem de plenitude de vida. E é importante especificar que esta salvação é para todos os homens, sem exceção. Isso é típico da teologia de Lucas: o amor de Deus por toda a humanidade, um amor do qual ninguém pode se sentir excluído. Como Pedro formulará tão bem nos Atos dos Apóstolos: “Porque o Senhor me mostrou que nenhum homem pode ser considerado impuro”.

Não há pessoa no mundo que, por sua condição e sua situação, possa se sentir excluída do amor de Deus. É com esse cenário grandioso que começa a pregação de João Batista, anunciando a vinda de Jesus.

João Batista no deserto havia anunciado um batismo como sinal de conversão, isto é, de mudança. da vida, para o perdão dos pecados. A resposta é inesperada: todas as pessoas se aglomeram em volta dele. As pessoas têm entendido que o perdão dos pecados não pode ter lugar no templo, com um ato litúrgico, com um sacrifício ao Senhor, mas através de uma mudança de vida. Mas se o povo acreditou e correu para João Batista, as autoridades religiosas, os líderes, não o fizeram, sempre refratários. a qualquer apelo por mudança. 

Porque o povo estava e todos se perguntavam em seus corações se João não seria o Cristo, isto é, o Messias.

O povo acredita ter identificado neste profeta do deserto o esperado libertador de Israel. Mas João imediatamente deixa claro que não é. João respondeu a todos: “Eu vos batizo com água”, isto é, eu te mergulho em um líquido que é externo ao homem, o que é um sinal de uma mudança de vida para obter o perdão dos pecados. “Mas aquele que é mais poderoso do que eu está chegando”, e aqui o evangelista usa uma expressão que deve ser colocada no contexto cultural da época entenda isso. “Não sou digno de desatar as correias das suas sandálias.”

O que João Batista quer dizer com essa expressão? Havia uma lei na instituição do casamento da época, que era chamada de "do levirato". Em que consistia essa lei? Quando uma mulher permaneceu viúva sem filhos, seu cunhado tinha a obrigação de engravidá-la. A criança nascida carregaria o nome do marido falecido. Era a maneira de perpetuar o nome da pessoa. Quando o cunhado se recusava a engravidar esta mulher provavelmente por razões de interesse porque a mulher sem filhos, sem descendência, era enviada de volta ao seu clã familiar. Aquele que na escala social e legal tinha o direito depois dele, ele procedia com a cerimônia de descalçar, tirar as sandálias dessa pessoa. Foi um gesto simbólico que significava “o seu direito de engravidar esta viúva pertence a você”. Agora é meu".

Eis, pois, o significado desta expressão de João Baptista, que encontramos no antigo testamento, nas histórias de Rute e nos vários livros. Eu não sou digno de desatar as correias das tuas sandálias, significando "não sou eu quem tem que engravidar esta viúva", o povo de Israel era considerado como uma viúva, “mas aquele que vem depois de mim”. Porque “Ele vos batizará com o Espírito Santo”. Enquanto eu te mergulhava na água, símbolo de uma mudança de vida, ele irá te encharcar, te imergir, te impregnar com a mesma vida divina. “E fogo.” Então aqui a liturgia corta alguns versículos que indicam a eliminação de João Batista. É a resposta do poder de conversão. Os poderosos nunca querem mudar. Mas é também a estupidez do poder porque a perseguição sempre faz a vida florescer, ela não a extingue. Toda vez que os poderosos querem desligar um voz, aí vem uma ainda mais poderosa e forte.

E eis que, enquanto todo o povo estava sendo batizado assim o povo entendeu, entre Jerusalém, o templo onde, através de um sacrifício ao Senhor, obteve o perdão dos pecados, e o deserto através de um rito de imersão, o povo entendeu que a verdade está lá. 

