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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

 




Sir 27h30-28h9; Sal 102; Rm 14,7-9; Mt 18,21-35

Paulo Cugini

 

Continua a leitura do capítulo 18 do Evangelho de Mateus que estamos ouvindo neste ano litúrgico. Este é o capítulo que tem como tema a Igreja. De um ponto de vista geral, o interessante é que, quando Jesus fala da Igreja, não tem em mente a hierarquia, a instituição, mas a relação de irmãos e irmãs dentro da comunidade. Afinal, sabemos bem quanta atenção Jesus dedicava ao diálogo diário com os seus discípulos, a tal ponto que, depois de cada parábola, dedicava tempo a explicar-lhes as passagens para que pudessem compreendê-las. É nesta perspectiva, portanto, que a página evangélica de hoje deve ser lida, porque o conteúdo revela um aspecto fundamental para que Jesus esteja presente na comunidade, nomeadamente o perdão. Vamos nos aprofundar na discussão.

O reino dos céus é semelhante a um rei que queria acertar contas com seus servos. A parábola que Jesus conta serve para explicar o mistério da misericórdia. São dois episódios que se sobrepõem e causam um contraste chocante. Dois episódios com conteúdo e dinâmica semelhantes, mas com conclusão oposta. Enquanto no primeiro caso o homem que implora ao mestre obtém o perdão, no segundo caso não. Conclusões diferentes, mas relacionadas. Na verdade, a parábola contém a explicação da pergunta de Pedro que se encontra no início do trecho: Pedro aproximou-se de Jesus e disse-lhe: «Senhor, se o meu irmão cometer pecados contra mim, quantas vezes terei que lhe perdoar? Até sete vezes? E Jesus respondeu-lhe: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Em causa não está apenas o problema do perdão, que em si não é simples, mas também a repetitividade do gesto: setenta vezes sete, ou seja, sempre.

“Você também não deveria ter tido misericórdia do seu companheiro, assim como eu tive misericórdia de você?”. Este versículo é o centro de toda a parábola: devemos perdoar os nossos irmãos e irmãs porque nós mesmos fomos perdoados. A nossa vida de fé nasce da escolha de misericórdia de Deus pela humanidade. A própria criação é um ato de amor que manifesta o sentido da vida como saída de si mesmo para os outros. Perdoar significa, nesta perspectiva, colaborar no projeto de criação de Deus que deseja vida para todos. Cada vez que não perdoamos nosso irmão e irmã, não permitimos a possibilidade de um novo começo, causando caminhos de desespero. Pelo contrário, o perdão permite que a pessoa envolvida se levante e retome a jornada. Misericórdia é vida: esta é a grande mensagem da liturgia de hoje.

Além disso, se é verdade que somos chamados a perdoar porque fomos os primeiros a ser perdoados, a falta de perdão para com os nossos irmãos põe em causa a autenticidade do nosso caminho de fé. Quem não perdoa está longe do Evangelho porque não permite que o Espírito Santo entre e opere. Com efeito, um dos aspectos mais significativos do Espírito Santo é que, em todos aqueles que o acolhem com fé, ele reproduz em nós os mesmos traços da humanidade de Jesus. Ou seja, o Espírito Santo nos cristifica, como dizia São Paulo quando, na carta aos Gálatas, afirma: “meus filhos, a quem de novo dou à luz com dores, até que Cristo seja formado em vós! (Gl 4:19). Pois bem, entre os traços da humanidade de Jesus que o Espírito forma em nós estão, sem dúvida, o perdão e a misericórdia. É por isso que podemos dizer com segurança que, aqueles que não perdoam os seus irmãos e irmãs na comunidade estão muito longe de Cristo.

