terça-feira, 10 de setembro de 2024

Amizade e fraternidade

 



 Semana de retiro espiritual ás irmãs adoradoras do sangue de Cristo

6-12 setembro 2024 – Manaus

Paolo Cugini

Elemento importante na nossa caminhada de espiritualidade bíblica sobre o tema da amizade é a proposta da fraternidade. Já no A.T. esta proposta aparece na imagem do Povo de Deus. Israel é declarado como povo consagrado a JHWH (Dt 7, 6), um povo que Deus escolheu “para que pertenças a ele como seu povo próprio dentre todos os povos que existem na face da terra” (Dt 7,6). Israel é, então, chamado, escolhido a ser um povo que manifesta uma característica especial: pertencer a IHWH.

Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração.  Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares (Dt 6,4-7).

Para ser o povo de Deus que pertence a IHWH deve amá-lo de todo coração. O amor a Deus é o elemento que permite ao Povo de manifestar a diferença entre os outros povos. A separação produz como consequência imediata a exigência da santidade:

 Pois eu sou o Senhor, vosso Deus. Vós vos santificareis e sereis santos, porque eu sou santo. Não vos contaminareis com esses animais que se arrastam sobre a terra, porque eu sou o Senhor que vos tirou da terra do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos porque eu sou santo (Lv 11, 44-45).

 Sabemos como a história se desenvolveu e como o povo escolhido por Deus se perdeu ao longo dos séculos, não conseguindo viver as exigências pedidas por JHWH.

Jesus veio para reconstruir o novo povo de Deus. Esta ideia não é presente apenas na escolhe dos 12 apóstolos, como seguidores e representantes das doze tribos de Israel, mas sobretudo no grupo de pessoas que ele escolheu para anunciar o Evangelho junto com ele. É uma pequena comunidade que anuncia o evangelho, que é a boa nova. O anúncio de uma humanidade nova alicerçada no amor fraterno, tão radical ao ponto de exigir o amor para os inimigos, não podia ser feito que com um grupo de pessoas cuja vivência manifestava aquilo que o Mestre andava dizendo e fazendo. As bem-aventuranças são sem dúvida a carta magna deste novo estilo de vida, que manifesta uma diversidade dos irmãos e as irmãs em Cristo (Mt 5,1-11). A busca de Deus da nova comunidade deve ser visível na vida despojada, no abandono á providência:

 Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?  E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo não trabalham nem fiam.  Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé?  Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?  São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.  Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado (Mt 6, 25-34).

Esta página do Evangelho é fundamental para reconhecer a nova proposta de Jesus. A santidade exigida não se mede mais num relacionamento de tipo religioso, mas no estilo de vida. É visível a busca de Deus por parte da nova comunidade de discípulos e discipulas, no estilo de vida simples e despojados. Além disso, esta diferença deve ser visível também na postura de buscar constantemente o último lugar e de não entrar em brigas pelo poder.

Nisso aproximou-se a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma súplica.  Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda.  Jesus disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? Sim, disseram-lhe. De fato, bebereis meu cálice. Quanto, porém, ao sentar-vos à minha direita ou à minha esquerda, isto não depende de mim vo-lo conceder. Esses lugares cabem àqueles aos quais meu Pai os reservou. Os dez outros, que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos.  Jesus, porém, os chamou e lhes disse: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade.  Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo.  E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo.  Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20,20-28).

Nada de busca de poder, de brigas para ser o melhor entre os irmãos e as irmãs que se reconhecem na proposta de Jesus, mas desejo de servir, de ser o último, o pequeno. É sem dúvida uma nova espiritualidade que Jesus propõe, uma espiritualidade que não é humana, não é uma filosofia, mas é fruto exclusivamente da ação do Espírito Santo, que reproduz em nós os traços da humanidade de Jesus. É aquilo que Jesus mesmo falou no diálogo com Nicodemos quando afirmou que era necessário renascer do alto. Para pertencer ao grupo de discípulos e discipulas de Jesus é necessária esta disponibilidade interior, deixar o espaço na própria alma para que o Espírito Santo possa reconstruir em nós os traços da humanidade de Jesus.

É Paulo que entendeu muito bem este aspecto da nova fraternidade de Jesus, quando em várias circunstâncias aponta dois tipos de possibilidade de vida: segundo a carne e segundo o Espírito. São duas modalidades diferentes ei viver, que manifestam atitudes e estilos contrapostos. Uma pagina exemplar disso se encontra em Gálatas:

 Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne.  Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis.  Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei.  Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, temperança. Contra estas coisas não há lei.  Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito (Gal 5, 16-25).

