sexta-feira, 2 de junho de 2023

SEGUNDA CARTA AOS CORINTIOS CAPITULO 5



ESTUDO BÍBLICO para CEBs

 

Pe Paolo Cugini

 

 

 1-2: a vida em tendas recorda aos israelitas a vida patriarcal e a caminhada pelo deserto (encenada na festa das Tendas). A imagem se aplica ainda ao individuo (Is 38, 12; Jo 4, 19-21). O oposto são as casas que eles encontraram já construídas na terra prometida (Dt 6, 11; Is 24,13) – a casa celeste, sendo construída por Deus, é perspectiva.

 

3-4: Os judeus consideravam a nudez ofensiva, recordação permanente do pecado (Nóe, Gen 9,18ss; 2Sm 10,4; Is 20). Nu aqui equivale a morte. Por isso, o “nu” se veste, o vestido “vive” se reveste.

“Absorvido” corresponde talvez ao hebraico bl’ que significa também aniquilar (Is 25, 8 “aniquila a morte”).

 

5-8: Perante a alternativa de medo e esperança adiante ao destino de morte, Paulo responde com a certeza da fé. Deus criou o homem para viver. A garantia (?) que Deus completará a obra iniciada está no dom do Espírito. O espírito espiritualiza o corpo e a natureza do homem.

 

Talvez seja lembrança do exílio babilônico, com saudades de Sião (Sl13,7), experiência histórica exemplar (Hb 11, 13) e experiência individual dolorosa (Sl 120,5).

 

7: Aqui na terra ser com Cristo é sempre um caminhar na fé. Se na missão estamos claramente com o Senhor.

 

8:  O apóstolo e o cristão, desejam sair do corpo e morar com o Senhor. A comunhão com o Senhor  ficará também na morte e além da morte, e então é superado qualquer temor da morte. É a confiança que Paulo tenta infundir aos Tessalonicenses (1Tes4,17ss).

 

9-10: A esperança cristã não é uma fantasia. O esforço terreno deve ser aquele de agradar o Senhor.

No juízo o homem receberá a recompensa segundo o bem e o mal que fizera.

 

11: O temor de Deus é o fundamento do ministério de Paulo. Por isso, ele se esforça de conduzir os homens a Deus através da preparação.

 

12: A Igreja de Corinto deveria ser orgulhosa de Paulo.

 

14-15: Pela morte de Cristo morremos ao pecado e ao egoísmo. Vivendo para Ele, saímos do fechamento e vivemos da verdade: Cristo morto e ressuscitado por nós (por amor) nos oferece sua transcendência (anti-egoísmo) salvadora (cfr, Rom14,7-5). Sendo que Cristo morreu para todos e no lugar de todos, todos morreram. Cristo, na cruz, representa a humanidade toda, de maneira que a morte de Cristo é, no mesmo tempo, a morte de toa humanidade. Em Cristo a condenação de Deus foi pronunciada sobre todos, pois todos foram pecadores e na morte de Cristo a sentença foi executada em todos (cfr. Sentido de batismo em Paulo). Todos agora podem dizer: Eu sou crucificado com Cristo (Gal 2,13).   

 

15 – Cristo ressuscitou da morte – a comunhão com ele na morte produz o caminho com Ele na vida. Sendo ressuscitado Cristo, também nós vivemos com Ele e nele. (Rom 6, 8). Aquele que se encontram numa nova vida, não podem mais viver pra si mesmos, mas devem ser com toda a vida a serviço daquele que para eles morreu e ressuscitou. (cf Rom 14, 7).

 

16 Carne – transitoriedade tirana e mundana.

 

Ter conhecido Cristo na carne não tem valor nenhum. Aquilo que vale é pertencer ao Cristo glorificado que opera na Igreja.

 

17 – A Igreja é minha nova criação; o cristão é o homem novo.

 

A nova criação é real apesar de ser escondida com Cristo em Deus (cfr Col 3, 4s). Pela fé esta é a certa. Um dia quando Cristo será manifestado também esta nova criação será manifestada. Até aquele dia a nova vida.

 

É um empenho que deve ser realizado cotidianamente (cf Rom 6,4) – cf Ap 21, 5 – o renovamento do mundo na salvação não é só um evento realizado uma vez no passado: isso é atualidade sempre presente. Deus é aquele que sempre vence o passado através do perdão e da nova criação (cf 1 Jo 3, 20).

 

Esta nova criação não é obra do homem, mas vem de Deus, que é o criador. A nova criação tem o seu fundamento mais profundo no fato que o relacionamento de Deus para com os homens agora se tornam um outro. O pecado, que até agora se colocava no meio entre os dois, agora foi tirado. Deus mesmo o tirou, criando uma condição de paz. Esta obra de salvação é a reconciliação.

 

Deus cria um novo relacionamento entre si e o mundo quando justifica o pecador. (Rom 3, 26) – Deus, que realizou a reconciliação e a paz, fundou na Igreja o ministério da reconciliação.

 

19: Em Cristo Deus manifestou-se ao mundo. Manifestou-se como o Deus Santo o justo, exigindo a expiação para o pecado, expiação que lhe foi ofertada do Filho sobre a cruz. Mas Deus se manifestou também como o Deus misericordioso perdoando e acolhendo o homem. (cf Col 1, 20; Jo 3, 16; 1 Jo 2,2).

 

20: O ministério da reconciliação foi entregue a Igreja.

