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sábado, 4 de abril de 2026

SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA

 




Atos 8.5-8.14-17; Salmo 65; 1 Pedro 3,15-18; João 14,15-21

 

Paolo Cugini

 

O Cardeal Matteo Zuppi afirmou, em um encontro sobre a Igreja, que " não nos damos conta de que estamos testemunhando o fim de uma era ". Que era é essa? O sistema eclesiástico que surgiu após o édito de Constantino, em 313 d.C., que iniciou o processo de identificação do cristianismo com a religião do Império Romano, que mais tarde se tornou o Sacro Império Romano. Esse processo consolidou-se em 728 d.C. com a Doação de Sutri, que marcou o início do poder temporal da Igreja, marcando a era do cristianismo. Durante esse período, que durou vários séculos, a Igreja, por meio de suas instituições oficiais, exerceu um poder político prestigioso e uma presença social altamente respeitada. Foi o período em que bispos eram condes e papas estavam no mesmo nível de imperadores, enquanto sacerdotes eram figuras sagradas, dedicados ao sagrado e falavam a língua dos anjos (latim). Essa era, que marcou significativamente o Ocidente, está chegando ao fim. Trata-se, portanto, de pensar em novas formas de vida cristã capazes de responder às novidades do presente. Entretanto, temos a oportunidade de revisitar o Evangelho com mais calma e nos perguntar: afinal, qual era a proposta de Jesus?

" Se me amardes " (João 14:15). O "se" no início da frase recorda um fato fundamental: o que Jesus propõe não pode ser imposto, mas apenas aceito livremente. Essa era a dinâmica das primeiras comunidades cristãs, pelo menos até o século III. Eram os adultos que pediam para fazer parte da comunidade cristã, fascinados por seu modo de vida. O pedido, como sabemos pelas fontes disponíveis, exigia uma jornada de três anos, durante a qual o neófito era introduzido ao conhecimento do Evangelho e dos mistérios cristãos. Era realmente um assunto sério! Hoje, porém, somos todos batizados contra a nossa vontade, e o processo de iniciação cristã, em vez de nos introduzir à vida comunitária, na grande maioria dos casos nos leva para fora dela. As estatísticas mostram, de fato, que após a confirmação, a grande maioria das crianças deixa de frequentar a comunidade. Essa aberração, produzida na era do cristianismo obcecado por números, poderia desaparecer para trazer a jornada cristã de volta à sua dimensão de livre proposta, como era no início.

“ Vocês me amam .” A proposta de Jesus é uma comunidade fundada no amor. Não é coincidência que essas palavras sejam proferidas no contexto da Última Ceia, imediatamente após o lava-pés relatado no Evangelho de João. Jesus não fundou sua comunidade na observância de preceitos, prescrições ou regras morais; ele não baseou a jornada em um sentimento de temor reverencial a ele: “ Não os chamo servos, mas amigos” . Não há procissões a serem cumpridas, nem mesmo devoções e ritos especiais para “merecer” o céu e escapar do medo do inferno. Nada desse aparato religioso está presente na proposta simples e livre de Jesus. Aqueles que desejam fazer parte da comunidade do Senhor são convidados a depor as armas da rivalidade, da competição e da meritocracia, para trilhar o caminho do serviço livre e altruísta aos seus irmãos e irmãs. E não é só isso. Há algo mais profundo nas palavras de Jesus. “Vocês me amam” significa que o fundamento do amor pelos nossos irmãos e irmãs é o amor por Ele. Isso significa que, até que percebamos a Sua presença, uma jornada de fé não pode acontecer. É Ele mesmo quem nos chama a essa relação de amor. A dinâmica de seguir o Senhor parece ser a mesma de um relacionamento amoroso. Afinal, o Evangelho conta a história de homens e mulheres envolvidos no amor do Mestre.

 “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14,16). Nos capítulos 14 a 16 do Evangelho de João, encontramos as reflexões mais profundas dos Evangelhos sobre o tema do Espírito Santo. Nos versículos que comentamos, somos informados de que o Espírito Santo agirá em nós de tal forma que sentiremos a presença do Senhor para sempre. Esta é a nossa consolação: a constante percepção da presença do Mestre. Este aspecto é fundamental, pois revela a essência da caminhada cristã: o encontro com o Senhor, a sensação da sua presença. Esta percepção nos dá a força para colaborar na construção do Reino de Deus, um reino de paz e justiça, bem diferente da lógica desigual do mundo. Não é por acaso que foi o próprio Jesus quem afirmou: “O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Mas vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” ( Jo 14,17). Existe uma contradição radical e irreconciliável entre o mundo e a comunidade cristã, uma contradição de estilos, de modos de ver. Como sabemos, no Evangelho de João, o mundo não se refere ao cosmos, mas à estrutura que se organiza independentemente de Deus, do Evangelho. Acolher o Espírito Santo torna-se, então, fundamental para continuar, em cada momento da vida, a estruturar a própria existência segundo as indicações propostas por Jesus.

Em última análise, percebemos como o cristianismo nos desviou do Caminho indicado pelo Mestre. Encheu nossas vidas de rituais, cultos externos e uma sacralidade opressiva que exige opulência no vestuário e na estrutura; sufocou-nos com preceitos e obrigações, provocando intermináveis ​​sentimentos de culpa e escrúpulos. Tudo isso para quê? Relendo as páginas do Evangelho, percebemos o vazio da proposta que surgiu no cristianismo e a extrema simplicidade da de Jesus, que não pediu nada mais do que uma coisa simples e desarmante: amai-vos uns aos outros como eu vos amei .

 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

INDICAÇÕES DE ESPIRITUALIDADE EVANGELICA




O que acontece ou deveria acontecer com as pessoas que respondem ao chamado de Jesus

Assembleia das comunidades da paróquia são Vicente de Paulo

Compensa Manaus 5-7 janeiro 2024

 

Paolo Cugini

 

 

Entre vós não deve ser assim (Mc 10, 32-45). O seguimento á Jesus deve provocar uma mudança radical nas nossas atitudes humanas. Se até então éramos movidos pelo instinto de sobrevivência que nos leva a proteger a nossa vida e ativar dinâmicas agressivas para como os outros, de agora em diante tudo deve ser diferente.

A vida humana nasce e se desenvolve de forma instintual. É o instinto que sugere ao cérebro o que fazer e, para isso, provoca dinâmicas especificas que condicionam os nossos relacionamentos. Estas dinâmicas movidas pelo instinto de sobrevivência têm como característica proteger a própria vida, defendê-la das ameaças exteriores. Isso, claramente, é positivo, pois sem este instinto a nossa vida estaria em constante perigo.

