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sábado, 20 de setembro de 2025

A SEMENTE LANÇADA

 




Reflexão sobre a parábola do semeador e o potencial do crescimento

 

Paolo Cugini

 

Na parábola do semeador (Lc 8,5s), Jesus conta sobre um homem que sai a semear: algumas sementes caem à beira do caminho, outras em terreno pedregoso, outras ainda entre os espinhos, e por fim algumas em terra boa, onde produzem fruto. Esta imagem, tão simples e imediata, encerra uma força expressiva que atravessa os séculos, renovando a cada vez o seu significado. A semente não é apenas uma pequena realidade biológica: é uma promessa, um símbolo de potencialidade, de espera e de transformação. A parábola convida-nos a olhar além das aparências, a perceber na própria vida a possibilidade de germinar e crescer mesmo quando as condições parecem desfavoráveis.

Na semente, a pedagogia encontra uma metáfora poderosa. Ela representa a fase inicial de todo percurso: a infância de um projeto, o pensamento que desponta na mente, o desejo que toma forma. Pedagogicamente, a semente é a confiança no futuro, o investimento na educação, o cuidado com aquilo que ainda não se vê, mas que pode tornar-se grandioso. Esteticamente, a semente é beleza oculta, promessa silenciosa, espera que se cumpre com o tempo. A imagem da semente lembra-nos que todo crescimento começa pelo que é pequeno e invisível, e que a verdadeira riqueza reside na capacidade de reconhecer o valor do que ainda não está concluído. Cada semente contém em si a potencialidade de se tornar algo único. Contudo, o seu desenvolvimento depende de inúmeros fatores: o solo, o clima, o cuidado recebido. O processo de crescimento nunca é linear; passa por momentos de espera, de dificuldade, de luta contra as adversidades. Só quando encontra condições favoráveis, a semente pode germinar e crescer, dando origem a uma planta que, por sua vez, dará fruto. Esta dinâmica reflete o nosso próprio crescimento pessoal: trazemos dentro de nós sementes de talento, sonhos, desejos, mas é apenas através do tempo, da paciência e da coragem de enfrentar desafios que podemos chegar à maturidade. O percurso de maturação exige acolher a vulnerabilidade, não temer os obstáculos, permanecer fiéis ao caminho iniciado.

A parábola sublinha o papel do solo: nem todas as sementes dão fruto, pois nem todos os terrenos são adequados. O solo simboliza o contexto, a disponibilidade para receber, a capacidade de acolher o novo. O cuidado torna-se, então, central: o semeador é chamado a amar o seu trabalho, a não desanimar diante dos fracassos, a preparar com paciência o terreno para que a semente possa desenvolver-se. Esta imagem reflete-se na nossa vida: cada relação, cada projeto, cada sentimento precisa de tempo, atenção, respeito pelo ritmo natural. “Não se pode colher onde não se semeou”, diz um velho provérbio italiano: o fruto do crescimento depende da dedicação e do carinho que estamos dispostos a oferecer.

Ser guardiões das sementes significa assumir a responsabilidade pelo crescimento, pela maturidade, pela fidelidade às promessas nelas contidas. Cada semente que germina é resposta a um chamado, é testemunho de um cuidado recebido. O caminho para a frutificação é marcado por escolhas conscientes, pela capacidade de sustentar o que é frágil, de proteger o que é débil e acompanhá-lo até que se torne forte. Só assim se pode ver o milagre da transformação: o que era invisível se revela, o que era potencial se realiza. A maturidade não é apenas o alcance de um objetivo, mas o próprio processo de ser fiel ao próprio desenvolvimento, de permanecer aberto à mudança, de cultivar a esperança mesmo nos momentos difíceis.

A parábola do semeador e a metáfora da semente convidam-nos a olhar para dentro com novos olhos: que sementes estamos a cultivar na nossa vida? Que solos estamos a preparar? Somos capazes de reconhecer a beleza do crescimento, mesmo quando é lento e silencioso? Cuidar de uma semente significa acreditar em algo que ainda não se vê, aprender que a paciência é a medida da responsabilidade e que a maturidade é fruto de uma fidelidade diária. Em cada um de nós vive a força de uma semente: a possibilidade de transformar o pequeno em grande, o silêncio em palavra, a esperança em realidade. O convite é tornar-nos semeadores conscientes, guardiões atentos e artistas do crescimento, para dar à nossa vida e à dos outros a possibilidade de florescer.