 

21: Paulo explica o porquê da reconciliação entre Deus e o mundo agora é agora possível e porque os homens podem ser considerados justos perante Deus. Cristo na cruz foi feito pecado e deste modo fomos justificados perante Deus. (cf gal. 3, 13; Dt 21,13)

 

Aconteceu uma troca – cf Rom 3, 22-26

 

Cristo mesmo interpretou assim o seu ministério (Mc 10, 45).

 

quarta-feira, 17 de maio de 2023

A ESPIRITUALIDADE DO JOVEM VOCACIONADO




(Retiro espiritual com os jovens do seminário Pau Alfonso: 19-21 março 2010)

Pe Paolo Cugini

Primeira meditação

·         É a espiritualidade do namoro, do jovem apaixonado, que vislumbra no Senhor o motivo fundamental da própria existência.

·         Nesta fase devem aparecer as mesmas dinâmicas que aparecem num relacionamento afetivo.

·         A dimensão esponsal perpassa todo o Antigo Testamento e é utilizada para apontar o relacionamento entre Deus e o seu povo Israel.

·         O motivo deste amor especial é um mistério que fica nos pensamentos de Deus: cf. Dt. 7,8. A eScolha de Israel é por amor e o amor é um mistério.

·         Objetivo do caminho no deserto Dt 8: é aprender a treinar a dimensão espiritual: se mama somente se si aprende a explorar a própria dimensão espiritual, se si aprende a se desapegar das coisas matérias, a lidar com elas. Somente o homem livre tem condições de amar e o homem livre é aquele que domina os próprios instintos.

·         Na reflexão profética é vislumbrada uma etapa na historia da salvação aonde se percebe que foi ali que o amor entre Deus e o povo brotou. É importante ler o texto no quadro do contexto fortemente polemico.

a.       Jer 2,2: é a caminhada do povo no deserto que é apontada como o lugar onde aconteceu a paixão;

b.      Os 2, 16-17: é reforçado este meso tema

Além disso, tem outros textos que manifestam o relacionamento afetivo de Deus com os seus escolhidos:

a.       Is 43,1-7: “Eu te amo”.

b.      Jr 1,4 s.

Encontramos expressões fortes que expressam este sentimento de Deus:

Tu es meu Is 43

Eu te amo: is 43, 1-7

Tu me pertence: Dt 7,6

Eu estou contigo (Jer 2,8; Is 43, 5; Lc 1; etc.)

 

·         O Amor se manifesta, na vida adulta, como busca do silencio e do relacionamento intimo com o Pai. Isso é bem visível na vida de Jesus que, a toda hora se afasta das multidões para buscar a paz, o isolamento, o silencio, o dialogo pessoal com o Pai (Cf.Mc 1,35; Jo 8,1; Lc 6,12).

·         Este relacionamento afetivo de amor, na perspectiva da espiritualidade bíblica, se manifesta como discipulado. Discípulo é aquele que quer ficar como o próprio mestre.

 

a.       Jo 6,68.: onde iremos Senhor...

b.      Jo 1, 35-39.

·         Discípulo é aquele que aprende a permanecer com o Mestre. Permanecer como Mestre significa abandonar o resto, é considerar o passado nada mais do que lixo (cf. Fil. 3,8). É dentro este relacionamento existencial e espiritual ao mesmo tempo, que os conteúdos específicos Do Reino de Deus são assimilados, pois envolvem a pessoa na sua totalidade.

·         Permanecer é um dos grandes temas do Evangelho de João. Cf. Jo 14-15. Somente dentre um relacionamento de discipulado é possível perseverar (cf. Lc 11). A permanência no relacionamento como Senhor é fruto do amor de Deus. “Quem me ama obedece aos meus mandamentos”(Jo 14,15).

 

 

Segunda meditação

O ministério presbiteral na continuação do ministério apostólico.

2 Cor 4,5. Ao centro de tudo é o Kerygma. O Kerygma não é fruto de uma reflexão pessoal de alguém, mas sim é a proclamação fiel de Jesus Cristo como realidade que é colocada á nossa frente e que impõe a nós.

At 2,36. A um padre é pedido que faça ressoar o grito da ressurreição de Cristo na história, no mundo. Somente através da pregação o evento de salvação é levado a contato com os homens e as mulheres e pode comunicar a salvação.

1 Ts 2,13. A Palavra de Deus é uma ação eficaz de Deus que envolve o homem na sua totalidade dentro uma nova aventura de vida[1]. A Palavra de Deus alcança os ouvidores através da Palavra concreta dos pregadores.

Entre o pregador e a Palavra de deve nascer uma ligação profunda.

2 Cor 5,18-20. O anunciador deve dizer o Kerygma com compromisso pessoal. A pregação tem sentido se quem a pratica acredita naquilo que faz[2]. Das palavras do pregador deve sair a alegria de Sr o instrumento de Deus.

Neste sentido a formação nos anos do seminário deve conduzir os jovens á amar Jesus de um jeito tão profundo de levá-los a desejar de se tronarem servos dos homens.

2 Cor 4,5b. Paolo foi golpeado pelo amor de Jesus. Neste amor ele colheu o amor eterno do Pai que se dirigia a ele como pecador, com o dom de uma graça não merecida e de agora em diante não pode mais viver a não ser dentro do pressuposto deste amor.

2 Cor 5, 14-15. Não basta uma pessoa aprender gestos litúrgicos para ser um anunciador da Palavra: deve ter amor. É preciso que todo o ministério desabroche do amor para Jesus, de uma experiência pessoal e profunda com Ele. Na memória do jovem deve ficar o marco deste encontro. Perigo: passar anos de estudos teológicos sem que Jesus se torne uma pessoa viva, concreta, determinante. Os anos de seminário devem se tornar anos de experiência viva, anos de namoro inesquecível com Deus[3].