O ressentimento e a raiva são coisas horríveis, e o pecador os carrega dentro de si. Quem se vinga sofrerá a vingança do Senhor, que sempre tem em mente os seus pecados. (Sir 27,33f). Encontramos o tema do perdão de forma avançada, ou seja, muito semelhante aos argumentos do Evangelho, mesmo em algumas passagens do Antigo Testamento. Sabemos que o tema da vingança e a lógica do olho por olho e dente por dente foi um dos pilares da lei mosaica. Aos poucos, porém, também através da pregação profética, a reflexão bíblica vai percebendo a importância do perdão. como manifestação da misericórdia de Deus. Os versículos do livro do Eclesiástico, que entre outras coisas é muito recente e quase contemporâneo de Jesus, demonstram este caminho espiritual. Perdoe a ofensa ao seu próximo e através da sua oração os seus pecados serão perdoados. Existe a percepção de que o perdão dos pecados afeta a vida espiritual: por quê? Pelas razões que dissemos acima, nomeadamente que cada vez que perdoamos colaboramos no plano criativo de Deus e não interrompemos o desejo de vida que vem de Deus, desejo que permanece proibido quando a pessoa endurece nas suas posições e não perdoa. A verdadeira espiritualidade, portanto, aquela que nasce do encontro com Jesus, leva ao perdão e à misericórdia e, quando isto é posto em circulação, regenera a comunidade.

Ele perdoa todos os seus pecados, cura todas as suas enfermidades, salva a sua vida da cova, cerca-o de bondade e misericórdia (Sl 102). Façamos nossas as palavras do Salmo que nos recorda a ação do Senhor na nossa vida, que nos perdoa e nos salva da cova para que tenhamos vida em abundância.

sábado, 13 de abril de 2019

V° domingo de Quaresma. C




(Is 43, 16-21; Sal 126; Fil 3, 8-14; Jo 8, 1-11)


Paolo Cugini

1. Estamos chegando ao fim da caminhada de quaresma e a liturgia nos oferece a oportunidade de concretizar o sentido daquilo que meditamos ao longo destas semanas. Como já lembramos nestes domingos, o tempo de quaresma é um tempo propicio para aprimorarmos a nossa fé e, assim, tomarmos mais consciência da nossa responsabilidade com o Batismo que recebemos. A final de conta nos tornamos filhos e filhas de Deus, criaturas novas e, tudo isso, deveria ser bem evidente e manifesto nos nossos atos cotidianos, nas decisões que tomamos, nos projetos que queremos realizar. Não é um caso que, na Igreja primitiva, o tempo de quaresma era utilizado pela preparação final dos catecúmenos, ou seja, daquelas pessoas que, na noite de Páscoa, iriam receber o sacramento do Batismo.
 Estamos nos aproximando da grande celebração da Páscoa e a pergunta que deveria nos acompanhar ao longo desta semana é a seguinte: quer dizer que em Cristo nos tornamos criaturas novas? Como é que age no mundo uma pessoa que acolhe o Espírito de Jesus?

2. O Evangelho que acabamos de ouvir nos oferece bastante material para encontrarmos as respostas que procuramos. A cena que ouvimos é uma das mais emocionantes de todo o Evangelho: Jesus, uma mulher adultera e o povo. De um lado o povo enfurecido, que quer apedrejar uma mulher surpreendida em adultério. Do outro lado Jesus que fica em silencio. É sem duvida esta postura de Jesus que chama atenção. Porque este silencio? Talvez porque, perante a arrogância do homem, não sobra que o silencio. Jesus nos convida a silenciar os nossos julgamentos, os nossos pensamentos, as nossas condenações perante um pecador, uma pecadora, porque ela também é filho e filha de Deus. Silencio orante, porque perante o pecador não resta para Igreja outra coisa que esta: rezar.
  “Moises na Lei mandou apedrejar tais mulheres”. É triste constatar como a Palavra de Deus às vezes é puxada para justificar os nossos atos horríveis, a nossa estupidez. Por isso Jesus cala. O que precisa dizer perante uma humanidade que não tem nenhuma vergonha de citar a Palavra de Deus pra cometer um crime? Precisa comentar alguma coisa?

