quinta-feira, 25 de junho de 2020

HOMILIA Domingo XII°/A




Jer 20, 10-13; Sal 69; Rom 5, 12-15; Mt 10, 26-33
Paolo Cugini

1. É interessante notar como o Senhor acompanha os nossos passos indicando o caminho que devemos trilhar. Faz isso às vezes nos falando através de pessoas amigas, ou através de uma liturgia. Sem duvida, porém, a maneira mais explicita de Deus intervir na nossa historia para nos orientar é a sua Palavra. O problema é prestar atenção a esta Palavra como algo de vivo, presente, considerá-la na sua realidade especifica, ou seja, como Palavra que Deus dirige para nós hoje, para iluminar o nosso caminho. De fato, a palavra “é Lâmpada para os nossos passos” (Cf. Sal 119), é Ela que revela o caminho que devemos tomar no meio das trevas deste mundo. E para que a Palavra se torne eficaz na nossa vida precisamos escutá-la, não apenas com as orelhas do corpo, mas sim, sobretudo com as orelha das almas, do coração, para que Ela penetre dentro de nós, modificando as atitudes erradas. A coisa pior que podemos fazer é questionar a Palavra, achar que as nossas idéias sejam melhores daquelas de Deus e por isso não prestamos muita atenção. Pelo contrario todos aqueles que amam a Jesus perante uma pagina do Evangelho deveriam se perguntar: o que Tu Senhor quis dizer? E em seguida: o que esta pagina quer dizer para mim, na minha realidade? É com estas duas perguntas que entramos no Evangelho de hoje.

2. “Não tenhais medo dos homens... Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 26.28).
No texto do Evangelho de hoje ouvimos os versículos conclusivos do assim chamado discurso apostólico, aonde Jesus envia os discípulos para anunciar o Evangelho, alertando-os sobe os obstáculos que irão encontrar ao longo do caminho. Um dos perigos que Jesus vislumbra é o medo que pode surgir nos discípulos perante a ignorância do mundo que, não entendendo e não compreendendo o Evangelho, persegue com a força os seu arautos. O medo é um sinal de falta de fé, porque quando confiamos em Deus conseguimos enfrentar qualquer situação. Além do mais estas palavras de Jesus alertam os discípulos sobre a essência da mesma mensagem evangélica, que é a liberdade. 

Por isso nada pode atrapalhar a liberdade dos cristãos, nem a arrogância insolente do mundo, a prepotência dos homens que se sentem o dono do mundo pelo fato de estarem senados nas cadeiras do poder. Por um Cristão é somente a Deus que devemos respeito e a seu Filho Jesus Cristo: é só perante Ele que devemos dobrar o joelho. Pelo resto nada mais que uma consideração humana e, sobretudo, nada deve intervir que possa prejudicar o nosso relacionamento com o Senhor. O Espírito é Liberdade e o Senhor veio para libertar o mundo da toda forma de escravidão. Por isso o Evangelho da liberdade entrando no mundo se choca com as forças do poder das trevas, que se organiza com o único objetivo de prender os homens e as mulheres para que se tornem escravos. O cristão, pelo contrario, não pode ser escravo de ninguém porque Deus pagou um preço salgado para libertá-lo, o sangue do seu Filho Jesus.
Ser cristãos seguidores de Cristo significa ser livres, cujo único Senhor é Cristo: é Ele o Deus da vida. Entender isso significa impostar a própria existência conforme o plano de Deus vencendo o medo que os homens colocam em nós para nos desistir.

3. “Temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” (Mt 10, 28).
Este versículo oferece uma importante indicação pela vida espiritual. Se devermos temer aquilo que pode destruir a alma, significa que é à alma que devemos prestar atenção mais do que ao corpo. Neste sentido o medo dos homens é um reflexo do apego das pessoas pelo corpo ou, num sentido mais geral, pelas coisas materiais. Quanto mais zelarmos da nossa alma, cuidando de viver conforme ao Evangelho, tanto menos sentiremos a atração por aquilo que o corpo oferece. Isso é importante porque, como nos lembrou são Paulo na segunda leitura de hoje, “o pecado entrou no mundo através de um só homem e a morte passou por todos os homens porque todos pecaram” (Rom 5, 12). Zelar da alma significa zelar de nós mesmos, não permitindo que a morte possa entrar na nossa vida. Existe uma experiência de morte que o homem faz também quando é em vida. É a morte espiritual, a morte da alma, a morte causada pelo nosso afastamento de Deus. Quando isso acontece o vazio toma conta de nós e, junto com isso, o apego às coisas materiais, o apego ao corpo toma conta da vida toda. Por isso o medo dos homens é um sintoma de um vazio de Deus, pois na realidade quem ama a Deus de verdade não tem medo de nada e de ninguém, tanto menos dos homens que não tem nenhuma chance de mexer na nossa alma.

4. “Eu ouvi as injurias de tantos homens... Mas o Senhor está ao meu lado como forte guerreiro; por isso aquele que me perseguem cairão vencidos” (Jer 20, 11).

Tudo aquilo que ouvimos no Evangelho é bem visível na experiência do profeta Jeremias, assim como é narrada na primeira leitura de hoje. Jeremias é um profeta que foi chamado por Deus na juventude para anunciar a destruição de Jerusalém por causa dos pecados do povo, provocando a ira do mesmo povo. Jeremias passou por muitas perseguições, angustias, mas em tudo experimentou a presença do Senhor. Isso deve nos servir do exemplo. De fato, sabemos que anunciar e viver o Evangelho num mundo que não conhece a Deus e nem se interessa por Ele é difícil e pode provocar muitas situações de tensões além de persecuções. Sabemos, porém, que o Senhor não nos abandona, pois sempre Ele está ao nosso lado, para nos encorajar, para que não esmorecemos perante os homens, aqueles que se acham os poderosos deste mundo, mas que na realidade de Deus não são absolutamente nada porque que manda na historia é Cristo. É em Cristo que Deus colocou toda a plenitude da sua divindade (Cf. Col 1, 19). Isso quer dizer que é somente a Cristo que devemos dar conta da nossa vida e a nenhum outro homem ou mulher que seja. Quando conseguirmos entender isso quer dizer que somos livres, livres dos tiranos deste mundo que no maximo podem matar  o corpo, mas não podem fazer nada à nossa alma, pois quem manda na alma e na historia toda é Deus. O profeta Jeremias nos ensina que a fé em Deus, a confiança na sua presença e no seu amor por nós, se manifesta na nossa maneira de lidar com as forças do mundo que amiúde nos amedrontam e que agora em Cristo foram totalmente vencidas e não tem mais nenhum poder sobre a humanidade.

