PÁSCOA DA
RESSURREIÇÃO DO SENHOR
Às 10, 34a. 37-43;
Sal 117; Col 3, 1-4; Gv 20, 1-9
Paolo Cugini
A luz venceu as trevas; a vida
derrotou a morte. Esta é a mensagem que ouvimos na liturgia da noite e que
continuará a ressoar ao longo do Tempo Pascal. Um novo e inédito acontecimento
preenche o tempo e a história: a ressurreição de Cristo. Há muitos anos que a
luz da ressurreição ilumina o mundo, mas o seu profundo significado, não só
para Jesus, mas também e sobretudo para as nossas vidas e para a vida da
comunidade cristã, ainda nos escapa. Procuremos nas leituras que ouvimos
algumas respostas a este mistério.
E nós somos testemunhas de
tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém (Atos 10:37). A primeira coisa que as leituras
de hoje nos dizem é que o mistério da ressurreição de Cristo é confiado às
testemunhas. Nossa fé na ressurreição depende de ouvirmos o testemunho daqueles
que o viram ressuscitado. Essas testemunhas não são simplesmente transeuntes
que encontraram Jesus, mas sim — como afirma o texto de Atos — aqueles que o
conheceram desde os primeiros momentos de seu ministério público e o
acompanharam até o pé da cruz. Pode-se, portanto, dizer, a respeito de seu testemunho,
que o conhecem bem, sabem quem ele é, o que fez e disse. O testemunho de Pedro,
Maria, João e todos os outros possui uma força que não pode ser abalada: é a
prova da realidade. Como João dirá mais tarde em uma de suas cartas, eles o
viram, eles o tocaram; os discípulos tocaram a carne do ressuscitado, ouviram
sua voz, viram-no cear com eles. O Ressuscitado é um evento ocorrido na
história de homens e mulheres, confiado aqui a alguns poucos íntimos que
poderiam tê-lo reconhecido. Toda a Cristandade, a trajetória da Igreja através
dos séculos, depende das narrativas dessas poucas testemunhas. É a palavra
delas contra a nossa. O encontro delas marcou suas vidas de forma profunda e
radical. De fato, se é verdade que Jesus deu a vida e morreu por elas, é igualmente
verdade que os discípulos de Jesus morreram por Ele. O encontro com o
Ressuscitado, com o Autor da vida, com Aquele que tem vida em si mesmo, provoca
uma mudança radical que leva a testemunha a nunca recuar, nem mesmo diante da
morte.
Vocês estão mortos, e a vida
de vocês está escondida com Cristo em Deus! Quando Cristo, a sua vida, se
manifestar, então vocês também serão manifestados com ele em glória (Colossenses 3:4). A vida daqueles que conheceram o
Ressuscitado e creem nele se reconhece pelo seu ocultamento. Quem encontra o
Ressuscitado é, antes de tudo, uma pessoa morta para o mundo. Este é o
significado primordial que, entre outras coisas, a primeira comunidade atribuiu
ao batismo. O mundo é toda a realidade que se opõe à proposta do Senhor e se
caracteriza pela busca do aplauso humano, da visibilidade externa. Em
contrapartida, aqueles que seguem o Senhor ressuscitado, como primeiro passo
fundamental, renunciam a tudo o que o mundo tem a oferecer, para acolher a vida
que vem do Ressuscitado. A vida dos cristãos é oculta porque eles não buscam
mais a glória dos homens, mas sim o amor do Pai. Este é um discurso muito
radical, difícil de se perceber nas comunidades cristãs, exceto em algumas
experiências específicas de vida religiosa. É importante, no entanto, refletir
sobre como a primeira comunidade cristã compreendeu e vivenciou o testemunho
dos discípulos e o encontro com o ressuscitado.
Então o outro discípulo, que
chegara primeiro ao túmulo, também entrou, viu e creu. Pois eles ainda não
haviam entendido a Escritura, que dizia que era necessário que ele
ressuscitasse dentre os mortos (João 20:9). É sempre fascinante ouvir a história da corrida de
Pedro e João. Há muito amor nessa corrida, muita amizade: há o desejo de um
encontro que parecia impossível. Uma pergunta sempre permanece após ouvir a
passagem: como João consegue entender que o Senhor ressuscitou ao olhar para o
simples sinal dos lençóis de linho no túmulo, enquanto Pedro, apesar de ver os
mesmos lençóis de linho, não consegue reconhecê-lo? A crença de João é um
primeiro indício fundamental no caminho para a compreensão do mistério. Para
crer, é preciso ver. Mais uma vez, como João viu a presença do ressuscitado nos
lençóis de linho encontrados no túmulo? Este é o problema. Para respondê-lo,
devemos lembrar um fato fundamental que se repete diversas vezes no evangelho
em questão: João era o discípulo a quem Jesus amava. O mistério da ressurreição
de Jesus jamais será desvendado por meio de silogismos, com as ferramentas da
sabedoria humana: trata-se de uma questão do coração, de relacionamentos.
Somente aqueles que amam o Senhor podem discernir, nos indícios deixados ao
longo da história, o sinal mais claro de sua presença. Deus se revelou no
Senhor e, de maneira nova e retumbante, em sua ressurreição. A história está
repleta da luz do Ressuscitado, uma luz que brilha no mundo há mais de dois mil
anos. Para vê-la, nos dizem hoje, devemos amar o Senhor, criar um
relacionamento profundo com ele, senti-lo, perceber seu amor. Somente assim
podemos compreender que a ressurreição do Senhor é muito mais do que um simples
evento histórico: é o próprio sentido da realidade.
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