venerdì 22 dicembre 2023

ENTRE PROFECIA E CUMPRIMENTO

 




QUARTO DOMINGO DO ADVENTO/B

 

Paulo Cugini

 

O quarto domingo do Advento, aproximando-nos da festa do Natal do Senhor, conduz-nos a uma reflexão que deve ajudar-nos a preparar-nos para o mistério que vamos celebrar. A primeira leitura e o Evangelho oferecem um material bíblico significativo para tentar compreender a delicada relação entre profecia e cumprimento. Afinal, se há uma característica que acompanha todo o tempo litúrgico do Advento é justamente a da profecia e, especificamente, da profecia messiânica. Isto significa que o acontecimento do nascimento de Jesus, longe de estar isolado no tempo e na história, foi há muito esperado e anunciado. Quando pensamos em Deus, um aspecto deve estar sempre presente em nossa mente: Deus não se identifica com o acaso e que o amor não se identifica apenas com a espontaneidade. Amor é querer a vida do outro, é pensar no outro, pensamento que planeja as condições de possibilidade da existência do outro. Este aspecto do amor que se torna pensamento, preocupação e que estimula a expectativa é claramente visível na história de Jesus, o Filho amado, o primogénito. Deus é amor e o amor torna-se pensamento e o pensamento olha para o futuro, procura as condições para que a vida venha à luz, se torne visível, uma possibilidade concreta.

Desde o teu ventre suscitarei o teu descendente depois de ti e estabelecerei o seu reino” (2Sm 7, 12). Entre o pensamento de Deus, que manifesta o seu amor e a realização do plano planejado, há um homem e uma mulher que realizam o plano. Isto significa que o cumprimento da Palavra profética não é uma questão de transcrição, de reprodução ao nível da história do que foi dito, mas de interpretação, de mediação humana. Este é, na minha opinião, um dos aspectos mais fascinantes do mistério de Deus: longe de ser um déspota autoritário, o Deus bíblico aceita o risco de que a sua Palavra seja transgredida, traída, que as suas profecias e propostas sejam canceladas. Este aspecto do risco de Deus é visível na história de Moisés que, no início do seu mandato, encontra toda uma série de desculpas para recusar a tarefa que Deus lhe quis confiar (cf. Ex 3, 1s). Também é visível na história do profeta Jonas que foge de Deus e não quer contar ao povo o que Deus lhe pediu para dizer. O Deus que se revela na história do povo de Israel confia nos homens e nas mulheres, coloca nas mãos deles a realização dos seus planos, arriscando-se assim a arruinar tudo. O poder de Deus passa pela fragilidade dos homens e das mulheres para entrar na história e este facto significa que Deus quer garantir que a sua mensagem nos chegue numa linguagem que nos seja compreensível e humana. O mandamento de Deus necessita de uma vontade humana que o acolha para o cumprir.

A essas palavras Maria ficou muito perturbada e perguntou-se qual seria o significado de tal saudação” (Lc1,29). E aqui estamos no exemplo mais marcante e, ao mesmo tempo, mais desfigurado pela obtusidade humana do cumprimento de promessas. Olhando o acontecimento de perto, parece mesmo uma piada, mas uma piada de mau gosto. Como Deus coloca a realização do maior plano da história nas mãos de um adolescente? Que Deus é aquele coloca na vontade de uma menina o cumprimento de todas as profecias messiânicas? Estes poucos versículos de Lucas representam a maior subversão cultural da história, a desconstrução do sistema patriarcal. As escolhas de uma jovem decidirão o destino da humanidade. Apesar de todo o aparato sacerdotal que, neste ponto crucial, nem sequer foi levado em consideração.

Como isso vai acontecer porque eu não conheço nenhum homem?” (Lc 1, 34).  Maria demonstra que o cumprimento das promessas, longe de ser um cálculo matemático, uma execução passiva, exige o envolvimento total de si mesmo, das próprias forças espirituais e mentais. Diante das palavras do interlocutor percebidas com perturbação, Maria não pronuncia passivamente um sim, mas prossegue com uma pergunta, porque quer compreender, compreender o significado daquelas palavras que querem envolver toda a sua vida. É o momento de assimilação do conteúdo da Palavra, um conteúdo que é como uma semente lançada na terra, porque contém vida, um planejamento que exige envolvimento, consciência, atenção, inteligência viva. E assim, em passagens como essas podemos ver muito bem o modo de Deus proceder em relação às mulheres e aos homens. Deus não quer de nós seres passivos, como estúpidos executores de uma proposta que não entendemos, mas que devemos cumprir a todo custo se quisermos viver. Quantos livros de espiritualidade cristã interpretaram desta forma a proposta de Deus, destruindo vidas, sonhos de jovens cheios de força e esperança, gerando vidas cheias de frustrações, de modelos passados ​​como evangélicos, mas que nada mais eram do que o legado da cultura patriarcal arrogante e violenta, que quer a esposa submissa ao homem, a religiosa submissa à instituição, em papéis específicos de submissão, com tarefas específicas passadas como vontade de Deus, quando na verdade não passava de mesquinha vontade humana .

 Maria está a anos-luz deste modelo cultural tão antibíblico e evangélico, e está a anos-luz porque pela forma como ela se move, pela forma como ela fala entendemos muito bem que ela conhecia o Pai, que ela, esta menina de Israel, foi percebendo que, para Deus, a inteligência não é um opcional, a liberdade de expressão e de pensamento não é um aspecto trivial , mas uma qualidade necessária para que seu projeto também se torne nosso. Maria nos ensina a ter tempo para compreender, para avaliar se o que nos é pedido expressa algo autêntico e significativo. Só quem é livre terá força para se distanciar da cultura da morte. Somente quem é livre poderá trilhar o caminho do conhecimento sem se comprometer com a mesquinhez humana. É esta liberdade, esta inteligência que o Pai procura para cumprir a sua Palavra e, em Maria, encontrou-a.

 

sabato 16 dicembre 2023

ADVENTO: O CAMINHO DA LIBERDADE

 



III DOMINGO DO ADVENTO/B

 

Paulo Cugini

 

Há uma força na história que ninguém pode tirar. Há um desejo de vida e justiça que Deus tem impresso na história pela ação de seus profetas, que superficialidade humana, isto é, a atitude que homens e mulheres costumam ter, não pode fazer a menor diferença. Talvez às vezes você tenha a impressão de que a realidade a física, aquela que aparece no nível material, é tudo menos certa, tudo tudo menos pacífico, tudo menos marcado pelo amor. Ainda assim, para aqueles que estão renasce pelo Espírito, para quem acolhendo a Palavra renasce do alto, a percepção da justiça de Deus na história dos homens e das mulheres é um facto estabelecido. “Então o Senhor Deus fará crescer a justiça e o louvor diante de todo o povo” (É 61,11). É desta segurança que necessitamos, segurança que, pelo menos ao mesmo tempo, é uma certeza. Quem pode ter o dom de tais palavras? Quem pode ser o portador de palavras tão seguras e firmes, senão aquele que as possui você experimenta em si mesmo? E quem pode experimentá-los sem se tornar, até certo ponto de vida, uma pessoa tão livre que não depende mais de si mesma existência de causas externas?