Aí vem Jesus, que também vai ser batizado. Mas por que Jesus é batizado? O batismo foi um símbolo de morte para o povo. Morrer para o passado, para o que era um estado, para começar uma vida novo. Também para Jesus o batismo é um sinal de morte, não de um passado de pecado que ele não tem, mas a aceitação da morte no futuro. Jesus dirá mais tarde neste mesmo evangelho que há um batismo no qual ele deve ser batizado e fica angustiado até que chegue esse momento.

Isto é sobre a sua morte. Então, para Jesus, ser batizado significa: fidelidade ao amor de Deus aceita a perseguição e até a morte. Jesus, tendo também recebido o batismo, estava orando, o céu se abriu. O que significa esse céu se abrindo? É a comunicação permanente e definitiva do homem com Deus. O céu indica a realidade divina. Quando há um homem que se compromete a manifestar fielmente o amor de Deus, então o a comunicação entre Deus e o homem é contínua. Com Jesus essa comunicação será ininterrupta.

E o Espírito Santo desceu sobre ele, o artigo definido indica totalidade. O Espírito é a força, a energia do amor de Deus, que desce sobre Jesus. Por que o evangelista indica em forma corpórea? Para dizer realmente, completamente; como uma pomba. A imagem da pomba evoca vários elementos, diz respeito a criação quando o Espírito de Deus pairava sobre as águas e na interpretação rabínica foi dito que era como uma pomba, então em Jesus está a nova criação. Lembra sobretudo a pomba que Ele deixa a arca de Noé depois do dilúvio como sinal de perdão.

Jesus é o perdão de Deus. Mas também lembra um provérbio palestino que diz: “como o amor de uma pomba para o seu ninho”. A pomba é aquele animal que permanece afetuoso e muito apegado ao seu ninho de origem. Você pode mudar o ninho dela, fazer um novo, mas ela não quer saber disso. Então Jesus é o ninho do Espírito, é onde se manifesta a plenitude do amor de Deus.

E uma voz veio do céu, portanto de Deus. E aqui o evangelista faz uma colagem de vários textos do antigo testamento, do profeta Isaías, um salmo, o livro do Gênesis: “Tu és meu Filho, o amado – o amado indica o herdeiro, aquele que herda tudo do pai – “com você estou muito satisfeito”. Então Deus confirma que em Jesus está toda a sua realidade, e o povo só tem que acolhê-lo.


sábado, 28 de dezembro de 2024

BATISMO DO SENHOR - domingo 12 janeiro 2025

 




Paolo Cugini

 

         Começamos o ano com a festa do batismo do Senhor, oportunidade que a liturgia nos oferece para refletir sobre o significado do nosso batismo, para que esteja em harmonia com o batismo de Jesus. Na liturgia de hoje, dois significados do batismo. são apresentadas nas leituras, que encontramos unidas no rito atual, nomeadamente o batismo com água, que foi o fornecido por João Batista e o batismo com o Espírito Santo proposto por Jesus através das leituras que nos são propostas,. procuramos aprofundar o significado autêntico do Batismo.

No deserto prepare o caminho para o Senhor,

abra o caminho para o nosso Deus na estepe. Que

todo vale seja exaltado,

toda montanha e toda colina sejam rebaixadas;

o terreno acidentado torna-se plano

e o terreno íngreme torna-se um vale (Is 40).

O batismo que João Batista prega é o batismo com água e ele o faz com palavras duras, chamando a multidão: “ raça de víboras ”, convidando à conversão, à mudança de vida. Há, portanto, um primeiro nível na vida de fé, que consiste no compromisso de realizar gestos concretos de mudança de vida, que consistem em abandonar hábitos negativos, vícios, paixões que perturbam a existência. Não é por acaso que João Baptista, quando prega, utiliza o texto de Isaías, que a liturgia de hoje nos propôs na primeira leitura. Trata-se de pavimentar o caminho da nossa vida para que o Senhor possa entrar, resolver os terrenos acidentados, preencher os vales. Todas estas são expressões que nos convidam a mudar de vida, porque não podemos apelar ao Senhor continuando a viver um estilo de vida que contradiz aquilo que invocamos. O Baptismo com água pretende simbolizar este esforço de “limpeza” externa da nossa vida, uma limpeza que nós próprios somos chamados a realizar.

