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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A Noite dos caminhos perdidos

 




Paulo Cugini

 

Quem comigo não ajunta, espalha (Lucas 11:23).

À noite, as ruas mudam de caráter. Aquelas percorridas mil vezes de repente parecem mais estreitas, as paredes tornam-se incertas, os cruzamentos projetam uma sombra extra. Até o silêncio, que durante o dia parece mera ausência de som, adquire uma voz. Talvez seja por isso que o deslumbramento esteja tão intimamente ligado à noite: quando a luz recua, os contornos familiares desaparecem e somos forçados a nos perguntar não apenas onde estamos, mas também para onde realmente estamos indo.

Dispersar rima com perder. Não é apenas um jogo de palavras: é uma profunda afinidade. Muitas vezes nos perdemos porque desperdiçamos algo ao longo do caminho — atenção, desejo, tempo, coragem — ou porque nos dispersamos em tantas direções que já não reconhecemos o caminho que antes chamávamos de nosso. Mas o oposto também pode acontecer: nos perdemos justamente quando seguimos obstinadamente um único caminho, incapazes de perceber que a vida ao nosso redor já mudou sua paisagem.

Quase sempre partimos com um mapa. Pensamos, calculamos, definimos etapas e distâncias; nomeamos destinos e marcamos datas de chegada. É um gesto humano e necessário: planejar significa moldar o futuro, torná-lo, ao menos por um instante, habitável. Mas nenhum mapa contém o vento que soprará amanhã, o encontro que nos deterá, a porta que se fechará, o chamado repentino de uma paixão. Variações externas — a história, as crises, as transformações do mundo — se entrelaçam com as internas: os sentimentos mudam, os desejos amadurecem, o que antes parecia indispensável perde a intensidade. No momento da partida, não podemos prever a pessoa em que nos tornaremos ao longo do caminho.

É por isso que é muito mais fácil se perder do que estamos dispostos a admitir. Basta uma pequena mudança: uma escolha adiada, uma lealdade prolongada além do tempo, um medo confundido com prudência. Às vezes, só percebemos o quão perdidos estamos anos depois, quando a noite já está profunda e o caminho familiar desapareceu. O sofrimento surge, então, não apenas da incerteza, mas da ideia de que a vida deveria ter seguido uma linha reta: limpa, coerente e progressiva. Cada desvio parece uma falha; cada pausa, um fracasso.

Mas a linha reta é uma das invenções mais persuasivas com as quais tentamos domar a existência. A vida real se desenrola por meio de curvas, retornos, esperas, aberturas repentinas. Todo plano, por mais cuidadoso que seja, é uma interpretação: seleciona alguns elementos, exclui outros e força o que é possível dentro dos limites do nosso ponto de vista. Perder-se mina esses limites. Dói, porque nos expõe; mas, precisamente no ato de exposição, restaura uma verdade mais ampla. Mostra-nos que o mundo não coincide com as nossas expectativas e que nós mesmos somos mais vastos do que a identidade com a qual começamos.

Existem caminhos que se revelam apenas àqueles que se perderam. Na escuridão, longe das placas de sinalização familiares, encontramos habilidades que desconhecíamos, perguntas que mantivemos em silêncio, pessoas e paisagens que nenhum itinerário teria previsto. A desorientação pode, assim, tornar-se uma dádiva cruel: não elimina o cansaço, mas o transforma em conhecimento. Ensina-nos que nem tudo que interrompe a jornada a trai, e que alguns desvios, mesmo que nos afastem do destino imaginado, nos aproximam de uma vida mais autêntica.

Precisamos, portanto, da coragem de redesenhar o mapa sem desprezar o anterior. As conquistas nascidas em dias caóticos não são acidentes a serem apagados, mas sinais a serem levados para o novo caminho. Redesenhar não significa abandonar todos os projetos; significa planejar com humildade, deixando margens em branco para o que ainda não sabemos. Significa aceitar que uma direção pode ser autêntica mesmo sem ser definitiva, e que mudar de rumo não equivale necessariamente a trair a si mesmo.

O importante é que a perda não se torne permanente. Depois de anos de peregrinação, deve haver, em algum lugar, a força para refazer os passos — não para fingir que nada aconteceu, mas para reconhecer o ponto onde a jornada pode recomeçar. Retorna-se cansado, talvez mais lento, certamente diferente. A noite ainda não acabou, mas o olhar aprendeu a distinguir formas que antes ignorava. Ao longe, talvez, ainda não haja amanhecer; mas há uma luz tênue, suficiente para dar o próximo passo. E é nesse passo hesitante, porém consciente, que a perda deixa de ser mera perda e se transforma em experiência, memória, riqueza.

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A força para seguir em frente e a coragem para parar

 




 

Paulo Cugini

 

Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus (Lucas 9:62).

Chega um momento na vida em que o caminho que escolhemos deixa de ser apenas uma direção e se torna uma pergunta. Escolhemos um caminho, muitas vezes nos anos intensos da juventude, quando o futuro parecia vasto e nossa força de vontade era capaz de transformar cada obstáculo em uma promessa. Desde então, continuamos avançando, convencidos de que ser fiel a nós mesmos significa nunca olhar para trás. No entanto, avançar não significa correr sem parar. A verdadeira perseverança não é obstinação cega: é a capacidade de perseverar em direção a um objetivo, questionando ocasionalmente o significado de nossos passos.

Parar, portanto, não é uma traição à jornada. É um gesto de clareza. No silêncio de uma pausa, podemos avaliar a situação, reunir nossas forças dispersas, reconhecer nosso cansaço e regenerar o que foi consumido dentro de nós. Podemos nos perguntar o que estamos fazendo, por que trabalhamos, o que realmente buscamos e qual chama continua a nos inflamar. Essas perguntas são apenas aparentemente simples: se respondidas com sinceridade, elas separam o essencial daquilo que se tornou hábito, medo ou expectativas alheias. Este é um dos significados mais profundos da espiritualidade: criar um espaço interior no qual a vida possa ser vista com maior verdade. A espiritualidade não se esquiva da responsabilidade nem elimina as dificuldades; pelo contrário, oferece uma luz para nos guiar por elas. Quando o caminho se torna incerto, ela nos ajuda a distinguir a voz da consciência do ruído das pressões externas, o desejo autêntico do impulso do momento, a prudência do medo. Ela não fornece mapas infalíveis, mas torna o olhar de quem caminha mais alerta.

Ao longo da jornada, também encontramos pessoas capazes de nos confundir, desanimar ou ferir. Algumas entram em nossas vidas, trazendo inquietação, alimentando dúvidas, criando obstáculos onde buscávamos apoio. Nem sempre podemos evitá-las, e nem sempre compreendemos imediatamente o impacto de sua presença. Contudo, podemos aprender a reconhecer o que nos empobrece, a estabelecer limites e a não entregar as rédeas de nossas decisões a outros. A espiritualidade também ensina isso: não responder à escuridão com mais escuridão, mas proteger nosso próprio caminho sem perder nossa humanidade.

A jornada é longa e, às vezes, nos perdemos. Isso acontece porque as circunstâncias mudam, porque nós mudamos ou porque surge o desejo de explorar caminhos alternativos. Um desvio pode se revelar um erro, mas também pode revelar uma paisagem que a rota principal não nos permitiria explorar. Nem tudo que interrompe a linearidade da nossa história é tempo perdido. Até mesmo a confusão, se encarada com consciência, pode se tornar um espaço de aprendizado: ela nos força a reconsiderar nossas coordenadas, a entender quais sinais ignoramos e quais partes de nós mesmos finalmente exigem ser ouvidas. Pausar também significa nos dar tempo para curar as feridas deixadas por más escolhas. Não para nos entregarmos ao arrependimento, mas para compreendermos. Cada erro traz consigo uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma oportunidade: a de melhor compreendermos nossas limitações, as ilusões que nos guiaram e as necessidades que não conseguimos nomear. As feridas não devem ser negadas nem exibidas como condenações definitivas. Devem ser ouvidas, pois podem se transformar em sabedoria, equilíbrio e compaixão.

Levantar-se após uma queda não significa retornar ao mesmo ponto de partida. Significa retomar a jornada com uma perspectiva mais profunda. Seguimos em frente, levando conosco o que aprendemos, permitindo que os erros agucem nosso discernimento em vez de arrefecerem nosso desejo. A determinação, portanto, não nasce da ilusão de nunca mais cometer erros, mas da confiança de que podemos escolher melhor, corrigir nosso rumo e permanecer fiéis ao bem reconhecido.

Assim, a jornada continua. Não como uma fuga do passado, mas como um movimento consciente em direção ao que ainda pode nascer. Cada pausa se torna um amanhecer: um momento em que a luz retorna lentamente, redesenha os contornos das coisas e restaura o caminho ao seu horizonte. Olhar para frente, então, não significa esquecer o que aconteceu. Significa carregá-lo consigo de uma nova forma, mais livre e verdadeira, e partir novamente, sabendo que até o menor passo, quando guiado por um propósito, pode levar longe.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

RETIRO ESPIRITUAL DE QUARESMA (JOVENS)







Tema: Escolhes, pois, a vida (Dt 30,19)
A vida como saída da terra do pecado, caminhando no deserto rumo a terra prometida



 Paolo Cugini



Primeira meditação: sair de que Egito?

