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sábado, 8 de março de 2025

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA/C

 





Lc 4,1-11

Paolo Cugini


O primeiro domingo da Quaresma, em todos os três ciclos litúrgicos, começa com a página das tentações de Jesus. Para compreender a profundidade da mensagem contida nesta narrativa, devemos tentar contextualizá-la. O que significa, então, ler esta página em um contexto pós-cristão? Como o paradigma pós-teísta pode nos ajudar a compreender novos conteúdos? Há toda uma leitura religiosa e devocional que há séculos orienta a interpretação desta página, destacando os aspectos penitenciais e sacrificiais, como se a penitência e o sacrifício fossem instrumentos indispensáveis para ganhar a vida eterna. Na realidade, a experiência humana de Jesus narrada nesta página está esvaziada de qualquer elemento religioso. Os eventos, de fato, não acontecem em uma sinagoga, em um espaço sagrado, mas no deserto, que poderíamos definir como um não-espaço, no sentido de que não se identifica com nenhum espaço em particular. O que Jesus vivencia no deserto é uma antecipação do que ele vivenciará durante sua vida pública. Jesus é um homem que nunca foi atraído por desejos de glória humana, de poder. Jesus é um homem cuja liberdade lhe permitiu não ficar preso à força dos seus instintos, que sempre soube direcionar para o objetivo que havia estabelecido. 

Esta é, em essência, a proposta que emerge da página das tentações e que nos é dirigida no início da Quaresma, que é um caminho para apreender com maior consciência o mistério da vida plena, que se manifestou nas escolhas de Jesus. É possível viver a própria humanidade de forma livre e plena, sem se deixar atrair por aquelas propostas que, a longo prazo, causariam escravidão interna e externa. Existe a possibilidade de uma vida plena, realizada no dom livre e gratuito de si mesmo, uma vida boa e justa que se tornou visível na vida de Jesus e, por isso, ao alcance de todos. 

O problema, neste ponto, é conseguir compreender o método que permitiu a Jesus viver dessa forma livre e plenamente realizada no amor e na justiça. Na página em questão há algumas indicações que podem nos ajudar. Jesus permaneceu “no deserto durante quarenta dias”: este é o primeiro fato. Para poder viver livremente, você precisa dedicar muito tempo ao seu eu interior; para usar as palavras de Sócrates, você precisa cuidar da sua alma. Esta é uma tarefa que está ao alcance de todos e não é específica dos religiosos: todos nós temos uma dimensão interior. O fato de essa experiência ocorrer no deserto é outro fato importante, porque nos diz, como afirmei acima, que ela não ocorre em um contexto religioso. “Ele não comia nada naquela época.” Esta não é uma indicação penitencial, mas existencial. Qualquer pessoa que tenha dedicado longos períodos à meditação e à cura interior sabe muito bem que uma vida sóbria e a atenção para não exagerar na comida auxiliam no caminho espiritual de contato com a própria consciência. “Tentado pelo diabo”: podemos traduzir esta expressão com a percepção que a força dos instintos exerce sobre nós, principalmente quando estamos imersos nas preocupações cotidianas, dando pouca atenção à nossa vida interior e, portanto, mais vulneráveis no plano existencial. 

Há uma possibilidade de vida autêntica que nos é oferecida no início do caminho quaresmal. Para entrar neste caminho, devemos libertar-nos das incrustações religiosas que, ao longo dos séculos, identificaram a Quaresma com ações penitenciais, perdendo o verdadeiro horizonte da Quaresma, que é a humanidade de Jesus, a sua liberdade, a sua vida de amor livre e desinteressado. Dedicar tempo a esta mensagem, assimilar diariamente as páginas propostas do Evangelho, significa cultivar o desejo de ser pessoas novas, mais autênticas, como Jesus. O mundo precisa de pessoas assim mais do que nunca. Aproveitemos, então, o tempo da Quaresma para sacudir o pó da religião e vestir a veste nova do Evangelho de Jesus.


sábado, 9 de dezembro de 2023

CAMINHAR NO DESERTO DA VIDA

 

 


II ADVENTO/B 2023

É 40,1-5,9-11; Sal 84; 2 Pedro 3.8-14; Mc 1,1-8

 

Paulo Cugini

 

 

