segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Domingo XVII°/A




(Is 55, 1-3; Sal 145; Rom 8, 35.37-39; Mt 14, 13-21)

Paolo Cugini


1. Somos mergulhados todos os dias a toda hora em problemas materiais, muitas vezes que exigem uma solução imediata. Percebemos o pressionamento da realidade, que nos encurrala, sentimos o bafo da história, do julgamento dos outros. A tentação é disfarçar, tapear, não enfrentar a realidade, fazer de conta que tudo não passa de um momento e então vivemos arrastando a barriga no chão, concentrando os nossos esforços nos problemas materiais imediatos, esquecendo de refletir sobre as motivações profundas dos nossos atos. E assim, um dia, de repente, acordamos sentindo um grande vazio dentro, uma angustia terrível, um sentimento de traição. Olhamos no espelho e percebemos um sentimento de estranheza, como se o cara na nossa frente fosse alguém de diferente. Deparamos assim, brutalmente, no eterno problema do relacionamento entre externo e interno, espírito e carne, vida espiritual e material. Na nossa vida corriqueira, também entre nossos amigos e parentes, é extremamente difícil encontrar pessoas que vivem a harmonia entre estas duas dimensões. Por isso, antes que seja tarde demais, é bom dar uma olhada um pouco mais atenta às leituras de hoje para aprendermos da Palavra de Deus como é que se vive, sem correr o risco de se esconder, por medo que alguém consiga ver a podridão que está cumulada dentro de nós.

2. “Vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite sem nenhuma paga. Porque gastar dinheiro com outra coisa que não é pão?” (Is 55, 1-2).
É verdade que devemos comer e beber, só que não podemos fazer da nossa vida um eterno banquete! O nosso perigo é conduzir uma vida só concentrada nas preocupações materiais. Existe um alimento no qual vale a pena investir o nosso tempo e as nossas energias, também porque não custa nada, mas exige apenas disponibilidade. Além disso, é um tipo de comida e de bebida que preenche de um jeito a existência, que orienta até a vida material. Quem é acostumado a medir o valor da vida com o dinheiro, terá grande dificuldade a entender isso. Existe todo um mundo desconhecido, que é a vida espiritual, o mundo do Espírito, que se alimenta com algo de espiritual. Precisamos ser introduzidos dentro este caminho, que é o caminho que a Palavra aponta. Além disso, a mesma Palavra não se abre, não se revela no sentido estrito do termo, para as pessoas materiais. Para que o pão da Palavra seja o nosso alimento que fortalece o nosso caminho neste mundo, precisamos de alguém que coloque na boca o pão mastigado, assim como uma mãe faz com os próprios filhos. Existe um tesouro de vida, de amor escondido no pão espiritual da Palavra de Deus, que se torna alimento para todos e todas as pessoas que são conduzidas dentro dela. Por isso a Igreja nos aconselha de ler os grandes Pais da Igreja, ou seja, aquela época de ouro da Igreja aonde as pregações eram encharcadas de Palavra de Deus, e não de opiniões pessoais. Buscar o alimento espiritual para libertar a nossa vida da escravidão da matéria é o sentido da vida espiritual.

3. “Dai-lhes vós mesmo de comer” (Mt 14, 16)
Acho que também este versículo precisa ser interpretado no sentido espiritual. Somos acostumados a fazer uma leitura material do texto que narra a multiplicações dos pães. Sem duvida foi uma ação histórica de Jesus, mas que deve ser colocada dentro o plano de salvação e do projeto do anuncio do Reino de Deus. Então o “dai-lhes vós mesmo de comer” é um mandamento de Jesus que deve ser realizado e que nos envolve em primeira pessoa. Somos nós batizados os novos discípulos aos quais Jesus se dirige pedindo de partilhar o pão da Palavra com as pessoas que encontramos no nosso caminho. Esta deve ser a nossa preocupação, pois se de verdade a palavra de Deus no Evangelho de Jesus salvou a nossa vida do anonimato, do esquecimento, da morte, então faremos de tudo para que as pessoas que encontramos possam receber o alimento que salva. Neste mandamento que Jesus um dia especial colocou para os discípulos, está escondido todo um programa de vida. De fato, como Jesus soube inventar caminhos e meios para anunciar o Reino do seu Pai para a humanidade que encontrou, assim também deve ser por nós.  Isso, porém, exige inteligência, atenção, reflexão, empatia, ou seja, capacidade constante de olhar para os outros. É um caminho progressivo, constante, no qual devemos ficar constantemente atentos não apenas com a realidade circunstante, mas também e, talvez sobretudo, com aquilo que o Senhor quer nos mostrar com isso. É interessante observar com que delicadeza Jesus instruiu os seus discípulos na difícil tarefa de continuar o seu trabalho. Jesus mostrou para os discípulos que partilhar a Palavra com as pessoas que o Pai coloca na nossa frente, comporta um constante olhar ao mesmo Pai (“Então ergueu os olhos para o céu”) e para o povo. Isso quer dizer que em qualquer ato de caridade que a Igreja realiza quem recebe deveria enxergar o rosto do Pai. Partilhar o Pão da palavra de Deus não é uma partilha de versículos, mas sim de vida, de amor, de história. Ergueu os olhos para o céu: em qualquer ação da nossa vida, seja ela qual for, devemos manter vivo e presente este olhar para o céu, para não perdermos o sentido da realidade, ou seja, que tudo vem de Deus e volta para Ele.

4. “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rom 8, 35)
É esta a certeza de quem vive alimentado de Cristo, do seu espírito. Este ano, como sabemos, pela Igreja católica é o ano Paulino. Paulo é sem duvida o discípulo em que a força de Deus se manifestou como coragem, vida, capacidade e vontade de partilhar com todos e todas a salvação de Deus recebida por Jesus por meio do Seu espírito. Meditando as suas cartas, e é isso que a liturgia nos oferece todos os domingos na proclamação da segunda leitura, podemos abastecer a nossa alma daquele alimento que preenche as nossas vida de esperança que nos impulsiona a olhar sempre para frente, sabendo que não existe nada que pode nos atrapalhar, pois Cristo com a sua paixão, morte e ressurreição derrotou o inimigo. É verdade que podemos passar momentos de confusão, aonde percebemos a nossa fraqueza, também porque o mundo não dá sossego para aqueles que esperam só no Senhor. Mas alimentados dele, da sua Palavra, do Seu corpo, vivendo com intensidade a nossa pertença a sua Igreja, sabemos que aquilo que Paulo falava é verdade. A final e conta se Cristo é conosco, dentro de nós, nos nossos olhos, na nossa alma, então quem nos separará do amor de Cristo?




sábado, 21 de setembro de 2019

Homilia de Domingo XXV/A





(Is 55, 6-9; Sal 145; Fil 1,20-24.27; Mt 1-16)
Paolo Cugini

1. Deus permanece sempre um mistério. Isso vale seja pelas pessoas que estão se aproximando a Deus nestes últimos tempos, seja pelas pessoas que desde sempre vivem em função da Palavra de Deus. Não podemos nos acostumar a Deus, pensar que já sabemos tudo dele, pois Deus permanece sempre na frente dos nossos pensamentos, das nossas previsões. A fé é um caminho corriqueiro de obediência á Palavra de Deus, no qual ficamos sempre atrás e nunca na frente, no sentido que sempre e em qualquer momento precisamos ser orientados. É com este espírito humilde e singelo que entramos no clima da liturgia de hoje para pedirmos a Deus que nos ilumine no caminho da vida.