 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

HOMELIA DO DOMINGO 16 DE JULHO 2023

 





XV DOMINGO TEMPO COMUM

Is 55,10-11; Sal 64; Romanos 8:18-23; Mt 13,1-23

 

Paolo Cugini

 

Naquele dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. Aglomerou-se tanta multidão em volta dele que ele entrou num barco e se sentou, enquanto toda a multidão permanecia em pé na praia (Mt 13:1). A parábola do semeador permite-nos mergulhar no mistério da Palavra de Deus: as ditas por Jesus não são apenas palavras profundas e autênticas, mas sobretudo sabem descrever de modo surpreendente a dimensão da vida espiritual. Por um lado, a bondade de uma Palavra que nos é dada gratuitamente para que nos tornemos quem somos: filhos e filhas de Deus; por outro lado, toda a nossa realidade, o fato de que a Palavra de Deus espera ser aceita, internalizada. Em outras palavras: a escuta do Evangelho em si não produz o milagre, mas espera que nossa liberdade entre em ação, que deve ser feita para criar as condições existenciais e espirituais para que a Palavra possa produzir os frutos correspondentes. Tomemos, portanto, a indicação inicial desta bela página do Evangelho como boa para nós: sentemo-nos como Jesus naquele dia, reservemos algum tempo para ouvir e meditar.

Normalmente, paramos para comentar o conteúdo da parábola, perdendo de vista as passagens centrais, que, ao contrário, oferecem várias pistas de reflexão. O texto ouvido diz que Jesus fala em parábolas ao povo porque: olhando não veem, ouvindo não escutam e não entendem: o que significa? Só quem decide embarcar em uma jornada de discipulado se coloca em uma situação existencial capaz de entender o que ouve. O conteúdo das parábolas só pode ser entendido por aqueles que decidiram seguir Jesus, mas para aqueles que dizem entender o que o Senhor está dizendo sem fazer o menor esforço para seguir, será impossível entender a profundidade do significado das parábolas. A radicalidade de Jesus visa estimular o ouvinte a fazer as escolhas necessárias em sua vida para se tornar um discípulo. A oposição entre os discípulos e o mundo é tão radical que Jesus chega a argumentar que: a quem tem se dará e terá em abundância, mas a quem não tem até o que tem será levado embora. Sem dúvida não estamos no plano dos bens materiais, mas do conhecimento dos mistérios. Aqueles que não colocaram a vida em condições de compreender tornando-se discípulos, também serão privados daquilo que presumem ter, ou seja, aquele conhecimento superficial de Deus, fruto de uma adesão efêmera.

Cada vez que alguém ouve a palavra do Reino e não a compreende... Na primeira parte da parábola, Jesus enumera uma série de obstáculos que impedem a compreensão da Palavra de Deus. O primeiro dado fundamental, que funciona como corolário da todo o discurso é que a Palavra para dar frutos deve ser compreendida. Esta afirmação está ligada ao que Jesus disse um pouco antes e que tentamos explicar, o que significa em última análise: enquanto não nos propusermos a seguir o Senhor, a nossa vida permanece insensível ao conteúdo da Palavra de Deus, a ponto de podermos também ouvi-lo, mas nunca vamos entender o significado profundo.

Existem dois grandes obstáculos para a compreensão da Palavra: as perseguições e as tribulações da vida. No primeiro caso, depois da alegria inicial provocada pelo acolhimento do Verbo, chega-se ao abandono do caminho empreendido quando se começa a sentir as consequências que este caminho comporta. Viver o Evangelho do amor e da justiça em um mundo feito de interesses pessoais e de relações ditadas pelo rancor e pelo ódio, causa lacerações e perseguições também dentro da mesma comunidade. A tentação que assalta o discípulo é a de desistir também pela superficialidade do caminho. Está implícito o conselho de Jesus de dar profundidade à escuta, protegendo o próprio caminho de olhares indiscretos, vivendo discretamente, sem se expor demais para permitir que a semente da Palavra crie raízes robustas.