Depois há a entrada em cena de Jesus, que cumpre em parte as expectativas de João Baptista. Jesus vem trazer o Espírito Santo, que é vida plena para todos de forma gratuita. Este Espírito de vida dado gratuitamente a todos é graças à vida dada por amor por Jesus. Quando Jesus cita a expressão de João que falava do futuro messias que ele batizaria no Espírito Santo e no fogo, falará apenas do futuro messias. Espírito, mas não do fogo. Jesus é apenas amor e não castigo. Há uma oferta indignada de vida a todos. O céu se abriu : Deus corresponde à disponibilidade da vida com o dom de si mesmo. No Antigo Testamento pensava-se que o céu estava fechado devido à dureza do coração do povo de Israel, mas abre-se definitivamente com Jesus e torna-se caminho de salvação para todos. O Espírito Santo é a energia de Deus, em forma corpórea, como uma pomba. Nesta passagem há uma clara referência ao livro do Gênesis, que fala do espírito sobre as águas, que era simbolizado pelos judeus com a pomba. Em Jesus há a nova criação que não termina com a morte, mas com a vida. Em Jesus só há vida e não condenação, por isso não há menção ao fogo em suas palavras. Jesus veio trazer uma mensagem de salvação para todos, sem excluir ninguém.

 Quando apareceu a bondade de Deus, nosso salvador,

e o seu amor pelos homens ,

ele nos salvou,

não por obras justas realizadas por nós,

mas pela sua misericórdia,

com uma água que regenera e renova no Espírito Santo,

que Deus derramou sobre nós em abundância

por meio de Jesus Cristo, nosso salvador,

para que, justificados pela sua graça,

nos tornemos, na esperança, herdeiros da vida eterna (Tito 2).

Paulo, na carta a Tito que nos é proposta na segunda leitura, reitera o discurso do Evangelho de Lucas. O amor que recebemos de Deus em Jesus Cristo não é fruto do mérito pelas obras que realizamos, mas é um dom gratuito da sua misericórdia. Entrar nesta nova perspectiva de fé significa ter a coragem de sair da lógica da religião do mérito, feita de obediência às regras e aos preceitos, que acalmam a consciência, mas não permitem entrar na esfera da gratuidade de Deus, manifestada pela Jesus Cristo.


sábado, 7 de janeiro de 2023

DOMINGO DO BATISMO DO SENHOR/A

 




(Is 42,1-4.6-7; Sal 29; At 10, 34-38; Mt 3,13-17)

 

 

 

1. A festa do Batismo do Senhor, que estamos celebrando, encerra as solenidade do tempo de Natal, tempo litúrgico rico de sugestões e, ao mesmo tempo repleto de indicações pela nossa caminhada de fé. Celebrando esta festa a liturgia nos oferece a oportunidade de refletirmos sobre o sentido do nosso batismo e da nossa caminhada na Igreja. Quase todo mundo foi batizado quando criança e então o sacramento do Batismo é um assunto que dificilmente encontrou em nós o tempo necessário para uma reflexão. Isso se constata nas celebrações do Batismo nesta época do ano, quando muitas pessoas se aproximam á Igreja para batizar os filhos. Em muitos destes casos percebe-se a quase total ausência de entendimento sobre aquilo que estão querendo realizar. Os pais pedem o sacramento do Batismo sem saber bem o sentido do mesmo. Na maioria dos casos o pedido do batismo é só um fato tradicional, algo que deve ser feito, porque tudo mundo faz. Cabe ao padre e aos ministros da Igreja saber transformar este pedido tradicional num caminho de fé. Por isso é importante prestarmos atenção ás leituras de hoje para juntos refletirmos sobre o valor do Batismo de Jesus e, assim, entender o sentido do nosso Batismo.

 

2. “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (Mt 3, 14).