O tempo de quaresma, de um ponto de vista espiritual, é um caminho de saída do mundo do pecado rumo á uma vida mais autentica, aquela vida que se manifestou em Cristo e que recebemos nos sacramentos. Não é um caso que o livro por antonomásia deste período litúrgico seja o Êxodo, que narra a historia da saída do povo de Israel do Egito para a terra prometida. Neste caminho, que é ao mesmo tempo uma fuga, o povo de Israel passa paro o deserto. Nesta primeira reflexão fitaremos a nossa atenção sobre a situação do povo de Israel no Egito.
O Egito é o que? Folhando as paginas da Bíblia percebe-se que o Egito é considerada ao mesmo tempo uma tentação e uma queda constante do povo de Israel, pelo menos até quando o Egito foi uma potencia, que podia oferecer segurança para os povos vizinhos[1].

“Ai dos que descem ao Egito,
à busca do socorro.
Procuram apoiar-se em cavalos,
Põem a sua confiança nos carros, porque são muitos,
E nos cavaleiros, porque são de grande força,
Mas não voltam os olhares para o Santo de Israel,
Não buscam a Iahweh. (Is 31, 1).

Este é o problema espiritual de base: aonde Israel busca as próprias seguranças? É um problema central porque o âmago da vida de Israel é a Aliança com Iahweh, realizada na época de Abraão e renovada varias vezes. Uma aliança é um pacto entre dois parceiros que exige ser respeitado. Ainda mais uma Aliança como aquela que Israel realizou com Iahweh, pois é uma aliança cheia de promessas (cf Gen 15; Josué 24). Aliança com Iahweh significa para Israel buscar em Deus o próprio amparo, o próprio refugio. É esta idéia que é varias vezes repetida nos salmos (cf. Sal 18, 1-9). O problema da busca do amparo naquilo que não é Deus, na realidade começa já nas narrações do Gênesis. A Historia de José (Gen 37-50) pode ser lida já nesta perspectiva, apesar de o texto mesmo oferecer uma outra interpretação (Gen 45, 5). A busca de seguranças naquilo que não é Deus é um tema que perpassa todo o Antigo Testamento.

Ele me abandonaram a mim, fonte de água viva,
Para cavar para si cisterna,
Cisternas furadas, que não podem conter água. (Jer 2, 13).

A mesma atitude a encontramos em Saul (1 Sam 15), quando em vez de obedecer a Deus, por medo do povo, utiliza os animais da vitória para sacrificar a Deus.

“A obediência é melhor do que o sacrifício,
a docilidade mais do que a gordura dos carneiros” (1 Sam 15, 22).

A aliança é um compromisso que requer a confiança total no parceiro. Nessa altura, um sentido espiritual, podem afirmar que o pecado é sempre uma falta de confiança em Deus, na sua possibilidade de ser o nosso escudo, o nosso amparo. Se buscarmos refugio em outras fontes que não são Deus isso quer dizer que não confiamos mais nele, apesar das aparências (cf. o sacrifício de Saul). Mas porque o homem busca amparo em algo? Este dato que podemos chamar de antropológico, revela um elemento importante: o homem, a mulher manifestam uma fraqueza que necessita de uma ajuda. O homem é um ser dependente, cuja existência é dominada pela fraqueza. O instinto de sobrevivência empurra o homem para buscar algo que possa ampará-lo das ameaça, dos perigos da vida. É nesse pano de fundo ao mesmo tempo psicológico e antropológico que podemos entender a historia entre Deus e o seu povo. Uma historia feita de uma continua busca da parte de Deus de um povo que sente-se arrastado pelas necessidades humanas, que exigem respostas imediatas ás próprias necessidades, ás próprias carências. Iahweh pede para o homem a paciência de esperar a sua passagem, de confiar nas suas promessas, para aprender a não se deixar arrastar pela força espantosa dos instintos. A fé é a confiança na Palavra de Um Deus que promete de nos salvar da escravidão dos instintos egoístas que arrastam a nossa vida. O preço que devemos pagar é aprender a esperar, agüentar o sofrimento na hora que o instinto aperta a nossa vida. Confiar em Deus, na sua Palavra, nas suas promessas é o sentido do caminho da fé exigido no tempo de quaresma.

Voltando ao tema do Êxodo: o povo de Israel não agüenta mais a perseguição do Egito e grita para Iahweh. O grito do povo de Israel expressa uma vontade. Esta vontade é estimulada pelo peso da opressão (cf. Ex 1-3).
Este dado, que em aparência pode ser visto como negativo, na realidade aparenta elementos positivo. Somente que experimentou por um pouco, por alguns instantes a paz que vem de Deus, antes ou depois a procura. Além disso, somente quem fez a experiências de uma Aliança, que em outras palavras pode ser considerada uma vida com regras para serem respeitadas, sente o peso do negativo. Dizia um padre da Igreja antiga que, até quando a alma de uma pessoa é como uma praça aberta aonde quem quiser pode entrar, o mal não é percebido. O pecado é percebido como tal quando a pessoa começa a colocar algumas portas na própria alma: ali começa a ser percebido o pressionamento. No Evangelho de João Jesus mesmo se apresenta como a porta (cf Jo 10). A Palavra de Deus, a sua proposta de vida, a Aliança é sem duvida uma porta bem firme posta na alma contra todo o tipo de mal que pode devastá-la, saqueá-la. E esta porta quanto mais é colocada firmemente na alma, tanto mais é sacudida pelas forças externas que tentam a toda hora de derrubá-la. Este é o sofrimento da alma, a luta interior da qual sempre fala Santo Agostinho e que se tornou um dos temas da mística cristã.

Do ponto de vista espiritual, sendo que somos no interno de um retiro espiritual, podemos nos perguntar:
Será que queremos mesmo sair da nossa terra do Egito? O estamos vivendo nela a vontade? Estamos percebendo o peso do desastre que a convivência nesta terra está provocando em nós? O devemos esperar que a nossa alma esteja toda esfacelada?
A pergunta é importante também porque no Evangelho, os milagres de Jesus acontecem amiúde atrás de uma vontade da pessoa doente:

“Que queres que eu te faça? O cego respondeu: Rabbuni!
Que eu possa ver novamente” (Mc 10, 51)[2].

Nesta primeira parte do retiro, no tempo de silêncio que teremos a disposição deveríamos nos perguntar: queremos de verdade ser curados? E de que? Sabemos quais são os males que estão devastando a nossa alma? Ou somos com o rei Acaz (cf. Is 7,7ss) que, procurado pelo profeta Isaias para pedir um sinal, ele respondeu que não queria não, que queria deixar em paz o Senhor?
Além do mais se o pecado, como vimos mais acima, é buscar segurança naquilo que não é Deus, em quem ou em que estamos colocando a nossa confiança? Quem são os nossos talismãs, os nossos feitiços?
A resposta a estas pergunta exige um conhecimento de nós mesmos que talvez não temos. Por isso é importante o retiro, a experiência do silencio, para aprendermos a lidar com nós mesmos, a conhecer o que está dentro do nosso coração, conhecer quem de verdade está dominando a nossa alma.
O pecado é uma doença espiritual que atrapalha o nosso desenvolvimento não apenas religioso, mas sim existencial. Colocando, talvez implicitamente (é isso que deveremos descobrir nestes dias!) a nossa segurança em algo que não é Deus, é toda a nossa existência que fica desnorteada chegando até ao ponto de se perder, perder o seu rumo e, com isso, a alegria da vida.


Segunda meditação. Os passos no deserto: para onde ir?

A viagem sempre foi uma metáfora da vida que encontramos em muitas literaturas. O Êxodo, porém, é muito mais de uma viagem, pois é uma viagem no deserto. Podemos pensar, sem forçar demais a metáfora, que o deserto seja o período da vida aonde a pessoa é convidada a escolher e, então se identifica com a adolescência e a juventude. Por isso, podemos dizer que até quando uma pessoa não encontra o rum da própria vida, até quando não percebe a própria vocação, vive no deserto, com o perigo de não sair nunca daí. No deserto o povo entra, mas não sabe se sairá vivo. Por isso a angustia dos primeiros dias e a continua murmuração contra Moisés.

Depois da passagem do mar Vermelho o povo de Israel é conduzido no deserto rumo á terra prometida. É no deserto que o povo experimenta a dificuldade de uma vida em liberdade. Este é o grande paradoxo: o povo no Egito se queixava da opressão e agora no deserto se queixa do preço da liberdade.

“O povo murmurou contra Moisés dizendo: que havemos de beber?” (Ex 15, 24).