A vida fraterna, que expressa a amizade do Senhor entre os irmãos e as irmãs, é formada pela ação do Espírito Santo que transforma a nossa humanidade naquela mesma imagem que contemplamos quando lemos o Evangelho (cfr. 2 Cor 3,18). Quero terminar esta reflexão bíblica citando uma das tantas recomendações de Paulo para as pessoas que frequentavam a comunidade:

 Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!  Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade. O Senhor está próximo.  Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças.  E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.  Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos (Fil 4,4-8).

Tomamos a sério estas recomendações de Paulo para viver melhor e em modo mais saudável a nossa amizade em Cristo e entre nós.

 

domingo, 8 de setembro de 2024

Maldade e relações humanas

 



Semana de etiro espiritual com a congregação das Adoradoras do Sangue de Cristo


 

 

Paolo Cugini

A verdade das relações humanas de amizade depara contra um dato antropológico de grande importância: a nossa humanidade é estragada. Existe algo na estrutura do homem e da mulher que não permite realizar relacionamentos autênticos e duradouros. Este dado é narrado ao longo da história da salvação.

 O capítulo 3 do Genesis é o ponta pé desta narração. O homem e a mulher que não aguentam e desobedecem ao mandamento de Deus de não comer da arvore. O texto fala que era uma arvore desejável. Este desejo estimula a concupiscência, como diria João (cfr. 1 João 2,16) que leva a mulher a comer, desobedecendo ao mandamento de Deus. ´uma narração mítica que mostra a estrutura antropológica do homem e da mulher: existe algo nesta estrutura que dobra a vontade.

Genesis capítulo 4: na história de Caim e Abel continua uma narração que mostra o limite da estrutura humana, que leva a considerar o irmão como inimigo. Qual é a justificativa do texto sobre o crime de Caim?

Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Entretanto, se assim não fizeres, sabe que o pecado espreita à tua porta e deseja destruir-te; cabe a ti vencê-lo! (Gen 4,7).

Existe uma força, que a Bíblia chama de pecado, que se insinua no coração do homem, da mulher e o domina, o leva a fazer o mal, a estragar os relacionamentos humanos. Esta análise bíblica é sem dúvida fruto da experiencia humana. Observando a maneira das pessoas agirem, percebe-se uma fraqueza, que as leva a não conseguir viver conforme as próprias decisões, a ser infiel. A causa desta fraqueza é apontada naquilo que a Bíblia chama de pecado, uma força misteriosa que mora na pessoa humana tornando-a incapaz de viver aquilo que percebe como bem.

Este aspecto volta várias vezes na narração bíblica. A mais paradigmática se encontra na história do povo de Israel que, apesar de ter sido libertado da situação de escravidão e de sofrimento que vivia no Egito, toda vez que encontra dificuldades na peregrinação do deserto se queixa.

O Senhor disse a Moisés: “Vai, desce, porque se corrompeu o povo que tiraste do Egito. Desviaram-se depressa do caminho que lhes prescrevi fizeram para si um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: eis, ó Israel, o teu Deus que te tirou do Egito. Vejo, continuou o Senhor, que esse povo tem a cabeça dura.  Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada, mas de ti farei uma grande nação.” (Ex 32,7s).

Israel é um povo fraco, que se perde constantemente. Basta pouco para ele esquecer e adorar outros deuses, ou construindo ídolos, como no caso narrado acima. A consciência do homem e da mulher é débil, frágil, se corrompe com nada e, sobretudo, se deixa escravizar e mandar pelos instintos, que arrastam as pessoas. O livro dos Reis é cheio de chefes do povo que não prestaram e desviaram o caminho, levando o povo na idolatria. Também os profetas acusam os chefes religiosos que não cumpriram a tarefa para ele entregada e cuidara de si mesmo e dos próprios interesses, ao invés de cuidar do povo (cfr. Ez 34).

Nesta linha de apontar algo de negativo dentro da estrutura humana que estraga a vida das pessoas, afetando a vontade e provocando escolhas erradas se encontra, também, o relacionamento com Deus. Este é um dos grandes temas da pregação profética. Tem liturgias que são estragadas. Até atos penitencias, que parecem bonitos, na realidade são totalmente estragados pelo pecado. Alguns exemplos.