Meu enviou para proclamar a liberdade dos escravos” (Is 61, 2). Para quê é necessário o advento: para isso, sair da escravidão, escapar de uma vida bloqueado e, consequentemente, frustrado. Isto é o que a Igreja deve fazer o resto é inútil, o resto é um acompanhamento desnecessário. Quanto mais nos tornamos uma minoria, insignificante do ponto de vista social, mais seremos obrigados a regressar ao essencial. Então o tempo do advento nos lembra que a essência de um caminho de fé, o significado da vinda de Jesus à terra e o objetivo do discipulado é tornar-se pessoas livres.

Podemos nos perguntar então: grátis de que? Em primeiro lugar, da tentação de procurar a glória dos homens e mulheres e basear a nossa identidade no julgamento dos outros. O exemplo o aspecto positivo deste caminho é João Baptista, que a liturgia nos mostra no Evangelho. João Batista, em diálogo com os levitas e os sacerdotes, demonstra uma clareza impressionante sobre sua identidade. “Quem é você? Ele confessou e não negou. Eu confesso: Eu não sou o Cristo” (Jo 1, 20). Ele sabe que não é o messias, porque sabe muito bem o sentido da sua própria existência, ele sabe qual é o seu lugar na história. Esta é, na minha opinião, a primeira grande liberdade que somos chamados a amadurecer não só durante o Advento, mas ao longo da vida: liberdade de comparação com os outros, liberdade da tirania de buscar benefícios nos outros confirmações da nossa identidade. Esta liberdade é alcançada lentamente, de uma só vez esforço contínuo de reflexão e viagem interior. João Batista em este é um ótimo exemplo, tendo desenvolvido um senso de lugar no mundo, no silêncio do deserto, à escuta de uma Palavra que se torna realidade e caminho de revelação para quem o vive.  

Em segundo lugar, na época de Advento somos chamados a libertar-nos do mal. Paulo nos lembra disso no segundo leitura: “Examine tudo e guarde isso é bom. Abster-se de todo tipo de mal” (1 Tessalonicenses 5:17). No contexto em que vivemos, não é fácil desenvolver esta liberdade todos os dias. Ele disse A filósofa francesa Simone Weil a este respeito: “Amar a Deus significa não apegar o coração a coisas vãs”. Não é sobre isso de um simples exercício negativo, porque se fosse assim não conseguiríamos nunca faça. Vence quem fixa o olhar no bem e não abre mão do bem que enxerga. “Fixem o olhar em Jesus, autor e consumador da nossa fé” (Hb 12). Durante o tempo de Advento vamos praticar então, procurar o que há de bom em tudo que está ao redor nós, antes de tudo entre as pessoas que amamos. Procuramos com todos nós a beleza que está ao nosso redor e dentro de nós. Só assim poderemos chegar ao Noite de Natal e ver a Luz no meio da escuridão da noite. 

 

domenica 10 dicembre 2023

RETIRO ESPIRITUAL DO ADVENTO – DOMINGO 10 DEZEMBRO 2023 II MEDITAÇÃO

 




PAROQUIA SÃO VICENTE DE PAULO


 

 

Paulo Cugini

 

Ele se deleitará no temor do Senhor.
Ele não julgará pelas aparências
e não tomará decisões com base em boatos;
mas julgará os pobres com justiça
e tomará decisões justas pelos humildes da terra (Is 11,3f).

Há um primeiro aspecto que se sublinha do modo de agir do futuro messias e do seu sentido de justiça. Ele não julgará pelas aparências, seu julgamento não será baseado no que vê por fora, mas procurará o interior, a intenção do coração. Ele não tomará, portanto, decisões precipitadas, ditadas pelo imediatismo, mas cada uma de suas decisões será bem pensada, resultado de uma análise cuidadosa. Justamente por isso ele não tomará decisões com base em boatos, não confiará nas opiniões comuns, no que se diz, mas ele mesmo se informará e irá diretamente às fontes de notícias para fazer seu julgamento verdadeiro. O seu julgamento, de facto, terá duas qualidades específicas: justiça e imparcialidade. Ambas as qualidades serão visíveis nos julgamentos dirigidos aos miseráveis ​​e humildes da terra, isto é, aos pobres. Este é um aspecto importante sobre o qual vale a pena refletir. Já no tempo de Isaías se percebia a necessidade de um julgamento justo para com os pobres, porque já naquela época os pobres eram vítimas indefesas das injustiças dos poderosos do momento, dos ricos, que espezinham os direitos dos os pobres, precisamente porque não têm meios para respeitar as fases.

Pois bem, a primeira função do futuro messias será precisamente a de exercer justiça igualitária para com aqueles que foram explorados na terra devido à sua condição de pobreza. Sabemos muito bem que Jesus cumprirá plenamente esta profecia, a ponto de se fazer pobre com os pobres, humilde com os humilhados da terra, para sentir em primeira mão o peso da humilhação e, assim, poder expressar uma palavra verdadeiramente justa. julgamento e não baseado em boatos e aparente imediatismo (ver Fp 2.5-11).

O lobo habitará junto com o cordeiro;
o leopardo se deitará ao lado do garoto;
o bezerro e o leão pastarão juntos
e um menino os guiará.
A vaca e o urso pastarão juntos;
seus pequeninos se deitarão juntos.
O leão se alimentará de palha, como o boi.
A criança brincará na toca da víbora;
o menino porá a mão na cova da serpente venenosa (Is 11).

O fruto da justiça do futuro messias será a harmonia entre as diferenças que conduzirá à paz. Os oito pares de opostos que coexistem pacificamente são o sinal do advento do Messias. Na sua humanidade as tensões diluem-se e encontram um sentido. No amor trazido e vivido pelo Senhor, as diferenças já não são motivo de discórdia, mas harmonizam-se na comunhão, a de Isaías é uma bela imagem poética que indica o caminho que a comunidade cristã é chamada a percorrer: ser sinal no mundo da presença do Messias criando um espaço humano no qual se harmonizam pólos opostos. Isto só é possível acolhendo o Espírito do Senhor, ouvindo a sua Palavra e caminhando na direção que ela indica.

