sábado, 16 de abril de 2022

HOMILIA DA NOITE DE PÁSCOA 2022

 




Paolo Cugini

 

A vigília é um rito muito antigo - a celebração de uma Páscoa anual já se encontra em meados do século II e que em 1900 viu algumas mudanças significativas. A reforma fundamental foi feita em 1951 por Pio XII, que trouxe a vigília de volta as horas noturnas, pois até então se celebrava na manhã do sábado, enquanto cantava, no anúncio da Páscoa, "Esta é a noite...". Em 1955 chegou a reforma de toda a Semana Santa. O Concílio desenvolveu alguns elementos, como a escolha das leituras, mas no fundo retomou uma reforma já feita

O primeiro pensamento vai para o rito do fogo, da luz . A Páscoa é a passagem da morte para a vida, das trevas para a luz. O que isso significa? Que a ressurreição de Jesus indica o caminho de humanização que somos chamados a empreender, que a partir de agora há a possibilidade de cada um de nós sair dos caminhos da morte, para ir para a vida. A ressurreição do Senhor significa que nem tudo está perdido para sempre, que há um caminho que Jesus abriu para todos, um caminho dentro da história que todos podemos acompanhar: basta seguir a luz.

Então, uma vez na igreja, foi proclamado o exultet, um hino de autor desconhecido - alguns dizem que é de Santo Agostinho - que expressa de forma original o mistério da salvação que aconteceu através da ressurreição de Jesus . necessário o pecado de Adão, que foi destruído com a morte de Cristo. Feliz culpa, que merecia ter tão grande redentor! ». É difícil encontrar palavras mais ousadas na liturgia do que estas do exultet. Neste hino tão ousado, tem um olhar diferente sobre o pecado. Uma expressão decididamente forte, mas que se conjuga com um simbolismo litúrgico igualmente sugestivo. O poeta francês Charles Péguy dizia que o pecado é como uma brecha na qual se insere a graça, o amor de Deus: aprender a olhar a própria história pessoal com os olhos do Pai, aprender a não maltratar os próprios limites, pra ser envolvido por sua misericórdia.

ouvimos as leituras , que nos contaram uma história, que é a história do povo de Israel, que é a nossa história. A história de um povo que aprendeu a reconhecer Deus dentro dos acontecimentos e não fora do mundo. Essa é a característica desse povo. Uma história em que as pessoas experimentam seus limites, a dificuldade de administrar sua humanidade e orientá-la na direção do Senhor. É uma história não linear, mas feita de momentos perdidos, de saltos para frente e paradas repentinas. Mais uma vez, deve-se dizer que a história do povo de Israel é muito semelhante à nossa e é relido pelo hino do exultet, que proclamamos há pouco.

A Vigília Pascal gira em torno de quatro sinais que dizem o ser humano transformado pela ressurreição. A luz, com o círio pascal; a Palavra , com as inúmeras leituras bíblicas; água, com o Batismo; pão e vinho , com o banquete eucarístico. Há quatro elementos essenciais para o homem: sem luz não pode haver vida; falar, comunicar é um ato fundamental; a água faz crescer, lava, regenera; depois a comida, a nutrição. E a liturgia escolhe esses elementos essenciais para contar o mistério de Cristo. Estes são elementos primordiais: Luz e trevas, águas que se dividem, etc. A ressurreição de Cristo recria o universo.

O círio pascal é preparado com os grãos de incenso enfiados em forma de cruz, pois a forma do crucifixo ressuscitado está impressa na vela; o fato de a cera iluminar-se consumindo-se é um lembrete da dimensão do dom; a cera ilumina e enquanto isso se consome, oferece- se para iluminar, como o dom da vida de Jesus Cristo.

 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

QUINTA-FEIRA SANTA 2022

 




(Jo 13: 1-15)

Paolo Cugini

 

Quinta-feira Santa significa João 13, aquela página do Evangelho que nos faz estremecer, empalidecer, chorar. Encontramos Deus na humanidade de Jesus, é isso que o Evangelho e a Igreja nos ensinam. Isso significa que no gesto de Jesus lavando os pés de seus discípulos encontramos Deus.

O que significa esse gesto? É o mestre que lava os pés do discípulo, é o maior que se rebaixa ao menor: este é o ensinamento de Jesus, esta é a sua humanidade. Significa que quando reproduzimos essa atitude no cotidiano encontramos Deus, percebemos nossa humanidade que foi criada à imagem de Deus, não de qualquer Deus, mas do Deus que se manifestou na humanidade de Jesus, um gesto de amor de Jesus para com seus discípulos. É o que está descrito no início da passagem: Jesus, sabendo que era chegado o seu tempo de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim (Jo 13, 1) . O amor é um caminho de rebaixamento em direção a quem você ama. Não há teste de força, enrijecimento, mas abaixamento. Jesus teria todos os motivos do mundo para endurecer-se com seus discípulos, mas não o faz, porque não quer perdê-los. Jesus veio para salvar tudo e todos, por isso se humilha continuamente ensinando-nos que na humilhação está o mistério do amor que deseja ganhar alguém a qualquer custo, colocá-lo nas mãos do Pai. Você ama seu filho: desça, lave os pés dele. Ele merece dois tapas: deixe de lado os rancores, as reclamações, o rancor, mas conquiste-o com amor: abaixe-se, lave-lhe os pés. É o teste final do amor.

“Durante a ceia, Jesus, sabendo que o Pai lhe dera tudo e que ele vinha de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, despiu as roupas, pegou uma toalha e a enrolou na cintura. Em seguida, derramou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha que estava usando”.

 O texto diz que a ação de Jesus não é espontânea, mas pensada. Jesus sabendo. O que Jesus sabe, o que ele entendeu? Que o Pai lhe dera tudo em suas mãos : o que significa esta afirmação? Significa que Jesus não nasce instruído, mas, sendo um verdadeiro homem, como todos os homens e mulheres, aprende, compreende. Na narração de João, parece que Jesus compreendeu a grandeza de sua identidade nas últimas horas de sua vida. Com essa compreensão de si mesmo, ele vai na mesma direção em que sua humanidade sempre o conduziu, ou seja, não a serviço de um narcisismo exacerbado que não lhe pertence, mas num caminho de amor para com as pessoas que encontra.

São sete os verbos que descrevem a ação de Jesus , que é uma ação que descreve seu amor, pois seu amor toma forma na concretude da vida cotidiana. Ainda. Não são ações feitas por acaso, mas que surgem de um entendimento. De fato, o texto diz: Jesus conhecendo... Há uma consciência que provoca uma ação consciente: o que Jesus faz não é por acaso, mas quer comunicar alguma coisa. Ele faz um gesto que comunica um conteúdo. O amor manifestado por Jesus sempre propõe palavras e ações que vão na lógica oposta das razões humanas, vão na direção do amor que se torna serviço humilde. É um gesto que segue a mesma lógica das palavras que Jesus diz na cruz para seus algozes: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que estão fazendo.

Durante a ceia, quando o diabo já havia colocado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse. O gesto de Jesus de lavar os pés dos discípulos, além das considerações feitas acima, deve ser enquadrado, emoldurado no que Jesus entendeu, ou seja, a traição de Judas e a negação de Pedro que, entre outras coisas, estão entre os protagonistas desta passagem, no sentido em que são citados. Mais uma vez, Jesus tinha todos os motivos para enviar aquele grupo de inúteis de seus discípulos para aquele país, mas faz um gesto que vai na direção oposta de suas razões. Jesus lava os pés daqueles que ele sabia que o trairiam, o renegavam. O caminho do seguimento do Senhor não se baseia no sucesso humano, mas exclusivamente no amor do Pai. Há um olhar de amor entre Jesus e o Pai que filtra todos os relacionamentos. Jesus aprendeu a não basear suas escolhas no sucesso humano: também este é um grande ensinamento.

Então ele foi ter com Simão Pedro e lhe disse: "Senhor, você está lavando os meus pés?" Jesus respondeu: 'O que estou fazendo você não entende agora; você vai entender mais tarde ». Pedro lhe disse: "Você não vai lavar meus pés para sempre!"