A preocupação do mundo e a sedução da riqueza sufocam a Palavra e ela não dá fruto. O outro obstáculo é muito concreto e atual porque diz respeito à nossa relação com o mundo e com o dinheiro. Aprender a viver tudo na perspectiva do Evangelho significa que na Palavra se encontra a fonte até das opções mais concretas e quotidianas. Este é o sentido profundo da vida espiritual: aprender a administrar o presente com todas as suas preocupações, não as encarando de frente, mas inserindo-as desde a manhã na relação com o Senhor. Quando nos deixamos dominar pelos acontecimentos da vida ou pela sedução da riqueza, significa que a vida espiritual e a relação com o Senhor já eram muito débeis e frágeis.

O que foi semeado em boa terra é aquele que ouve a Palavra e a compreende; estes dão frutos e produzem cento, sessenta, trinta vezes um. Toda a parábola visa mostrar a fecundidade da Palavra de Deus, o grande potencial que ela possui para uma vida plena. Ouvir os conselhos que o Senhor oferece significa aprender a colocar a nossa existência no caminho que nos permite tornar-nos terreno fértil para a Palavra de Deus: este é o facto fundamental e a grande promessa que cumpre a profecia de Isaías, ouvida na primeira leitura: assim será da minha palavra que sai da minha boca: não voltará para mim sem efeito (Is 55:11).

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Homilia Domingo XVI°/A




Sab 12, 13.16-19; Sal 86; Rom 8, 26-27; Mt 13, 24-43

Paolo Cugini

1. A Palavra de Deus não tem somente um sentido espiritual, mas também existencial. Isso quer dizer que para entendermos o sentido das paginas da Bíblia e, sobretudo do Evangelho, devemos aprender a entrarmos nela com a nossa vida. A final de conta, a Bíblia é uma Palavra que Deus dirige aos homens e mulheres de todos os tempos para salvar-nos de uma vida vazia, perdida. Se as vezes sentimos a distancia entre nós e a Bíblia é porque não deixamos que ela penetre na nossa existência. 

Por isso as vezes, sentimos indiferença no confronto da Palavra, talvez porque achamos que Ela não tem nada pra dizer a nós de importante e por isso não prestamos atenção. Para que a palavra de Deus possa revelar os seus sentidos pela nossa existência, precisa de duas condições essenciais. A primeira é o tempo. É impossível entender algo de profundo da Palavra de Deus se não dedicarmos o tempo necessário. A segunda é a docilidade ao Espírito Santo. É aquilo que nos aconselho são Paulo na segunda leitura de hoje: “O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza” (Rom 8, 26). De que fraqueza se trata? Talvez da nossa capacidade de entender, compreender os conteúdos profundos da palavra de Deus. É com estas atitudes que abrimos as paginas da Palavra de hoje e, para agilizar a nossa compreensão, podemos também formular algumas perguntas. De fato, o pano de fundo existencial das parábolas de Jesus que hoje ouvimos, pode ser referido a nossa maneira de criar laços humanos, de fazer amizades. Por isso podemos nos perguntar: quem são hoje os nossos amigos? Quais são os critérios que utilizamos para discerni-los?

2. “Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13, 30).
Na parábola do joio, Jesus pronuncia uma sentença importante. No tempo presente é impossível separar o trigo do joio, porque o perigo imediato seria aquele de arrancar o trigo junto com o joio. Este trabalho de divisão do trigo do joio será feito só no final dos tempos. Qual é o sentido existencial e espiritual destas palavras de Jesus? Jesus está ajudando os discípulos a aprender a conviver com as pessoas ruim. O motivo disso talvez seja contido na outra parábola que Jesus narra hoje no Evangelho. “O reino dos céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (Mt 13, 33).