As comunidades cristãs como espaço humano onde as tensões se dissolvem e todos convivem em harmonia: é o sonho de Deus, que já se realizou na humanidade de Jesus e que o Espírito Santo tenta reproduzir na humanidade das comunidades cristãs.

RETIRO ESPIRITUAL DO ADVENTO – DOMINGO 10 DEZEMBRO 2023 I MEDITAÇÃO

 




PAROQUIA SÃO VICENTE DE PAULO


Paolo Cugini

No final dos dias,
o monte do templo do Senhor
permanecerá firme no topo dos montes
e se elevará acima das colinas
e todo o povo fluirá para ele.
Muitos povos virão e dirão:
«Vinde, subamos ao monte do Senhor,
ao templo do Deus de Jacó,
para que ele nos ensine os seus caminhos
e possamos andar nas suas veredas» (Is 2, 1-2).

Espiritualidade do tempo do Advento marcado pelas passagens de Isaías. Perspectiva universalista da viagem. Passamos da ideia da eleição do povo de Israel para uma visão em que todos os povos se sintam atraídos pela Palavra do Senhor. Convido-vos a abandonar uma mentalidade divisiva em direção a uma visão global, uma forma de pensar a realidade de uma forma aberta. A perspectiva universalista traz consigo a atitude inclusiva como consequência. Percorrer os caminhos do Senhor significa abrir portas a todos, criar comunidades nas quais todos se sintam à vontade. Quem é que na visão de Isaías provoca o movimento de todos os povos em direção a Jerusalém? Porque a lei virá de Sião, e a palavra do Senhor de Jerusalém. É a Palavra de Deus que faz com que este movimento saia do individualismo para um caminho de comunhão que respeite a diversidade e a rivalidade.

Afinal, era precisamente isso que Jesus queria: há vários trechos do Evangelho que retoma o sonho do profeta Isaías e o atualiza. Entre as várias, pode-se citar esta: Agora vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus (Mt 8,11). Jesus sabe muito bem que o efeito da sua Palavra e da sua proposta teria causado a quebra de muros, cercas e um caminho de comunhão entre todos os povos. Para que este caminho se realize plenamente, é necessária outra passagem fundamental expressa pelo profeta na continuação do texto citado.

Quebrarão as suas espadas e farão delas relhas de arado, e
das suas lanças farão foices;
uma nação não mais levantará a espada
contra outra nação,
eles não aprenderão mais a arte da guerra.

O que acontece com quem, atraído pela Palavra do Senhor, caminha em direção a Jerusalém? Eles sentem o desejo de paz. A imagem relatada pelo profeta descreve a transformação que ocorre nas pessoas que seguem a Palavra de Deus: há um processo de transformação em curso, um processo de mudança que transforma as ferramentas de guerra – espadas e lanças – em ferramentas para o cultivo da terra. . Quem assimila, internaliza o Evangelho, respira paz e não sente mais necessidade de se defender, porque aprende a perceber os outros como irmãos. É o sonho de Deus que se tornou realidade em Jesus: cada comunidade cristã que se alimenta do Senhor, que lhe dá espaço, torna-se um pedaço de humanidade que se deixa transformar pelo Espírito do Senhor.

Vindo ao mundo Jesus encarna esta profecia de paz. Isso é visível no primeiro ato público, assim como é presentado no Evangelho de Lucas. È interessante comparar o texto que Jesus lê com o texto originário. É visível que Jesus aplica uma interpretação na leitura que ele realiza, pois não lê todo o texto mas para antes, porque não quer ler o versículo que fala da vingança.

O espírito do Senhor, o espírito do Senhor está sobre mim,

porque o SENHOR me ungiu. Enviou-me a dar a boa nova aos pobres,

 a tratar os de coração despedaçado, a proclamar a liberdade aos exilados e aos prisioneiros,

 a libertação, 2 a promulgar um ano de benevolência da parte do SENHOR

 e um dia de vingança para o nosso Deus,

 

Jesus na sinagoga não leu o último versículo anunciando logo no começo da sua missão que não incarnava o Messias violento que teria arrumado um exército para derrubar os estrangeiros presentes em Israel, mas o príncipe da paz anunciado em algumas profecias de Isaias.

É desta forma que o mesmo Paulo percebeu a presença de Jesus na história a ponto de descrevê-la com atenção.

14Cristo é a nossa paz. De dois povos, ele fez um só. Na sua carne derrubou o muro da separação: o ódio. 15Aboliu a Lei dos mandamentos e preceitos. Ele quis, a partir do judeu e do pagão, criar em si mesmo um homem novo, estabelecendo a paz. 16Quis reconciliá-los com Deus num só corpo, por meio da cruz; foi nela que Cristo matou o ódio. 17Ele veio anunciar a paz a vocês que estavam longe, e a paz para aqueles que estavam perto. 18Por meio de Cristo, podemos, uns e outros, apresentar-nos diante do Pai, num só Espírito.

sabato 9 dicembre 2023

CAMINHAR NO DESERTO DA VIDA

 

 


II ADVENTO/B 2023

É 40,1-5,9-11; Sal 84; 2 Pedro 3.8-14; Mc 1,1-8

 

Paulo Cugini

 

 

A espiritualidade do tempo do Advento deve ser buscada na Palavra que a Igreja proclama neste tempo, para não correr o risco de cair em alguma deriva devocional, que aquece o coração, mas não diz nada e deixa a alma vazia. Na passagem de Isaías que ouvimos hoje, logo no início, há um verbo imperativo ao qual precisamos prestar atenção. Com efeito, Isaías diz: “Consolai”. O contexto do canto é o anúncio do regresso do povo de Israel do exílio de Babilónia, o que constitui uma grande consolação para todo um povo que agora perdia a esperança de regressar à sua pátria. A Consolação chega quando o povo não a esperava, porque a profecia de Jeremias falava de um exílio de setenta anos, enquanto o anúncio do regresso veio vinte anos antes. É, portanto, um anúncio de grande consolação, que manifesta a atenção misericordiosa de Deus pela sorte do seu povo. Ao grito de Consolação Isaías acrescenta algumas indicações fundamentais para garantir que o regresso se realize efetivamente.