3. “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.
 Jesus não veio para julgar e condenar ninguém. O tempo do julgamento e da condenação será somente no fim dos tempos (Jo 5, 21ss, Mt 25). Isso quer dizer que, até quando não chegará este dia, qualquer momento é importante pela nossa converso. Por isso Deus mandou o seu Filho Jesus no meio de nós, para falar conosco e despertar em nós a imagem de Deus perdida por causa do pecado. Escutando a Sua Palavra, todos deveriam sentir o desejo de abandonar os caminhos negativos e procurar a vida verdadeira, que somente Jesus pode nos oferecer. Para isso acontecer, precisamos entrar em nós mesmos, tomar consciência da nossa vida, da nossa situação. É isso que Jesus tenta fazer com aquela pergunta impressionante: “Quem não tiver pecado...”. E quem é que não tem? Quem é aquele homem e aquela mulher que não tem consciência das próprias faltas? Tudo mundo tem, só que para isso se tornar evidente, o homem deve ter a possibilidade de entrar em si mesmo, para se escutar. A pergunta que Jesus coloca, não julga ninguém, mas oferece a todos a possibilidade de entrar em si mesmo, captar a própria situação, que é uma situação de pecado, de miséria e, ninguém, nesta situação, tem o direito de julgar ninguém.
O Evangelho relata que, depois de Jesus ter colocado aquela pergunta, não ficou ninguém. A pergunta de Jesus surtiu o efeito esperado: ninguém atirou pedras na mulher. Deveria ser esta a postura da Igreja no mundo. Não uma Igreja que julga e condena, que atira pedras, mas uma Igreja que oferece a todos a possibilidades de entrar em si mesmos, para que cada um possa se encontrar a só com Deus e experimentar a sua grande misericórdia. É, de fato, no encontro pessoal com Deus, que a humanidade descobre o caminho de volta para o Pai.

4. “Eu também não te condeno. Podes ir, de agora em diante não peques mais”.
A mulher pecadora encontrou em Jesus uma possibilidade de vida. De certa forma, escapando da condenação à morte do povo, voltou a viver, ressuscitou. Os homens enxergavam na mulher a aparência de pecado e de morte, Jesus enxergou nela uma possibilidade de vida nova. Por isso Jesus não entrou em contato com a mulher com uma condenação, mas sim com palavras de misericórdia. Só a misericórdia permite ás pessoas de abrir o coração, de se disponibilizarem para caminhar atrás do Senhor. O Espírito Santo que recebemos no batismo, deveria formar em nós este olhar diferente, que não esbarra nas aparências superficiais, mas que consegue entrar na profundeza do coração humano, pra vislumbrar nele uma nova possibilidade de vida. É o pecado que fecha os nossos olhos. Quando ficamos escandalizados do pecado dos outros, é porque estamos vendo claramente aquilo que pode produzir o pecado que está em nós. Perante o pecador, Jesus exige silencio e oração. Silencio pra ficarmos constantemente alertados sobre o desastre que o nosso pecado pode provocar. Silencio como necessidade de um continuo estado de conversão. Na perspectiva do Evangelho, o pecado de um nosso irmão, de uma nossa irmã, deveria ser considerado como uma alerta para a nossa caminhada de fé. Perante o pecador, a única coisa que podemos fazer é a oração e oferecer espaços para o pecador se encontrar com Deus.

 5.  Se quisermos que se forme em nós o mesmo olhar puro de Jesus, precisamos modificar o nosso relacionamento com o nosso passado, os nossos sonhos, os nossos projetos. É disso que são Paulo, na segunda leitura de hoje, nos alerta. “Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele” (Fil 3, 8).
 Se o pecado dos outros, sobretudo das pessoas mais próximas, nos irrita é porque amiúde atrapalha os nossos projetos. Para termos o olhar puro de Jesus, precisamos ser desprendidos de tudo, sobretudo de nós mesmos. È fácil ser desprendidos das coisas matérias: difícil é nos despojarmos do nosso homem velho, do nosso passado, daquilo que achamos importante na nossa vida. Ser cristão é reconhecer que a única coisa que vale a pena levar conosco na viagem da vida é Cristo: o resto é lixo!
É algo de novo que Deus que realizar conosco através de seu Filho Jesus: é isso que devemos enxergar! “Eu que eu farei coisas novas e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (Is 43, 19).
Este tempo de quaresma deveria nos ajudar a chegar á Páscoa com o coração totalmente desprendido de tudo, pra deixar a luz da ressurreição de Cristo entrar e nos conduzir aonde Deus quiser.