A espiritualidade do tempo do Advento deve ser buscada na Palavra que a Igreja proclama neste tempo, para não correr o risco de cair em alguma deriva devocional, que aquece o coração, mas não diz nada e deixa a alma vazia. Na passagem de Isaías que ouvimos hoje, logo no início, há um verbo imperativo ao qual precisamos prestar atenção. Com efeito, Isaías diz: “Consolai”. O contexto do canto é o anúncio do regresso do povo de Israel do exílio de Babilónia, o que constitui uma grande consolação para todo um povo que agora perdia a esperança de regressar à sua pátria. A Consolação chega quando o povo não a esperava, porque a profecia de Jeremias falava de um exílio de setenta anos, enquanto o anúncio do regresso veio vinte anos antes. É, portanto, um anúncio de grande consolação, que manifesta a atenção misericordiosa de Deus pela sorte do seu povo. Ao grito de Consolação Isaías acrescenta algumas indicações fundamentais para garantir que o regresso se realize efetivamente.

Uma voz clama: No deserto preparem o caminho para o Senhor, abram o caminho para o nosso Deus na estepe. Que todos os vales sejam exaltados, todos os montes e todos os outeiros sejam abatidos; o terreno acidentado torna-se plano e o terreno íngreme torna-se um vale (Is 40, 3). Existem algumas indicações concretas, que têm um valor simbólico. Trata-se de preparar o caminho do regresso, um caminho que atravessa o deserto. A mente vai imediatamente para a experiência dos quarenta anos de travessia do deserto, quando o povo saiu do Egito para ir para a terra prometida. Há sempre um êxodo que devemos fazer periodicamente para voltar ao caminho. O Egipto e a Babilónia são duas cidades simbólicas, que indicam a terra estrangeira, que do ponto de vista espiritual e existencial indicam a situação do homem e da mulher distantes de Deus, da procura do sentido autêntico da vida. Há um trabalho que deve ser feito se quisermos deixar de ser escravos de nós mesmos, dos nossos desejos e necessidades naturais, para completar uma jornada de libertação. Nesta estrada no deserto não deve haver obstáculos e os que existem devem ser removidos. Aqui está a primeira grande indicação espiritual do segundo domingo do Advento. A questão subjacente, que o Evangelho retomará depois, é esta: quais são os obstáculos que condicionam a nossa vida espiritual? Que vales devemos preencher para tornar a viagem tranquila? Que montanhas precisamos eliminar de nossas vidas para alcançar nosso objetivo?

Então a glória do Senhor será revelada e todos os homens juntos a verão, porque a boca do Senhor falou (Is 40, 5). O fruto deste trabalho será a possibilidade de ver a glória do Senhor, isto é, de perceber a sua presença. Este aspecto é fundamental, porque a nossa fé é ativada a partir do momento em que vemos a glória de Deus, os sinais da sua presença nas nossas vidas. Glória do Senhor é uma expressão que, no Antigo Testamento, indica a manifestação da presença do Senhor. Isaías fala desta Glória na visão que ele mesmo tem no início de sua vocação narrada no capítulo 6. Sempre da glória que o povo viu e por isso, acreditavam, fala na narração da passagem pelo Mar Vermelho (Ex 14-15). São Paulo nos lembra que seremos transformados de glória em glória pela ação do Espírito Santo (2 Cor 3,18). É a presença do Mistério que muda as nossas vidas. Devemos encontrá-lo para acreditar Nele. O Natal, para o qual nos preparamos, é a manifestação deste Mistério na pessoa de Jesus, que ainda está entre nós.

Levante sua voz, não tenha medo; anuncie às cidades de Judá:
«Eis o teu Deus!
Eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço exerce domínio.
Eis que ele traz consigo o prêmio, e a sua recompensa o precede.
Como um pastor ele apascenta o rebanho e o reúne com o braço (Is 40, 9-10).

Se é verdade que devemos completar esta jornada e que devemos implementar uma profunda jornada espiritual de mudança, é igualmente verdade, porém, e Isaías nos lembra disso, que não estamos sozinhos nesta jornada. Isaías apresenta-nos um Deus que é como um pastor que acompanha as suas ovelhas: “carrega os cordeirinhos no peito e conduz gentilmente a mãe ovelha”. Como podemos não confiar em um Deus assim? Como não nos emocionarmos com estas palavras de consolação? São imagens que procuram estimular o povo de Deus a levar a sério a sua vida, a não perder tempo com coisas de pouco valor, a esperar ver a glória de Deus que vem ao nosso encontro com o seu Filho Jesus. Pedro também lembra isto nos revela na segunda leitura de hoje, quando afirma: diante do Senhor um só dia é como mil anos e mil anos como um só dia (2 Pd 3,8). Vamos então, não vamos perder tempo e pegar a estrada.