Vinde, voltemos ao Senhor, ele feriu-nos, ele nos curará ele causou a ferida, ele a pensará.  Dar-nos-á de novo a vida em dois dias ao terceiro dia levantar-nos-á, e viveremos em sua presença.  Apliquemo-nos a conhecer o Senhor sua vinda é certa como a da aurora ele virá a nós como a chuva, como a chuva da primavera que irriga a terra.  Que te farei, Efraim? Que te farei, Judá? Vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que logo se dissipa.  Por isso é que os castiguei pelos profetas, e os matei pelas palavras de minha boca, e meu juízo resplandece como o relâmpago, porque eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos (Os 6,1-6).

Existe um ato penitencial que não presta, porque a atitude de quem o realiza não ditada do desejo de conversão, de arrependimento e de mudança, mas de realizar um rito que serve nada mais que para tranquilizar a própria consciência. Existe uma liturgia que é a serviço do nosso orgulho e não uma disposição interior para nos tornarmos dóceis á vontade de Deus. Este aspecto afeta, também, um elemento litúrgico como o jejum. É o profeta Isaias que denuncia:

O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor? Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo (Is 58, 6-7).

Jesus é na mesma linha dos profetas. No evangelho de Mateus, em várias circunstâncias repete o grito dos profetas: quero misericórdia, não sacrifícios (Mt 9,13). Jesus é o Mestre que revela de onde vem o material humano que estraga a vida das pessoas:

“Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem. Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem (Mc 7,20-230.

A análise mais profunda da pessoa humana incapaz de fazer o bem por causa de uma força negativa que encontra em si, é Paulo.

 Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido ao pecado.  Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero faço o que aborreço.  E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa.  Mas, então, não sou eu que o faço, mas o pecado que em mim habita.  Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero.  Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita.  Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal.  Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser.  Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?… Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! (Rom 8,14-25).

Este é o grande problema, segundo são Paulo: Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. E isso porque encontramos dentro de nós algo que dobra a nossa vontade e nos condena numa vida desumana. Paulo não nos deixa com uma sensação negativa, pois nos alerta que o Espirito Santo nos dará a força de Deus para viver o bem que percebemos. É o tema do capítulo 8 de Romanos.

Não é um caso que os evangelhos sinóticos apresentam o começa da vida publica de jesus colocando-o no deserto tentado pelo satanás. Jesus é homem como nós, mas que o pecado não dobrou. Os evangelistas nos alertam que, quem está chegando no mundo e que tentará de nos orientar é um homem que o pecado, o mal nunca dobrou. Esta humanidade resistente ao mal é exatamente a obra do Espírito Santo em nós.

 

 

 

sábado, 7 de setembro de 2024

Liberdade, alma dos relacionamentos humanos

 




 

Paolo Cugini

Continuando a reflexão sobre o relacionamento de amizade na perspectiva bíblica, percebemos que um elemento fundamental que permite uma relação de amizade é a liberdade. Poderíamos dizer que, sem liberdade, é impossível tecer laços de amizade autêntica. Esta poderia ser a chave de leitura da aproximação do Mistério com Moisés. Este encontro teve com objetivo de propor um caminho de libertação, pois sem liberdade é impossível amar a Deus. O ato de fundação do povo de Deus é, então, uma libertação. Nesta perspectiva podemos dizer que a liberdade é dom de Deus.

 O Senhor disse: “Eu vi, eu vi a aflição de meu povo que está no Egito, e ouvi os seus clamores por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e espaçosa, uma terra que mana leite e mel, lá onde habitam os cananeus, os hiteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus (Ex 3,7-8).

Este dom de Deus que é a liberdade, que fundamenta a aliança exige uma resposta do homem, da mulher, do povo. Exemplo disso é a assembleia de Siquém (Josué 24).

. Nós também, nós serviremos o Senhor, porque ele é o nosso Deus... Josué disse-lhes: Sois testemunhas contra vós mesmos de que escolhestes o Senhor para prestar-lhe culto. Somos testemunhas! Responderam eles (Josué 24, 15.18).

A passagem do Mar Vermelho foi percebida como uma experiencia de passagem: da escravidão para a libertação (cf Ex 14-15).

Em várias circunstâncias Moises coloca o povo perante uma escolha: a vida o a morte.

Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a I tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais (Ex 30, 19-20).

A liberdade é em sintonia com a vida e, para escolhê-la é necessária uma situação interior de sintonia com Deus, a sua Palavra, a sua vontade.

Os profetas anunciaram um caminho de liberdade. Entre eles podemos citar Isaias e Jeremias.

O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade (Is 61,1).

Num contexto histórico onde a situação do povo de Israel tinha voltado a piorar, Deus promete, através do profeta Isaias, a liberdade dos prisioneiros.

