quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A noite do presente

 




 

Paolo Cugini

 

A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será exigido ( Lc 12:48).

Há verdades que se tornam audíveis apenas à noite. Quando o ruído da ambição se dissipa, quando as vitrines se fecham e o mundo para de nos perguntar, por algumas horas, quanto valemos, uma questão mais antiga ressurge: para que estamos vivendo? Na escuridão, longe dos aplausos e rankings, o coração reconhece com mais sinceridade a lacuna entre o que possui e o que realmente precisa. É então que o caminho se revela em sua direção essencial: deixar para trás a lógica do lucro e do interesse próprio e adentrar a lógica da doação livre.

A transição do egoísmo para o altruísmo não é um impulso espontâneo, nem uma simples correção de comportamento. É uma transformação profundamente espiritual. A generosidade não se aprende da noite para o dia, como uma regra: ela amadurece ao longo de uma longa jornada, composta de pausas, contratempos, resistência e aberturas repentinas. Começa quando uma pessoa ousa reconhecer o vazio deixado por uma vida governada unicamente pelo mérito, pelo esforço individual e pelo interesse próprio.

A meritocracia, quando se torna a única gramática da existência, acaba medindo tudo: trabalho, afeto, tempo, até mesmo a disposição para ouvir. Cada gesto aguarda uma retribuição, cada encontro é pesado na balança da utilidade. Aos poucos, aprendemos a reprimir o que não traz benefícios, a silenciar nossos sentimentos, a negociar nossos ideais. Avançamos, talvez, com a aparência de progresso; por dentro, porém, afundamos. É uma lenta forma de nos afogarmos.

Contudo, o próprio vazio pode se tornar um limiar. A busca desenfreada pelo eu através da materialidade da vida, após prometer plenitude, deixa um espaço vazio. Nesse espaço interior, se não fugirmos imediatamente, compreendemos que deve haver mais. Não algo a acrescentar às coisas já acumuladas, mas outra forma de existência: não conquistar, mas receber; não reter, mas entregar; não perguntar continuamente o que o mundo pode fazer por nós, mas descobrir que bem pode fluir através de nós.

Entrar na lógica da doação significa acessar uma dimensão da existência que reconcilia. Reconcilia-nos conosco mesmos, porque não somos mais obrigados a provar constantemente o nosso valor. Reconcilia-nos com o mundo, porque a realidade deixa de ser um território a ser explorado e volta a ser um lar a ser habitado. Em última análise, conduz-nos ao seu centro silencioso: aquele mistério de onde a vida surgiu e no qual continua a respirar. Doar não elimina o mistério, mas ensina-nos a habitar nele sem medo.

A vida nos foi dada para que a vivamos com dignidade. Mas a sua dignidade não se encontra no isolamento ou na autossuficiência: ela se molda nas relações. Torna-se visível quando doamos o nosso tempo sem o contabilizar, quando valorizamos uma fragilidade sem a ostentar, quando apoiamos alguém sem esperar recompensa. A doação de si mesmo é autêntica precisamente porque é livre e altruísta; não busca espectadores, não ergue um monumento a quem a dá, não humilha quem a recebe.

Essa verdade se torna mais clara quando vemos os irmãos e irmãs que encontramos à beira da estrada. São pessoas que se reúnem em torno de suas feridas, muitas vezes dilaceradas pela vida e quase sem esperança. O mundo do cálculo as considera improdutivas, derrotadas ou invisíveis. A lógica da doação, no entanto, nos convida a nos aproximarmos, a sentarmos ao lado delas, a ouvirmos antes de falarmos. Nessa proximidade, a ilusão de que existem vidas maiores e menores se desfaz: cada rosto se torna irredutível novamente, cada história digna de cura.

É ao nos aproximarmos daqueles que se encontram à beira do caminho que descobrimos o que nos foi confiado. Talentos, tempo, atenção, palavras, até mesmo as feridas que sofremos: tudo o que recebemos exige, em última análise, ser reposto em circulação. Não como pagamento de uma dívida, mas como uma resposta livre à superabundância da vida. O bem guardado apenas para si se extingue; quando compartilhado, torna-se luz suficiente para o passo de outrem e, ao mesmo tempo, para o nosso próprio.

Talvez este seja o segredo que a noite guarda: encontramos a nós mesmos quando paramos de nos perseguir. Descobrimos quem somos não na imagem que construímos, mas na presença que oferecemos; não no que retemos, mas no que deixamos ir. Quando a dádiva nos atravessa sem cálculos, algo se restaura. O mundo ainda não se curou, as feridas permanecem reais, mas na escuridão uma direção se ilumina. Ao nos entregarmos, não nos perdemos: finalmente retornamos ao lar.

 

 

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