2. “Buscai o Senhor em quanto pode ser achado; invocai-o enquanto ele está perto... Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos” (Is 55, 6.8).
São lindos estes versículos do profeta Isaias porque nos revelam que a vida de fé é uma busca continua. O homem, a mulher de fé é uma pessoa cuja característica é aquela de buscar sempre a Deus em qualquer momento da vida, em qualquer situação e circunstância. Isso exige uma constante atenção no objetivo, naquilo que se quer alcançar. Esta atenção desvende a força da pessoa de fé, a característica que o caracteriza, a diferença no confronto do mundo distraído que se deixa levar por qualquer corrente de doutrina seduzinte. Pelo contrario a pessoa animada pela fé em Deus busca continuamente em tudo aquilo que faz e pensa a vontade de Deus e, nesta busca expressa a própria confiança no Pai. É neste caminho de busca constante de Deus que experimentamos a grande diversidade dos nossos pensamentos com os pensamentos do Senhor. Neste sentido o caminho da fé deveria ser marcado para um processo de lenta, mas necessária mudança dos nossos pensamentos para aprendermos a pensar como pensa Deus.

 Talvez seja isso mesmo o sentido da vida espiritual: aprender a avaliar os eventos, a historia, os acontecimentos corriqueiros com o olhar de Deus. Este olhar não é o fruto do nosso esforço, mas sim o dom que o Espírito de Deus realiza em todas as pessoas que se tornam progressivamente dóceis á Palavra de Deus. Característica da vida espiritual, nesta perspectiva, não é um ativismo vazio na conquista humana de um objetivo, mas sim a lenta e dócil disponibilidade á ação do Espírito Santo. O exemplo daquilo que estamos falando é Maria a mãe de Jesus acostumada a escutar o Seu Filho, a silenciar e meditar tudo no seu coração. Se quisermos de verdade ver e pensar a realidade como Deusa pensa, precisamos muito desta docilidade, desta atitude paciente e constante de buscar ao poço daquela água autentica que somente Deus pode nos oferecer.

3. “Ou está com inveja porque estou sendo bom. Assim os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Mt 20, 15b-16).
A prova daquilo que acabamos de comentar é a parábola de Jesus do Evangelho deste domingo. O dono da parábola é questionado sobre a sua bondade, sobre o fato que ele decide de pagar para todos os obreiros da vinha o mesmo preço, seja aquele que chegaram por primeiro que os últimos. É um verdadeiro choque entre a mentalidade dos homens e mentalidade de Deus. De um lado a mentalidade do mundo que olha o proveito, a força, o mérito; do outro a mentalidade de Deus que olha o coração, a disponibilidade, a obediência. São critérios diferentes que se chocam continuamente. Na realidade nascemos imbuídos desta mentalidade materialista que o mundo coloca na nossa cabeça e dificilmente conseguimos nos livrar. Crescemos com o desejo de sermos os melhores em qualquer momento e situação e aprendemos a julgar o nosso próximo com estes critérios materialistas. Por isso quem se acha primeiro neste mundo e faz de tudo para deixar por trás os outros, torna-se o ultimo no reino de Deus. É a lei de Deus que não olha o externo das coisas, mas sim o interno; não olha o resultado de um ponto de vista humano, que é sempre um ponto de vista egoísta, mas o olhar de Deus penetra na profundeza do ser, naquele espaço que somos acostumados a esconder aos outros. Só que a Deus nada fica escondido, pois por Ele tudo é descoberto.

4. “O patrão saiu de novo a meio dia e ás três horas da tarde e fez a mesma coisa. Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde encontrou outros que estavam na praça...” (Mt 20, 5-6).
A parábola de hoje expressa também o cuidado de Deus para conosco, pois a toda hora da nossa vida Ele sai para nos encontrar. Seria interessante ao longo desta semana parar um pouco para vasculharmos na nossa vida e descobrirmos os momentos que Deus passou na nossa vida para nos convidar a segui-lo, a trabalhar na sua vinha. Esta atitude de Deus deve ser também a atitude da Igreja, que não fica somente esperando os fieis entre as paredes da Igreja, mas sai em busca das pessoas para encontrá-las onde elas estiveram e ali dirigir a proposta do Senhor. Uma Igreja mais exposta, mais aberta ao mundo, mais atenta com as pessoas fora do templo é aquilo que o mundo pós-modero precisa. A parábola de hoje questiona os nossos conselhos pastorais, questiona os métodos pastorais que atuamos, questiona os conteúdos das nossas conversas religiosas: será que estamos tendo a mesma preocupação de Deus para com as pessoas de fora, ou somos como sempre preocupados com a nossa misérrima panelinha? Um Deus que arrisca o seu único Filho pela nossa salvação exige uma Igreja mais exposta, mais ousada, menos fechada na retranca.

5. “Cristo vai ser glorificado no meu corpo” (Fil 1,20).
Acabamos de falar de ousadia e ali vem Paulo com o seu jeito missionário, sempre atento para quer ninguém perca a oportunidade de ouvir  anuncio do Evangelho. E também neste contexto, como ouvimos no domingo passado, o anuncio do Evangelho para são Paulo não é um problema de papo bonito, mas sim de vivencia, de testemunho. É no seu corpo que Paulo quer glorificar a gloria de Cristo. Isso quer dizer que o anuncio do Evangelho passa pelos marcos dos pregos da cruz de Cristo impressos na nossa carne. Podemos dizer que tudo isso se realiza, sobretudo num sentido espiritual, mas de vez em quanto Cristo quer imprimir na carne viva dos seus discípulos os marcos vivos da sua cruz. A historia da Igreja é amiúde uma historia de sangue, o sangue dos mártires, o sangue dos testemunhos de Cristo.


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 24





Estudo Bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-12. O Evangelho de Lucas acompanha com grande maravilha a presença das mulheres em todas as etapas da vida de Jesus. E assim, também aos pés da cruz e ao tumulo são as mulheres as grandes protagonistas. Um protagonismo discreto, silencioso, mas muito profundo e significativo que vale sempre a pena levar em conta.

13-35. A viagem destes dois discípulos é i símbolo da viagem de todos nós que buscamos compreender o mistério de Deus manifestado na vida de Jesus. Os dois discípulos são tristes porque Jesus morreu. O dialogo dos dois discípulos com Jesus ao logo do caminho manifesta o sentido do itinerário de fé. “Começando de Moisés e de todos os profetas explicou para eles em todas as escrituras tudo aquilo que se referia a eles” (Lc 24, 27). É exatamente isso que a Igreja deve fazer e é este o sentido de uma comunidade, de uma paróquia: explicar através da escritura o sentido da presença de Jesus na historia.

“Então se abriram os olhos e o reconheceram”. Somente que tiver uma profunda aproximação com o Senhor pode reconhecê-lo nos gestos típicos, na sua maneira de ser. Se os dois discípulos o reconheceram ao partir do pão é porque estavam presentes na ceia derradeira e isso quer dizer que eram próximos a Ele. A Escritura se abre ao sentido autentico quando dedicamos tempo a Jesus, quando nos decidimos para Ele, quando seguimos os seus passos. A Eucaristia abre a nossa mente ao sentido profundo de Deus somente se somos pessoas de fé, que estão aderindo ao Evangelho. Não basta então, participar de uma missa para entender o mistério de Cristo: é preciso segui-lo.

“E eles narravam aquilo que tinha acontecido no caminho”. A verdade do nosso seguimento a Jesus, a verdade da nossa fé se mede na disponibilidade e no entusiasmo do anuncio, no desejo de partilhar aquilo que descobrimos caminhando com o Senhor. É isso que acontece aos dois discípulos que, depois de ter reconhecido Jesus, voltaram as pressas para anunciar aos amigos discípulos aquilo que aconteceu com eles. Quantas pessoas tem nas comunidade que ainda não conheceram o Senhor e aguardam alguém que o anuncie!

36-53. “Então abri a mente dele para compreender as Escrituras”. É Cristo que abre o sentido profundo das Escrituras. É impossível entender o Antigo Testamento se não tiver o conhecimento do Evangelho, da proposta de Jesus.