 Há outro aspecto interessante na cena do lava-pés, destacado pela atitude de Pedro. O discípulo não quer que Jesus lave seus pés. Como traduzir a resistência de Pedro? É o símbolo da não aceitação de que a humanidade de Jesus nesta sua manifestação extrema é a ponte para o encontro com Deus. A atitude de Pedro descreve a dificuldade que todos aqueles que não conseguem se livrar de suas idéias sobre Deus, aquelas idéias que recebemos da tradição, ou que simplesmente nos são transmitidos pelo senso comum, que pensa Deus como algo totalmente diferente do homem, do mundo e, consequentemente, deve ser reverenciado. Pedro é o símbolo daqueles que não aceitam que é Deus quem reverencia o homem, não aceitam o Deus que se humilha, que se faz pequeno, porque não querem se envolver neste caminho de humilhação: querem continuar a manter distância, para poder fazer o que eles querem. Jesus, por outro lado, lava-nos os pés para nos fazer caminhar com Ele, para nos ajudar a compreender que o sentido profundo da vida não está em fazer o que se quer, mas em dar-se de forma livre e desinteressada.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

V DOMINGO DA Quaresma C

 



Paolo Cugini

 

Há uma novidade que somos chamados a apreender neste tempo de Quaresma, uma novidade de vida nova, capaz de dar sentido à nossa existência, de dar água no deserto dos nossos caminhos áridos. Parece inacreditável, mas é assim que é. Para poder apreendê-lo, porém, é necessário um requisito fundamental, indicado pelo profeta Isaías na primeira leitura de hoje, a saber, deixar de pensar no passado.

Não se lembre mais das coisas do passado,
não pense mais nas coisas velhas!Eis que estou fazendo uma coisa nova: agora brota, você não percebe?
(Is 43:18).

Encontramos a mesma ideia na segunda leitura de hoje, quando Paulo afirma: Creio que tudo é uma perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele abandonei todas essas coisas e as considero lixo, para ganhar a Cristo e ser achado nele (Fl 3,8). Há, portanto, uma atitude espiritual que não nos permite captar a novidade de Jesus, sua mensagem inovadora, sua presença salvífica para a humanidade. Aqueles que permanecem ancorados nas formas tradicionais de religião não conseguem compreender plenamente a novidade que é Jesus.

Do que se trata e qual a profundidade qualitativa desta novidade está expresso no trecho evangélico de hoje, que conta uma história que levou séculos para ser admitida no cânon? De fato, o 'perdão de uma adúltera por parte de Jesus foi considerado inadmissível, porque teria criado, segundo os detratores de Jesus, um clima de frouxidão que abriria caminho para justificar a traição das esposas contra seus maridos. A imagem machista da cena também é interessante, na qual é apenas a mulher que é trazida diante de Jesus para julgamento: e o homem, e o adúltero, por que ele não foi indiciado? É fruto dessa cultura patriarcal que, ao longo dos séculos, cavou uma lacuna entre a condição masculina e a feminina, uma lacuna feita de injustiças e abusos.

Disseram isso para testá-lo e ter motivos para acusá-lo. Os escribas e fariseus procuram Jesus não para ouvi-lo, como fazem as pessoas, mas para colocá-lo à prova. É interessante que o verbo que o evangelho usa para explicar o motivo de sua aproximação de Jesus é o mesmo que é usado para explicar a atividade de satanás: testá-lo. Os escribas e fariseus não estão interessados em ouvir Jesus, eles querem desacreditá-lo diante do povo, porque com sua ação e sua palavra, ele está perturbando aquelas tradições religiosas, que dão poder e sustentação à classe sacerdotal. Portanto, há mal na ação dos escribas e fariseus, aquele mal que surge daqueles que estão cegos pelo passado, daqueles que não querem olhar para a novidade do presente, porque isso significaria questionar-se, colocar-se numa perspectiva de mudança de vida.

À provocação dos escribas e fariseus, Jesus responde escrevendo no chão em silêncio: por quê? O que significa essa atitude? Na realidade, é um gesto profético que remete a uma passagem de Jeremias: “os que te abandonam ficarão confusos; aqueles que se desviarem de ti serão escritos no pó, porque abandonaram o Senhor, fonte de água viva (Jr 17:13). Afinal, havia pouco a dizer, porque do lado dos fariseus não havia o menor desejo de ouvir e se envolver. É por isso que Jesus não entra no campo da diatribe teológica, mas provoca um caminho de interiorização. Levantou-se e disse-lhes: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado, atire-lhe primeiro uma pedra". É na consciência pessoal que Jesus provoca a reflexão dos ouvintes, porque é aí que existe a possibilidade de escutar aquela voz interior que revela o sentido autêntico das coisas.

'Mulher, onde eles estão? Ninguém te condenou? ». E ela respondeu: "Ninguém, Senhor." E Jesus disse: “Nem eu te condeno; vá e de agora em diante não peques mais ». Este é o escândalo, a afirmação que os escribas e os fariseus não quiseram ouvir e que durante vários séculos deixou esta passagem fora do cânone: nem eu te condeno. Jesus é só amor, só misericórdia, é a possibilidade de todos e de todas voltarem a partir, retomar o caminho. Esta é a palavra que a Igreja deve saber dizer ao mundo: também não vos condeno e, assim, abro caminhos de misericórdia, libertando homens e mulheres dos sentimentos de culpa que os escravizam e que produzem a imagem de Deus, terrível, legado de medos ancestrais.

O sentido do caminho quaresmal deveria ser precisamente este: fazer-nos descobrir o rosto totalmente bom e misericordioso do Pai. Nenhuma condenação, nenhuma imposição , mas a possibilidade de um novo caminho.

 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

SANTA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ ; 26 DE DEZEMBRO 2021

 




(Lk 2, 41-52)

 

Paolo Cugini

 

A festa da sagrada família recorda-nos que a dinâmica da fé, o conhecimento dos seus mistérios e as indicações do caminho que somos chamados a percorrer, se realizam na vida familiar. Esta já é uma primeira e profunda indicação. Encontramos Deus, seu caminho para nós, quando vivemos com autenticidade as relações que o Senhor nos deu. Na verdade, não escolhemos o pai, a mãe, os avós, os irmãos e as irmãs, mas os encontramos ao nascer. Não são como os amigos, que encontramos ao longo da vida e que mudamos a partir dos lugares e situações em que vivemos. As pessoas de uma família são o dom que Deus nos dá para crescermos humanos. A atenção às relações familiares é o primeiro passo significativo, não só para o nosso caminho de humanização, mas também espiritual. A compreensão deste aspecto da vida de fé, passa imediatamente pelo compromisso de investir cada vez mais na qualificação das relações familiares, atenção aos que nos rodeiam, àqueles que compartilham o caminho da vida todos os dias.

O segundo aspecto significativo que aparece na festa da sagrada família é a sua pobreza. Deus decide nascer não apenas em uma família pobre, mas também em uma região e território caracterizado pela pobreza. Deus escolheu não nascer rico, em um castelo, mas pobre entre os pobres. Jesus nasceu e foi criado com uma mãe analfabeta, pai carpinteiro, considerado, naquela época, um trabalho infame, uma casa pobre. Jesus cresce vivendo sobre a própria pele o fruto das desigualdades sociais, nas quais poucos detêm a maior parte dos benefícios, enquanto a maioria vive da migalha. Jesus e sua família viveram, como muitos, de migalhas. Este aspecto da pobreza de Jesus, que também encontramos de novo nos anos de maturidade, de sua vida pública, deve ser levado a sério. O que nos ensina esse fato bíblico que, ao mesmo tempo, é escolha de Deus? Diz-nos que a nossa fé ,não amadurece na riqueza, no luxo, no conforto. Ao contrário, uma vida essencial, uma família que se esforça continuamente para compartilhar o que tem, investe não só para responder às próprias necessidades, mas se abre para os outros, para os pobres que encontra ao longo do caminho, se esforçando continuamente para manter um baixo estilo, essencial, cria o terreno para que a fé amadureça, a confiança na justiça de Deus, na sua bondade e misericórdia.