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

DOMINGO XXIV/C





(Ex 32,7-11.13-14; Sal 51; 1 Tim 1, 12-17; Lc 15, 11-32)

Paolo Cugini
1. “Um homem tinha dois filhos” (Lc 15,11).
Dizia um grande poeta e filosofo francês, Charles Péguy, que quando estas palavras são proclamadas, ninguém agüenta: toda a humanidade chora. A parábola do filho pródigo, que acabamos de ouvir, mexe com as nossas entranhas, com o nosso emocional, porque chega na profundeza da nossa interioridade desvendando a nossa mesma realidade, a verdade de quem somos nós mesmos. Em outras palavras o conteúdo da Parábola do filho pródigo contem uma verdade tão profunda e autentica que ninguém consegue se esconder: arrebenta a nossa alma. Por isso é importante lê-la em silencio, meditá-la no escondido, para saborear aquilo que tem a dizer para mim, pela nossa conversão e, sobretudo, pela autenticidade da nossa seqüela ao Senhor. Se analisarmos com atenção a parábola do filho pródigo tem dois ensinamentos fundamentais. De um lado revela algo sobre a condição humana e do outro a mesma parábola revela algo sobre Deus. OS dois filhos são o símbolo da humanidade: por isso é importante parar a nossa atenção sobre eles pra ver o que a postura deles tem pra nós ensinar.

2. “O filho mais novo disse ao Pai: ‘Pai dá-me a parte de herança que me cabe’. E o Pai dividiu os bens entre eles” (Lc 15, 12).
Existe toda uma humanidade que sonha a realização da própria vida fora do alcance de Deus. São as pessoas que um dia levantam da cama decidindo que a vida é deles e a ninguém devem prestar conta. É aquela convicção que vem da juventude, da saúde, das condições materiais que nos levam a acreditar que somos os únicos senhores da nossa vida. Perante esta arrogância acho extremamente interessante a postura do Pai: não questiona nada, mas faz aquilo que o filho pede: o deixa livre de realizara sua vida do jeito que ele quiser. É um grandíssimo ensinamento para os pais: a paternidade é fecunda quando é alicerçada na liberdade, pois a liberdade é um reflexo da imagem de Deus. Quando pelo contrario os pais querem fazer de tudo para impedir que os filhos façam besteiras, chegando até a si substituir á liberdade dos próprios filhos, é ali que o bicho pega. Nessa altura podemos questionar: mas porque o pai não disse e não fez nada para impedir que o filho saísse de casa? Ao longo do texto podemos encontrar varias respostas. A primeira é que o pai era tranqüilo na própria tarefa de Pai. Ele sabia que tudo aquilo de bom que tinha semeado no coração do filho na infância e na adolescência, antes ou depois teria surtido efeito. De fato, na hora do grande sofrimento e da grande perdição quando o filho entrou em si mesmo, quem encontrou no fundo do seu coração? O Pai! É na infância e na adolescência que as forças educativas e espirituais devem ser dobradas para colocar os filhos no caminho da realidade. A segunda resposta ao problema sobre colocado é que o pai conhecia muito bem o seu filho e sabia que era daquela raça rebelde de cabeça dura, metido a sabido, que não vai com a cara de ninguém, que se acha o tal e que quando bota na cabeça uma idéia não tem jeito algum para tirá-la. Existe toda uma humanidade que para descobrir a própria identidade, para descobrir o sentido da própria vida parece que deve quebrar a cara. O filho que sai de casa descobre que o tesouro maior que tinha na vida estava exatamente lá aonde tinha decido de se afastar. São os mistérios da vida: às vezes precisamos rodear o mundo para descobrirmos aquilo que está perto de nós. Tem um terceiro ensinamento que podemos tirar da historia deste filho rebelde. Os prazeres da carne, junto com os prazeres materiais que o mundo nos oferece são puras ilusões, não proporcionam a felicidade, mas sim esvaziam a pessoa que entra neste caminho. Tudo mundo sabe disso, mas poucos conseguem ficar de fora do caminho da perdição. Porque? Porque a força dos sentidos é devastadora, e que não aprende a lidar com a própria interioridade desde a infância, para controlar os instintos e assim dirigi-los aonde nós quisermos, se torna escravo deles. É isso que nos ensina esta historia triste: o caminho da liberdade está no amor do Pai, é Ele a fonte da nossa vida.