A revelação quer nos colocar na comunhão com Deus, com um Deus verdadeiro que com liberdade decidiu de se comunicar conosco.

O problema é saber se os seminaristas lendo as paginas de teologia, do direito canônico, da historia da Igreja, da Patrística encontram o mistério de Deus. A verdade do nosso encontro com Cristo é que provoca em nós mudanças radicais, uma mudança de mentalidade, mudanças de visão do mundo.

Jo 9,1-41. A narração termina com o encontro pessoal com Cristo. Somente neste momento reconhece Jesus como Filho do homem. Como aconteceu este encontro? È Cristo que tomou a iniciativa.

Que encontra Jesus e o toma a serio chega a ver o mundo de uma forma diferente. O encontro com Jesus provoca uma mudança em nível de comportamento. O encontro com o Senhor transforma os nossos pensamentos, os nossos sentimentos instintivos.

Heb 4,12-13.

Assumir a forma do Evangelho. O Evangelho oferece uma forma de vida. A forma do Evangelho deve moldar toda a comunidade. É preciso que a aproximação á Palavra de Deus seja tal que transforme de verdade as pessoas.

Lectio continua. Seria esquisito um seminarista sair do seminário sem ter lido toda a Sagrada Escritura. Este primeiro passo, ou seja uma leitura integral da Bíblia da realizar varias vezes ao longo da vida, é a base para o encontro com a Palavra de Deus.

Lectio divina. É a Palavra que se torna oração. É a este nível que aprendemos a tomar as nossas decisões á luz da Palavra de Deus. Von Balthasar dizia que o anuncio do Evangelho deve ser tal de suscitar em quem acredita a capacidade de dar vida.

Quais são as condições necessárias para que a escuta da Palavra de Deus seja frutuoso?

1. Primeiro é bom o lembrar que para que a Palavra brote frutos é preciso o envolvimento da pessoa. Não se trata, de fato, de um conhecimento apenas intelectual, deve envolver a pessoa como um todo. A Palavra de Deus se apresenta ao homem com uma autoridade efetiva que exige uma adesão de fé. Nesta perspectiva a fé significa que considero a Palavra mais verdadeira de qualquer outra realidade.

Ex 14, 13-14. Fé significa acreditar mais nas promessas invisíveis de Deus do que as ameaças reais presentes.

2. Primeira condição para uma aproximação autentica da Palavra de Deus é a castidade e a pobreza. Para entrar na Bíblia, na Palavra é preciso passar através uma experiência, uma vida e desapego. Quem é apegado demais ao mundo se torna insensível á Palavra de Deus. Apegado ao mundo: é a situação daquela pessoa que é vulnerável as seduções do mundo, que não consegue agüentar aos chamados do mundo. Nesta perspectiva a castidade representa a liberdade na maneira de viver a energia da sexualidade: esta é a primeira e fundamental liberdade no confronto do mundo. Quem é amarrado ao sexo e as suas promessas tem dificuldade a dar peso ás promessas de Deus e por isso tem dificuldade para acolher a Consolação que vem das Escrituras. É por isso que na mitologia grega Eros é uma divindade. Ainda domina Eros no mundo tem pouco espaço para Deus. Nesta perspectiva perto da castidade deve ser colocado a pobreza: o apego ao dinheiro não deixa espaço ao coração do homem para desejar de atender as promessas de Deus.

Castidade e pobreza são as duas faces de uma única atitude de liberdade no confronto do mundo e das suas satisfações. Somente dentro desta liberdade, que em duvida não é perfeita, é possível uma abordagem verdadeira, existencial á Palavra de Deus, as suas promessas. Por isso é importante um compromisso ascético sereno. Castidade não é virgindade, por isso vale também pelos casais; castidade é a capacidade de vier a fidelidade da própria vocação e por isso marca a capacidade de não ser dominado pelas forças do mundo, mas afirmar a liberdade que vem de Cristo.  É bonito ver que o crente veja no mundo a ação criadora de Deus e então a riqueza do seu amor. É bonito também que assuma a realidade do mundo como ação de graça[4].    Aquilo que não ate na Escritura é uma existência que se torne idolatria do mundo, que se apegue de uma forma doentia as coisas, s pessoas, buscando nela a própria consolação, o próprio absoluto.

2. Liturgia.

3. Serviço.             

 

                                                   

Terceira meditação

A ESPIRITUALIDADE DO PRESBITERO

1 Pd 5,1-4: Para todos a santidade consiste na transformação da própria existência de experiência humana em amor. Um padre deve transforma a própria experiência em amor. O material sobre o qual se atua esta transformação depende de pessoas a pessoa, conforme as decisões fundamentais e a própria e especifica vocação. Neste texto encontramos algumas exortações:

  1. Primeira exortação: “Eu sou ancião como eles”; A primeira atitude importante é da empatia, a capacidade de se colocar espiritualmente, mas também materialmente, na vida das pessoas que somo chamados a servir. Não podemos pensar de anunciar o Evangelho somente através de palavras, pregações, aulas. O Evangelho é o mistério da encarnação, da Palavra que se fez carne e quem anuncia esta Palavra encarnada deve ele mesmo encarnar-se. Uma das verdades sobre a própria vocação é esta: que desejo tenho de me identificar com o povo? Pedro deseja se aproximar o mais possível aos seus interlocutores[5]. E para testemunhar isso Pedro oferece duas indicações:

a.       Sou testemunho dos sofrimentos de Cristo;

b.      Sou participe da gloria futura;

Testemunho: testemunho junto convosco. Pedro é testemunho dos sofrimentos de Cristo porque vive no cotidiano os seus sofrimentos por causa do anuncio do Evangelho[6]. A e b são dois elementos interligados: do mistério pascal e da existência cotidiana, sofrimento e gloria[7]. O sofrimento é sempre no tempo presente em quanto a participação da gloria é sempre no futuro.