A liberdade não si identifica com o espontaneísmo: o perigo é nos tornarmos escravos de nós mesmos, os nossos instintos, os nossos vícios. Por isso Moises oferece uma lei para o povo (cf Ex 20). A liberdade para brotar na nossa via exige uma orientação, um guia: é este o sentido dos dez mandamento que, como sabemos, não conseguiram a endireitar o povo. Por isso o profeta Jeremias, no meio do conflito que levou o povo de Israel no exilio em Babilônia anuncia uma nova aliança:

 Dias hão de vir - oráculo do Senhor - em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá. Será diferente da que concluí com seus pais no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito, aliança que violaram embora eu fosse o esposo deles.  Eis a aliança que, então, farei com a casa de Israel - oráculo do Senhor: Incutir-lhe-ei a minha lei gravá-la-ei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo.  Então, ninguém terá encargo de instruir seu próximo ou irmão, dizendo: Aprende a conhecer o Senhor, porque todos me conhecerão, grandes e pequenos - oráculo do Senhor -, pois a todos perdoarei as faltas, sem guardar nenhuma lembrança de seus pecados (Jer 31, 31-34).

A lei de Deus que será imprimido no coração das pessoas é o amor e, na forma mais alta, o amor de Deus se manifesto na pessoa de Jesus. Pensando nisso são Paulo dirá que:

 E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rom 5,5).

Existe então, um caminho de libertação que o homem e a mulher são chamados a realizar, caminho que se torna possível através da ação do Espírito Santo que derrama em nós o amor de Deus que se manifestou no seu Filho Jesus. Este é um dato importante. Jesus é o homem livre que age com liberdade, não é condicionado nem de elementos internos nem externos.

Neste itinerário bíblico chama atenção a grande liberdade de Jesus nas relações humanas. Se sente livre nas relações com as pessoas que a lei considerava impuras, como os leprosos (cf. Mc 1,40). Livre, também, no relacionamento com as mulheres (cf. Lc 8,1-3). Jesus manifestava grande liberdade no confronto das tradições religiosas como o sábado (cfr. Mc 3,1-6), ou como o adultério (cfr. Jo 8, 1s) e ele explica também o porquê (Cfr. Mc 7). Grande liberdade Jesus manifestava, também, com aquelas categorias de pessoas que os chefes religiosos consideravam pecadores, como os cobradores de impostos (cfr. Mt 9,10-13). Interessante e cheia de significado é a liberdade de jesus acompanhando o caminho dos discípulos e discipulas. Um exemplo claríssimo é o dinamismo do discipulado de Pedro, assim como é apresentado no Evangelho de João. Pedro renega de conhecer jesus e, depois da ressurreição, Jesus se apresenta para reconstruir o discipulado de Pedro. Jesus não guarda mágoa, rancor: é uma pessoa livre. Nessa altura podemos nos perguntar: de onde vem a liberdade de Jesus é nos ensina o que?

Acredito que a grande liberdade interior que permite a ele de tecer laços de amizades profunda com qualquer pessoa, seja ela que for, é fruto do seu profundo relacionamento com Deus, o Pai. Mais uma vez é o caminho da interioridade que o estilo de vida de Jesus aponta. Se quisermos ser pessoas livres precisamos escolher o caminho da interioridade, do cuidado com a nossa alma. Somente pessoas livres tecem laços de amizade autenticas, pis, somente quem é livre pode libertar os outros. Jesus foi Mestre nisso.

 

O rosto de Deus

 




  Paolo Cugini

No caminho da amizade o encontro do rosto do outro é de suma importância pois, a final de conta, o rosto revela a identidade do amigo. Na relação com o Mistério a situação é estranha pois, de um lado Ele se manifesta, se aproxima, cria laços, do outro nunca manifesta o seu rosto. São vários os salmos que falam do rosto de Deus e do desejo do homem de vê-lo.

Salmo 4, 6. muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Senhor, exalta sobre nós a luz do teu rosto.

Salmos 31:16. Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo; salva-me por tuas misericórdias.

Salmos 67:1. Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós.

Salmos 80:19 Faze-nos voltar, Senhor, Deus dos Exércitos; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos.

Salmos 105:4 Buscai ao Senhor e a sua força; buscai a sua face continuamente.

 Os salmos 4, 31, 67 e 80 tem todas a mesma expressão que é também a mesma que escutamos o primeiro dia do ano na leitura do livro dos Números 6. É o desejo que Deus faça brilhar sobre nós o seu roso e se isso acontecer, seremos salvos. Qual é o sentido desta expressão, deste desejo? É a ideia de uma vida completamente em harmonia com o Mistério de Deus. Se, de fato, o rosto indica a identidade, que este rosto brilhe sobre uma pessoa significa que ilumina totalmente a vida daquela pessoa. Esta luz se torna, então, uma grande benção na vida, porque tira definitivamente as trevas.