 Este é o interesse de Jesus: que tudo fique fermentado, ou seja, que nada seja desperdiçado. Por isso Jesus nos convida a aprender a lidar com as pessoas ruim, a rezar e até amar os nossos inimigos, a perdoar sempre, porque a esperança é que tudo se salve, que a semente do Evangelho possa no tempo, nos séculos, fermentar toda a realidade, também a humanidade ruim. Jesus não apenas falou isso, mas viveu aquilo que pregava pelos outros. Olhando a turma dos seus discípulos, Jesus conviveu com pessoas que, enquanto escutavam as suas palavras e partilhavam a sua vida, matutavam outros planos. É o caso de Judá, o discípulo que traiu o Mestre. A mesma coisa podemos falar de Pedro. Apesar de ter sido escolhido como chefe dos discípulos, na hora da perseguição renegou o Senhor por três vezes. Jesus nos ensina que a caridade é paciente, sabe esperar o tempo da passagem do Seu Espírito no coração das pessoas, para que possam mudar. Esta, talvez, seja uma das características da vivencia cristã, que marca a nossa caminhada. Se, de fato, o mundo descarta logo quem julgou que não presta, o cristão sabe que não cabe a ele o julgamento, mas ao Senhor. Tempo presente é o tempo da conversão, da esperança que algo mude. Só Deus conhece os nossos corações, só Ele sabe aquilo que está acontecendo no coração do homem e da mulher. É esta uma grande indicação ao mesmo tempo espiritual e existencial para entrarmos nas nossas famílias, comunidades, grupos de amigos, lugares de trabalho com uma atitude diferente, menos arrogante e mundana e mais cristã e humana, respeitosa dos tempos dos outros.

3. “O reino dos céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo” (Mt 13, 31).

Também nesta breve parábola Jesus nos oferece um ensinamento de grande importância, que vale a pena salientar. O mundo nos acostuma a pensar que vale somente aquilo que se apresenta com as características da grandeza, aquilo que é deslumbrante. Muitas pessoas fascinadas com esta miragem passam a vida toda sonhado conseguir alcançar objetos de valor, dinheiro, fama, gloria. Jesus com poucas palavras revela que a dignidade de uma pessoa não passa por ai. O reino dos Céus, no qual nós batizados somos envolvidos, é como uma semente de mostarda, ou seja, pequeno e não grande. É a menor semente e não a maior. É escondida dentro da terra e não manifestada perante todos. Quer dizer isso para nós? Que a lógica do reino, a lógica do Evangelho é totalmente diferente da lógica do mundo. Quem busca a Deus com todas as forças, não precisa daquilo que o mundo oferece. A sede do poder, do dinheiro, das coisas materiais são sintomas daquilo que está dentro do coração do homem: não precisa falar, se explicar, se justificar. Aonde é o meu coração lá e o meu tesouro. Se o nosso coração é repleto de Deus e do seu amor, na nossa vida, no nosso dia a dia buscaremos aquilo que é menor, escondido, pequeno. Se o Evangelho está preenchendo a nossa alma, então os nossos desejos serão os mesmo desejos de Cristo, que de rico que era se fez pobre para nos encontrar e que, apesar de ser de natureza divina se despojou disso para encontrar a nossa humanidade. 

O cristianismo, o caminho que Jesus traçou não é um punhado de palavras, mas sim um estilo de vida, uma maneira diferente de viver. E este estilo de vida não se expressa apenas na vida consagrada, mas deve brilhar na vida corriqueira das pessoas casadas em Cristo, nas famílias que tem no Evangelho o programa de vida, nos jovens que anseiam o amor de Jesus, nos adolescentes que estão aprendendo os primeiros passos da vida cristã, nos namorados que desejam viver o amor conforme se manifestou na vida de Jesus. A semente de mostarda que é o Evangelho, que é Jesus, quer transformar toda a nossa humanidade, toda a história e o mundo em amor. E o amor não é vulgarmente exposto ao olhar do mundo, mas é escondido nos pequenos gestos da vida concreta. Por isso precisamos da Eucaristia, precisamos que Deus derrame este amor nos nossos corações, para que aprendemos a conviver com todos, também com as pessoas ruim, esperando no julgamento final. Precisamos da Eucaristia para vencermos as ilusões de gloria e grandeza que o mundo coloca na nossa frente, para continuarmos a almejar a vida escondida de Cristo, que da pequena e humilde cidade de Nazaré, transformou e continua transformando a humanidade toda.