  1. Secunda exortação: “zelai do rebanho de Deus”. O rebanho e de Deus é permanece de Deus, não se torna nosso[8]. Existe um só proprietário e é aquele que para o rebanho entregou a vida, que adquiriu o rebanho com o próprio sangue, pagando um preço salgado. Deu pede para nós o reconhecimento da soberania de Cristo sobre o rebanho que nos é entregue. O rebanho é nos entregue para zelá-lo como algo que não nos pertence. Esta disponibilidade nos coloca numa atitude de submissão original. Projetos e metas devem ser somente aquelas que o Senhor aponta para o seu rebanho. Isso exige uma grande liberdade interior. É preciso saber amar com todo o coração as pessoas que nos são entregue, e de ligar as pessoas a Cristo e não a si mesmos. Capacidade de saber caminhar com todos rumo ao Senhor. Paulo num texto famoso dos Atos dos Apóstolos recomenda os anciãos da comunidade de vigiar sobre eles mesmos[9]. A tarefa que exercemos se refere a Igreja. Isso significa que a tarefa de zelar do rebanho do Senhor não se dirige a coisas matérias, como o dinheiro ou poder, mas á mesma Trindade, algo que envolve o mesmo Deus. Neste texto doa Atos Paulo põe se mesmo como exemplo. O amor que nos deve envolver deve suscitar o desejo de ir além, deve produzir em nós o desejo de agir sempre mais, com criatividade, para zelar do rebanho do Senhor. Esta idéia se encontra em outros passos da Sagrada Escritura, como por exemplo: Ez 34;Jer 23; Jo 10.

No texto de Pedro que estamos comentando existem também três contraposições:

  1. Primeira contraposição. “De bom agrado e não forçados”. O ministério não é algo que devo fazer arrastado, contra a minha vontade, mas sim impelido de uma força interior que estimula a minha vontade. Paulo na segunda carta aos Corintos usa uma expressão forte para explicar esta disponibilidade total no ministério: não pregamos nós mesmos, mas sim Jesus Cristo[10]. De bom agrado: porque a nossa vida não vem de lógicas humanas, mas da resposta de um apelo divino, da Palavra de Deus, da submissão á sua vontade, ao seu Espírito. O ministério não é fruto de uma convicção mental, de uma decisão racional, mas sim de uma resposta á um chamado. É na submissão com fé que reconhecemos a presença do Senhor na historia e nas decisões da Igreja.
  2. Segunda contraposição. “Não por interesse, mas de boa vontade”. Cf. 1 Sam 12, 2-4. É a atitude fundamental do servo do Senhor[11]. Aprender a ficar perante o Senhor e não perante o povo. É claro que nós ficamos perante o povo, mas o serviço que realizamos é para o Senhor. Mesma idéia se encontra em São Paulo: At 20, 32-35 – “Não cobicei prata, ouro ou veste de ninguém”. É o caminho da liberdade. O povo não gosta do padre que pensa só ao dinheiro e que toda hora pede dinheiro ao povo. O apego as coisa materiais aponta para uma insegurança existencial e espiritual[12].
  3. Terceira contraposição.  “Nem como senhores daqueles que vos couberam por sorte, mas antes, como modelos do rebanho”. A lógica que determina os nossos relacionamentos não deve ser uma lógica de domínio e de afirmação sobre os outros, mas, sim, de serviço. “Entre vós não deve ser assim”[13]. Este principio evangélico deve marcar o nosso estilo de vida novo, pois em Cristo nos tornamos criaturas novas. Não somos donos do mundo, não somos donos do pedaço, mas de uma forma esquisita conseguimos a nos apegar a grudar, a nos apegar aos nossos meios de trabalho, aos nossos pequenos espaços de poder, que olhados de longe são ridículos, mas que amiúde determinam a nossa identidade. Precisamos deixar entrar a luz de Cristo que ilumine estas formas, as vezes doentias, de apego a uma realidade, a um pedaço de território que são sintomas de uma necessidade de afirmação mundana.Varias vezes no Evangelho de João, Jesus alerta as pessoas a não buscar a gloria dos homens, mas de Deus[14]. É importante aprender a avaliar as próprias atitudes, sobretudo quando se trata de atitudes autoritárias que esmagam as pessoas que estão relacionadas conosco. Existe um trecho importante de Paulo que nos ajuda a entender melhor isso: 2 Cor 1,23-24. Para se modelo do rebanho precisa apreender a assumir pessoalmente a responsabilidade dos atos conseguintes ao Evangelho. Nós podemos pedir aos outros aquilo que nós mesmo fizemos, se não, não temos moral para pedir nada! É aquilo que Jesus dizia, por exemplo, com os fariseus[15].

 

 

 

 

 



[1] Cf. DV 2.

[2] Cf. 1 Jo 1,3-4.

[3] Cf. Os 2; Jer.

[4] Cf. 1 Tm 4,5.

[5] Cf. Pd 1,1.