Uma voz clama: No deserto preparem o caminho para o Senhor, abram o caminho para o nosso Deus na estepe. Que todos os vales sejam exaltados, todos os montes e todos os outeiros sejam abatidos; o terreno acidentado torna-se plano e o terreno íngreme torna-se um vale (Is 40, 3). Existem algumas indicações concretas, que têm um valor simbólico. Trata-se de preparar o caminho do regresso, um caminho que atravessa o deserto. A mente vai imediatamente para a experiência dos quarenta anos de travessia do deserto, quando o povo saiu do Egito para ir para a terra prometida. Há sempre um êxodo que devemos fazer periodicamente para voltar ao caminho. O Egipto e a Babilónia são duas cidades simbólicas, que indicam a terra estrangeira, que do ponto de vista espiritual e existencial indicam a situação do homem e da mulher distantes de Deus, da procura do sentido autêntico da vida. Há um trabalho que deve ser feito se quisermos deixar de ser escravos de nós mesmos, dos nossos desejos e necessidades naturais, para completar uma jornada de libertação. Nesta estrada no deserto não deve haver obstáculos e os que existem devem ser removidos. Aqui está a primeira grande indicação espiritual do segundo domingo do Advento. A questão subjacente, que o Evangelho retomará depois, é esta: quais são os obstáculos que condicionam a nossa vida espiritual? Que vales devemos preencher para tornar a viagem tranquila? Que montanhas precisamos eliminar de nossas vidas para alcançar nosso objetivo?

Então a glória do Senhor será revelada e todos os homens juntos a verão, porque a boca do Senhor falou (Is 40, 5). O fruto deste trabalho será a possibilidade de ver a glória do Senhor, isto é, de perceber a sua presença. Este aspecto é fundamental, porque a nossa fé é ativada a partir do momento em que vemos a glória de Deus, os sinais da sua presença nas nossas vidas. Glória do Senhor é uma expressão que, no Antigo Testamento, indica a manifestação da presença do Senhor. Isaías fala desta Glória na visão que ele mesmo tem no início de sua vocação narrada no capítulo 6. Sempre da glória que o povo viu e por isso, acreditavam, fala na narração da passagem pelo Mar Vermelho (Ex 14-15). São Paulo nos lembra que seremos transformados de glória em glória pela ação do Espírito Santo (2 Cor 3,18). É a presença do Mistério que muda as nossas vidas. Devemos encontrá-lo para acreditar Nele. O Natal, para o qual nos preparamos, é a manifestação deste Mistério na pessoa de Jesus, que ainda está entre nós.

Levante sua voz, não tenha medo; anuncie às cidades de Judá:
«Eis o teu Deus!
Eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço exerce domínio.
Eis que ele traz consigo o prêmio, e a sua recompensa o precede.
Como um pastor ele apascenta o rebanho e o reúne com o braço (Is 40, 9-10).

Se é verdade que devemos completar esta jornada e que devemos implementar uma profunda jornada espiritual de mudança, é igualmente verdade, porém, e Isaías nos lembra disso, que não estamos sozinhos nesta jornada. Isaías apresenta-nos um Deus que é como um pastor que acompanha as suas ovelhas: “carrega os cordeirinhos no peito e conduz gentilmente a mãe ovelha”. Como podemos não confiar em um Deus assim? Como não nos emocionarmos com estas palavras de consolação? São imagens que procuram estimular o povo de Deus a levar a sério a sua vida, a não perder tempo com coisas de pouco valor, a esperar ver a glória de Deus que vem ao nosso encontro com o seu Filho Jesus. Pedro também lembra isto nos revela na segunda leitura de hoje, quando afirma: diante do Senhor um só dia é como mil anos e mil anos como um só dia (2 Pd 3,8). Vamos então, não vamos perder tempo e pegar a estrada.

Na verdade, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça. Portanto, queridos amigos, enquanto aguardam esses acontecimentos, façam tudo para que Deus os encontre em paz, sem culpa e sem mácula (2 Pedro 3:14). Pedro, na segunda leitura ouvida, faz eco às palavras de Isaías e recorda-nos o sentido da nossa vida, do nosso caminho de fé, que consiste em dar lugar à nova realidade que o Mistério de Deus já alcançou com a vinda de Jesus, isto é, um mundo em que habita a justiça. Este novo mundo não está fora de nós, mas dentro de nós. É disso que Jesus falou nas suas parábolas quando anunciou o Reino de Deus, que está entre nós, dentro de nós. Procuremos então fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que tudo isto se torne realidade e seja o primeiro sinal disto, segundo São Pedro, é paz. 

 

sabato 2 dicembre 2023

Há esperança no mundo

 




 

1º DOMINGO ADVENTO B

Is 63,16b-17,19b; 64,2-7; Sal 79; 1Cor 1,3-9; Mc 13,33-37

 

Paulo Cugini

 

Por que, Senhor, você nos deixa desviar dos seus caminhos
e deixa nossos corações endurecerem, para que não tenhamos medo de você?
Volte por causa de seus servos,
por causa das tribos, sua herança.
Se você rasgasse os céus e descesse! (Is 63, 17).

 

O significado do Advento está contido neste versículo do profeta Isaías. O ponto de partida é a percepção existencial de um vazio, de um absurdo que caracteriza a vida presente. Se olharmos com atenção, parece que Isaías está certo. Guerras de todas as partes do planeta, que expressam a incapacidade humana de coexistir pacificamente e, ao mesmo tempo, o desejo de impor arrogantemente a sua força aos outros. Sem falar nos feminicídios que atrapalham a vida de muitas mulheres, de muitas famílias, diante dos quais ficamos atônitos, sem palavras. Perambulamos pelas ruas da vida rodeados de fenômenos que nos chocam, porque nos encontram despreparados. Na realidade, estes mesmos acontecimentos revelam algo sobre nós, a nossa cultura, a nossa forma de ser e de nos relacionarmos com os outros. As situações trágicas que povoam a nossa vida quotidiana dizem respeito às relações interpessoais e indicam, ao mesmo tempo, o caminho que devemos percorrer. As guerras revelam a incapacidade de conviver com o diferente e, ao mesmo tempo, a redução simplista da solução dos problemas ao mero uso da força. Os feminicídios revelam muitas coisas sobre a nossa cultura, sobre como somos feitos, sobre a imaturidade humana de muitos homens incapazes de gerir os seus sentimentos e, sobretudo, as suas frustrações.