O questionamento que João Batista faz perante o pedido de Batismo de Jesus, desvende amiúde o primeiro sentido do Batismo que o mesmo João pregava no deserto. João pregava um batismo de conversão e quem se aproximava para ser batizado devia ter clara consciência dos próprios pecados junto com o desejo de se libertar deles na perspectiva e uma vida nova, renovada. O mesmo sentido da palavra batismo descortina bastante o caminho que este sacramento aponta para quem se aproxima á ele. De fato Batismo é uma palavra grega que quer dizer mergulho e, este mergulho, tinha um dúplice sentido: de limpeza e de entrada na vida de Deus. Quem se aproxima para receber o batismo é porque deseja uma vida nova. Este desejo que se manifesta com a descoberta das próprias faltas, a consciência por assim dizer do próprio pecado acontece não por acaso, mas como o fruto profundo do encontro com Deus. Quanto mais a nossa experiência de Deus é profunda, tanto mais é revelativa da nossa condição humana, que é uma condição de pecado e de morte. Por isso, antes de batizar as crianças, o padre dirige uma serie de perguntas para os pais e os padrinhos pra saber se eles são conscientes disso, e se estão dispostos a renunciar ao pecado. Quem se dirige a Igreja para se batizar ou para batizar os seus filhos deveria ser movido por este sentimento de uma vida nova em Cristo e pelo desejo de se libertar de qualquer forma de pecado, que é animado pelo instinto egoísta. O que significa esta consciência de pecado, do meu pecado? Que a minha vida é vazia, que os meus projetos de vida sem Deus são destinados ao fracasso, a morte. Quem desperta isso é o encontro pessoal com o Senhor, o encontro com a vida verdadeira que se manifestou em Cristo Jesus. Por isso é necessário o anuncio do Evangelho, para que todas as pessoas possam deparar com a vida verdadeira e, assim, sair dos caminhos de morte que estão construindo.

É neste sentido que podemos entender o Batismo de Jesus. Sem duvida Ele quis se batizar por João Batista não porque tinha pecados, mas para salientar a assunção integral da condição de vida humana, uma vida estragada pelo pecado, pela desobediência radical a Deus. Através do Batismo, Jesus se identificou conosco, apontando ao mesmo tempo o caminho para sairmos das nossas veredas de morte.

 

3. “Estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas” (At 10, 34).

Qual é o sentido da vida nova que abraçamos com o Batismo? Para onde o Senhor nos leva seguindo-o depois do Batismo? A resposta é muito clara escutando a segunda leitura que foi proclamada. Jesus nos leva para formarmos uma comunidade de pessoas que se amam e se acolhem do jeito que elas são. Ninguém, na comunidade do Senhor é melhor do que o outro, porque Deus não faz distinção de pessoas. O Senhor veio ao mundo para nos tirar da comunidade mundana feita de divisões, de conflitos, de lutas pelo poder, para se aparecer. Jesus veio para nos conduzir na comunidade aonde todos são irmãos e irmãs, aonde todos fazem o esforço corriqueiro de sair do próprio mundo egoísta, de moldar a própria humanidade estragada pelo pecado e pelo orgulho. Na comunidade aonde o chefe é o Senhor todos são acolhidos, independentemente da cor, da raça, do partido.Na comunidade de Jesus não existe nada que divide, mas tudo une. Se tudo isso é verdade, neste ano de eleições políticas devemos pensar bem as nossas atitudes. Não existe na comunidade de Jesus, á qual fazemos parte, que pessoas de um partido não falam com pessoas do outro partido. Se isso existe no mundo, não pode existir entre nós que comemos do mesmo pão e escutamos a mesma Palavra. Se Jesus não faz distinção de pessoas, que somos nós para agirmos diferentemente? Na comunidade de Jesus as pessoas aprendem devagarzinho a segurar a língua, a não julgar, mas sim a ter somente palavras de amor e compreensão para com todos e todas. Se Jesus se abaixou para nos salvar, se humilhou para chegar perto de nós, se fez homem para acolher a todos, no final das eleições não podemos insultar as pessoas do partido que foi derrotado. Fora da porta da Igreja neste ano de eleições política cada um faz campanha pra quem quiser: aquilo que importa é a maneira de fazer isto. Se entendemos a Palavra de Deus de hoje, torna-se bem claro que para nós batizados e pertencentes a Igreja de Jesus, nada  deve ser feito que machuque os irmãos; nada deve ser feito que divida, que exclua.