[6] Cf. 2 Cor 1,7.

[7] Cf. Rom 8,18.

[8] Cf. Jo 21, 15.

[9] Cf. At 20,28-31.

[10] Cf. 2 Cor 4,5.

[11] Cf. 2 Re 5,16a

[12] Cf. 1 Tim 6,6-7.

[13] Cf. Mc 9,35.

[14] Cf. Jo 5, 44.

[15] Cf. Mt 23 2-12.

 

sábado, 4 de março de 2023

Homilia Domingo de Ramos/A

 




(Mt 21, 1-11; Is 50, 4-7; Sal 21; Fil 2, 6-11; Mt 26, 14-27,66)

 

Pe Paolo Cugini

 

 

1. Com a liturgia do Domingo dos Ramos a Igreja entra na assim chamada “Semana Santa”, uma semana carregada de valor espiritual, pois é nestes dias que lembraremos as horas terríveis que acompanharam Jesus na sua paixão e morte e na sua ressurreição. A semana santa é um mergulho dentro do mistério de Deus, um mistério escondido desde a criação d mundo, o mistério da morte do justo, do sacrifício do Filho querido, da doação radical e definitiva do Filho de Deus. Esta liturgia do Domingo dos Ramos se abre com uma contradição que, aliás, acompanha toda a vida de Jesus, ou seja, a mesma multidão que clamará pela morte em cruz de Jesus, está agora clamando pela sua glorificação. Este é já um primeiro elemento que podemos transformar em sentido espiritual: até quando permaneceremos na multidão não conseguiremos ter sobre Jesus uma opinião que nos permita um seguimento firme e um testemunho fiel. O tempo de quaresma, que está terminando, deveria ter nos ajudado a aprofundar o nosso conhecimento de Jesus, um conhecimento capaz de realizar um discernimento mais completo entre a proposta do mundo e a proposta de Deus. Sair da multidão: é isso que deveríamos fazer simbolicamente nesta semana santa, para deixar que o Espírito Santo nos ajude a penetrar o mistério da paixão e morte do Filho de Deus, que morreu por todos nós. Do ponto de vista geral poderíamos nos perguntar: quais são os ensinamentos que a narração da paixão e morte de Jesus pode trazer para nós hoje e fortalecer assim a nossa caminhada de fé?

 

2. “Ele esvaziou a si mesmo, assumindo a condição de escravo... Humilhou a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fil 2, 7.8).

Do ponto de vista existencial podemos afirmar que ninguém consegue dar um sentido á morte: é algo de negativo demais! Agora, segundo São Paolo, Jesus enfrenta a morte como coroamento de uma vida. A morte de Jesus é o ato definitivo de uma vida totalmente partida, totalmente doada. Esta doação é manifestada no caminho que Jesus realiza ao longo da sua vida, um caminho realizado ao contrario daquilo que humanamente podemos entender. Se, de fato, o mundo busca a gloria dos homens, de se colocar constantemente ao centro, buscando ficar acima dos outros, até humilhando os outros, Jesus ao longo da vida percorre o caminho na direção contraria, na contramão da historia, se abaixando, se humilhando, buscando o ultimo lugar, se fazendo não apenas irmão, mas sim servo. É percorrendo este caminho que Jesus encontra o tesouro, a vida eterna. A morte na cruz é o coroamento de uma vida em continua descida, na busca constante do ultimo lugar, do abaixamento extremo. Por isso, a cruz é considerada no Evangelho de João a hora definitiva, aonde Jesus manifesta a sua essência, a sua verdadeira identidade de Filho querido pelo Pai, de Filho amante do Pai. Neste ato extremo, assumido conscientemente, Jesus desvende a toda humanidade o sentido da vida que é amar, e amar é se entregar, se abaixar, se humilhar. Alem disso, a morte tem um outro importante sentido. Jesus morrendo na cruz manifesta que a Verdade nele ficou inquebrantável: ninguém conseguiu despedaçar, dobrar Jesus, a Verdade, o Caminho, a Vida. O mundo massacrou um corpo que ficou fiel até o fim. Aquilo que Jesus agüentou nas horas trágicas da paixão, demonstra que aquilo que Ele acreditava, dizia e fazia, era intrínseco á sua identidade. As suas palavras, os seus gestos eram fruto de uma pessoa integra, de uma só Palavra. Na cruz de Cristo as suas palavras e os seus gestos assumem um novo sentido. É a cruz que oferece a chave de interpretação definitiva de toda a vida de Jesus.

 

3. “Então Jesus foi com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse: ‘Sentai-vos aqui enquanto eu vou até aqui para rezar’” (Mt 26, 36).

