Atos 6, 1-7; Salmo
32; 1 Pedro 2,4-9; João 14,1-12
Paolo Cugini
Durante a Páscoa, a liturgia
nos permite ouvir diversas passagens do livro dos Atos dos Apóstolos, que
narram os primórdios da comunidade cristã. Ao ouvirmos essas passagens, somos
confrontados com as escolhas que os discípulos enfrentaram ao se verem sozinhos
para dar continuidade à obra do Mestre. Não era fácil entender como ajudar os
neófitos a abraçarem esse novo caminho, especialmente os de origem judaica.
Séculos de história não podem ser apagados em pouco tempo, principalmente
quando se trata de religião, costumes e rituais semanais. Além disso, novos
problemas surgiram da experiência inédita das comunidades cristãs, apresentando
desafios nunca antes vistos ou vivenciados, que exigiam novas respostas
evangélicas. Como os primeiros cristãos abordaram a vida de uma nova maneira?
Que escolhas fizeram?
Não nos convém deixar de lado
a palavra de Deus para servir às mesas (Atos 6:1ss). A primeira leitura ajuda-nos a
responder à questão que formulámos. De facto, a passagem dos Atos dos Apóstolos
fala de um problema que surgiu na primeira comunidade. É um problema concreto,
muito real, que exigia respostas claras e imediatas. Há pessoas na primeira
comunidade que se sentem discriminadas. São as mulheres de origem grega que
percebem o favoritismo da comunidade para com as mulheres de origem judaica.
Trata-se, portanto, de uma questão significativa, que diz respeito à justiça e
ao sentido da caridade. Os apóstolos são convidados a intervir. A escolha que
fazem é crucial para o futuro da comunidade. Percebem que, se quiserem
continuar no caminho de Jesus, não podem separar-se da sua palavra. Afinal, foi
precisamente isso que Jesus lhes disse antes de morrer. No Evangelho de João,
durante a Última Ceia, Jesus, dirigindo-se aos seus discípulos, repete várias
vezes a mesma frase: permanecem em mim (João 15:12). Por isso,
diante do problema mencionado, os discípulos não hesitaram em afirmar que o
ponto de partida para cada decisão tomada pela comunidade, mesmo as mais
difíceis como as que enfrentavam, não poderia ser ignorar a palavra do Senhor.
Além disso, nessa circunstância, eles perceberam sua própria vocação, sua
identidade, que se dá pela fidelidade ao ensinamento do Mestre contido no
Evangelho. Mesmo que o problema que enfrentavam fosse tão delicado quanto
servir à mesa, servir aos pobres, uma questão de caridade, que é central no
ensinamento do Mestre, os discípulos compreenderam que seu mandato era a adesão
ao Evangelho, que a comunidade, para continuar no espírito de Jesus, deve
sempre se referir à sua palavra, ao seu ensinamento. Portanto, a comunidade
deve sempre ter pessoas cuja prioridade seja ouvir o Evangelho, aprofundar-se e
estudar a palavra de Jesus, para que as escolhas feitas na comunidade estejam
sempre em conformidade com o ensinamento do Senhor.
A pedra que os construtores
rejeitaram tornou-se a pedra angular, uma pedra de tropeço e uma rocha de
escândalo (1 Pedro
2:7). A primeira carta de Pedro, lida na segunda leitura de hoje, nos lembra
outro critério importante inspirado pela mensagem de Jesus, que a comunidade
deve compreender para guiar suas escolhas. Trata-se de entender que a
comunidade que segue o exemplo do Senhor não busca o sucesso, a afirmação no
mundo, ou seja, a glória dos homens. " Se me odiaram, também vos
odiarão " (João 15:8). É o que Jesus diz aos seus discípulos no
contexto da Última Ceia, advertindo-os de que o que encontrarão ao seguir o seu
caminho será um contraste evidente com aquele mundo construído sobre o egoísmo,
que não aceita a partilha, a justiça ou a preocupação com o menor. A comunidade
cristã apresenta-se como uma alternativa à lógica do mundo, à dinâmica da
opressão e da violência, à lógica da injustiça que cria um mundo desigual em
que os pobres são cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. A
comunidade que se reconhece na proposta de Jesus e acolhe o seu espírito deve
preparar-se para viver em tensão, para ser uma pedra rejeitada que, com o
tempo, se torna uma pedra angular, o alicerce de um novo mundo, de uma forma de
estar no mundo que realiza o Evangelho de Jesus.
“Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,1). Jesus nos mostrou o Pai, revelou-o a
nós em suas ações e palavras. Ele nos fez entender que o Pai não está no céu,
distante, em sua suposta onipotência, mas podemos vê-lo quando lava os pés de
seus discípulos, quando cura leprosos ou quando alimenta os famintos. Tudo isso
é escandaloso e causa resistência, tensão, escândalo. É difícil abrir mão da
própria visão de mundo, especialmente quando se trata de religião, de formas de
compreender tradições e cultos. Em todo caso, quando a comunidade reproduz
esses gestos de Jesus, torna-se uma pedra de tropeço, uma novidade absoluta, e
o mundo pode ver o Pai e crer nele.
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