A viagem do povo de Israel no deserto, do ponto de vista espiritual, é uma grande metáfora sobre o sentido da vida, sobretudo sobre ás dificuldades que o homem de todos os tempos encontra para passar de uma mentalidade material á uma espiritual. No deserto o homem experimenta a fraqueza da própria vida, dos próprios limite humanos. Vida espiritual é deixar as falsas seguranças mundanas, para aprender a confiar em Deus, na sua Palavra. No deserto o povo de Israel sente fome, sete, depara assim com o nada do próprio ser, percebe que é um ser que depende de tudo, que não é autônomo, mas que precisa de algo, de alguém pra sobreviver. É neste contexto de sofrimento e de luta que o povo aprende a descobrir a sua verdadeira identidade. O primeiro inimigo que o povo encontra no deserto é a saudade.

“Antes fossemos mortos pela mão de Iahweh na terra do Egito, quando estávamos sentados junto á panela de carne e comíamos pão com fartura! Certamente nos trouxestes a este deserto para fazer toda esta multidão morrer de fome” (Ex 16,3).

A saudade do tempo passado, idealizado como se fosse a época do ouro, é o primeiro grande obstáculo que encontra o povo de Israel saindo da terra de escravidão. O preço que a liberdade exige na primeira fase é a capacidade de agüentar os apertos da vida, para não se entregar aos primeiros benfeitores. Quem é acostumado a ter satisfeito o mínimo necessário de sobrevivência acha isso, ao longo dos tempos, uma delicia, sobretudo quando passa por alguns apuros.  Transferindo isso no plano existencial como podemos chamar estas fomes e sede? O homem sente fome e sede de que? Fome de sucesso, de ser considerado; sede de dinheiro, de fama, de gloria humana; necessidade de se sentir alguém, procurando no mundo o respaldo pela própria gloria. No deserto, no silencio e na solidão do deserto o homem, a mulher, aprende que tudo isso é fumaça, é ilusão, que não são estas coisas que podem oferecer uma identidade á pessoa e que precisa buscar além, mais em profundeza. No Egito os israelitas tinham pão e carne, mas não tinham a liberdade. No deserto o povo de Israel tem a liberdade, mas a um preço muito caro que eles mesmos não estão querendo pagar.  Jesus mesmo alertava as pessoas a não buscar a própria gloria nos homens.

“Se ouvires atento a voz de Iahweh teu Deus e fizeres o que é reto diante dos seus olhos, se deres ouvido aos seus mandamentos e guardares todas as suas leis, nenhuma enfermidade virá sobre ti” (Ex 15, 26).

No caminho do deserto o povo é convidado a confiar em Deus, na sua Palavra, a fazer a experiência da presença de Deus. Sem esta experiência e sem esta confiança é impossível passar o deserto da vida. Infelizmente já conhecemos o êxito triste desta historia: nenhuma das pessoas que saíram do Egito entraram na terra prometida, pois todos morreram no deserto como conseqüência da falta de confiança em Deus e na sua Palavra.

“Eu ouvi ás murmurações dos israelitas; dize-lhe: ao crepúsculo comereis carne, e pela manhã vos fartarei de pão: e sabereis que eu sou Iahweh vosso Deus” (Ex 16, 12).

No deserto o povo deve aprender a se alimentar com a comida que Deus mesmo oferece, a se desligar da comida do mundo. A carência do homem se não preenchida produz um vazio, que provoca aquela angustia que o homem não agüenta. O homem que vive no Egito se acostumou a preencher o vazio com as poucas migalhas que o poder oferecia. Aprender a se alimentar com a comida de Deus significa também sair de um estilo de vida egoísta e auto-suficiente, que provoca desigualdades. No deserto ao longo da caminhada o povo de Israel aprende que perante Deus ninguém é melhor de ninguém: todos comeram do mesmo pão e da mesma carne e beberam da mesma água. Além disso, o povo aprende que quem dá dignidade á uma pessoa não a quantidade das coisas que possui, nem a quantidade de dinheiro eu pode conseguir: no deserto não existe rico. O deserto nivela as pretensões humanas: é ali que aprendemos o nosso verdadeiro valor, que não se mede com o numero de coisas que temos, mas pela graça de estarmos á presença de Deus.
A lógica do deserto é a lógica da essencialidade. É através de uma vida essencial que aprendemos a medir o nosso valor pela nossa dignidade de filhos e filhas de Deus, e não pelas coisas materiais que possuímos. No deserto Deus nos ajuda a ter um olhar diferente sobre o mundo e sobre nós mesmos.

As provações de Deus é antes de mais nada a luta cotidiana que o homem deve enfrentar no meio das dificuldades e obstáculos sem perder a confiança e a esperança. As provas do povo de Israel livres são: o cansaço, a saudade do passado, o medo dos inimigos, a segurança da casa do Egito. Tudo isso se traduz nas tentações da fome, da sede.

Através de Moisés Deus oferece alguns sinais da sua presença que o povo nem sempre percebe.


Terceira meditação: a dificuldade de viver em liberdade

Problema inicial: Porque o povo de Israel teve tantos problemas no deserto? Porque não conseguia agüentar o aperto do deserto? Porque na realidade nos anos do Egito o povo não viveu, mas entregou a própria vida ao Egito. A vida é liberdade e é na liberdade que uma pessoa experimenta a capacidade de ser criativo. É num clima de liberdade que uma pessoa aprende a tomar decisões e a levar o poso das mesmas. É na liberdade que uma pessoa experimenta que a vida não é só alegria, mas é também sofrimento, dor. É na liberdade que as pessoas aprendem a amar: sou uma pessoa livre ama, ou seja, se doa ao parceiro de uma forma desinteressada, não apenas para tirar um proveito, uma lasquinha pra sim, um interesse. Somente na liberdade amamos gratuitamente. É por isso que o povo de Israel no aperto do deserto vive o tempo todo se queixando e desejando voltar atrás. Na realidade o povo de Israel até então nunca tinha experimentado o sabor da vida, o gosto de viver, de pensar autonomamente, de criar algo de novo, de decidir, de pagar o preço dos seus atos. A historia do deserto é a Historia de Deus que tenta educar o seu povo para que se torne livre, adulto, capaz de enfrentar a vida, de encará-la. O êxodo, neste sentido, é também a historia de um grande fracasso, pois Deus não conseguiu a criar o seu povo: todos morreram por causa das suas infidelidades.

Entrando no deserto, aprendendo a não confiar mais nas seguranças humanas, percebo a verdade das palavras de Jesus que me convida a renunciar a mi mesmo, a tomar a sua cruz e segui-lo.

“Quem ama a sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna.
Se alguém quem me servir, siga-me; e onde eu estou, ai também estará meu servo” (Jo 12, 25-26).


Êxodo 32-34: o bezerro de ouro.

“... E fabricou com eles uma estatua de bezerro” (Ex 32, 4).
Esta historia revela um outro lado verdadeiro e ao mesmo tempo triste da natureza do homem. O povo precisa de alguém para entregar a própria vida: se não for Deus, deve ser algo de diferente. Por isso é necessário manter um contato constante com a Palavra de Deus, que nos mostra a realidade da nossa existência. Quem não se acostumar a fazer isso, antes ou depois entregará a própria vida ao primeiro ídolo de turno. Nestes dias de silencio poderíamos nos perguntar: quais são os nossos ídolos, os nossos bezerros de ouro? Pra quem estamos entregando a nossa vida?


“O povo assentou-se para comer e para beber, depois se levantou para se divertir” (Ex 32, 6).
É disso que o povo mais gosta: se divertir! O povo, por todos os motivos que já colocamos, não agüenta o pressionamento da vida, o sofrimento contido nela. Por isso, logo que chega alguma desavença, o algo de imprevisto que causa angustia, procura logo uma solução. Esta festa do povo não é alegria, mas uma maneira de fugir. É um sofrimento mascarado, é uma gritaria e uma bebedeira pra não sentir o aperto do sofrimento interior.

“O teu povo perverteu-se. Depressa se desviaram do caminho que eu lhe avia ordenado” (Ex 32, 7-8).
O caminho espiritual exige tempo e constância. Não basta um retiro espiritual, ou uma experiência forte de Deus. É preciso que a palavra penetre até dividir alma e espírito, junturas e medulas (cf. Heb 4, 12). Até quando a Palavra de Deus não desceu no abismo dos instintos, modificando a estrutura egoísta dos mesmos, é ainda cedo pra falar de conversão. A historia do povo de Israel nos ensina que o nosso coração é duro pra se converter a Deus, resiste á sua Palavra.

Ex 32, 11-14: a mediação de Moisés em favor do povo.

“Quando se aproximou do acampamento e viu o bezerro e as danças, Moisés acendeu-se de ira...” (Ex 32, 19s).

O mesmo Moisés que pouco antes tinha feito de tudo para abrandar a ira de Deus, perante a malandragem do povo não agüenta: quebra as tabuas em cima do bezerro de ouro. Porque isso? É o zelo do homem de Deus que não aceita a idolatria, o pecado escancarado. Existe um limite pra tudo: também para o servo do Senhor. Moises é considerado o homem mais manso da terra; apesar disso em varias circunstâncias o encontramos tomado por sentimentos de ira contra o pecado do seu povo. Isso poderia ser uma contradição, mas na realidade não é não. De fato, o amor a Deus passa também por sentimentos negativos contra aqueles que desrespeitam a sua Palavra, sobretudo quando isso acontece de uma forma escancarada.