Na verdade, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça. Portanto, queridos amigos, enquanto aguardam esses acontecimentos, façam tudo para que Deus os encontre em paz, sem culpa e sem mácula (2 Pedro 3:14). Pedro, na segunda leitura ouvida, faz eco às palavras de Isaías e recorda-nos o sentido da nossa vida, do nosso caminho de fé, que consiste em dar lugar à nova realidade que o Mistério de Deus já alcançou com a vinda de Jesus, isto é, um mundo em que habita a justiça. Este novo mundo não está fora de nós, mas dentro de nós. É disso que Jesus falou nas suas parábolas quando anunciou o Reino de Deus, que está entre nós, dentro de nós. Procuremos então fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que tudo isto se torne realidade e seja o primeiro sinal disto, segundo São Pedro, é paz. 

 

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Se ao menos tivéssemos morrido

 





 

Paolo Cugini

No deserto, toda a comunidade de Israel murmurou contra Moisés e contra Aarão. Os israelitas disseram-lhes: “Se ao menos tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egito, quando estávamos sentados ao lado da panela de carne, comendo nosso pão farto! Em vez disso, você nos trouxe para este deserto para matar de fome toda esta multidão” (Êx 16:1-5).

 É uma texto que revela a transversalidade da humanidade que vive a nível instintivo e não tem motivações profundas no sentido do seu percurso. Aos que não têm raízes profundas em suas motivações, basta um pouco de sofrimento para rejeitar o novo, o presente e começar a reclamar. O reclamante geralmente é alguém que não se sente bem por dentro. É, portanto, uma passagem que oferece orientações para uma vida espiritual que ajuda a viver com serenidade o caminho da vida. Só quem sabe para onde vai, encontra dentro de si a motivação para continuar nos momentos sombrios da vida, naqueles momentos em que as coisas vão mal e reina a confusão. São os momentos em que a pessoa espiritual sabe onde buscar consolo e é na experiência pessoal de relacionamento com o Senhor, que marcou o início de uma nova caminhada.

Nos momentos difíceis, a vida espiritual recorre à memória como recurso único e pessoal que contém as motivações do caminho. É precisamente nos momentos difíceis que a pessoa espiritual dá um passo em frente no caminho da fé, porque pode experimentar a verdade do acontecimento das origens e a bondade do caminho percorrido. Enquanto, portanto, as pessoas sem raízes, que nunca trabalharam sobre si mesmas e nunca deram importância à vida interior, nos momentos difíceis caem em desespero e lamentação, a pessoa espiritual experimenta esse momento como um enriquecimento e experimenta coisas novas, que nunca percebeu primeiro. Precisamente nas situações difíceis do seguimento do Senhor, cumpre-se o que Jesus disse: a vossa tristeza transformar-se-á em alegria (Jo 16,22).

domingo, 13 de dezembro de 2020

ALEGRAI-VOS SEMPRE NO SENHOR!

 



 

TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO / B

Paolo Cugini

 

 

 O espírito do Senhor Deus está sobre mim porque o Senhor me consagrou com unção; ele me enviou para levar as boas novas aos pobres, para curar as feridas de corações partidos, para proclamar a liberdade dos escravos, a libertação dos prisioneiros, para promulgar o ano da misericórdia do Senhor, um dia de vingança para o nosso Deus, para consolar todos os aflitos, para alegrar os aflitos de Sião, para dar-lhes uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de uma veste de luto, um cântico de louvor em vez de um coração triste (Is 61: 1-3).