Qual é o sentido da frase de Jesus? O que ele quis dizer quando disse entre vós não deve ser assim? Assim como? Escutando com atenção o texto Jesus se refere aquelas dinâmicas de rivalidades que se instauraram entre os discípulos. Este é já um dato interessante, porque está dizendo que, apesar destes homens ter aceitado de seguir Jesus, a humanidade deles é ainda condicionada pelo instinto de sobrevivência e não pelo Espírito Santo. Isso quer dizer que não basta participar da Igreja, de culto, atividades para ser uma pessoa nova. Aquilo que importa é sermos disponíveis para a ação do Espírito Santo que modifica a nossa natureza. O problema que o seguimento a Jesus apresenta é este: quero mudar de vida? Quero ser uma pessoa diferente que aprende a olhar as pessoas como irmãos e irmãs e não como rivais?

Para aprofundar a reflexão nos ajuda são Paulo. Segundo ele cada um de nós tem duas possibilidades de estilo de vida. A primeira é a vida segundo a carne. Este estilo de vida é aquilo que nós herdamos e que tem como protagonista o instinto de sobrevivência que ativa dinâmicas de defesa e de conservação. Segundo são Paulo a vida segundo a carne, ou seja, conforme ao instinto, se manifesta em formas externas especificas.

Os que vivem segundo os instintos egoístas inclinam-se para os instintos egoístas; mas os que vivem segundo o Espírito inclinam-se para aquilo que é próprio do Espírito. Os desejos dos instintos egoístas levam à morte, ao passo que os desejos do Espírito levam para a vida e a paz.

De fato, os desejos dos instintos egoístas estão em revolta contra Deus, porque não se submetem à lei de Deus; (Rom 8, 5-7).

As obras dos instintos egoístas são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, discórdia, ciúme, ira, rivalidade, divisão, sectarismo, inveja, bebedeira, orgias e outras coisas semelhantes. Repito o que já disse: os que fazem tais coisas não herdarão o Reino de Deus.

 Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si. Contra essas coisas não existe lei. Os que pertencem a Cristo crucificaram os instintos egoístas junto com suas paixões e desejos. Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também sob o impulso do Espírito. Não sejamos ambiciosos de glória, provocando-nos mutuamente e tendo inveja uns dos outros (Gal 5,16-26).

Interessante é que, na análise de são Paulo, os instintos egoístas afetam a humanidade em três pontos fundamentais da vida: a sexualidade, a religião e as relações humanas. Das 15 especificações de situações provocadas pelos instintos egoístas mais da metade – 8 – se referem as relações interpessoais. Isso é muito significativo, pois está dizendo que o âmbito mais afetado pelos instintos egoístas é mundo das relações sociais, humanas. ´na maneira de nos relacionamos com os irmãos e os irmãos que se percebe quem é o nosso mestre.

O dato importante é que, quem segue a Jesus e se disponibiliza para um caminho de mudança pode passar de uma vida dominada pelo egoísmo para uma vida guiada pelo Espírito Santo. Este é o sentido da vida cristã: um caminho de conversão. Este caminho pode ser sintetizado pelas palavras de Paulo:

Jesus morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por ele morreu e ressuscitou (2 Cor 15).

Esta é a conversão: passar de uma vida egoísta onde penso somente em mi mesmo e não me interessa dos outros, para uma vida para os outros, para Jesus, que se despojou de tudo para nós. Esta é exatamente o trabalho do Espírito, pois esta passagem de estilo de vida não é humana, não é fruto de esforço humano, mas somente pela ação gratuita do Espírito Santo, capaz de transformar o homem, mulher velho em homem, mulher novos.

 

Vocês devem deixar de viver como viviam antes, como homem velho que se corrompe com paixões enganadoras. É preciso que vocês se renovem pela transformação espiritual da inteligência, e se revistam do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vem da verdade (Ef 4, 22-24).

Esta é uma outra maneira de Paulo falar da conversão como passagem de uma situação para outra. Conversão como passagem do homem velho, marcado pelas paixões da carne, movido pelos instintos egoístas, para um homem novo, impelido pela força do Espírito Santo, que o leva a se doar gratuitamente e de forma desinteressada.

Se trata de uma transformação profunda que chega até a modificar a maneira de pensar e de organizar, planejar a própria vida.

Não se amoldem às estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renovação da mente, a fim de distinguir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que é agradável a ele, o que é perfeito (Rom 12,2).

A disponibilidade que nós damos ao Espírito Santo para sermos pessoas novas, se percebe das decisões que tomamos, da maneira de pensar. Esta nova mentalidade, esta nova inteligência transmite os frutos do Espírito Santo: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si (Gal 5,26).

Esta maneira nova de pensar provocada pela assimilação cotidiana do Evangelho é bem expressada também nesta passagem da primeira carta aos Coríntios:

Nós temos o pensamento de Cristo (1 Cor 2, 16). O Espírito Santo trabalha de uma forma que chega até a modificar a estrutura dos nossos pensamentos.

Última passagem. Existe um critério para entender se de verdade estamos num processo de conversão, se estamos deixando agir o Espírito Santo na nossa vida ao ponto de nos tornarmos pessoas novas que pensam até de forma nova? Seguindo sempre as intuições de Paulo este critério se encontra na nossa maneira de liar com o passado. ´isso que Paulo fala na carta aos Filipenses:

Por causa de Cristo, porém, tudo o que eu considerava como lucro, agora considero como perda. E mais ainda: considero tudo uma perda, diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com ele. E isso, não mais mediante uma justiça minha, vinda da Lei, mas com a justiça que vem através da fé em Cristo, aquela justiça que vem de Deus e se apoia sobre a fé. Quero, assim, conhecer a Cristo, o poder da sua ressurreição e a comunhão em seus sofrimentos, para tornar-me semelhante a ele em sua morte, a fim de alcançar, se possível, a ressurreição dos mortos (Fil 3, 7-11).

Quem fica amarrado ao passado e não consegue desgrudar disso, vive ainda conforme ao princípio da carne, conforme os instintos egoístas. O Espírito Santo que entre em nós abrindo a nossa mente nos ajuda a perceber a presença de Cristo na História e nos mostra os novos caminhos que Deus prepara para nós. A inteligência nova provocada pelo Espírito nos ajuda a sermos pessoas de mente aberta, que sabem olhar futuro com o coração cheio de esperança porque sabe muito bem que, apesar das aparências matérias negativas, na realidade o futuro é já marcado pela vitória de Cristo sobre a morte. São coisas novas que o Espírito prepara para nós. O dato interessante, e concluo com isso, é que já o profeta Isaias partilhava esta ideia:

Não fiquem lembrando o passado, não pensem nas coisas antigas; vejam que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem? (Is 43, 18-19).