Um outro dato que me parece importante chamar atenção no começo desta semana santa é a oração de Jesus. Ele, de fato, não rezava por dever, para cumprir um preceito: Jesus rezava por necessidade. A oração em Jesus não é algo de externo, do qual podia também fazer a menos, mas é sem duvida alguma algo de altamente intrínseco á sua vida. É isso que chama atenção. Na hora crucial da sua vida, no momento em que sabia que teria encontrado a morte, Jesus não se fechou numa atitude egoísta mas, como sempre, se abriu ao dialogo profundo com o Pai. Também neste caso podemos afirmar que a morte dá sentido á oração de Jesus, descortinando um grande mistério. Se de fato, para nós a oração apresenta sempre grandes problemas, pois nem sabemos direto o que pedir, e amiúde até esquecemos de rezar, não era certamente assim para Jesus. Nele a oração era algo de natural, uma exigência da sua mesma natureza. Jesus sempre ao longo da sua vida buscou o Pai: fez isso também nas ultimas horas da sua vida. A oração em Jesus é um dialogo vital, encharcado de vida, sentimentos, paixões, sensações, projetos. Tudo em Cristo é colocado nas mãos do Pai, nada fica de fora. Também nisso, na sua oração se manifesta identidade de Jesus como de uma pessoa totalmente integra. Nessa altura poderíamos nos perguntar: o que nos ensina a oração de Jesus nas ultimas horas da sua vida? A resposta poderia ser encontrada neste versículo: “Meu Pai, se é possível, afasta-se de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, mas, sim, como tu queres” (Mt 26,39). A oração é verdadeira quando busca a vontade do Pai e não a própria. Aliás, o sentido da oração é isso mesmo: uma constante busca da vontade do Pai, pois para nós é difícil entender o que Deus Pai quer de nós. O problema é criar um estilo de vida no qual a oração expresse este desejo de sair de si mesmo, de abandonar o terreno do egoísmo, no qual gastamos amiúde as nossas energias, para nos dirigirmos na seqüela do Pai. A oração de Jesus na noite da sua paixão nos ensina que os sofrimentos e as desavenças da vida, em vez de se tornarem motivo de desespero, deveriam ser os momentos crucias para nos entregarmos na oração e, assim, nos abrirmos ao mistério da vontade do Pai.

 

4. É preciso sempre entrar na Semana Santa com muita cautela, deixando de lado toda forma de presunção, de clima rotineiro. Apesar de termos participado de muitas semanas santas, na realidade ela fica sempre além das nossas possibilidades humanas de esgotar o seu sentido.  O fascínio desta semana está no fato impressionante que, em Jesus o sofrimento e a morte tem um sentido, aliás, são um Caminho de salvação. Entender isso quer dizer se prontificar para percorrermos este mesmo Caminho que Jesus percorreu, que é o Caminho do Amor. Pedimos a Deus que nesta Eucaristia possamos receber a sabedoria para compreendermos este grande mistério e, ao mesmo tempo, a força para nos dirigirmos com firmeza no caminho da cruz.

HOMILIA Vº DOMINGO DE QUARESMA/A




(Ez 37, 12-14; Sal 130; Rom 8, 8-11; Jo 11,1-45)

 

Pe Paolo Cugini

 

1. Não é um caso que a liturgia de quaresma do ano litúrgico A, que estamos celebrando, é a mais antiga e é a liturgia que antigamente era utilizada como preparação para os catecúmenos. A seqüência dos temas encontrados ao longo dos domingos apresenta, de fato, uma linda catequese pré-batismal. Começando com o tema clássico das tentações, passando para o Evangelho da transfiguração do Senhor, continuando com o tema da água e depois da luz, pra chegarmos hoje ao tema da vida. Sem duvida este itinerário foi pensado para os catecúmenos em vista do dia do batismo, que antigamente era realizado na noite de Páscoa.  Por isso a celebração do tempo de quaresma é importante para todos nós batizados: nos permite, de renovar o sentido do nosso batismo, para pudermos assumi-lo com mais clareza e determinação.

A reflexão de hoje depara sobre o tema central da vida, daquela vida verdadeira que vem de Deus e que vence a morte. Precisamos parar para deixarmos que as palavras do Evangelho penetrem em nós moldando a nossa mente e incentivando ações novas.

 

2. “Esta doença não leva a morte; ela serve para a gloria de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (Jo 11,4).

Aprender a ver tudo aquilo que humanamente se apresenta como doença, morte, fraqueza como caminhos que podem manifestar a vida: este é o primeiro grande ensinamento de Jesus no evangelho de hoje. O problema é entender como isso pode acontecer, ou seja, como podemos vislumbrar vida naquilo que humanamente se apresenta como morte. Naquilo que os homens enxergam como finito, doente, morto, Jesus percebe possibilidade de Vida, manifestação da gloria de Deus. É um olhar totalmente diferente sobre a realidade, que Jesus tem e que exige dos seus apóstolos. Além do mais, esta capacidade de olhar a vida também em situações de morte, em Jesus não foi somente um olhar externo, mas também interno, na sua mesma experiência. O encontramos, de fato, no Getsêmani agarrado ao Pai, para fugir a tentação de olhar como morte aquela situação horrorosa que estava enfrentando. Também em cima da cruz Jesus esbanjou vida para todos aqueles que encostavam ao madeiro. O exemplo mais deslumbrante disso foram as palavras de perdão que Jesus declarou pelos seus algozes (cf Lc 23, 39s.).

  A vida espiritual deveria produzir nos discípulos este novo olhar sobre a realidade. Pra isso acontecer é preciso ser mergulhados na vida que vem de Deus. Ninguém é capaz de enxergar vida se ele mesmo trilha os caminhos da morte. O primeiro milagre deste tempo de quaresma deveria ir muito além do afastamento do pecado; deveria produzir em nós a capacidade de ver aquilo que Deus enxerga na humanidade. Somente pessoas vivas, somente cristãos mergulhados na vida de Cristo arregaçarão as mangas para tirar a humanidade dos caminhos de morte. O compromisso com uma política mais justa, o envolvimento nos projetos sociais é fruto deste novo olhar dos cristãos. Apesar do tamanho do nosso pecado, seja ele qual for, Deus não descarta nada, mas sempre almeja a recuperação. Isso vale não apenas num sentido físico, mas também espiritual. Aprender a acompanhar pessoas espiritualmente mortas, até que elas possam voltar a viver cheias da esperança que vem de Deus: é este um grande serviço que a Igreja é chamada a realizar no mundo de hoje. Devolver vida, esperança a um mundo mergulhado na morte: é isso que Jesus nos pede hoje.