O terceiro aspecto que podemos destacar desta sagrada família é a liberdade de cada membro com a tradição dos pais. Maria aceita a escandalosa proposta de ser mãe antes do casamento, colocando-se imediatamente em uma situação gravíssima do ponto de vista da lei mosaica. Maria se entrega a Deus e aceita o risco de ser morta pela comunidade, porque transgride o preceito. Não menos importante é José, que os evangelos o definem como justo, isto é, um homem que obedece aos mandamentos de Deus. Chocado com a notícia da gravidez de Maria, aceita a proposta do anjo em sonho e transgride a lei mosaica, que previa o apedrejamento em caso de adultério, ele a leva consigo e a guarda, cuidando dela. Finalmente, todos nós sabemos o que o filho Jesus fará, seria melhor dizer aprontará,  quando começará a atividade pública. Desde o início do seu ministério, Jesus transgrediu o primeiro e fundamental mandamento cuja transgressão levava à morte: o respeito pelo sábado. Uma família, portanto, de rebeldes, uma rebelião contra uma lei que sufoca a vida, na busca contínua da vontade de amor do Pai. Também neste caso, como em outros, encontramos na humanidade de Jesus, em seu estilo, os traços marcantes de seus pais, que eram pobres, mas grandes em sabedoria e amor ao Pai.

É a vida essencial que nos leva a apegar-nos à Palavra do Senhor, para buscarmos o seu conforto e descobrir sua delicada presença em algumas experiências pessoais, nas quais nossas forças são testadas até o limite. É precisamente nestas situações extremas, que se torna importante ter alguém familiar que nos possa apoiar, aconselhar e com quem nós próprios possamos falar, partilhar a nossa situação. A sagrada família de Nazaré, vista de perto, ensina tudo isso e muito mais.

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

DOMINGO 4 DE NOVEMBRO-SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

 



(Ap 7, 2-4.9-14; Sal 24; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

 

Paolo Cugini

 

1. A Igreja celebra hoje a solenidade de todos os santos, nos convidando a refletir sobre o sentido da nossa caminhada de fé. Se fomos batizados é porque Deus nos chamou desde a eternidade para sermos santos (Cf. Ef 1,4), pra sermos pessoas diferentes, pessoas cujo objetivo não seja enganar os outros, mas fazer da nossa vida uma total oferenda a Deus.  O problema pra nós hoje é entender o sentido desde chamado, ou seja, quer dizer que Deus nos chama a sermos santos? Qual é o sentido da santidade no mundo de hoje? Como se realiza, o que implica? É para as leituras da liturgia de hoje que dirigimos estas perguntas para obtermos aquelas respostas tão necessárias para a nossa vida de fé.

 

2. “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro” (Ap 7, 14).

A santidade é o caminho aqui na terra atrás de Jesus, seguindo os passos dele, que é o caminho do amor. Amar aqui na terra do jeito que Jesus amou, ou seja, de forma desinteressada, despojada, dedicada totalmente aos outros, traz consigo uma grande tribulação. Jesus, que é o amor perfeito do Pai, sofreu o pão que o diabo amassou por causa do ódio do mundo, que não agüentava a sua liberdade, a sua gratidão, o seu jeito simples de lidar com os mais pobres, os mais fracos, a sua sinceridade que não media palavras contra os hipócritas da vez. O caminho do cristão que se esforça de imitar a Jesus, seguir as suas pegadas leva exatamente aonde Jesus chegou: a cruz. A cruz, do ponto de vista espiritual, é o símbolo da vitória do amor sobre o ódio, da verdade sobre a hipocrisia, da humildade sobre o orgulho. Só que para conseguir esta vitória o cristão, assim como o mesmo Jesus, paga um preço altíssimo, o preço da própria vida. A existência cristã torna-se neste mundo de ódio uma verdadeira tribulação, dificílima de agüentar. Este é o sentido autentico da santidade, que é uma vida diferente, uma vida separada do mundo. Santo é aquele que é impelido pelo amor de Jesus e que deixa o espírito do Senhor agir na sua mesma vida, historia. A santidade, então, não é um simples esforço pessoal, uma luta que o homem a mulher deve travar sozinho. Pelo contrario, é a disponibilidade a fazer com que, aquele amor total e pleno que manifestou-se na historia dois mil anos atrás, possa continuar se manifestando através da nossa mesma humanidade. Santidade é docilidade ao plano de Deus, um plano que não é escrito uma vez para todas e que deve ser simplesmente executado, mas que exige constantemente a nossa disponibilidade, o nosso desejo renovado em cada circunstância a deixar o Espírito de Deus passar na nossa historia.

 

3. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3,1).

No caminho terreno atrás de Jesus que, como vimos até agora, é o caminho da santidade, o cristão não vive apenas de lutas e não enfrenta somente tribulações, mas experimenta a bondade do Pai que se manifesta como vida filial. É aquilo que são João tenta de nos dizer na segunda leitura de hoje. O caminho cristão é um caminho aonde devemos experimentar a paternidade de Deus. Por isso uma pessoa agüenta sofrimentos terríveis, sofrimentos que a maioria das vezes são espirituais, sofrimentos que derivam da posição difícil que o seguimento ao Evangelho de Cristo nos leva. Só quem experimenta o afeto de Deus, a sua presença paterna, o seu amor total e abrangente, consegue encarar a estupidez do mundo, a sua hipocrisia sem vacilar nem de um lado nem do outro. Ao mesmo tempo, a verdade da experiência filial que estamos vivendo se manifesta na capacidade de correr logo entre os braços do Pai quando na luta com o mundo sofremos uma derrota, uma queda, quando vacilamos. Estou escrevendo isso a partir da sugestão que a mesma Palavra de Deus nos oferece. Se, de fato o santo é um filho de Deus, agora não existe filho no mundo que não apronte, não faça algo que não agrada o pai. O filho autentico e verdadeiro não é o perfeitinho, que nunca cai (quanto orgulho espiritual encontramos nestas tentativas de aparecer com inquebrantáveis! Como se Deus não conhecesse a nossa natureza fraca!), mas aquele que cai e logo grita ao Pai para que o levante e, assim, poder continuar o caminho. “Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo” (1 Jo 3, 3) O caminho da santidade é um caminho de cotidiana purificação e isso quer dizer que a perfeição é um fruto que o Espírito produz em nós e que pode ser alcançado somente com a disponibilidade humilde a ficar a vida toda atrás de Jesus, em qualquer momento e situação.

 

4. “Bem aventurados os pobres em espírito... os mansos... os que tem fome e sede de justiça... os misericordiosos... os puros de coração...” (Cf Mt 5, 3-11).

Nesta ultima parte da nossa reflexão podemos nos perguntar: como podemos saber se também nós estamos fazendo parte daquela multidão narrada no livro do Apocalipse (1° leitura) que participa da gloria dos santos? E também como podemos ter a certeza que a nossa experiência cristã está sendo uma experiência filial, que é fundamental para vivermos o nosso batismo como caminho de santidade? A resposta a estas perguntas encontra-se no Evangelho de hoje. De fato, as bem-aventuranças que Jesus proclama perante o povo, não são outra coisa que os elementos visíveis da mesma humanidade de Jesus. Ele é o Filho querido do Pai. Como é que se manifestou a sua filiação aqui na terra? No seu carinho para com os pobres, na sua sede e fome de justiça, na sua misericórdia, mansidão, na sua busca da paz, na sua capacidade de enfrentar as perseguições e assim em diante. Agora é isso mesmo que o Espírito Santo, que recebemos nos sacramentos, está querendo formar em nós. Santo, então, não é aquela pessoa que fica de joelho com a cabecinha dobrada mandando os beijinhos a Maria. Santo é aquela pessoa que olha os outros não com um duplo pensamento, que perante as injustiças do mundo sente o desejo que se manifeste a justiça de Deus que é misericórdia. Santo é a pessoa que, no mundo de divisões e de ódios terríveis, faz de tudo para encontrar caminhos de paz. Santo é aquele que sente um aperto no coração perante um pobre, um mendigo e transforma este aperto num caminho que possa ajudar o irmão carente. São estes sentimentos que o Espírito está querendo formar em nós: os mesmos sentimentos que eram bem visíveis na humanidade de Jesus. Pedimos a Deus que esta Eucaristia possa colocar na nossa alma o desejo e uma santidade autentica e verdadeira, aquela santidade que se manifestou em Jesus, a única que pode transformar o mundo do ódio em amor.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