Continuando a folear as páginas da Bíblia para dar sentido ao nosso discurso encontramos um paradoxo na atitude do Mistério. De fato, enquanto manifesta o desejo de aproximar-se, ao mesmo tempo esconde o seu rosto. Esta dinâmica paradoxal é visível em alguns episódios.

Ex 33,1823. Moisés disse: “Mostrai-me vossa glória.” E Deus respondeu: “Vou fazer passar diante de ti todo o meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o nome de Javé. Dou a minha graça a quem quero, e uso de misericórdia com quem me apraz.  Mas, ajuntou o Senhor, não poderás ver a minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver.  Eis um lugar perto de mim, disse o Senhor tu estarás sobre a rocha.  Quando minha glória passar, te porei na fenda da rocha e te cobrirei com a mão, até que eu tenha passado.  Retirarei depois a mão, e me verás por detrás. Quanto à minha face, ela não pode ser vista”.

Este é o paradoxo do Mistério. De um lado que se aproximar a cada um de nós, para nos conhecer e revelar a sua glória; do outro lado se esconde, não manifesta a sua face. O Mistério se esconde. Um dia, come sabemos, revelará a sua face de uma forma clara e nítida, mas pelo momento não. Existe uma pedagogia divina nesta dinâmica do escondimento. Para chegara contemplar o rosto do Mistério é necessário um caminho muito comprido, um caminho onde somos convidados a despojar-nos de qualquer forma idolátrica, de qualquer pre-compreensão. O Mistério nos atrai numa relação de amizade, mas para entrar nesta relação é preciso entrar num caminho de despojamento dos nossos ídolos, para criar espaço para o Mistério entrar. Ao mesmo tempo, o Mistério se escondendo, provoca um caminho na interioridade do homem e da mulher. Não é na exterioridade que é possível descobrir a identidade do Mistério, mas somente cuidando da própria alma, dedicando tempo á vida interior.

Deus mostra as costas para Moisés: qual é o mistério desta passagem? Querem dizer o que, simbolizam o que as costas do Mistério? Podem indicar duas coisas ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, as costas indicam o sofrimento de Deus por nós. Nas costas de Deus se encontram os marcos de uma relação sofrida e cansativa. Não é fácil pelo Mistério lidar com a realidade humana, marcada pela fragilidade, que leva á desobediência, a dar as costas para Deus. Do outro lado, as costas de Deus mostram que o caminho do homem não termina com o seu respiro, mas tem um futuro no além. O Mistério, indicando as costas e continuando o caminho está convidando a humanidade a segui-lo, a não parar, a lamber as feridas e olhar para frente. A Vida do homem e da mulher que seguem o Mistério tem futuro e, este futuro será revelado com Cristo.

A face Deus não pode ser vista: por que e até quando? Outro texto neste sentido se encontra em 1 Reis. É no ciclo de Elias.

1 Reis 19, 11-13

O Senhor lhe disse: "Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar".
Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave. Quan­do Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: "O que você está fazendo aqui, Elias?"

Aqui encontramos o mesmo paradoxo: o Mistério que nos convida num relacionamento profundo, não se dá a conhecer totalmente. O profeta Elias vive uma profunda experiencia espiritual, que o levou a viver situações dramáticas e de grande solidão. Na narração que acabamos de escutar percebe-se que Elias aprendeu algumas coisas da maneira do Mistério se manifestar, de se aproximar: isso é louvável. Apesar disso, não é ainda preparado ao ponto de poder olhar no rosto do mistério, na sua face.  

O paradoxo de um Mistério que vem ao nosso encontro e, ao mesmo tempo, do mesmo Mistério que esconde o seu rosto, provoca uma tensão nas pessoas visitadas pelo Mistério e que são sensíveis a este apelo. Esta tensão é expressa em várias passagens, sobretudo nos salmos. Por exemplo, podemos citar o salmo 62: O Deus, tu es meu Deus, eu te procuro. Minha alma tem sede de ti. Este versículo expressa o desejo de Deus, a busca dele. A dinâmica da aproximação e do escondimento, provoca o desejo, a busca do Mistério, mantendo, desta forma, a lama numa constante tensão interior.

É com a vinda de Jesus que o Mistério se resolve, pois é Ele que revela de forma definitiva o Mistério do rosto de Deus. O Evangelho de João, a este propósito, escreve:

Ninguém jamais viu Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o deu a conhecer (Jo 1,18).