“O povo estava desenfreado... Moisés exclamou: quem for de Iahweh venha até a mim” (Ex 32, 25s).

O pecado deixa o povo fora de sim, a mercê dos seus instintos mais baixos. O pecado é uma foca devastadora que, se não contornado, leva o homem à ruína. O episodio dos filhos dos levitas passando pelo campo dos hebreus matando a todos aqueles que tinham-se envolvido com a idolatria do bezerro de ouro, é uma metáfora que quer nos ensinar que o pecado deve ser  perseguido até arrancá-lo de dentro da nossa alma. O pecado, assim como a Bíblia o interpreta, tem sempre um cunho coletivo. O meu pecado pessoal afeta sempre os meus irmãos e irmãs. Por isso, apesar desta pagina ser extremamente violenta, contem uma sua pedagogia intrínseca. É Deus que tira o pecado: este é um dado importante para ser lembrado. É Cristo o Cordeiro de Deus que veio para tirar o pecado do mundo.

“Quando passar a minha gloria colocar-te-ei na fenda da rocha e cobrir-te-ei com a palma da mão até que eu tenha passado” (Ex 33, 22).

Uma das experiências mais dolorosas da historia do povo de Israel se transforma numa das historias espirituais mais profundas de todo o Antigo Testamento. Moisés é o homem que encontro graças aos olhos do Senhor. Além disso, é o homem que Deus conhece por nome. Estes versículos são uma revelação extremamente importante por nós.De fato, nos revelam que o Deus de Israel, não é um Deus anônimo, mas sim um Deus que fala pessoalmente conosco. A Historia de Moisés, neste sentido, é o protótipo da historia do homem, do relacionamento pessoal que Deus quer instaurar conosco. Moisés continuamente procura a Deus, ao longo da viajem no deserto, pra saber o rumo, o itinerário do caminho que deve realizar. Deus não quer como parceiros automas, escravos, mas sim pessoas livres. É este o sentido da peregrinação no deserto. Só um povo livre consegue ser parceiro de Deus e somente na liberdade interior podemos experimentar a presença de Deus. Deus quis liberar o seu povo da escravidão do Egito para que desta maneira tivesse a possibilidade de conhecê-lo e, assim, de amá-lo. É nestas paginas extremamente profundas do livro do Êxodo que encontramos a mística do relacionamento pessoal do homem com Deus. Moisés é chamado por Deus antes de tudo dentro um caminho de aprofundamento do conhecimento de Deus. A sua missão, de fato, não é apenas libertar o povo da escravidão do Egito, mas sim também ajudar o povo a descobrir o rosto de Deus, ou seja a conhecer melhor o Deus que o está conduzindo rumo a terra prometida. Este me parece ser o dinamismo da vida espiritual, que nunca, quando for autentico, se reduz numa experiência isolada e autocentrada. Quanto mais o relacionamento com Deus sai dos mecanismos frios de formulas aprendida mecanicamente para um dialogo pessoal, quanto mais este conhecimento pessoal e aprofundado de Deus leva as pessoas a elaborar caminhos de libertação. Na espiritualidade bíblica o momento subjetivo é sempre interligado com o serviço ao povo.
Quando a Igreja trabalha pela libertação do povo não realiza apenas um trabalho social, mas antes de tudo espiritual. Além disso, poderíamos nos questionar durante estas horas de silencio: como é o nosso relacionamento com Deus? A quaresma deveria ser um caminho de saída de um relacionamento mecânico, frio com Deus, para um relacionamento sempre mais personalizado.


Quarta meditação: escolhe, pois, á vida (Dt 30, 19).

Deuteronômio 28; 30. O caminho do Êxodo tem como objetivo levar o povo na terra prometida. O problema é que Deus que não quer arrastar o povo dentro a terra, mas quer que seja o povo mesmo a querer entrar. A final de conta o povo deve se decidir deve, em outras palavras, escolher. Voltar atrás é tarde de mais: trata-se, então, de continuar o caminho. Só que o povo deve ser bem consciente daquilo que quer.

Pra chegar a uma decisão definitiva são necessários alguns elementos:
                
1.     Dt 29, 1-8: Fazer memória: aprender a lembrar continuamente, ao longo do percurso, os prodígios que Deus realizou na nossa vida. Por isso antes do caminho no deserto Deus realizou a Páscoa pedindo para eles sempre realizar este rito, que é um memorial (cf. Ex 12). Somente fazendo memória continuamente dos prodígios que Deus realizou no meio deles, o povo tem chances de chegar na terra prometida, sem desviar, sem se deixar atrair para outras propostas ao longo do caminho. O pecado do povo nasce sempre de uma falta de memória: o povo esquecendo não lembra mais o motivo da própria saída, da própria vida e se perde atrás de outros deuses.(do ponto de vista espiritual aqui podemos colocar a importância do costume de anotar as própria reflexões espirituais num caderno, pra não perder a riqueza da reflexão do momento e para, depois, reler com calma as mesmas reflexões).

2.     Dt 29, 17-20: limpar o coração de qualquer forma de pecado, de idolatria. Esta é uma exigência fundamental para manter a mente atenta aos mandamentos do Senhor, manter a mente firme na mete que o Senhor quer que alcançamos. Atualizando estes versículos: se o sentido da quaresma é pela Igreja ajudar os fieis a se preparar para celebrar o grande mistério da Páscoa do Senhor, da sua paixão, morte e ressurreição, esta preparação passa através a tomada de consciência do nosso pecado, que impede uma plena adesão á vontade de Deus. Por isso é bom finalizar o tempo de quaresma com uma confissão sacramental, através do sacramento da penitencia.

3.     Dt 30, 1-4: escutar a Palavra de Deus[3]. É impossível chegar na terra prometida sem um esforço cotidiano de meditação da Palavra de Deus. Escutar a Palavra de Deus significa interiorizá-la, fazer com que penetre no coração da gente e influencie os pensamentos, as decisões, os atos da via. Escutar a Palavra de Deus exige uma educação interior que requer tempo e paciência.  Trata-se, de fato, de fazer espaço á Palavra para que ela devagarzinho molde os nossos pensamentos. A Palavra deve encontrar espaço na nossa vida: é esta uma tarefa que cabe a nós resolver. Precisamos planejar tempos e momentos cotidiano para realizar este exercício espiritual, para que de verdade a meditação da Palavra se torne um costume cotidiano e não apenas um sentimento do coração que acontece de vez em quanto.

Estes três elementos são fundamentais para que possamos chegar a uma decisão definitiva, que é o sentido mesmo da vida e do caminho no deserto. Podemos dar a tudo isso um sentido vocacional. De fato, na adolescência e na juventude tudo é feito ou deveria ser feito para chegar a uma decisão definitiva. No deserto da adolescência e da juventude caminhamos para vislumbrar plano que Deus preparou para cada um de nós. Qualquer ele seja, porém, vale salientar que a vida é um chamado ao amor e o homem e a mulher são chamados por Deus no mundo para realizar a grande vocação do amor. Como nos lembra são João[4] se quisermos entender o sentido autentico do amor, que é ao mesmo tempo o sentido autentico da nossa vida, precisamos fitar os olhos em Jesus. É ele, de fato, que mais de qualquer outro manifestou para o mundo o amor de Deus. Jesus veio ao mundo manifestando o sentido do verdadeiro amor se doando totalmente e gratuitamente para Deus e para os irmãos e as irmãs: é este o sentido do amor. Pra chegarmos a vivenciar esta maneira de amar precisamos seguir as pegadas que Cristo mesmo deixou na terra. Também Jesus, como o povo de Israel percorreu o seu deserto, se libertando progressivamente de tudo aquilo que não precisava para viver uma vida autentica de amor. É importante, nessa altura, lembrar alguns versículos que salientam as necessidades espirituais das pessoas que querem aprender de Jesus o jeito de amar.

a.     renunciar aos afetos (Lc 14,25).
b.     Renunciar aos próprios projetos (Jo 12, 25-26).
c.      Renunciar aos bens materiais (Mc 10,23-31)



Claramente precisamos atualizar estes versículos de Jesus na nossa realidade. No ensinamento radical de Jesus um dado é bem claro: ninguém pode sonhar de aprender a amar sem se libertar dos falsos ídolos que atrapalham a nossa existência. Quem quiser ser livre e viver em liberdade, ao longo da vida deve aprender a renunciar. O problema é perceber o que está atrapalhando a nossa capacidade de escolher. Somente uma pessoa reflexiva, acostumada a meditar, a entrar em si mesma meditando a Palavra de Deus, tem chance de captar os problemas que estão afetando a alma. Renunciar é sinal que algo está sendo percebido como mais importante. Somente quem renuncia manifesta que está perseguindo um valor mais alto.