 

terça-feira, 18 de julho de 2023

XVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

 




Sab 12, 13.16-19; Sal 85; Romanos 8:26-27; Mt 13:24-43

 

Paolo Cugini

 

No domingo passado começamos a ouvir o capítulo 13 do Evangelho de Mateus, que contém o discurso em parábolas, que faz parte da seção: o mistério do Reino dos Céus. Escutamos, portanto, narrações que procuram explicar-nos o conteúdo do anúncio principal de Jesus, ou seja, a revelação do Reino dos Céus, que nada mais é que o modo de vida em conformidade com a vontade de o Senhor. Ao ouvir atentamente o conteúdo destas parábolas, percebemos que são ensinamentos muito concretos, que dizem respeito ao quotidiano das pessoas, daqueles que desejam caminhar nos caminhos do Senhor. Ouçamos, então, o que Jesus tem para nos ensinar hoje.

Mas, enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e retirou-se (Mt 13,25). No campo da nossa vida não estão apenas as sementes que plantamos por nossa própria iniciativa, mas também aquelas que o mundo semeia em nós. Existem algumas ideias que assimilamos desde a infância, que consideramos verdadeiras sem nunca as termos verificado. Na juventude e na vida adulta, uma das tarefas importantes para desenvolver uma mentalidade conforme ao Evangelho é aprofundar o conhecimento das ideias assimiladas para um discernimento constante e compreender o que vem do Evangelho e o que é típico da mentalidade do mundo. É um trabalho lento, mas necessário, até porque aquilo que a cultura semeia em nós foi-se formando ao longo do tempo e, por isso, identifica-se como autêntico. Só para dar um exemplo. Patriarcado, misoginia, homofobia são todos elementos culturais que vêm de longe e que assimilamos inconscientemente desde a infância porque são elementos que fazem parte da nossa cultura. Saber identificá-los, entender até que ponto estão enraizados em nossas escolhas, é um trabalho necessário que exige tempo e dedicação. Podemos dizer que um dos frutos maduros da vida espiritual consiste precisamente na capacidade de se libertar das sementes negativas assimiladas desde a infância, para erradicá-las totalmente: só assim poderemos viver de forma livre e autêntica.

Não aconteça que, ao colher o joio, você também arranque o trigo com ele. Deixem os dois crescerem juntos até a colheita e no tempo da colheita direi aos ceifeiros: Primeiro juntem o joio e amarrem-no em feixes para queimá-lo; põe o trigo no meu celeiro" (Mt 13, 30). Há um segundo nível de ensino da parábola de hoje. Se há sementes negativas que herdamos da cultura em que vivemos e que podemos erradicar, há outras que, crescendo e se desenvolvendo fortemente, não pode ser desarraigado porque correria o risco de desarraigar também os bons. O que Jesus quer nos ensinar com esta segunda passagem da parábola? Ele quer nos dizer que na vida adulta devemos aprender a conviver com o mal. Também este é um dos frutos positivos da vida espiritual. O ensinamento a não responder ao mal é um tema importante da pregação de Jesus, porque ele o retoma também em outros contextos. De fato, no Sermão da Montanha, Jesus diz: Mas eu vos digo que não vos oponhais ao maligno (Mt 5,39) e, logo a seguir, convida-nos a amar e a rezar por aqueles que nos odeiam e nos perseguem (cf. Mt 5:44). De fato, o perigo quando não resistimos ao mal recebido e respondemos com a mesma moeda, consiste em sermos dominados pelo mesmo mal, que entra em nós e nos leva a pensar e fazer coisas que não queremos. não quero. Também Paulo está na mesma linha de pensamento e, na carta aos Romanos, exorta os irmãos e irmãs da comunidade a não se deixarem vencer pelo mal, mas a vencer o mal com o bem (cf. Rm 12,21). Este é um novo ensinamento, que vai contra a mentalidade machista e patriarcal que gera violência e apoia o instinto que nos leva a fazer justiça com as próprias mãos. Não são assim os cristãos que desejam viver na paz do Senhor e comunicá-la ao mundo com um estilo de vida não violento, o mesmo que aprenderam com o Mestre. Até a sabedoria de Israel, algumas décadas antes da vinda de Jesus, havia captado o modo humilde e manso da ação de Deus na história. Ouvimos esta ideia na primeira leitura: Mestre da força, julgas mansamente e governas-nos com muita indulgência (Sb 12,16).

O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza; de fato, não sabemos orar bem, mas o próprio Espírito intercede com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26). A esta altura do discurso poderíamos objetar argumentando que, o que Jesus pede como atitude diante do mal que recebemos é muito difícil, muito além do nosso modo de sentir, muito além da nossa capacidade humana de suportar. Não só isso, mas é contrário à perspectiva cultural em que vivemos, que nos leva a fazer justiça com as próprias mãos. As palavras de Paulo vêm em nosso auxílio na bela catequese sobre o Espírito Santo no capítulo 8 da carta aos Romanos, que estamos ouvindo nestes domingos. Com efeito, Jesus não só nos oferece o seu exemplo, mas dá-nos também o seu Espírito, que age naqueles que o acolhem. Jesus não apenas ensinou a resistir ao mal com o bem, mas também o fez. Quando estava no madeiro da cruz, rezou ao Pai por aqueles que o matavam, pedindo perdão. É o Espírito de Jesus que invocamos, para nos dar força em nossos pensamentos e ações e, assim, permitir que ele estruture um pedaço de humanidade não dominado pela lógica da violência e do ódio, mas pelo amor gratuito de Deus. Quando isso acontece, o mundo percebe a presença de Deus e pode chegar à acreditar nele.

sábado, 27 de agosto de 2022

EVAGELHO DE JOÃO CAPITULO 3

 

 



 

 

Comentário pastoral de pe Paolo Cugini

 


vv. 1-21 O encontro com Nicodemos.

Nicodemos é sem duvida o símbolo da pessoa em busca da verdade que encontrando Jesus, escutando a sua Palavra, assistindo aos seus milagres ficou questionando a sua mesma religião. Nicodemos é o símbolo de qualquer pessoa que se deixa questionar por Jesus.Ele, de fato, procura Jesus de noite. Também este é um dato que deve ser interpretado. A noite é o reino do mal, o momento do dia aonde é mais fácil sermos seduzidos pelo demônio. Nicodemos procura Jesus de noite porque percebe nele a força que pode derrubar o inimigo. É a noite da fé, pois Nicodemos procura o homem cuja atitudes confundiu as próprias crenças, as próprias seguranças.