 

3. “De novo Jesus ficou interiormente comovido” (Jo 11, 38).

Ninguém entra no mundo da morte como anunciador da vida de Deus se não tiver um mínimo de compaixão no coração. Ser discípulo não é um trabalho qualquer: requer amor para o próximo, envolvimento emotivo, um coração sadio. Talvez o primeiro, ou pelo menos um dos sinais no caminho de conversão, seja mesmo esta transformação do coração, a capacidade de sentir com o outro, de viver o relacionamento com os irmãos as irmãs com empatia, e não com frieza. Como discípulos somos chamados a comunicar vida nos aproximando dos outros, sentindo e vivendo por dentro o drama da humanidade. Somente assim, com um coração compassivo, podemos nos aproximar á humanidade, não para julgá-la, mas sim para amá-la, sofrendo com ela e por ela. Por isso chama atenção a comoção de Jesus pelo seu amigo Lazaro: as suas lagrimas são um balsamo de amor pela humanidade. Que o Senhor, neste tempo de quaresma, possa moldar o nosso coração, abrandar as nossas almas, para conseguirmos sentir como ele sentia e, assim, anunciar o Evangelho não citando versículos a toa, querendo passar de especialistas da Bíblia, mas sim amando o povo, sentindo com ele.

 

4. “Disse Jesus: tirai a pedra!... Tendo dito isso, exclamou com voz forte: Lázaro vem para fora!” (Jo 11, 39.43).

 O grito de Jesus, pedindo tirar a pedra do tumulo de Lazaro, é sem duvida uma das mais sugestivas e, ao mesmo tempo, das mais carregadas de simbolismo de todo o Novo Testamento. Lazaro pode simbolizar, do ponto de vista geral, a humanidade ainda não encontrada pelo Senhor. Acho, porém mais sugestivo e espiritualmente mais frutuoso, pensar aquilo que da nossa humanidade está ainda dentro do tumulo e que demora pra sair. Jesus grita para o morto sair: o que de nós está apodrecendo no tumulo da vida? De uma certa forma o trabalho do discípulo missionário consiste em dar continuidade á mesma ação de Jesus, de tirar as pedras dos túmulos que impedem as pessoas de viverem conforme ao plano de Deus. É nesse sentido que encontra valor todo o trabalho social que a Igreja desenvolve: tira as pedras da injustiça, da ignorância, as pedras da malandragem dos homens desonestos, as pedras que o mundo cego continuamente coloca, massacrando as possibilidades de vida dos irmãos, das irmãs. A humanidade cega e desnorteada sabe somente esconder os problemas (a pedra do tumulo), pois não consegue enxergar a luz da vida verdadeira e propor assim caminhos de saída. O grito de Jesus é como se fosse um grito terapeuta, que chega ao coração da consciência, para acordá-la, despertá-la. Existe toda uma humanidade (a multidão) que fica assistindo inerme a morte tomando conta do mundo: e nós de que lado estamos? O grito de Jesus expressa toda a força que a evangelização exige, toda a firmeza para que a morte não tenha a melhor sobre a vida. O amor quando é autentico é uma força irresistível, quando é mergulhado com as paixões humanas vira aquela fraqueza que abre o caminho para a morte da alma. Nos últimos versículos do Evangelho de hoje é expressada com a máxima evidencia a força que o amor de Deus realiza, um amor que passa através de pedidos claros ( “Desatai-o e deixai-o caminhar!”), de voz alta. O amor não é apenas um sentimento, mas sim a manifestação da presença de Deus na historia, uma presença que esbanja vida, transformando as aparências de morte. É este o caminho que Jesus quer que percorramos, para sermos no mundo testemunhas da vida.  Assim seja.

HOMILIA IVº DOMINGO DE QUARESMA/A

 




(1 Sam 16, 1.6.6-7.10-13; Sal 23; Ef 5, 8-14; Jo 9, 1-41)

 

Pe Paolo Cugini

 

1. No caminho que estamos realizando no tempo de quaresma, a pergunta que deveria nos acompanhar é a seguinte: o que está acontecendo conosco? Que decisão estamos tomando perante a presença misteriosa e salvifica de Jesus Cristo na Historia? Todo o caminho do tempo de quaresma visa, de fato, ajudar os fieis para que se posicionem de uma forma clara perante a proposta de Jesus. O problema é que não é fácil se posicionar perante o Evangelho. O motivo desta dificuldade vem da nossa maneira de viver por assim dizer “relaxada”, desviando continuamente de toda forma de proposta que possa nos comprometer definitivamente, até quando chega o dia, a hora em que a vida aperta a corda ao nosso pescoço, até quando os eventos nos colocam com os ombros na parede e ali percebemos todo o nosso despreparo, toda a nossa superficialidade.   O Evangelho de hoje é interessante porque nos oferece uma panorâmica sobre as possíveis posições que a humanidade toma perante Jesus. Panorâmica, como veremos, embaraçadora pois, na maioria dos casos, somos nós com a nossa vidinha “fofa”, contornada de almofadas,  a serem estigmatizados.

 

2. “Os Vizinhos e os que acostumavam ver o cego – pois ele era mendigo – diziam ‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’” (Jo 9, 8).