A percepção de que caminhamos por caminhos que parecem não ter destino, parafraseando Isaías, não deve causar um sentimento de desânimo, mas uma reflexão pessoal e comunitária. A questão poderia ser esta: estamos condenados a viver desta forma conflituosa, num mundo que não consegue qualificar as suas relações? As leituras que ouvimos neste primeiro domingo do Advento mostram-nos um caminho e uma atitude. O cristão e a comunidade cristã são convidados à esperança, não porque haverá uma solução após a morte, mas porque existe um princípio de vida nova já inserido na história por Jesus Cristo. É esta novidade que somos convidados a olhar. É para esse tipo de esperança que somos orientados a olhar. Há esperança no mundo e há esperança para nós, porque Jesus inaugurou uma nova forma de viver. Foi Ele, de facto, quem fez dos povos em conflito um caminho de paz, não através do uso da força, mas atraindo sobre si o ódio. Jesus nos ensinou a viver os conflitos não aumentando as tensões, mas reduzindo-as ao mínimo com amor, gentileza e escuta. Jesus nos ensinou que é possível escapar da cultura patriarcal e de suas influências nocivas, não com discursos, mas com novas atitudes que reproduzam na história a igualdade entre mulheres e homens desejada por Deus.

Há esperança para todos porque o amor de Deus manifestado pelo Filho Jesus foi derramado em nossos corações e continua a ser derramado graças ao Espírito Santo. Acolhamos, então, o Espírito de Cristo para viver Dele e como Ele. 

martedì 28 novembre 2023

A LUZ DA VIDA João 7 – 8

 




 

 

 

 pe Paolo Cugini

João 7 – 8

 

7-8     Descreve o ministério de Jesus desde sua partida definitiva da Galiléia até as vésperas da semana que     procede a Páscoa.

Durante a festa das tendas, Jesus está ensinando no templo de Jerusalém.

Segundo o Quarto Evangelho, o ministério de Jesus na Judéia é ao mesmo tempo seu processo de condenação pelas autoridades judaicas, processo que os sinóticos situam após sua prisão.

João situa antes do discurso da vida pública o confronto entre o enviado de Deus e seus juizes: sobre um fundo fanático de hostilidade e de não – fé , Jesus prossegue  a revelação de sua identidade e da missão que recebeu, afirmando a revelação sem igual que o une a Deus, seu Pai, e proclamando um solene EU SOU.

“A pergunta quem és tu?” feita a Jesus pelos judeus (8, 25) subjaz ao texto dos capítulos 7-8 e o ensinamento de Jesus progride ao longo dos capítulos para culminar no EU SOU de 8,58; esta proclamação final responde ao pedido dos irmãos “ Manifesta quem tu és!” (7,4).

 

Alguns dados gerais:

1.           situação da Igreja joanina:

O texto reflete as controvérsias que, na época do evangelista opunham os meios oficiais do judaísmo aos discípulos de Jesus. Desde a queda de Jerusalém sob o poder dos romanos no ano 70 e a destruição  do templo que havia posto fim ao culto tradicional, ortodoxia farisaica permanecia como único garante da identidade judaica e da cesão do joio. Daí seu enrijecimento com relação a todo grupo distinto, em particular o dos cristãos de origem judaica.

Diante da recusa da sinagoga, o evangelista deixa de lado os múltiplos ensinamentos de Jesus que a tradição sinótica relatara, e até o comportamento de Jesus para com os deserdados da terra, para concentrar a mensagem exclusivamente na pessoa do enviado e em seu mistério. Ele mostra em Jesus bem mais que o Messias de Israel; mostra o logos porque o Pai se expressa e em quem os fiéis participam da filiação divina.

 

2.      Situação na narração evangélica -  Jesus já subiu duas vezes a Jerusalém (2,13 e 5,1) mas as breves estradas que o fizeram conhecido na cidade foram marcadas por ameaças contra Ele.

Esperando a chegada da hora, desenvolve-se o processo de condenação de Jesus diante dos Judeus, bem antes da prisão efetiva. Os capítulos 7 – 8 apresentam o primeiro ato, cujo tom já fora dado pelo capítulo 5. Este processo prossegue até o capítulo 10.

        

         3.  No templo: O confronto de Jesus com seu povo passa-se  no lugar sagrado. Após a tentativa de               apedrejamento provocado por seu supremo anúncio, Jesus “sai” do templo (8,59)   como não pensar em YHWH  que abandonou o santuário (Ez 11,23) ?.

              Jesus não ensinará mais no lugar santo, ele vai mesmo deixar a Judéia e retirar-se para além do Jordão (10,40).

 

4.      Na festa da Tendas – A festa das tendas ( das cabanas) é uma das mais importantes entre as quatro festas principais do ciclo anual ( Páscoa, Pentecostes, Tendas, Dia das Expiações) . De origem agrícola, ele corresponde à festa da colheita que se celebrava no outono (Ex 23,16); habitava-se então em cabanas construídas com folhagem, semelhante aos abrigos que se usavam nos vergéis no momento da colheita. Por sua vez, eles recordavam a vida dos hebreus no deserto no momento da saída do Egito ( Lv 23,42 a ) – Na época do Novo Testamento, a festa das Tendas  coroava a do Ano Novo e era celebrada de 15 a 21 tishri, isto é, mais ou menos no fim de setembro.

 

 

 

 

 

 

Se, Segunda a descrição de Lv 23, 34-43), esta festa era em agradecimento pela colheita obtida, sua liturgia, era orientada para o pedido da chuva para o ano que se iniciava. No último dia, ia-se em procissão à piscina de Siloé  tirar a água que um sacerdote derramava  em libação sobre o altar dos sacrifícios, dentro do templo.

        Lembrando a Deus seu compromissos para com Israel, a prece comunitária evocava também o fim dos tempos conforme as profecias que anunciavam, mediante o símbolo da fonte, a renovação espiritual de Sião. (Ez 47,1-12) fala da água que sai do lado direito do templo e Isaías anuncia: Tirareis com alegria a água das fontes da salvação” ( Is 12,3).

 

       No século I, em rito da luz também era celebrado durante a festa. Este de pano de fundo       litúrgico dos capítulos 7 e 8 permite melhor situar o apelo de Jesus para beberem da sua água e também, sua autoproclamação como luz do mundo.

 

5.    Os personagens – sozinho diante dos judeus, na ausência de qualquer discípulo, Jesus aparece perfeitamente livre, iluminado interiormente pela consciência de sua unidade com o Pai e de sua missão.

       Diante dele, os outros atores são representados em grupos: os irmãos, a multidão, algumas pessoas de Jerusalém, as autoridades, os fariseus e os sacerdotes, os guardas do templo e, de modo geral, os judeus.

       Estes grupos estão todos alvoroçados, agitados por sentimentos diversos. No proxênio , a multidão de peregrinos e de pessoas de Jerusalém distribuíam-se em facções de tendências opostas ou então se debatem entre as evidências contrárias a respeito de eventual Messias.