Pedimos a Deus que nos ajude a viver aquela força que recebemos na Eucaristia para sermos presença viva do mundo da liberdade de Cristo.




sexta-feira, 12 de junho de 2020

Solenidade da Santíssima Trindade



(Pr 8, 22-31; Sal 8; Rom 5, 1-5; Jo 16, 12-15)

Paolo Cugini

1. Depois das semanas do tempo pascal, que encerraram domingo passado com a celebração da solenidade do Pentecostes, a Igreja nos convida á entrar no mistério da Trindade. Isso é algo que nos deixa bastante sem jeito, pois, também nós, não conseguimos entender o sentido deste mistério que, aliás, é o mesmo mistério de Deus. A liturgia nos pede humildade para entrarmos neste mistério sem a presunção de entendê-lo, mas, pelo menos, de vivê-lo. Deus é uno e trino: quer dizer isso? Deus é amor e o amor se revelou na historia e continua se revelando de formas diferentes. Em que maneira, então, Deus manifestou o seu amor na historia aos homens e as mulheres de todos os tempos?

2. “Quando [Deus] preparava os céus, ali estava eu [a sabedoria]... Quando fixava ao mar os seus limites... eu estava ao seu lado como mestre-de-obras” (Pr 8, 27.29.30).
Conforme aquilo que escutamos na primeira leitura o amor de Deus se manifesta como sabedoria. Deus cria o mundo e a historia não de qualquer jeito, mas com sabedoria. Em tudo aquilo que encontramos na criação podemos perceber com a nossa inteligência vestígios e rastros da sabedoria de Deus. Se o homem e a mulher são criados a imagem de Deus então, um dos traços desta imagem é sem duvida a inteligência, que o instrumento para alcançar a sabedora e, de uma forma indireta, descobrir os traços, os vestígios da sabedoria presentes na criação. Tarefa da Igreja torna-se, então, ajudar as pessoas a crescer na sabedoria de Deus meditando a sua Palavra, prestando atenção á obra da criação. Tarefa da humanidade é sair do estado de estupidez no qual nascemos, mergulhados nos sentidos humanos que ofuscam a nossa inteligência. Por essa razão quando Jesus, o Verbo de Deus, veio ao mundo se apresentou com a Verdade: só um ser inteligente, somente uma pessoa que cultiva a sabedoria, a inteligência pode reconhecer a presença do amor de Deus no mundo através dos sinais inteligíveis da sua sabedoria. Folhando as paginas dos Padres da Igreja dos primeiros séculos do cristianismo, considerada a época de ouro da Igreja, encontramos este grande esforço de colher os sinais da sabedoria de Deus no seu plano de salvação, que se manifestou de uma forma contundente na vinda do seu Filho Jesus. A sabedoria de Deus, com o qual Deus criou o mundo não é apenas uma sabedoria puramente racional, mas encarnada nos fatos, acontecimento históricos. Por isso, para reconhecê-la, necessita de um preparo espiritual que somente a internalização das Divinas Escrituras pode oferecer.

3. “Irmãos, justificados pela fé, estamos em paz com Deus, pela mediação do Senhor nosso, Jesus Cristo” (Rom 5, 1).
O amor de Deus não se manifestou no mundo e na historia apenas como sabedoria, mas também com a vinda do Filho Jesus Cristo. Ele encontrou uma humanidade condenada definitivamente á morte por causa da incapacidade de viver a Lei de Deus, incapacidade causada pelo pecado que estragou gravemente a humanidade. Jesus entrou na historia vivendo até o fim o âmago da Lei que é o amor. Na historia da salvação o amor não se identifica nunca como uma teoria, como algo de abstrato, mas é sempre relacionado á alguém. O Evangelho de João, antes da céia derradeira, faz questão de frizar que Jesus “tendo amado o seus que eram no mundo, amo-os até o fim” (Jo 13,1).

A carta de Paulo aos Romanos nos solicita a olhar a Jesus não apenas pelas suas lindas palavras ou os milagres mirabolantes, mas, sobretudo pela sua maneira de viver perante Deus Pai como um Filho querido, em uma obediência filial que o levou a oferecer até a própria vida. Esta morte fruto do imenso amor que Jesus manifestou para com o seu Pai e pelas pessoas que encontrou na historia, é motivo de salvação por todos nós. Olhar a Cristo não para cobrar continuamente favores materiais, mas para expressar a nossa gratidão pelo seu imenso amor que proporcionou a nossa salvação, é este o sentido da nossa caminhada de fé, para sairmos de uma espécie de materialismo religioso e entrarmos, assim, no mistério do amor de Deus que não poupou nem o próprio único Filho por nós. Perante um amor tão grande e eterno como é que podemos continua a nos aproximar a Ele cobrando algo? Não é terrível a nossa atitude?




4. “Quando, porém, vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá á plena verdade” (Jo 16, 13).

O Amor de Deus que se manifestou ao longo dos séculos e que se manifestou de muitas maneiras e em muitos momentos (cf. Hb 1,1s) como atenção ao homem nas situações concretas da historia, não parou com a morte de Jesus, mas continuou com a vinda do Espírito Santo. É o Espírito Santo que salva o homem da morte, que se manifesta como vida na mentira (cf. Jo 8,41s), que é o contrario da Verdade, da sabedoria desvendada na obra da criação e na vida e nas palavras de Jesus. Esta Verdade é sugerida ao homem pela ação do Espírito Santo, que age dentro do mesmo homem. É isso que revela são Paulo no mesmo texto da carta aos romanos que citamos pouco acima: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rom 5,5).