 

4. “Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a Justiça na terra” (Is 42,4).

Através do Batismo recebemos o Espírito do Senhor, que impele em nós o desejo de um mundo mias justo e solidário, um mundo com os traços do Deus do amor que se manifestou em Cristo. Realizar isso neste mundo estragado pelo mal do pecado necessita de pessoas firme e determinadas, daquela firmeza que só Cristo pode formar.

Por isso estamos aqui no redor deste altar, para nos alimentarmos do Seu amor e para continuarmos a realização do seu reino, reino de justiça e de paz, reino aonde todas as pessoas se acolhem do jeito que elas são.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

ATOS DOS APÓSTOLOS CAPITULO 8

 



Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-3. Interessante observar que a expansão da Igreja não acontece por causa de um planejamento bem estudado, mas por causa da perseguição. A Igreja se estendeu pelas regiões da Judeia e da Samaria por causa da perseguição contra a Igreja de Jerusalém. Esta é a assim chamada a segunda etapa da expansão da Igreja (cf.At  1,8).


4-8. “Entretanto os que haviam sido dispersos iam de lugar em lugar, anunciando a Palavra da Boa Nova”. Os primeiros cristãos transformavam situações humanamente negativas, como uma perseguição, em ocasiões para pregar o Evangelho. Os sinais que os discípulos realizavam se tornavam instrumento de conversão, porque davam valor às Palavras que pregavam. Sem duvida hoje não somos chamados a realizar este tipo de sinais, como cura e milagre, mas outros sinais como a comunhão na comunidade, a partilha com os mais pobres, a gratuidade no nosso serviço. São estes os sinais que rendem visível a Verdade da Palavra que estamos anunciando.

9-25. O caso de Simão o mago narrado neste trecho mostra a realidade religiosa que o cristianismo das origens teve que enfrentar. A magia era o grande cerne da religião, a capacidade de realizar prodígios era o sinal da verdade dos deuses (religião politeísta). A força do Espírito Santo, que na primeira fase da Igreja se manifestou também com sinais e milagres prodigiosos realizados pelos apóstolos e discípulos, provocou rapidamente o fim das religiões milagreiras. O exemplo de Simão mostra também até onde chegava a ignorância religiosa. Foi exatamente a partir deste episodio, aonde Simão tenta comprar com dinheiro o Espirito Santo, que nasceu a palavra simonia, para apontar o comercio das coisas santas que se difundiu no Ocidente medieval na época da construção da igreja de São Pedro em Roma. O episodio nos ensina que os dons de Deus são gratuitos e, para recebê-los, precisamos somente acolhe-los com um caminho de conversão e humildade.

26-35. Filipe, um dos diáconos que foi escolhido para servir as mesas dos pobres (capitulo 6) tinha também o dom da Palavra como Estevão (c. 7). Impelido pelo Espírito Santo se aproximou de um estrangeiro que estava lendo um trecho de Isaias, o capitulo 53, que fala do servo de Deus, mas não estava entendendo nada. “Entende o que lês? Como posso entender se ninguém me explicar?”. É esta a função da uma comunidade: explicar a Palavra de Deus aos fieis. “Abrindo então a boca e partindo deste trecho da escritura Filipe anunciou-lhe a boa Nova de Jesus”. É uma afirmação rica de sentido pela nossa caminhada. Talvez alguém pode duvidar sobre o sentido do Estudo Bíblico que estamos realizando. Alguém pode pensar que seja invenção do padre. Não, não é invenção do padre, é uma necessidade da Igreja, aliás é exatamente aquilo que a Igreja deve fazer: explicar a Sagrada Escritura. É claro que para fazer isso exige conhecimento. Por isso é bom que dentro da comunidade alguém desperte o interesse pelo estudo mais aprofundado da Palavra de Deus para ajudar os outros a entender melhor. O texto que acabamos de ler mostra que as paginas do Antigo Testamento são importante para aprofundar o conhecimento de Jesus, pois o Filho de Deus não veio a toa, mas dentro de um projeto divino que iniciou muitos séculos antes.