Perante o questionamento de Nicodemos Jesus responde que precisa renascer do alto, nascer novamente: quer dizer isso? Nascer novamente significa que é impossível acolher Jesus e a novidade do seu Evangelho, do jeito que a gente é. É preciso uma transformação radical que somente o Espírito é capaz de realizar. Para acolher a novidade do Evangelho é preciso uma intervenção do alto. Este é o sentido do Batismo e da vida sacramental em geral.

 

vv. 17: “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”.

 Versículo extremamente esclarecedor sobre a postura que um cristão deve ter no confronto do mundo. Os cristãos não são chamados a jogar pragas contra o mundo, mas a viver de uma forma tal que o mundo se sinta atraído para um caminho de conversão. Deus, através de seu Filho, quer salvar o mundo: esta é a verdade positiva que a Igreja deve anunciar com as palavras e com a vida.

 

vv. 22.36 Ministério de Jesus na Judéia. Último testemunho de João.

                                          

v. 30: “É necessário que ele cresça e eu diminua”:

Deve ser a postura de qualquer cristão que anuncia o Evangelho: ser uma ponte, um meio, um instrumento para que o anuncio de Cristo possa chegar em qualquer lugar e afetar o corações dos homens e das mulheres que encontramos. Quem busca gratificações pessoais na Igreja escolheu o lugar errado. É a humildade o sentimento interior que o Espírito constrói na nossa alma para fazer espaço a Cristo. E esse mesmo sentimento que deve acompanhar a nossa caminhada.

 

v. 31. “Aquele que vem do alto está acima de todos; o que é da terra é terrestre e fala como terrestre”.

Este versículo aponta muito bem o caminho que devemos realizar caminhando atrás de Jesus: sair de uma mentalidade terrena que nos escraviza, para conseguirmos pensar as coisas do alto. Somente acolhendo o Espírito de Cristo poderemos mudar a nossa mentalidade humana, que pensa só nas coisas terrenas, para uma atitude e um pensamento mais evangélico.

 

vv. 35-36. “O Pai ama o Filho e entregou tudo em sua mão. Quem crê no Filho tem a vida eterna”.

Chegamos a Deus passando por Cristo. Todo o tempo que dedicamos a leitura e meditação da Palavra é tempo proveitoso, pois nisso testemunhamos que almejamos a vida eterna.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

ATOS DOS APÓSTOLOS CAPITULO 13

 

 


Estudo bíblico para CEBs

 

Paolo Cugini

1-12. É o Espírito Santo o grande protagonista da formação da Igreja! Sem dúvida a maneira do Espírito Santo se comunicar com Paulo é de forma mediada, ou seja, através de pessoas ou eventos, mas é interessante a consciência que a primeira comunidade tem de que tudo aquilo que está acontecendo é obra do Espírito Santo. É Ele que fala aos discípulos e os envia na missão. É o reconhecimento que atrás de decisões humanas é o Espírito Santo que está agindo. Além disso, é sempre o Espírito Santo que dá a Paulo a coragem de passar a verdade na cara ao Mago Elimas a verdade. “Homem cheio de toda falsidade e toda malicia”. Precisamos estar abertos à ação do Espírito Santo se quisermos que os nossos atos sejam o reflexo da sua presença na nossa vida.

13-44. Aqui encontram mais uma pregação típica da primeira comunidade. Diante dos judeus, Paulo lembra para eles a história da salvação desde a saída do Egito até a morte de Cristo. Interessante que Paulo, nesta pregação, inclui também o trabalho missionário que os apóstolos estão realizando. “Quanto a nós anunciamos a Boa Nova” (13,32). Mais uma vez foi uma pregação que deu certo, pois o texto relata a conversão de muitos judeus.

“Toda a cidade se reuniu para ouvir a Palavra de Deus” (13,44). A maneira nova de Paulo pregar chama a atenção do povo. De maneira se trata? É a capacidade de Paulo de ligar na pregação os fatos do passado com o presente da história, a atualidade. O povo, escutando Paulo, percebe que a vida deles está incluída no plano de Deus, por isso sentem a vontade de escutar a pregação de Paul, pois recebem indicações concretas sobre o sentido da vida.

É claro que o trabalho de Paulo e Barnabé provocou o ciúme dos judeus, os quais fizeram de tudo para atrapalhar o trabalho missionário deles. A Decisão de Paulo de ir para outros lugares, significa que os missionários não são chamados para fazer a cabeça das pessoas e, além do mais, para acolher o Evangelho precisa da liberdade. Ninguém pode se converter com a força. Foi por causa da resistência do judeus que os discípulos perceberam que Deus tinha decidido de espalhar o Evangelho para todos os povos da terra. “Desse modo, a Palavra do Senhor se espalhava por toda a terra” (13,49). Mais uma vez fica claro que os métodos de Deus não são os nossos, pois a Palavra de Deus não se espalhava por causa de um planejamento, mas sim devido às circunstancias hostis que a primeira pregação encontrou no mundo judaico.  

ATOS DOS APÓSTOLOS CAPITULO 11

 

        


Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-18. Pedro explica para os apóstolos de Jerusalém o evento de um pagão (Cornélio) batizado. Na primeira fase do cristianismo, como é possível perceber nestes capítulos iniciais, A Igreja de Jerusalém era a mais importante, também porque foi a primeira a ser fundada. Além disso, os apóstolos moravam lá e toda obra missionária tinha sempre como referencia a Igreja de Jerusalém e os Apóstolos. Não de estranhar o fato que os Apóstolos não tinham ainda entendido que a salvação era oferecida para todos e não apenas para os judeus. De fato, o mesmo Jesus em algumas ocasiões tinha falado que Ele foi enviado antes de tudo pelas ovelhas perdidas da casa de Israel (). É nestes contextos que podemos entender a ação do Espírito Santo, que ajuda os cristãos a entender na plenitude a vontade de Deus que se manifestou nas palavras e nas obras de Jesus. A Palavra de Jesus não é morta, um documento do passado, mas viva e eficaz pela ação do Espírito Santo. “Desceu o Espírito Santo sobre eles, assim como sobre nós no principio” (At 10,15).