Domingo 24 de junho: Natividade de são João Batista

 



(Is 49, 1-6; Sal 139; At 13, 22-26; Lc, 1, 57-66.80)

 

Paolo Cugini

 

1. Celebramos, neste domingo, a solenidade do nascimento de João Batista, do homem escolhido por Deus para anunciar ao mundo a vinda de Jesus Cristo, o nosso Salvador. Não é por acaso, então, se a liturgia da Palavra de hoje nos oferece textos os quais nos convidam a refletir sobre o mistério da vocação. A importância de João Batista na economia da historia da salvação é evidenciada pelo mesmo Jesus que define João “o maior entre os nascidos de mulher”, pelo fato que foi escolhido para anunciar a presença do Cristo no mundo. A vida de João Batista se destacará pela dureza de vida que levava, pela sobriedade, pela força da sua pregação e pelo convite á conversão. João Batista se preparou à vinda de Jesus no deserto, batizando as multidões com a água do rio Jordão, batismo que era um convite a mudar de vida, a buscar o caminho de Deus. João nasceu em circunstâncias estranhas, não comuns. A mãe Isabel era estéril e o pai Zacarias já de idade avançada. Desde o nascimento, tudo na vida de João é envolvido no mistério, no ignoto. Aproveitamos, então, das leituras de hoje, para tentarmos penetrar o mistério do chamado de Deus. Pedimos ao Espírito Santo que abra a nossa mente para entendermos o sentido do nascimento e da vida de João Batista pela humanidade e para nós.

 

2. “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome” (Is 49, 1).

São estas as primeiras palavras do segundo canto do servo, que narram a vocação de uma personagem misteriosa, que nunca a tradição conseguiu a detectar. Personagem misteriosa como misteriosa é a vida de João. Poderíamos dizer que este mistério envolve a nossa mesma vida. É interessante parar para refletir sobre este dato, ou seja, o fato que a Bíblia apresenta a vida como algo de misterioso, que está escondido nos pensamentos de Deus. Isso é um convite a não abordar a vida de uma maneira superficial, imediata, como se a vida de uma pessoa fosse medível somente pelas características externas, pelos dados materiais. A Bíblia nos ensina que o sentido da nossa vida está em Deus, ou seja, fora do nosso alcance imediato. Para tomarmos conta da nossa existência precisamos de um esforço de interiorização, precisamos entrar em contato com Deus, pois é Ele que conhece o mistério da nossa existência antes do nosso mesmo nascimento. Para quem está tomando a serio a própria vida, esta revelação representa uma grande liberdade e, ao mesmo tempo, um grande desafio. É liberdade porque somos liberados do peso de inventarmos a nossa vida: graças a Deus a nossa vida já tem um sentido e, este sentido, é Deus mesmo que o definiu desde o inicio da criação. É também um desafio, porque devemos aprender a desmaterializar a nossa existência, para aprendermos a buscar o valor da nossa vida aonde ele pode ser desvendado, ou seja, em Deus.

 

3. Estas mesmas reflexões são retomadas no famoso salmo 139, que a liturgia nos convida hoje a rezar. “Senhor vos me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto; de longe penetrais meus pensamentos” (Sal 139, 1).

Se Deus me conhece e penetra os meus pensamentos, se foi ele que me formou as entranhas e no seio de minha mãe me teceu, significa que não sou sozinho. Quanta angustia leio às vezes nos rostos das pessoas que encontro, por tudo aquilo que acontece na vida delas, que parece até mesmo que Deus não esteja presente, que tudo seja em balia do ocaso e que, de conseqüência, a nossa vida não tenha nenhum sentido. É esta a grande tentação que enche a nossa alma e a nossa mente, confundindo os nossos pensamentos, naquelas horas tristes e dolorosas em que experimentamos uma espécie de abandono de Deus.  Não, Deus não nos abandona e nós não somos forçados a inventar a nossa existência, a produzirmos sozinhos e desesperadamente um sentido da nossa vida, para não escutarmos o vazio que nela percebemos. Aliás, talvez sejam estas as horas melhores que Deus nos oferece, para não fugirmos no vazio das nossas ilusões, dos nossos castelos imaginários, para penetrarmos no mistério da nossa vida e, nessa profundeza, descobrirmos uma Palavra pessoal, única, uma palavra amiga, que somente Deus conhece. Assim, estas leituras que escutamos na festa do nascimento de são João Batista, deveriam produzir em nós o desejo de aprofundarmos o mistério da nossa vida, de entrarmos em nós mesmos e escutarmos a voz daquele que nos chama desde a criação do mundo. Só assim descobriremos quanto, aos olhos de Deus, somos preciosos, que valor imenso tem a nossa existência para Ele, valor tão grande que desde sempre preparou para nós um projeto, um caminho. Somente deparando com este projeto misterioso e fantástico de Deus, os nossos falsos projetos serão desmantelados. De fato, se a tristeza às vezes enche os nossos corações, se a angustia acompanha os nossos dias, é porque vivemos no tempo presente inventando literalmente a nossa vida, nos achando os donos da nossa existência que, desta maneira, torna-se extremamente pobre,fraca, vazia. A auto-suficiência humana é o pior pecado que podemos cometer, porque é uma forma radical de resistência ao plano de Deus. Somos mergulhados numa cultura que nos incentiva todo dia e toda hora a buscarmos o nosso caminho de forma autônoma, independente de Deus e de todos.  Aonde podemos encontrar a luz que nos ilumina? Como percebermos que o Senhor nos conhece no mais intimo (cf. Sal 139)?  Como descobrirmos, assim como aconteceu com João Batista, o sentido do nosso nome, da nossa vocação?

 

4. “Ele vivia em lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel” (Lc 1, 80).

Não existe melhor resposta ao nosso problema, do que esta. João não teve pressa de se amostrar: esperou até perceber que estava na hora. Até não percebermos dentro de nós a paz de Cristo, é melhor ficarmos escondidos, também porque o mundo não merece a nossa agonia. João esperou a resposta ao sentido da sua vocação no deserto, ou seja, no silencio, na busca interior não desperdiçando palavras com colegas, mas procurando, sobretudo o parecer de Deus. Por isso quando saiu, arrasou! Este versículo é o programa de uma vida. Pode ser pouca coisa, mas para quem está querendo levar a serio a própria única e breve vida, vale a pena escutar o conselho.

 

 

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

Epifania do Senhor

 



(Is 60,1-6; Sal 72; Ef 3,2-3.5-6; Mt 2,1-12)

 

Paolo Cugini

 

1. As solenidades do tempo de Natal encerram com a Epifania do Senhor. A Epifania explica de antemão o sentido da vinda de Jesus no meio de nós: ele veio para unir aquilo que estava dividido: “Os pagãos são admitidos á mesma herança, são membros do mesmo corpo” (Ef 3, 6). Se isso é verdade, a solenidade da Epifania desvende também o caminho que a Igreja deve realizar neste mundo: ser sinal de comunhão e instrumento de paz. As comunidades devem se tornar espaços abertos, aonde qualquer pessoa de qualquer povo possa se sentir bem à vontade e acolhido. É claro que essa abertura toda envolve cada um de nós, naquele espaço de mundo no qual é chamado a viver. Mas o mundo que Jesus veio a apaziguar para se tornar instrumento de comunhão é a nossa mesma humanidade: é em nós que deve acontecer a comunhão. Os braços abertos do menino Jesus são os mesmos da cruz: uma humanidade aberta, que sabe somente se doar. Este é o caminho que a Epifania aponta.

