sábado, 30 de julho de 2022

EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 3

 



Estudo Bíblico para CEBs

Pe Paolo Cugini

1-3. A insistência de Lucas sobre os homens políticos daquele tempo é para salientar que Jesus Cristo não é uma invenção literária, mas o Filho de Deus veio ao mundo mesmo, se fez carne em um momento histórico preciso. Por isso estes dados históricos são importantes: para situar com clareza o momento preciso da vinda de Cristo na história.

4-18. A pregação de João Batista é muita dura e radical: o objetivo é provocar a conversão dos ouvintes. Citando Isaias, João Batista se coloca na tradição profética e, ao mesmo tempo, se identifica com a personagem que no A.T. era designado para preparar o cominho do Messias.

“Que devemos fazer?”. A dura pregação de João Batista surtiu efeito. De fato as pessoas se questionam e se colocam a disposição para uma mudança. A pergunta: que devemos fazer? É a pergunta da fé, da confiança em Deus, que acusa o pecado, mas ao mesmo tempo prepara caminhos de salvação.

“Quem tiver duas túnicas reparta-as”. As respostas de João Batista aos interlocutores mostram que o caminho da conversão acontece dentro da própria experiência de vida. Se quisermos nos converter de verdade, devemos concentrar a nossa atenção naquilo que estamos vivendo. A verdade do nosso seguimento a Jesus, da nossa adesão ao Evangelho, se demostra na maneira de viver no dia a dia.

Batismo com água é o batismo pregado por João Batismo, que exige uma mudança de vida, de atitude: consiste no esforço de tirar o mal da nossa vida. O Batismo no Espírito trazido pro Jesus consiste na acolhida do dom de Deus que vem do alto, que transforma a nossa humanidade. Estes versículos nos revelam que a mudança da nossa vida depende um pouco de nós, mas, sobretudo é fruto da ação de Deus que age na nossa vida somente se quisermos.

23-38. A genealogia é na linha do valor que Lucas dá aos dados históricos para mostrar que Jesus é uma personagem históricas e não uma invenção literária. Porque Lucas insiste nisso? Porque ao tempo de Lucas, mais ou menos os anos Oitenta do primeiro século da era cristã, alguns difundiram a noticia que Jesus era só um espírito e nada mais. No Evangelho de Lucas o mistério da Encarnação, ou seja, de Deus que se faz homens e entra na história, é documentado não apenas com dados históricos, mas também com uma genealogia, uma serie de nomes que demostram o parentesco de Jesus, que não era um anjo descido do céu, mas sim, um homem em carne e osso.

 

EVANGELHO DE LUCAS CAPITULO 2



Estudo Bíblico para CEBs

Pe Paolo Cugini

1-20. Nestes versículos é lembrada a origem pobre de Jesus, que nasceu de uma família pobre e numa cidade pobre. De fato, Jesus não nasceu na capital, Jerusalém, mas sim na periferia, em Belém, que era uma cidade onde moravam os pastores que não podiam morar em Jerusalém por causa do fedor deles. Os pastores era uma categoria de pessoas excluída, discriminada. Deus decide que o próprio filho não nascerá na capital, mas a periferia, no meio dos pobres e excluídos, e não entre os ricos e poderosos. Este será um dado que perpassa todo o Evangelho de Lucas.

21. A circuncisão era um rito de entrada no povo de Israel, que corresponde ao nosso batismo. Sendo que consistia num corte no pênis, é claro que as mulheres eram excluídas. O batismo de Jesus, será uma verdadeira revolução cultural e religiosa.

22-38. Os pais de Jesus, José e Maria, eram pessoas piedosas, faziam tudo conforme a Lei de Moisés.

Simeão profetiza que Jesus será sinal de contradição: quer dizer isso? As palavras do velho Simeão revelam o sentido da vida de Jesus, que não veio para agradar as pessoas, mas sim para dizer e mostrar o Caminho da Verdade. Jesus trouxe a paz para todos e todas os seus discípulos, ou seja, para todas as pessoas que se decidem por Ele; ao mesmo tempo, porém, Jesus trouxe o fogo no mundo, ou seja, por toda aquela realidade que não acredita nele e que resiste à sua pregação. Sempre Simeão não esconde o sofrimento que deverá enfrentar a sua mesma mãe Maria: “uma espada traspassará a tua alma”. Seguindo Jesus a Igreja é chamada a ser no mundo sinal de contradição, desmascarando toda forma de corrupção, de maracutaias: só assim será profética e permitirá que a Verdade de Deus conquiste os corações.

41-49. O episodio narrado somente em Lucas mostra o desenvolvimento da consciência de Jesus e a busca do sentido da própria vida. Jesus busca conhecer a vontade do Pai: é isso que deveriam fazer os pais, ou seja, criar uma situação tal que permita aos filhos de descobrir a própria vocação. A nossa felicidade depende da descoberta e da vivencia da nossa vocação: tudo aquilo que como família e comunidade fazemos por isso é positivo.

51-52. A postura de Maria é importante: ela guardava tudo no seu coração, ou seja, não passava nas casas contando a própria vida e dos outros. A vida escondida e secreta é típico das pessoas que buscam a gloria de Deus e não aquela do mundo.

 

CARTA AOS ROMANOS CAPITULO 1

            



Estudo bíblico para CEBs

 

 Paolo Cugini

 

1-16. Na saudação inicial Paulo manifesta a clareza da própria vocação: não foi ele que quis ser discípulo, mas sim foi Deus que o chamou para uma especifica missão: anunciar o Evangelho. É sobre esta convicção que se fundamenta toda a experiência de Paulo, convicção baseada sobre uma história de vocação autentica relatadas várias vezes no Novo Testamento (cf. Gal 1; At 9).  Porque é tão importante para Paulo este anuncio do Evangelho? Porque, segundo ele, no Evangelho de Jesus está escondida a força de Deus, aquela mesma energia que Deus utilizou na Ressurreição do seu Filho Jesus. Por isso segundo Paulo é de extrema importância o anuncio do Evangelho porque é o instrumento que Deus escolheu para salvar o povo (v. 16). É por isso que os cristãos deveriam colocar maior atenção ao Evangelho e a sua leitura, pois é o instrumento escolhido por deus pela nossa salvação.

