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sexta-feira, 31 de maio de 2024

IX DOMINGO ano B

 




(Dt 5.12-15; Sal 80; 2Cor 4.6-11; Mc 2.23-3.6)

 

 Paulo Cugini

 

Guarda o dia de sábado para santificá-lo, como o Senhor teu Deus te ordenou [...] Lembra-te de que foste escravo na terra do Egito e que o Senhor teu Deus te tirou de lá com mão forte e mão estendida braço (Dt 4, 12.14).

O tema do descanso, evocado na primeira leitura, é sem dúvida importante na vida das pessoas. Na verdade, através do descanso recuperamos as forças para poder realizar as atividades que a vida exige. Sem descanso teríamos dificuldade para trabalhar, pensar, mas também para nos divertir. Não é por acaso, portanto, que desde as primeiras páginas da Bíblia encontramos este tema que, com o tempo, adquire uma importância decisiva na própria vida religiosa. É interessante notar que entre a escrita do livro do Gênesis e a do Deuteronômio o tema do descanso ganha novos significados. Não é mais lembrado apenas como o dia em que o Senhor descansou depois de criar o céu e a terra. A memória estende-se também à experiência da escravidão no Egito, para a qual o descanso sabático se torna necessário para recordar o evento de libertação que Deus realizou entre o seu povo. O descanso torna-se sinal de libertação e, na memória, o povo tem a possibilidade de dar sentido à sua história como passagem da escravidão à libertação.

Os fariseus lhe disseram: Veja, por que fazem no sábado o que não é permitido? (Marcos 2:23). O Evangelho mostra a transformação negativa que ocorreu no mandamento de Deus sobre o sábado. Os fariseus, de fato, transformaram este mandamento de Deus, significativo em si e com a sua beleza existencial, numa nova escravidão. Ao longo de alguns séculos, o povo de Israel passou assim da escravidão no Egito à escravidão às prescrições dos homens do templo, o que tornou a vida do povo insuportável. É neste contexto religioso que deve enquadrar-se o trecho evangélico de hoje.

Havia um homem que tinha uma mão atrofiada, e eles estavam observando-o para ver se ele iria curá-lo no sábado e depois acusá-lo. A narrativa da passagem pretende mostrar até que ponto a ação sacerdotal sobre as leis mosaicas havia chegado a um ponto de distorção e, em particular, sobre aquela que era considerada a prescrição que regia todas as outras, a do sábado. A atenção obsessiva à lei torna-se tão rígida que não consegue compreender a contradição que leva ao endurecimento do coração, a não sentir misericórdia mesmo para com uma pessoa gravemente doente, como é o caso do homem da mão atrofiada. É a afirmação radical do primado da lei sobre a consciência e o bem das pessoas, que distorce o sentido autêntico das leis e da sua função, a de estar ao serviço das pessoas. A lei não pode tornar-se absoluta, como no caso em questão, caso contrário o contexto idólatra torna-se evidente.

. Ele disse ao homem cuja mão estava atrofiada: “Fique no meio!” Depois perguntou-lhes: “É lícito no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou tirá-la?”. Mas eles ficaram em silêncio. É o sentido da comunidade cristã: colocar no centro os pobres, as pessoas que sofrem. Jesus faz um gesto que deve ser um exemplo para as futuras comunidades que se inspirem na sua mensagem. Não é possível que as leis levem à indiferença para com aqueles que sofrem. O silêncio dos fariseus diante da pergunta de Jesus, que procura estimular as suas consciências, revela até que ponto atingiu a mistificação da lei mosaica. Ao colocar o homem da mão atrofiada no centro da comunidade, Jesus abre um caminho de desmascaramento das leis desenvolvidas pela classe sacerdotal que, diante de uma situação real, mostra todo o seu vazio. O debate sobre o significado do sábado não se realiza, de fato, a nível doutrinal, mas a nível existencial. É diante de uma pessoa concreta que se decide a validade de uma lei e seu verdadeiro significado. É lícito no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou tirá-la? Uma lei é válida na medida em que se manifesta de forma coerente com a essência daquele de quem se diz provir: a misericórdia. A falta de piedade, de misericórdia para com quem sofre, é o sinal claro de que a lei foi subvertida e manipulada a ponto de se tornar irreconhecível e já não ter utilidade.