Quando penso no Evangelho e na proposta específica de Jesus, me vêm à mente as palavras do profeta Isaías proclamadas na primeira leitura de hoje. O Evangelho para mim é este sopro de liberdade, este caminho de libertação para todos aqueles que vivem em situação de escravidão e opressão. O Evangelho é uma proposta para os pobres do mundo, para os excluídos, os marginalizados, os fragilizados, para todos aqueles que são massacrados, humilhados, marginalizados todos os dias pela lógica arrogante e egoísta do mundo. O Evangelho é a certeza de que há alguém em algum lugar que pensa em toda esta humanidade aflita, que é a grande maioria, mas que é marginalizada por uma minoria de pessoas que pensam apenas em si mesmos. É por isso que o Evangelho é como um bálsamo, um aroma perfumado, um sopro de ar puro, um sopro de esperança. O Evangelho devolve a dignidade àqueles que todos os dias são pisoteados nos seus direitos, que são humilhados pela arrogância de violentos inescrupulosos. Não é por acaso que Jesus, no Evangelho de Lucas, lê precisamente esta passagem de Isaías e a torna sua, identificando-se com esta proposta. Neste tempo de Advento, que vivemos em preparação ao Natal, é importante recuperar a origem da proposta de Jesus, saborear a sua beleza e, ao mesmo tempo, a sua força e determinação. Jesus é o amor do Pai que veio à terra, fixando residência em nosso meio e nos dizendo claramente, em termos inequívocos e não diplomáticos de que lado ele está, isto é, do lado dos menores, dos empobrecidos, de todos aqueles que são humilhados. Jesus veio dizer àqueles que vivem o insuportável fardo da humilhação diária, que ele está do lado deles, está com eles, os levanta e os faz sentar à sua mesa. Este é o sentido autêntico da Eucaristia que, antes de ser um rito, indica um estilo de vida, uma nova forma de estar no mundo. A Igreja, então, deve incorporar esse grande alento, essa postura clara. Deve ser evidente para o mundo que a Igreja está na terra para continuar o caminho de libertação dos escravos inaugurado por Jesus. Quem entra em uma comunidade cristã no domingo enquanto celebra a Eucaristia deve perceber o estilo de uma tenda de acampamento, para dizê-lo ao Papa Francisco, que se inclina para curar as feridas de corações partidos e para devolver a dignidade aos aflitos, em vez de cuidar dos edifícios ou dos incensários.

 

 E este é o testemunho de João, quando os judeus enviaram sacerdotes e levitas de Jerusalém para lhe perguntarem: “Quem és tu?”. Ele confessou e não negou, e confessou: "Eu não sou o Cristo." Então eles perguntaram: "E então? Você é Elia? ». Ele respondeu: "Não sou." "Você é o profeta?" Ele respondeu: "Não." Disseram-lhe: "Quem é você?" Porque podemos dar uma resposta a quem nos enviou. O que você diz sobre você? ». Ele respondeu: “Eu sou a voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías” (Is 1, 19-23).       




Com que segurança e prontidão João Batista respondeu aos sacerdotes e levitas que o questionaram sobre sua identidade! É um aspecto que merece ser considerado. João Batista, que viveu no deserto, com aquele estilo de vida sóbrio e essencial que lembrou o profeta Elias, sabe muito bem quem ele é, tem uma identidade clara e, por isso, é um ponto de referência tão claro e cristalino que da cidade de Jerusalém as pessoas saem para ir a ele. João Batista é, em primeiro lugar, aquele que sabe quem é, que conhece o seu próprio caminho, que não se confunde com os outros. Do ponto de vista espiritual, poderíamos dizer que, o primeiro efeito significativo do tempo do Advento, deve consistir na possibilidade de recuperar a clareza de nós mesmos, de nossa identidade, de nosso caminho. João Batista ensina-nos que o silêncio e uma vida sóbria e essencial são ferramentas importantes para este caminho de recuperação da própria identidade que, antes de ser um conceito rígido, é uma conquista de uma vida dócil à Palavra do Senhor e, sobretudo, uma expressão desse amor a si mesmo tão importante poder então amar os outros. O tempo do Advento como um momento propício para se dar tempo, para dedicar tempos e momentos para curar a própria alma, a exemplo de João Batista e, posteriormente, do Senhor Jesus.

 


 Alegrem-se sempre, rezem incessantemente, dêem graças em tudo ... O Deus da paz vos santifique inteiramente (1Ts 5, 16,23).  