Homilia Domingo XV°/A




(Is 8, 55,10-11;Sal 65; Rom 8, 18-23; Mt 13, 1-23)

Paolo Cugini

1. quem é o cristão e como deve ser o seu relacionamento com Deus? Esta é uma das perguntas centrais da vida cristã, pois esta vida é iluminada pelo relacionamento com Deus e muitas vezes, não sabemos como cultivar, alimentar este relacionamento tão importante. As leituras de hoje vêm ao nosso encontro nos tranqüilizando, pois nos lembram dois dados importantíssimos. O primeiro, é que Deus semeou uma Palavra nos nossos corações, cuja força e efeito é indiscutível e não depende das nossas capacidades humanas de compreendê-la. O segundo, é que cada um de nós foi pensado por Deus desde a criação para acolher a Sua Palavra, para que possa brotar frutos positivos. De uma certa forma, podemos afirmar que fomos criados para brotar frutos de vida autentica, para que a nossa vida se tornasse um espaço claríssimo não apenas da presença de Deus, mas também da sua potencia. É sobre isso que as leituras de hoje tentam de atrair a nossa atenção, para avaliar se é isso mesmo que está acontecendo conosco.

2. “Assim como a chuva e a neve descem do céu para irrigar e fecundar a terra... assim a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia” (cf. Is 55, 10-11).

Estes são dois entre os versículos mais profundos e impressionantes de todos o Antigo Testamento. É nestes versículos que Deus explica, pela boca do profeta Isaias, o porque o homem, a mulher deve prestar atenção á palavra de Deus. Além do mais, nestes dois versículos o profeta Isaias revela a essência da Palavra de Deus. De fato, o profeta nos lembra que a força da Palavra não está no fato que é compreendida por alguém, mas que é acolhida. Parece um jogo de palavras, mas não é. A Palavra que Deus comunicou, tem por si mesma uma força, um poder. A imagem que utiliza o profeta para explicar isso é do mesmo sentido daquilo que utiliza Jesus no Evangelho de hoje para explicar o mesmo assunto. 

A chuva e a neve são dois elementos que servem para irrigar a terra e fazê-la fecundar, ou seja, não são elementos naturais à toa, mas contêm um objetivo especifico. O mesmo fala Jesus no Evangelho, identificando a Palavra com a semente a qual, quando encontra um terreno fértil, produz frutos. Tudo isso é claramente um convite para levar a serio a Palavra de Deus, o Evangelho de seu Filho Jesus, pois aquilo que escutamos são Palavras que contem um poder e uma força indiscutíveis. A Palavra é proclamada para brotar frutos, isso quer dizer que tudo é feito no plano de Deus para que o seu projeto se realize. O amor, a justiça, a paz e a mesma vida que as vezes parecem serem ausentes do convívio humano, mas que qualificam a presença do homem e da mulher na história, se encontram na Palavra de Deus. Se nós entendêssemos isso de verdade, provocaria duas ações. A primeira subjetiva, ou seja, uma importância sempre maior á escuta desta Palavra de vida, para que a nossa vida assuma um valor, um sentido e seja moldada conforme Deus a pensou desde o principio. A segunda resposta seria eclesial. Ou seja, uma Igreja convencida de verdade de ter recebido de Deus a Palavra que salva, que dá vida, sem duvida nenhuma não perderia mais tempo em coisas que não seja o anuncio explicito do Evangelho. Vivemos em paróquias que muitas vezes sabem fazer de tudo, organizar de tudo, mas que não sabem e não conhecem a Palavra de Deus. Isso é terrível! Por isso, o anuncio é fraco e as pessoas não se convertem e continuam vivendo no mesmismo de sempre. O motivo deste desastre espiritual é porque calamos aquela Palavra que deveria ser gritada nos telhados.