Problema: como a nossa humanidade estragada pelo egoísmo, pode conseguir a se tornar aquele espaço aberto aonde as diferenças vivem em comunhão e os antagonistas se reconciliam?

 

2. “São membros do mesmo corpo, são associados á mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (Ef 3, 6).

 

A nossa humanidade poderá tornar-se espaço aberto somente em Jesus e por meio do Evangelho. Palavras simples, mas amiúde esquecidas. Quantas vezes encontrei nestes anos de sacerdote, pessoas que se massacravam para melhorar as próprias atitudes, mas era evidente que o esforço apoiava tudo sobre eles mesmos, apesar das aparências e das abluções cultuais. Ou, também, quantas pessoas, depois de ter tentado com imediato insucesso de melhorar a própria humanidade, desistem conformando-se á uma vida de baixo nível moral?  Jesus Cristo é o único capaz de sarar a nossa humanidade e faz isso através do Evangelho, porque, segundo são Paulo o Evangelho é potencia de Deus

 (cf. Rom 1,16), ou seja, aquela mesma força que agiu na Ressurreição de Jesus, age no Evangelho. Cabe então a nós fazer espaço na nossa vida ao Evangelho de Jesus para deixar a sua luz entrar e iluminar as nossas trevas; deixar a sua verdade bagunçar a nossa vida mergulhada na mentira. São os braços abertos de Jesus no presépio que apontam o caminho que devemos realizar, que é o caminho da confiança sem opor resistência, sem querer saber de antemão aquilo que não podemos saber. Os reis magos caminharam atrás de uma estrela sem saber aonde os levava: esta é a fé! O Evangelho aperfeiçoará as nossas vidas se o seguiremos assim como ele é, e não como nós queremos que seja. A Epifania do Senhor aponta para uma humanidade de braços abertos, uma humanidade sorridente, que olha constantemente na direção do seu Salvador, uma humanidade que aprende a não se queixar toda hora por coisas fúteis, sem nenhuma importância, mas esbanja esperança por todos aqueles que se aproximam.

 

 

3. “ Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém”( Mt 2, 3).

 

Uma humanidade aberta, disponível e generosa, perturba o juízo dos egoístas e hipócritas deste mundo: os carinhas ficam malucos! Logo que Jesus entrou no mundo, Herodes e os poderosos como ele ficaram doidos, porque? Quem é acostumado a controlar tudo,a controlar a própria vida e a vida dos outros para ficar tranqüilo,  não aceita a novidade. Só que o Espírito é novidade, é criativo, não sabe de onde vem e aonde vai (cf. Jo 3). E os cristãos também são livres, simples, amigos de todos, disponíveis a si doar gratuitamente. Esta é a tarefa da Igreja: ser sinal de contradição (Lc 2, 34), incomodando o mundo (Ap 11,10),tirando o mundo do serio. O ódio de Herodes para com o menino Jesus e de deixar pasmos: porque tanta raiva? O que pode fazer um menino para provocar a morte de tantas criancinhas? A Verdade, a Luz, o Amor, a Justiça se fez carne e veio a morar entre nós: é este o problema! Acolhendo o Evangelho na nossa vida, não apenas estaremos deixando espaço para a força de Deus transformar as nossas vidas, mas também nos tornaremos possibilidade de conversão para os outros. E tudo isso tem um preço: o ódio do mundo. “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia” (1Jo 3,13). A solenidade da Epifania, que hoje celebramos, nos lembra que, quem busca Jesus como os Magos que vieram do Oriente para adorar o Senhor, sofre o ódio do mundo que não gosta de Deus e do seu Filho Jesus. Só que nós sabemos que “Deus nos deu a vida eterna e esta vida está em seu Filho” (1Jo 5, 11).

Fitar os olhos no presépio, no menino Jesus não significa permanecer num infantilismo religioso que busca uma espiritualidade ligada a sentimentos passados; pelo contrario preencher os olhos de Jesus menino neste tempo natalino, significa manter viva a esperança que é em nós, para enfrentarmos com mais coragem e força o ódio do mundo.

 

4. “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” ( Mt 2,12).

 

Quem busca a Deus de coração puro não ficará desamparado. Quem entrega a própria vida nas mãos de Deus, descobre o sentido do versículo acima citado. Os Magos deixaram tudo para procurar a Verdade e, apesar de tantas dificuldades, voltaram para a sua terra despojados do ouro, incenso e mirra, mas enriquecidos de um encontro que preencherá as vidas deles para sempre. Esta é a verdade misteriosa da fé, que nos coloca num plano diferente da realidade, o plano do Espírito, das coisas do céu (cf Col 3,1), que pode acreditar somente quem vê, e pode ver somente quem busca e é encontrado pelo Senhor. Pois a realidade é esta: Deus em Jesus se manifestou (Epifania) e nele  colocou a vida: cabe a nós descobri-lo para conhecê-lo e, conhecendo-o, amá-lo e amando-o viver para sempre.

 

 

 

Pintadas-Ba       2011                                                                         Pe Paolo Cugini

 

 

 

 

 

 

Vigília de Natal-2007

 



(Is 9, 1-6; Sal 96; Tt 2, 11-14; Lc 2, 1-14)

 

 

Paolo Cugini

1. Chegamos a esta noite com o coração vibrante de alegria pelo evento que estamos contemplando: nesta noite o eterno entra no tempo, o infinito se faz finito, aquilo que é imperecível se faz perecível. Contemplamos extasiados o mistério do Deus menino, o Onipotente solapado no pequeno corpo de uma criança recém nascida. Ficamos pasmos, sem fôlego por esta aproximação impressionante de Deus para conosco. Aproximação que expressa mais uma vez o grande desejo de Deus de encontrar o homem, a mulher. O Natal é isso mesmo: o cumprimento do sonho antigo de Deus se fazer presente no meio da humanidade, de morar no meio de nós e, para realizar este sonho, Deus se faz homem, o tudo de Deus entra no fragmento pequeno do corpo humano. Mistério sublime que desvende até a que ponto chega o amor verdadeiro de Deus, o amor que pela sua intrínseca natureza exige a doação, a partilha e, por isso, não mede riscos, não calcula as conseqüências.  E, assim, por todos nós neste momento são autenticas as palavras do salmista quando, perante o mistério de Deus contemplado na criação, se pergunta: “É o que o homem para merecer tudo isso?” (Salmo 8). Nós também nesta noite tão luminosa nos perguntamos deslumbrantes: oh Deus porque fez tudo isso? Será que a gente merece um tão grande presente? Será que precisava mesmo que Deus se fizesse menino para nos encontrar? E é o que isso significa? O que Deus quis nos dizer com a sua vinda?

 

2. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Is 9,1).

Assim como o profeta Isaias o profetiza, Jesus pela humanidade é uma luz. Deus enviando Jesus quis nos iluminar, ou seja, decidiu de nos tirar das trevas. Neste sentido a vinda de Jesus manifesta o julgamento de Deus sobre a humanidade. Com a vinda de Jesus Deus declara definitivamente derrotado o projeto de mundo que os homens construíram e continuam construindo independentemente de Deus. O mundo sem Deus é obscuro, é treva: é isso que o Natal de Jesus revela pela humanidade toda. O mesmo salmo 95 que foi proclamado hoje aponta o mesmo sentido: “O Senhor vem para julgar a terra inteira”. A luz de Deus que o nascimento de Jesus trouxe ao mundo representa o julgamento de Deus sobre o projeto de mundo que a humanidade desobediente criou e, ao mesmo tempo, é a indicação do caminho que a humanidade toda deve percorrer pra se afastar do projeto errado para entrar na trilha certa. Este me parece ser o sentido primeiro do Natal: a manifestação definitiva do julgamento de Deus sobre o mundo. A partir do evento do presépio, a humanidade toda depara com o pensamento de Deus, com a sua Verdade definitiva sobre nós. Verdade que se manifesta no seu lado negativo de julgamento, sobre tudo aquilo que ao longo dos séculos se ergueu orgulhosamente como projeto autônomo, criando o mundo da morte, dominado pelo egoísmo e pela ganância. Ao mesmo tempo o julgamento de Deus se manifesta como misericórdia por toda a humanidade vitima deste projeto terrível, por toda a humanidade que tenta com todas as forças de permanecer fiel ao projeto de amor de Deus.  Esta misericórdia de Deus que se estende ao mundo é muito bem representada pelos braços abertos de Jesus menino no presépio da manjedoura de Belém, que não é apenas uma cena sentimental, que mexe com o nosso lado sentimental, mas um quadro realista daquilo que Deus está querendo com o mundo.