3. “O filho mais velho estava no campo... Ficou com raiva e não queria entrar”(Lc 15, 25.28).
A postura do filho mais velho nos ensina que não adianta ficar perto do Pai: depende como ficamos. Podemos, de fato, fugir da nossa realidade, permanecendo no lugar. Quantas vezes nas nossas famílias têm familiares que não ligam com nada, parece que estejam sempre voando. E quando nos distanciamos da realidade, começamos a pensar besteiras, a fantasiar, botando gosto ruim naquilo que é bom. “E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos”. Oh, coitado! Quando perdemos o contato com a realidade, nos fechando em nós mesmos, construindo no nosso imaginário um mundo de fantasia, transformamos o bem em mal, prejudicando assim o nosso relacionamento positivo com os outros, sobretudo com as pessoas que mais amamos.  Interessante é também um outro dato. Foi necessário o filho mais novo se mandar e estragar a sua vida, para que pudesse emergir aquilo que se escondia no fundo do coração do filho mais velho. Quer dizer isso? Acho que esta Palavra nos ensina a não julgar os eventos na sua manifestação factual, mas precisamos sempre colocar tudo nas mãos de Deus, esperando que seja Ele á abrir os nossos olhos para interpretarmos assim a historia do jeito que Deus a está escrevendo. De uma certa forma é a perdição do irmão mais novo que salva o irmão mais velho do abismo do seu egoísmo. Tudo isso é bastante impressionante, porque nos mostra o lado providencial de Deus, que respeita a nossa liberdade e sabe realizar historia bonitas com os pedaços da nossa humanidade esbagaçada.

 O filho mais velho, apesar de ter sido fiel ao pai permanecendo perto dele, precisou sentir uma verdade: “Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu”. Mais uma vez é o Pai que com a sua realidade, que é a mesma Verdade, purifica as ilusões falsas formadas ao longo do tempo na nossa cabeça, restituindo paz e serenidade a alma. É a Palavra do Pai que precisamos escutar para que tudo na nossa vida seja renovado. É o amor do Pai que devemos acolher, amor que purifica e renova constantemente as nossas vidas. Por isso vale a pena estarmos aqui reunidos no redor desta Eucaristia, para nos alimentarmos do pão da Palavra de Deus que alimenta a nossa alma, nos orientando sobre o cominho a ser tomado, e para nos alimentarmos do corpo de Cristo que infunde nos nossos corações o amor de Deus, do pai misericordioso, que almeja a toda hora a nossa salvação. Amém.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Solenidade da Ascensão do Senhor/C





( At 1, 1-11;Sal 47; Ef 1,17-23; Lc 24, 46-53 )

Paolo Cugini

1. A solenidade da Ascensão do Senhor, que hoje celebramos, deveria nos ajudar a entender o sentido da missão da Igreja no mundo e também do nosso batismo, sendo que é neste sacramento que recebemos o Espírito Santo. De fato, é na Ascensão do Senhor que os discípulos recebem o mandato de anunciar a todos os povos o Evangelho. Tarefa da Igreja é, então, ser testemunha de Cristo. Além disso, a Ascensão do Senhor nos ensina que o Evangelho não apenas um anuncio terreno, que termina na Terra. O Evangelho não é um código de comportamento moral, mas é a indicação de um caminho que tem como meta o encontro como o Pai. Assim como Jesus passou através da sua paixão e morte, deste mundo para o Pai (Jo 13)- é este o sentido da sua Páscoa-também nós devemos escutá-lo para podermos passar também nós com Ele deste mundo para o Pai. É por isso que somos convidados a anunciar ao mundo o seu Evangelho, o seu único caminho de salvação. E aqui vem o problema:  Como é possível anunciar este caminho de salvação?