E os fariseus saíram imediatamente com os herodianos e reuniram-se contra ele para matá-lo. Não há conversão dos fariseus mesmo diante de evidências contundentes como o caso da cura da mão atrofiada. Jesus desmascara a hipocrisia dos homens do templo, interessados ​​em manter um sistema que lhes desse lucro e poder. Eles não estão interessados ​​no bem das pessoas, mas em serem respeitados e bem pagos. O processo de desmascaramento levado a cabo por Jesus, que expõe a hipocrisia da religião do templo, terá de pagar o pesado preço da perseguição e da morte. Não é por isso, como sabemos, que Jesus desistirá da sua missão de libertação. Com efeito, as suas palavras e os seus gestos tornar-se-ão cada vez mais claros e libertadores. É, então, verdade que com Jesus «veio ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todo homem» (Jo 1, 9).

 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 




 

(Jó 7,1-4. 6-7; Sl 146; 1 Cor 9,16-19.22-23; Mc 1, 29-39)

 

A Palavra de Deus não só oferece indicações úteis para a vida, mas também apresenta chaves para compreender a condição humana. É o que lemos hoje na primeira leitura retirada de um texto do livro de Jó: “ lembra-te que a minha vida é um sopro ” (Jó 7.7). São palavras que abordam um tema frequentemente recorrente na Bíblia, desde a literatura profética até a literatura sapiencial. Com efeito, o próprio Isaías afirma: “ Como um tecelão, distorceste a minha vida... Do dia à noite levaste-me ao limite ” (Is 38,12). Até a literatura deuteronomista, desenvolvida na época do exílio na Babilônia, elabora uma reflexão em harmonia com o relatado até agora: “ De manhã direis: se fosse tarde! E à noite você dirá: se fosse de manhã! Por causa do medo que agitará o seu coração e das coisas que os seus olhos verão ” (Dt 28,67). Talvez, porém, a reflexão mais profunda neste sentido se encontre no livro de Eclesiastes, animado por uma visão pessimista da existência que, por vezes, beira o niilismo mais radical nas repetidas passagens em que afirma que: “tudo é vaidade”. (Eclesiastes 2:23), que não há sentido na vida. “ Todos os dias do homem nada mais são do que dores dolorosas e aborrecimentos; nem de noite o seu coração descansa ” ( Eclesiastes 2:23). Tudo isto para dizer que a condição existencial da vida quotidiana deve lidar com toda uma série de problemas, que limitam a ação de homens e mulheres, dificultam os seus sonhos e projeções futuras.

“ Quando chegou a tarde, depois do pôr do sol, trouxeram-lhe todos os doentes e possessos ” (Mc 1,32). Jesus é quem pode curar as feridas da humanidade! A partir de agora há algo na história, um princípio de vida plena que preenche todos os pedidos de sentido, que é capaz de curar todas as feridas da alma, que é capaz de orientar qualquer pessoa neste mundo que perdeu o rumo. Jesus veio cumprir as expectativas anunciadas pelos profetas, que de certa forma responderam ao grito desesperado da literatura sapiencial: “ Ó todos vocês que têm sede, venham à água, vocês que não têm dinheiro, venham, comam: venham, compre sem pagar, sem pagar vinho e leite… Incline o ouvido e venha a mim, ouça e você viverá ” (Is 55,1.2). Jesus é a água que sacia a sede, o pão que alimenta, a Palavra que orienta e dá sentido à vida.

Nestas palavras há, a meu ver, uma grande indicação espiritual que a liturgia nos permite vislumbrar. A ferida é o ponto de partida da descoberta de Deus. Além disso, o salmo que ouvimos na liturgia nos lembra isto: “Eu te dei consciência do meu pecado, não encobri a minha culpa ” (Sl 31). É o que não aceitamos em nós mesmos, o que nos faz sofrer e que, de qualquer forma, tentamos esconder de nós mesmos e dos outros e que provoca anos de fuga em busca de alívio em outro lugar, um alívio causado pelo esquecimento, por querer esquecer em algum lugar. tudo custa o que nos molda, nos forma. Pois bem, a Palavra de hoje diz-nos que Jesus veio curar precisamente aquela ferida que escondemos de nós mesmos com tanto cuidado, aquela que não nos deixa dormir à noite, que nos faz sentir mal, que machuca ao ponto que nos faz questionar constantemente o sentido autêntico da nossa existência. É parando um dia para nos escutarmos, para olharmos o que de muitas maneiras tentamos esconder de nós mesmos e dos outros, com um olhar sincero, aberto a uma intervenção salvadora que vem do alto, que podemos experimentar a presença Dele que veio nos salvar com seu amor.