Deus me chama para sair do Egito e me encaminhar rumo a terra prometida, que é a minha vocação, ou seja, a maneira com a qual Deus me convida a viver a minha vocação amar. Pra chegar nesta terra é preciso percorrer o deserto, que pode ser o símbolo, a metáfora da adolescência e da juventude, que é o tempo da vida no qual Deus se manifesta e manifesta o sentido da vida.


Indicações para o dia do deserto
O perigo, para quem não é acostumado a passar algumas horas em silencio, é perder tempo, viajar com a cabeça, sem rumo. Por isso, para valorizar o tempo que Deus nos oferece neste dia de deserto, é preciso organizar o tempo, dividindo-o em momentos, alternando leitura da Bíblia, meditação, reflexão escrita e assim em diante.




[1] Não é um caso que a referência ao Egito se encontra nas profecias do primeiro Isaias, que remonta ao VIII° século a.C., quando ainda o Egito constitutiva uma ameaça constante ao equilibro político de toda a região mediterrânea. Nos grandes profetas do VI° século a.C., como Ezequiel e Jeremias, não se encontra uma referencia sequer ao Egito, a não ser por outros motivos (cf. Jer 42-43).
[2] Cf. o capitulo 8 de Mateus, dedicado aos milagres de Jesus.
[3] Cf. também o famoso texto de Dt 6,4.
[4] 1 Jo 4.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O CAMINHO DA VIDA ESPIRITUAL




COMENTO ESPIRITUAL Á PRIMEIRA CARTA DE JOÃO



Primeira condição: romper com o pecado (1, 8-2,2)

O tema fundamental da primeira carta a João é oferecer as condições para averiguarmos a nossa comunhão com Deus. O primeiro critério é o reconhecimento do próprio pecado. O encontro com Deus, em Jesus Cristo, nos ajuda a tomar consciência do nosso pecado. Toda vez que deparamos com a santidade de Deus, percebemos a nossa diversidade.

a.     È a experiência de Isaias: Is 6 1-5.
b.     Cf a experiência de Pedro: Lc 5.
c.      Nessa altura é significativa a experiência do jovem rico (Mt 19, 15-22).
d.     Também, os apóstolos, neste sentido, não manifestaram uma atitude melhor: Lc 14, 7; Mt 16, 23.
e.      Lc 7, 36-48: Simone não consegue entender o perdão de Deus.
f.       Os fariseus: hipocrisia denunciada em Mt 23.

O primeiro elemento da comunhão com Deus é o desvendamento do nosso coração, o fato que o nosso coração vem reconhecido por aquilo que é. Ficando na frente de Deus aparecem os meus pecados, os meus limites, as minhas misérias (por isso a pouca vontade de rezar, a fatiga na oração, o cansaço. Por outro lado, quando vejo o meu coração limpo mi dá vontade de permanecer perante o Senhor).  Não querer ver o próprio pecado, não querer reconhecê-lo é uma maneira de defender a si mesmos, de se justificar, é querer ficar do lado da verdade. Este é um dos elementos que estragam uma caminhada de fé: querer ter razão.
Se dentro o nosso coração como espelho da nossa vida temos a opinião comum, então dificilmente me percebo como pecador. A nossa comparação, pelo contrario, deve ser com o Senhor Jesus: então saímos sem duvidas com vencidos, errados.

“Se confessarmos os nossos pecados...”[1]. Não apenas Deus tira, perdoa os nossos pecados, mas Deus nos libera daquela tendência que existe em nós, no profundo do nosso coração: a tendência ao egoísmo, á auto-suficiência no confronto de Deus; Deus nos tira toda raiz do mal[2] .

“Se dissermos que não pecamos, fazemos dele um mentiroso”[3]. Porque? Porque a palavra de Deus acusa o homem do pecado (cf Rom 3, 9-18). Se dissermos que não temos pecado, com Cristo fazemos o que? Se o sentido da vinda de Cristo ao mundo é tirar os nossos pecados, então o primeiro fruto do nosso encontro com Ele é isso mesmo , ou seja a confissão do nosso pecado.  Se Cristo faleceu por mim, quer dizer que sem Ele eu sou perdido.

“Temos um advogado junto do Pai”[4]. O intercessor é Jesus Cristo. Agora temos um intercessor perto do Pai, santificado pela sua obediência, pela dedicação total á vontade do Pai e, por isso, pode elevar uma oração fiel, crível, aceitável por Deus. Dois textos ajudam a entender isso:
Rom 8,34;
Hb 7, 24-25; 5,7s.

Existe em Jesus uma capacidade de expiação dos pecados que é maior dos nossos pecados. Jesus é maior do que nós, a redenção de Jesus é maior dos nossos pecados, aliás, é maior dos pecados do mundo todo. Nós não somos tão grandes pra podermos realizar pecados imperdoáveis, que impedem a Deus de operar com a sua misericórdia.A expiação de Jesus lava os pecados do mundo todo.


Segunda condição: observar os mandamentos, sobretudo o mandamento do amor

a. Caminhar como Jesus caminhou (2, 3-6)

O verbo (observar) quer dizer não uma simples observância externa, mecânica, mas a ponta para uma obediência ativa[5], dócil, pronta, uma observância feita pelo coração e que necessariamente deve ir junta com o amor.

“Mandamentos dele”: A importância dos mandamentos é isso: A proveniência é Deus e nos leva a sua vontade, nos leva perante a sua pessoa. Somos convidados a observar os mandamentos enquanto são expressão do amor desta pessoa chamada Jesus Cristo[6].
È o amor para Jesus Cristo que me permite de observar os seus mandamentos. Esta ligação entre Jesus e o amor para os seus mandamentos a encontramos amiúde em João: Jo 14, 15. Não é possível amar a Jesus sem observar os seus mandamentos. Este ligação intrínseca a encontramos também no A.T., de uma forma especial no livro do Deuteronômio[7]. Amar a Deus significa servi-lo[8]. Se Deus nos olhou com um amor especial, de predileção, significa que devemos responder a este amor.
Também em Lv 19,2 se encontra uma palavra parecida com aquela de Dt 10. Se temos Deus como nosso Deus, devemos nos comportar como seu povo, como seus amigos. Ser em comunhão com Deus leva consigo a obrigação de sermos dignos dele. Nessa altura percebemos que acontece com Deus aquilo que acontece em qualquer relacionamento humano de amizade. Pra fazer amizade com uma pessoa precisamos aprender a aceitá-la assim como ela é. O Senhor faz isso conosco, ou seja, nos aceita assim como a gente é. Se o Senhor nos aceita do jeito que somos, devemos também nós aceitar o Senhor do jeito que Ele é.
Então observar os mandamentos de Deus não significa simplesmente observar uma lei, mas aceitar uma pessoa, através aquela lei, aceitar a presença de Deus na nossa vida. Todos os mandamentos se resumem na Palavra de Jesus[9].

“Aquele que diz que permanece nele, deve também andar como ele andou”[10]. Jesus se torna o modelo do comportamento cristão. Viver como cristão significa olhar o Senhor e imitá-lo[11]. Para entendermos isso é preciso lembrar o texto dos lava pés[12]. Os lava pés são uma antecipação, uma profecia daquilo que teria acontecido um pouco mais tarde, ou seja, a morte de Cristo na cruz. Fazer aquilo que Jesus fez significa fazer da nossa vida um serviço, seguindo Jesus na sua paixão. É por isso que no N.T. o tema da imitação a Jesus desemboca no tema do sofrimento, da paixão. Alguns textos são importantes para entendermos melhor este assunto[13].
O amor de Deus, a presença do Senhor, a entendemos quando fazemos a experiência dele, na comunhão[14].
João expressa a comunhão com duas expressões: ser em Jesus e permanecer nele. Pra ter fé precisa ver Jesus, precisa crer, conhecer, amar e permanecer nele. Para o discípulo a vida quer dizer permanecer perto de Jesus[15]. Se acolhermos na Eucaristia a vida que vem de Jesus, a nossa vida não vem mais do mundo, mas sim de Jesus. Nós vivemos por aquela força que Cristo nos doa, através daquela vida que Cristo nos oferece. Por isso não podemos mais viver só para nós mesmos, mas para Deus. “Quem come de mim viverá por mim”[16]. Através da fé na Eucaristia o homem perde o seu centro, não é mais ele o centro da sua vida. O fruto de uma vida Eucarística é a saída do próprio egoísmo, daquela doença espiritual que afeta o homem que é a auto-suficiência, a busca da autonomia, não como sinal de liberdade, mas sim como desejo de uma vida sem Deus. O cristão recebe a vida continuamente por Cristo, e a restitui continuamente para Cristo[17]. NO relacionamento com Deus através de Cristo, o homem aprende a se colocar, a não pensar de ser o artífice da própria vida, de ser o criador de si mesmo. Quando uma pessoa chega a manifestar-se desta forma, quer dizer que perdeu totalmente o sentido da realidade. E tudo isso com aquela totalidade que caracteriza a vida de Cristo: como Jesus é totalmente dedicado ao Pai, e não consegue viver fora da perspectiva dele, assim o cristão é totalmente dedicado a Cristo e não consegue viver fora da perspectiva de Cristo. Por isso João gosta muito do verbo “permanecer”, pois resume a experiência cotidiana do cristão que é um permanecer em Cristo, é atingir em Jesus a fonte da nossa vida.
Neste sentido é extremamente significativa a alegoria da videira que se encontra em Jo 15. Jesus é a origem da vida dos discípulos. È nele que recebemos a nossa existência. Na carta a João o fruto que o cristão deve produzir é a caridade. Quando a vida do discípulo se torna amor, então está produzindo fruto. Também podemos folhar outros textos significativos para entendermos melhor este assunto[18].