3. “A semente que caiu em boa terra é aquele que ouve a Palavra e a compreende. Esta produz fruto” (Mt 13,23).
Versículo simplesmente fascinante. Jesus nos alerta que não basta escutar a Palavra, mas precisamos entendê-la: só assim produz os frutos da qual é capaz. É verdade que, como vimos, a Palavra de Deus tem em si mesma o poder de produzir frutos, só que, para isso acontecer, a Palavra precisa de um terreno fértil: é essa a nossa tarefa. Ninguém nasce já como terreno fértil. Pelo contrario, nascemos como terreno ruim, cheio de pedras, terreno estragado, no sentido espiritual. Ao longo da vida, Deus faz de tudo para provocar a nossa atenção, para que possamos começar a preparar o terreno da nossa vida para acolhermos a semente da Palavra. Uma missa, uma experiência espiritual, o testemunho de uma pessoa, tudo Deus oferece para estimular a nossa atividade, para que possamos trabalhar o terreno da nossa vida para prepará-lo a acolher a sua Palavra. Só assim poderemos compreendê-la, para que brote frutos. 
A Palavra para brotar fruto deve ser compreendida, ou seja, deve estimular a nossa atenção a nossa inteligência para que aquilo que ouvimos dela seja posto em pratica. É assim que a Palavra de Deus se compreende: vivendo-a. Não é um puro esforço mental que o Senhor exige de nós, mas sim a docilidade para obedecer á sua Palavra, para vivê-la, pô-la em pratica. É este o grande segredo da vida espiritual: viver tudo aquilo que ouvimos do Senhor, encarnar as exigências da sua Palavra. Só nesta maneira os dons de Deus, as suas qualidades, entram na história moldando a humanidade, transformando o egoísmo em amor, a injustiça em justiça, a falsidade em Verdade, as trevas em Luz. É isso que a Igreja é chamada a fazer: de um lado semear incansavelmente a Palavra do Senhor. Do outro inventar, criar situações para que as pessoas sintam-se estimuladas a zelar do terreno da própria vida, para rendê-lo dócil e obediente á Palavra de Deus.

4. “Eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a gloria que deve ser revelada em nós” (Rom 8, 18)
São estas palavras de Paulo que podem nos ajudar no caminho que estamos realizando de vivencia da Palavra. Se as vezes achamos duro de mais aquilo que Jesus nos pede, ou se estamos vivendo situações duras, perigosas por causa da Palavra, ou se as indicações da Palavra estão encontrando resistência na nossa maneira de entender a vida, pensamos á gloria que está na nossa frente e que receberemos pelo fato de termos sidos disponíveis e dóceis ao plano de Deus na historia. Pedimos a Deus neste domingo a humildade de não pensar de sabermos mais do que Deus, para podermos continuar no difícil, mas satisfatório trabalho de preparar constantemente o terreno da nossa vida para acolhermos a Palavra da nossa salvação.










sexta-feira, 3 de julho de 2015

A LOCURA DE DEUS



XI DOMINGO-B
(Ez 17,22-24; sal 92;2 Cor 5,6-10; Mc 4,26-34)

Paol Cugini

1. Terminado o período das grandes festas depois do tempo pascal - Pentecostes, Santíssima Trindade, Corpus Christi -, a liturgia volta ao tempo comum, que é o tempo da nossa vida corriqueira. Sendo que é a liturgia a iluminar o sentido das leituras, tentaremos entender o que Deus está querendo nos dizer hoje, na nossa vida, para a realização do seu Reino.
O fato que no Evangelho que acabamos de escutar Jesus narra duas parábolas enfocando o Reino de Deus, quer dizer que deve ser  este o centro da nossa atenção na vida corriqueira. Em cada ação, pensamento, decisão toda a nossa vida deve ser orientada para que o Reino de Deus se realize. Mas, a final de conta, é o que o Reino de Deus?

2. “O Reino do céu é como quando alguém espalha semente sobre a terra...” (Mc 4, 26).  O sentido desta primeira parábola é bastante claro. Jesus, de fato, quer nos alertar que o sucesso do reino de Deus não depende dos nossos talentos, capacidade, mas da força da Palavra. Pra nós cristãos torna-se fundamental semear, espalhar a semente da Palavra onde estivermos: o resto é Deus que irá desenvolver. Jesus avisa os discípulos que nas coisas de Deus não podemos entra com critérios humanos, pensando que tudo depende de nós. Nas coisas de Deus é Ele o protagonista e nós somos simplesmente instrumentos. Esta parábola deveria nos ajudar nos momentos de desconforto, quando estamos achando que a nossa ação não valeu nada e que tudo aquilo que fizemos para anunciar o Evangelho foi inútil.
“Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra por si mesma produz fruto”(Mc 4,27-28).
Mais uma vez: o discípulo, o missionário preocupado com o trabalho de evangelização, não pode ficar estressado se os frutos não estão brotando, também porque quem mede o tempo e o momento do amadurecimento da Palavra, não é o homem, mas sim Deus. É Deus que acompanha o desenvolvimento das sementes que o discípulo espalha no campo do mundo. Aceitar isso é viver com fé o próprio ministério e confiar na força de Deus e não nas próprias. É por isso que para anunciar o Evangelho de Jesus é necessário realizar o caminho de discipulado, para assimilar o jeito de Jesus viver e aquela confiança em Deus, que nos libera do nosso protagonismo humano. Aquilo que é da nossa conta é semear a palavra com perseverança e docilidade: o resto é da conta de Deus.
É bom salientar também que, este fato de semear a Palavra não é somente obra dos “especialistas” como padres, freiras, mas de todos os batizados, os cristãos. De fato, o semear a Palavra não acontece somente quando falamos explicitamente de Jesus, mas também quando o testemunhamos nos ambientes de vida. Isso quer dizer que, se a nossa existência não se tornar um seguimento total a Jesus, uma entrega total, dificilmente conseguiremos realizar aquela semeação que Deus quer. Em qualquer momento da vida e em qualquer situação estamos ou colaborando ou atrapalhando a difusão do reino de Deus.