Jesus é a manifestação definitiva do Mistério do rosto de Deus. Também Paulo entende assim e escreve: “Ele é a imagem do Deus invisível” (Col 1,15). Jesus desvende o rosto de Deus. De agora em diante a nossa relação com o Mistério tem um rosto, uma identidade clara. Apesar de uma longa história de preparação para a humanidade reconhecer o rosto de Deus no rosto do Filho, infelizmente não aconteceu: “Ele estava no mundo, o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu” (Jo 1,0). Este versículo deveria provocar uma grande pergunta na nossa mente: será que nós o reconhecemos? Em que Deus acreditamos? Qual é o Deus que mora na nossa mente?

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A AMIZADE COMO MANIFESTAÇÃO DA PRESENÇA DE DEUS NA NOSSA VIDA

 




Semana de retiro espiritual ás irmãs adoradoras do sangue de Cristo

6-12 setembro 2024 – Manaus

 

Paolo Cugini

O ponto de partida: a presença

Foleando a Bíblia com um rápido olhar percebe-se um dato que perpassa toda a Sagrada Escritura: a percepção Misteriosa de uma presença amiga. A diferença dos povos vizinhos que buscavam a Deus no céu, nas estrelas, olhando no alto, o povo de Israel percebeu a presença do Mistério, olhando a terra, prestando atenção aos eventos históricos. De uma certa forma, apesar que seja um pouco ousado falar desta maneira, Israel percebeu o desejo de Deus de se aproximar ao homem, á mulher.

As narrações que encontramos nas primeiras páginas da Bíblia relatam esta sensação. A pergunta que pode nortear esta pesquisa na Bíblia poderia ser esta: quem é aquele que misteriosamente e aproxima a nós e quer a nossa amizade? Esta pergunta contém já de antemão uma resposta ao nosso itinerário sobre a amizade. Em toda experiencia de amizade, existe um desejo, uma vontade que empurra numa direção, rumo ao outro, outra que desejaríamos fosse amigo nosso. Mais uma vez, este desejo de amizade é visível em algumas páginas da Bíblia que agora folharemos juntos.

Ex 3,1-6. A percepção por parte de Moises do Mistério é paradigmática, ou seja, oferece elementos que encontramos em outras histórias parecida. Isso quer dizer, que o Mistério se manifesta não sempre da mesma maneira, mas com algumas características fundamentais.  “Lhe apareceu numa chama de fogo do meio de uma sarça” (Ex 3,2). O Mistério se manifesta na história dos homens e das mulheres utilizando elementos do mundo sensível, material, ou seja, do nosso mesmo mundo. É dentro este contexto que Moises percebe algo de novo, estranho: uma sarça que arde sem queimar. A revelação do Mistério na nossa vida acontece utilizando um material humano, que nós mesmos podemos reconhecer, porque faz parte do nosso contexto. Ao mesmo tempo, porém, neste mesmo patamar material existe algo de diferente, inusitado, que provoca a curiosidade de quem recebe esta visita.

Jer 1, 4s. Esta história é diferente da primeira, mas contém dados importantes pela nossa reflexão. Jeremias percebe a presença do Mistério a nível de consciência. Aquilo que ele realiza é uma experiencia interior. Jeremias percebe dentro de si algo que o convida para uma missão. É possível historicamente uma experiencia deste tipo? Olhando a literatura sobre este tema em outros âmbitos, podemos dar uma resposta positiva. Se pensarmos a Sócrates, só pra fazer um exemplo, segundo ele a verdade estava contida na alma que precisava ser libertada das falsas opiniões. Este exercício indica que a percepção de algo autêntico e, ao mesmo tempo, qualitativamente diferente, é fruto do esforço humano. Nas páginas de Jeremias, com o em outras páginas da Bíblia (por exemplo, 1 Sam 3,1-21, que narra a vocação de Samuel), é Deus que toma a iniciativa e a pessoa percebe como uma voz na própria consciência, uma voz tão clara e profunda que impele uma resposta.

O Mistério que se aproxima com a vontade de criar um laço, não é percebido somente por pessoas individuais, mas também em alguns eventos históricos que envolveram o povo.

Ex 14-15. Um primeiro exemplo deste aspecto ´a experiencia da passagem do Mar Vermelho. Sem aprofundar como realmente aconteceram as coisas, um dato é claríssimo na narração do livro do Êxodo: aconteceu algo de tão estranho e diferente, que chamou a atenção de todo o povo. 

