Paolo Cugini
Como podemos garantir que este
texto nos fale e nos diga algo sobre a nossa jornada? Como podemos despojá-lo
das camadas míticas típicas da linguagem da época de Jesus? Desta perspectiva,
os teólogos têm (em parte) razão quando afirmam a necessidade de transcender o
modelo teísta utilizado durante séculos e avançar rumo a um paradigma
pós-teísta, capaz de integrar dados científicos às suas narrativas e, portanto,
torná-las mais compreensíveis para as mulheres e os homens de hoje. Exploremos,
então, este caminho.
“Depois de ter dito isso,
enquanto eles o observavam, ele foi elevado às alturas, e uma nuvem o encobriu,
ocultando-o da vista deles. Enquanto eles fitavam atentamente o céu enquanto
ele subia, eis que dois homens vestidos de branco se puseram ao lado deles e
disseram” (Atos 1:1).
Como é possível ler essas passagens no domingo — trechos com sabor de
mitologia, narrativas fortemente influenciadas pelo aparato cultural da época
de Jesus, com conceitos astronômicos e antropológicos hoje ultrapassados — e
depois ir trabalhar na segunda-feira como se nada tivesse acontecido? Ter a
coragem de desmantelar construções mitológicas sem pensar que desconstruir
significa negar uma verdade. De fato, é precisamente porque buscamos essa
verdade manifestada na pessoa de Jesus que prosseguimos com o processo de
desconstrução das categorias culturais da época para resgatar, por assim dizer,
a mensagem autêntica. Abandonar toda pretensão que nos leva a falar e conversar
sobre o conteúdo de uma cultura que já não nos pertence, para garantir que
nossos discursos abordem os significados existenciais intrínsecos ao nosso
cotidiano, é a essência de uma jornada que consegue integrar o conteúdo
religioso à linguagem do dia a dia. O texto que acabamos de ouvir reflete uma
visão dual da realidade — céu e terra, carne e espírito — que nada tem a ver
com a percepção de um mundo interconectado, como nos transmitem diversas
disciplinas científicas, um mundo em que tudo está interligado. Nesse novo
texto cosmológico, onde se encaixaria o Jesus da Ascensão?
Vamos então extrair da
ascensão do Senhor os ensinamentos que podem nos dizer algo sobre nossas
próprias experiências.
O primeiro aspecto é o
educativo. Toda relação educativa que almeja ser geradora deve incluir um
momento de saída. Uma criança pode se tornar pai ou mãe se os pais, em
determinado momento da vida, forem capazes de se retirar de cena. Os discípulos
puderam se tornar mestres porque o Mestre se retirou de cena. Temos a
oportunidade de crescer e explorar nosso potencial, finalmente descobrir quem
somos, somente se as pessoas ao nosso redor forem capazes de desaparecer de
cena. Claramente, isso será possível se, durante a fase de crescimento, o
educador — pai, mãe, etc. — tiver sido capaz de estimular os aspectos geradores
da pessoa. Esse aspecto é claramente visível na relação que Jesus estabeleceu
com seus discípulos. No meio de sua jornada para Jerusalém, ele os enviou de
dois em dois para proclamar o Reino (Lucas 10). Alguém poderia ter objetado que
eles ainda não estavam prontos, que sua preparação era falha. Jesus, sem
dúvida, sabia de tudo isso. Apesar disso, ele os enviou, permitiu que
experimentassem, que se desafiassem, que experimentassem, mesmo que por alguns
instantes, o fascínio de estarem sozinhos diante do mundo. No contexto da
Última Ceia narrada no Evangelho de João, Jesus afirma em certo momento:
" Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar
agora " (Jo 16,12). Apesar dessa consciência, da preparação ainda
muito superficial de seus discípulos, Jesus se retira. O que isso nos revela?
Creio que o mais importante que emerge da relação de Jesus com seus discípulos
é que ele estimulou neles uma dimensão geradora, a consciência de que o
discípulo, homem ou mulher, deve se tornar seu próprio mestre.
“E eis que estou convosco
todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28,20). Há também um aspecto espiritual que
nos é comunicado pela festa da Ascensão. Jesus permanece sempre connosco.
Podemos perguntar-nos: como poderá estar sempre connosco se já não estiver
entre nós? Há uma nova forma de manifestar a presença de Jesus, não mais na
carne, mas no Espírito. O Papa Francisco também nos recordou isto quando, na
Laudato Si'i, afirma: “O Espírito de Deus encheu o universo de
potencialidades que permitem que algo novo brote sempre do próprio ventre das
coisas ” (LS, 80). A presença de Deus na criação não é algo distinto
de Deus, “mas, ao comunicar a sua própria realidade divina, torna-a
constitutiva da plenitude da criatura”. Deus comunica-se à criação, de modo que
o Espírito de Deus é imanente e íntimo nas criaturas. Jesus continua presente
na história para permitir que cada pessoa colabore no plano criador de Deus. O
processo de criação, na verdade, nunca cessou, mas continua conosco, e o
Espírito do Senhor, que também age em nós, possibilita tudo isso. O mistério da
Ascensão, portanto, não afirma o desaparecimento do Senhor, mas sim uma nova
presença.
Durante sua vida pública,
Jesus nos ofereceu diversas situações em que sua presença se manifesta.
Perceber a presença do Mistério de Deus é fundamental para quem deseja viver
segundo a Palavra de Deus. Então, onde está Jesus? Primeiramente, encontramos Jesus
nos pobres. Ele mesmo o disse: “ Tive fome, e vocês me deram de comer;
tive sede, e vocês me deram de beber; era estrangeiro, e vocês me acolheram” (Mt
25,32ss). Nossa relação com os pobres, antes de ser um fato sociológico, é
teológica, espiritual. Nos pobres, encontramos o Senhor, sua presença
misteriosa que nos preenche com seu amor. Ao darmos livremente, recebemos mais
do que damos. Depois, encontramos Jesus na comunidade: “Pois onde dois
ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles ” (Mt
18,20). Comunidades que não se identificam com formas institucionais, mas
também e sobretudo com o encontro de pessoas que conheceram o Senhor, amam sua
Palavra e se encontram em família. Redescobrir novas formas de ser comunidades
que sentem a presença do Senhor é um dos grandes desafios da era pós-cristã que
estamos testemunhando. "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis
uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.
Com isto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos
outros" (João 13:34-35). Pequenas comunidades de pessoas que se
amam e cuidam umas das outras tornam a presença do Senhor visível na história.
A ascensão significa que o
Mestre não está mais entre seus discípulos em forma material, mas em uma nova
forma com muitas facetas. Vamos encontrá-lo e vivenciá-lo.
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