18-32. A ira de Deus se manifestará contra toda forma de injustiça, que se expressa toda vez que o homem não agradece a Deus. Através da natureza o deus invisível se rendeu inteligível, ou seja, conhecível. O problema é que o homem trocou o criador com as criaturas caindo em toda forma de idolatria. Segundo Paulo foi exatamente a idolatria a causa da perversidade em campo moral.

24-27. É o texto do Novo Testamento e, aliás, de toda a Bíblia aonde se fala de forma explicita sobre o problema do homossexualismo seja masculino que feminino. É claro que neste texto não se fala da bondade das pessoas homossexuais, mas sim da Atividade sexual deles que segundo Paulo está errada. De fato, a Bíblia ensina que o relacionamento sexual correto é aquele entre homem e mulher e, por isso, o qualquer outro tipo de relacionamento é considerado contra a natureza, ou seja, contra o plano de Deus.

28-32. A incapacidade de reconhecer o Criador presente na natureza, trocando-o para as criaturas levou a humanidade, sempre na analise de Paulo, a toda uma serie de erros. A final de conta somente uma vida orientada em Deus pode desembocar numa vida ética coerente e integra. 

domingo, 22 de maio de 2022

A LUZ DO RESSUSCITADO NOS LIBERTA DA FALSA RELIGIÃO

 



DOMINGO 22 DE MAIO DE 2022 - VI DO TEMPO DA PÁSCOA / C

 

 

 

Paolo Cugini

 

 

Durante a Páscoa, a liturgia nos oferece uma reflexão sobre o significado da presença do Ressuscitado na vida da comunidade cristã, na vida daqueles que o encontraram. De fato, este deve ser o sentido da Igreja, ou seja, o grupo de pessoas que fizeram a experiência do encontro com o Ressuscitado e o testemunham com um novo estilo de vida, que tem características específicas. Na narração dos Actos dos Apóstolos, cada vez que Paulo é chamado a defender-se perante as autoridades romanas das acusações dos judeus (Actos 22 e 26), fá-lo narrando a sua mudança provocada pelo encontro com o Ressuscitado. Esta é então a pergunta que busca abrir o sentido das leituras propostas hoje pela liturgia: o que deve acontecer com as pessoas que encontraram o Ressuscitado?

 

As duas primeiras leituras nos oferecem um material semelhante para nossa resposta, que poderíamos formular assim: o encontro com o Ressuscitado nos liberta da religião falsa, feita de normas e prescrições, que escravizam homens e mulheres ao invés de libera-los. Esta foi a experiência de Paulo que ele tenta compartilhar em suas viagens missionárias, afirmando que o Evangelho de Jesus libertou a humanidade de todas aquelas prescrições que, em vez de aproximar a humanidade do Pai, a distanciam. Será precisamente neste ponto que Paulo e Barnabé encontrarão forte resistência por parte dos judeus convertidos ao cristianismo, que queriam impor as leis mosaicas também aos pagãos convertidos. Naqueles dias, alguns que vinham da Judéia ensinavam aos irmãos: "Se não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não poderão ser salvos" (At 15, 1). O Concílio de Jerusalém, do qual um trecho do documento final é relatado em primeira leitura, discutirá precisamente este ponto e os testemunhos de Pedro e Paulo sobre a descida do Espírito Santo também sobre os pagãos serão fundamentais. Em sintonia com este caminho, estão as palavras do Apocalipse relatadas na segunda leitura, que afirma que, na nova Jerusalém, conforme a visão de João, não haverá templo, porque: "o Senhor Deus, o Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu templo”. (Ap 21, 22). O templo de Jerusalém, em particular o segundo templo, aquele reconstruído ao retornar do exílio na Babilônia, tornou-se o símbolo de uma religião feita de tantos preceitos e normas que se tornou impossível uma relação pacífica com Deus. no diálogo com a mulher samaritana, Jesus dirá que, para um diálogo autêntico com o Pai, não haverá mais necessidade de templos porque: "os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade" (Jo 4,23).

A comunidade dos que encontraram o Ressuscitado, além de se libertar da falsa religião dos preceitos, torna-se presença de paz no mundo. A paz vos deixo, a minha paz vos dou. Não como o mundo a dá, eu a dou a você (Jo 14, 25-26). A Sagrada Escritura considera a paz não só como ausência de guerra, mas sobretudo como dom de Deus e como plenitude de todas as suas bênçãos. Esta é a mensagem central da esperança messiânica anunciada pelos profetas, que a vêem realizada na harmonia das origens entre o homem e a criação: "O lobo habitará com o cordeiro..." (Is 11, 6-9; Cfr. Is 65,25) e na convivência pacífica e fraterna: "Quebrarão as suas espadas e delas farão arados, das suas lanças farão foices... não aprenderão mais a arte da guerra" (Is 2: 4). É esta paz que Jesus trouxe entre nós, como rejeição de todas as formas de violência. Com efeito, Jesus, como nos diz São Paulo, reconciliou os povos em conflito atraindo o ódio deles à sua própria carne (cf. Ef 2, 14 ss). A vida do Ressuscitado é visível, então, no esforço que fazemos todos os dias para construir a paz, reconciliar as pessoas, fazer com que os opostos possam coexistir.

sábado, 16 de abril de 2022

HOMILIA DA NOITE DE PÁSCOA 2022

 




Paolo Cugini

 

A vigília é um rito muito antigo - a celebração de uma Páscoa anual já se encontra em meados do século II e que em 1900 viu algumas mudanças significativas. A reforma fundamental foi feita em 1951 por Pio XII, que trouxe a vigília de volta as horas noturnas, pois até então se celebrava na manhã do sábado, enquanto cantava, no anúncio da Páscoa, "Esta é a noite...". Em 1955 chegou a reforma de toda a Semana Santa. O Concílio desenvolveu alguns elementos, como a escolha das leituras, mas no fundo retomou uma reforma já feita

O primeiro pensamento vai para o rito do fogo, da luz . A Páscoa é a passagem da morte para a vida, das trevas para a luz. O que isso significa? Que a ressurreição de Jesus indica o caminho de humanização que somos chamados a empreender, que a partir de agora há a possibilidade de cada um de nós sair dos caminhos da morte, para ir para a vida. A ressurreição do Senhor significa que nem tudo está perdido para sempre, que há um caminho que Jesus abriu para todos, um caminho dentro da história que todos podemos acompanhar: basta seguir a luz.