Jesus no final do Evangelho não envia qualquer pessoa para anunciar a Sua Palavra, mas somente discípulos e discípulas, ou seja, somente pessoas que se decidiram para Ele.



EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 23






Estudo Bíblico para CEBs

Paolo Cugini


1-12. Chegou a hora de Jesus e por isso muitas acusações são trazidas no processo. Jesus é acusado de incitar o povo a não pagar os impostos e de articular o povo contra o império. Na realidade todas as acusações contra Jesus não são nada mais que justificativas para prender Jesus, que nada fez que anunciar a Palavra de Deus. Jesus durante a sua atividade publica era bem consciente que teria chegado o dia em que, todos aqueles que não gostavam dele ter-se-iam articulado para prendê-lo. Este dia chegou.

13-25. É o contraste entre Pilatos, que representava o poder politico de Roma, e os judeus. Pilatos, que não conhecia Jesus e também era leigo nas coisas da religião hebraica não encontrou motivos para prender Jesus e, por isso, queria soltá-lo. Do outro lado os chefes da religião hebraica queriam que Pilatos prendesse e mandasse matar Jesus. Mais uma vez neste relato fica claro que Jesus era inocente e a causa da sua morte foi as consequência das suas palavras e dos seus gestos.

26-32. A falta de piedade do povo que condenou Jesus é impressionante. Jesus alerta as mulheres que estavam perto de tudo aquilo que estava acontecendo. A malvadez do homem chega ao ponto de não olhar nem na cara de Deus.

33-34. As palavras que Jesus pronunciou sobre a cruz são a demonstração da sua divindade. Jesus não era apenas um grande homem, mas também Deus mesmo. Isso se percebe pelas palavras de perdão que Ele pronunciou para os próprios algozes. Quando uma pessoa está perto de morrer, sobretudo se está sofrendo por sangramentos, come era o caso de Jesus, não tem como pensar aos outros. Jesus, pelo contrário, pede ao Pai de perdoar aqueles que o estavam matando: só Deus mesmo!

35-46. Jesus não apenas foi morto, mas também humilhado. Ele foi insultado, espancado, despido e crucificado. Os seus inimigos se vingaram mesmo: quiseram tirar uma satisfação por tudo aquilo que Jesus tinha dito sobre eles. Jesus vive toda esta humilhação como o cumprimento da sua missão. Jesus sabia muito bem que se tivesse mexido na ferida dos fariseus e dos corruptos daquele tempo teria sem duvida nenhuma enfrentado a morte. Mesmo assim, confiando somente no amor do Pai, Jesus não recuou e continuou a pregar o Evangelho, a indicar o caminho da Justiça e da Verdade. A morte de Jesus demonstra que todos e todas aqueles que seguem o caminho do Senhor, são perseguidos e condenados pelo mundo, mas acolhidos nos braços do Pai. Cabe a nós escolher o que queremos ser e quem queremos seguir.

47-56. A morte humilhante do Justo perseguido provoca a consciência das pessoas: “Verdadeiramente este homem era justo”. Tem todo um mundo que se converte somente vendo o sofrimento do Justo.

Interessante observar o papel das mulheres neste quadro do sofrimento e da morte humilhante de Jesus. Enquanto os discípulos homens se mandaram todos por medo, as mulheres, pelo contrario, ficaram até o fim e foram elas que o acompanharam em todos os momentos da sua paixão e morte. Não será, portanto, um caso, se Jesus entregará para elas o grande anuncio da sua Ressurreição.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 22





Estudo Bíblico para CEBs

Paolo Cugini

1-13. A traição é sempre um movimento do satanás e o dinheiro e o seu instrumento.

14-23. Jesus realiza um jantar antes de morrer. Não é, porém, um jantar qualquer. Jesus escolheu o jantar da Páscoa hebraica, carregando de sentidos os gestos que realizou naquela noite. Dizendo: “Este é o meu corpo que é dado por vocês e este é o meu sangue derramado por vocês” Jesus está expressando o sentido da sua mesma vida, que deveria ser também o sentido da vida de cada discípulo: uma vida doada para os outros. Para podermos viver de amor e amando de verdade os outros, precisamos nos alimentarmos continuamente de Cristo.
24-27. A discussão dos discípulo sobre quem seria o maior deles revela que, apesar de tudo, ainda não tinham entendido a mensagem do mestre. A resposta de Jesus explica que quem se decide a seguir Jesus entra num estilo de vida diferente, aonde as coisas do mundo, as suas seduções não dizem mais nada. Quem busca Jesus não se importa mais com a gloria e o poder do mundo, mas sim com a gloria de Deus, que se manifesta numa vida de serviço humilde. “Eu estou no meio de vós como aquele que serve”.

28-38. No dialogo de Jesus com os discípulos se percebe toda a preocupação de Jesus com eles. Jesus na oração reza para fortalecer a fé dos discípulos. No conteúdo desta oração se percebe o quanto Jesus conhecia os seus discípulos (v.34). Ao mesmo tempo se percebe o quanto Jesus conhecia a si mesmo, o sentido do seu caminho na história. Jesus foi uma pessoa que viveu intensamente, que respeitava a si mesmo e as pessoas que encontrava.
39-53. São sempre muito lindos os versículos que mostram a oração de Jesus. Antes de morrer Jesus passa um tempo nas hortas das oliveiras para se entregar na oração. A oração para Jesus é dialogo com o Pai. Neste dialogo Jesus coloca as suas preocupações e manifesta a própria disponibilidade para que a vontade do Pai seja realizada. Na oração Jesus é lucido: este é um dato importante. Perante o sofrimento Jesus nos ensina a não fugir, a não buscar soluções de fuga, pois tudo na vida deve ser enfrentado com lucidez. A oração permite a nós mesmos de ficarmos lúcidos até o fim, até os últimos instantes da nossa vida, para não desviarmos do caminho da vida.

“Judas com um beijo você trai o Filho do homem?”. É sempre assim e ainda hoje é assim. Muitas vezes traímos as pessoas mais próximas de nós utilizando os gestos típicos da afetividade humana para disfarçar, para esconder a verdade. Na oração aprendemos a discernir os falsos sentimentos dos verdadeiros. O contato constante com a Verdade nos permite de detectar as mentiras. Jesus percebeu imediatamente que aquele beijo não era um beijo comum, mas tinha o sabor da traição.

54-71. A traição de Pedro nos ensina que medimos a nossa fé não quando estamos bem, com saúde e dinheiro no bolso, mas quando passamos por provações, quando o mundo nos pressiona e percebemos que na caminhada somos sozinhos., Pedro não aguentou porque ainda não tinha encontrado Jesus ressuscitado. Nós podemos aguentar porque recebemos o Espirito do Senhor ressuscitado.

Jesus foi condenado a morte por causa da própria identidade: ele era Filho de Deus, Jesus era Deus.

sábado, 13 de abril de 2019

HOMILIAS DO TRIDUO PASCAL







QUINTA FEIRA SANTA/C
(Ex 12, 1-8.11-14; Sal 115; 1 Cor 11,23-26; Jo 13,1-15)

Paolo Cugini

1. Com a celebração da quinta feira Santa a Igreja entra no tríduo litúrgico chamado tríduo pascal. Nestes três dias somos chamados a refletir sobre o âmago da nossa fé, ou seja, sobre o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Reflexão importante porque também nós, através dos sacramentos da Igreja, fazemos parte deste grande mistério de salvação. Acompanhando a liturgia do tríduo pascal, a Igreja nos permite de regressar na origem da nossa caminhada, para podermos avaliar se a nossa maneira de viver os ritos da fé é conforme ao original, ou seja, á idéia que originou estes ritos. De fato, hoje a Igreja lembra a instituição da Eucaristia e do sacerdócio. Amanhã lembraremos a morte de Jesus, ou seja, a memória do seu amor infinito que recebemos sacramentalmente através do Espírito Santo. Sábado à noite, na vigília pascal celebraremos o mistério da Ressurreição de Jesus, considerada a noite mais importante, a mãe de todas as vigílias (santo Agostinho). Sabemos que era exatamente nesta noite que, na Igreja primitiva, eram conferidos os sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Crisma e Eucaristia.

2. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).
Porque Jesus instituiu a Eucaristia? A resposta a encontramos neste versículo do Evangelho de João. Jesus proclamou o Reino de Deus, que é um reino de amor e de paz, vivendo ante de mais nada este amor com os seus discípulos. Nesta maneira, a vivencia antecipava e, de uma certa foram, anunciava a mesma Palavra. O conteúdo central do Evangelho é o amor, ou seja, a possibilidade de viver relacionamentos não ditados dos sentimentos negativos do ódio, inveja, ciúme que estragam as relações entre homens e mulheres, mas relacionamentos novos ditados pela abertura e confiança no outro, pela estima recíproca. Jesus veio anunciar a possibilidade real de uma humanidade nova e foi por isso que morreu. Humanidade nova quer dizer que, o centro da vida não sou mais eu, com os meus interesses particulares, a satisfação do meu egoísmo, mas os irmãos e as irmãs que o Senhor coloca no meu caminho, perto de mim. Isso é já um grande ensinamento que deveria nos levar a rever a nossa maneira de nos aproximarmos aos sacramentos. De fato, a Eucaristia não é tanto o Cristo que entra no meu coração, mas o Cristo que me coloca dentro a vida da Igreja, do Seu corpo místico, a nova humanidade. E é exatamente dentro esta nova humanidade que sou chamado a viver a verdade dos sacramentos que recebi. A vida sacramental é vida nova, é o caminho apontado por Deus em Cristo de sair do egoísmo, da vida autocentrada, narcisista fruto do pecado, para a vida verdadeira que é abertura, relação pacifica com os irmãos e as irmãs. Isso quer dizer que, toda vez que encrencamos, brigamos, não damos o braço a torcer, não queremos perdoar estamos negando o nosso batismo, negando a Eucaristia, pois esta é um convite á comunhão. O primeiro profetismo que a Igreja é chamada a viver é a comunhão entre os irmãos e as irmãs, que comungam o mesmo Corpo de Cristo. É desta forma, de fato, que a Igreja anuncia a verdade daquilo que celebra sacramentalmente.  A vida de Jesus foi uma linda e grande história de amor que não desistiu nem perante a morte. Aliás, a morte de Jesus, foi o coroamento desta vida de amor, de doação total, de entrega: esta é vida, a vida verdadeira, que todos nós somos chamados realizar. Perante este imenso amor de Deus para conosco, desmoronam todas as nossas briguinhas corriqueiras, as nossas incompreensões, o nosso orgulho desmedido que nos leva continuamente a nos colocarmos num pedestal para pudermos ver e sentir os outros de cima pra baixo. Pelo Contrario Jesus, com o seu gesto humilde de lavar os pés dos discípulos, mostrou o caminho que devemos percorrer. Caminho difícil, mas necessário. Ninguém deve cultivar em si estes sentimentos de superioridade, pois, em Cristo, nos tornamos irmão e irmãs e, então, perante Deus somos iguais. O verdadeiro cristão, que deixa agir o Espírito Santo dentro de si, não procura na vida demonstrar de ser o melhor, o tal, mas, pelo contrario, procura percorrer o mesmo caminho que Jesus percorreu, que é caminho da humildade, do abaixamento, do serviço.

3. “Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos... começou a lavar os pés dos discípulos” (Jo 13, 3.5).
É um versículo impressionante e, ao mesmo tempo, revelador. No momento em que Jesus tem consciência que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos, o que Ele faz com este poder? Pega uma toalha, uma bacia de água e começa lavar os pés dos seus discípulos. É esta a grande diferença entre Deus e o mundo. É este o estilo novo que a Eucaristia quer realizar entre nós. Todo o poder de Deus, Cristo o escondeu num gesto de humildade. Isso quer dizer que toda vez que servimos os nossos irmãos, irmãs com amor e dedicação, sem querer nos mostrar o sermos os melhores, ali nos experimentamos a gloria de Deus, o seu poder. Gloria e poder que não se encontram, então nos milagres, mas nos atos humildes da vida corriqueira. A santidade de Cristo, a sua divindade a encontramos neste ato humilde, no seu rebaixamento, nos seus gestos de amor, no seu se colocar aos pés da humanidade pecadora, sem nenhuma revanche.  É por isso que precisamos da Eucaristia, que não é apenas um rito, um preceito, mas um estilo de vida, aquele estilo que Deus em Cristo apontou por toda a humanidade. Precisamos da Eucaristia para nos tornarmos mais humanos, mais autênticos. Precisamos da Eucaristia para entendermos que o poder de Deus não está no dinheiro e no poder do mundo, mas na atenção aos irmãos e as irmãs que ele coloca ao nosso lado. Você pai de família, você mãe precisa da Eucaristia para encontrar Deus na dedicação total ao teu parceiro, aos teus filhos. Você filho, você filha precisa da Eucaristia para descobrir que toda a atenção e o respeito para os teus pais será aquilo que irá enriquecer a tua vida.

4. No Domingo somos convidados a celebrar da Eucaristia. Cabe a nós fazer deste ato litúrgico, não um puro e simples rito estéril, que não diz nada á nossa vida, mas um autentico instrumento de transformação da humanidade.  Que esta quinta feira santa posa revigorar a nossa consciência, para conseguirmos a realizar na vida aquilo que no rito celebramos.



 Sexta feira Santa C
Is 52,13-53,12; Sal 31; Hb 4, 14-16.5, 7-9; Jo 18, 1-19,42)

1. A liturgia da sexta feira santa introduz a Igreja no silencio da morte de Cristo. Não precisa, então, esbanjar palavras para comentar as leituras: é um evento que se explica por si mesmo. Tentaremos, assim, buscar nas leituras que ouvimos a resposta do problema que parece ainda hoje bastante enigmático, ou seja, a morte do justo. A final de conta, porque um homem justo come Jesus morreu? O que Ele fez de mal para merecer uma morte tão horrorosa e humilhante?

2. A primeira resposta a encontramos no texto de Isaias. “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos”. Isto quer dizer que a morte de Jesus não foi ao ocaso, mas perfeitamente dentro o plano do Pai. Que plano é este que prevê a morte violenta do Filho? Um plano que Jesus, não engoliu de forma fria, sem vontade quase que estivesse forçado. Pelo contrario, o texto do evangelho de João, que acabamos de ouvir disse que Jesus era “consciente de tudo aquilo que ia acontecer”. Pra fazer a vontade do Pai na nossa vida precisamos ser conscientes e isso pode acontecer somente quando existe um relacionamento de amor. Jesus realiza o projeto do Pai porque Ele é o Filho querido e pra Ele Deus é o Pai. Somente dentro este relacionamento filial é possível viver e fazer a vontade de Deus seja ela o que for.

3. “Ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria”. (Is 53, 4).
É isso que o povo e também nós, pare que não entendemos. Cristo morreu por causa nossa, carregou as conseqüências dos nossos pecados. Foi uma morte vigária. Jesus se sacrificou voluntariamente por nós. Sacrificou a sua divindade, os seus projetos para nós. Por isso ficou sozinho na hora da morte porque tudo mundo pensava que Jesus teria salvado o mundo de uma forma diferente, talvez com exércitos, com a força, manifestando o seu poder. Cristo manifestou o seu poder na fraqueza, deixando se matar, atraindo na sua carne a raiva do mundo, se deixando massacrar do egoísmo dos homens. Perante um gesto tão grande é bom mesmo silenciar.