Se Deus é tudo para nós, se o Evangelho enche nossa vida com sua proposta de esperança, por que nos angustiar? As palavras de Paulo são os melhores votos a todas as comunidades cristãs que a cada dia assimilam o Evangelho e procuram vivê-lo, criando relações não baseadas no espírito de dominação dos outros, mas na gratuidade e no dom de si. Alegrai-vos sempre: este é o desejo que Paulo nos dá hoje na segunda leitura. Tiremos, então, toda tristeza de nosso rosto; vamos nos encher do amor que o Espírito do Senhor nos dá gratuitamente, para doá-lo às pessoas que temos perto de nós e que encontramos no nosso caminho.

 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A ESTRTURA DA VIDA ESPIRITUAL






 Paolo Cugini
O Deus fala no silêncio do deserto

1-       Deus fala ao homem (Heb 1, 19)
2-      É preciso escutar, prestar atenção (Dt 6,4)
3-      Para escutar é preciso fazer silêncio (Lam 3, 26)
4-     Deus fala no deserto (Ex 3,1; anos no deserto; Os 2, 169; Lc 3; Lc 4)
5-      O jeito de Jesus: (procurar lugar afastado, desertos, noite: Mc 1, 35; Lc 6, 12).
6-     Retiro espiritual para imitar a Jesus.

[1] “Em princípio Deus criou o céu e a terra”
Gen 1, 1-2,: é a primeira página da Bíblia.
O livro de Gênesis revela que a existência do mundo nasce de uma vontade livre do Criador. Deus quis fazer viver algo – fazer viver é a fórmula elementar do amor.
Amor quer dizer fazer viver. Eu amo alguém quando enriqueço a vida dele a protejo, defendo, quando doa-lhe vida.
Deus disse: seja a luz ...:a existência da luz é um ato de obediência cfr Baruc 3, 34-35
·         O livro do Gênesis quer conduzir-nos rumo este mundo prático de ver as coisas. Reconhecer de dentro da existência uma estrutura responsável.
·         Existir segundo a Bíblia, não significa possuir a existência, mas sim responder a um chamado de amor que te quer, que quer a tua existência e você existe respondendo.
·         É significativo que o livro do Gênesis invista no valor da palavra com que Deus chamam as coisas para a existência. Se têm algo de pessoal na experiência humana é a palavra mesmo: a palavra é minha, sou eu que me expresso.
·         Deus criou o mundo com a Palavra , pois ele não é uma força, uma lei da natureza, mas uma pessoa livre. É por isso que cada vez que Deus cria algo, acrescenta a Bíblia: e viu que era coisa boa.
·         Quer dizer isto? Se é verdade que o mundo tem coisas boas e ruins. É verdade porém, que antes e mais nada, como primeira atitude devo aprender a dizer sim, é coisa boa. E este sim o dizemos com atitude de agradecimento, dizendo isto experimento um sentimento interior de admiração, ou de respeito.
Cfr Salmo 104 (105): encerra desta forma: “dou glória ao Senhor para sempre; que é o nome de: e deus viu que era coisa boa”.
Existir é a mesma coisa que cantar ao Senhor: não tem sentido ser chamados a vida e não responder com uma ação de graça. Se existir é ser chamado a viver, viver quer dizer responder, cantar, louvar, bendizer.
-  O louvor deve acompanhar toda a minha existência.
- Deus criou todas as coisas, porém quando doa ao homem o livro de Gênesis coloca uma decisão de Deus. O homem pode não responder eis me aqui.
- O homem na sua experiência masalina/ feminino é imagem de Deus.
Aquela que Deus possui em cima do mundo a entrega ao homem. O homem no mundo representa, numa certa forma, a imagem de Deus.

“Dominar os peixes do mar” – é claro que o homem não tem o direito de abusar do mundo. Na realidade tem a tarefa de injetar no mundo a presença de Deus, é a soberania de Deus, então uma soberanidade de amor, da beleza, do esplendor. O homem pode usar o mundo não por capricho, mas conforme o projeto de Deus.
·         Imagem e semelhança de Deus não quer dizer que o homem parece com Deus assim como ele é, mas ser a imagem de Deus significa que Deus nos doou a possibilidade e a vocação de semelhar-lhe, mas sendo livres podendo dizer sim ou não, podemos contribuir a nossa vida com Deus ou contra Deus.
·         Existe um homem que foi de verdade imagem e semelhança de Deus: Jesus. Para nós o problema é olhar para Ele e fazer com que o nosso caminho toma o seu.