O amor de Deus que se manifesta como caminho de aproximação ao homem, nesta ultima fase da historia é tão próximo que decidiu de morar dentro de nós. O amor de Deus derramado em nós através do Espírito, nos alerta sobre a verdade, para nos ajudar a destrinchar os caminhos da mentira e, assim, nos afastarmos deles. Em Deus a verdade coincide com o amor: esta é a grandíssima verdade que Deus sempre em todos os tempo quis nos revelar. Só quem ama encontra a Verdade e, ao mesmo tempo, só quem conhece a Verdade consegue á amar e, assim, viver a própria vocação originaria. Esta intuição revelada na Escritura destroça todas as formas mundanas de amor como possesso egoísta do outro. Pelo contrario, na historia da salvação e na vida de Jesus o amor se manifestou como doação total de si. É isso que Espírito nos sugere: fugir da mentira do amor egoísta baseado somente no prazer individual, para buscar o amor que se doa totalmente ao outro, renunciando a si mesmo. É esta a Verdade que o mundo não entende e não compreende porque não conhece a Deus e seu Filho Jesus, e se recusa de escutar a voz do Espírito.

5. Aproveitamos, então, desta Eucaristia para abastecermos a nossa alma do amor de Deus e, assim, derramá-lo aos irmãos e irmãs que encontraremos nos próximos dias.




sexta-feira, 29 de maio de 2020

Domingo Pentecostes/A






( At 2, 1-11; Sal 103; 1 Cor 12, 3b-7.12-13; Jo 20, 19-23)

Paolo Cugini

1. Hoje é o dia do aniversario da Igreja, pois a Igreja nasceu no dia do Pentecostes, quando o Senhor mandou o Seu Espírito sobre os discípulos no cenáculo em Jerusalém. Esta é já uma primeira indicação extremamente importante, pois nos revela que a Igreja não é invenção dos homens, mas sim obra de Deus. A Igreja é assim constituída de pessoas que atraída pelo Senhor, instruídas pela sua Palavra aceitam de percorrer a história se deixando transformar pela ação do Espírito Santo. Sem duvida a Igreja é feita de pessoas em carne e osso, é feita de gente: tem uma estrutura física, humana, visível. Aquilo que, porém, realiza não é humano, mas sim divino. A obra que a Igreja realiza ao longo dos séculos é fruto da ação do Espírito Santo nas pessoas que acreditam no Senhor Jesus. É verdade que, apesar de tanto tempo, a história parece ser dominada pelo espírito do mal e que também a Igreja e varia circunstâncias se deixou dominar pelas forças do inimigo. É também verdade, porém, que por dentro da história, o Espírito Santo desde a vinda do Senhor Jesus na terra, está preparando o Reino de Deu, que é um reino de paz, de justiça e de amor. Esta é uma verdade por assim dizer bíblica, uma verdade que somente as pessoas espirituais podem enxergar, somente as pessoas que aderiram ao Evangelho de Jesus podem vislumbrar. Se tudo isso é verdade, podemos nos perguntar: como está se manifestando este Reino de Deus que o Espírito Santo está moldando desde o dia de Pentecostes? Quais são os sinais espiritualmente visíveis da sua presença?

2. “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12, 4).
É esta uma idéia que Paulo repete muitas vezes nas suas cartas (cf. Ef 2). O efeito do Espírito Santo nas pessoas que o acolhem é dúplice. Em primeiro lugar, o espírito identifica as pessoas, ou seja, ajuda as pessoas a descobrirem a própria especifica vocação. Esta é uma marca claríssima da presença do Espírito Santo na História: ajudam as pessoas a perceberem o sentido da própria vida, qual é o projeto do Pai para elas, para depois ficarem firmes e fieis a esta vocação. Num mundo desnorteado, que corre atrás de quem grita mais alto e se perde, assim, nas ilusões que o mundo oferece, encontrar pessoas bem centradas naquilo que é a própria vida, a própria vocação é ao mesmo tempo algo de raro e, também, uma grande alegria. Aquilo que o Espírito Santo desvende nas pessoas não é apenas uma tarefa para ser realizada, mas sim o sentido mesmo da vida, aquele sentido que enche a alma, que produz paz e serenidade na pessoa que o acolhe. É isso que Jesus anuncia logo após da sua ressurreição, aparecendo aos discípulos e soprando o Espírito sobre eles: a paz esteja convosco (cf Jo 20, 19). É o que esta paz se não a certeza que nada mais precisa correr atrás de algo, que Cristo mesmo nos oferece, ou seja, o seu Espírito de vida! Na perspectiva do Evangelho a paz não é um sentimento passageiro, que vem e vá embora, mas é o dato permanente que marca o nosso relacionamento com o Senhor. De fato, se Cristo é vivo, se nós temos o seu Espírito, porque temer? Se o Senhor da vida está no meio de nós, porque correr atrás de outros falsos senhores que não tem nada pra nos oferecer, a não serem paliativos inúteis e enganadores? Afinal de conta, se com o seu Espírito Cristo é conosco, quem estará contra de nós? (cf. Rom 8, 31). Este é então, o primeiro dato espiritual fundamental da ação do Espírito Santo na História: a identificação das pessoas, a libertação do caos em que reina o mundo das trevas e a certeza que Cristo não nos abandona mas caminha conosco. Do outro lado o Espírito, além de nos oferecer uma identidade nos coloca numa vida de comunhão, nos libertando da triste solidão do mundo. Quem vive do Espírito Santo vive no amor de Deus e, o amor, é comunhão. Se no muno cada um queima o filme do outro pra se promover, não é assim na Igreja, pois é um só Espírito que age em todos para que todos sejam um (cf. Jo 17). É verdade que amiúde também entre os membros da Igreja acontece aquilo que assistimos no mundo, ou seja, brigas, rixas, desavenças, rivalidade. Só que estas situações não devem ser tomadas como pretexto para nos afastarmos da Igreja, mas sim devem ser utilizadas para crescer junto com a comunidade, na superação daquela parte de mundo que ainda nos domina. Do outro lado, se pensarmos atentamente, entre os mesmos discípulos de Jesus existiam rivalidades, ao ponto que Jesus teve que entrar no meio da polemica (cf. Mt 20, 24-28) e lembrar para todos que os discípulos não podem agir e pensar com pensa e age o mundo, ou seja, se deixando levar pelo egoísmo e pela ganância, mas sim o discípulo do Senhor deve aprender a deixar-se dirigir pelo Espírito do amor. Neste sentido podemos dizer que toda vez que nos membros da Igreja, em nós mesmos, percebemos algo de errado, um excessivo apego as coisas do mundo, um instinto egoísta exacerbado, isso não que dizer que o Espírito não age, que o Espírito não existe, mas que ainda precisamos de trabalhar bastante sobre a nossa humanidade, para que o Espírito Santo possa encontrar espaço pela sua ação santificadora.

