martedì 30 giugno 2026

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM/A

 



 

Zc 9, 9-10; Sal 144; Rm 8, 9. 11-13; Mt 11, 25-30

 

Paolo Cugini

 

O capítulo 11 do Evangelho de Mateus inicia a seção sobre o mistério do Reino dos Céus, que, no capítulo 13, apresenta as sete parábolas do Reino. O conteúdo do capítulo relata a resistência e a rejeição manifestadas à proposta de Jesus. Apesar dos milagres realizados e relatados nos capítulos 8 e 9, na seção sobre a pregação de Jesus, há uma clara rejeição por parte de uma geração que não aceita Jesus como o Filho de Deus. O povo de Israel, e especialmente seus líderes religiosos, provavelmente esperavam algo diferente. É nesse contexto que devemos ler as palavras que o Evangelho nos oferece hoje, que são os versículos finais do capítulo 11.

Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim o propuseras (Mt 11,25). Numa leitura superficial, estas palavras de Jesus podem parecer uma rejeição do conhecimento e da sabedoria, como se fossem um obstáculo à compreensão dos mistérios do Reino. Na realidade, Jesus não está falando da sabedoria em geral, mas de um tipo específico de sabedoria: qual? ​​Ele se refere àquele tipo de conhecimento que pretende conhecer a Deus a ponto de fazê-lo dizer o que Ele nunca disse. É a sabedoria dos escribas, dos fariseus e dos doutores da lei que, ao longo do tempo, criaram uma perigosa identificação entre Deus e os preceitos que inventaram. Segundo eles, só é possível chegar a Deus através da obediência a uma infinidade de regras, preceitos e rituais, que só produzem, naqueles que tentam segui-los, uma série de sentimentos de culpa que os aprisionam. Jesus, diante dessa situação, afirma que o conhecimento que vem de Deus não é acessível à sabedoria proposta pelos doutores da lei, mas requer um novo caminho de conversão e abertura. Os pequeninos a quem se abrem as portas da sabedoria de Deus são os discípulos, homens e mulheres, aqueles que, atraídos pela bondade da proposta do Senhor, partiram na senda que Ele seguiu. A revelação da presença de Deus na história não se dá pela obediência a preceitos humanos, mas sim seguindo o caminho traçado pelo Senhor.

Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27). Este é o conhecimento que somos chamados a assumir: a partir de agora, o mistério de Deus se manifesta no Filho, e Ele o revela somente àqueles que O seguem. De fato, é escutando a Sua Palavra e procurando colocá-la em prática que descobrimos que a sabedoria do Senhor se manifesta no amor pelos irmãos e irmãs que encontramos no caminho da vida. É seguindo-O que descobrimos que a essência da vida não reside nas coisas materiais, no dinheiro, na posse de bens, mas em acolher os outros, no esforço constante para melhorar a qualidade dos nossos relacionamentos. É estranho notar como os líderes religiosos rejeitaram esta proposta de Jesus. Estranho, considerando também o fato de que os profetas da Primeira Aliança já haviam anunciado o modo como o Filho de Deus se comportaria ao vir entre os homens e as mulheres para anunciar a boa nova. Não é por acaso que a liturgia, na primeira leitura, nos oferece alguns versículos do profeta Zacarias que nos lembram da bondade desta novidade: “ Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Fará desaparecer de Efraim os carros e de Jerusalém os cavalos; o arco de guerra será quebrado; ele proclamará paz às nações” (Zacarias 9:9-10). Zacarias é o profeta que acompanhou a construção do Segundo Templo por volta de 520 a.C. É precisamente neste contexto de reconstrução, que é também um contexto marcado pela alegria do regresso e pela possibilidade de viver novamente na sua própria terra, que Zacarias recorda ao povo a forma como o Messias se manifestará. Em consonância com as profecias de Isaías 45:1, que pregou ao povo do Reino do Norte por volta do século VIII a.C., o profeta declara que o Messias-Rei não virá montado em um cavalo, com o poder de armas e exércitos para guerrear, mas virá humildemente, montado em um jumento, para destruir os instrumentos de guerra e trazer a paz. De agora em diante, com a presença do Senhor, devemos aprender a buscar a Deus nos sutis sinais de paz entre os povos, com humildade e mansidão. É essa novidade que desagrada aqueles que transformaram a religião em um poderoso instrumento de controle sobre o povo e em uma arma de conflito entre as nações.

Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,29). Este é o caminho que devemos trilhar: deixar de lado o pesado e opressivo jogo da religião, composto de preceitos e leis, que apenas sobrecarregam nossa jornada e nossas mentes, devastando nossas almas com sentimentos de culpa, para abraçar a doçura da proposta de Jesus, que, libertando-nos do fardo da religião, nos permite caminhar livremente e viver plenamente a experiência do amor compartilhado com os irmãos e irmãs que encontramos pelo caminho. Fazer a transição da religião para a fé significa passar do cansaço para o descanso, de uma vida sobrecarregada pelo esforço de caminhar em direção a Deus com preceitos, experimentando diariamente nossa incapacidade, para acolher o dom de um Deus que vem a nós com o Evangelho do Filho, convidando-nos a fazer de nossas vidas uma experiência de amor livre e altruísta. Boa sorte em sua jornada. 

 

sabato 20 giugno 2026

DOMINGO XII/A

 



 


Jeremias 20:10-13; Salmo 68:1; Romanos 5:12-15; Mt 10:26-33

Paolo Cugini

 

No domingo passado, começamos a ler o capítulo 10 do Evangelho de Mateus, e o concluiremos na próxima semana. Este capítulo contém o que se chama de discurso missionário de Jesus, concluindo a seção da pregação do Reino dos Céus , que vai dos capítulos 8 a 10. O Evangelho de hoje, portanto, nos leva ao cerne do discurso missionário de Jesus, que, como veremos, tem uma única preocupação: exortar os discípulos, infundir neles coragem diante dos conflitos que encontrarão. É importante ressaltar que o envio dos discípulos ocorre durante a jornada, não no final. Há um mundo que precisa urgentemente da mensagem de alegria e paz que é a Boa Nova. Aqueles que experimentaram a beleza do estilo de vida proposto por Jesus anseiam por compartilhá-lo. Há amor, alegria, justiça, paz: é disso que o mundo precisa, e ele precisa saber onde encontrar esse tesouro de vida nova. A comunidade cristã, ao ouvir essas passagens do Evangelho, deve sentir-se encorajada a considerar caminhos de evangelização, para levar ao mundo a beleza do que está vivenciando.

Não tenham medo dos homens (Mt 10,26). Três vezes em poucos versículos, Jesus exorta seus discípulos a não terem medo: por que e do que deveriam ter medo? Os problemas que os discípulos enfrentarão estão todos ligados à novidade da mensagem do Evangelho, que desorienta os ouvintes, os desafia e provoca rejeição naqueles que não têm a intenção de se questionar. A mensagem de liberdade de Jesus é profunda e radical, porque se sustenta em seu estilo de vida livre. Jesus é livre do apego aos bens materiais e ao dinheiro e ensina a todos os que o seguem um estilo de vida simples, centrado na busca do Reino de Deus (Mt 6,32ss.). Em um contexto como o que vivemos, onde o dinheiro constantemente corre o risco de direcionar nossas escolhas, fazendo-nos perder o conteúdo essencial de uma vida plena, a mensagem de Jesus, quando vivida em comunidade, provoca irritação. O mesmo se aplica ao modelo de igualdade que ele propõe por meio de uma comunidade de homens e mulheres iguais, esvaziando de dentro o senso de patriarcado, um modelo cultural que ainda molda a cultura ocidental atual e determina estilos de vida marcados pela desigualdade e discriminação. Numa cultura dominada pelos homens, como a semítica, que considerava as mulheres inferiores aos homens e sujeitava-as a uma discriminação generalizada, a proposta de Jesus provocou fortes tensões. É por isso que Jesus adverte os seus discípulos para não terem medo. Este é também o significado de uma vida espiritual baseada no seguimento do Senhor: acolher o seu Espírito, que nos capacita a suportar as tensões, a aprender a viver com elas e a não perder a nossa serenidade.

Ouvi a calúnia de muitos: "O terror está por toda parte! Denunciem-no! Sim, nós o denunciaremos (Jeremias 20:10).

Por tua causa suporto insultos, e a vergonha cobre o meu rosto (Salmo 68).

