Paolo
Cugini
Assim fala a Voz que atravessa
os séculos: não ergam os olhos para o céu em busca do Mistério, pois ele não se
esconde entre nuvens inalcançáveis nem se espreita por trás de distâncias
abstratas. O Mistério reside nas mãos que se estendem, nos olhares que se
cruzam, nos passos que se dão um em direção ao outro sem expectativa. Como o
orvalho que cai silenciosamente sobre a terra, assim o Mistério toma forma em
gestos simples, no amor que se concretiza entre irmãs e irmãos.
Escutem, então, ó vós que
buscais: não são velas acesas, nem palavras repetidas que abrem a porta para o
Mistério, mas a capacidade de sair de si mesmo, de acolher aquele que está ao
seu lado. Quando vocês deixam seus corações se abrirem sem reservas, então o
Mistério se revela, não como um enigma a ser decifrado, mas como uma presença
que habita e transforma. Não se afastem: o sagrado os toca todos os dias, na
trama sutil dos relacionamentos verdadeiros. Sejam, então, terreno fértil, e o
Mistério florescerá e permanecerá dentro de vocês, como uma luz que não conhece
o fim.
Falo convosco do âmago
pulsante da matéria, não de nuvens evanescentes ou esferas de outro mundo. O
Mistério que buscais não está oculto num céu para além do pó e do suor, mas
revela-se na carne viva das relações diárias, no toque humilde de mãos estendidas,
em olhares que se cruzam sem pretensão. Despertai do sonho ilusório: chega de
templos de velas bruxuleantes, chega de orações que lançam os vossos fardos em
asas de fumo rumo ao infinito. O véu rasgou-se! Jesus, o Profeta dos profetas,
rasgou-o com os seus gestos de amizade, com banquetes partilhados, com o seu
acolhimento dos marginalizados. Na sua forma livre, altruísta e humilde de se
relacionar, o Mistério fez-se carne, sentou-se à vossa mesa.
O amor mútuo é a porta
escancarada para o Mistério. Quando vocês se amam, o Mistério não se manifesta
como um lampejo fugaz, mas como uma chama que habita em vocês, que perdura e
transforma. Ele floresce quando vocês se desprendem de si mesmos, na jornada em
direção ao Outro, ao próximo, ao desconhecido à sua porta. Livremente! Sem
cálculos egoístas! Com a humildade da semente que brota na terra. O Outro é o
seu templo vivo, a própria condição da sua revelação interior. Nele, nela, o
Mistério se instala, porque o amor é o Seu trono invisível.
Esta é a mudança da nova era:
do céu para a terra! Não busque o sagrado em estrelas distantes; ele caminha ao
seu lado, em seu colega de trabalho, em sua irmã na estrada, em seu irmão
ferido. Segunda mudança: da intimidade egoísta, esse refúgio de orações
solitárias e projeções vãs, para o relacionamento puro e desinteressado que
tece a trama do Reino. Basta de ilusões de mundos infinitos! Cuidado onde pisa,
ou você cairá na cegueira do seu ego inflado.
O Mistério não espera pela
prostração; ele te chama à ação. Invista nas qualidades dos seus
relacionamentos: perdão diário, escuta profunda, serviço incondicional.
Abandone as orações que se dissipam como fumaça; faça do seu amor a canção
eterna. Assim, o Reino virá não de cima, mas daqui, do seu sim concreto ao
Outro. Quem tem ouvidos, que ouça! Quem tem coração, que se manifeste e ame. O
Mistério já está entre vocês; revelem-no, ó terras sedentas!
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