Como ser curado pelo Senhor? Deixar-se tocar por Ele. “ Aproximou-se e fê-la levantar-se, tomando-a pela mão” (Mc 1,31). Permita que Jesus nos unja com o bálsamo do seu amor, com o som da sua voz. É olhando com sinceridade para a nossa ferida que podemos experimentar o toque do Senhor, que vem ao nosso encontro com a sua Palavra, com a comunidade na qual se faz vivo e presente. É abrindo a ferida diante do Senhor que podemos experimentar o dom da sua humanidade que encontramos nos sacramentos, sinais visíveis do seu amor invisível. E é completando este caminho de libertação e de salvação que também nós poderemos dizer com o salmista: “ Alegrai-vos no Senhor e exultai, justos! Todos vocês que são retos de coração, gritem de alegria!” (Sl 31).

sábado, 27 de agosto de 2022

EVANGELHO DE JOÃO CAPITULO 5

 




Paolo Cugini


VV. 1-18: o paralítico doente a mais de 38 anos é claramente o símbolo da humanidade apodrecida no pecado, que não acredita mais numa possibilidade de salvação. É por isso que Jesus pergunta: “Você que ficar curado?”. Não uma pergunta fútil, pois Jesus percebe a situação de descaso e de abandono do paralítico. Jesus, mais uma vez, vive este encontro com o doente como uma possibilidade de explicar o sentido da sua presença e da sua missão.

Logo que Jesus cura o paralítico, as autoridades começam a questioná-lo. “Então as autoridades começaram a perseguir Jesus”. É um dato evangélico extremamente profundo. Deus em Cristo entra na historia dos homens e mulheres mergulhados na morte e não é aceite. Atualizando podemos afirmar que cada vez que a Igreja vive o Evangelho produzindo vida, logo si torna motivo de questionamento e de critica por parte do poder.

 

VV 19-30: “O Filho faz apenas o que vê o Pai fazer”. “Eu não procuro fazer a minha vontade, e sim a vontade daquele que me enviou”.

Nestes dois versículos encontramos uma verdade profunda da identidade de Jesus. Sendo que o Filho quer fazer somente a vontade de Deus, e nada mais, isso quer dizer que nos seus atos e nas suas Palavras deparamos com a vontade de Deus, com o mesmo Deus.

Outros dois dados encontramos nestes versículos que estamos comentando. Em primeiro lugar É indicado que Jesus pode dar a vida porque, como Deus, Ele tem a vida em si mesmo. Por isso Ele realiza milagres, esbanjando vida. Por isso a sua Palavra é cheia de vida, porque Ele participa  da vida de Deus, Ele tem vida em si mesmo.

Em segundo lugar é precisado que Deus entregou o poder de julgar para o seu Filho Jesus. Se isso é verdade, quer dizer que o tempo presente é o tempo para fazer de tudo para deixar que Jesus nos conheça e também para que possamos conhecer a Jesus.

VV. 31-47: “Vocês vivem estudando s escrituras, pensando que vão encontrar nelas a vida eterna”.

Se o estudo das Escrituras não nos leva a reconhecer Jesus na historia, não adianta a nada este estudo. Toda a Bíblia fala de Jesus, então devemos procurar a Bíblia não para resolver os nossos problemas, mas para melhor conhecer a Jesus. Ao longo da semana deveríamos nos questionar: que tipo de conhecimentos temos da Bíblia? Porque a folhamos? O que procuremos nela?

“Eu não aceito elogios dos homens”. Porque é tão importante conhecer a Jesus, ler a Palavra de Deus? A resposta a encontramos neste versículo: para vivermos em modo diferente do mundo. De fato, os homens e as mulheres no mundo gostam de serem aplaudidos, buscam a gloria dos homens e isso por casa do vazio que está dentro deles. Se de verdade só Deus basta a nossa vida, se estamos vivendo somente por Ele, então a nossa vida se torna escondida com Cristo em Deus (Col3, 3). Jesus critica radicalmente o estilo de vida do mundo. Por isso é importante conhece-lo assim como ele é de verdade e não como queremos que seja Só Ele pode nos conduzir fora de uma vda vazia, em sentido.

Caminhemos, então, em busca da Verdade que, em Cristo, se deu a conhecer. E se deu a conhecer isso quer dizer que capacitou o homem e a mulher para captá-lo.