A Verdade[19] se torna, para João, o principio, a fonte das ações do cristão. Aquilo que o cristão pensa, aquilo que o cristão vive e decide deve sair da Verdade. Em João a Verdade tem a função que em Paulo tem o Espírito. O Espírito era em Cristo, e o fazia viver e pensar como Cristo, era a sua postura interior. Agora o Espírito é doado aos cristãos e se torna a origem da sua vida.
“A Verdade vos libertará”[20]: nos libertará do nosso egoísmo, de todos os condicionamentos culturais, ambientais, nos libertará da necessidade de aparecer ao mundo. Nos libertará de uma maneira que as decisões que tomamos não são condicionadas dos nossos caprichos, mas tem como única origem o amor, a verdade[21].

“Quem observa as suas Palavras, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito”[22]. Isso quer dizer que demonstramos o nosso amor para o Senhor no momento em que vivemos conforme a sua Palavra. Além disso, este versículo que estamos comentando, tem um outro sentido, ou seja, o amor de Deus não é apenas o amor que nós temos para Deus, mas também o amor que Deus tem para nós. Quando vivemos os mandamentos de Deus, o amor que Deus tem para nós torna-se perfeito. De fato, quando nos amamos uns aos outros nós estamos abrindo o nosso coração a Deus.
O amor do Pai, passando através do homem Jesus, fez com que este homem Jesus, amasse com o mesmo amor do Pai. A amor de Cristo, chegando a nós, passando através de nós pode fazer com que nós vivamos como Jesus viveu, caminhemos como ele caminhou.


b. O mandamento novo (2,7-11).

“Mandamento antigo que recebeste desde o inicio”[23]: a referencia é ao batismo, que marca o inicio na vida de um cristão. João não quer dizer algo de novo, pois a vida cristã é fidelidade ao batismo, é fidelidade a Jesus Cristo. É um mandamento que ao mesmo tempo é novo porque é uma realidade escatológica, ou seja, definitiva, que dura para sempre. Isso quer dizer que não existe nada além do amor. É um mandamento velho porque os cristãos o conhecem desde o dia do batismo; mas ao mesmo tempo é um mandamento novo porque nunca é superado. É um mandamento que se torna novo em Cristo, porque o amor com que Cristo amou é algo de novo no mundo[24]. Aonde existe o amor fraterno, ali Cristo está presente. Não então um amor que sai simplesmente do coração humano, mas é um amor que sai da presença de Cristo no coração do homem. O amor que Jesus tem por nós, tem como objetivo que nos amemos uns aos outros. Jesus nos ama para que o seu amor nos mude, modifique as nossas atitudes egoístas. Cristo nos ama para nos envolver no seu amor, para nos transformar com o seu amor.
Uma pessoa pode até ter praticado o amor; só que o amor fica sempre na nossa frente, pois é algo que devemos conquistar a toda hora. Quando Paulo fala do amor[25]não diz que é um dom, um carisma, mas um caminho. Isso é significativo, porque nos revela que no caminho do amor nunca podemos dizer que chegamos, nunca podemos sentar, mas sempre somos a caminho, pois a realização do amor verdadeiro está sempre na nossa frente[26].
Então se este mandamento se tornou verdadeiro em Cristo e em nós, então é por isso que as trevas estão sumindo e a luz verdadeira resplandece. Pode ser verdadeiro que o mundo continua indo em frente com o seu egoísmo e com a sua violência. No mundo, porém, existe também Cristo, o anuncio do Evangelho, a vida fraterna dos cristãos. Perante esta luz as trevas estão rarefazendo-se[27]. Aonde o evangelho é anunciado, aonde é presente o anuncio do amor de Deus, as trevas começam a sumir e aparece a luz. No tempo presente trevas e luz convivem. Se continuam as trevas no mundo, tem porém ao mesmo tempo a luz. Se uma pessoa quer ser na luz deve ser no amor. Aonde não tem amor tem ódio: somos obrigados a escolher. O ódio é treva. O ódio acha de defender a si mesmo, mas na realidade, é um caminho de destruição de si mesmo.
Aonde existe a caridade não tem ocasião para tropeçar. A fé se expressa na caridade e a caridade aumenta a abertura a Deus. Se quisermos amadurecer no nosso relacionamento com o Senhor como relacionamento de fé, se quisermos que a comunhão nos fortaleça, o caminho é a caridade, a pratica do amor.


Terceira condição: guardar-se do mundo

a. Exortação para os cristãos (2, 12-14).

A comunhão com Deus consiste também em se proteger do mundo. É preciso escolher entre o amor de Deus e o amor do mundo[28].

Filhinhos: somos todos nós, todos os cristãos. São remetidos os pecados. Este é o tema da primeira pregação cristã no Evangelho. Se nos foram remetidos os pecados isso quer dizer que somos livres do nosso passado. Então o nosso futuro, o nosso relacionamento com os irmãos e com Deus não é mais condicionado por ninguém. É verdade que vivemos todos os dias num contexto social, político, econômico, familiar que de uma certa forma nos condiciona. NA realidade, porém, é somente Cristo que, ao longo dos anos deve condicionar e dirigir o nosso pensamento e os nossos atos.  O Senhor reconstruiu o nosso coração[29]. Isso quer dizer que também da nossa historia de pecado Deus sabe extrair algo de bom, ou seja, a conversão, o sentimento de pobreza perante Ele, a humildade. Por isso é preciso acolher com alegria o Seu perdão, pois é um anuncio de libertação.
Esta expressão: “Vossos pecados vos foram perdoados”[30] resume toda a vida de Jesus. Quando depois da ressurreição Jesus apareceu aos seus discípulos Jesus os envia[31]. O discípulo é um mandado, então um que não tem uma autoridade própria. Tudo aquilo que o discípulo diz o aprendeu por Jesus. Só desta maneira o discípulo tem autoridade. De fato, quando o discípulo prega si mesmo, não tem autoridade e moral nenhuma. É claro que pra fazer isso, para fazer aquilo que Jesus fez, não basta a nossa boa vontade[32]. Por isso Jesus soprou sobre eles o Espírito Santo[33]. Então “a quem perdoardes os pecados lhes serão perdoados”[34]. Tudo aquilo que os discípulos são convidados a fazer se resume neste poder, que é o poder de Jesus de perdoar os pecados, de doar aos homens a vida.

“Por meio do seu nome”[35]. Sendo que somos chamados com o seu nome não somos pessoas perdidas, somos o povo de Deus, temos o seu nome que nos foi entregue no dia do batismo. Receber o nome de Cristo significa passar de propriedade, quer dizer adquirir uma nova família.

“Escrevo a vós, pais: conheceis aquele que é desde o principio”[36], ou seja, conhecestes Jesus Cristo. Os pais são aqueles que fizeram uma longa caminhada. O caminho do amadurecimento espiritual requere tempo, paciência.
Conhecer Jesus Cristo: não é apenas um dado intelectual, mas que envolve toda a pessoa. Cf. Fil 3, 7-11: conhecer Jesus Cristo significa que Ele se torna a segurança da nossa vida, todo  o resto não consegue mais me atrair. Para chegar á plenitude do conhecimento, é preciso conhecer a ressurreição de Cristo dos mortos, participando também dos seus sofrimentos.
O coroamento da fé é no conhecimento[37] e o conhecimento é amizade com Jesus, é passar de servo para amigo. Tudo se resume no conhecimento. A vida eterna é conhecimento[38]: então é experiência e comunhão. O Senhor não pode ser uma simples idéia, mas um amigo familiar. Sou seu discípulo, então o escuto, o entendo, o aceito. Podemos acrescentar que a comunhão com Jesus é obra do Espírito Santo, pois é o Espírito que permite ao cristão de aprofundar o seu relacionamento e de chegar a este conhecimento[39]. O Espírito Santo nos abre para o conhecimento  de um mundo novo, que nasce da morte e ressurreição de Jesus. Entender que vale a pena perdoar, significa entrar na nova maneira de raciocinar.