       Entre Jesus e seus interlocutores não haverá diálogo algum porque eles permanecem fechados a todo anúncio que não se enquadra em seu sistema de pensamento (8,43).

      

6.   Dois perigos maiores ameaçam o fiel que se apoia num texto revelado. O primeiro é o tradicionalismo. Os “ judeus” do relato têm certa razão de agarrar-se à tradição da Lei; eles erram ao fechá-la num sistema que não deixa mais espaço ás aberturas que ela mesma contém, nem a Deus, o vivente, que renova sem cessar as leituras que o homem faz da Sagrada Escritura. Eles preferem a letra bem estabelecida ao espírito que nem sempre predomina. Jesus falava de “palavra” e de “ensinamento”; eles se referem às santas Letras, da qual se consideram os depositários: Deus exprimiu-se num texto num texto definitivo. Assim encarado, este não arrisca sufocar a Palavra viva? E eis o tradicionalista resvalando pelo declive do integrismo.

       Um segundo perigo ameaça aquele que, conscientemente, se interessa por levar à prática os preceitos de sua Igreja. Para apreciar a qualidade de um comportamento, ele julga a partir da observação ou da transgressão de uma Lei cujo sentido foi fixado numa prática  precisa, que não admite exceção. Considerando-se fiel a estes mandamentos, o praticante arrisca julgar o comportamento dos outros sob o prisma de sua ótica estreita. Como poderia ele abrir-se, então, ao apelo bem mais abrangente que lhe dirigem os “incrédulos” e os abandonados da terra?

       Na origem destas atitudes deformadas está certa concepção da Lei. A Lei vale na medida em que mostra a vontade de Deus e é o caminho da Palavra viva. Se o decálogo não convida ao diálogo, ele se torna um simples catálogo, colete que pode fazer a pessoa manter-se ereta, mas que paralisa o mensageiro de Deus. Jesus chama todo homem, não a afastar a Lei, mas a ouvir Deus que fala através dela. Enquanto S. Paulo se empenha em mostrar qual é o verdadeiro cristão, João provoca seu leitor para tomar consciência de qual é o verdadeiro judeu, aquele põe em prática as riquezas da Lei.

 

martedì 21 novembre 2023

HOMILIA DOMINGO 26 NOVEMBRO 2023

 





XXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

SOLENIDADE NOSSO SENHOR JESUS ​​CRISTO REI DO UNIVERSO

Ez 34,11-12.15-17; Sal 22; 1Cor 15,20-26a.28; Mt 25,31-46

 

Paulo Cugini

 

 O trecho evangélico que a liturgia nos oferece hoje na solenidade de Cristo rei do universo, no ano litúrgico A, é o último discurso de Jesus encontrado no Evangelho de Mateus, antes da narração da sua paixão e morte. É, portanto, um texto importante, que não por acaso nos é proposto hoje, no final do ano litúrgico, para nos ajudar não só a verificar o caminho alcançado durante o ano, tanto pessoalmente como na comunidade, mas também a compreender esse tipo de Deus que servimos. As palavras de Jesus, também, nos ajudam a refletir sobre que tipo de pessoas nos tornamos, que humanidade expressam as nossas escolhas e os nossos pensamentos. Ouçamos, portanto, para viver como Ele nos diz.

Quando o Filho do Homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, ele se sentará no trono da sua glória. Todos os povos serão reunidos diante dele. Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.

A cena inicial da bela parábola de hoje, mais ou menos conscientemente, retoma uma cena da parábola do joio ouvida há alguns meses. Com efeito, enquanto neste último Jesus recomendou aos discípulos que não arrancassem o joio do campo de trigo, para não correrem o risco de arrancar o trigo, no caso da narrativa de hoje, que narra simbolicamente o juízo final, o primeiro ato é precisamente uma separação. A coerência interna dos evangelhos é interessante, pois eles continuamente se referem uns aos outros e nos ajudam a aprofundar o significado das palavras e das narrativas. No Evangelho de João lemos que o Pai deixou a Jesus a tarefa de julgar: Na verdade, o Pai não julga ninguém, mas deu todo o julgamento ao Filho (Jo 5,22). Isto significa que o tempo presente é o tempo em que devemos fazer tudo para nos darmos a conhecer ao Filho, para garantir que, no último dia, ele não nos diga, como às cinco virgens loucas de dois domingos atrás: Não te conheço nem, pior ainda, ao servo da parábola do domingo passado que, em vez de fazer frutificar o talento que recebeu, escondeu-o, foi dito: um servo inútil. O problema, então, neste ponto, consiste em compreender onde encontrar Jesus para conhecê-lo e nos dar a conhecer a ele.

porque tive fome e vocês me deram de comer, tive sede e vocês me deram de beber, eu era estrangeiro e vocês me acolheram, eu estava nu e vocês me vestiram, estive doente e vocês me visitaram, eu estava na prisão e você veio me visitar.

Esta passagem do Evangelho é muito interessante. Ensina-nos, de facto, que no final dos dias seremos testados não na relação puramente religiosa com Deus, que realizamos nos sacrifícios, nos ritos, nas celebrações, mas na relação com os nossos irmãos e irmãs e, em particular, os mais pobres, os excluídos. A grande revelação do trecho de hoje reside no facto de Jesus se identificar com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, ou seja, com os invisíveis e excluídos deste mundo. Para o cristão que recebe o Espírito do Senhor e é nutrido por Ele na Eucaristia, o rito é em função do encontro com o Senhor nos pobres. Como disse Santo Agostinho ao comentar o Evangelho de João, o Evangelho é como um colírio que nos ajuda a ver Jesus onde humanamente não poderíamos vê-lo e reconhecê-lo: nos pobres. Para os cristãos, a atenção aos pobres não é, portanto, um facto social, mas muito mais: é um facto sacramental. É na atenção aos pobres, aos excluídos, aos invisíveis do mundo, que demonstramos o nosso desejo de colaborar no projeto do Senhor, que é um projeto de igualdade e não aceita que existam alguns filhos e filhas de Deus que sejam humilhados na sua dignidade e semelhança com o Pai.

Então ele dirá também aos da esquerda: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. O versículo lembra Gênesis, a maldição sobre Caim (ver Gn 4,11). Todos aqueles que passam a vida acumulando bens e dinheiro estão atraindo sobre si a maldição, porque se tornam colaboradores não do plano de Deus da igualdade, mas do projeto de iniquidade que torna o mundo desigual, obrigando milhares de milhões de pessoas a viver sem dignidade, em condições infames. A maldição de quem despreza os pobres revela o olhar de Deus sobre nós, sobre as nossas comunidades cristãs, que às vezes perdemos por trás das armadilhas litúrgicas, perdendo de vista o essencial. Escutar como a nossa história terminará e de que forma seremos avaliados, ajuda-nos a centrar melhor o nosso caminho de fé pessoal e comunitário e a trabalhar no essencial.