Naquele dia JHWH salvou Israel das mãos dos Egípcios e Israel viu os egípcios mortos á beira-mar. Israel viu a proeza realizada por JHWH contra os egípcios. E o povo temeu a JHWH” (Ex 14,30s).

É um texto que revela já uma interpretação por parte do povo, que viu algo de inusitado, ao ponto de provocar maravilha, espanto. O povo viu, assistiu a eventos históricos de um porte tal, que era difícil pensar que naquele contexto específico não tivesse a mão do Mistério. Isso quer dizer, que existem eventos, aos quais Israel participou, que não é possível explicar de uma forma puramente humana e natural. Tem algo a mais.

A amizade do Mistério para com o homem e a mulher se manifesta com o desejo de se aproximar. Um primeiro passo na nossa reflexão seria ver se na nossa vida já percebemos o desejo do Mistério que se aproximou a nós para nos conhecer, nos tornarmos amigos. 

sábado, 24 de agosto de 2024

DOMINGO XXII/B

 




(Dt 4,1-2.6-8; Sl 14; Tg 1,17-18.21b-22.27; Mc 7,1-8.14-15.21-23)

 

Paulo Cugini

 

      Homem e mulher buscam a religião para dar sentido à vida, pois, ao longo do caminho, percebemos que a vida não tem sentido quando se baseia apenas em coisas materiais. Precisamos de significados que vão além dos dados sensíveis, que orientem a existência dando-lhe sabor, um significado profundo. Pois bem, a religião costuma oferecer esses conteúdos que ajudam a humanidade a caminhar com a mente aberta e voltada para o céu. Porém, não basta seguir uma religião para se sentir feliz, para ter sentido na vida. Isto é o que Jesus parece nos dizer no Evangelho de hoje. Há caminhos que se passam por realidades que vêm de Deus e, pelo contrário, nada mais são do que necessidades humanas. Se por um lado é importante e correto tentar dar sabor à existência através dos conteúdos de uma religião, por outro é preciso ter cuidado para não correr o risco de orientar a vida por caminhos negativos, que em vez de ampliarem o sentido do caminho, diminuem-no. Como você entende se o caminho percorrido é o certo? Há algum critério?

Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram,
ensinando doutrinas que são preceitos de homens.” Ao negligenciar o mandamento de Deus, observais a tradição dos homens
 (Mc 7, 6-8).

      Diante da censura dos fariseus aos discípulos de Jesus, que comiam com as mãos sujas, o que para eles significava mãos impuras, Jesus oferece uma resposta cheia de indicações importantes. Os fariseus referem-se aos capítulos do livro de Levítico que falam dos critérios que indicam a impureza de uma pessoa, alimentos e animais que não podem ser consumidos. Segundo Jesus, essas indicações, apresentadas como palavra e vontade de Deus, nada mais são do que acréscimos, preceitos e doutrinas de homens. Existe, portanto, uma religião que é feita de doutrinas humanas e negligência o mandamento de Deus. A consequência é muito grande. De fato, quem segue as doutrinas e tradições inventadas pelos homens torna-se uma pessoa dura, rígida, intransigente, como neste caso específico o são os fariseus para com os discípulos de Jesus. Quem segue o mandamento de Deus, que é o amor, orienta a vida. atenção aos outros, especialmente aos mais pobres; aprenda a compartilhar o quão pouco ou quanto você tem; aprende a perdoar porque se sente continuamente inundado pela misericórdia de Deus. A observância escrupulosa da doutrina dos homens e a obediência ao mandamento de Deus geram, portanto, dois estilos de vida muito diferentes. O critério que Jesus oferece para compreender se uma palavra ou um preceito vem de Deus ou é algo que vem dos homens é o amor, que se traduz na busca de relações humanas autênticas, no esforço de construir pontes de paz e de igualdade, na atenção constante até os últimos.

Ouça-me tudo e entenda bem! Não há nada fora do homem que, ao entrar nele, possa torná-lo impuro. Mas são as coisas que saem de um homem que o tornam impuro. E ele disse [aos seus discípulos]: «Porque de dentro, isto é, do coração dos homens, vêm as más intenções: impureza, roubo, assassinato, adultério, ganância, maldade, engano, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, loucura. Todas estas coisas más saem de dentro e tornam o homem impuro ( Marcos 7, 14-23 ).