Não é por acaso que a liturgia nos leva a ouvir uma passagem das confissões de Jeremias, na qual o profeta lamenta a perseguição a que é submetido por pregar a Palavra de Deus. O mesmo se pode dizer do protagonista do Salmo 68, proclamado na liturgia de hoje, que expressa todo o sofrimento causado, também por ele, por ser uma testemunha fiel do plano de amor do Senhor. Em ambos os casos, os protagonistas experimentam a proximidade do Senhor. Precisamente no momento de maior tensão, Jeremias sente a presença do Senhor perto de si: " Mas o Senhor está ao meu lado como um poderoso guerreiro ". Permanecer em comunhão com o Senhor, mesmo em tempos de tensão, conduz-nos a uma experiência interior d'Ele, que poderíamos definir como mística. É como se fosse uma passagem necessária, que nos conduz a outra dimensão, separando-nos definitivamente do modelo cultural do mundo em que nascemos e do qual fomos assimilados, para nos introduzir mais profundamente no mundo do amor, acolhendo o Espírito da Vida que sopra onde quer e é sentido por aqueles que o seguem.

Contudo, nenhum deles cairá por terra sem a vontade de vosso Pai. Entre outras coisas, a narrativa do capítulo 10 de Mateus é marcante, como no versículo citado acima, por seus verbos no plural. O discurso missionário não se dirige a indivíduos, nem é um convite a se tornarem heróis, mas sim à comunidade. De fato, é a comunidade que é missionária, pois permite que o mundo das relações trinitárias que acolhe continuamente brilhe através de suas escolhas e estilo de vida. A verdade de nossa caminhada seguindo o Mestre se revela quando, decisiva e definitivamente, abandonamos uma perspectiva individualista para caminhar junto com os irmãos e irmãs que o Senhor colocou ao nosso lado, cuidando deles, especialmente dos mais pobres e vulneráveis. Esse aspecto também perturba o modelo de mundo centrado em critérios meritocráticos, que produz tantos desastres existenciais em nosso meio. A proposta do reino de Deus que os discípulos são chamados a proclamar com suas palavras e suas vidas é aquela minúscula semente que produz caminhos de vida nova tão evidentes que os tornam, paradoxalmente, insuportáveis ​​aos olhos do mundo e, precisamente por isso, proféticos. 

 

mercoledì 10 giugno 2026

Vida eterna e Resurreição em João 11

 




Paolo Cugini


"Quem vive e crê em mim jamais morrerá" é a novidade trazida por Jesus, que libertou a comunidade não do medo da morte, mas da própria morte, e a tranquilizou: "Quem vive e crê em mim jamais morrerá". À comunidade que chorava a morte de alguém, ele dizia: "Se esta pessoa creu em mim, mesmo que agora esteja morta, saibam que ela continua a viver, e vocês, que estão vivos e me são fiéis, jamais experimentarão a morte". Esta é a mudança de mentalidade que Jesus queria trazer à comunidade cristã. Os primeiros cristãos entenderam isso; eles não acreditavam que seriam ressuscitados após a morte, mas que já haviam ressuscitado; eles entenderam que Jesus não ressuscita os mortos, mas dá aos vivos uma vida de tal qualidade que ela continua para sempre. Com Jesus, a vida eterna não é um prêmio para o futuro, mas uma condição do presente, e assim entendemos certas afirmações estranhas nas cartas de São Paulo: "Ele também nos ressuscitou e nos fez assentar no céu". Como assim, nos ressuscitou? Mas não existe vida, morte e ressurreição?

São Paulo diz: nós que já ressuscitamos. Esta é a fé da comunidade cristã. Não há ressurreição após a morte, há uma ressurreição na vida. Jesus disse: quem crê tem a vida eterna, mas não terá a vida eterna. No momento em que um indivíduo entrega sua fidelidade a Jesus, uma vida de tal qualidade eterna é enxertada nele, de modo que ele nunca experimentará a morte. Em nossa hora, outros nos verão como alguém que morre; nós não experimentaremos a morte; continuaremos nossa existência.