4. “Aprendeu o que significa obediência a Deus, por aquilo que Ele sofreu” (Hb 5, 8).
Se quisermos aprender a viver a nossa vida não como pessoas mimadas e caprichosas, que obedecem somente aos próprios instintos e caprichos, mas como pessoas adultas que seguem projetos elevados como é o projeto do Pai, a escola certa é o sofrimento. É isso que Jesus nos ensina na sua paixão. Enquanto o mundo faz de tudo pra fugir das situações de sofrimento, Jesus nos ensina que, toda vez que estamos sofrendo por causa do nosso batismo, é exatamente naquele momento que Deus nos oferece a grande oportunidade de amadurecer a nossa filiação ao Pai.  Tomamos, então, a ocasião desta paixão de Jesus para crescermos como filhos de Deus, aprendendo a encarar as perseguições da vida, as incompreensões, na certeza que aprenderemos á amar sempre mais a Deus como um Pai.



VIGILIA PASCAL

1. A liturgia da vigília pascal aconselha uma homilia breve. De fato, a liturgia é já bastante rica por sua conta que não precisa aumentar nada. Santo Agostinho considerava a Vigília pascal como a mãe de todas as vigílias que sintetiza a caminhada que cada cristão, junto com a Igreja, deve realizar. Começa fora da Igreja no escuro para simbolizar a situação de pecado em que a humanidade vive. O rito do fogo com o círio pascal aceso é sinal da luz de Cristo que veio para libertar a humanidade do pecado. Cristo é a nossa luz e o Espírito Santo que recebemos no Batismo de transformar a nossa vida em luz, para sermos também nós luz para o mundo. Entrando na Igreja atrás do círio pascal com as luzes que se acendem significa que a Igreja é chamada a espalhar no mundo a luz de Cristo. Devemos ser aquilo que o sacramento realizou em nós.

2. As leituras que ouvimos nesta noite lembram a grande caminhada que Deus realizou com o seu povo. É uma historia incrível de amor que passou através tantos momentos de desavenças, de traição, mas sempre deus cobriu com a sua imensa misericórdia. Nas horas mais tristes da sua historia, o povo de Israel faz a experiência da aproximação de Deus que, como um Pai, cuida dos seus filhos, sobretudo nas horas mais difíceis. A milenaria historia da salvação ensina também um outro detalhe importante. Deus cuida dos seus filhos e, em modo especial, dos mais fracos, pequenos e pobres. Por isso falamos do coração de mãe de Deus. Ele, de fato, age como uma mãe que tem um carinho tudo especial para com os seus filhos. Esta historia bonita chegou a seu pleno comprimento com Cristo, o Filho de Deus, que caminhou conosco anunciando o Reino de Deus e derramando o seu sangue para a salvação do mundo.

3. O rito do Batismo dos catecúmenos, realizado nesta vigília, conforme uma tradição antiguíssima da Igreja que remonta aos primeiros séculos do cristianismo, deve lembrar o nosso batismo na moldura de toda al liturgia que estamos celebrando. Através do batismo somos chamados a continuar a obra de Cristo, ou seja, espalhar o seu amor no mundo. Conforme aquilo que meditamos nestes dias, esta obra passa através de muitos sofrimentos, incompreensões, perseguições, mas no final que foi fiel e perseverante vencerá. O Batismo é fruto também da Ressurreição de Cristo: é sinal de vida nova, vida que deve ser transmitida em cada momento da nossa vida. Por isso nos interessamos com os problemas do povo. Por isso a Igreja entra na luta das conquistas dos direitos do povo, sobretudo dos mais pobres e injustiçados.

4. Pedimos a Deus que esta noite tão maravilhosa, possa produzir para nós a força para continuarmos o testemunho do ressuscitado, sabendo que este testemunho passa também através da cruz.



V° domingo de Quaresma. C




(Is 43, 16-21; Sal 126; Fil 3, 8-14; Jo 8, 1-11)


Paolo Cugini

1. Estamos chegando ao fim da caminhada de quaresma e a liturgia nos oferece a oportunidade de concretizar o sentido daquilo que meditamos ao longo destas semanas. Como já lembramos nestes domingos, o tempo de quaresma é um tempo propicio para aprimorarmos a nossa fé e, assim, tomarmos mais consciência da nossa responsabilidade com o Batismo que recebemos. A final de conta nos tornamos filhos e filhas de Deus, criaturas novas e, tudo isso, deveria ser bem evidente e manifesto nos nossos atos cotidianos, nas decisões que tomamos, nos projetos que queremos realizar. Não é um caso que, na Igreja primitiva, o tempo de quaresma era utilizado pela preparação final dos catecúmenos, ou seja, daquelas pessoas que, na noite de Páscoa, iriam receber o sacramento do Batismo.
 Estamos nos aproximando da grande celebração da Páscoa e a pergunta que deveria nos acompanhar ao longo desta semana é a seguinte: quer dizer que em Cristo nos tornamos criaturas novas? Como é que age no mundo uma pessoa que acolhe o Espírito de Jesus?

2. O Evangelho que acabamos de ouvir nos oferece bastante material para encontrarmos as respostas que procuramos. A cena que ouvimos é uma das mais emocionantes de todo o Evangelho: Jesus, uma mulher adultera e o povo. De um lado o povo enfurecido, que quer apedrejar uma mulher surpreendida em adultério. Do outro lado Jesus que fica em silencio. É sem duvida esta postura de Jesus que chama atenção. Porque este silencio? Talvez porque, perante a arrogância do homem, não sobra que o silencio. Jesus nos convida a silenciar os nossos julgamentos, os nossos pensamentos, as nossas condenações perante um pecador, uma pecadora, porque ela também é filho e filha de Deus. Silencio orante, porque perante o pecador não resta para Igreja outra coisa que esta: rezar.
  “Moises na Lei mandou apedrejar tais mulheres”. É triste constatar como a Palavra de Deus às vezes é puxada para justificar os nossos atos horríveis, a nossa estupidez. Por isso Jesus cala. O que precisa dizer perante uma humanidade que não tem nenhuma vergonha de citar a Palavra de Deus pra cometer um crime? Precisa comentar alguma coisa?

3. “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.
 Jesus não veio para julgar e condenar ninguém. O tempo do julgamento e da condenação será somente no fim dos tempos (Jo 5, 21ss, Mt 25). Isso quer dizer que, até quando não chegará este dia, qualquer momento é importante pela nossa converso. Por isso Deus mandou o seu Filho Jesus no meio de nós, para falar conosco e despertar em nós a imagem de Deus perdida por causa do pecado. Escutando a Sua Palavra, todos deveriam sentir o desejo de abandonar os caminhos negativos e procurar a vida verdadeira, que somente Jesus pode nos oferecer. Para isso acontecer, precisamos entrar em nós mesmos, tomar consciência da nossa vida, da nossa situação. É isso que Jesus tenta fazer com aquela pergunta impressionante: “Quem não tiver pecado...”. E quem é que não tem? Quem é aquele homem e aquela mulher que não tem consciência das próprias faltas? Tudo mundo tem, só que para isso se tornar evidente, o homem deve ter a possibilidade de entrar em si mesmo, para se escutar. A pergunta que Jesus coloca, não julga ninguém, mas oferece a todos a possibilidade de entrar em si mesmo, captar a própria situação, que é uma situação de pecado, de miséria e, ninguém, nesta situação, tem o direito de julgar ninguém.
O Evangelho relata que, depois de Jesus ter colocado aquela pergunta, não ficou ninguém. A pergunta de Jesus surtiu o efeito esperado: ninguém atirou pedras na mulher. Deveria ser esta a postura da Igreja no mundo. Não uma Igreja que julga e condena, que atira pedras, mas uma Igreja que oferece a todos a possibilidades de entrar em si mesmos, para que cada um possa se encontrar a só com Deus e experimentar a sua grande misericórdia. É, de fato, no encontro pessoal com Deus, que a humanidade descobre o caminho de volta para o Pai.