 Quem não presta atenção ao seu vizinho dificilmente tem chance de perceber a presença de Deus na historia. Este pode ser a moral daquilo que é narrado nos primeiros versículos do texto do Evangelho de João que acabamos de ler. De fato, em cada irmão em cada irmã e contida a imagem de Deus.

Perante o milagre que Jesus opera aparece com força a superficialidade dos vizinhos. De verdade consideramos dignos da nossa atenção somente as pessoas que podem trazer pra nós um beneficio.  O cego mendigo é o símbolo daquela humanidade considerada sem importância e, então, insignificante, não digna de atenção e por isso fica despercebida pelo povo. São os invisíveis da sociedade, os excluídos. São estas pessoas invisíveis pela sociedade que Jesus com a sua presença rende visíveis e cheias de significado. Tempo de quaresma é tempo para avaliarmos o jeito da gente considerar as pessoas. Será que também nós fazemos distinção entre as pessoas, dividindo-as em classes? De que forma, então, consideramos os doentes, os pobres, os necessitados?

 

3. “Então havia divergência entre os fariseus” (cf. Jo 9, 16).

Existe uma categoria de pessoas que parece saber já tudo, que não tem nada mais para aprender. Os fariseus são o símbolo daquela humanidade arrogante e autoritária que ninguém merece encontrar na vida, mas que infelizmente nunca faltam nos caminhos da historia. No episodio narrado no Evangelho fica até esquisita a petulância com que perseguem o coitado curado por Jesus. Parece até que ficaram com raiva dele pelo fato da cura. A insistência é tão grande que até chegam negar a realidade. É este que o evangelista quer nos ensinar: quem nega Jesus e a sua obra nega a realidade, pois é Cristo a Verdade, é Ele que manifesta a toda a humanidade o caminho da vida, da realidade. Ao mesmo tempo, porém, é importante notar que a presença de Jesus cria divergências. Jesus incomoda: este é o problema. A presença dele exige sair das falsas seguranças. Nem todo mundo é disponível para isso. Nem todo mundo é disponível abrir mão do próprio jeito de crer, da própria maneira de pensar as coisas. Os fariseus são o símbolo da resistência que a humanidade tem perante a proposta de Jesus, perante a novidade absoluta da sua mensagem. Existe todo um farisaísmo disfarçado de religiosidade, que age em nós e se manifesta na tentativa de aniquilar todas as formas de pensamento diferente do nosso: o importante é não mudar. Este farisaísmo religioso é sem duvida uma das piores doenças da alma, de difícil solução e também de difícil cura. É bom lembrar que Jesus morreu por causa disso.

 

4. “Os seus pais disseram: ‘Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego. Como agora está enxergando não sabemos...’ Os seus pais disseram isso porque tinham medo das autoridades judaicas” (Jo 9, 19-22).

Além das atitudes que já analisamos, existe uma outra que é típica da realidade na qual vivemos. É o comportamento que não consegue se decidir por Jesus por causa do medo. Quantas pessoas, na nossa realidade Nordestina, vivem esta situação constrangedora! Quantas pessoas não conseguem se libertar das amarras do poder e ficam a vida toda atreladas a um poder que, na realidade não permite de crescer, de se desenvolver. Este é o grande drama enfatizado na figura dos pais do cego: o medo atrapalha não apenas a existência corriqueira, mas, sobretudo o desenvolvimento espiritual. E como é que se manifesta a vida no medo? Com a incapacidade de tomar uma posição clara perante a realidade, seja ela qual for. Os pais do cego curado que não querem admitir a evidencia dos fatos, são o símbolo daquela humanidade que não quer se comprometer nunca por medo de criar problemas, de atrapalhar o poder instituído e, assim, nunca conseguem  desenvolver uma ação que seja fruto de uma busca pessoal da verdade. Quem quiser passar a vida toda querendo se dar bem com todo mundo, em modo especial, querendo ser bom com o poder, vai acabar se dando mal com todos e, de uma forma especial, se dando mal consigo mesmo e com Deus também.

 

5. “Acredita no filho do homem? Quem é Senhor para que eu creia nele? ‘Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo’. Exclamou ele:” Eu creio, Senhor!”(Jo 9, 36).

Chegamos, então, a analisar a única e justa atitude que precisamos ter perante Jesus e a sua proposta. O cego é protótipo da humanidade que vive na frente do Senhor em obediência á sua Palavra. O cego fica curado porque obedece ao mandamento de Jesus: este é o primeiro dado importante que é preciso salientar. Não basta a Palavra de Jesus: é necessária, também, uma tomada de posição clara, que se realiza na obediência á sua Palavra. Em seguida o cego realiza um caminho progressivo de libertação que o levará até a bater boca com os fariseus, vencendo o medo dos pais, e a se posicionar claramente do lado de Jesus, vencendo a indiferença dos vizinhos. O cego seguindo Jesus, realiza uma caminhada vocacional saindo de todos os obstáculos que a humanidade vive, tornando-se assim capaz de um pensamento autônomo perante o Senhor. Esta é a força liberatória de Jesus: Ele veio para libertar o homem do medo de viver, do medo de ver, do medo de ser. Só seguindo Jesus, só se deixando tocar por Ele, Só deixando que ele toque os nossos olhos cegos podermos enxergar a realidade e, assim, acompanhá-lo no caminho da vida verdadeira. Que esta quaresma, que estamos vivendo, possa produzir em nós o desejo de ver, a força para abandonar as amarras do mundo no qual somos atrelados e, assim, acompanhar o Senhor Jesus no Caminho da Vida. Assim seja.