Irei em busca da ovelha perdida e trarei a perdida de volta ao aprisco, farei curativos na ferida e curarei a enferma, cuidarei dos gordos e dos fortes; Eu os alimentarei com justiça (Ez 34,16). É linda esta imagem do profeta Ezequiel ouvida na primeira leitura. Bonito porque nos diz que, neste caminho de vida nova e de reconhecimento do rosto do Senhor nos pobres, não estamos sozinhos: Ele mesmo vem ao nosso encontro. Acreditamos num Deus que vem nos procurar e o faz com os pobres da terra, com os rostos que encontramos nas encruzilhadas, com os tantos estrangeiros de muitas nações que vemos todos os dias. Ele também faz isso com homossexuais, lésbicas, transexuais, que recebem tanto desprezo de pessoas que se sentem com a consciência tranquila porque respeitaram o preceito da mesa dominical. Fá-lo com muitas mulheres que são maltratadas, abusadas, física e moralmente, que revelam a miséria de um mundo machista deformado pela cultura patriarcal. Venha Senhor ao nosso encontro para nos salvar da nossa desumanidade. Amen.

sabato 18 novembre 2023

HOMILIA DOMINGO 19 NOVEMBRO 2023

 



XXXIII DOMINGO TEMPO COMUM

Pr 31,10-13.19-20.30-31; Sal 127; 1 Tessalonicenses 5,1-6; Mt 25,14-30

 

Paulo Cugini

 

O tempo litúrgico é a chave para interpretar as leituras que ouvimos aos domingos. Para compreender, então, o Evangelho de hoje, devemos recordar que vivemos os últimos domingos do tempo litúrgico e isto significa um tempo para verificar o caminho percorrido. Já mencionamos isso no domingo passado, mas vale a pena repetir. Ouviremos, portanto, as leituras com a intuição de que nos é sugerido um material espiritual e existencial para verificar as escolhas feitas durante o ano, para ponderar bem as nossas ações, para garantir que o novo ano litúrgico, que se aproxima, possa ser para nós a possibilidade de viver plenamente o Evangelho, de caminhar com mais harmonia na comunidade. Vejamos, então, o que o Evangelho nos diz.

Acontecerá como a um homem que, partindo em viagem, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um, conforme a capacidade de cada um; então ele foi embora. Há um primeiro facto inicial sobre o qual a parábola quer fazer-nos pensar e refletir. Na jornada da vida ninguém saiu de mãos vazias: recebemos algo que nos deveria ser útil ao longo do caminho. Veremos do que se trata mais tarde, mas este é um dado importante, pois devemos fazer a verificação de final de ano exatamente sobre esse material recebido gratuitamente. O texto nos diz que o Senhor partilha seus bens. Isto significa que a atitude do proprietário é a de partilha livre e desinteressada, que deseja comunicar a vida e que esta vida pode ser um instrumento de criatividade para todos. Os talentos são distribuídos de acordo com as capacidades de cada pessoa. Isso significa que o proprietário conhece bem os seus colaboradores. O Deus que Jesus manifestou envolve-nos no seu amor de Pai e revela-nos a nossa verdadeira identidade, que dá dignidade ao nosso estar no mundo: somos filhos e filhas de um Pai que nos ama e nos conhece, este é o nosso ponto de partida e nosso maior talento.

Aquele que havia recebido cinco talentos aproximou-se e trouxe mais cinco, dizendo: “Senhor, tu me deste cinco talentos; eis que ganhei mais cinco”. “Pois bem, servo bom e fiel - disse-lhe o seu senhor -, foste fiel no pouco, eu te darei poder sobre o muito; participa da alegria do teu senhor”. A atitude do mestre é impressionante, o que é muito revelador, no sentido de que diz algo novo e verdadeiramente surpreendente sobre o Deus que Jesus manifestou e que é o oposto daquele apresentado pelos líderes religiosos de Israel. Na verdade, o mestre não pede os talentos devolvidos ou mesmo os frutos, mas na verdade transforma o súdito em senhor e compartilha com ele seus bens. Isto acontece com os dois servos que fazem frutificar os talentos. Se quisermos tirar uma primeira lição que sirva para a nossa verificação, poderíamos dizer que o Evangelho vivido na nossa vida quotidiana, o Espírito Santo deixado atuar na nossa humanidade, já deveria produzir a sensação de viver numa nova dimensão espiritual marcada pelo desejo de justiça, pelo esforço para criar um mundo de paz, por um coração cheio de misericórdia.

Senhor, sei que és um homem duro, que colhe onde não semeou e recolhe onde não espalhou. As palavras daquele que não fez dar fruto o talento que recebeu, mas o escondeu, revelam o tipo de Deus revelado pelos líderes religiosos e que em nada corresponde ao Deus revelado por Jesus e manifestado no conteúdo da parábola. Deus não é duro e não é verdade que colhe onde não semeou, mas, no pelo contrário, ele é pródigo em benefícios com seus filhos e filhas, a ponto de torná-los colaboradores de seu Reino. Este aspecto também é muito importante de verificar no final do ano litúrgico. Devemos nos perguntar: em qual Deus acreditamos? A que Deus servimos? Permitimos que o Evangelho desmorone a falsa imagem de Deus implantada em nós a partir de uma educação religiosa ancorada mais no Antigo Testamento do que no Novo? Estamos no centro da parábola, que nos convida a refletir sobre os métodos implementados este ano em direção ao que Deus nos dá gratuitamente todos os dias: se Deus nos dá o seu amor, que se manifesta na possibilidade de viver com a dignidade de filhos e filhas, isso implica uma responsabilidade. O amor que vem de Deus é um dom gratuito e desinteressado e provoca o desejo de partilhar, de doar-se.

Portanto, tire-lhe o talento e dê-o ao que tem os dez talentos. Pois a quem tem, será dado e terá em abundância, mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. A conclusão da parábola parece muito estranha e, sobretudo, inconsistente com a mensagem do Evangelho. A quem Jesus está se referindo com essas palavras? Por que ele diz que quem não tem também será tirado do que tem? Não é uma afirmação absurda? Na realidade, o discurso de Jesus é extremamente coerente. Não se trata, de fato, de ter algo de quantitativo, mas qualitativo, isto é, se trata daqueles dons recebidos do Senhor como o Evangelho, o Espírito Santo, os sacramentos, que têm como única finalidade aquelas que nos fazem viver uma qualidade de vida diferente e que não devem ser deixadas de lado. Quem não tem na parábola de hoje são todos aqueles que nunca viveram o que receberam do Senhor e, por isso, são despojados desses dons e entregues a quem os tornou frutíferos com uma vida em que a dignidade de filhos e filhas de Deus.