4. “Eu também não te condeno. Podes ir, de agora em diante não peques mais”.
A mulher pecadora encontrou em Jesus uma possibilidade de vida. De certa forma, escapando da condenação à morte do povo, voltou a viver, ressuscitou. Os homens enxergavam na mulher a aparência de pecado e de morte, Jesus enxergou nela uma possibilidade de vida nova. Por isso Jesus não entrou em contato com a mulher com uma condenação, mas sim com palavras de misericórdia. Só a misericórdia permite ás pessoas de abrir o coração, de se disponibilizarem para caminhar atrás do Senhor. O Espírito Santo que recebemos no batismo, deveria formar em nós este olhar diferente, que não esbarra nas aparências superficiais, mas que consegue entrar na profundeza do coração humano, pra vislumbrar nele uma nova possibilidade de vida. É o pecado que fecha os nossos olhos. Quando ficamos escandalizados do pecado dos outros, é porque estamos vendo claramente aquilo que pode produzir o pecado que está em nós. Perante o pecador, Jesus exige silencio e oração. Silencio pra ficarmos constantemente alertados sobre o desastre que o nosso pecado pode provocar. Silencio como necessidade de um continuo estado de conversão. Na perspectiva do Evangelho, o pecado de um nosso irmão, de uma nossa irmã, deveria ser considerado como uma alerta para a nossa caminhada de fé. Perante o pecador, a única coisa que podemos fazer é a oração e oferecer espaços para o pecador se encontrar com Deus.

 5.  Se quisermos que se forme em nós o mesmo olhar puro de Jesus, precisamos modificar o nosso relacionamento com o nosso passado, os nossos sonhos, os nossos projetos. É disso que são Paulo, na segunda leitura de hoje, nos alerta. “Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele” (Fil 3, 8).
 Se o pecado dos outros, sobretudo das pessoas mais próximas, nos irrita é porque amiúde atrapalha os nossos projetos. Para termos o olhar puro de Jesus, precisamos ser desprendidos de tudo, sobretudo de nós mesmos. È fácil ser desprendidos das coisas matérias: difícil é nos despojarmos do nosso homem velho, do nosso passado, daquilo que achamos importante na nossa vida. Ser cristão é reconhecer que a única coisa que vale a pena levar conosco na viagem da vida é Cristo: o resto é lixo!
É algo de novo que Deus que realizar conosco através de seu Filho Jesus: é isso que devemos enxergar! “Eu que eu farei coisas novas e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (Is 43, 19).
Este tempo de quaresma deveria nos ajudar a chegar á Páscoa com o coração totalmente desprendido de tudo, pra deixar a luz da ressurreição de Cristo entrar e nos conduzir aonde Deus quiser.




IV° domingo de Quaresma/C






(Josué 5,9-12; Sal 34; 2 Cor 5, 17-21; Lc 15, 1-3.11-32)


Paolo Cugini

1. “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2 Cor 5, 20): é este o grande grito que sai da liturgia deste IV° domingo de quaresma. É um grito importante, porque nos alerta do sentido profundo da nossa caminhada de fé e de tudo aquilo que estamos celebrando na liturgia. Afinal de conta Deus mandou seu Filho Jesus num mundo dividido das discórdias, das guerras, um mundo mergulhado no ódio e na violência. É esta mundo que Deus decidiu de salvar, antes de tudo transformando a mesma natureza do homem. Tudo isso é bem visível em Jesus, o protagonista principal desta grande obra de reconciliação da humanidade. Se é, então verdade que “em Cristo Deus nos reconciliou consigo, na imputando aos homens as suas faltas” (2 Cor 5,19), isso quer dizer que a Igreja, no seu jeito de ser e de viver, é chamada a ser nu mundo o sinal desta reconciliação que Cristo realizou na cruz. O tempo de quaresma que estamos vivendo quer, assim, nos alertar que esmola, oração e jejum junto com a vida espiritual visam aprimorar o nosso relacionamento para com os irmãos e as irmãs que Deus coloca no nosso caminho. Nada,então, de individualismo religioso, mas sim uma constante atenção e abertura para com todos e todas, sobretudo nos momentos de tensões, aonde os sentimentos negativos de raiva e ira são mais solicitados. È uma humanidade nova, renovada por dentro que em Cristo, Deus quis realizar. Humanidade nova que exige a nossa disponibilidade e livre adesão. É por isso que a liturgia da Palavra proclama no dia de hoje uma das mias lindas paginas do Evangelho, pagina que merece toda a nossa atenção e reflexão.

2. “Um homem tinha dois filhos” (Lc15,11).
A nossa historia humana começa assim, no relacionamento familiar. Por isso Jesus utiliza esta imagem para revelar, de um lado a impressionante misericórdia de Deus e, do outro, o impressionante egoísmo humano.  O que estes dois filhos revelam de nós?
 O filho mais jovem, aquele que saiu de casa aponta para a nossa ousadia. Tem momento, na nossa vida, que o nosso coração fica tão fechado e nossa cabeça tão duraque não quer escutar nada e ninguém, mas só o próprio orgulho. E ali somos nós com a nossa mochila nas costas, os nossos projetos, querendo saber mais de que Deus, enfrentando o mundo equipados somente do nosso egoísmo. O evangelho nos diz que deste jeito não dá: o fracasso é assegurado. Precisamos comer a comida dos porcos para que caia a ficha: esses somos nós!

Existe toda uma humanidade que pra se dar conta dos próprios erros deve ir até o fundo do poço: não tem conselho que possa pará-la. Neste caminho a experiência de Deus passa através da descoberta que o Pai não se incomoda com o tamanho dos nossos erros, com o numero das nossas faltas. Descobrimos que aquilo que Deus quer é a nossa vida, o nosso bem; descobrimos que só nEle e com Ele conseguimos a felicidade e a paz: não precisamos fugir de Deus. Então porque fugimos? Talvez porque achamos que os nossos projetos são mais bonitos daqueles que Deus nos oferece. Achamos que o nosso projeto de vida, a nossa mesma idéia de vida, seja mais completa, mais atualizada, mais humana. Precisamos deparar com a nossa desumanidade, a nossa arrogante presunção, para cairmos em nós mesmo e descobrirmos que os nossos pensamentos, os nossos projetos sem Deus não valem absolutamente nada. Também porque a historia que acabamos de ouvir nos mostra claramente, que nos projetos que queremos alcançar não tem espaço pra ninguém, mas somente pra nós, para a completa satisfação dos nossos prazeres egoístas. O Evangelho nos mostra claramente o fracasso total dum projeto de vida como este.

3. A historia do outro filho nos alerta, porém, que não basta ficar em casa, perto de Deus pra viver em paz. Atualizando: não basta ser uma pessoa de Igreja, que todo o domingo vai à missa, que é engajado nos trabalhos da Igreja e tudo mais. Depende daquilo que tenho no coração. A atitude do filho mais velho, desvende uma situação bastante corriqueira, ou seja, Ele estava perto do Pai com um seu projeto bem claro, bem definido; não era o seu um serviço desinteressado, mas fortemente interessado. Isso quer dizer que, apesar da sua aproximação com o pai, não o conhecia, pois estranhou da sua atitude, de realizar um banquete paro o irmão que tinha gastado tudo com as prostitutas. Este episodio da parábola nos alerta sobre a nossa vivencia na Igreja e nos questiona: porque estamos indo á missa? Porque estamos freqüentando a Igreja? Qual é o nosso verdadeiro objetivo? Ainda mais: qual é, então, o sentido profundo da vida cristã?