Esta descoberta manifestada por obra do Espírito Santo ajuda os Apóstolos e toda a Igreja a entender outra grande questão. Os Hebreus não podia comer certo tipo de carne. O fato que os primeiros cristãos eram todos de origem hebraica, fazia com que trouxessem por dentro do cristianismo muitas doutrinas do hebraísmo, entre elas as prescrições alimentares. “Ao que Deus purificou não chames tu de profano”. Na nova Aliança inaugurada por Cristo nenhum alimento é impuro, por isso podemos comer qualquer coisa sem problemas. É estranho, portanto, que depois de tantos séculos tem ainda pessoas que se dizem cristão, que leram estes passos bíblicos e vivem com a proibição de alguns alimentos como a carne de porco. At 11 sobre este assunto é bem claro.

19-26. A comunidade de Antioquia foi fundada com o pessoal que fugiu da perseguição começada na época do martírio de Estevão (Capitulo 7). Podemos mesmo afirmar que não perderam tempo! “Falaram também aos gregos anunciando-lhes a Boa nova de Jesus”. A pregação da Palavra provoca a conversão de muitas pessoas. A Igreja de Jerusalém, que como vimos nesta primeira fase era o centro da vida da Igreja enviou Barnabé para fortalecer o trabalho missionário e Barnabé foi atrás de Paulo em Tarso. É fascinante escutar o testemunho das premerias comunidades cristãs e dos primeiros missionários, que com muito amor e zelo se dedicavam ao anuncio do Evangelho.

27-30. O profetismo é uma característica das primeiras comunidades cristãs. Estes profetas, assim como os profetas do Antigo Testamento, tem um cunho carismático, falam em nome de Deus sob a ação do Espírito Santo, ajudam o povo a interpretar os sinais dos tempos. Neste caso especifico o profeta Ágado alerta sobre uma iminente carestia. Nestes versículos aparece pela primeira vez a palavra: presbíteros, que em grego que dizer anciãos. Estes anciãos são os responsáveis das comunidades cristãs. A função do padre na comunidade é exatamente esta: ser o ancião (presbítero) na comunidade, não no sentido biográfico (idade), mas sim espiritual, ou seja aquele que recebeu o mandato de orientar espiritualmente a comunidade. Quando os nossos irmãos evangélicos dizem que a palavra padre não existe na bíblia é porque não conhecem o grego e nem a história da Igreja. Bastaria somente ler este versículo.

ATOS DOS APÓSTOLOS CAPITULO 8

 



Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-3. Interessante observar que a expansão da Igreja não acontece por causa de um planejamento bem estudado, mas por causa da perseguição. A Igreja se estendeu pelas regiões da Judeia e da Samaria por causa da perseguição contra a Igreja de Jerusalém. Esta é a assim chamada a segunda etapa da expansão da Igreja (cf.At  1,8).


4-8. “Entretanto os que haviam sido dispersos iam de lugar em lugar, anunciando a Palavra da Boa Nova”. Os primeiros cristãos transformavam situações humanamente negativas, como uma perseguição, em ocasiões para pregar o Evangelho. Os sinais que os discípulos realizavam se tornavam instrumento de conversão, porque davam valor às Palavras que pregavam. Sem duvida hoje não somos chamados a realizar este tipo de sinais, como cura e milagre, mas outros sinais como a comunhão na comunidade, a partilha com os mais pobres, a gratuidade no nosso serviço. São estes os sinais que rendem visível a Verdade da Palavra que estamos anunciando.

9-25. O caso de Simão o mago narrado neste trecho mostra a realidade religiosa que o cristianismo das origens teve que enfrentar. A magia era o grande cerne da religião, a capacidade de realizar prodígios era o sinal da verdade dos deuses (religião politeísta). A força do Espírito Santo, que na primeira fase da Igreja se manifestou também com sinais e milagres prodigiosos realizados pelos apóstolos e discípulos, provocou rapidamente o fim das religiões milagreiras. O exemplo de Simão mostra também até onde chegava a ignorância religiosa. Foi exatamente a partir deste episodio, aonde Simão tenta comprar com dinheiro o Espirito Santo, que nasceu a palavra simonia, para apontar o comercio das coisas santas que se difundiu no Ocidente medieval na época da construção da igreja de São Pedro em Roma. O episodio nos ensina que os dons de Deus são gratuitos e, para recebê-los, precisamos somente acolhe-los com um caminho de conversão e humildade.

26-35. Filipe, um dos diáconos que foi escolhido para servir as mesas dos pobres (capitulo 6) tinha também o dom da Palavra como Estevão (c. 7). Impelido pelo Espírito Santo se aproximou de um estrangeiro que estava lendo um trecho de Isaias, o capitulo 53, que fala do servo de Deus, mas não estava entendendo nada. “Entende o que lês? Como posso entender se ninguém me explicar?”. É esta a função da uma comunidade: explicar a Palavra de Deus aos fieis. “Abrindo então a boca e partindo deste trecho da escritura Filipe anunciou-lhe a boa Nova de Jesus”. É uma afirmação rica de sentido pela nossa caminhada. Talvez alguém pode duvidar sobre o sentido do Estudo Bíblico que estamos realizando. Alguém pode pensar que seja invenção do padre. Não, não é invenção do padre, é uma necessidade da Igreja, aliás é exatamente aquilo que a Igreja deve fazer: explicar a Sagrada Escritura. É claro que para fazer isso exige conhecimento. Por isso é bom que dentro da comunidade alguém desperte o interesse pelo estudo mais aprofundado da Palavra de Deus para ajudar os outros a entender melhor. O texto que acabamos de ler mostra que as paginas do Antigo Testamento são importante para aprofundar o conhecimento de Jesus, pois o Filho de Deus não veio a toa, mas dentro de um projeto divino que iniciou muitos séculos antes.

36-40. O Batismo é realizado depois de Filipe ter explicado a Sagrada Escritura para o estrangeiro. Isso quer dizer que o Batismo não é apenas um rito formal, mas sim a porta de entrada de uma caminhada de fé à qual devo aderir com todas as minhas forças e, para isso, devo compreender. Por isso a Igreja exige para batizar crianças a participação dos pais e dos padrinhos na caminhada da Igreja, pressupondo neles um certo conhecimento de Jesus e da vivencia na Igreja.