- Fazemos o homem a nossa imagem e semelhança: é um presente, mas da mesma maneira é uma tarefa.

Então pela manha abro a janela e vejo o mundo e devo aprender a dizer sim ao mundo, agradecer, pois este mundo vem de Deus. É verdade que neste mundo tem também coisas ruins, mas a atitude radical deve ser de abertura.

É claro que esta atitude não posso dirigi-la somente ao mundo, as criaturas: devo fazer isto também comigo mesmo. É importante chegar a esta visão de fé, a dizer sim a nossa vida sem condições, e me aceitar do jeito que sou.

- A minha vida Deus disse sim e me chamou por nome: existe o sim de Deus sobre a minha existência: Deus me aprovou!
- Este sim de Deus me sintoniza com a vontade de Deus e me ajuda a transformar em positivo a minha vida – cada pessoa é chamada a crescer. Se devo mudar em positivo a minha vida, devo começar daquilo que a minha vida é.
- Nestes dias de Retiro é bom fazer a lista das coisas que devo aprender e aceitar.

Salmo 8: no oriente da Bíblia só Deus possui a glória. Tu Senhor, coroaste de glória o homem. Não é um caso que o N.T aplicou a Jesus esta expressão.

É importante aprender e dizer sim e acertar os não. O problema é começar destes não para criar uma atitude mais positiva perante o mundo.
Conselhos para o retiro...

[2] Eterna é a sua Misericórdia

Salmo 136 (135) é dividido em 2 partes com um refrão que acompanha o Salmo todo.
1-9: fala da obra da criação.
10-22: depois é narrada a obra de Deus quando libertam Israel do Egito.
23-26: conclusão onde o passado entra no presente.

O que quer dizer o refrão? “Eterna é a sua misericórdia”
Misericórdia – Hesed – amor fiel.
Indica a fidelidade deste amor que uma vez dado é guardado com perseverança.
Eterna: não significa fora do tempo, se voltamos no passado, e um ano atrás encontraremos sem dúvidas coisas diferentes, pois o mundo muda. Mas encontraremos sempre a misericórdia de Deus.
Mudam as estruturas de tempo, as obras, os eventos, mas a misericórdia de Deus fica.
- Então estamos indo rumo a um futuro que é incerto e nos deixa inquietos, mas sobre a misericórdia de Deus podemos contar.
Eterno-abrange todo o tempo na sua totalidade.
Quando a Bíblia narra a experiência de Israel, narra um fragmento desta misericórdia, , um fragmento que é significativo por toda a história humana. Naquela aparentemente pequena história [ e libertação do Egito] Deus manifestou a sua misericórdia.

É o que esta misericórdia?
Ex 2, 23-25: é um povo esmagado que não consegue fazer outra coisa que gritar a Deus. E Deus fez o que? Escuta, lembra, vê, conhece.
A misericórdia de Deus é esta: Ele não fica indiferente quando as pessoas passam necessidades, mas se deixa envolver da miséria humana, de brado de desespero.
- vamos colocar estes verbos em referimento a nós, que Deus escute quando gritamos; que Deus se lembre de nós; que Deus se compromete para conosco; que Deus veja aquilo que estamos passando; que Deus conheça a nossa vida.
- Nesta história Deus não fica envolvido só afetivamente mas efetivamente – prepara um libertador – Moisés para libertar o seu povo.
Só que Moisés colocou uma objeção: “como se chama (Deus)?” (Ex 3, 13-15). O problema é o nome de Deus. Deus tem um nome? Se não tiver um nome não existe, pois o nome expressa a identidade de alguém.
Do outro lado se conhecermos o nome de alguém o definhamos, podendo compreende-lo. Por isto Deus é inominável.
- Existe então uma tensão, Deus não pode ser sem nome, pois seria sem identidade, mas nem pode ter um nome, pois seria manipulado.
Deus respondeu a Moisés! “eu sou aquilo que sou”

Eu sou é o nome de Deus? De certa forma sim, pois expressa a experiência de Deus. Deus garante isto: Eu sou: naquela experiência de opressão você não fica sozinho. Pois eu estarei aí – que Deus é presente o povo o verá em várias circunstancias (cita-las) .
Desta forma afirma-se que não somente Deus existe, mas existe como salvador, como um Deus que vive perto, que toma de conta de Israel, um Deus de amor e misericórdia. Cfr Os 1, 9

Os 2, 16-25: Israel é ligado a Deus com um relacionamento de aliança e a imagem mais linda para expressar isso é o matrimônio. Deus casou com Israel, amo-a, e Israel viveu este amor pausal no tempo do Êxodo, no deserto. Só que Israel abandonou o Senhor para seguir outras divindades – a essa altura Deus pune Israel, leva-o no deserto e diz: “... não me chamarás mais nem patrão, mas marido meu”.