36-40. O Batismo é realizado depois de Filipe ter explicado a Sagrada Escritura para o estrangeiro. Isso quer dizer que o Batismo não é apenas um rito formal, mas sim a porta de entrada de uma caminhada de fé à qual devo aderir com todas as minhas forças e, para isso, devo compreender. Por isso a Igreja exige para batizar crianças a participação dos pais e dos padrinhos na caminhada da Igreja, pressupondo neles um certo conhecimento de Jesus e da vivencia na Igreja.

 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 6




Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-11. Este trecho de Paulo é uma profunda catequese sobre o Batismo, que representa uma grande novidade no confronto do entendimento comum. De fato, se na maneira de pensar comum o Batismo é entendido como participação da vida de Jesus, para Paulo é o contrário. “Ou vocês não sabem que todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte?”. Qual é o sentido destas palavras? Para respondermos precisamos entender o sentido da morte de Cristo. Porque Cristo morreu? Jesus morreu por amor ao Pai. Parece uma resposta banal, mas não é não. Jesus aceitando a morte declarou a verdade de tudo aquilo que dizia e fazia. Sem duvida Ele podia fugir, mas não quis, pois aceitou as consequências das suas palavras. Por amor ao Pai Jesus renunciou a si mesmo, aos seu projetos. Deve ser por isso que Jesus passou tanto tempo no silencio: precisou de refletir bastante para aceitar de viver não para realizar aquilo que ele queria, mas deixando que o Pai moldasse toda a Sua existência. Com o Batismo, então, nós somos mergulhado nesta morte, que não é física, mas sim espiritual e existencial. Aceitando o batismo, decidimos de levar uma vida de morte aos projetos egoísticos do mundo, para acolhermos uma vida de amor e justiça. longe de ser o mero rito formal, o batismo é uma verdadeira e provocante forma de vida. Que pena que tantos cristãos não entendem a força deste sacramento! Somente se morremos com Cristo poderemos ressuscitar com Ele para a vida eterna.

12-14. Por isso na vida dos cristãos não pode mais morar o pecado, ou seja, a vida dominada do egoísmo. A verdade do nosso batismo se manifesta numa vida de amor, justiça e partilha. É claro que não é algo de espontâneo, mas deve ser o sentido da nossa nova existência: fazer de tudo para não dar ousadia às formas de egoísmo que se apresentam no horizonte da nossa vida para nos tentar.

15-23. Paulo utiliza a imagem do escravo para explicar a nova situação dos cristãos. De fato, os batizados em Cristo passaram da escravidão do pecado, para a escravidão de Deus. Na leitura destes profundos versículos chama atenção a radicalidade. Para Paulo não existe possibilidade para os cristãos de trilhar os caminhos sombrios do pecado. Para Paulo existe o antes da vida do pecado e o hoje da vida nova em Cristo. Entre o ante e o hoje não tem continuidade, mas ruptura radical. Ler estes versículos tão questionadores do nosso cristianismo morno e cheio de justificações deve provocar uma reflexão seja no plano pessoal que comunitário. Paulo nos ensina que o Caminho proposto para Jesus é em contraste com a proposta egoísta do mundo. Somente vendo esta radicalidade saberemos ser luz no mundo e, assim, provocar o desejo nas pessoas de conhecer mais de perto a novidade do Evangelho.