 

3. “Porque nasceu para nós um menino” (Is 9,50).

Esta luz que Jesus com o seu nascimento trouxe ao mundo se manifesta como vida. De fato, aquilo que Deus promete para salvar a humanidade da morte é uma criança. Isso não apenas foi profetizado pela boca do profeta Isaias, mas se cumpriu na historia com o nascimento do menino Jesus. Jesus é a Vida verdadeira que acusa a morte do projeto mundano. Se quisermos viver uma vida que permanece no tempo e nunca desfalece, precisamos nos aproximar do presépio. Jesus menino de braços abertos é o julgamento de Deus sobre o mundo fechado do egoísmo, da ganância, da soberbia. Além do mais, este menino recém nascido de braços abertos nos convida a fazer parte do seu Reino, que é o Reino do amor, da paz, da justiça e da vida autentica.  Aquela vida que todos nós buscamos com todas as nossas forças ao longo da vida e que não conseguimos alcançar, esta mesma vida veio ao nosso encontro, se ofereceu gratuitamente. É isso que devemos aprender a vislumbrar no menino Jesus: A Vida. É Ele que veio para apagar as nossas angustias, veio para preencher o nosso vazio, a nossa falta de sentido. É este menino indefeso que tem nas suas mãos o segredo da vida, a direção que a nossa existência humilde deve tomar. Se nos aproximarmos a este grande tesouro com uma mentalidade humana, material, seriamos tentados a nos perguntar o custo para obter tudo isso. O Evangelho, porém, vem ao nosso encontro com uma resposta simples: “Encontrareis o recém nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). A vida autentica que Deus nos oferece no menino Jesus, não se apresenta com os critérios humanos do poder e da força, mas com os sinais divinos da simplicidade e da humildade. E assim, se quisermos acolher a Vida autentica manifestada no meninoJesus, precisamos nos despojar do nosso orgulho e do nosso egoísmo. A Vida autentica pode ser somente acolhida para ninguém se ufanar de algo que não lhe pertence. É isso que é difícil entender para nós acostumados a medir o valor das coisas pelo peso exterior, pelo preço. Jesus, a vida verdadeira, se oferece gratuitamente, não tem preço: pode ser somente acolhido. Também isso representa um julgamento da nossa maneira de olhar as coisas e medi-las.

 

4. A noite de Natal é uma noite feliz, como somos acostumados a cantar, porque Deus veio a morar no meio de nós, assumindo a nossa condição humana, uma condição estragada pelo pecado e pela morte. É incrível como isso possa acontecer, como Deus possa caminhar e viver conosco, ao nosso lado. Se Ele decidiu isso não foi apenas por um sentimento de solidariedade, mas para nos salvar, ou seja, para transformar a nossa condição humana de morte, numa condição de vida, a nossa condição de sofrimento e conflito numa condição de paz. O Natal de Jesus que hoje celebramos com o maior respaldo possível, pela Igreja quer ser muito mais de uma lembrança passada: deseja ser a indicação de um estilo de vida novo, aquele estilo que produz uma transformação radical em todos aqueles que a levem a serio. Que seja este o sentido do Natal, pelo menos entre nós e nas nossas famílias.

 

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-Ba.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

DOMINGO XXV/C

 



(Am 8, 4-7; Sal 113; 1 Tim 2, 1-8; Lc 16, 1-13)

 

Paolo Cugini

1. Sempre procuramos, pelo menos as pessoas que estão buscando uma vida de fé mais autentica e verdadeira, a essência da vida cristã, aquilo que mesmo deveria ser o foco, o eixo da caminhada, mas nos perdemos em mil riachos laterais sem nuca chegar ao rio. Isso é visível não apenas em nós, mas também em pessoas que há tempo estão no Caminho. Passamos o tempo inventando projetos, organizando eventos, ficando às vezes angustiados porque não saíram do jeito que a gente quis ou, pelo menos, tinha esperado. O tempo vai passando e nós ficando com um punhado de moscas nas mãos, nos questionando se a vida cristã é assim mesmo ou se deveria ser diferente. O grande perigo, nesta fase de angustia, que pode se protelar a vida toda, é ficar repetindo os mesmos erros, as mesmas situações. Quando a insegurança toma conta da gente, ficamos até com medo de pensar, de ousar algo de novo para não sermos criticados, julgados, dedados. Vivemos, assim, uma vida em defesa, sem élan nenhum, sem empolgação. E aqui vem o questionamento das leituras de hoje: o Espírito Santo que recebemos no Batismo e continuamos recebendo nos sacramentos, deve produzir esta vida segura, monótona, rotineira, ou tem algo a mais?

 

2. “E o Senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos dos filhos da luz” (Lc16, 8).

A parábola que Jesus narra no Evangelho de hoje termina com uma moral, que tão moral não parece. Porque será que Jesus elogia a esperteza do administrador desonesto? Além do mais, porque Jesus elogia uma pessoa desonesta: não é uma grande contradição perante tudo aquilo que ele vem pregando de amor, respeito e tudo mais? Na realidade, se prestarmos bem atenção às palavras de Jesus, Ele não elogia nem a desonestidade nem a esperteza, mas sim a criatividade do homem. De fato, o protagonista da Parábola, usou ao maximo a própria inteligência para se sair bem de uma situação que tinha tudo para ser ruim pra ele. Esta historia traz pra nós um grande ensinamento. O questionamento que Jesus traz por dentro da comunidade dos discípulos, entre os quais estamos hoje também nós, é este: o que estamos fazendo da Palavra de Jesus e do Seu Espírito Santo? O Espírito Santo em Jesus agiu de uma forma que progressivamente transformou toda a sua humanidade em amor, doação, partilha. Alem do mais, o Espírito em Jesus o levava a criar continuamente novas situações para que o reino de Deus fosse anunciado. O exemplo mais claro são as parábolas que ele inventava para chamar á atenção do povo e, assim, induzi-lo a pensar, refletir sobre a própria vida, se converter á Cristo. A verdade do Espírito Santo que Em Cristo agiu desta maneira e que Ele entregou pra nós em cima da cruz (cf. Jo 19, 30), não pode ser desperdiçado, mas deve gerar continuamente amor e, sobretudo, de uma forma criativa. O problema, então, é esse: porque somos tão resistentes á ação do Espírito Santo? O que em nós está bloqueando o Espírito Santo, impedindo que invente algo de novo? Porque somos tão passivos, renunciatarios e preguiçosos a ponto de prejudicar a obra criativa de Deus? Varias poderiam ser as respostas: vou apontar somente algumas.

Em primeiro lugar, aquilo que atrapalha a ação do Espírito Santo na nossa vida é o medo. Este medo se manifesta de muitas formas e maneiras: medo que o outro não goste de nós; medo de dizer algo que fere os outros; medo de não sermos aceitados. Ficamos trancados em nós mesmos para não correr o risco de ficarmos ofendidos, de sofrer por causa de uma magoa: a que ponto chega o nosso egoísmo, não é? E assim perdemos a ocasião de experimentarmos o prazer e a felicidade de uma vida diferente, uma vida de doação aos irmãos e as irmãs, uma vida fora da rotina corriqueira, mais criativa e dinâmica. É o dinamismo do Espírito que impulsiona a nossa vida a criar situações sempre nova para permitir a graça e Deus de moldar a humanidade através da nossa disponibilidade. É a força daquele mesmo Espírito que levava Jesus a enfrentar com coragem os poderosos do tempo, que deve agir em nós para não ficarmos calados perante a injustiça que encontramos no mundo, mas sim inventarmos novas situações para que o povo mais simples possa viver num mundo mais justo e solidário. Somos passivos porque amedrontados daquela diferença qualitativa que o Evangelho nos apresenta e que em Jesus se tornou bem visível. Tememos o julgamento dos amigos, dos colegas, até dos familiares e, por causa disso recuamos, voltamos atrás, preferindo a tristeza da vidinha medíocre da massa, á grande felicidade dos poucos discípulos de Cristo. O cara, deixa de frescura e segue a Jesus: tá?