3. “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados serão perdoados” (Jo 20, 22-23).
Talvez seja este o sinal mais profundo da presença do Espírito Santo na história, ou seja, a capacidade de perdoar. Sem duvida o poder de perdoar os pecados Cristo o entregou para os discípulos e, então a Igreja, mas pelo fato de pertencermos á Igreja através do Batismo este poder, de alguma maneira, é também nosso. O cristão, pelo fato de pertencer ao Corpo de Cristo e de ter recebido o poder de perdoar os pecados, é chamado a viver no mundo o perdão do Senhor. É sintomático que a primeira palavra que o Senhor soltou logo após da ressurreição, no primeiro encontro dos discípulos, foi a palavra “perdão”. Além do mais “perdão” é a primeira palavra pronunciada por Jesus depois de ter soprado o Espírito sobre os discípulos. Perdoar os irmãos, neste sentido e pela força que este mandamento recebe no contexto que acabamos de apresentar, é sem duvida algo de divino, que o homem não consegue sozinho realizar. De fato, se pararmos um pouco para pensar, percebemos imediatamente que os maiores problemas que encontramos nos relacionamentos com as pessoas são todos ligado a nossa incapacidade de perdoar, a nossa incapacidade de dar o braço a torcer. Porque, então, é tão importante perdoar os irmãos e as irmãs? Porque á luz do Evangelho, toda vez que perdoamos alguém permitimos ao Espírito Santo de entrar na história e desenvolver a sua força criadora.

De uma certa forma, esta solenidade de Pentecostes e esta pagina do Evangelho nos ensina que ser Igreja não é tão complicado assim como em aparência parece. Basta somente um pouco de humildade, um pouco mais de simplicidade, um pouco de docilidade á ação do Espírito Santo para que Cristo possa reconciliar o mundo a sim, possa moldar a humanidade toda para que assuma a forma da humanidade de Cristo. É isso que o Espírito Santo quer realizar: transformar tudo em Cristo. A nossa capacidade ou incapacidade de perdoar os irmãos e as irmãs torna-se a medida da realização deste projeto ambicioso do Pai.


CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 8





Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-12. O capitulo anterior deixou em suspenso uma pergunta: será que é possível sair das augustas amarras do pecado, que não permite ao homem de realizar o bem que conhece? O capitulo 8 é a resposta a este problema. Segundo são Paulo Deus quis esmagar o pecado no seu mesmo terreno que é a carne humana. De fato, enviou o seu Filho Jesus numa carne como a nossa em vista do pecado, ou seja, para destruir o pecado. Como é que Jesus conseguiu esta façanha? Com uma vida de perfeita obediência ao Pai. Em Jesus o amor ao Pai foi maior do medo da morte. Jesus é o único pedacinho de humanidade que o pecado não conseguiu dobrar. Por isso Deus o Ressuscitou e enviou o Seu Espírito no meio de nós e dentro de nós, para que todos aqueles que acreditam no Senhor e acolhem gratuitamente o dom do Seu Espírito se tornem também fortes e firmes na luta contra o pecado. Por isso Paulo afirma que uma vez que acolhemos o Espirito do Senhor não somos mais vencidos dos instintos egoístas, mas vivemos livres para servir unicamente a Deus.

14-17. O Espírito Santo que recebemos nos sacramento produz em nós a mesma humanidade que era de Jesus e, sobretudo, a mesma atitude que Jesus tinha com Deus: a filiação. O Espírito Santo nos torna Filhos de Deus e, por isso, herdeiros da Gloria divina.

18-27. Na caminhada de fé precisamos aprender aquilo que o mesmo Paulo aprendeu ao longo da sua caminhada, ou seja, que os momento de sofrimentos devem ser colocados no horizonte maior da salvação. Só assim conseguiremos entender que os sofrimentos presentes não são comparáveis à gloria futura que será doada a todos aqueles que seguirão o Senhor nesta vida. Além disso, a mesma criação sofre porque participa da vida que vem de Deus e ela também foi afetada pela historia de pecado que caracteriza a vida humana. É no sofrimento que esperamos a libertação definitiva do pecado para podermos viver para sempre em Deus e Com Ele. Em toda esta história o Espirito Santo tem a grande tarefa de nos auxiliar, intercedendo por nós.

28-30. São versículos importantes no debate ecumênico, ou seja, no dialogo com as igrejas evangélicas. Problema: Deus predestinou alguém para a salvação deixando os outros a se perderem? Uma leitura superficial deste três versículos poderia nos levar neste caminho. A chave de intepretação é o versículo 29. Quem são “aqueles que antecipadamente conheceu”? Sem dúvida se trata de todos os homes e as mulheres, pois não pode existir nada que possa ficar fora do horizonte do conhecimento de Deus. Se assim estão as coisas quando Paulo fala de predestinados para se tornarem a imagem do Filho está falando do chamado universal à salvação. É de excluir de forma radical a intepretação excludente da ideia de predestinação, a qual declara que Deus predestinou somente alguns para a salvação.

31-39. É sem duvida um dos hinos mais lindos de todo o Novo Testamento. Paulo, num momento de grande entusiasmo espiritual, expressa toda a sua confiança no Senhor Jesus do qual ele teve uma experiência pessoal. Por isso ele afirma que nada poderá nos separar do amor de Deus. Que esta confiança no Senhor possa também ser a nossa!


CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 6




Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-11. Este trecho de Paulo é uma profunda catequese sobre o Batismo, que representa uma grande novidade no confronto do entendimento comum. De fato, se na maneira de pensar comum o Batismo é entendido como participação da vida de Jesus, para Paulo é o contrário. “Ou vocês não sabem que todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte?”. Qual é o sentido destas palavras? Para respondermos precisamos entender o sentido da morte de Cristo. Porque Cristo morreu? Jesus morreu por amor ao Pai. Parece uma resposta banal, mas não é não. Jesus aceitando a morte declarou a verdade de tudo aquilo que dizia e fazia. Sem duvida Ele podia fugir, mas não quis, pois aceitou as consequências das suas palavras. Por amor ao Pai Jesus renunciou a si mesmo, aos seu projetos. Deve ser por isso que Jesus passou tanto tempo no silencio: precisou de refletir bastante para aceitar de viver não para realizar aquilo que ele queria, mas deixando que o Pai moldasse toda a Sua existência. Com o Batismo, então, nós somos mergulhado nesta morte, que não é física, mas sim espiritual e existencial. Aceitando o batismo, decidimos de levar uma vida de morte aos projetos egoísticos do mundo, para acolhermos uma vida de amor e justiça. longe de ser o mero rito formal, o batismo é uma verdadeira e provocante forma de vida. Que pena que tantos cristãos não entendem a força deste sacramento! Somente se morremos com Cristo poderemos ressuscitar com Ele para a vida eterna.

12-14. Por isso na vida dos cristãos não pode mais morar o pecado, ou seja, a vida dominada do egoísmo. A verdade do nosso batismo se manifesta numa vida de amor, justiça e partilha. É claro que não é algo de espontâneo, mas deve ser o sentido da nossa nova existência: fazer de tudo para não dar ousadia às formas de egoísmo que se apresentam no horizonte da nossa vida para nos tentar.

15-23. Paulo utiliza a imagem do escravo para explicar a nova situação dos cristãos. De fato, os batizados em Cristo passaram da escravidão do pecado, para a escravidão de Deus. Na leitura destes profundos versículos chama atenção a radicalidade. Para Paulo não existe possibilidade para os cristãos de trilhar os caminhos sombrios do pecado. Para Paulo existe o antes da vida do pecado e o hoje da vida nova em Cristo. Entre o ante e o hoje não tem continuidade, mas ruptura radical. Ler estes versículos tão questionadores do nosso cristianismo morno e cheio de justificações deve provocar uma reflexão seja no plano pessoal que comunitário. Paulo nos ensina que o Caminho proposto para Jesus é em contraste com a proposta egoísta do mundo. Somente vendo esta radicalidade saberemos ser luz no mundo e, assim, provocar o desejo nas pessoas de conhecer mais de perto a novidade do Evangelho.


domingo, 26 de abril de 2020

CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 5




Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-11: a justificação operada por deus por meio do sangue do seu Filho Jesus traz para nós a paz, que é sinal de uma profunda harmonia com Deus e com o mundo.

Nestes primeiros versículos do capitulo 5 Paulo dá muita importância a esperança, como virtude cristã que se forma e consolida nas situações de perseguição e que é confirmada pelo amor de Deus que é derramado em nosso corações pela ação do Espírito Santo (5,5).

A grandeza do amor de Cristo para com o Pai é demostrada pelo fato que Jesus morreu não por um grupo de pessoas que mereciam, que era fieis; pelo contrario, Jesus morreu por nós quando éramos no pecado. Estas afirmações de Paulo salientam ainda mais a gratuidade da morte de Jesus e, ao mesmo tempo, a possibilidade de ter acesso à graça de Deus somente através de uma acolhida livre e gratuita.

12-21: Segundo são Paulo a morte biológica não pode ser explicada somente do ponto de vista físico, mas sim teológico. De fato, foi o pecado original que afetou de uma forma dramática toda a humanidade ao ponto de destiná-la à morte. Se a morte entrou no mundo por causa de Adão, ao mesmo modo, mas com intensidade maior, a vida entrou no mundo por causa de Cristo. Neste capitulo 5 Paulo realiza um paralelo entre Cristo e Adão. Se, então, Adão é o símbolo do homem velho manchado pela desobediência a Deus que provocou o pecado e com isso a morte, da mesma maneira, mas com muito mais intensidade e profundeza. Cristo é o homem novo que com a sua obediência trouxe ao mundo a vida verdadeira.

O paralelismo que Paulo cria neste capitulo abrange, assim, uma grande serie de fatore: desobediência/obediência; morte/vida; homem velho/homem novo; Adão/Cristo.

Apesar disso, Paulo salienta varias vezes que é muito mais a força da graça de Cristo, que o pecado de Adão. Se trata, então de um paralelismo de uma certa maneira desequilibrado, pois a força de Deus manifestada em Cristo supera de muito a queda do pecado de Adão.


CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 4




Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-12. No capitulo 4 Paulo busca demostrar na Escritura a tese que ele apresentou nos capítulos precedentes, ou seja, que a salvação é um dom gratuito que Deus operou através da morte do Seu Filho Jesus. É neste capitulo que Paulo apresenta o exemplo de Abraão, o qual se tornou justo não por causa das próprias obras, mas sim por causa da fé dele em Deus. É isso que a Escritura sustenta: “Abraão teve fé em Deus e isso lhe foi creditado como justiça” (Gen 15,6). Por isso somos felizes pelo fato que Deus nos tornou justos, dignos de salvação, não pelos nossos méritos, mas sim, pelo sangue de Cristo. O problema nessa altura é demostrar que esta salvação é para todos os povos e não somente para o povo hebraico. Demonstração delicada porque Paulo utilizou como exemplo o mesmo Abraão que pertencia ao povo Hebraico. Segundo Paulo, que como sabemos era um grande conhecedor do Antigo Testamento, esta demonstração é muito fácil. De fato, Abrão quando aceitou as promessa de Deus (cf. Capitulo 15 do livro do Genesis) ainda não era circuncidado, ou seja, ainda não tinha realizado o rito de pertença do povo Hebraico. Isso quer dizer, que no momento das promessas de Deus, que Abraão aceitou por fé, ele era nada mais que um pagão. Desta forma o mesmo Abraão se tornou pai na fé não apenas do povo Hebraico, mas também de todos os povos pagãos.
13-17. As promessas de Deus seriam anuladas se dependessem de uma justiça humana, de um esforço humano, fruto de uma observância externa da Lei. \por isso Paulo reitera mais uma vez que a justiça vem através da fé e isso é importante porque marca o dado da gratuidade, para que ninguém possa encher o peito perante Deus, e pensar que mereceu a salvação por causa das próprias forças. Como já vimos o tema da gratuidade no pensamento de Paulo é fundamental, porque deveria ser a característica da vida cristã. Se de graça recebemos – afirma Paulo na segunda carta aos Coríntios – de graça devemos dar. A vida gratuita é o marco caraterístico da comunidade cristã dentro do mundo caraterizado pelo egoísmo e a ganancia.