- Israel se dá conta que Deus não é um patrão, mas um marido, relacionamento com Deus, não é de submissão nobreza, mas de amor fiel. Deus quer uma esposa, ou uma serva. É preciso que Israel reconhece a verdadeira identidade de Deus. Deus é um marido que exige obediência, mas a obediência de amor e de fidelidade.

Os 2 20-ss: Não somente é pacificado Israel, mas o mundo inteiro, pois o pecado de Israel, do homem, foi uma desolação do mundo inteiro e então reflorescera o paraíso, - lugar da pet, a plenitude da vida, da alegria.
“Então eu me casarei cauai”.

(Os 2, 22): Quando o hebreu se case, paga ao pai da esposa um preço – para obter Israel Deus paga um preço, leva a própria esposa, como presente das bodas: o direito, a justiça, o amor, a fidelidade.

Porque isto?
Oséias percebeu que o homem deixado sozinho, não consegue responder ao lado de Deus. O homem consegue perceber o amor de Deus, mas vive em realidade de fraqueza interior, que não da pra protelar de muita fidelidade. (cf Os 13, 3).

O problema é que o coração de Israel é doente de infidelidade e não consegue aguardar a hesed, o amor fiel pra sempre.
A misericórdia de Deus é eterna, a misericórdia do homem é efira então Deus leva esta misericórdia como presente de bodas – lutraduz dentro da vida do homem na fidelidade que o homem deseja sem conseguir a viver, então doa-lhe a justiça (o respeito da realidade, do valor das coisas e das pessoas); o direito ( a observância da lei de Deus),  a benevolência (a capacidade de comover-se, ter um coração, entranhas que sabem comover-se praute a outro). O amor (o amor fiel).
Fidelidade – é a confiança
Israel recebe de Deus como dádiva esta fidelidade. Então daquilo que Israel vive podemos ter confiança. Só a esta altura Israel conhecera o Senhor.
Conhecer – é um conhecer por experiência e não por estudo – conhecer por ter feito a prova de algo.

Os 2, 23 – Tem uma espesidade corrente no verbo “responder” e é importante. Defeito uma das experiências, mas dolorosas é aquidade vai obter resposta. Eu falo e o outro vai e entende ou eu falo e o outro vem presta atenção – Esta falta de comunicação neste dia será fizado e formara uma corrente de correspondência.

Os 2, 25 – A rachadura é consertada.
Nestes textos bíblicos tem a experiência de uma comunhão de amor entre Deus e o homem, Deus que foi  em busca do homem para construir com ele uma ligação de fidelidade. Aqui existe a manifestação de Deus que do homem e, do outro lado, do homem que experimenta o ser conhecido por nome e amado por nome.
Isso chama-se eleição.
Cada um de nós é tudo para Deus.
Eu tenho um valor perante a Deus que não pode ser comprado com nenhuma coisa do mundo.
- É preciso então colher o significado da nossa vida perante Deus como relacionamento de amor, de comunhão.

Is 43, 1-7
“Aquele que te criou” criar, quer dizer, fazer do nada, fazer algo de maravilhoso que só Deus é capaz de fazer.
“Aquele que te formou” cf ilvasaio com o barro. O barro é algo que não tem valor, mas a arte de Deus é grande.
“Não temos pois eu te redimir...” redimir é uma expressão tipicamente bíblica. Deus pagou um preço pra resgatar Israel e também Deus considera do mesmo sangue de Israel, perante próxima; Deus pagou o preço para o resgate de Israel, pois sentiu-se envolvido na sua liberdade. Deus é parente com o homem por eleição.

“Eu te chamei por teu nome” eu te dei a tua identidade. No relacionamento de amor, nós descobrimos a nossa identidade. O fato que tu me quer bem dá um sentido, uma identidade a minha vida.