 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Domingo Pentecostes/A






( At 2, 1-11; Sal 103; 1 Cor 12, 3b-7.12-13; Jo 20, 19-23)

Paolo Cugini

1. Hoje é o dia do aniversario da Igreja, pois a Igreja nasceu no dia do Pentecostes, quando o Senhor mandou o Seu Espírito sobre os discípulos no cenáculo em Jerusalém. Esta é já uma primeira indicação extremamente importante, pois nos revela que a Igreja não é invenção dos homens, mas sim obra de Deus. A Igreja é assim constituída de pessoas que atraída pelo Senhor, instruídas pela sua Palavra aceitam de percorrer a história se deixando transformar pela ação do Espírito Santo. Sem duvida a Igreja é feita de pessoas em carne e osso, é feita de gente: tem uma estrutura física, humana, visível. Aquilo que, porém, realiza não é humano, mas sim divino. A obra que a Igreja realiza ao longo dos séculos é fruto da ação do Espírito Santo nas pessoas que acreditam no Senhor Jesus. É verdade que, apesar de tanto tempo, a história parece ser dominada pelo espírito do mal e que também a Igreja e varia circunstâncias se deixou dominar pelas forças do inimigo. É também verdade, porém, que por dentro da história, o Espírito Santo desde a vinda do Senhor Jesus na terra, está preparando o Reino de Deu, que é um reino de paz, de justiça e de amor. Esta é uma verdade por assim dizer bíblica, uma verdade que somente as pessoas espirituais podem enxergar, somente as pessoas que aderiram ao Evangelho de Jesus podem vislumbrar. Se tudo isso é verdade, podemos nos perguntar: como está se manifestando este Reino de Deus que o Espírito Santo está moldando desde o dia de Pentecostes? Quais são os sinais espiritualmente visíveis da sua presença?

2. “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12, 4).
É esta uma idéia que Paulo repete muitas vezes nas suas cartas (cf. Ef 2). O efeito do Espírito Santo nas pessoas que o acolhem é dúplice. Em primeiro lugar, o espírito identifica as pessoas, ou seja, ajuda as pessoas a descobrirem a própria especifica vocação. Esta é uma marca claríssima da presença do Espírito Santo na História: ajudam as pessoas a perceberem o sentido da própria vida, qual é o projeto do Pai para elas, para depois ficarem firmes e fieis a esta vocação. Num mundo desnorteado, que corre atrás de quem grita mais alto e se perde, assim, nas ilusões que o mundo oferece, encontrar pessoas bem centradas naquilo que é a própria vida, a própria vocação é ao mesmo tempo algo de raro e, também, uma grande alegria. Aquilo que o Espírito Santo desvende nas pessoas não é apenas uma tarefa para ser realizada, mas sim o sentido mesmo da vida, aquele sentido que enche a alma, que produz paz e serenidade na pessoa que o acolhe. É isso que Jesus anuncia logo após da sua ressurreição, aparecendo aos discípulos e soprando o Espírito sobre eles: a paz esteja convosco (cf Jo 20, 19). É o que esta paz se não a certeza que nada mais precisa correr atrás de algo, que Cristo mesmo nos oferece, ou seja, o seu Espírito de vida! Na perspectiva do Evangelho a paz não é um sentimento passageiro, que vem e vá embora, mas é o dato permanente que marca o nosso relacionamento com o Senhor. De fato, se Cristo é vivo, se nós temos o seu Espírito, porque temer? Se o Senhor da vida está no meio de nós, porque correr atrás de outros falsos senhores que não tem nada pra nos oferecer, a não serem paliativos inúteis e enganadores? Afinal de conta, se com o seu Espírito Cristo é conosco, quem estará contra de nós? (cf. Rom 8, 31). Este é então, o primeiro dato espiritual fundamental da ação do Espírito Santo na História: a identificação das pessoas, a libertação do caos em que reina o mundo das trevas e a certeza que Cristo não nos abandona mas caminha conosco. Do outro lado o Espírito, além de nos oferecer uma identidade nos coloca numa vida de comunhão, nos libertando da triste solidão do mundo. Quem vive do Espírito Santo vive no amor de Deus e, o amor, é comunhão. Se no muno cada um queima o filme do outro pra se promover, não é assim na Igreja, pois é um só Espírito que age em todos para que todos sejam um (cf. Jo 17). É verdade que amiúde também entre os membros da Igreja acontece aquilo que assistimos no mundo, ou seja, brigas, rixas, desavenças, rivalidade. Só que estas situações não devem ser tomadas como pretexto para nos afastarmos da Igreja, mas sim devem ser utilizadas para crescer junto com a comunidade, na superação daquela parte de mundo que ainda nos domina. Do outro lado, se pensarmos atentamente, entre os mesmos discípulos de Jesus existiam rivalidades, ao ponto que Jesus teve que entrar no meio da polemica (cf. Mt 20, 24-28) e lembrar para todos que os discípulos não podem agir e pensar com pensa e age o mundo, ou seja, se deixando levar pelo egoísmo e pela ganância, mas sim o discípulo do Senhor deve aprender a deixar-se dirigir pelo Espírito do amor. Neste sentido podemos dizer que toda vez que nos membros da Igreja, em nós mesmos, percebemos algo de errado, um excessivo apego as coisas do mundo, um instinto egoísta exacerbado, isso não que dizer que o Espírito não age, que o Espírito não existe, mas que ainda precisamos de trabalhar bastante sobre a nossa humanidade, para que o Espírito Santo possa encontrar espaço pela sua ação santificadora.

3. “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados serão perdoados” (Jo 20, 22-23).
Talvez seja este o sinal mais profundo da presença do Espírito Santo na história, ou seja, a capacidade de perdoar. Sem duvida o poder de perdoar os pecados Cristo o entregou para os discípulos e, então a Igreja, mas pelo fato de pertencermos á Igreja através do Batismo este poder, de alguma maneira, é também nosso. O cristão, pelo fato de pertencer ao Corpo de Cristo e de ter recebido o poder de perdoar os pecados, é chamado a viver no mundo o perdão do Senhor. É sintomático que a primeira palavra que o Senhor soltou logo após da ressurreição, no primeiro encontro dos discípulos, foi a palavra “perdão”. Além do mais “perdão” é a primeira palavra pronunciada por Jesus depois de ter soprado o Espírito sobre os discípulos. Perdoar os irmãos, neste sentido e pela força que este mandamento recebe no contexto que acabamos de apresentar, é sem duvida algo de divino, que o homem não consegue sozinho realizar. De fato, se pararmos um pouco para pensar, percebemos imediatamente que os maiores problemas que encontramos nos relacionamentos com as pessoas são todos ligado a nossa incapacidade de perdoar, a nossa incapacidade de dar o braço a torcer. Porque, então, é tão importante perdoar os irmãos e as irmãs? Porque á luz do Evangelho, toda vez que perdoamos alguém permitimos ao Espírito Santo de entrar na história e desenvolver a sua força criadora.