Então, uma vez na igreja, foi proclamado o exultet, um hino de autor desconhecido - alguns dizem que é de Santo Agostinho - que expressa de forma original o mistério da salvação que aconteceu através da ressurreição de Jesus . necessário o pecado de Adão, que foi destruído com a morte de Cristo. Feliz culpa, que merecia ter tão grande redentor! ». É difícil encontrar palavras mais ousadas na liturgia do que estas do exultet. Neste hino tão ousado, tem um olhar diferente sobre o pecado. Uma expressão decididamente forte, mas que se conjuga com um simbolismo litúrgico igualmente sugestivo. O poeta francês Charles Péguy dizia que o pecado é como uma brecha na qual se insere a graça, o amor de Deus: aprender a olhar a própria história pessoal com os olhos do Pai, aprender a não maltratar os próprios limites, pra ser envolvido por sua misericórdia.

ouvimos as leituras , que nos contaram uma história, que é a história do povo de Israel, que é a nossa história. A história de um povo que aprendeu a reconhecer Deus dentro dos acontecimentos e não fora do mundo. Essa é a característica desse povo. Uma história em que as pessoas experimentam seus limites, a dificuldade de administrar sua humanidade e orientá-la na direção do Senhor. É uma história não linear, mas feita de momentos perdidos, de saltos para frente e paradas repentinas. Mais uma vez, deve-se dizer que a história do povo de Israel é muito semelhante à nossa e é relido pelo hino do exultet, que proclamamos há pouco.

A Vigília Pascal gira em torno de quatro sinais que dizem o ser humano transformado pela ressurreição. A luz, com o círio pascal; a Palavra , com as inúmeras leituras bíblicas; água, com o Batismo; pão e vinho , com o banquete eucarístico. Há quatro elementos essenciais para o homem: sem luz não pode haver vida; falar, comunicar é um ato fundamental; a água faz crescer, lava, regenera; depois a comida, a nutrição. E a liturgia escolhe esses elementos essenciais para contar o mistério de Cristo. Estes são elementos primordiais: Luz e trevas, águas que se dividem, etc. A ressurreição de Cristo recria o universo.

O círio pascal é preparado com os grãos de incenso enfiados em forma de cruz, pois a forma do crucifixo ressuscitado está impressa na vela; o fato de a cera iluminar-se consumindo-se é um lembrete da dimensão do dom; a cera ilumina e enquanto isso se consome, oferece- se para iluminar, como o dom da vida de Jesus Cristo.

 


quinta-feira, 14 de abril de 2022

QUINTA-FEIRA SANTA 2022

 




(Jo 13: 1-15)

Paolo Cugini

 

Quinta-feira Santa significa João 13, aquela página do Evangelho que nos faz estremecer, empalidecer, chorar. Encontramos Deus na humanidade de Jesus, é isso que o Evangelho e a Igreja nos ensinam. Isso significa que no gesto de Jesus lavando os pés de seus discípulos encontramos Deus.

O que significa esse gesto? É o mestre que lava os pés do discípulo, é o maior que se rebaixa ao menor: este é o ensinamento de Jesus, esta é a sua humanidade. Significa que quando reproduzimos essa atitude no cotidiano encontramos Deus, percebemos nossa humanidade que foi criada à imagem de Deus, não de qualquer Deus, mas do Deus que se manifestou na humanidade de Jesus, um gesto de amor de Jesus para com seus discípulos. É o que está descrito no início da passagem: Jesus, sabendo que era chegado o seu tempo de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim (Jo 13, 1) . O amor é um caminho de rebaixamento em direção a quem você ama. Não há teste de força, enrijecimento, mas abaixamento. Jesus teria todos os motivos do mundo para endurecer-se com seus discípulos, mas não o faz, porque não quer perdê-los. Jesus veio para salvar tudo e todos, por isso se humilha continuamente ensinando-nos que na humilhação está o mistério do amor que deseja ganhar alguém a qualquer custo, colocá-lo nas mãos do Pai. Você ama seu filho: desça, lave os pés dele. Ele merece dois tapas: deixe de lado os rancores, as reclamações, o rancor, mas conquiste-o com amor: abaixe-se, lave-lhe os pés. É o teste final do amor.

“Durante a ceia, Jesus, sabendo que o Pai lhe dera tudo e que ele vinha de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, despiu as roupas, pegou uma toalha e a enrolou na cintura. Em seguida, derramou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha que estava usando”.

 O texto diz que a ação de Jesus não é espontânea, mas pensada. Jesus sabendo. O que Jesus sabe, o que ele entendeu? Que o Pai lhe dera tudo em suas mãos : o que significa esta afirmação? Significa que Jesus não nasce instruído, mas, sendo um verdadeiro homem, como todos os homens e mulheres, aprende, compreende. Na narração de João, parece que Jesus compreendeu a grandeza de sua identidade nas últimas horas de sua vida. Com essa compreensão de si mesmo, ele vai na mesma direção em que sua humanidade sempre o conduziu, ou seja, não a serviço de um narcisismo exacerbado que não lhe pertence, mas num caminho de amor para com as pessoas que encontra.

São sete os verbos que descrevem a ação de Jesus , que é uma ação que descreve seu amor, pois seu amor toma forma na concretude da vida cotidiana. Ainda. Não são ações feitas por acaso, mas que surgem de um entendimento. De fato, o texto diz: Jesus conhecendo... Há uma consciência que provoca uma ação consciente: o que Jesus faz não é por acaso, mas quer comunicar alguma coisa. Ele faz um gesto que comunica um conteúdo. O amor manifestado por Jesus sempre propõe palavras e ações que vão na lógica oposta das razões humanas, vão na direção do amor que se torna serviço humilde. É um gesto que segue a mesma lógica das palavras que Jesus diz na cruz para seus algozes: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que estão fazendo.

