sabato 4 aprile 2026

V DOMINGO DE PÁSCOA

 




Atos 6, 1-7; Salmo 32; 1 Pedro 2,4-9; João 14,1-12

 

Paolo Cugini

 

 

Durante a Páscoa, a liturgia nos permite ouvir diversas passagens do livro dos Atos dos Apóstolos, que narram os primórdios da comunidade cristã. Ao ouvirmos essas passagens, somos confrontados com as escolhas que os discípulos enfrentaram ao se verem sozinhos para dar continuidade à obra do Mestre. Não era fácil entender como ajudar os neófitos a abraçarem esse novo caminho, especialmente os de origem judaica. Séculos de história não podem ser apagados em pouco tempo, principalmente quando se trata de religião, costumes e rituais semanais. Além disso, novos problemas surgiram da experiência inédita das comunidades cristãs, apresentando desafios nunca antes vistos ou vivenciados, que exigiam novas respostas evangélicas. Como os primeiros cristãos abordaram a vida de uma nova maneira? Que escolhas fizeram?

Não nos convém deixar de lado a palavra de Deus para servir às mesas (Atos 6:1ss). A primeira leitura ajuda-nos a responder à questão que formulámos. De facto, a passagem dos Atos dos Apóstolos fala de um problema que surgiu na primeira comunidade. É um problema concreto, muito real, que exigia respostas claras e imediatas. Há pessoas na primeira comunidade que se sentem discriminadas. São as mulheres de origem grega que percebem o favoritismo da comunidade para com as mulheres de origem judaica. Trata-se, portanto, de uma questão significativa, que diz respeito à justiça e ao sentido da caridade. Os apóstolos são convidados a intervir. A escolha que fazem é crucial para o futuro da comunidade. Percebem que, se quiserem continuar no caminho de Jesus, não podem separar-se da sua palavra. Afinal, foi precisamente isso que Jesus lhes disse antes de morrer. No Evangelho de João, durante a Última Ceia, Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos, repete várias vezes a mesma frase: permanecem em mim (João 15:12). Por isso, diante do problema mencionado, os discípulos não hesitaram em afirmar que o ponto de partida para cada decisão tomada pela comunidade, mesmo as mais difíceis como as que enfrentavam, não poderia ser ignorar a palavra do Senhor. Além disso, nessa circunstância, eles perceberam sua própria vocação, sua identidade, que se dá pela fidelidade ao ensinamento do Mestre contido no Evangelho. Mesmo que o problema que enfrentavam fosse tão delicado quanto servir à mesa, servir aos pobres, uma questão de caridade, que é central no ensinamento do Mestre, os discípulos compreenderam que seu mandato era a adesão ao Evangelho, que a comunidade, para continuar no espírito de Jesus, deve sempre se referir à sua palavra, ao seu ensinamento. Portanto, a comunidade deve sempre ter pessoas cuja prioridade seja ouvir o Evangelho, aprofundar-se e estudar a palavra de Jesus, para que as escolhas feitas na comunidade estejam sempre em conformidade com o ensinamento do Senhor.

A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular, uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo (1 Pedro 2:7). A primeira carta de Pedro, lida na segunda leitura de hoje, nos lembra outro critério importante inspirado pela mensagem de Jesus, que a comunidade deve compreender para guiar suas escolhas. Trata-se de entender que a comunidade que segue o exemplo do Senhor não busca o sucesso, a afirmação no mundo, ou seja, a glória dos homens. " Se me odiaram, também vos odiarão " (João 15:8). É o que Jesus diz aos seus discípulos no contexto da Última Ceia, advertindo-os de que o que encontrarão ao seguir o seu caminho será um contraste evidente com aquele mundo construído sobre o egoísmo, que não aceita a partilha, a justiça ou a preocupação com o menor. A comunidade cristã apresenta-se como uma alternativa à lógica do mundo, à dinâmica da opressão e da violência, à lógica da injustiça que cria um mundo desigual em que os pobres são cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. A comunidade que se reconhece na proposta de Jesus e acolhe o seu espírito deve preparar-se para viver em tensão, para ser uma pedra rejeitada que, com o tempo, se torna uma pedra angular, o alicerce de um novo mundo, de uma forma de estar no mundo que realiza o Evangelho de Jesus.

“Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,1). Jesus nos mostrou o Pai, revelou-o a nós em suas ações e palavras. Ele nos fez entender que o Pai não está no céu, distante, em sua suposta onipotência, mas podemos vê-lo quando lava os pés de seus discípulos, quando cura leprosos ou quando alimenta os famintos. Tudo isso é escandaloso e causa resistência, tensão, escândalo. É difícil abrir mão da própria visão de mundo, especialmente quando se trata de religião, de formas de compreender tradições e cultos. Em todo caso, quando a comunidade reproduz esses gestos de Jesus, torna-se uma pedra de tropeço, uma novidade absoluta, e o mundo pode ver o Pai e crer nele. 

 

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