“Eu vos escrevo, jovem, porque venceste o Maligno”[40]. É típica da juventude a luta. A vida cristã é feita de lutas, fadigas, sofrimentos, riscos. A luta acontece, sobretudo no começo, apesar e ser sempre presente na vida cristã. São Paulo o descreve muito bem na carta aos Efesios[41]. É uma luta contra forças que são mais fortes do que nós e não temos nenhuma chance de resistir com a nossa inteligência e com as nossas forças. Tomamos, então, a armadura de Deus. Os jovens não devem temer, pois a vitória é certa, sendo que Jesus já derrotou o inimigo. “Esta é a vitória que venceu o mundo: a vossa fé”[42] . A vitória dos cristãos reproduz a vitória de Cristo[43].

v. 14: A capacidade de resistir na luta e de vencer é ligada por João com a Palavra de Deus. Sendo que tendes a palavra de Deus, e esta Palavra permanece em vós, então já vencestes. É importante parar um pouco, para refletirmos sobre o valor da Palavra.
Hb 11,3: A Palavra de Deus Criou o mundo.
Sab 18, 14-17: a Palavra é poderosa.
Jer 23,29: a Palavra é como um fogo, um martelo que despedaça a pedra.
2Tim 3,14-16: toda palavra é inspirada por Deus.

“Não ameis o mundo”[44]. Se antes amávamos o mundo, agora não devemos mais amá-lo.

b. As três concupiscências ( 2,15-17).

Mundo: em primeiro lugar é preciso dizer que mundo, nos textos de João, não aponta para um espaço físico, um lugar, mas sim para uma situação espiritual. Se não fosse assim seria uma contradição. De fato como é que Deus primeiro cria o mundo e depois o despreza? Mundo é, então, a criação que vive separada de Deus, sem o relacionamento com Deus, pois o relacionamento com Deus é a dimensão fundamental da experiência cristã. O mundo é aquela realidade apoiada sobre o maligno, aquele espaço cujo príncipe não é Deus, mas sim o diabo[45]. O mundo é o conjunto de todos os bens passageiros que são oferecidos aos homens. Existe a tentação constante para o homem de amar o mundo, de apegar-se as coisas mundanas. Porque isso? Porque o homem é radicalmente frágil, é uma pobre criatura, é condenado a morrer desde o dia do seu nascimento.  O homem precisa de tudo pra viver. Nesta condição o homem pode fazer o que? Defender-se, buscar proteção, amparo, etc. [46]. Ande o homem encontra esta proteção? No mundo. O dinheiro, por exemplo. As coisas são uma segurança (o mosteiro pode se tornar uma segurança material, sobretudo neste contexto). O problema é que o mundo passa com a sua concupiscência[47]. É preciso, então, vigiar sobre os desejos e os medos que temos. O problema nessa altura é o seguinte: como podemos vencer a sedução do mundo?

“Se alguém ama o mundo, o amor do pai não está nele”[48]. Aquilo que garante o homem é o amor do Pai. De fato o Pai garante o homem perante o futuro, perante os outros, perante a morte, perante os seus fracassos, os seus pecados, pois Deus é maior dos nossos pecados. Se o amor de Deus está em nós, não precisamos mendigar seguranças. Aliás, no ser amados por Deus, encontramos a paz[49].

V. 16. Existem três maneiras através das quais se expressa o amor do mundo.
Antes de tudo podemos dizer, do ponto de vista geral que a concupiscência se manifesta como vontade de viver ao contrario a realidade de Deus.
A primeira maneira é a concupiscência da carne. É a postura de quem enxerga tudo como instrumento por sim, pelo seu sucesso, pela sua satisfação. Para entendermos melhor isso precisamos folhar as paginas de Paulo. Gal 5, 16-21: a lista começa com três palavras que se referem a sexualidade: fornicação, impureza, libertinagem. Aqui a sexualidade se torna busca do próprio prazer e não dono de sim[50]. Depois tem duas palavras que falam da religião, aliás a deformação da religião. Aqui a religião torna-se um meio para se servir de Deus[51]. Depois o texto segue com uma serie de sete palavras que são relacionadas aos irmãos.

A segunda é a concupiscência dos olhos. É a vontade de possuir, a avareza, de querer pra si tudo aquilo que se vê. Santo Agostinho[52] afirma que a concupiscência dos olhos é a curiosidade: a necessidade de fazer todas as experiências.

A ultima é o orgulho da riqueza. Quando uma pessoa possui riquezas não percebe mais que é um pobre homem, que deve acolher a salvação como um dom e que não pode adquire-lo. O livro de Ezequiel descreve muito bem esta situação, na famosa historia de Tiro[53]. Por isso o evangelho fala que a riqueza é um perigo enorme no reino de Deus[54]. De fato, a riqueza tende a render o homem auto-suficiente. Pode acontecer como na parábola contada no evangelho de Lucas[55]. No final de conta, aquilo que vale é exatamente aquilo que somos perante Deus. O centro da nossa vida deve ser constantemente Deus. Paralelamente ao acumular o dinheiro, existem outras posturas parecidas: acumular a estima dos homens, gratificações. Somos pobres pessoas, e nos apegamos a tudo. Quando desfalece a confiança na proteção de Deus, o homem busca a proteção em outros lugares. A experiência do mundo não deve se tornar o todo. Devemos aprender a viver cada experiência aberta a Deus. O mundo não é o tudo do homem. O tudo do homem permanece Deus, só e exclusivamente Deus. Quando o mundo ocupa o nosso coração, não tem mais espaço para Deus. Por isso vale aquilo que Jesus dizia: aonde é o teu tesouro lá é o teu coração[56].
É claro que tudo é bom pois tudo é criação de Deus. O problema é que se as coisas são dom de Deus devem ser vividas como dom de Deus. Então é o Senhor que buscamos, também através das coisas, das quais precisamos pra viver, sem ligar o coração.


Quarta Condição: guardar-se dos anticristos (2,18-27)


“Esta é a ultima hora”: é o tempo no qual precisamos vigiar[57]. Precisamos ser prontos para acolhermos o Senhor que vem. O pecado pior que pode acontecer conosco é adormecer, como as virgens estultas[58]. Neste contexto espiritual é preciso olhar para frente. Esta vigilância deve ser exercida, sobretudo no confronto dos anticristos. Também Paulo falava disso[59]. O tempo presente da comunidade de João era um tempo de confusão, aonde varias tentativas eram feitas para confundir a verdade[60].
Anticristo: Cf. Ap 13. Seja o que for o anticristo designa uma oposição a Cristo. A presença de muitos anticristos revela, segundo João, a aproximação do fim deste mundo. O tempo no qual vivemos é orientado para um mundo novo[61]. O sofrimento maior deriva da constatação que estes anticristos não vem de fora, mas saíram do meio da comunidade, ou seja, são cristãos que pertenciam a Igreja.

“Nem todos são dos nossos”: existe uma pertença a Igreja puramente exterior, puramente física, puramente superficial, que não expressa a verdadeira pertença. Se uma pessoa é batizada, nem por isso quer dizer que seja Católica[62]. Para que uma pessoa seja dos nossos, é preciso que dentro, no coração, seja acontecida uma conversão, uma transformação.
É na hora da tentação que se verifica a verdade da nossa pertença a Igreja.

“Vós, porém, tendes recebido a unção”[63]: a unção são duas coisas juntas: a Palavra e o Espírito Santo, a verdade e o Espírito. Nós recebemos de Cristo a Palavra e o Espírito. A Palavra de Deus se torna a nossa carne e o nosso sangue. Por meio do Espírito, aquilo que lemos no Evangelho se torna nossa carne e sangue, da maneira que nós mesmos nos tornamos com a nossa vida Palavra de Deus. Pelo fato que recebemos a Palavra com a força do Espírito, nós agora temos a ciência, ou seja, a capacidade de discernir o verdadeiro do falso, a verdade do erro. Existe uma sensibilidade típica do cristão que lhe permite de orientar-se na vida, que lhe permite de avaliar as situações, e de entender para onde deve ir. Nestes casos nós temos a ciência.

“Nenhuma mentira procede da verdade”: a Verdade é Jesus Cristo, o Filho de Maria, que nasceu em Belém, viveu em Nazaré, pregou perto do mar da Galileia, percorrendo as estradas da Terra Santa: este é Jesus, um homem concreto. Além disso, a fé nos diz que este homem concreto é o Cristo, ou seja, a realização de todas as promessas de Deus no A.T.. Cristo é a revelação perfeita de Deus, a manifestação plena da realidade, do coração, do pensamento de Deus. Este é o grande paradoxo que cria dificuldade as mentes dos homens: que o Deus eterno possa ser limitado em um homem, que o eterno entre no tempo finito dos homens. Este é o escândalo, difícil de engolir. Este escândalo golpeou antes de tudo, os mesmos moradores de Nazaré[64]: escandalizavam-se pela sua humanidade. Aquilo que conheciam de Jesus era motivo de tropeço para eles, impedia a eles de acreditar: é o escândalo da carne. Quando o Verbo se faz carne, o homem deve superar o véu da fraqueza, para reconhecer a força e Deus[65]. Para conhecer Cristo é preciso ir além das aparências, além da carne, além da fraqueza humana de Jesus. É preciso entender que conhecer a Jesus é conhecer o Pai, assim como odiar a Jesus é odiar o Pai. A fé acredita que Jesus é a revelação plena de Deus, então é o sentido profundo do mundo. Se Jesus é o Filho e Deus então podemos dizer com João que Deus é amor[66]. Que Deus é amor o entendo olhando a cruz de Jesus: este é o sinal do amor de Deus. Um Deus que se faz carne, que toma sobre de si a minha fraqueza, que partilha a pobreza da minha condição, que sofre como eu sou capaz de sofrer, que conhece a angustia da morte, manifesta plenamente o seu amor para com o homem[67]. Um Deus assim é sem duvida um escândalo e até os discípulos, na hora da paixão, ficaram escandalizados[68].
Pela pessoa que ama a postura fundamental não é mais a defesa de si mesmo, mas é a vida do outro; então a pessoa que ama tende devagarzinho a tirar as autodefesas, se torna frágil, vulnerável. Esta fraqueza se chama fraqueza do amor. O amor é fraco, mas ao mesmo tempo é tenaz, pois é capaz de superar qualquer obstáculo, também a morte. É por isso que em Jesus encontramos a revelação do amor de Deus.