18-25. Aon de é que podemos perceber a força de Abraão? No fato que, apesar da fraqueza do corpo – ele tinha 100 anos quando recebeu as promessas de um filho e de ser pai de uma grande multidão, e a esposa dele Sara além de ser estéril era também velha – acreditou na Palavra de Deus. “Diante das promessas divinas ele não duvidou”. Foi por isso que Abraão se tornou justo, não por causa de obras, mas sim pela confiança que ele teve nas promessas de Deus. É a fé em Jesus Cristo ressuscitado dos mortos que nos salva.


CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 3




Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-8. A infidelidade dos judeus, a infidelidade dos homens não anula a fidelidade de Deus. Os nossos pecados não danificam a misericórdia de Deus, as suas promessas. Deus é bom não pelo fato que o homem, a mulher são bons: a bondade de Deus é uma qualidade que não depende de algo de externo, mas só de si mesmo.

9-20. Todos somos pecadores: este é o grande tema do capitulo 3 da carta aos romanos. Ninguém pode se atrever de cobrar a salvação de Deus, pois todos somos pecadores, todos estamos debaixo do pecado. Para demostrar que esta ideia era já presente no Antigo Testamento Paulo apresenta uma coletânea de textos, sobretudo de salmos (5,10, 36,140) e dos profetas (Is 59,7-10). Todos se transviaram e todos se corromperam: esta é a ideia centram que permite entender um dado profundamente espiritual, ou seja, que a salvação é a nós dada de forma gratuita. É por isso que Paulo sustenta que não são as nossas obras que fazem com que podemos merecer a salvação, mas pelo contrário, esta mesma salvação é nos doada gratuitamente porque todos somos pecadores e, por isso, ninguém presta (gostou?). As obras boas são a consequência da nossa aceitação gratuita da salvação de Deus realizada por meio de Jesus Cristo. Por isso, o sinal que estamos acolhendo de verdade a salvação trazida por nós através da paixão, morte e ressurreição de Jesus é a gratuidade das nossas obras. A gratuidade da salvação exige e deve animar uma vida gratuita. Paulo na segunda carta aos Coríntios dizia: “de graça recebeste, de graça deveis dar”.

21-31. Se todos somos justificados, ou seja, salvados gratuitamente por meio do sangue de Jesus, isso quer dizer que ninguém pode vangloriar-se, se encher de orgulho, porque “O homem é justificado pela fé” e não das praticas da Lei. Come já sabemos toda vez que Paulo fala da Lei se refere aos dez mandamentos contidos na lei mosaica dos primeiros livros da Bíblia. Não é a obediência aos mandamentos da lei que produz a salvação, a qual é um dom gratuito de Deus que, quando é acolhida com verdade, sem duvida produz o desejo de obedecer aos mandamentos da Lei. 

CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 2





Estudo bíblico para CEBs

Paolo Cugini


1-11. Continua a demonstração da tese de Paulo segundo a qual somos salvos pela fé e não pelas obras e isso quer dizer que ninguém pode argumentar direitos com Deus, pois todos têm pecado (capitulo 1), seja os pagãos que não reconheceram o criador presente na criação, seja os judeus que apesar de ter recebido a Lei de Moisés não a utilizaram para se converterem, mas sim para julgar os outros (capitulo 2). Paulo, nesta primeira parte do capitulo, lembra para os ouvintes a dinâmica do julgamento: a vida eterna por aqueles vivem no bem e a ira e a indignação para os egoístas. Este julgamento caberá primeiro ao judeu e depois ao grego (ou seja os pagãos): porque? A resposta é muito simples, pois no plano da salvação as promessas foram dirigidas em primeiro lugar ao povo de Israel e é por isso que será julgado por primeiro.

12-16. Segundo Paulo não é o escutar a Lei que salva, mas sim praticá-la. Quando Paulo fala de Lei se refere aos primeiros cinco livros da Bíblia chamados Torá, Lei, pois é nestes livros que se encontram os dez mandamentos. Então segundo Paulo Não é uma pertença externa que salva as pessoas, mas uma vivencia. De fato, tem pessoas que não conhecem a Lei de Deus, mas vivem como se a conhecessem e isso prova que Deus escreveu a própria Lei nos corações das pessoas, conforme as palavras dos grandes profetas do A.T. (cf. Jer 31,31-34; Ez 36,26).

17-29. Palavras duríssimas de Paulo contras os judeus que utilizam a Lei de Deus para se engrandecerem ensinando a Lei aos outros, mas não a ensinam a si mesmos. É por causa disso que as pessoas se afastam de Deus (v. 24). Que grande responsabilidade que nós cristão temos perante o mundo! Nós que estudamos a Bíblia, que participamos de estudos bíblicos: Paulo nos alerta que isso adianta somente se saberemos colocar em pratica aquilo que escutamos. Se isso não acontecer as pessoas poderão se afastar de Deus por causa do nosso comportamento.

“A verdadeira circuncisão é aquela do coração” (v. 28). A circuncisão era o rito de pertença do povo hebraico e consistia num corte no pênis oito dias depois do nascimento. Percebe-se a cultura machista do povo hebraico, pois o rito exclui automaticamente as mulheres. Então segundo Paulo não basta ser circuncidados para serem salvo, pois é preciso viver a Aliança com deus que a circuncisão promete. Tudo isso vale também para nós se transferirmos este discurso sobre a circuncisão para o batismo, que é o nosso rito de pertença. A que adianta sermos batizados se não vivemos conforme o Espírito que recebemos. O mesmo Jesus nos alertava que, para nos salvarmos, além do Batismo precisamos acreditar nele ensinar aos outros e a nós mesmos o Evangelho.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Domingo XXIX°/C



(Ex 17,8-13;Sal 121; 2 Tim 3, 14-4, 2; Lc 18, 1-8)

Paolo Cugini


1. O tema da liturgia da Palavra de hoje é sem duvida nenhuma a oração. É um tema importante porque é algo que nos leva ao coração da vida religiosa. É através da oração eu entramos em dialogo com Deus, experimentamos a sua presença ou, às vezes, a sua ausência. É sempre através da oração que medimos também o nosso crescimento interior, o nosso desenvolvimento espiritual. É aqui entra um grande paradoxo. De fato, se de um lado sabemos da grande importância da oração na vida espiritual, de outro lado se constata a escassa atenção que as mesmas pessoas religiosas oferecem para aprimorar a própria oração, o próprio jeito de rezar. E assim encontramos pessoas que há décadas freqüentam a Igreja, que são engajadas nos trabalhos da Igreja, que são lideranças ativa e participativa da Igreja, mas que rezam como crianças, com o jeito que aprenderam quando criança. O problema é entender o sentido da oração assim como a Palavra de Deus o apresenta, para podermos aprimorar o nosso jeito de rezar.