De uma certa forma, esta solenidade de Pentecostes e esta pagina do Evangelho nos ensina que ser Igreja não é tão complicado assim como em aparência parece. Basta somente um pouco de humildade, um pouco mais de simplicidade, um pouco de docilidade á ação do Espírito Santo para que Cristo possa reconciliar o mundo a sim, possa moldar a humanidade toda para que assuma a forma da humanidade de Cristo. É isso que o Espírito Santo quer realizar: transformar tudo em Cristo. A nossa capacidade ou incapacidade de perdoar os irmãos e as irmãs torna-se a medida da realização deste projeto ambicioso do Pai.


CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 8





Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-12. O capitulo anterior deixou em suspenso uma pergunta: será que é possível sair das augustas amarras do pecado, que não permite ao homem de realizar o bem que conhece? O capitulo 8 é a resposta a este problema. Segundo são Paulo Deus quis esmagar o pecado no seu mesmo terreno que é a carne humana. De fato, enviou o seu Filho Jesus numa carne como a nossa em vista do pecado, ou seja, para destruir o pecado. Como é que Jesus conseguiu esta façanha? Com uma vida de perfeita obediência ao Pai. Em Jesus o amor ao Pai foi maior do medo da morte. Jesus é o único pedacinho de humanidade que o pecado não conseguiu dobrar. Por isso Deus o Ressuscitou e enviou o Seu Espírito no meio de nós e dentro de nós, para que todos aqueles que acreditam no Senhor e acolhem gratuitamente o dom do Seu Espírito se tornem também fortes e firmes na luta contra o pecado. Por isso Paulo afirma que uma vez que acolhemos o Espirito do Senhor não somos mais vencidos dos instintos egoístas, mas vivemos livres para servir unicamente a Deus.

14-17. O Espírito Santo que recebemos nos sacramento produz em nós a mesma humanidade que era de Jesus e, sobretudo, a mesma atitude que Jesus tinha com Deus: a filiação. O Espírito Santo nos torna Filhos de Deus e, por isso, herdeiros da Gloria divina.

18-27. Na caminhada de fé precisamos aprender aquilo que o mesmo Paulo aprendeu ao longo da sua caminhada, ou seja, que os momento de sofrimentos devem ser colocados no horizonte maior da salvação. Só assim conseguiremos entender que os sofrimentos presentes não são comparáveis à gloria futura que será doada a todos aqueles que seguirão o Senhor nesta vida. Além disso, a mesma criação sofre porque participa da vida que vem de Deus e ela também foi afetada pela historia de pecado que caracteriza a vida humana. É no sofrimento que esperamos a libertação definitiva do pecado para podermos viver para sempre em Deus e Com Ele. Em toda esta história o Espirito Santo tem a grande tarefa de nos auxiliar, intercedendo por nós.

28-30. São versículos importantes no debate ecumênico, ou seja, no dialogo com as igrejas evangélicas. Problema: Deus predestinou alguém para a salvação deixando os outros a se perderem? Uma leitura superficial deste três versículos poderia nos levar neste caminho. A chave de intepretação é o versículo 29. Quem são “aqueles que antecipadamente conheceu”? Sem dúvida se trata de todos os homes e as mulheres, pois não pode existir nada que possa ficar fora do horizonte do conhecimento de Deus. Se assim estão as coisas quando Paulo fala de predestinados para se tornarem a imagem do Filho está falando do chamado universal à salvação. É de excluir de forma radical a intepretação excludente da ideia de predestinação, a qual declara que Deus predestinou somente alguns para a salvação.

31-39. É sem duvida um dos hinos mais lindos de todo o Novo Testamento. Paulo, num momento de grande entusiasmo espiritual, expressa toda a sua confiança no Senhor Jesus do qual ele teve uma experiência pessoal. Por isso ele afirma que nada poderá nos separar do amor de Deus. Que esta confiança no Senhor possa também ser a nossa!


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Cristo rei do universo




Paolo Cugini

1.É o ultimo domingo do ano litúrgico e a mesma liturgia nos apresenta para a nossa reflexão um tema um pouco estranho, o tema do Cristo Rei do universo. É um tema estranho porque de um lado somos acostumados a identificar a figura do Rei com o poder, a riqueza, a arrogância e, do outro lado, a idéia que nós temos de Jesus é de uma pessoa humilde, simples. Então como é que se juntam estas duas idéias opostas? Em que sentido Jesus é Rei?

2. Um rei que se respeite deve ter um pedaço de chão para exercer o seu poder. Jesus, perante Pilatos, declara que ele tem um reino, só que este reino não é deste mundo. Quer dizer isso? Qual é o reino de Deus?
O mundo, na perspectiva do evangelho de João, não é o cosmo, a terra, mas é tudo aquilo que o homem constrói independentemente de Deus, é então aquela realidade fruto do egoísmo e do orgulho humano. Sobre os nossos projetos humanos feitos de rivalidades, inimizades, rixas, Cristo não tem poder, ou seja, não é Ele que manda, mas um outro.
Este é o segundo dato que aparece entre as linhas do Evangelho de hoje. Se Cristo é Rei significa que Ele domina sobre uma realidade, sobre um pedaço de humanidade. Isto quer dizer que o homem, a estrutura humana é feita para pertencer á alguém. Se não pertencemos ao reino de Deus pertencemos ao mundo: não tem escolha, alternativa. Não existe um terceiro espaço, um terceiro rei. Na perspectiva bíblica existe o Rei do universo, rei do reino do Céu e, do outro lado, existe o príncipe deste mundo, que reina sobre o mundo, ou seja, domina toda aquela humanidade, aquela realidade que os homens, as mulheres construam independentemente de Deus, como se Deus não existisse. Se na nossa vida corriqueira não estamos obedecendo a Deus, estamos nos entregando ao príncipe deste mundo.
A condição de vida no mundo é a escravidão, enquanto no Reino de Deus é a liberdade. Quem vive no mundo, quem se deixa guiar pelo príncipe deste mundo vive na escravidão, escravo das paixões, dos instintos, dos desejos humanos, desejo de poder, de dinheiro, de sexo (cf. 1Jo 2-3). Pelo contrario, as pessoas que vivem no Reino do Céu vivem livres, pois com a ajuda de Deus, da força e do poder de Deus que recebemos nos sacramentos, conseguimos dominar as paixões, os instintos, os desejos da carne. Esta solenidade de Cristo Rei do Universo nos lembra que a vida cristã é uma continua caminhada, uma romaria para passarmos deste mundo para o reino de Deus (cf Jô, 13,1-2), do domínio do príncipe deste mundo para o poder de Deus. Quem se conhece um pouco e está tomando a serio a própria vida, sabe muito bem que, esta romaria, não é nada fácil, mas muito desgastante e cheia de armadilhas, de recuos, de decepções, de momento de grande desanimo. Quem vive estes sentimentos é no bom caminho, pois quer dizer que está se esforçando para que o Reino de Deus possa ser a sua moradia constante. Pior é encontrar cristãos que brincam com a própria vida de fé. O cristão mais autentico, que vive com seriedade o próprio relacionamento com o Senhor, que deseja se tornar uma pessoa livre, é destinado a sofrer um bocado.