Em um evangelho apócrifo, há um dito de Jesus não encontrado nos quatro Evangelhos: Quem diz que alguém morre primeiro e depois ressuscita está errado; se alguém não ressuscita primeiro, enquanto ainda está vivo, ao morrer, não ressuscita mais. Para os cristãos, a ressurreição não é no fim dos tempos; é parte da vida. Nós, que entregamos nossa fidelidade a Jesus, já temos uma vida de tal qualidade que não experimentaremos a morte; continuaremos nossa existência. Veremos outros lamentando um cadáver e não perceberemos que estamos presentes! Enquanto lamentarmos a morte de nossos entes queridos, não poderemos vivenciá-los como vivos. Enquanto Maria Madalena chora diante do túmulo de Jesus, ela não percebe que Ele está atrás dela e espera que Ele pare de chorar. Uma pessoa que viveu unicamente para si mesma, focada apenas em suas próprias necessidades e desejos, que não se projetou para os outros, não cresceu. A centelha de vida que ela tinha dentro de si atrofiou até se extinguir. Aqueles que vivem para os outros enriquecem a vida (zoe); aqueles que vivem para si mesmos a destroem. Jesus diz muitas vezes no Evangelho que dar a vida não é perder, mas ganhar; apegar-se à própria vida é perdê-la. Possuímos — como dizemos nestas reuniões — apenas o que damos; o que retemos para nós mesmos não é possuído, mas nos possui e é destruído.

Quanto mais dermos vida aos outros, mais poderosa será a vida divina (zoe), e não experimentaremos a morte. Se vivermos apenas para nós mesmos, corremos o risco de que, quando a morte física chegar, a morte definitiva da pessoa também ocorra. Jesus propõe à comunidade mudar o conceito de morte; a ressurreição não está no futuro, e ele diz a Marta: "Quem vive e crê em mim jamais morrerá."

Você acredita nisso? Para Jesus, a morte não existe. Será que Marta, a comunidade, tem essa fé? Jesus não oferece um caminho diferente para a vida eterna, mas uma vida diferente que já é ressurreição. Não se segue Jesus para ter a vida eterna, mas seguindo Jesus, descobre-se em si mesmo um poder de vida que se sente indestrutível. Finalmente, a fé cresce em Marta, na comunidade. A comunidade compreendeu que aquele que há de vir não é um profeta que deve ensinar a lei, mas o Filho de Deus que comunica o amor. Esta é a inovação trazida por Jesus: Deus não governa os homens promulgando leis que devem ser observadas, mas Deus governa os homens comunicando-lhes o seu próprio Espírito, a sua própria vida, uma capacidade indestrutível para a vida.

Jesus não precisou pegar pela mão a filha do chefe da sinagoga, nem tocar no caixão do filho da viúva de Naim; Aqui ele diz: "Lázaro, vem para fora". Ele não poderia dizer o mesmo nos dois episódios anteriores, porque estava em um ambiente judaico onde a lei divina proíbe tocar em um morto, pois isso tornaria a pessoa impura. Jesus demonstra a falsidade dessa lei: é a lei que mantém a pessoa em estado de morte; transgredindo a lei, encontra-se a vida.

sabato 6 giugno 2026

XI DOMINGO/A

 


 



Êxodo 19,2-6a; Salmo 99; Romanos 5,6-11; Mateus 9,36-10,8

Paolo Cugini

 

Aos domingos do Tempo Comum, refletimos sobre as características que aqueles que seguem Jesus devem possuir. Empreender essa jornada exige disposição para mudar, humildade para nos deixarmos desafiar pela Palavra do Mestre. Não é uma jornada fácil, pois encontramos em nós mesmos resistência à mudança, a dificuldade de uma jornada que requer uma atitude de confiança na Palavra de Deus.

Naquele tempo, Jesus, vendo as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,36). A primeira atitude interior necessária para seguir os passos do Mestre é aprender a sentir compaixão por aqueles que encontramos em nosso caminho. O anúncio do Evangelho, do novo modo de vida inaugurado por Jesus, não é um ensinamento transmitido de um púlpito, mas é, antes de tudo, a comunicação de vida nova que brota de uma atitude de empatia para com os irmãos e irmãs que vêm ao nosso encontro. Sentir o sofrimento dos outros com o desejo de ajudá-los a caminhar rumo a uma vida plena é o ponto de partida dos discípulos do Mestre, que, vendo as multidões, sente compaixão por elas. Tornamo-nos cristãos e comunidades geradoras, capazes de inspirar processos de mudança, somente se abrirmos nossos corações ao amor do Senhor, à ação do seu Espírito, que nos ajuda a ver os outros com um novo olhar, atentos a eles, desejosos de comunicar vida.