2. “Foi a Ele que Jesus se mostrou vivo depois da sua paixão” (At 1, 3).
Primeiro Critério para testemunhar Jesus no mundo é conhecê-lo, é a familiaridade com Ele. Jesus não é uma idéia abstrata, mas uma pessoa concreta.Jesus não uma criação literária, não é fruto da fantasia humana. Jesus é Deus que se fez homem e veio a morar no meio de nós: é Deus que se aproximou a nós. É por isso que é impossível conhecer a Jesus se não através de uma experiência viva, autentica, profunda. Jesus não envia os discípulos a anunciar uma idéia, e nem qualquer coisa, mas aquela experiência especifica que eles tiveram com o Senhor. Não é um caso que Jesus, depois da morte e ressurreição, apareceu somente aos discípulos, ou seja, aqueles que tinham as condições de reconhecê-lo. Por isso na raiz do nosso testemunho - pois é isso mesmo o sentido do nosso batismo!- deve existir a nossa experiência com o Senhor Jesus.  Não posso anunciar Cristo se não o conheço. Na primeira carta João relata essa mesma idéia: aquilo que nós ouvimos, aquilo que nós apalpamos com as nossas mãos nós o anunciamos a vós (cf. 1Jo 1, 1-4). A vida cristã não é feita apenas de palavras, mas sim de uma vivencia autentica com Cristo. É a aproximação dele que me permite de conhecê-lo e, assim, comunicá-lo. 

3. “Recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós” (At 1,8).
Só que o conhecimento experiêncial e pessoal do Senhor não basta: precisamos do Espírito Santo.
Só o Espírito de Deus pode dar aos discípulos a coragem de anunciar, de testemunhar o Senhor ressuscitado num mundo que o odeia, que o massacrou, que odeia á Deus e, por conseqüência, odeia todos aqueles que falam do Filho. Esta coragem não é uma força psicológica, de origem humana, mas sim é algo que vem de Deus, do seu Espírito.
Tem algo a mais. Pra ser testemunho precisa da força que vem do fato de ser criveis. Isso quer dizer que se quisermos ser testemunhos do Senhor é preciso que o nosso encontro com o Senhor tenha modificado sensivelmente a nossa vida. De fato como podemos ser anunciadores do amor de Cristo para os inimigos, se nós odiamos alguém? Como podemos ser testemunhos da comunhão de Cristo se somos instrumentos de brigas, encrencas? Como podemos ser testemunhos da morte de Cristo que perdoou os nossos pecados, se nós não somos capazes de perdoar? Como podemos anunciar o amor de Cristo para os pobres se vivemos passando o tempo acumulando riquezas sendo, assim, instrumentos de injustiça? Testemunhar significa narrar aquilo que Jesus fez não apenas com as Palavras, mas também e, sobretudo, com a nossa mesma vida. A verdade daquilo que anunciamos deve ser bem visível na nossa carne, na nossa historia. Testemunhar não significa aquilo que Jesus fez, mas aquilo que Jesus fez para mim, a salvação que Ele troxe na minha vida. Se formos chamados a anunciar a Salvação que Cristo operou na historia por meio da sua paixão, morte e ressurreição, então tudo isso deve ser escrito na minha vida, deve ser bem visível na minha carne, no meu jeito de ser, viver, pensar. Isso se torna possível somente se o encontro com o Senhor provocou de verdade uma salvação na minha existência. Só nessa altura as palavras se tornam criveis, alcançando um peso e uma força impressionante, que penetra no coração do mundo, inquietando-o, preocupando-o, tirando-o do serio. É por isso que são Lucas, um pouco mais na frente dos Atos dos apóstolos, ao capitulo quarto, faz questão de dizer como era estruturada a comunidade dos primeiros cristãos, fruto da pregação dos discípulos.
“A multidão daqueles que tinham chegado à fé havia um só coração e uma só alma. Ninguém dizia sua propriedade aquilo que possui, mas tudo entre eles era em comum”.
É por isso que a pregação dos discípulos arrastava multidões: não era um problema de papo e de capacidade retórica, mas sim de testemunho. Aquilo que os discípulos anunciavam, ou seja, a salvação através do Evangelho de Jesus(cf. 1Cor 15,1-3) era bem visível nas suas comunidades, feitas de pessoas que em nome de Jesus viviam de uma forma totalmente nova, não mais animada pelo egoísmo humano que só provoca divisões e rivalidades, mas pelo amor de Jesus que fazia brotar entre eles a caridade e a partilha.