3. Existe somente um pedacinho de humanidade que o pecado não estragou que o diabo não afetou; este pedacinho de humanidade é Cristo, que até a morte ficou fiel e obediente a seu Pai. É por isso que estamos aqui adorando o Rei dos reis, O rei do universo, que testemunhou a Verdade até as extremas conseqüências. E isso deve nos ajudar na reflexão. Se Cristo faleceu, se Ele foi morto, pendurado á cruz é porque o mundo não quer escutar a Verdade. O mundo é tão mergulhado na mentira, é tão acostumado a comer mentiras, que não gosta da Verdade, não quer escutá-la. Cristo é o Rei do universo, porque testemunhou a verdade até o fim, encarando os algozes sem recuar, enfrentando a estupidez do mundo covarde e estúpido incapaz de realizar um gesto autentico.

4.  Cristo é Rei do Universo não porque se apoderou do poder com alguma artimanha, mas o recebeu. “Toda autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra” (Mt 28,18).
É o mesmo dado que ouvimos na primeira leitura de hoje. Jesus não tomou o poder, não se apoderou do Reino dos Céus, mas foi o mesmo Deus que o entregou para Ele. Isto vale também para nós. As coisas de deus não podemos comprá-las, mas somente acolhe-las, pois são fruto do amor e da misericórdia de Deus. Este ultimo domingo do ano litúrgico deveria nos ajudar a vasculhar na nossa vida de fé, na nossa caminhada de Igreja, se nos aproximamos a Deus com a arrogância  do mundo, querendo ser os donos do pedaço, ou, pelo contrario, com aquela humildade e simplicidade que caracterizou a vida de Jesus, que se entregou totalmente, com uma vida de doação e foi por isso que recebeu do Pai a vida eterna.

5. Nessa altura poderíamos nos perguntar: quais são os sinais que O Espírito Santo produz na nossa vida como marco evidente que pertencemos a Cristo e fazemos parte do Seu Reino?
O primeiro o encontramos escrito na primeira leitura, aonde se fala que o Reino de Deus é eterno. Quem participa da eternidade do reino de Deus, não desiste nunca perante os próprios compromissos, mas torna-se fiel até a morte, sem medo de enfrentar qualquer dificuldade, obstáculo, perseguição.
O segundo sinal é apontado na segunda leitura aonde se diz que o Senhor doou o seu sangue para nos libertar. Quem pertence ao reino de Deus torna-se uma pessoa livre, que não se deixa arrastar pelas paixões, os instintos, mas aprende a dominá-los e a dirigi-los aonde ele quiser.
O ultimo sinal da nossa pertença ao Reino de Deus é o mesmo Senhor que o revela. De fato, no final do Evangelho que acabamos de escutar, Jesus nos lembra que “ Que testemunha a verdade escuta a minha voz”. Um sinal claríssimo da pertença ao Senhor é o desejo de escutar a sua voz para que a própria vida se torne uma resposta ao Senhor.



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

ATOS DOS APOSTOLOS CAPITULO 5




ESTUDO BÍBLICO para CEBs

 Paolo Cugini
1-11. Este trecho nos mostra que apesar de tudo, na vida linda das primeiras comunidades cristã aconteciam situações constrangedoras demonstrando que a conversão é um processo lento e incontrolável. É necessário vigiar para que no nosso coração não se formem pensamento contrários ao pensamento de Deus, vigiar para que a nossa vida não seja de fachada, mas real e autentica.

12-16. Este trecho é mais um quadro da vivencia bonita na comunidade cristã. A característica da primeira comunidade era a comunhão, a unidade, que chamava muito atenção das pessoas ao ponto de desejar pertencer a esta comunidade. Se as nossas comunidades fossem mais unidas, talvez teriam mais pessoas aderindo a elas.

17-21. A ação evangelizadora dos discípulos desperta o interesse entre alguns e inveja entre outros. Interessantes são as palavras do anjo que exorta os apóstolos à anunciar com ousadia o Evangelho. É isso que precisamos: de cristãos ousados, que não tem medo de anunciar o Evangelho não só com as palavras, mas sim também com a vida.

22-33. É impressionante a ousadia de Pedro que não perde a ocasião, apesar de ser acorrentado, de botar moral nos chefes religiosos daquele tempo e de anunciar o Evangelho de Jesus. “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens”. Sem duvida aquela de Pedro não é uma obediência passiva, de subalterno, mas sim fruto de um relacionamento de amor para com o Senhor. Pedro tem consciência que a Vida verdadeira pertence a Cristo, o Senhor Jesus que ele encontrou, com o qual viveu um período e que depois viu ressuscitado. Por isso depois de ter recebido o Espírito Santo não consegue sossegar, mas em todo momento e em todas as circunstâncias, também as mais difíceis anuncia o Evangelho.

34-42. As palavras de Gamaliel, doutor da lei, tem um ensinamento muito grande que vale também para nós. Tudo aquilo que vem de Deus o homem não pode fazer nada para contrastar. Este é o ensinamento do sábio Gamaliel perante os acontecimentos que estavam tirando o sono de muitos em Israel por causa da pregação e dos sinais que os apóstolos faziam. Isso vale também para os dias de hoje. Muitas vezes agimos como se quiséssemos controlar a força de Deus, estranhando com qualquer novidade que acontece na comunidade. Os apóstolos se alegraram por ter apanhado por causa do anuncio do Senhor: é sem duvida um dato impressionante que merece toda nossa reflexão. Quantas vezes não temos a disponibilidade para fazer nada na comunidade enquanto os apóstolos apanhavam por causa do anúncio do Evangelho. Como somos fracos e sem postura! Pedimos a intercessão dos apóstolos para termos mais coragem de testemunhar o Evangelho de Jesus.