Chamando a si os seus doze discípulos, deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos para os expulsarem e curarem toda a doença e enfermidade (Mt 9,37). É impossível comunicar a vida se a alma estiver obstruída por realidades contrárias e antagônicas ao amor de Deus. É impossível ser portadores da paz num contexto doente e contaminado pelo ódio. Para proclamar o Evangelho, devemos primeiro limpar o terreno, criar as condições. Um espírito imundo indica uma doença espiritual tipicamente religiosa. A impureza é uma invenção da religião para controlar as pessoas e fazê-las sentir-se indignas de se aproximarem de Deus. Sacrifícios e abluções são todos preceitos realizados pelos homens do templo para subjugar os homens e obter lucro. Não é por acaso que no templo havia um tesouro que recolhia o dinheiro de tudo o que os homens pagavam para realizar os seus ritos e entrar no templo. Jesus declara que este sistema é um fracasso e, consequentemente, capacita os discípulos a libertarem homens e mulheres desta escravidão. Para ajudar as pessoas a se libertarem dos grilhões dos homens do templo, o discípulo deve primeiro se libertar dessa escravidão religiosa. Esse é o poder que Jesus concede aos seus seguidores: ele lhes mostra a grande ilusão e farsa da religião do templo, que, em vez de aproximar homens e mulheres de Deus, os distancia. Jesus demonstra, com seu estilo de vida, com sua vinda entre nós despojado de tudo, que Deus é acessível a todos e não precisa de filtro religioso. Além disso, de que doença e de que curas Jesus está falando? Nesse nível, diversas interpretações podem ser sugeridas com base no contexto em que o Evangelho está sendo proclamado. Em nossa parte do mundo, ou seja, no Ocidente, as doenças que impedem o Evangelho de entrar e frutificar são o apego ao dinheiro, o espírito de comportamento adversarial e a dinâmica meritocrática, que fomenta o individualismo e o desejo de se sobressair aos outros a qualquer custo. Essas doenças precisam ser tratadas, pois impedem a entrada do Evangelho. O que dissemos acima também se aplica aqui. É impossível aplicar essa cura a menos que os discípulos primeiro se deixem curar pelo Senhor, libertando-se da vaidade e da busca ostentosa pela glória humana.

Estes são os Doze que Jesus enviou (Mt 10,5). Passamos de uma vida anônima para uma vida com nome próprio quando respondemos ao chamado do Senhor. Nossa vida é gradualmente moldada à imagem do Senhor, que descobrimos em nossa caminhada e contemplamos a cada dia de nossas vidas. Este é o grande dom que Ele nos dá: a vida! Viver significa nos realizarmos como pessoas capazes de amar. Jesus envia pessoas que, durante a caminhada do seguimento, se tornam pessoas com nome próprio, cuja identidade, dia após dia, se torna cada vez mais conforme ao Evangelho. Aqueles que se deixam transformar pelo amor do Senhor não permanecem mais vítimas do próprio egoísmo, que estimula a busca da autorrealização, mas se abrem à vida nova, à realidade do Reino de Deus. Esta é a tarefa da Igreja, que o é quando faz tudo para compartilhar livremente o que recebeu. Jesus nos chama a nos enviar. A comunidade tem sentido quando se torna um instrumento que gera vida, uma oportunidade que o Senhor coloca no mundo para que todos possam beber da água nova que brota da vida nova da comunidade.

Ao irem, preguem, dizendo: “O reino dos céus está próximo” (Mt 10,7). O reino veio ao mundo primeiro na vida de Jesus e depois na comunidade. A proclamação de uma vida plena pela comunidade deve ser visível em seu estilo evangelístico, que é chamado a demonstrar que existe no mundo uma parcela da humanidade que não é mais dominada pelos mecanismos do poder, do egoísmo e do antagonismo, mas unicamente pelo amor gratuito recebido do Espírito do Senhor. Quando isso acontece, a proclamação do Reino de Deus torna-se uma possibilidade concreta, porque já é visível naqueles que o proclamam.