Bem-aventurados aqueles que temem ao Senhor e andam nos seus caminhos. Você será nutrido pelo trabalho de suas mãos, será feliz e terá todo o bem. As palavras do Salmo 127 com as quais rezamos neste domingo oferecem-nos o conteúdo que dá sentido ao discurso proferido. O caminho que percorremos graças à escuta da palavra do Senhor não é automático e apresenta dificuldades que podem ser superadas. Há um esforço que deve ser feito, que consiste em compreender como viver melhor o que o Senhor nos dá. É precisamente isto que pretendemos esperar ao verificarmos no final do ano, com estas leituras, o nosso caminho de seguimento do Senhor.

 

mercoledì 8 novembre 2023

HOMILIA 12 NOVEMBRO 2023

 



XXXII DOMINGO TEMPO COMUM

Sb 6,12-16; Sal 62; 1 Tessalonicenses 4,13-18; Mt 25,1-13

 

Paolo Cugini

 

Aproximamo-nos do final do ano litúrgico e, como sempre, a liturgia da Palavra oferece-nos leituras que podem ajudar-nos a verificar o nosso caminho de fé pessoal e comunitário. Este é um aspecto que merece ser sublinhado. Somos, de fato, povo de Deus a caminho e, precisamente porque percorremos um caminho novo, que é o apresentado no Evangelho, é possível corrigir os erros cometidos, medir melhor o potencial, identificar os pontos sobre os quais podemos trabalhar, para fazer o Caminho que mais se adapta à proposta de Jesus. Por isso, o tempo de verificação que nos é oferecido é de fundamental importância e deve, portanto, ser levado a sério. O risco é caminhar sem parar e nos perder por aquela falta de humildade que nos faz acreditar que podemos ir sozinhos de cabeça baixa, sem nunca parar. Ouçamos, então, os conselhos das leituras de hoje.

O reino dos céus será como dez virgens que pegaram suas lâmpadas e saíram ao encontro do noivo. Há um primeiro fato geral na parábola que Jesus conta hoje, que orienta todo o nosso caminho cristão. Dizem-nos, de fato, que o caminho que percorremos é caracterizado pela alegria, é como uma festa de casamento. Além disso, os profetas, como o profeta Oséias, já utilizavam a imagem do casamento para simbolizar a relação entre Deus – o noivo – e a noiva, ou seja, o povo de Israel. Esta imagem nos lembra que somos chamados internamente a uma relação de grande intensidade, de pertencimento, que também remete a responsabilidades. Antes de tudo, porém, existe o aspecto da alegria que marca o relacionamento conjugal. A caminho, portanto, com os irmãos da comunidade com uma atitude marcada pela alegria, porque marcada pela percepção de ter encontrado o máximo que poderíamos ter sonhado.

Cinco deles eram tolos e cinco eram sábios; as insensatas pegaram as suas lâmpadas, mas não levaram consigo o azeite; as sábias, porém, junto com suas lâmpadas, também levavam óleo em pequenos recipientes. Esta é uma das passagens que teve muitas interpretações. Na parábola que Jesus conta aos seus discípulos, as lâmpadas e o azeite são dois elementos centrais para a interpretação de toda a narrativa. O que Jesus quis dizer com lâmpada e óleo? Já disse acima que houve muitas interpretações: tentarei indicar uma, a que me parece mais coerente. Para uma interpretação correta é necessário ter em mente que a lâmpada é uma realidade que todas as dez virgens possuem, enquanto o azeite não. Além disso, não só nem todos têm petróleo, mas aqueles que o têm nem podem emprestá-lo.  A lâmpada provavelmente refere-se à escuta do Evangelho, à proposta de Jesus, que todos podem ouvir. Neste nível podemos inserir também a doutrina da Igreja, que amadureceu ao longo dos séculos e que está à mercê de todos. O óleo, porém, diz-nos a parábola, nem todos o possuem. A interpretação deve levar em conta o que indicamos como lâmpada, que é o Evangelho. Se o Evangelho permanecer apenas na fase da escuta, cai no vazio da nossa vida. A lâmpada do Evangelho torna-se luz que ilumina os passos do caminho de todos aqueles que o põem em prática. Aqui está o óleo! São as boas obras inspiradas no Evangelho, que se referem a uma resposta pessoal. Por esta razão, as cinco virgens sábias não podem emprestá-lo às cinco tolas. Há uma sabedoria indicada pelo Evangelho que não se refere ao estudo, ao aprendizado de noções, mas à inteligência que nos impulsiona a viver o que ouvimos da Palavra. Portanto, quem tenta viver o que ouve é sábio. Não é por acaso que na primeira leitura ouvimos um trecho do livro da Sabedoria que diz assim: A sabedoria é esplêndida e não desaparece, é facilmente vista por quem a ama e é encontrada por quem a procura (Sab 6.12). Aqueles que buscam sabedoria a encontram vivendo o que ouvem.

E a porta estava fechada. Mais tarde chegaram também as outras virgens e começaram a dizer: “Senhor, senhor, abre-nos!”. Mas ele respondeu: “Em verdade te digo que não te conheço.” Este versículo narra o drama de quem acredita conhecer o Senhor simplesmente por ter ouvido a sua Palavra, por conhecer alguns versículos. Existe um conhecimento do Senhor que, na realidade, nos distancia Dele. É esse tipo de conhecimento formal e estéril, que nunca se traduz em ação. É um conhecimento doutrinário, feito de noções nunca vivenciadas de fato na vida. Além disso, o Concílio Vaticano II recorda-nos também que, no mistério da Palavra de Deus, os fatos e as palavras estão intimamente ligados, no sentido de que é uma Palavra que só revela o seu conteúdo específico, a sua verdade quando é vivida e colocada em prática. Esta é precisamente a sabedoria que vem do alto e que encontramos revelada cada vez que a experimentamos.

A minha alma tem sede de ti, a minha carne te deseja numa terra seca, sedenta e sem água (Salmo 62). Há um desejo profundo na nossa alma, que anseia o céu, porque cada pessoa percebe que a nossa vida não se reduz à mera matéria: há algo mais. É o Evangelho que nos dá a indicação de um caminho que pode realizar plenamente a nossa vida e é o Caminho que percorrem todos aqueles que vivem e põem em prática o que ouvem no Evangelho.