4. A resposta a esta pergunta encontra-se na postura do Pai. Com o primeiro filho não quer saber de nada, de desculpas ou de outras palavras, mas somente o acolhe entre abraços e beijos. Com o secundo filho manifesta toda a sua grandeza dizendo que tudo aquilo que tem é dos seus filhos. Com um Pai deste jeito não dá pra segurar as lagrimas: dá mesmo vontade de chorar e de se jogar aos seus pés. É um Pai que nos ama e nos acolhe do jeito que somos: é o seu amor, a sua bondade, a sua imensa misericórdia que nos transforma. E tem mais um dato extremamente importante pra ser colocado: tudo isso é de graça. Ou seja, não são os nossos atos, as nossas boas ações que produzem a misericórdia do Pai: é exatamente o contrario! Se a um certo momento da nossa existência conseguimos perdoar os irmãos e as irmãs, amar os inimigos, partilhar com os mais pobres é porque acolhemos dentro de nós o imenso amor, a imensa e infinita misericórdia do Pai. Pois o amor não cobra nada: é gratuito! É isso que a eucaristia deveria produzir em nós: uma vida gratuita, atos e ações gratuitas. É esta gratuidade o sinal mais profundo e autentico do amor misericordioso do Pai na nossa vida. É por isso que devemos perdoar sempre: porque em Cristo, Deus nos reconciliou consigo mesmo e nos perdoou uma vez por todas. É por isso que devemos partilhar tudo aquilo que temos, porque em Cristo Deus partilho tudo aquilo que de mais precioso Ele tinha:o seu único Filho. É por isso que devemos amar: porque em Cristo Deu Pai nos amou de um jeito tão profundo que fez de nós os seu filhos e filhas. É finalmente por isso que devemos doar a nossa mesma vida para os irmão e as irmãs: porque Deus em Cristo doou a sua mesma vida para nós.

Que nesta quarta semana de quaresma saibamos transformar as nossas penitencia, esmolas e orações em vida superabundante de amor.



sexta-feira, 22 de março de 2019

Domingo III° DE QUARESMA/C




(Ex 3,1-8.13-15; Sal 103; 1Cor 10,1-6.10-12; Lc 13,1-9)

Paolo Cugini

1. Escutando o Evangelho de domingo passado talvez ficamos empolgados e, ao mesmo tempo, desnorteados. A transfiguração de Jesus pode ter nos levado a pensar que a vida cristã é uma vida na montanha, fora da realidade na companhia de Jesus. Na verdade, na historia da Igreja, encontramos experiências espirituais assim, ou seja, de monges que passaram a vida toda afastados do mundo, isolados, vivendo sozinhos para meditar a Palavra de Deus. São os ermidas, homens de Deus que sentiram a vocação de viver desta maneira o próprio relacionamento com Deus. Só que para a maioria das pessoas, que somos nós, a vida de fé se decide no dia a dia, nos problemas da vida corriqueira, mergulhados nos afazeres da vida cotidiana. Isso quer dizer que, o cristão autentico, é aquele que toma a serio a própria realidade, se esforçando de transformar não apenas a própria vida, mas também a realidade na qual Deus o colocou.

2. Estamos no meio da caminhada do tempo de Quaresma, que é um tempo de conversão, de mudança de vida e a liturgia da Palavra de hoje nos convida a dar um passo na frente, a sacudir da nossa vida qualquer forma de resistência a Deus, para nos dirigirmos ao encontro do Pai com o coração cheio do amor de Cristo. Precisamos, então, gritar a Deus o nosso pecado, precisamos pedir a Ele com todas as nossas forças de vir ao nosso encontro assim como fez na época de Moises, quando  Deus se manifestou depois de ter escutado o grito do seu povo: “Eu vi a aflição do meu povo... desci para libertá-lo” ( Ex 3, 7.8). Este é um grande dado que descobrimos nesta caminhada de quaresma, ou seja, que acreditamos num Deus que nos escuta, que nos acompanha ao longo da vida e que entra em ação em nosso favor. Em Jesus Cristo, Deus desceu para caminhar conosco, para nos mostrar mais claramente o caminho da salvação. É Ele que devemos seguir nos dias da nossa vida, se queremos salvar a nossa existência da morte eterna. Se tudo isso é verdade, isso quer dizer que neste tempo de quaresma devemos fazer de tudo para nos libertar de qualquer forma de religião alienante, que busca apenas uma satisfação interior, que projeta num futuro desconhecido o tempo da salvação. O fato que Deus escuta o grito do seu povo e decide de descer, de assumir uma carne como a nossa, de viver conosco, de sofrer e morrer para nós significa que o tempo da salvação é agora e, ao mesmo tempo, é agora o tempo da nossa conversão. A religião autentica e verdadeira é aquela que não me leva fora da realidade, para esquecer os meus problemas, mas, pelo contrario me dá a força para enfrentá-los com mais coragem e determinação. Se estamos aqui presentes nessa santa Missa é porque acreditamos que Cristo é presente, é vivo e nos ajuda a vislumbrar no mundo o caminho da salvação, que nós mesmos e nenhum outro, devemos percorrer.
De fato, o sentido do nosso batismo, da nossa caminhada de fé é a liberdade. Fomos batizados para nos libertarmos de uma forma única e decisiva das amarras avassaladoras do pecado. Somos cristãos porque amamos a liberdade e queremos viver este fruto do batismo sem deixar que nada nesta terra impeça este sonho, que, aliás, não é apenas o nosso sonho, mas também o sonho de Deus. Liberdade que não é fazer o que nós quisermos, mas que tem um preço muito caro: a cruz de Cristo. O problema que esta liturgia nos apresenta é, então, este: que preço somos disponíveis pagar, para vivermos a liberdade dos filhos de Deus? O exemplo é Cristo que não deixou ninguém amarrar a sua consciência, mas manifestou com as palavras e com a sua mesma vida a dignidade de ser o Filho de Deus. É esta mesma dignidade, que somos convidados a manifestar na nossa vida corriqueira, e é este o sentido da quaresma: descortinar todas as amarras que estão prendendo a nossa vida, não permitindo o desabrochamento da nossa vida de fé. 

3. “Não murmureis, como alguns deles murmuraram e, por isso, foram mortos” (1Cor 10, 10).
Neste caminho de quaresma que, com muita fadiga estamos tentando de realizar, devemos aprender a viver não apenas contando sobre os nossos instintos, mas também com a nossa alma. Deus é Espírito (Jo 4) e para acolhê-lo e percebê-lo precisamos espiritualizar a nossa vida, sair de uma existência instintual,   para uma vida mais humana que vive conforme a dignidade que recebeu de Deus, aprimorando a razão, melhorando a própria vida interior.

Só desta maneira poderemos sair de uma condição desumana, feita só do nosso egoísmo. Não murmurar, significa assim nessa altura concentrar a nossa atenção para aquilo que vale a pena de acreditar, concentrar a nossa atenção sobre aquilo que é essencial, ou seja, Deus. Quaresma, então, deveria ser um esforço de essencialidade, para tirar da nossa vida tudo aquilo que é inútil, não apenas do ponto de vista material, mas também e, sobretudo espiritual. Não murmurar quer dizer que na nossa vida, de verdade, somente Deus nos basta e por isso não procuramos mais nada. Então não murmuramos porque estamos totalmente concentrados em Cristo, o autor da nossa fé, na certeza que só Ele tem a possibilidade de modificar a nossa existência para que possa produzir os frutos desejados por Deus.

4. “O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão , o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre” (Ex 3, 15).
Tempo de quaresma é tempo para descobrirmos que Deus no qual acreditamos não é qualquer Deus, mas tem um nome, ou seja, uma identidade: é o Deus de Abraão. Isso é importante porque nos insere numa historia, numa tradição, que não é qualquer historia, que não é qualquer tradição. É dentro esta historia que Cristo veio ao mundo e é nele que aprendemos mais um aspecto da identidade de Deus, ou seja, que Ele é um Pai.