Durante a ceia, quando o diabo já havia colocado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse. O gesto de Jesus de lavar os pés dos discípulos, além das considerações feitas acima, deve ser enquadrado, emoldurado no que Jesus entendeu, ou seja, a traição de Judas e a negação de Pedro que, entre outras coisas, estão entre os protagonistas desta passagem, no sentido em que são citados. Mais uma vez, Jesus tinha todos os motivos para enviar aquele grupo de inúteis de seus discípulos para aquele país, mas faz um gesto que vai na direção oposta de suas razões. Jesus lava os pés daqueles que ele sabia que o trairiam, o renegavam. O caminho do seguimento do Senhor não se baseia no sucesso humano, mas exclusivamente no amor do Pai. Há um olhar de amor entre Jesus e o Pai que filtra todos os relacionamentos. Jesus aprendeu a não basear suas escolhas no sucesso humano: também este é um grande ensinamento.

Então ele foi ter com Simão Pedro e lhe disse: "Senhor, você está lavando os meus pés?" Jesus respondeu: 'O que estou fazendo você não entende agora; você vai entender mais tarde ». Pedro lhe disse: "Você não vai lavar meus pés para sempre!"

 Há outro aspecto interessante na cena do lava-pés, destacado pela atitude de Pedro. O discípulo não quer que Jesus lave seus pés. Como traduzir a resistência de Pedro? É o símbolo da não aceitação de que a humanidade de Jesus nesta sua manifestação extrema é a ponte para o encontro com Deus. A atitude de Pedro descreve a dificuldade que todos aqueles que não conseguem se livrar de suas idéias sobre Deus, aquelas idéias que recebemos da tradição, ou que simplesmente nos são transmitidos pelo senso comum, que pensa Deus como algo totalmente diferente do homem, do mundo e, consequentemente, deve ser reverenciado. Pedro é o símbolo daqueles que não aceitam que é Deus quem reverencia o homem, não aceitam o Deus que se humilha, que se faz pequeno, porque não querem se envolver neste caminho de humilhação: querem continuar a manter distância, para poder fazer o que eles querem. Jesus, por outro lado, lava-nos os pés para nos fazer caminhar com Ele, para nos ajudar a compreender que o sentido profundo da vida não está em fazer o que se quer, mas em dar-se de forma livre e desinteressada.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

V DOMINGO DA Quaresma C

 



Paolo Cugini

 

Há uma novidade que somos chamados a apreender neste tempo de Quaresma, uma novidade de vida nova, capaz de dar sentido à nossa existência, de dar água no deserto dos nossos caminhos áridos. Parece inacreditável, mas é assim que é. Para poder apreendê-lo, porém, é necessário um requisito fundamental, indicado pelo profeta Isaías na primeira leitura de hoje, a saber, deixar de pensar no passado.

Não se lembre mais das coisas do passado,
não pense mais nas coisas velhas!Eis que estou fazendo uma coisa nova: agora brota, você não percebe?
(Is 43:18).

Encontramos a mesma ideia na segunda leitura de hoje, quando Paulo afirma: Creio que tudo é uma perda por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele abandonei todas essas coisas e as considero lixo, para ganhar a Cristo e ser achado nele (Fl 3,8). Há, portanto, uma atitude espiritual que não nos permite captar a novidade de Jesus, sua mensagem inovadora, sua presença salvífica para a humanidade. Aqueles que permanecem ancorados nas formas tradicionais de religião não conseguem compreender plenamente a novidade que é Jesus.

Do que se trata e qual a profundidade qualitativa desta novidade está expresso no trecho evangélico de hoje, que conta uma história que levou séculos para ser admitida no cânon? De fato, o 'perdão de uma adúltera por parte de Jesus foi considerado inadmissível, porque teria criado, segundo os detratores de Jesus, um clima de frouxidão que abriria caminho para justificar a traição das esposas contra seus maridos. A imagem machista da cena também é interessante, na qual é apenas a mulher que é trazida diante de Jesus para julgamento: e o homem, e o adúltero, por que ele não foi indiciado? É fruto dessa cultura patriarcal que, ao longo dos séculos, cavou uma lacuna entre a condição masculina e a feminina, uma lacuna feita de injustiças e abusos.

Disseram isso para testá-lo e ter motivos para acusá-lo. Os escribas e fariseus procuram Jesus não para ouvi-lo, como fazem as pessoas, mas para colocá-lo à prova. É interessante que o verbo que o evangelho usa para explicar o motivo de sua aproximação de Jesus é o mesmo que é usado para explicar a atividade de satanás: testá-lo. Os escribas e fariseus não estão interessados em ouvir Jesus, eles querem desacreditá-lo diante do povo, porque com sua ação e sua palavra, ele está perturbando aquelas tradições religiosas, que dão poder e sustentação à classe sacerdotal. Portanto, há mal na ação dos escribas e fariseus, aquele mal que surge daqueles que estão cegos pelo passado, daqueles que não querem olhar para a novidade do presente, porque isso significaria questionar-se, colocar-se numa perspectiva de mudança de vida.

À provocação dos escribas e fariseus, Jesus responde escrevendo no chão em silêncio: por quê? O que significa essa atitude? Na realidade, é um gesto profético que remete a uma passagem de Jeremias: “os que te abandonam ficarão confusos; aqueles que se desviarem de ti serão escritos no pó, porque abandonaram o Senhor, fonte de água viva (Jr 17:13). Afinal, havia pouco a dizer, porque do lado dos fariseus não havia o menor desejo de ouvir e se envolver. É por isso que Jesus não entra no campo da diatribe teológica, mas provoca um caminho de interiorização. Levantou-se e disse-lhes: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado, atire-lhe primeiro uma pedra". É na consciência pessoal que Jesus provoca a reflexão dos ouvintes, porque é aí que existe a possibilidade de escutar aquela voz interior que revela o sentido autêntico das coisas.

'Mulher, onde eles estão? Ninguém te condenou? ». E ela respondeu: "Ninguém, Senhor." E Jesus disse: “Nem eu te condeno; vá e de agora em diante não peques mais ». Este é o escândalo, a afirmação que os escribas e os fariseus não quiseram ouvir e que durante vários séculos deixou esta passagem fora do cânone: nem eu te condeno. Jesus é só amor, só misericórdia, é a possibilidade de todos e de todas voltarem a partir, retomar o caminho. Esta é a palavra que a Igreja deve saber dizer ao mundo: também não vos condeno e, assim, abro caminhos de misericórdia, libertando homens e mulheres dos sentimentos de culpa que os escravizam e que produzem a imagem de Deus, terrível, legado de medos ancestrais.

O sentido do caminho quaresmal deveria ser precisamente este: fazer-nos descobrir o rosto totalmente bom e misericordioso do Pai. Nenhuma condenação, nenhuma imposição , mas a possibilidade de um novo caminho.

 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

SANTA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ ; 26 DE DEZEMBRO 2021

 




(Lk 2, 41-52)

 

Paolo Cugini

 

A festa da sagrada família recorda-nos que a dinâmica da fé, o conhecimento dos seus mistérios e as indicações do caminho que somos chamados a percorrer, se realizam na vida familiar. Esta já é uma primeira e profunda indicação. Encontramos Deus, seu caminho para nós, quando vivemos com autenticidade as relações que o Senhor nos deu. Na verdade, não escolhemos o pai, a mãe, os avós, os irmãos e as irmãs, mas os encontramos ao nascer. Não são como os amigos, que encontramos ao longo da vida e que mudamos a partir dos lugares e situações em que vivemos. As pessoas de uma família são o dom que Deus nos dá para crescermos humanos. A atenção às relações familiares é o primeiro passo significativo, não só para o nosso caminho de humanização, mas também espiritual. A compreensão deste aspecto da vida de fé, passa imediatamente pelo compromisso de investir cada vez mais na qualificação das relações familiares, atenção aos que nos rodeiam, àqueles que compartilham o caminho da vida todos os dias.

O segundo aspecto significativo que aparece na festa da sagrada família é a sua pobreza. Deus decide nascer não apenas em uma família pobre, mas também em uma região e território caracterizado pela pobreza. Deus escolheu não nascer rico, em um castelo, mas pobre entre os pobres. Jesus nasceu e foi criado com uma mãe analfabeta, pai carpinteiro, considerado, naquela época, um trabalho infame, uma casa pobre. Jesus cresce vivendo sobre a própria pele o fruto das desigualdades sociais, nas quais poucos detêm a maior parte dos benefícios, enquanto a maioria vive da migalha. Jesus e sua família viveram, como muitos, de migalhas. Este aspecto da pobreza de Jesus, que também encontramos de novo nos anos de maturidade, de sua vida pública, deve ser levado a sério. O que nos ensina esse fato bíblico que, ao mesmo tempo, é escolha de Deus? Diz-nos que a nossa fé ,não amadurece na riqueza, no luxo, no conforto. Ao contrário, uma vida essencial, uma família que se esforça continuamente para compartilhar o que tem, investe não só para responder às próprias necessidades, mas se abre para os outros, para os pobres que encontra ao longo do caminho, se esforçando continuamente para manter um baixo estilo, essencial, cria o terreno para que a fé amadureça, a confiança na justiça de Deus, na sua bondade e misericórdia.

O terceiro aspecto que podemos destacar desta sagrada família é a liberdade de cada membro com a tradição dos pais. Maria aceita a escandalosa proposta de ser mãe antes do casamento, colocando-se imediatamente em uma situação gravíssima do ponto de vista da lei mosaica. Maria se entrega a Deus e aceita o risco de ser morta pela comunidade, porque transgride o preceito. Não menos importante é José, que os evangelos o definem como justo, isto é, um homem que obedece aos mandamentos de Deus. Chocado com a notícia da gravidez de Maria, aceita a proposta do anjo em sonho e transgride a lei mosaica, que previa o apedrejamento em caso de adultério, ele a leva consigo e a guarda, cuidando dela. Finalmente, todos nós sabemos o que o filho Jesus fará, seria melhor dizer aprontará,  quando começará a atividade pública. Desde o início do seu ministério, Jesus transgrediu o primeiro e fundamental mandamento cuja transgressão levava à morte: o respeito pelo sábado. Uma família, portanto, de rebeldes, uma rebelião contra uma lei que sufoca a vida, na busca contínua da vontade de amor do Pai. Também neste caso, como em outros, encontramos na humanidade de Jesus, em seu estilo, os traços marcantes de seus pais, que eram pobres, mas grandes em sabedoria e amor ao Pai.

É a vida essencial que nos leva a apegar-nos à Palavra do Senhor, para buscarmos o seu conforto e descobrir sua delicada presença em algumas experiências pessoais, nas quais nossas forças são testadas até o limite. É precisamente nestas situações extremas, que se torna importante ter alguém familiar que nos possa apoiar, aconselhar e com quem nós próprios possamos falar, partilhar a nossa situação. A sagrada família de Nazaré, vista de perto, ensina tudo isso e muito mais.

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

DOMINGO 4 DE NOVEMBRO-SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

 



(Ap 7, 2-4.9-14; Sal 24; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

 

Paolo Cugini

 

1. A Igreja celebra hoje a solenidade de todos os santos, nos convidando a refletir sobre o sentido da nossa caminhada de fé. Se fomos batizados é porque Deus nos chamou desde a eternidade para sermos santos (Cf. Ef 1,4), pra sermos pessoas diferentes, pessoas cujo objetivo não seja enganar os outros, mas fazer da nossa vida uma total oferenda a Deus.  O problema pra nós hoje é entender o sentido desde chamado, ou seja, quer dizer que Deus nos chama a sermos santos? Qual é o sentido da santidade no mundo de hoje? Como se realiza, o que implica? É para as leituras da liturgia de hoje que dirigimos estas perguntas para obtermos aquelas respostas tão necessárias para a nossa vida de fé.

 

2. “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro” (Ap 7, 14).

A santidade é o caminho aqui na terra atrás de Jesus, seguindo os passos dele, que é o caminho do amor. Amar aqui na terra do jeito que Jesus amou, ou seja, de forma desinteressada, despojada, dedicada totalmente aos outros, traz consigo uma grande tribulação. Jesus, que é o amor perfeito do Pai, sofreu o pão que o diabo amassou por causa do ódio do mundo, que não agüentava a sua liberdade, a sua gratidão, o seu jeito simples de lidar com os mais pobres, os mais fracos, a sua sinceridade que não media palavras contra os hipócritas da vez. O caminho do cristão que se esforça de imitar a Jesus, seguir as suas pegadas leva exatamente aonde Jesus chegou: a cruz. A cruz, do ponto de vista espiritual, é o símbolo da vitória do amor sobre o ódio, da verdade sobre a hipocrisia, da humildade sobre o orgulho. Só que para conseguir esta vitória o cristão, assim como o mesmo Jesus, paga um preço altíssimo, o preço da própria vida. A existência cristã torna-se neste mundo de ódio uma verdadeira tribulação, dificílima de agüentar. Este é o sentido autentico da santidade, que é uma vida diferente, uma vida separada do mundo. Santo é aquele que é impelido pelo amor de Jesus e que deixa o espírito do Senhor agir na sua mesma vida, historia. A santidade, então, não é um simples esforço pessoal, uma luta que o homem a mulher deve travar sozinho. Pelo contrario, é a disponibilidade a fazer com que, aquele amor total e pleno que manifestou-se na historia dois mil anos atrás, possa continuar se manifestando através da nossa mesma humanidade. Santidade é docilidade ao plano de Deus, um plano que não é escrito uma vez para todas e que deve ser simplesmente executado, mas que exige constantemente a nossa disponibilidade, o nosso desejo renovado em cada circunstância a deixar o Espírito de Deus passar na nossa historia.

 

3. “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3,1).

No caminho terreno atrás de Jesus que, como vimos até agora, é o caminho da santidade, o cristão não vive apenas de lutas e não enfrenta somente tribulações, mas experimenta a bondade do Pai que se manifesta como vida filial. É aquilo que são João tenta de nos dizer na segunda leitura de hoje. O caminho cristão é um caminho aonde devemos experimentar a paternidade de Deus. Por isso uma pessoa agüenta sofrimentos terríveis, sofrimentos que a maioria das vezes são espirituais, sofrimentos que derivam da posição difícil que o seguimento ao Evangelho de Cristo nos leva. Só quem experimenta o afeto de Deus, a sua presença paterna, o seu amor total e abrangente, consegue encarar a estupidez do mundo, a sua hipocrisia sem vacilar nem de um lado nem do outro. Ao mesmo tempo, a verdade da experiência filial que estamos vivendo se manifesta na capacidade de correr logo entre os braços do Pai quando na luta com o mundo sofremos uma derrota, uma queda, quando vacilamos. Estou escrevendo isso a partir da sugestão que a mesma Palavra de Deus nos oferece. Se, de fato o santo é um filho de Deus, agora não existe filho no mundo que não apronte, não faça algo que não agrada o pai. O filho autentico e verdadeiro não é o perfeitinho, que nunca cai (quanto orgulho espiritual encontramos nestas tentativas de aparecer com inquebrantáveis! Como se Deus não conhecesse a nossa natureza fraca!), mas aquele que cai e logo grita ao Pai para que o levante e, assim, poder continuar o caminho. “Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo” (1 Jo 3, 3) O caminho da santidade é um caminho de cotidiana purificação e isso quer dizer que a perfeição é um fruto que o Espírito produz em nós e que pode ser alcançado somente com a disponibilidade humilde a ficar a vida toda atrás de Jesus, em qualquer momento e situação.

 

4. “Bem aventurados os pobres em espírito... os mansos... os que tem fome e sede de justiça... os misericordiosos... os puros de coração...” (Cf Mt 5, 3-11).

Nesta ultima parte da nossa reflexão podemos nos perguntar: como podemos saber se também nós estamos fazendo parte daquela multidão narrada no livro do Apocalipse (1° leitura) que participa da gloria dos santos? E também como podemos ter a certeza que a nossa experiência cristã está sendo uma experiência filial, que é fundamental para vivermos o nosso batismo como caminho de santidade? A resposta a estas perguntas encontra-se no Evangelho de hoje. De fato, as bem-aventuranças que Jesus proclama perante o povo, não são outra coisa que os elementos visíveis da mesma humanidade de Jesus. Ele é o Filho querido do Pai. Como é que se manifestou a sua filiação aqui na terra? No seu carinho para com os pobres, na sua sede e fome de justiça, na sua misericórdia, mansidão, na sua busca da paz, na sua capacidade de enfrentar as perseguições e assim em diante. Agora é isso mesmo que o Espírito Santo, que recebemos nos sacramentos, está querendo formar em nós. Santo, então, não é aquela pessoa que fica de joelho com a cabecinha dobrada mandando os beijinhos a Maria. Santo é aquela pessoa que olha os outros não com um duplo pensamento, que perante as injustiças do mundo sente o desejo que se manifeste a justiça de Deus que é misericórdia. Santo é a pessoa que, no mundo de divisões e de ódios terríveis, faz de tudo para encontrar caminhos de paz. Santo é aquele que sente um aperto no coração perante um pobre, um mendigo e transforma este aperto num caminho que possa ajudar o irmão carente. São estes sentimentos que o Espírito está querendo formar em nós: os mesmos sentimentos que eram bem visíveis na humanidade de Jesus. Pedimos a Deus que esta Eucaristia possa colocar na nossa alma o desejo e uma santidade autentica e verdadeira, aquela santidade que se manifestou em Jesus, a única que pode transformar o mundo do ódio em amor.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

Domingo 24 de junho: Natividade de são João Batista

 



(Is 49, 1-6; Sal 139; At 13, 22-26; Lc, 1, 57-66.80)

 

Paolo Cugini

 

1. Celebramos, neste domingo, a solenidade do nascimento de João Batista, do homem escolhido por Deus para anunciar ao mundo a vinda de Jesus Cristo, o nosso Salvador. Não é por acaso, então, se a liturgia da Palavra de hoje nos oferece textos os quais nos convidam a refletir sobre o mistério da vocação. A importância de João Batista na economia da historia da salvação é evidenciada pelo mesmo Jesus que define João “o maior entre os nascidos de mulher”, pelo fato que foi escolhido para anunciar a presença do Cristo no mundo. A vida de João Batista se destacará pela dureza de vida que levava, pela sobriedade, pela força da sua pregação e pelo convite á conversão. João Batista se preparou à vinda de Jesus no deserto, batizando as multidões com a água do rio Jordão, batismo que era um convite a mudar de vida, a buscar o caminho de Deus. João nasceu em circunstâncias estranhas, não comuns. A mãe Isabel era estéril e o pai Zacarias já de idade avançada. Desde o nascimento, tudo na vida de João é envolvido no mistério, no ignoto. Aproveitamos, então, das leituras de hoje, para tentarmos penetrar o mistério do chamado de Deus. Pedimos ao Espírito Santo que abra a nossa mente para entendermos o sentido do nascimento e da vida de João Batista pela humanidade e para nós.

 

2. “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome” (Is 49, 1).

São estas as primeiras palavras do segundo canto do servo, que narram a vocação de uma personagem misteriosa, que nunca a tradição conseguiu a detectar. Personagem misteriosa como misteriosa é a vida de João. Poderíamos dizer que este mistério envolve a nossa mesma vida. É interessante parar para refletir sobre este dato, ou seja, o fato que a Bíblia apresenta a vida como algo de misterioso, que está escondido nos pensamentos de Deus. Isso é um convite a não abordar a vida de uma maneira superficial, imediata, como se a vida de uma pessoa fosse medível somente pelas características externas, pelos dados materiais. A Bíblia nos ensina que o sentido da nossa vida está em Deus, ou seja, fora do nosso alcance imediato. Para tomarmos conta da nossa existência precisamos de um esforço de interiorização, precisamos entrar em contato com Deus, pois é Ele que conhece o mistério da nossa existência antes do nosso mesmo nascimento. Para quem está tomando a serio a própria vida, esta revelação representa uma grande liberdade e, ao mesmo tempo, um grande desafio. É liberdade porque somos liberados do peso de inventarmos a nossa vida: graças a Deus a nossa vida já tem um sentido e, este sentido, é Deus mesmo que o definiu desde o inicio da criação. É também um desafio, porque devemos aprender a desmaterializar a nossa existência, para aprendermos a buscar o valor da nossa vida aonde ele pode ser desvendado, ou seja, em Deus.

 

3. Estas mesmas reflexões são retomadas no famoso salmo 139, que a liturgia nos convida hoje a rezar. “Senhor vos me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto; de longe penetrais meus pensamentos” (Sal 139, 1).

Se Deus me conhece e penetra os meus pensamentos, se foi ele que me formou as entranhas e no seio de minha mãe me teceu, significa que não sou sozinho. Quanta angustia leio às vezes nos rostos das pessoas que encontro, por tudo aquilo que acontece na vida delas, que parece até mesmo que Deus não esteja presente, que tudo seja em balia do ocaso e que, de conseqüência, a nossa vida não tenha nenhum sentido. É esta a grande tentação que enche a nossa alma e a nossa mente, confundindo os nossos pensamentos, naquelas horas tristes e dolorosas em que experimentamos uma espécie de abandono de Deus.  Não, Deus não nos abandona e nós não somos forçados a inventar a nossa existência, a produzirmos sozinhos e desesperadamente um sentido da nossa vida, para não escutarmos o vazio que nela percebemos. Aliás, talvez sejam estas as horas melhores que Deus nos oferece, para não fugirmos no vazio das nossas ilusões, dos nossos castelos imaginários, para penetrarmos no mistério da nossa vida e, nessa profundeza, descobrirmos uma Palavra pessoal, única, uma palavra amiga, que somente Deus conhece. Assim, estas leituras que escutamos na festa do nascimento de são João Batista, deveriam produzir em nós o desejo de aprofundarmos o mistério da nossa vida, de entrarmos em nós mesmos e escutarmos a voz daquele que nos chama desde a criação do mundo. Só assim descobriremos quanto, aos olhos de Deus, somos preciosos, que valor imenso tem a nossa existência para Ele, valor tão grande que desde sempre preparou para nós um projeto, um caminho. Somente deparando com este projeto misterioso e fantástico de Deus, os nossos falsos projetos serão desmantelados. De fato, se a tristeza às vezes enche os nossos corações, se a angustia acompanha os nossos dias, é porque vivemos no tempo presente inventando literalmente a nossa vida, nos achando os donos da nossa existência que, desta maneira, torna-se extremamente pobre,fraca, vazia. A auto-suficiência humana é o pior pecado que podemos cometer, porque é uma forma radical de resistência ao plano de Deus. Somos mergulhados numa cultura que nos incentiva todo dia e toda hora a buscarmos o nosso caminho de forma autônoma, independente de Deus e de todos.  Aonde podemos encontrar a luz que nos ilumina? Como percebermos que o Senhor nos conhece no mais intimo (cf. Sal 139)?  Como descobrirmos, assim como aconteceu com João Batista, o sentido do nosso nome, da nossa vocação?

 

4. “Ele vivia em lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel” (Lc 1, 80).

Não existe melhor resposta ao nosso problema, do que esta. João não teve pressa de se amostrar: esperou até perceber que estava na hora. Até não percebermos dentro de nós a paz de Cristo, é melhor ficarmos escondidos, também porque o mundo não merece a nossa agonia. João esperou a resposta ao sentido da sua vocação no deserto, ou seja, no silencio, na busca interior não desperdiçando palavras com colegas, mas procurando, sobretudo o parecer de Deus. Por isso quando saiu, arrasou! Este versículo é o programa de uma vida. Pode ser pouca coisa, mas para quem está querendo levar a serio a própria única e breve vida, vale a pena escutar o conselho.

 

 

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

Epifania do Senhor

 



(Is 60,1-6; Sal 72; Ef 3,2-3.5-6; Mt 2,1-12)

 

Paolo Cugini

 

1. As solenidades do tempo de Natal encerram com a Epifania do Senhor. A Epifania explica de antemão o sentido da vinda de Jesus no meio de nós: ele veio para unir aquilo que estava dividido: “Os pagãos são admitidos á mesma herança, são membros do mesmo corpo” (Ef 3, 6). Se isso é verdade, a solenidade da Epifania desvende também o caminho que a Igreja deve realizar neste mundo: ser sinal de comunhão e instrumento de paz. As comunidades devem se tornar espaços abertos, aonde qualquer pessoa de qualquer povo possa se sentir bem à vontade e acolhido. É claro que essa abertura toda envolve cada um de nós, naquele espaço de mundo no qual é chamado a viver. Mas o mundo que Jesus veio a apaziguar para se tornar instrumento de comunhão é a nossa mesma humanidade: é em nós que deve acontecer a comunhão. Os braços abertos do menino Jesus são os mesmos da cruz: uma humanidade aberta, que sabe somente se doar. Este é o caminho que a Epifania aponta.

Problema: como a nossa humanidade estragada pelo egoísmo, pode conseguir a se tornar aquele espaço aberto aonde as diferenças vivem em comunhão e os antagonistas se reconciliam?

 

2. “São membros do mesmo corpo, são associados á mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (Ef 3, 6).

 

A nossa humanidade poderá tornar-se espaço aberto somente em Jesus e por meio do Evangelho. Palavras simples, mas amiúde esquecidas. Quantas vezes encontrei nestes anos de sacerdote, pessoas que se massacravam para melhorar as próprias atitudes, mas era evidente que o esforço apoiava tudo sobre eles mesmos, apesar das aparências e das abluções cultuais. Ou, também, quantas pessoas, depois de ter tentado com imediato insucesso de melhorar a própria humanidade, desistem conformando-se á uma vida de baixo nível moral?  Jesus Cristo é o único capaz de sarar a nossa humanidade e faz isso através do Evangelho, porque, segundo são Paulo o Evangelho é potencia de Deus

 (cf. Rom 1,16), ou seja, aquela mesma força que agiu na Ressurreição de Jesus, age no Evangelho. Cabe então a nós fazer espaço na nossa vida ao Evangelho de Jesus para deixar a sua luz entrar e iluminar as nossas trevas; deixar a sua verdade bagunçar a nossa vida mergulhada na mentira. São os braços abertos de Jesus no presépio que apontam o caminho que devemos realizar, que é o caminho da confiança sem opor resistência, sem querer saber de antemão aquilo que não podemos saber. Os reis magos caminharam atrás de uma estrela sem saber aonde os levava: esta é a fé! O Evangelho aperfeiçoará as nossas vidas se o seguiremos assim como ele é, e não como nós queremos que seja. A Epifania do Senhor aponta para uma humanidade de braços abertos, uma humanidade sorridente, que olha constantemente na direção do seu Salvador, uma humanidade que aprende a não se queixar toda hora por coisas fúteis, sem nenhuma importância, mas esbanja esperança por todos aqueles que se aproximam.

 

 

3. “ Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém”( Mt 2, 3).

 

Uma humanidade aberta, disponível e generosa, perturba o juízo dos egoístas e hipócritas deste mundo: os carinhas ficam malucos! Logo que Jesus entrou no mundo, Herodes e os poderosos como ele ficaram doidos, porque? Quem é acostumado a controlar tudo,a controlar a própria vida e a vida dos outros para ficar tranqüilo,  não aceita a novidade. Só que o Espírito é novidade, é criativo, não sabe de onde vem e aonde vai (cf. Jo 3). E os cristãos também são livres, simples, amigos de todos, disponíveis a si doar gratuitamente. Esta é a tarefa da Igreja: ser sinal de contradição (Lc 2, 34), incomodando o mundo (Ap 11,10),tirando o mundo do serio. O ódio de Herodes para com o menino Jesus e de deixar pasmos: porque tanta raiva? O que pode fazer um menino para provocar a morte de tantas criancinhas? A Verdade, a Luz, o Amor, a Justiça se fez carne e veio a morar entre nós: é este o problema! Acolhendo o Evangelho na nossa vida, não apenas estaremos deixando espaço para a força de Deus transformar as nossas vidas, mas também nos tornaremos possibilidade de conversão para os outros. E tudo isso tem um preço: o ódio do mundo. “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia” (1Jo 3,13). A solenidade da Epifania, que hoje celebramos, nos lembra que, quem busca Jesus como os Magos que vieram do Oriente para adorar o Senhor, sofre o ódio do mundo que não gosta de Deus e do seu Filho Jesus. Só que nós sabemos que “Deus nos deu a vida eterna e esta vida está em seu Filho” (1Jo 5, 11).

Fitar os olhos no presépio, no menino Jesus não significa permanecer num infantilismo religioso que busca uma espiritualidade ligada a sentimentos passados; pelo contrario preencher os olhos de Jesus menino neste tempo natalino, significa manter viva a esperança que é em nós, para enfrentarmos com mais coragem e força o ódio do mundo.

 

4. “Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho” ( Mt 2,12).

 

Quem busca a Deus de coração puro não ficará desamparado. Quem entrega a própria vida nas mãos de Deus, descobre o sentido do versículo acima citado. Os Magos deixaram tudo para procurar a Verdade e, apesar de tantas dificuldades, voltaram para a sua terra despojados do ouro, incenso e mirra, mas enriquecidos de um encontro que preencherá as vidas deles para sempre. Esta é a verdade misteriosa da fé, que nos coloca num plano diferente da realidade, o plano do Espírito, das coisas do céu (cf Col 3,1), que pode acreditar somente quem vê, e pode ver somente quem busca e é encontrado pelo Senhor. Pois a realidade é esta: Deus em Jesus se manifestou (Epifania) e nele  colocou a vida: cabe a nós descobri-lo para conhecê-lo e, conhecendo-o, amá-lo e amando-o viver para sempre.

 

 

 

Pintadas-Ba       2011                                                                         Pe Paolo Cugini