4. Quais são os sinais que o Espírito Santo produz na nossa humanidade que rende crível o nosso anuncio?
Em primeiro lugar a humildade. De fato, só Deus deve ser glorificado através da nossa ação. Só o Espírito pode produzir em nós este sentimento básico da vida cristã, tão presente na vida de Cristo.
Em segundo lugar a alegria. Os cristãos são alegres não por causa da conta no banco, ou de outros bens materiais, mas porque vivem com Jesus. Era isso que Santa Teresa de Jesus entendia dizer quando escrevia: “Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”.
Pedimos a Deus que nessa Eucaristia que estamos celebrando o Espírito Santo possa produzir na nossa vida aquela humildade e aquela alegria tão necessárias para o testemunho autentico do Seu Evangelho.





sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

PEDRO ENCONTRA JESUS





EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 5
Estudo Bíblico para CEBs
Paolo Cugini
1-11. A multidão estava ao redor de Jesus para ouvir a Palavra de Deus. É muito bonita esta imagem porque relata aquilo que Jesus era acostumado a fazer: anunciar a Palavra de Deus: é por isso que as multidões de pobres o seguiam. Existe toda uma humanidade sedenta de palavra de Deus, de Palavra de Vida: é isso que a Igreja, a comunidade deve fazer: anunciar, explicar a Palavra de Deus.
Na dinâmica da pesca milagrosa é importante salientar que o milagre acontece porque Pedro obedece à Palavra de Jesus contra qualquer evidencia. “Assim fizeram e apanharam tamanha quantidade de peixes”. Os discípulos fizeram exatamente aquilo que Jesus pediu. Na nossa vida muitas vezes não acontece nada porque queremos fazer tudo da nossa cabeça, sem nos importar daquilo que vem de Deus. O gesto de Pedro e as suas palavras são emblemáticas, pois manifestam a verdade do encontro com o Senhor. O encontro com Deus, quando é autentico, provoca a tomada de consciência do nosso pecado: “Senhor, afasta-te de mim porque sou um pecador”. Deste encontro e desta tomada de consciência nasce a vocação, o chamado: “De hoje em diante você será pescador de homens”.
12-16. Perante o sucesso Jesus não aproveita, mas se retira, porque ele não buscava a gloria dos homens, a gloria do mundo, mas sim a gloria de Deus. Jesus vive uma vida escondida do mundo porque está totalmente satisfeito e preenchido com a gloria que ele recebe do seu Pai.
17-26. Jesus é Deus, é isso que estes versículos querem nos mostrar, porque Jesus age como Deus: cura e perdoa os pecados. Significativa é a atitude dos fariseus, que apesar de presenciar milagres impressionantes, continuam questionando Jesus e a sua ação. Quem tem um coração duro não consegue perceber a presença de Deus na história.
27-32. Jesus chama para ser discípulos quem ele quiser: é a liberdade do Reino de Deus. Liberdade que incomoda as pessoas acostumadas a medir a vida dentre parâmetros preconceituosos, como é o caso dos fariseus que questionam mais uma vez as escolhas de Jesus.

33-39. O vinho novo do Evangelho exige barris novos, ou seja, pessoas novas, renovada para acolher esta grande novidade. Jesus está dizendo isso para os fariseus que, ao longo de todo o capitulo ficaram questionando-o. Jesus explica o motivo da incapacidade deles de entender a sua palavra e as suas atitudes: o coração duro, a indisponibilidade para conversão. Somente um coração humilde consegue fazer espaço para grande novidade do Evangelho.