Percorremos então, o caminho do povo de Israel, entrando no deserto para deixarmos a Deus se manifestar na nossa vida e, assim, experimentarmos a grandeza do seu amor. Deveria ser esta a tarefa desta terceira semana da quaresma: entrar no deserto da nossa vida para vasculharmos até a que ponto nos relacionamos com Deus acreditando que Ele é um Pai para nós. Pois, se Ele para nós ainda não é um Pai, significa que ainda nós não somos seus filhos, ou pelo menos, não estamos vivendo desta forma. Mas se Deus não é nosso Pai e se nós não somos seus filhos, quem somos nós em definitiva?

É a esta pergunta que a liturgia do próximo domingo tentará responder.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

DOMINGO XXV/C





(Am 8, 4-7; Sal 113; 1 Tim 2, 1-8; Lc 16, 1-13)
Paolo Cugini

1. Sempre procuramos, pelo menos as pessoas que estão buscando uma vida de fé mais autentica e verdadeira, a essência da vida cristã, aquilo que mesmo deveria ser o foco, o eixo da caminhada, mas nos perdemos em mil riachos laterais sem nuca chegar ao rio. Isso é visível não apenas em nós, mas também em pessoas que há tempo estão no Caminho. Passamos o tempo inventando projetos, organizando eventos, ficando às vezes angustiados porque não saíram do jeito que a gente quis ou, pelo menos, tinha esperado. O tempo vai passando e nós ficando com um punhado de moscas nas mãos, nos questionando se a vida cristã é assim mesmo ou se deveria ser diferente. O grande perigo, nesta fase de angustia, que pode se protelar a vida toda, é ficar repetindo os mesmos erros, as mesmas situações. Quando a insegurança toma conta da gente, ficamos até com medo de pensar, de ousar algo de novo para não sermos criticados, julgados, dedados. Vivemos, assim, uma vida em defesa, sem élan nenhum, sem empolgação. E aqui vem o questionamento das leituras de hoje: o Espírito Santo que recebemos no Batismo e continuamos recebendo nos sacramentos, deve produzir esta vida segura, monótona, rotineira, ou tem algo a mais?

2. “E o Senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos dos filhos da luz” (Lc16, 8).
A parábola que Jesus narra no Evangelho de hoje termina com uma moral, que tão moral não parece. Porque será que Jesus elogia a esperteza do administrador desonesto? Além do mais, porque Jesus elogia uma pessoa desonesta: não é uma grande contradição perante tudo aquilo que ele vem pregando de amor, respeito e tudo mais? Na realidade, se prestarmos bem atenção às palavras de Jesus, Ele não elogia nem a desonestidade nem a esperteza, mas sim a criatividade do homem. De fato, o protagonista da Parábola, usou ao maximo a própria inteligência para se sair bem de uma situação que tinha tudo para ser ruim pra ele. Esta historia traz pra nós um grande ensinamento. O questionamento que Jesus traz por dentro da comunidade dos discípulos, entre os quais estamos hoje também nós, é este: o que estamos fazendo da Palavra de Jesus e do Seu Espírito Santo? O Espírito Santo em Jesus agiu de uma forma que progressivamente transformou toda a sua humanidade em amor, doação, partilha. Alem do mais, o Espírito em Jesus o levava a criar continuamente novas situações para que o reino de Deus fosse anunciado. O exemplo mais claro são as parábolas que ele inventava para chamar á atenção do povo e, assim, induzi-lo a pensar, refletir sobre a própria vida, se converter á Cristo. A verdade do Espírito Santo que Em Cristo agiu desta maneira e que Ele entregou pra nós em cima da cruz (cf. Jo 19, 30), não pode ser desperdiçado, mas deve gerar continuamente amor e, sobretudo, de uma forma criativa. O problema, então, é esse: porque somos tão resistentes á ação do Espírito Santo? O que em nós está bloqueando o Espírito Santo, impedindo que invente algo de novo? Porque somos tão passivos, renunciatarios e preguiçosos a ponto de prejudicar a obra criativa de Deus? Varias poderiam ser as respostas: vou apontar somente algumas.

Em primeiro lugar, aquilo que atrapalha a ação do Espírito Santo na nossa vida é o medo. Este medo se manifesta de muitas formas e maneiras: medo que o outro não goste de nós; medo de dizer algo que fere os outros; medo de não sermos aceitados. Ficamos trancados em nós mesmos para não correr o risco de ficarmos ofendidos, de sofrer por causa de uma magoa: a que ponto chega o nosso egoísmo, não é? E assim perdemos a ocasião de experimentarmos o prazer e a felicidade de uma vida diferente, uma vida de doação aos irmãos e as irmãs, uma vida fora da rotina corriqueira, mais criativa e dinâmica. É o dinamismo do Espírito que impulsiona a nossa vida a criar situações sempre nova para permitir a graça e Deus de moldar a humanidade através da nossa disponibilidade. É a força daquele mesmo Espírito que levava Jesus a enfrentar com coragem os poderosos do tempo, que deve agir em nós para não ficarmos calados perante a injustiça que encontramos no mundo, mas sim inventarmos novas situações para que o povo mais simples possa viver num mundo mais justo e solidário. Somos passivos porque amedrontados daquela diferença qualitativa que o Evangelho nos apresenta e que em Jesus se tornou bem visível. Tememos o julgamento dos amigos, dos colegas, até dos familiares e, por causa disso recuamos, voltamos atrás, preferindo a tristeza da vidinha medíocre da massa, á grande felicidade dos poucos discípulos de Cristo. O cara, deixa de frescura e segue a Jesus: tá?

3. “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos... Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16, 9.13b).
Como é que se manifesta esta novidade, esta criatividade que o Espírito deveria realiza em nós? O exemplo que Jesus traz é em referencia ao nosso relacionamento com o dinheiro. Estes últimos versículos do Evangelho de hoje expressam, de uma forma contundente a economia de Jesus, a teoria econômica que sai com força das paginas do Evangelho. O dinheiro é sempre injusto: esta é a sentença clamorosa e, ao mesmo tempo escandalosa de Jesus.  È claro que não é a qualquer dinheiro que Jesus se refere, o dinheiro que serve para comprar o pão, os remédios, e tudo aquilo que necessita para manter a nossa vida. O dinheiro é injusto quando é acumulado, guardado nos cofres dos bancos, porque este é todo dinheiro tirado do povo, que gera desigualdade e pobreza. Em um mundo ganancioso como é aquilo no qual vivemos, esta proposta de Jesus, que o Espírito Santo deveria produzir na nossa vida real, parece como uma verdadeira provocação. Na realidade, ou seja, na Verdade do Evangelho, esta é exatamente a diferença, a diversidade que o Evangelho, impulsionado pela ação do Espírito Santo, deveria realizar no meio de nós. Vida despojada porque Cristo se despojou de tudo para dar a nós o tudo de Deus.  Vida simples, despojada, porque é o amor de Deus que é derramado em nós pelo Espírito (cf. Rom 5,5) e isso nos basta, é suficiente para vivermos. Só o Espírito Santo pode impelir em nós idéias tão revolucionarias e ousadas como estas pra deixar de queixo aberto todos aqueles que vivem mergulhados no egoísmo do mundo. E nós, então, passamos fechando a boca deles, convidando-os a não desperdiçar a própria única vida se apegando aquilo que passa, mas se doando totalmente aos irmãos e as irmãs, sobretudo mais pobres, para conseguirmos um tesouro no céu, tesouro que sem duvida ninguém vai roubar (nem os políticos corruptos que andam nas nossas cidades).