3. “O reino de Deus é como um grão de mostarda” (Mc 4,31).
A segunda parábola de hoje é na mesma linha da primeira, visa respaldar a importância do Reino de Deus. Este, de um ponto de vista humano, não tem aparência, mas, ao longo dos anos, cria uma realidade impressionante. A referencia é sobre aquilo que nós achamos importante para realizar a nossa existência. Se contarmos sobre os meios humanos, buscando uma aparência e uma visibilidade externa, então o fracasso será certo. Se pelo contrario, optaremos para abrir o nosso coração para a invisibilidade e a pequenez do reino de Deus, então o sucesso será seguro. É claro que se fala de sucesso não no sentido mundano, mas sim no sentido espiritual. A nossa vida se realiza somente se tivermos a humildade de entregar as rédeas da nossa vida para Deus, para que seja Ele a conduzi-la. Este, a meu ver, é o sentido da comparação do Reino de Deus com a semente de mostarda. O problema é saber aonde encontrar a força, ou melhor, a lucidez e a coragem de colocar a nossa vida contra as aparências deste mundo. Para isso é sem duvida necessário o caminho do discipulado, dedicar tempo a interiorizar a Palavra de Deus, se esforçando de vivê-la com toda a coerência possível. É assimilando o Evangelho que apreendo a dar valor àquilo que para Deus é importante e, assim, a descartar aquilo que pode atrapalhar a realização do Reino de Deus. Se Jesus hoje nos revela que o Reino de Deus é como uma semente de mostarda, isso quer dizer que nas nossas decisões não devemos olhar a aparência, o tamanho, a visibilidade externa. Se o mundo nos leva a prestar atenção e a valorizar tudo aquilo que é exterior, que aparece e que estimula os sentidos da carne, no Reino de Deus é exatamente o contrario. Para essa maneira de olhar e de pensar, ninguém é preparado: por isso Jesus veio ao mundo. Jesus vindo ao mundo escolheu o ultimo lugar, se fez servo, lavou os pés dos discípulos, se humilhou, se abaixou, se entregou totalmente. Este jeito de viver de Jesus, que é a maneira de realizar o Reino de Deus, pela lógica do mundo é absurdo. O cristão, que quer seguir a Jesus, deve aprender a viver naquilo que o mundo acha um absurdo, uma loucura, na convicção que: “a loucura de Deus é mais sabia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Cor 1, 25).
O Reino de Deus é como um grão de mostarda, ou seja, é pequeno. Além de ser pequeno é escondido no baixo do chão para brotar frutos e, assim, se tornar uma grande arvore. A vida cristã se quiser seguir a Jesus e assim brotar frutos, deve manter no mundo a pequeneza e o escondimento de Jesus: deve de certa forma, desaparecer aos olhos indiscretos e curiosos do mundo. Ninguém merece cristãos atrevidos e exibidos!

4. Nesta Eucaristia que estamos celebrando, pedimos a Deus que forme em nós os mesmos sentimentos que foram em Jesus, para sermos no mundo testemunhos silenciosos e discretos da gloria de Deus e para que, através deste testemunho, o mundo possa acreditar em Jesus.
 Assim seja.