2. “E quando Moisés conservava a mão levantada, Israel vencia; quando abaixava a mão, vencia Amalec” (Ex 17,11).
Este versículo expressa um dado extremamente importante da oração. Se entrarmos em nós mesmos e avaliarmos com atenção o conteúdo das nossas orações, talvez não encontramos nelas outra coisa a não ser nós mesmos, com os nossos problemas. Entramos na oração de uma forma tão egoísta e pensamos que Deus seja como um talismã pronto a atender os nossos pedidos que, na maioria das vezes, são pedidos materiais. O dato que chama atenção neste versículo é que Moisés passa o tempo todo rezando para os outros e não pra si mesmo. Além do mais é uma oração continuativa, ou seja, que dura até quando dura a guerra, mostrando assim fé e confiança em Deus. Nada, então, de formula estereotipada, rápida, impessoal, mas sim uma oração que reflita a intensidade daquilo que na realidade está acontecendo. A oração deve acompanhar a realidade, e deve expressar aquilo que na realidade acontece. Interessante, também, refletir sobre o sentido da realidade que sai do versículo que estamos analisando. A realidade é uma guerra, um constante conflito que podemos vencer somente com a ajuda de Deus. Esta ajuda nos é proporcionada não apenas com a nossa oração, mas também com a oração dos outros. É este o versículo que justifica a espiritualidade contemplativa, a oração das monjas dos mosteiros de clausura, aquela vida de total oração que aos olhos do mundo é absurda, mas que encontra a sua justificação na mesma vida de Jesus.

3. “Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre e nunca desistir” (Lc 18, 1).
Problema: porque esta necessidade de rezar sempre? E como se manifesta esta necessidade? Olhando ao contexto da parábola que Jesus contou para explicar o sentido do seu pedido, na oração constante e ininterrupta buscamos a Justiça de Deus: “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos?” (Ivi). A justiça de Deus se manifesta como misericórdia. Por isso é necessário rezar sempre, para abastecermos a nossa alma da misericórdia de Deus e, assim, esvaziarmos da maldade que vem ao nosso encontro da justiça egoísta e interesseira dos homens. Rezar sempre significa também a confiança extrema e irredutível para com Deus, manifestando assim a própria natureza espiritual de filhos. Nunca desistir de rezar para sempre viver em Deus. Quem desiste de rezar é porque quer, ou decide, realizar a própria vida de uma forma autônoma, independente. Por isso a oração é importante na caminhada cristã, porque desvende o sentido autentico e profundo da própria fé. Quem vive uma caminhada de Igreja não pode viver sem a oração. Aliás, quem vive e deseja dar um sentido autentico á própria vida não pode de jeito nenhum pensar de ir pra frente sem manter um dialogo constante e profundo com Deus. Além do mais a insistência na oração manifesta perante Deus aquilo que a gente é: nada. Este é um dos sentidos mais profundos da oração: somos carne e sangue, um punhado de células e nada mais do que isso. É só isso que somos e para dar um sentido á este punhado de células precisamos um Espírito, um contato constante com Deus, o nosso Pai. Acho que é isso que o homem experimenta quando se afasta de Deus, interrompendo a ligação natural com o próprio Pai. E assim, quanto mais alguém interrompe a ligação natural, que é uma ligação espiritual, tanto mais sente-se forçado a alimentar a própria alma de matéria.

4. “Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2 Tim 3, 16).
Se for verdade, como vimos até agora, que a oração é fundamental para alimentar a fé, é também verdade que as vezes não sabemos como rezar, o que dizer, como orientar as nossas orações. É são Paulo que vem em nossa ajuda nos lembrando que é na Sagrada Escritura que encontramos as palavras certas que nos auxiliam na oração. Existe toda uma tradição na Igreja Oriental que aprendeu a rezar repetindo continuamente breves versículos do Evangelho ou dos salmos. Aprender a preencher as nossas orações com as palavras que encontramos na Bíblia é um ótimo método para sermos escutados pelo nosso Pai. Esvaziar a oração das palavras inúteis e egoístas falando só com versículos bíblicos, rende a oração pessoal mais autentica e verdadeira.

5. A liturgia da Palavra nos mergulhou num grande paradoxo: a oração constante e a nossa pratica inconstante e, sobretudo, inconsistente. Nos declaramos católicos, crentes, mas não fazemos nada para crescermos no dialogo constante com Deus, não cultivamos a pratica fundamental da oração. É no dialogo com Deus que aprendemos ao mesmo tempo a conhecer melhor a Deus e a nós mesmos. É no caminho da oração que aprendemos os segredos da vida espiritual. Somente nos afastando da vida religiosa superficial, feita de formulas repetidas sem pensar muito nelas, e entrarmos em um dialogo profundo e corriqueiro com Deus podemos crescer no amadurecimento da vida espiritual, que é a base da vida de fé.





Domingo da dedicação da basílica do Latrão



(Ez 47,1-2.8-9.12; Sal 46; 1Cor 3,9-11.16-17; Jo 2,13-22)
Paolo Cugini

1. Segundo uma tradição que remonta ao século XII, celebra-se neste dia o aniversario da dedicação da Basílica do Latrão, construída pelo imperador Constantino no IV° séc. d.C. Esta festa é importante porque a Basílica do Latrão é chamada “Mãe e cabeça de todas as Igrejas da Urbe e do Orbe (de Roma e do mundo)” e também como sinal de amor e unidade para com a cátedra de Pedro, que “preside a assembléia universal da caridade” (Inácio de Antioquia). Com esta festa a Igreja nos oferece a oportunidade de refletir um pouco sobre o sentido da mesma e, assim, avaliarmos o sentido da nossa pertença á ela. São as leituras de hoje que nos oferecem o conteúdo para respondermos aos nossos questionamentos sobre a Igreja e a sua natureza.