 

3. “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos... Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16, 9.13b).

Como é que se manifesta esta novidade, esta criatividade que o Espírito deveria realiza em nós? O exemplo que Jesus traz é em referencia ao nosso relacionamento com o dinheiro. Estes últimos versículos do Evangelho de hoje expressam, de uma forma contundente a economia de Jesus, a teoria econômica que sai com força das paginas do Evangelho. O dinheiro é sempre injusto: esta é a sentença clamorosa e, ao mesmo tempo escandalosa de Jesus.  È claro que não é a qualquer dinheiro que Jesus se refere, o dinheiro que serve para comprar o pão, os remédios, e tudo aquilo que necessita para manter a nossa vida. O dinheiro é injusto quando é acumulado, guardado nos cofres dos bancos, porque este é todo dinheiro tirado do povo, que gera desigualdade e pobreza. Em um mundo ganancioso como é aquilo no qual vivemos, esta proposta de Jesus, que o Espírito Santo deveria produzir na nossa vida real, parece como uma verdadeira provocação. Na realidade, ou seja, na Verdade do Evangelho, esta é exatamente a diferença, a diversidade que o Evangelho, impulsionado pela ação do Espírito Santo, deveria realizar no meio de nós. Vida despojada porque Cristo se despojou de tudo para dar a nós o tudo de Deus.  Vida simples, despojada, porque é o amor de Deus que é derramado em nós pelo Espírito (cf. Rom 5,5) e isso nos basta, é suficiente para vivermos. Só o Espírito Santo pode impelir em nós idéias tão revolucionarias e ousadas como estas pra deixar de queixo aberto todos aqueles que vivem mergulhados no egoísmo do mundo. E nós, então, passamos fechando a boca deles, convidando-os a não desperdiçar a própria única vida se apegando aquilo que passa, mas se doando totalmente aos irmãos e as irmãs, sobretudo mais pobres, para conseguirmos um tesouro no céu, tesouro que sem duvida ninguém vai roubar (nem os políticos corruptos que andam nas nossas cidades).

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

 

DOMINGO XXIV/C

 



(Ex 32,7-11.13-14; Sal 51; 1 Tim 1, 12-17; Lc 15, 11-32)

 

Paolo Cugini

1. “Um homem tinha dois filhos” (Lc 15,11).

Dizia um grande poeta e filosofo francês, Charles Péguy, que quando estas palavras são proclamadas, ninguém agüenta: toda a humanidade chora. A parábola do filho pródigo, que acabamos de ouvir, mexe com as nossas entranhas, com o nosso emocional, porque chega na profundeza da nossa interioridade desvendando a nossa mesma realidade, a verdade de quem somos nós mesmos. Em outras palavras o conteúdo da Parábola do filho pródigo contem uma verdade tão profunda e autentica que ninguém consegue se esconder: arrebenta a nossa alma. Por isso é importante lê-la em silencio, meditá-la no escondido, para saborear aquilo que tem a dizer para mim, pela nossa conversão e, sobretudo, pela autenticidade da nossa seqüela ao Senhor. Se analisarmos com atenção a parábola do filho pródigo tem dois ensinamentos fundamentais. De um lado revela algo sobre a condição humana e do outro a mesma parábola revela algo sobre Deus. OS dois filhos são o símbolo da humanidade: por isso é importante parar a nossa atenção sobre eles pra ver o que a postura deles tem pra nós ensinar.

 

2. “O filho mais novo disse ao Pai: ‘Pai dá-me a parte de herança que me cabe’. E o Pai dividiu os bens entre eles” (Lc 15, 12).

Existe toda uma humanidade que sonha a realização da própria vida fora do alcance de Deus. São as pessoas que um dia levantam da cama decidindo que a vida é deles e a ninguém devem prestar conta. É aquela convicção que vem da juventude, da saúde, das condições materiais que nos levam a acreditar que somos os únicos senhores da nossa vida. Perante esta arrogância acho extremamente interessante a postura do Pai: não questiona nada, mas faz aquilo que o filho pede: o deixa livre de realizara sua vida do jeito que ele quiser. É um grandíssimo ensinamento para os pais: a paternidade é fecunda quando é alicerçada na liberdade, pois a liberdade é um reflexo da imagem de Deus. Quando pelo contrario os pais querem fazer de tudo para impedir que os filhos façam besteiras, chegando até a si substituir á liberdade dos próprios filhos, é ali que o bicho pega. Nessa altura podemos questionar: mas porque o pai não disse e não fez nada para impedir que o filho saísse de casa? Ao longo do texto podemos encontrar varias respostas. A primeira é que o pai era tranqüilo na própria tarefa de Pai. Ele sabia que tudo aquilo de bom que tinha semeado no coração do filho na infância e na adolescência, antes ou depois teria surtido efeito. De fato, na hora do grande sofrimento e da grande perdição quando o filho entrou em si mesmo, quem encontrou no fundo do seu coração? O Pai! É na infância e na adolescência que as forças educativas e espirituais devem ser dobradas para colocar os filhos no caminho da realidade. A segunda resposta ao problema sobre colocado é que o pai conhecia muito bem o seu filho e sabia que era daquela raça rebelde de cabeça dura, metido a sabido, que não vai com a cara de ninguém, que se acha o tal e que quando bota na cabeça uma idéia não tem jeito algum para tirá-la. Existe toda uma humanidade que para descobrir a própria identidade, para descobrir o sentido da própria vida parece que deve quebrar a cara. O filho que sai de casa descobre que o tesouro maior que tinha na vida estava exatamente lá aonde tinha decido de se afastar. São os mistérios da vida: às vezes precisamos rodear o mundo para descobrirmos aquilo que está perto de nós. Tem um terceiro ensinamento que podemos tirar da historia deste filho rebelde. Os prazeres da carne, junto com os prazeres materiais que o mundo nos oferece são puras ilusões, não proporcionam a felicidade, mas sim esvaziam a pessoa que entra neste caminho. Tudo mundo sabe disso, mas poucos conseguem ficar de fora do caminho da perdição. Porque? Porque a força dos sentidos é devastadora, e que não aprende a lidar com a própria interioridade desde a infância, para controlar os instintos e assim dirigi-los aonde nós quisermos, se torna escravo deles. É isso que nos ensina esta historia triste: o caminho da liberdade está no amor do Pai, é Ele a fonte da nossa vida.

 

3. “O filho mais velho estava no campo... Ficou com raiva e não queria entrar”(Lc 15, 25.28).

A postura do filho mais velho nos ensina que não adianta ficar perto do Pai: depende como ficamos. Podemos, de fato, fugir da nossa realidade, permanecendo no lugar. Quantas vezes nas nossas famílias têm familiares que não ligam com nada, parece que estejam sempre voando. E quando nos distanciamos da realidade, começamos a pensar besteiras, a fantasiar, botando gosto ruim naquilo que é bom. “E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos”. Oh, coitado! Quando perdemos o contato com a realidade, nos fechando em nós mesmos, construindo no nosso imaginário um mundo de fantasia, transformamos o bem em mal, prejudicando assim o nosso relacionamento positivo com os outros, sobretudo com as pessoas que mais amamos.  Interessante é também um outro dato. Foi necessário o filho mais novo se mandar e estragar a sua vida, para que pudesse emergir aquilo que se escondia no fundo do coração do filho mais velho. Quer dizer isso? Acho que esta Palavra nos ensina a não julgar os eventos na sua manifestação factual, mas precisamos sempre colocar tudo nas mãos de Deus, esperando que seja Ele á abrir os nossos olhos para interpretarmos assim a historia do jeito que Deus a está escrevendo. De uma certa forma é a perdição do irmão mais novo que salva o irmão mais velho do abismo do seu egoísmo. Tudo isso é bastante impressionante, porque nos mostra o lado providencial de Deus, que respeita a nossa liberdade e sabe realizar historia bonitas com os pedaços da nossa humanidade esbagaçada.