VV. 22-23: Se Jesus não é o Filho de Deus, Deus não é mais o Pai! Deus não é mais amor! Se negarmos Jesus, não teremos mais o Pai. O problema é colher que Jesus vem do Pai, que é esta a sua origem, a sua verdade.

VV. 24-25: “Procurai que permaneça[69] em vós aquilo que ouviste desde o principio[70]”: no confronto de Paulo, João sublinha mais a importância da interiorização da palavra. O Evangelho é dentro de nós: devemos conservá-lo, guardá-lo dentro. A Palavra deve crescer dentro de nós, deve se tornar minha carne[71].

VV. 28-29: O tempo presente é o tempo da ausência de Jesus. Existe uma vinda do Senhor que nós esperamos. Esta espera incide no presente: agora vivemos em função daquela vinda. Agora é o momento da vigilância, é o momento em que devemos praticar as obras da caridade. Quando o Senhor verá serão estes talentos da caridade que Ele cobrará de nós. Faz parte da experiência cristã a espera do futuro[72]. Enquanto esperamos que o Senhor venha, nós andamos ao seu encontro com uma vida perfeita na caridade. João nos convida a fazer a experiência do Senhor para podê-lo reconhecer no dia da sua vinda.  Os anos que temos pra viver nesta terra servem para nos colocarmos em sintonia com Ele. Se permanecermos em comunhão com Cristo desde agora a vida eterna será só uma mudança de substancia, de modalidade. Devemos viver agora na maneira que o encontro com o Senhor não queira dizer sermos difamados [73] .



[1] 1 Jo 1, 9.
[2] Cf Ez 36, 26s.
[3] 1 Jo 1, 10.
[4] 1 Jo 2,1.
[5] Cf. Rom 16,26.
[6] Nisso está o fundamento da ética cristã, que não é fruto do mero esforço humano, mas sim, participação da vida divina em nós por meio dos sacramentos. Não basta, de fato conhecer os mandamentos para realizá-los: precisa da graça de Deus que age em nós para ajudar-nos a viver o amor. Neste sentido a ética cristã é bem diferente da ética filosófica. Sócrates, por exemplo, achava que para o homem bastava conhecer o bem para realizá-lo. A experiência corriqueira nos alerta que na realidade, o homem não consegue realizar o bem que percebe e conhece. É aquilo que Paulo sustenta na carta aos Romanos (7, 14s.)quando fala que o homem conhece o bem mas não consegue fazê-lo porque está dominado pelo pecado. É necessário que Cristo entre na vida do homem e da mulher para que os seus mandamentos sejam realizados. É claro que não podemos também cair no erro oposto, ou seja, num determinismo sacramental como se bastasse participar dos sacramentos para santificar a nossa vida (cf. Lúmen Gentium 14). O homem, a mulher deve fazer de tudo para que a graça de Deus possa agir na nossa humanidade e transformá-la. Quem aprofundou este assunto foi Santo Agostinho. Foi ele que percebeu na vontade uma faculdade do ser humano, uma faculdade estragada pelo pecado. Por isso, mais uma vez, para viver a caridade é necessário Cristo. E é por essa razão que são João na sua primeira carta bate sempre na mesma tecla, ou seja, a prova que Cristo está em nós é a nossa vivencia do amor, pois somente Cristo viveu o amor de uma forma perfeita, somente a sua humanidade resistiu á tentação do pecado, que empurra o homem para o caminho do egoísmo e do ódio de se mesmo e dos outros.
[7] Cf. Dt 10,15.
[8] Cf. Josué 24: a Assembléia de Siquem.
[9] Nessa altura podemos falar do sentido da aliança como compromisso entre dois parceiros. Quando um dos parceiros é Deus o conteúdo da aliança é a promessa que, para ser alcançada, exige o respeito da mesma aliança (cf. Gen 12, 1-4; Ex 24; 32).
[10] 1Jo 2,6.
[11] V. Losky acha que seja esta a diferença entre a mística católica e a mística ortodoxa, mais voltada para a contemplação (cf. ).
[12] Cf. Jo 13, 12-15.
[13]Cf. Fil 2,5-8; 1Pd2, 21; Cor 11,1.
[14] Cf. Jo 10.
[15] Cf. Jo 1,39s.
[16] Jo 6,57.
[17] Cf. Jo 5,26.
[18] Cf. Gal 5,22; Jo 17,26.
[19] “O sentido característico de aletheia no Quarto Evangelho significa a realidade eterna enquanto revelada aos homens, seja a realidade em si, seja a revelação dela... É a verdade o conhecimento da realidade, que vem por meio de Jesus Cristo” (cf. Dodd, cit. Pp.237-238).
[20] Cf Jo 8,32.
[21] Na reflexão de Ratzinger a Verdade cristã se identifica com o amor. Pra ele este é um dos dados mais elevados do pensamento cristão (cf. ).
[22] 1Jo 2,5.
[23] 1Jo 2,7.
[24] Cf Jo 13, 34-35.
[25] Cf 1 Cor 12,31.
[26] Cf. também: 1Ts 3,12.
[27] Cf Rom 13,12.
[28] Cf. Rom 8. Neste sentido permanece sempre interessante e cheia de sentido a carta a Diogneto, in modo especial o capitulo 5.
[29] Cf. Ez 36.
[30] 1Jo 2,12.
[31] Cf. Jo 20,20-21.
[32] Cf. Rom 7, 14-8,39.
[33] Cf. Jo 20,22.
[34] Jo 20, 22.
[35] 1Jo 2,12.
[36] 1Jo 2,13.
[37] Cf. Jo 8, 31-32
[38] Cf Jo 17,3
[39] Cf. Jo 16,13.
[40] 1Jo 2,13b.
[41] Cf. Ef 6,10-18.
[42] 1Jo5,4.
[43] Cf Jo 16,33.
[44] 1Jo 2,15.
[45] Cf. Jo 16,11.
[46] Nessa altura abre-se o espaço para uma reflexão de tipo sóciopolítico.
[47] Cf. 1Jo 2,17.
[48] Ivi.
[49] Cf. Tg 4, 1-5.
[50] A sexualidade do ponto de vista da antropologia bíblica é o ponto mais alto da possibilidade do conhecimento do outro. A pessoa é ao mesmo tempo carne e espírito. NA sexualidade este momento de encontro chega ao seu cume.
[51] Cf. a definição que Barth dava de religião como máxima expressão de ateísmo quando a religião é vista como um meio de tirar proveito de Deus, quando Deus é cobrado para realizar a vontade do homem.
[52] Cf. Comento a primeira carta á João.
[53] Cf. Ez 28, 1-10.
[54] Cf. Mt 19, 23-24.
[55] Cf. Lc 12, 15-21.
[56] Cf. Mt 6,19-21
[57] O tema da vigilância é um tema importante na primeira comunidade cristã. Prova disso são as cartas de Paulo que em varias circunstâncias falam deste tema.
[58] Cf. Mt 25, 1-31.
[59] 2 Tm 4,3-4.
[60] Cf. Gal 1,6s.
[61] Cf. 2Pd 3,8.
[62] Sobre este assunto Cf. Lúmen Gentium 14, e também Agostinho.
[63] Pode se fazer uma menção ao Batismo da Igreja primitiva, aonde a unção era realizada no corpo todo da pessoa.
[64] Cf. Mt 13, 53-56).
[65] Cf. a heresia de Cerinto.
[66] Cf. Rom 1, 19-20.
[67] Muito diferente é o Deus dos filósofos: cf. Aristóteles: Deus como pensamento de pensamento, que pode pensar só para si mesmo.
[68] Cf. Mc 14,25.
[69] Cf Jo 15, 1-8. O tema da permanência é um tema querido a João. É o tema do discipulado que vive na presença do Senhor, grudado nele e na sua palavra. A verdade desta permanência é a fidelidade.
[70] Cf. 2 Tm 3,14; 2 Tm 1,14.
[71] Cf. o texto de Agostinho que, no comento a estes versículos, fala do mestre interior.
[72] Cf. Rom 13, 11-12; 1Ts 5,2.5.
[73] Cf. Mt 7, 21-23.