2. “A água corria do lado direito do templo, a sul do altar... Estas águas correm para a região oriental, descem para o vale do Jordão, desembocam nas águas salgadas do mar, e elas se tornarão saudáveis” (Ez 47, 1.8).
Esta imagem do profeta Ezequiel mostra um elemento interessante sobre a Igreja. Interpretando o versículo citado, podemos afirmar que da Igreja sai a água (do batismo) que purifica a humanidade toda. Existe toda uma humanidade “salgada” pelo estrago do pecado que precisa ser lavada, purificada: é este o sentido do batismo. Claramente esta purificação não é feita apenas com a água sacramental, mas também através da ação de todos aqueles que foram purificados, batizados. A Igreja foi inventada por Deus com este intuito: oferecer um espaço para que o mundo seja purificado. A água do batismo purifica qualquer água salgada que encontrar: nada resiste a força purificadora dela. Entender isso é fundamental para descobrir a gratuidade da ação de Deus e, sobretudo, a verdade da sua força, do seu poder. Se Deus criou o homem e a mulher foi com a intenção que eles vivessem para sempre (Cf. Sab 2,3). Se este projeto foi estragado pelos mesmos homens e mulheres, por causa da desobediência, que não é nada mais que uma forma de teimosia, de orgulho, isso não levou Deus a desistir da sua idéia originaria. Pelo contrario, toda a historia da salvação que nós lemos na Bíblia, é a narração do esforço de Deus de consertar, purificar os erros dos homens. O ponto final deste esforço é Cristo, o Filho único de Deus, que veio ao mundo para mostrar a toda humanidade o caminho de saída do mundo do pecado, para entrar na gloria de Deus. O batismo é o sacramento que dá inicio a este caminho, porque deveria marcar o desejo da pessoa de seguir a Jesus e realizar a sua proposta de uma vida nova.

3. “Ninguém pode colocar outro alicerce diferente do que está ai, já colocado: Jesus Cristo” (1 Cor 3,11).
A Igreja é aquela realidade espiritual, mística e ao mesmo tempo visível pela ação dos cristãos, que é alicerçada sobre um único fundamento que é Cristo. Se a Igreja é instrumento universal de salvação, deve isso ao fato que Cristo não apenas é o fundador dela, mas também o alicerce que sustenta toda a instituição. Por isso um cristão para ser tal, não apenas deve ser batizado, mas dedicar tempo ao conhecimento de Cristo. A Igreja é o conjunto do povo de Deus que sentiu-se atraído pela Palavra de Deus e que visa viver conforme os ensinamentos do seu Mestre Jesus. O tempo presente para um cristão, é o tempo do aprofundamento da Palavra de Jesus, da sua proposta de vida. Só que para conhecê-lo, para desejar aprofundar o conhecimento da sua Palavra, precisamos amá-lo e para amá-lo precisamos tê-lo encontrado, percebido. Este encontro é possível somente na interioridade da nossa alma, pois é ali que Deus se manifesta. Pessoas superficiais, mergulhadas nos prazeres do mundo, na busca dos bens materiais dificilmente conseguirão encontrar o Senhor, escutar a sua voz e, assim, ser atraídos por Ele. Se Cristo é o alicerce da Igreja, como Paulo nos demonstra hoje, precisamos conhecê-lo melhor, precisamos passar tempo com ele, debruçar na sua Palavra, interiorizar o seu estilo de vida. Somente assim a Igreja se torna o corpo visível de Cristo ressuscitado, que atrai toda a humanidade no Caminho que leva ao Pai.

4. “Jesus fez um chicote de cordas e expulsou todos do templo... E disse: ‘Tirai isso daqui! Não façais da casa do meu Pai uma casa de comercio!’” (Jo 2, 15.16).
Este é um versículo que muita gente não gosta. Até mesmo alguns exegetas, ou seja, estudiosos da Palavra de Deus, escreveram palavras negativas sobe esta atitude de Jesus. Pelo contrario, eu pessoalmente gosto muito deste versículo, porque acho que revela algo de muito importante não apenas da personalidade de Jesus, mas também da sua ação no mundo. Este versículo revela que Jesus não veio para botar a mão na cabecinha do povo, acobertando os seus erros, mas pelo contrario, Cristo veio para ajudar o mundo a sair do erro do pecado. O primeiro efeito da leitura do Evangelho, quando é feita com o coração aberto, é a descoberta da própria vida errada. Cristo é a verdade que descortina a mentira. Perante esta revelação a tentação imediata é acobertar, fingir que está tudo bem. Quem procede assim não está disponível a se tornar discípulo do Senhor, a ser uma pessoa diferente. Pelo contrario, o sofrimento causado pelo descobrimento constante dos nossos erros, é apaziguado somente se tivermos a coragem de aceitar os conselhos e as indicações do nosso Mestre Jesus, cuja intenção não é apenas de nos machucar mas, pelo contrario, de nos salvar da nossa vida errada. Esta violência que Jesus usa no templo de Jerusalém é o símbolo da força e do zelo que Ele mete no comprimento da vontade do Pai. As vezes, para sairmos de situações de vicio, de pecado enraizado na nossa alma, precisamos um pouco desta santa violência, que é força de Deus, que é a determinação que nos leva a sermos pessoas diferentes. Se isso vale num sentido pessoal, ainda mais quando se trata do pastoreio da Igreja. Quem tem uma função de liderança na Igreja não pode vacilar perante o pecado da comunidade, que pode estragar a mesma e comprometer definitivamente a caminhada. Às vezes, pelo amor de Cristo e da sua Palavra, precisamos da força do Espírito Santo para termos a coragem de sermos firmes e até duros perante situações de evidentes erros. Nessa altura, somente o pastor que tem amor a Deus mais de que a si mesmo terá a coragem de realizar atos e tomar decisões impopulares, mas que beneficiam o prosseguimento da comunidade.