 O filho mais velho, apesar de ter sido fiel ao pai permanecendo perto dele, precisou sentir uma verdade: “Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu”. Mais uma vez é o Pai que com a sua realidade, que é a mesma Verdade, purifica as ilusões falsas formadas ao longo do tempo na nossa cabeça, restituindo paz e serenidade a alma. É a Palavra do Pai que precisamos escutar para que tudo na nossa vida seja renovado. É o amor do Pai que devemos acolher, amor que purifica e renova constantemente as nossas vidas. Por isso vale a pena estarmos aqui reunidos no redor desta Eucaristia, para nos alimentarmos do pão da Palavra de Deus que alimenta a nossa alma, nos orientando sobre o cominho a ser tomado, e para nos alimentarmos do corpo de Cristo que infunde nos nossos corações o amor de Deus, do pai misericordioso, que almeja a toda hora a nossa salvação. Amém.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA.

DOMINGO XXIII/C

 



(Sab 9, 13-18; Sal 90; Filêmon 9-10.12-17; Lc 14, 25-33)

 

Paolo Cugini

1. “Ensinai-nos a contar os nossos dias e daí ao nosso coração sabedoria!” (Sal 90).

Este versículo do salmo 90 nos ajuda bastante a entrar na liturgia da Palavra de hoje. É de fato, um versículo que chama a nossa atenção sobre a realidade da nossa vida que é uma e corremos o risco de desperdiçá-la. Aprender a contar os dias da nossa vida significa, então, aprender a viver a vida como um projeto, como um caminho único com uma meta bem definida. Por isso o salmista pede sabedoria, para que ao longo da vida o caminho possa manter-se firme, para não desviar nem à direita nem à esquerda. E é isso mesmo que também nós queremos pela nossa vida: chegar ao final dos dias da nossa vida para agradecermos a Deus de termos conseguido viver fieis ao projeto ao qual Ele nos chamou. No começo desta reflexão, então, nos perguntamos: como é possível uma vida fiel á vocação que Deus nos confiou?

 

2. “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26).

O que Jesus quis dizer com estas palavras duríssimas e quase incompreensíveis?  Será que Ele não exagerou? E, a final de conta, é mais importante ser discípulo que amar a minha mãe? Não é demais isso?

Na realidade o discurso que Jesus hoje puxa no Evangelho é extremamente profundo. Discípulo é uma pessoa que caminha atrás de Jesus, ou seja, é uma pessoa que entendeu que a vida, o amor, tudo encontra-se nele: não existe no mundo todo alguém que possa oferecer aquilo que Jesus oferece. Por isso alguém se coloca em movimento para buscar aquilo que não foi encontrado em lugar nenhum. De fato, se é verdade que minha mãe me deu a vida e que ela merece por isso todo o nosso carinho, é também verdade que ela mesma não pode nos proporcionar uma vida eterna. Assim também é verdade que o amor de uma mulher é algo de sublime, incomparável, mas é também verdade que nunca o amor humano é puro: fica sempre algo de egoístico, de interesseiro que ao longo dos anos emerge e provoca desavenças. Também nas historias de amor mais deslumbrantes existe algo que deve ser purificado para que a confiança possa se tornar total. O problema, então, é entrar em mi mesmo para mi perguntar: eu quero o que? Quero a vida verdadeira, o amor verdadeiro? Então somente Jesus pode me oferecer isso: levanta-te e caminha! Desapega-te dos amores terrenos e anda atrás do Senhor, para que seja Ele a transformar o egoísmo em amor, a desconfiança em confiança.

 

3. “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 27).

Somente quem se desapega dos afetos terrenos e se decide com firmeza a caminhar atrás de Jesus descobre um dos maiores mistérios da humanidade: o amor é sofrimento. O símbolo maior do amor é a cruz de Cristo: porque? Qual foi o sentido da Cruz? A cruz é o símbolo do amor extremo, impossível, sobre-humano, divino. A cruz é o símbolo do amor espantoso do homem-Deus de nome Jesus, que não fugiu perante as ameaças da morte. A Cruz é o símbolo do amor de Jesus, que não lançou a esponja perante a traição daquele que Ele amava, os seus discípulos, mas decidiu enfrentar a humilhação e ir até o fim. Nunca teve na historia da humanidade decisão tão sofrida. Amor não é identificável com algo de espontâneo, da forma que o mundo passa, mas sim decisão continuamente renovada. Amor não se identifica com uma paixão do momento, mas é fidelidade extrema, ao projeto que um dia foi vislumbrado como único e não repetível. Além do mais, ninguém consegue carregar a sua cruz, vivendo com fidelidade a própria vocação se não tiver a humildade de se colocar sempre e continuamente atrás do Senhor. A vida, neste sentido, é uma continua caminhada de aprendizagem. Quem se acha o tal, quem acha de ter já entendido tudo sobre a vida de fé, é destinado a quebrar a cara. A vocação seja ela qual for, o matrimonio ou a vida consagrada, é cruz, sofrimento, morte a si mesmo e ao mundo. É isso que Jesus quis comunicar para os seus discípulos. Se quisermos abastecer a nossa alma do amor que vem de Deus e da vida eterna que só Ele pode oferecer, não existe outro caminho que este. Se Deus é eterno tudo aquilo que Ele produz tem este marco de eternidade, marco que aqui na terra é pago ao preço duríssimo da incompreensão, solidão, perseguição. Por isso é necessário manter os olhos constantemente fitos em Deus, para não ficarmos confundidos com as ilusões que constantemente o mundo nos proporciona. É nessa altura que entra no discurso que estamos realizando mais uma pergunta: o que precisa fazer para mantermos a nossa caminhada firme no Senhor? Como podemos segurar a nossa vocação para nunca cair?

 

4. “Com efeito, qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos” (Lc 14, 28).

 

O seguimento a Jesus exige calculo, ou seja, uma constante atitude a pensar, avaliar, refletir sobre as condições de possibilidade da caminhada. Ninguém pode ser tão ingênuo pra pensar de poder seguir á Jesus dentro este mundo devastado do egoísmo, sem abastecer a própria alma e a própria mente de tudo aquilo que Deus nos proporcionou em Cristo. Este sentar-se e calcular os gastos, podemos interpretá-lo como o tempo da juventude, aonde torna-se fundamental passar muito tempo na reflexão para entender e depois se decidir sobre a vocação á qual o Senhor nos chama. É o tempo do namoro, por exemplo, para os jovens que Deus chama á vocação do matrimonio. É o tempo do seminário ou do convento para os jovens que Deus chama á amar na vida consagrada. Este ato, porem, do sentar-se para calcular, ou seja, para avaliar as condições de possibilidade da caminhada, é sem duvida alguma uma atitude que deve acompanhar toda a nossa vida. Ao longo dos anos, de fato, não apenas mudam as condições de vida, mas mudamos também nós mesmos. Por isso torna-se necessário um continuo entrar em si mesmo para atualizar o percurso realizado, renovando as energias, reintegrando dentro da caminhada as experiências positivas e negativas realizadas.

 A vida entendida como caminhada atrás de Jesus é sim cruz, sofrimento, mas é um sofrimento que surge de uma experiência de amor incomensurável, que é alimentado pelas mesmas provações sofridas ao longo do caminho: é por isso e, só por isso, que a cruz se torna leve. Pedimos a Deus nesta Eucaristia de permanecer sempre conosco e de manifestar o seu amor, sobretudo nas horas tristes e sofridas da nossa vida.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA