terça-feira, 14 de dezembro de 2021

VII°DOMINGO-C

 



(1 Sam 26,2.7-9.12-13.22-23; Sal 103; 1 Cor 15, 45-49; Lc 6, 27-38)

 

Paolo Cugini

 

1. O Evangelho que acabamos de ouvir joga na nossa cara um problema radical: a incapacidade de amar o inimigo que, em outras palavras, podemos chamar de ódio. Não existe um cristão sequer que admita isso, mas na realidade se trata disso mesmo: o ódio. E o ódio não vem de fora, mas de dentro de nós (Cf. Mc 7). Por isso não queremos admiti-lo: é duro demais. Ninguém quer ser considerado um monstro, pior ainda se for um cristão conceituado, de respeito. Não posso aceitar algo que, com as palavras e a postura externa, estou negando. A coisa pior que pode acontecer é a justificação do ódio como algo de natural. Quando isso acontecer, quer dizer que a Palavra de Deus não tem mais poder sobre nós. Então, as leituras de hoje são por aquelas pessoas que, perante uma Palavra forte e clara, não ficam resistindo, se justificando, mas se questionam, procurando melhorar a própria existência.

 

2. “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam e rezai por aquele que vos caluniam” (Lc 6,27-28).

Engolir estas palavras não é pouca coisa não. Pensar que a nossa vida cristã deve passar necessariamente pela atitude que Jesus acabou de apontar, requer uma verdadeira mudança de vida. Talvez seja este o fascínio do Evangelho e da proposta cristã: é algo fora das possibilidades humanas, é algo possível somente através de uma intervenção do alto. Só Deus mesmo pode nos ajudar á amar as pessoas que nos odeiam, que infernizam a nossa vida, que cada dia tentam de destruir a nossa existência, que falam mal da gente na rua. O problema, colocado de um ponto de vista humano seria o seguinte: precisa amar estas pessoas? Porque dar ousadia para alguém que me odeia, que não gosta de mim e faz questão de tudo mundo saber disso? Aquilo que nós resolvemos fazer em circunstâncias aparecidas é fechar a cara, não dar ousadia, viver como se estas pessoas não existissem. Na realidade, apesar dos nossos esforços, o ódio das pessoas afeta a nossa alma ,deixa a gente mais fraca, debilitada. O homem, a mulher, não tem poder de enfrentar o ódio. Ignorar o ódio, fechar a cara com os nossos inimigos, não resolve o problema na raiz: vai chegar o dia que estouramos, que não agüentamos mais, pois, o ódio acumulado no tempo destrói e corroe devagarzinho a nossa alma. É como um câncer que, lentamente, afeta o organismo humano.

“Amai os inimigos” é a única forma de destruir o câncer do ódio. Só opondo o amor ao ódio, este devagarzinho desfalece, desmorona. O mesmo são Paulo, encerrando a carta aos Romanos, aconselhava de responder com o bem, o mal que recebemos. Somente encontrando o amor, o ódio perde a própria força devastadora, aniquiladora. E aqui entra o nosso problema: aonde encontrar uma força dessa? Como conseguir aquela lucidez que nos leva a retrucar com o amor ao ódio que recebemos, num momento aonde a nossa mente está totalmente confundida, por causa dos golpes mortais do ódio? É fácil falar, escrever, meditar em cima disso, mas quando na vida cotidiana estamos sendo massacrados por alguém, como conseguir a viver o conselho evangélico de Jesus?

 

3. “Então a vossa recompensa será grande e sereis filhos do altíssimo” (Lc 6, 35).

A primeira simples resposta ao problema levantado pelo mesmo Evangelho é esta: não deixar que o mau presente obscureça o horizonte da nossa vida. Manter constantemente a nossa mente, o nosso coração em Deus. É aquilo que nos aconselha o autor da carta aos Hebreus quando no capitulo 12 escreve: “Caminhai fitando os olhos em Cristo, o autor da vossa fé”. Para que a nossa mente fique constantemente em Deus, pensando constantemente aquilo que Deus realiza em nós através de seu Filho, ou seja, a possibilidade de nós mesmos nos tornarmos filhos de Deus, precisa abastecer a nossa alma da sua Palavra. Este é o sentido autentico da oração. De fato, devo aprender a procurar a Deus não apenas na hora do aperto, da dificuldade, mas manter um constante dialogo com Ele. Só assim o mal recebido no momento presente, poderá ser colocado dentro um horizonte de vida e de caminhada bem maior. Quando o ódio me afeta de uma forma tal que não me deixa dormir, é um sintoma claríssimo que não estou imunizado contra isso, e não estou imunizado porque a minha vida não é alicerçada em Deus, mas em mi mesmo. Uma vida embrulhada no egoísmo, em outras palavras uma vida orgulhosamente em busca de si mesma, não agüenta a força devastadora do mal, do ódio. Quem não reza será forçado a sucumbir ao ódio do mundo.

Em segundo lugar, a melhor maneira para aprendermos a viver o Evangelho nestes momentos terríveis, é abastecer a nossa alma com a vida daquele que doou a própria vida para todos nós, perdoando no mesmo momento da morte violenta, os próprios algozes. Por isso a Eucaristia é fundamental nessa caminhada. Na Eucaristia nós comemos o Corpo de Cristo, o Corpo do Filho de Deus, que não apenas nos convidou á amar os inimigos, mas fez ele primeiro aquilo que falou para nós. Alimentando a nossa alma com consciência daquilo que estamos fazendo e não por costume, o amor de Cristo derramado em nós pelo sacramento que recebemos, transformará o ódio que mora em nós em amor. Este é o sentido da nossa fé em Deus e no seu Filho Jesus. A Igreja nos ensina á acreditar que, aquilo que ouvimos e vimos na humanidade de Jesus, se realiza já nesta vida presente em todos e todas as pessoas que se alimentam do seu corpo. Não existe possibilidade de amar a não ser em Cristo, por Cristo e em Cristo.

 

4. Como, então, saber se as Eucaristias que estamos participando, estão surtindo efeito? Qual é a prova que estamos amando os inimigos e não apenas lidando com eles excluindo-os da nossa existência?

“Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva” (Lc 6, 30).

A verdade do amor de Deus na nossa vida, não se esgota num simples sentimento interior, mas se manifesta exteriormente no desapego ás coisas materiais. O amor verdadeiro que vem de Deus e que nós vimos realizado em Jesus Cristo, liberta as pessoas. A verdade desta Eucaristia não é o cumprimento de um preceito, mas a transformação da nossa vida, das nossas atitudes, dos nossos relacionamentos. A verdade de cada Missa, é um pouco mais de liberdade na nossa vida. Comer o Corpo de Cristo no Domingo significa aceitar que seja Ele o principio inspirador da nossa existência. Aquilo que deve acontecer fora da porta da Igreja é uma experiência de vida nova, aquela vida nova moldada pelo amor de Cristo. Pois esta é a verdade: em Cristo somos criaturas novas, homens e mulheres novas. Vivamos, então, conforme aquilo que recebemos.

 

Pe Paolo Cugini, Tapiramutá-BA

 

 

                                                                                                                                             

IV°DOMINGO DO TEMPO COMUM/C

 




(Jer 1,4.5-17;Sal 71; 1 Cor,31-13,13; Lc 4,21-30)

 

 

Paolo Cugini

 

1. Estamos celebrando os primeiros domingos do tempo comum e a liturgia da Palavra nos oferece a oportunidade de aprofundar o nosso conhecimento de Jesus, o Salvador do mundo e da nossa vida. A presença de Jesus na historia é algo de radicalmente novo: nunca houve uma pessoa com um carisma tão grande que até hoje, depois de dois mil anos, influencia a vida de milhões de pessoas. Nunca teve um homem que se declarou Deus e que, nos atos, manifestou a verdade da própria identidade. Escutar essa pessoa, ficar atentos, fitar os olhos nele para captar a sua proposta, que para nós é vida: é isso a tarefa de um Cristão. Para conseguirmos realizar isso, precisamos limpar a nossa mente, a nossa alma, fazer espaço na nossa vida dos falsos conhecimentos, da superficialidade que nos caracteriza. O perigo é identificar a proposta inovadora de Jesus com um programa político, ou com uma proposta humanitária. O grande perigo é puxar Jesus do nosso lado, fazendo dele um ídolo, sem ter entendido nada  da sua proposta, perdendo assim a ocasião de conhecê-lo por aquilo que Ele é: o Santo de Deus.

 

2. No evangelho que acabamos de ouvir Jesus, logo que entra no mundo, que manifesta a sua identidade, provoca uma reação negativa. Isso é já um sinal que deve ser escutado, absorvido: Jesus não veio ao mundo para agradar ninguém. A proposta de Jesus não é política, mas espiritual. Jesus é o Caminho proposto para o Pai para permitir ao homem de sair do seu egoísmo, do orgulho, de uma vida negativa mergulhada na mentira. A vida de Jesus, o seu jeito de ser, de viver, de agir, de falar manifesta isso, descortina a nossa loucura, a nossa vida sem rumo e sem sentido. A vida cheia de Jesus, repleta de sentido, desvende o nosso vazio: existencial, moral, religioso. De fato, quantas pessoas que o mundo apresenta como heróis, na realidade não apresentam nenhuma proposta positiva? E também, quantas pessoas assim chamadas “religiosas”, não representam para nós uma proposta atraente?  Todo este vazio, este nada que o mundo tenta esconder com as suas artimanhas, perante Jesus aparece em toda a sua verdade, ou seja, em toda a sua miséria. Perante a pessoa de Jesus o mundo aparece como miserável e todos aqueles que estão mergulhados nas propostas mundanas aparecem como um monte de miseráveis, perdidos, sem futuro. É isso que doe e que ninguém quer escutar. Por isso logo que Jesus entra no mundo e se manifesta, provoca raiva. É a raiva do mundo.

 

“Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se o expulsaram da cidade” (Lc 4, 28-29).

 

Jesus mexe com o alicerce do mundo, com aquilo que fundamenta e, ao mesmo tempo alimenta o mundo, ou seja, a ignorância. O mundo é ignorante, não conhece a verdade porque não conhece a Palavra de Deus. De fato, perante a postura dos judeus que questionavam as palavras de Jesus, ele cita dois trechos do Antigo Testamento que mostram a verdade da sua atitude. O mundo é ignorante e, sendo assim, vive na ignorância, na ausência de conhecimento. Uma pessoa que vive na ignorância não sabe distinguir a verdade da mentira. Desta forma, podemos afirmar que, as pessoas mundanas, vivem na ignorância.  O mundo é interessado a deixar as pessoas na ignorância, para que não vivam da verdade. O mundo egoísta e orgulhoso se alimenta de mentiras, não quer saber de caridade alguma.

 

“A Caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa não se ensoberbece, não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor” (1 Cor, 13, 4-5).

 

São palavras de Paulo que ouvimos na segunda leitura de hoje: a caridade, que é Jesus, a sua vida, a sua maneira de ser é exatamente o contrario do egoísmo do mundo. Entre o mundo e Jesus não tem amizade: precisa escolher. Se na nossa vida estamos tentando amenizar a proposta de Jesus, querendo mostrar que a nossa vida mundana não tem nada a ver com a religião, é porque estamos totalmente mergulhados na mentira do mundo e, quem vive no mundo e do mundo, não, sabe de nada porque não enxerga a verdade.

O fato que sinto raiva de Jesus, não é totalmente negativo: é pior aquele que não sente nada. De fato, se as Palavras de Jesus doem dentro de mim, quer dizer que ainda estou sensível, ainda a verdade mexe comigo. Esta sensibilidade á Palavra de Jesus é o primeiro passo da conversão. Deve acontecer um dia que alguém me mostre a minha real situação espiritual. Se não tiver este encontro com a Verdade de uma forma que descortina de uma vez as minhas maracutaias, dificilmente conseguirei seguir Jesus.

 

3. “ Não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna Del ferro, num muro de bronze contra todo o mundo” (Jer 1, 17-18).

 

Tudo aquilo que aconteceu em Jesus, em virtude do seu Espírito que recebemos no Batismo, deve acontecer conosco. Quer dizer que como por Jesus, também por nós, a nossa existência deve se tornar tão transparente, tão santa da incomodar as pessoas, até os nossos amigos e parentes. Deus decidiu de salvar o mundo mandando o seu mesmo Filho para que tudo mundo pudesse ter a possibilidade de deparar com a Verdade. Jesus hoje é presente na sua Igreja, é presente nos cristão que se reconhecem pelo fato que incomodam, pelo fato que a vida deles é diferente. De fato a vida do cristão, não é baseada no egoísmo, no desejo de aparecer ou de querer sempre mais, mas, pelo contrario, um cristão, seguindo o exemplo de Jesus, deseja se doar, partilhar com os irmãos, deseja contribuir á realização do Reino de Deus, que é um reino de Justiça, de Paz e de fraternidade. Só que, logo que se esforça de viver isso com entusiasmo e dedicação, o mundo vai encima dele com tudo. É isso mesmo aconteceu também com o profeta Jeremias, cuja historia escutamos na primeira leitura. Perante a sua queixa por aquilo que estava acontecendo com ele, Deus não prometeu de amenizar o sofrimento, mas de fortalecer a sua vida, para que sentindo a presença de Deus, não recuasse de um passo perante a maldade do mundo, ma avançasse sem medo.

 

4. É isso mesmo que pedimos a Deus como fruto desta Eucaristia: de ficar firmes na nossa caminhada, também perante as dificuldades e as criticas do mundo, para sermos sinal de uma vida diferente, mais autentica e verdadeira. Pedimos a Deus que faça de nós não pessoas medrosas, inconsistentes, incapazes de levar em frente a sua proposta de amor, mas, pelo contrario pedimos que esta Eucaristia nos transforme para conseguirmos ser como Jeremias, “cidades fortificadas”, que ninguém poderá derrubar.  Seja, então, o Senhor a nossa única força.

 

Pe Paolo Cugini- Tapiramutá-BA

 

 

 

 

III° Domingo do tempo comum/C

 



(Ne 8, 2-6.8-10; Sal 19; 1 Cor 12, 12-30; Lc 1,1-4;4,14-21)

 

 

Paolo Cugini

 

1. “Jesus voltou para a Galiléia com a força do Espírito e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam” (Lc 4,14).

 

No começo deste ano litúrgico a liturgia da Palavra está nos propondo os primeiros passos da ação evangelizadora de Jesus. E, assim, o encontramos hoje pregando nas sinagogas da Galiléia provocando a admiração do povo. Elogios que já de antemão sabemos que não surtiram nenhum efeito, mas, pelo contrario, provocaram a raiva dos fariseus e dos chefes religiosos do tempo. Isso para nós é já uma indicação importante: a Palavra de Deus que Jesus pronunciou, não serve para provocar a nossa admiração, mas a nossa conversão, a mudança das nossas atitudes humanas. Também porque a Palavra de Deus não tem como objetivo golpear os nossos sentidos carnais, mas a nossa alma.

É de fato, uma Palavra cuja essência não é aquela de ficar em superfície, mas, pelo contrario de “penetrar até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Ela julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4, 12).

 A Palavra é vida, é a vida eterna por aqueles que a acolhem. É por isso que os fariseus procuravam matar Jesus: “porque a minha Palavra não penetrou em vós” (Jo 8, 37).

 Jesus é a luz verdadeira que ilumina todo homem, é a luz que brilha nas trevas, mas as trevas não a acolheram (Cf. Jo 1, 1-14).  Mais uma vez, não basta ficarmos entusiasmados para aquilo que sentimos numa celebração, num momento litúrgico, numa missa o numa outra experiência religiosa: aquilo que conta é abrir espaço para que Jesus entre na nossa vida. O objetivo de Jesus não é produzir uma empolgação nos ouvintes, mas o desejo de segui-lo, de mudar de vida. De fato o Evangelho de hoje encerra com este versículo deslumbrante:

 “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21).

 Jesus se apresenta como o cumprimento da Escritura, quer dizer que a Palavra de Deus não é uma letra morta, mas uma pessoa viva, um estilo de vida, um jeito de ser, de viver, de amar: a Palavra de Deus é o mesmo Jesus. É o seu estilo que deve penetrar dentro de nós, para moldar a nossa existência e assumir a forma de Cristo, a Palavra que se fez carne, que se manifestou e veio a morar no meio de nós.

 

2. O problema, então, é o seguinte: como isso pode acontecer? O que precisa para o homem, a mulher acolher a Palavra de Deus? Quais são as condições necessárias para que a Palavra de Deus não fique na superfície da nossa vida, mas penetre na nossa alma?

 

“Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até o meio dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei” (Ne 8, 3).

 

São duas as características necessárias para a Palavra de Deus entrar na vida de uma pessoa: a possibilidade de compreender e a atenção.

Compreender, neste contexto, não se refere às capacidades humanas, a inteligência humana, mas ao desejo de entender o caminho de Deus, a sua vontade. Tarefa da Igreja, nessa altura, é criar as condições para que a leitura da Palavra possa ser compreendida. Jesus mesmo um dia falou que não podemos jogar as perolas aos porcos, ou seja, não podemos pregar a Palavra de Deus num contexto aonde o povo não está predisposto ao entendimento. Em segundo lugar, para que a Palavra de Deus penetre nas almas dos fieis, precisa de atenção, ou seja, do esforço de limpar a própria vida de qualquer coisa que possa atrapalhar o entendimento daquilo que estamos escutando. Uma pessoa que anda distraída não irá sem duvida nenhuma criar espaço na sua alma para a Palavra de Deus entrar.

3. Quais são os primeiros frutos da Palavra de Deus quando penetra na alma da pessoa?

“Não fiquei tristes nem choreis, pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da lei... Não fiqueis tristes, porque a alegria do Senhor será a vossa força” (Ne 8, 9.10).

 

Em primeiro lugar quando a Palavra encontra espaço na vida das pessoas, provoca o choro. A Palavra descortina as trevas, o amor de Deus desvende o ódio escondido na nossa alma, a gratidão de deus manifesta o nosso egoísmo. Não existe pessoa tão dura de coração que possa agüentar a verdade da Palavra de Deus. É o choro de Pedro na noite da morte de Jesus, quando o Mestre o olhou depois de Pedro ter renegado Jesus por três vezes. Aquele olhar fez Pedro desmoronar, sentiu o mesmo olhar de Deus dentro de si. Ou, também, o choro da mulher adultera aos pés de Jesus: ninguém agüenta a santidade de Deus. Este é o primeiro fruto da Luz que esbanja a Palavra de Deus: tomar consciência da tristeza da minha vida mergulhada no pecado. Só que não podemos apenas ficar chorando o tempo todo. É por isso que ao mesmo tempo A Palavra de Deus deve suscitar em nós o sorriso, a alegria. Deus, de fato, com Jesus, a Palavra viva, nos mostra uma saída, uma chance de uma vida nova, uma possibilidade concreta de viver buscando antes de tudo o Reino de Deus e a sua Justiça (Cf. Mt 6,22-32). Quem não vislumbra na Palavra um caminho diferente de vida, uma possibilidade de sair concretamente da multidão anônima para uma vida mais autentica, não chorou  ainda com sinceridade sobre a própria condição, ou seja, não tomou ainda claramente consciência da própria situação de pecado e de que forma este estrague a vida.

 

Que a Palavra de Deus possa ser a nossa verdadeira e única esperança.

 

 

Tapiramutá.                                                                                               Pe Paolo Cugini

 

 

 

 

II DOMINGO DO TEMPO COMUM/C

 



(Is 62, 1-5; Sal 96; 1Cor 12,4-11; Jo 2,1-11)

 

 

Paolo Cugini

 

1. Buscamos a gloria dos homens: é isso que, deste a infância, se torna a nossa maior preocupação.  E é também por isso que ficamos angustiados. Buscamos a gloria dos homens como manifestação do desejo de viver. E depois chega um dia em que percebemos que, para o mundo, não somos nada e nunca valeremos algo.  Também porque, para ser alguma coisa no mundo, tem que pagar um preço que nem tudo mundo é disposto a pagar. Agora ai vem a pergunta: pra que viver? Por que vale a pena viver se, depois da nossa morte, ninguém lembrará mais de nós? Talvez os filhos, os amigos mas, com a andança dos tempos, não é fácil arrumar um filho ou um amigo no qual confiar. Do outro lado a gente percebe que apesar destas descobertas, a vida deve ser, de uma qualquer forma, preenchida: não dá pra ficar o tempo todo, a vida toda parados, sem fazer nada. Mas, então, fazer o que? Cantar: pra que e pra quem? Escrever? Mesma resposta. Qualquer atividade humana realizada por nós humanos, necessita de um fim, um objetivo: se não for assim, parece que não tem graça. Além disso, este objetivo, esta meta deve ser daquela bem pesada. Isso vale também pelos relacionamentos: porque buscamos alguém? Porque uma festa não é boa se não arrumamos alguém? Precisamos de aprovação, de alguém que goste de nós, diversamente ficamos tristes, abatidos, perdidos. O homem, a mulher, parece um bicho super complicado.

 

2. “ E manifestou a sua gloria” (Jo 2,11).

Jesus procurava a gloria de Deus. Por isso em tudo aquilo que ele fazia, Deus era glorificado. No milagre que acabamos de escutar, Deus foi glorificado. Só que o evangelista nos alerta para olharmos além do dato material do milagre. Transformando a água em vinho Jesus quis dizer algo que está escondido ao entendimento humano. Para descobrirmos o sentido profundo deste milagre, precisamos sair de uma mentalidade materialista, para entendermos o sentido espiritual. Se Cristo revelou para nós o sentido da vida humana, então é pra ele que devemos olhar para vivermos uma vida mais autentica. Na nossa vida, como na vida de Jesus, deve manifestar-se a gloria de Deus e isso acontece quando a nossa humanidade é atingida pela graça de Deus. Qual é, então, o sentido desta transformação apontada pelo milagre?

O primeiro é a vida sacramental. Se a água aponta para o Batismo e o vinho para a Eucaristia, então de uma certa forma o Evangelho de hoje nos sugere que o Batismo que recebemos deve transformar-se em Eucaristia, ou seja em vida de gratidão, em ação de graça. Por isso são Paulo na segunda leitura nos revela que o único Espírito que recebemos deve produzir uma diversidade de carismas, de dons. A verdade do batismo que recebemos está no descobrimento da nossa identidade, da nossa vocação. Ninguém merece um batizado paradão, que vai à Igreja só para sentar de braços cruzados. O Espírito que recebemos nos sacramentos tem como objetivo de transformar a nossa vida, mostrando o sentido autentico da nossa identidade, apontando o motivo autentico da nossa existência. É por isso que participamos da Igreja, não com a mentalidade mundana que nos leva a querer algo em troca, mas com a mentalidade e o pensamento de Cristo que se doou por amor, gratuitamente.

Um segundo sentido do milagre narrado do evangelho o encontramos observando com atenção aquilo que aconteceu. Se a água transformada em vinho é símbolo da vida e, então da nossa humanidade, isso quer dizer que nascemos para sermos transformados. A nossa humanidade deve ser transformada pela graça de Deus, para realizar e se tornar conforme aquilo que foi pensada deste a eternidade, ou seja imagem de Deus. Uma humanidade que não se abre á ação santificadora de Deus, é destinada a ficar estragada pela ação do pecado. De fato, não precisa de muita inteligência para observar o que acontece com as pessoas que não buscam a Deus.

 

3. O sentido mais profundo do sinal que Jesus realizou no Evangelho de hoje o encontramos na primeira leitura. As finais de contas poderiam nos perguntar: como podemos saber que estamos deixando a graça de Deus transformar a nossa humanidade?

Poderíamos responder que este marco de Deus em nós é a inteligência que se concretiza na capacidade projetar.

”Serás chamada com um nome novo, que a boca do Senhor há de designar” (Is 62, 2).

 Quando Deus quer uma coisa, não a realiza em cima da hora, mas planeja por tempo o processo para alcançar o objetivo. Isso é bem visível na profecia de Isaias da primeira leitura. De fato, Isaias revela o projeto de Deus de fazer de Israel, que estava passando por um período ruim da própria historia, algo de novo, estava até querendo mudar o seu nome para evidenciar este projeto de uma forma contundente. Esta maneira criativa e inteligente de Deus entrar na historia, deveria ser a característica dos cristãos. Uma humanidade renovada pela ação do Espírito Santo entra na historia com inteligência, com criatividade, não assume um compromisso para abrir de mão no momento da dificuldade. Um cristão que se abre á ação do Espírito Santo aprende a enfrentar os problemas não em cima da hora, mas organizando o seu tempo, planejando as estratégias para que a tarefa assumida saia do papel. Toda vez que não levamos enfrente uma tarefa da Igreja ou de qualquer outra instituição é porque não estamos acreditando naquilo que estamos fazendo. A transformação da água em vinho quer dizer que a nossa vida tem sabor quando conseguimos realizar as tarefas que assumimos.

 

4. “Cantai ao Senhor Deus um canto novo” (Sal 96)

Se for verdade que cada Eucaristia é um encontro misterioso com Cristo, então rezemos para que neste encontro de hoje, a sua humanidade toque e transforme a nossa, para uma vida com mais sabor e sentido.

 

 

Tapiramutá, 14.1.2007                                                                                   Pe Paolo Cugini

 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

JOGA FORA A CAPA

 




DOMINGO XXX / B

(Mc 10, 46-52)

Paolo Cugini

 

No Evangelho da semana passada, o evangelista Marcos colocou como protagonistas da narração dois discípulos, Tiago  e João, chamados pelos ímpetos e exuberâncias dos filhos do trovão, que manifestam sua surdez para a Palavra de Jesus. O pedido que fizeram de sentar-se à sua direita e à sua esquerda, revela a incompreensão do conteúdo da proposta de Jesus: para eles vale o ditado: têm ouvidos, mas não ouvem. No Evangelho proposto neste domingo, continua a apresentação das dificuldades que os discípulos têm para compreender plenamente a mensagem do Mestre, dificuldade que se manifesta na incapacidade de se distanciar do próprio pensamento e de projetar sobre jesus expectativas que não pertencem a ele. Mas vamos à história.

Jesus deixou Jericó com seus discípulos e uma grande multidão. A expressão de Jesus que parte de Jericó é indicativa, porque foi justamente em Jericó que a conquista da terra prometida começou pelas mãos de Josué. É como se Marcos quisesse enfatizar que a terra que representava o sonho da liberdade em relação ao domínio egípcio, tornou-se agora uma terra de escravidão da qual é melhor sair, escravidão por causa daquelas leis que, em vez de libertar o homem, aprisionaram dele.

Bartimeu, filho de Timeu, que era cego, estava sentado à beira da estrada mendigando. Ouvindo que era Jesus de Nazaré, ele começou a clamar e dizer: "Filho de Davi, Jesus, tem misericórdia de mim!"

Bartimeu é um nome composto por uma palavra aramaica - bar - que significa: filho, e timaios , palavra de origem grega que significa: honrado. Parece, portanto, que se trata de uma repetição do mesmo nome, talvez para indicar os dois discípulos protagonistas da narração anterior, a saber, Tiago e João. Nome simbólico, portanto, que indica o discípulo que está cego pelas suas ideias a ponto de não poder "ver" a novidade da proposta de Jesus. Na verdade, o cego chama Jesus de: filho de David, aquela denominação que vem daquela tradição profética que identifica o messias, sucessor de Davi, como aquele que libertará Israel do opressor com força e violência. No entanto, Jesus, desde o início em suas palavras e em suas escolhas, manifestou-se tudo, menos violento. Jesus veio para anunciar o Reino de Deus, uma possibilidade de vida fora dos esquemas de abuso e violência, mas dominada pela igualdade e pelo amor. Chamar Jesus pelo nome de filho de Davi significa não ter entendido sua mensagem, não ter apreendido a novidade de sua proposta. Esta é a grande cegueira de Bartimeu, que simboliza a cegueira dos discípulos, daqueles que deturpam e não compreendem a fala de Jesus, porque estão cegos pelas próprias ideologias.

Jesus parou e disse: «Chame-o!». Chamaram o cego, dizendo: «Coragem! Levanta, ele te chama! ». Ele tirou o manto, deu um pulo e foi até Jesus, que lhe disse: "O que você quer que eu faça por você?" E o cego respondeu-lhe: "Rabi, posso ver de novo!"

É o cego que se encaminha para Jesus, movimento que indica o caminho da conversão, da mudança de mentalidade. Existe, em primeiro lugar, a voz de Jesus chamando-o. Ouvir a palavra do Senhor é a única que nos pode abalar das nossas certezas, que não nos permitem viver em plenitude, de forma autêntica. Então, é a comunidade que convida os cegos a se levantarem. Destaca-se o papel da comunidade, chamada a ajudar as pessoas no caminho de compreensão de sua mensagem. Em qualquer caso, nem a Palavra do Senhor nem a comunidade podem produzir qualquer tipo de mudança se não houver envolvimento pessoal da pessoa em questão. Antes de se levantar de um salto, o cego tira o manto, claro símbolo daquelas ideologias que até agora não lhe permitiram "ver" o Senhor, perceber a bondade da sua proposta. A pergunta de Jesus fala da liberdade necessária no caminho de fé, que é uma proposta e não uma imposição.

Jesus disse-lhe: "Vai, a tua fé te salvou."

São Paulo tem razão quando afirma na carta aos Romanos que é a fé que salva o homem e a mulher de uma vida inautêntica. O que é fé? No caso em questão é o caminho percorrido pelo cego, um caminho que vai desde a escuta da Palavra, até à ajuda da comunidade e, sobretudo, desde o seu gesto de atirar fora o manto e depois levantar-se e partir. A fé é a coragem de jogar fora o que nos impede de nos levantar, de ver. O manto é o símbolo daquela realidade feita de tradições humanas que não nos permitem apreender a beleza do Evangelho, Jogar fora o manto: é o que o Evangelho nos pede hoje.

 

sábado, 14 de agosto de 2021

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA




    Paolo Cugini

 

Embora o dogma da Assunção de Maria seja recente (1950: é o último dogma formulado pela doutrina católica), a reflexão sobre este mistério da fé é muito antiga. Na verdade, a literatura apócrifa sobre a Assunção da Virgem Maria ao céu é abundante. São cerca de sessenta obras, transmitidas em manuscritos que datam do século V em diante e escritas em diferentes línguas: grego, latim, etíope, árabe, armênio, copta, siríaco, eslavo e gaélico. Além disso, a produção sobre o tema em questão durante a época medieval é muito rica, atestada em muitas línguas. Segundo os estudiosos, o início da tradição na Assunção de Maria remonta ao século II a.C. no campo gnóstico.

A tradição da permanência de Maria em Jerusalém no último período de sua vida é bastante sólida, atestada pela Escritura (Jo 19,25; At 1,14; Gl 2,9) e a história se baseia em um fato bastante certo a partir do ponto do ponto de vista da crítica histórica. É natural pensar que Maria, nos últimos anos de sua vida, foi vivida e protegida pela comunidade cristã de Jerusalém em uma das casas que ocupava. Seu sepultamento, então, teve que ser cuidado, com particular atenção, pelos apóstolos, e ela teve que ser enterrada na área funerária de Jerusalém, perto do riacho de Cedron, na parte oriental da cidade. Esta área sepulcral já se encontrava em funcionamento no século I, de acordo com escavações arqueológicas recentes.

     A elaboração da narrativa do fim da vida de Maria inspira-se e, em certa medida, segue-se ao fim da vida de Jesus, com base nos Evangelhos e na tradição cristã que se desenvolveu posteriormente. Esta é a sequência: um anjo consola Maria nos momentos de angústia e tormento antes da sua morte e anuncia o que lhe acontecerá, como um anjo consolou Jesus poucas horas antes da sua morte (cf. Lc 22,43-44). Todos os apóstolos, incluindo Paulo, acompanham Maria durante a sua morte e sepultamento, o que não aconteceu no caso de Jesus. Maria está acompanhada por três virgens que a assistem, assim como Jesus estava acompanhado e era vigiado na cruz por três mulheres ( Jo 19:25). Maria não será vítima de nenhum ataque do diabo e, como aconteceu com Jesus, ela não cairá nas mãos de Satanás, mas o vencerá protegida pela força divina. Finalmente, Maria é sepultada em um novo sepulcro fora de Jerusalém e no terceiro dia seu corpo e sua alma, como para Jesus, são glorificados.

O relato da Assunção, tal como é relatado nos textos apócrifos dos primeiros séculos da Igreja, não se limita a narrar o fim da vida de Maria, mas também tenta explicar o sentido do seu falecimento e a recompensa celestial que ela foi merecedora. A narrativa pretende afirmar que Maria morreu realmente (apesar da discussão dos teólogos a esse respeito) e que ela foi realmente glorificada (a modalidade também é objeto de discussão).

Irmãos, Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que morreram (1 Cor 15,20).

A segunda leitura de hoje pretende nos ajudar a refletir sobre o significado da Assunção de Maria e por que ela é importante no caminho de fé. A Assunção de Maria torna verdadeiro o discurso de Paulo que nos lembra na primeira carta aos Coríntios que a ressurreição de Cristo não é um acontecimento isolado, limitado apenas a Ele, mas é "as primícias dos que morreram". Jesus, portanto, é o primeiro de uma longa série e Maria é o exemplo da verdade daquilo que Paulo afirma. Jesus com a sua paixão, morte e ressurreição abriu uma passagem no céu, para que todos os que seguem o seu caminho possam entrar. “Ele baixou os céus e desceu” diz o salmo 18. Com a sua ressurreição, Jesus não baixou apenas os céus, mas abriu uma brecha para todos os que ouvem a sua Palavra e a colocam em prática.

Portanto, invoquemos Maria para nos ajudar todos os dias a viver como seu Filho e, assim, também nós passaremos com Ela, deste mundo da morte, ao mundo da vida.

sábado, 3 de julho de 2021

JESUS VEIO PARA NOS LIBERTAR DA RELIGIÃO

 



DOMINGO XIV / B

(Ez 2, 2-5; Sal 122; 2 Cor 12,7-10; Mc 6: 1-6)

Paolo Cugini

 

A liturgia de hoje nos propõe uma reflexão sobre algumas questões interligadas, relacionadas com a dificuldade que Jesus encontra em seu ministério e, em geral, as dificuldades enfrentadas por aqueles que desejam orientar espiritualmente suas vidas , tendo Deus e Sua Palavra como um ponto de referência. É uma dificuldade que não diz respeito a um povo específico ou a um período histórico específico. Na verdade, é um problema que encontramos em todas as épocas e em todos os tempos. Certamente, a resistência que Jesus teve de registrar contra sua proposta é notável, especialmente por parte daqueles que deveriam ter aceitado esta proposta, isto é, os religiosos.

   “ Quando chegou o sábado, ele começou a ensinar na sinagoga. E muitos, ouvindo, maravilharam-se e disseram: «De onde vêm estas coisas? " (Mk 6,2). No Evangelho de Marcos, Jesus entra na sinagoga três vezes. Na primeira, foi interrompido. Na segunda, piorou porque tentaram matá-lo, porque Jesus curou uma pessoa no dia de sábado, despertando a ira dos fariseus. Para Jesus, o bem da pessoa vem antes da observância da lei; na verdade, a observância das leis de Deus está a serviço do bem das pessoas. A terceira vez, corresponde ao episódio do Evangelho de hoje e temos todos os pressupostos positivos de um encontro que deve correr bem pelo facto de ir a Nazaré, que é a sua terra natal, entre os seus familiares e amigos. Mas, mesmo aqui, Jesus encontra forte resistência, porque seu ensino não é como o dos escribas, que repetem fórmulas e realizam rituais pré-estabelecidos sempre da mesma maneira. Pelo contrário, o ensinamento de Jesus é a proposta de uma nova relação com Deus, que não se baseia na observância de suas leis, mas na aceitação de seu amor, o que exige novas relações com os irmãos e irmãs da comunidade. É justamente essa novidade que surpreende os que estão na sinagoga, a ponto de questionar seu ensino. "De onde vieram essas coisas?" Pergunta que diz todo o cepticismo em relação às palavras de Jesus, questiona-se a proveniência divina e a procura do ambiente de proveniência da sua doutrina indicada como feitiçaria. A referência, de fato, às mãos - os prodígios como os executados por suas mãos - indica uma origem mágica ou mesmo da bruxaria e, conseqüentemente, uma pesada acusação de impostor, vigarista, quem quer chamar a atenção das pessoas enganando-as com truques. Os homens da sinagoga, da religião do templo, incomodam-se com a forma gratuita e desinteressada da ação do Mestre Jesus, atento aos fracos, que dá lugar aos pobres. Muito pelo contrário, dos líderes religiosos, interessados ​​em dinheiro, gostavam de serem homenageados pelo povo, e vestiam-se de maneira luxuosa. O estilo de Jesus desmascara a hipocrisia dos líderes religiosos que, para se defenderem, não têm outro meio senão a calúnia e a mentira.

" Não é ele o filho de Maria? ...". Mesmo que Jesus esteja em seu país e por isso seja conhecido, os líderes religiosos não o nomeiam, pelo contrário, o insultam. Na verdade, ao chamá-lo de filho de Maria, os líderes religiosos insinuam que Jesus, por um lado, não é digno de seu pai e, por outro, é uma pessoa ruim. Nunca em Israel um homem se define como filho da mãe, mas sempre do pai, em virtude da cultura patriarcal que considerava o homem como verdadeiro e autêntico transmissor da paternidade.

« O profeta não é desprezado senão na sua pátria, entre os seus familiares e na sua casa ». Este é o problema básico. Na verdade, Jesus não se identifica com o sacerdócio, que era dominante em sua época. Jesus identifica a sua pessoa e a sua missão na linha profética, no caminho de quem viveu a religião, na relação com Deus não como uma profissão, ou como um conjunto de preceitos a serem obedecidos, mas como uma profunda experiência de amor com o Mistério, que eles tentaram transmitir aos seus discípulos.

“ E lá ele não podia fazer milagres ”. A conclusão é terrível e muito triste. Onde há religião, Jesus não pode se manifestar. Onde o relacionamento com Deus é mediado por ritos, doutrinas e dogmas que não conseguem captar o verdadeiro bem das pessoas, Jesus e seu espírito não podem agir. A tarefa da Igreja, então, é libertar os homens da religião, ajudá-los a entrar numa profunda relação de confiança com Deus, num estilo de vida essencial e simples, um autêntico sinal da presença do Deus de Jesus Cristo no mundo.

 

sábado, 3 de abril de 2021

PÁSCOA. NÃO BUSCAI ENTRE OS MORTOS AQUELE QUE É VIVO

 




Paolo Cugini

A Semana Santa, com suas liturgias repletas de memórias significativas dos últimos momentos cruciais da vida de Jesus, deve ter aberto nossos corações e mentes à novidade que o Senhor traz com sua ressurreição. Na verdade, passamos do nível da história ao nível da fé. Não é por acaso que, na primeira leitura, Pedro nos avisa que Jesus apareceu depois da sua ressurreição apenas "para nós, que comemos e bebemos com ele depois da sua ressurreição dentre os mortos" (Atos 10:41). É, portanto, aos discípulos que Jesus aparece depois da sua ressurreição e não a todo o povo, como fez quando estava vivo. A meu ver, é um indício importante, pois revela que para entrar no mistério da ressurreição de Jesus é necessário vir de um caminho, movidos pela vontade de conhecer o Senhor, que nos ajuda a fazer escolhas, que nos orienta decisivamente e è como se Jesus, em certo sentido, quisesse nos separar, nos isolar, nos encontrar. Esta nova presença de Jesus na história exige um novo tipo de conhecimento, que nos permite perceber a sua presença apreendendo pistas, interpretando ausências que falam de uma passagem, de uma presença, de um estilo, de um modo de ser.

Neste caminho de percepção do Ressuscitado, o Evangelho de hoje oferece-nos algumas percepções significativas. O que significa aquela corrida de Maria Madalena, de Pedro e do discípulo que Jesus amava? A primeira cena da ressurreição narrada por João é caracterizada por uma busca por um lugar onde Jesus não pode estar e que, posteriormente, gera uma série de movimentos rápidos. Há uma busca e um movimento rápido que revela um profundo sentimento de amor dos discípulos e discípulas por Jesus, revela a profundidade dos laços que, em pouco tempo, Jesus estabeleceu com aqueles que o seguiram. A de Jesus foi uma presença que preencheu, que deu sentido às coisas, aos gestos, às escolhas. A experiência do grupo de discípulos é caracterizada pelo contato cotidiano com Jesus, pelos gestos corriqueiros, por compartilhar tudo com ele todos os dias. Isso diz muito sobre o significado da comunidade cristã, que não pode ser relegada a algum ritual ou evento semanal durante o ano. Há uma humanidade que deve ser envolvida, há contatos humanos diários que falam da verdade de um caminho de fé. A falta de Jesus gera em quem conviveu com ele um profundo sentimento de perplexidade, desespero e por isso o procuram e a percepção de que o seu corpo não está onde um olhar humano o imaginou, gera o pânico, um anúncio:  “Tiraram o Senhor do sepulcro ”(Jo 20, 2), que significa:“ não se pode buscar quem é vivo entre os mortos ”(cf. Lc 24,5). A partir de agora, a busca de Jesus, o desejo de estar com ele, deve ser configurada de uma forma diferente e deve basear-se em uma nova forma de relacionamento.

Na segunda parte do Evangelho de hoje é surpreendente que Pedro e João vejam as mesmas coisas, mas só de João se diz que: "ele viu e creu" (Jo 20,8). Há um ver, portanto, que não provoca a fé no ressuscitado e um ver que, ao invés, abre os olhos para a nova presença de Jesus. A partir das narrativas dos Evangelhos, podemos perceber traços da personalidade e intenções dos discípulos. Assim, se Pedro provavelmente seguiu Jesus pelo que ele poderia representar no processo de libertação do povo de Israel da presença dos romanos, João, por sua vez, ficou fascinado pela personalidade de Jesus e sentiu um afeto paternal por ele, a ponto de ficar atento aos menores detalhes. Para isso, entrando no túmulo vazio e vendo "os panos aí colocados e a mortalha - que tinha estado sobre a sua cabeça - não ali posta com os panos, mas embrulhados num lugar separado" (Jo 20,6-7) Pedro não "vê" nada em particular, enquanto João entende que, aquela maneira de vestir as roupas e a mortalha, era típica de Jesus e, portanto, reconhece os sinais da sua presença, da sua passagem.

A Páscoa de Jesus nos diz que o conhecimento dele passa por detalhes, pistas que só podem ser reconhecidas por aqueles que se dedicam a ele, que estão de boa vontade com o Senhor, que amam ouvir a sua palavra porque ela é a primeira e indicação da sua presença misteriosa: «ainda não tinham compreendido as Escrituras, isto é, que devia ressuscitar dos mortos» (Jo 20,9).

quarta-feira, 17 de março de 2021

UMA NOVA ALIANÇA

 




V DOMINGO DA QUARESMA / B

Jr 31: 31-34; Hb 5,7-9; Jo 12,20-33

Paolo Cugini

 

Aproximamo-nos da Páscoa e a liturgia da Palavra faz-nos vislumbrar o sentido deste caminho espiritual que, ao mesmo tempo, é um caminho de humanização. Jesus é a nova aliança profetizada por Jeremias, é a luz na escuridão da noite, é o grão de trigo que morreu para nos dar vida. Podemos compreender esta novidade libertando-nos de nossas tentativas de auto-salvação, permitindo que o Espírito Santo nos toque no fundo de nossa consciência.

«Porei a minha lei neles, escreverei nos seus corações» (Jr 31,33). Em uma era, a do século VI a.C. em que a Palestina foi ameaçada de todos os lados - Egito do Sul e Nabucodonosor do Noroeste - e era perceptível a iminente ruína, que, como sabemos, acontecerá a partir de 604 a.C., o profeta tenta ajudar o povo, convidando-os a olhar para outro lugar, além da destruição iminente. Se é verdade que a Antiga Aliança não funcionou, a ponto de os sábios de Israel lerem os eventos de destruição social como resultado da desobediência do povo às leis que Deus havia confiado a Moisés, é igualmente verdade que essa falha não é simplesmente um sinal de um fracasso histórico e sem volta, mas torna-se espaço para uma nova possibilidade de vida. Jeremias encoraja o povo de Israel mostrando-lhes uma nova perspectiva, uma nova forma que Deus escolheu para revelar a sua palavra de amor, que orienta as pessoas para uma vida mais autêntica. Há, portanto, uma iniciativa de Deus que surpreendentemente intervém na história não para condenar a humanidade, mas para envolvê-la na sua infinita misericórdia: "Perdoarei as suas iniqüidades e nunca mais me lembrarei dos seus pecados" (Jr 31, 34). É nesta nova aliança de amor que as pessoas são chamadas a repensar e redescobrir uma nova forma de estar no mundo. Essa maneira de proceder de Deus manifestada pelo profeta Jeremias contém, em minha opinião, um grande ensinamento para a comunidade cristã. Em situações difíceis, como a que vivemos na pandemia, em vez de ficar reclamando e pensando nos tempos que passaram, a comunidade cristã é chamada a pensar algo novo, a implementar novas estratégias. As leituras de hoje ensinam-nos que, neste esforço de criatividade, não estamos sós, porque podemos aproveitar os conteúdos que o Espírito derramou em nós, nas nossas consciências e que nada esperam senão ser invocados.

«Se o grão de trigo não morre, fica só, mas se morre dá muito fruto» (Jo 12, 24). Se quiséssemos dar um nome, uma cara à Nova Aliança anunciada pelo profeta Jeremias, só podemos citar o nome de Jesus. Ele é, de facto, a Nova Aliança, é a sua forma de viver do amor, que rompe o estilo de vida marcado pelo egoísmo, é a sua entrega desinteressada que rompe os esquemas meritocráticos tão presentes também na vida das comunidades cristãs. Só podemos ir para o outro, para a outra de forma desinteressada e livre a exemplo de Jesus, se estivermos num caminho de transformação, de relação constante com o Senhor, que vai nos despojando progressivamente dos resíduos do nosso egoísmo. É o Senhor quem nos salva do nosso destino de solidão, produzido pela tentativa de concretizar a nossa vida contando apenas com a nossa força, que nos leva a ver nos outros não irmãos e irmãs, mas inimigos a combater. Um novo mundo é possível quando aprendemos a ser visionários como o profeta Jeremias, que viu novos caminhos onde as pessoas não viam nada além de lágrimas e desespero.

Quanto a Jesus, cuja hora da manifestação de sua glória se cumpre na cruz, sinal de seu imenso amor ao Pai, assim é para nós quando, despojados de nosso egoísmo, vivemos intensamente nossa vida fraterna, manifestando assim a nova aliança que é a vida de Cristo entre nós. É isso que o mundo precisa ver para crer no Senhor: novos homens e mulheres que não vivem mais para si, mas que optam por uma vida de doação gratuita por amor.

quarta-feira, 10 de março de 2021

SOMENTE AMOR

 





IV DOMINGO DA QUARESMA / B

 

Paolo Cugini

 

“O Senhor, o Deus de seus pais, séria e incessantemente enviava seus mensageiros para adverti-los, porque tinha compaixão de seu povo e de sua habitação. Mas zombavam dos mensageiros de Deus ”(2 Cr 36,15).

O tempo da Quaresma é o momento de retomar a busca do Deus de Jesus Cristo não no céu, mas na terra, porque ele veio habitar entre nós, colocou uma tenda de estábulo entre nós. A atenção à história significa também, a capacidade de ter um olhar sincero e retrospectivo, a coragem de olhar o passado com outros olhos, atento para descobrir a presença do Senhor, para reler a própria história, para interpretar os acontecimentos à luz do o Evangelho, para finalmente descobrir a passagem de Deus em nossa vida. É o que nos ensina o segundo livro das Crônicas na primeira leitura, que, em mais um esforço de reler o passado, cria vínculos, descobre presenças, identifica novas explicações para os mesmos acontecimentos. “No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para cumprir a palavra do Senhor falada pela boca de Jeremias, o Senhor despertou o espírito de Ciro, rei da Pérsia” (2 Cr 36, 22). E então Ciro, uma figura histórica também indicada na literatura paralela, torna-se um instrumento de Deus para libertar o povo de Israel, retornar à sua terra e reconstruir o Templo de Jerusalém. Compreender a própria história como parte do projeto de Deus é a grande novidade da fé do povo de Israel, que recebemos aprofundada e enriquecida na história de Jesus, Deus que caminha conosco e entre nós.

“Pela graça sois salvos” (Ef 2,5). Nesse processo de contínuas releituras históricas que nos permitem descobrir a presença de Deus em nossa história, São Paulo capta um aspecto fundamental do sentido da vinda de Jesus entre nós. De fato, ele realizou por nós, em nosso lugar, o que não podíamos fazer, ou seja, levar uma vida totalmente imbuída de amor gratuito. Sair da mesquinhez de uma vida egoísta, que não consegue ver no outro senão um inimigo a ser derrotado, com a alma cheia de sentimentos de inveja e ciúme, agora é possível graças à vida de Jesus, ao seu histórico caminho, que o conduziu a levar uma humanidade como a nossa, deste mundo marcado por limites e contingências, ao mundo do Pai (cf. Jo 13, 1). São Paulo ajuda-nos a compreender que não são as nossas obras que nos salvam, ainda que uma vida de seguimento do Senhor indubitavelmente nos leve a viver como Ele, procurando criar relações não mais baseadas em sentimentos de rivalidade, mas de gratidão e doação gratuita. Foi Jesus quem nos salvou de uma vez por todas, com uma vida de amor ao Pai que viveu até o fim, sem medir o preço muito difícil a pagar, que é a cruz, e é esse amor que somos livres para aceitar ou rejeitar.

«Deus, de facto, não enviou o Filho ao mundo para o condenar, mas para que o mundo seja salvo por ele» (Jo 3, 15). Até o evangelista João, refletindo sobre seu caminho de discipulado, apreendeu um aspecto importante da vida de Jesus, de seu estilo tão diferente das mesmas expectativas do povo de Israel, que esperava por um messias que castigaria os pecadores. João, no diálogo com Nicodemos, nos faz entender que a ação e a vida de Jesus é só amor, só misericórdia, que ele não veio para condenar e julgar ninguém, mas apenas para acolher, amar, ajudar as pessoas a se levantarem e se recuperarem no caminho. A atenção aos acontecimentos da vida de Jesus e às releituras propostas pela primeira comunidade, permite-nos purificar a nossa visão religiosa dos destroços ainda presentes de uma mentalidade do Antigo Testamento, rígida, incapaz de se abrir à novidade trazida pelo Espírito do Senhor.

A quaresma, então, nesta perspectiva, pode se tornar um caminho no qual aprendemos a reler nossas vidas marcadas pela presença do Senhor, na qual somos continuamente remodelados a partir de nossas resistências, nossos resíduos, como o barro na mão do oleiro que é continuamente remodelada, porque nada em nossa vida é jogado fora e nada é considerado negativo, para ser descartado. Com efeito, o próprio Jesus é a pedra residual (cf. Sl 117) que o Pai escolheu para construir uma nova história, não mais marcada pelo ódio e pelo desprezo pelo outro, mas pelo amor e pela misericórdia para com todos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A PALAVRA QUE VEM DO SILÊNCIO

 



 

Paolo Cugini

 

 

“Assim será com a minha palavra que saiu da minha boca: ela não voltará para mim sem efeito” (Is 55, 11). Fé é acreditar que há uma palavra que sai da Sua boca: se você acredita nisso, você também acredita que ela terá um efeito no ouvinte. Acreditar que acabou de sair da Sua boca aquela palavra misturada com terra, de culturas diferentes, de significados distantes: é preciso muita fé. O paradoxo é que se trata de uma palavra que sai da Sua boca quando você a vive, quando você a coloca em prática e a cumpre. É justamente nesses casos, nessas situações que entendemos que se trata de uma palavra feita de um material diferente do usual, que tem uma qualidade única, uma profundidade de verdade, que não se encontra em outras palavras. O que sai da Sua boca é uma palavra que nunca falha em quem a acolhe com amor, mas que produz o efeito desejado, ou seja, faz o que diz, realiza o que expressa, realiza o que significa. É preciso mesmo tentar acreditar, confiar para que se realize.

“Quando rezar, não desperdice palavras” (Mt 6,7). Oração em silêncio, criando um vazio, colocando-se na condição de silêncio absoluto, esperando uma outra palavra, uma sensação, uma intuição. Porque a palavra, se deve haver uma palavra na oração, Ele e somente Ele deve dizê-la. E então, para que isso aconteça, para que a epifania da Outra palavra se manifeste na alma, é necessário um silêncio abismal, um silêncio profundo. Mas como criar esse estado interior, que permite um silêncio que abra espaço para a manifestação da palavra Outra? Como você percebe que a palavra que vem em minha direção vem de outro lugar e não é um simples produto do meu pensamento? Tudo está no silêncio que se cria na alma, que exige tempo, dedicação, isolamento interior e exterior e, sobretudo, um desejo grande, imenso e infinito de o ouvir. E então, querida amiga, querido amigo, você não pode deixar de notar, não pode estar errado, é impossível não reconhecer aquela doce voz, aquele sopro de vida, aquela palavra que perturba a sua alma de um jeito que a transtorna, como nenhuma palavra é capaz de fazer; vira você para ficar de pé, vira você para te curar completamente, para colocá-lo de volta em pé. Este é o efeito da palavra Outra, que vem até você no silêncio da alma, do fundo do coração.