    As palavras de Jesus aos discípulos são uma indicação para quem pretende empreender um caminho de fé, de confiança na palavra do Senhor. Partimos de dentro, da consciência, da verificação do que está dentro de nós. Se, como Jesus declarou, não são as coisas externas que tornam o homem e a mulher impuros, isto é, que impedem o relacionamento com Deus, isso significa que o ponto de partida do trabalho espiritual é a vida interior, é o cuidado da alma, libertá-lo dos resíduos criados pelos instintos, que geram um estilo de vida baseado no egoísmo e que leva a relações humanas prejudiciais.

Aceite com docilidade a Palavra que foi plantada em você e pode levá-lo à salvação. A religião pura e imaculada diante de Deus Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas que sofrem e não se deixar contaminar por este mundo (Tg 1, 27).

Abram espaço à Palavra do Senhor para que, vivendo-a, purifiquemos a nossa consciência de toda forma de egoísmo. É a Palavra de Jesus que nos empurra para o outro, para os pobres, para um caminho de vida marcado pelo amor desinteressado e livre. Esta é a verdadeira religião, aquela que Jesus nos ensinou com as suas palavras e a sua vida e que nos transmitiu com o seu Espírito.

 

DOMINGO XXIII/B

 






(Is 35,4-7a; Sl 145; Jo 2,1-5; Mc 7,31-37)

Paulo Cugini

 

A leitura fundamentalista da Palavra de Deus, ou seja, a interpretação literal, não só não é boa porque não leva em conta o contexto histórico e cultural em que um texto foi escrito, mas sobretudo porque tende a valorizar dados que, tomados no contexto, eles são, em vez disso, marginais. Ouvindo o trecho evangélico de hoje percebemos quão verdadeiramente, como diz São Paulo: “A letra mata, é o espírito que vivifica ” (2 Cor 3,6). Portanto, não basta ler o Evangelho, é preciso dedicar tempo, meditá-lo, deixar que o Espírito nos conduza às profundezas da Palavra.

Jesus, tendo saído da região de Tiro, passando por Sidom, dirigiu-se ao mar da Galileia em todo o território da Decápolis.

O milagre dos surdos e mudos num território pagão como Decápolis vai muito além dos puros dados materiais. O caminho em si é bastante rebuscado. Basta pegar num mapa para perceber que o caminho indicado por Marcos não é geográfico, mas teológico. É, de facto, um pouco estrango passar pelo território da Decápolis para ir de Sidon em direção ao Mar da Galileia, porque não está na estrada, por assim dizer, mas é preciso querer ir para lá. Com este caminho Marcos quer sublinhar que a mensagem de Jesus é para todos, não apenas para um pequeno grupo, para as pessoas habituais que se reúnem na sinagoga. Jesus quer levar a todos a sua mensagem de salvação e, por isso, muda o caminho. Seria interessante aproveitar estes simples versículos para verificar o desejo das nossas comunidades de levar o Evangelho a quem está fora do perímetro da igreja, o que há deste movimento missionário, que pensamentos expressamos para este caminho que Jesus inaugura visitando o território da Decápolis.

Depois, olhando para o céu, Jesus soltou um suspiro e disse-lhe: “Efata”, isto é: “Abre!”. E imediatamente seus ouvidos se abriram, o nó de sua língua foi desatado e ele falou corretamente.

Existe uma cura material que diz algo espiritual. Sem dúvida, Jesus realizou um milagre que, no entanto, na perspectiva do anúncio do Reino que Jesus realiza, significa algo mais. Existe um ouvido da alma, por assim dizer, que precisa ser atendido. Há uma resistência à Palavra de Deus, à sua proposta, que vem de muito longe. Anos de vida arrastados pelos instintos, ao serviço do próprio egoísmo, deixam uma marca profunda, um vício crónico à vida material que já não permite perceber a dimensão espiritual da existência. Não é por acaso que foram os amigos que trouxeram o doente até Jesus para curá-lo. Ele estava tão mal, estava tão entorpecido pelo vício do mal que não ouvia mais, que não ouvia mais ninguém.

Ele o chamou de lado, longe da multidão, colocou os dedos nos ouvidos e tocou sua língua com saliva; então olhando para o céu, ele soltou um suspiro.

Como Jesus cura o surdo-mudo? Levando-o de lado, longe da multidão: por quê? O que isso significa? Há uma relação pessoal que Jesus quer construir para comunicar vida. Sua força dada à humanidade não é um truque de mágica a ser aplaudido, mas um presente a ser acolhido. Também os gestos que Jesus faz na cura são importantes: os dedos nos ouvidos e a saliva com que toca a língua. Gestos que indicam que a cura que Jesus veio trazer é feita do mesmo material de nós. Não há uma intervenção prodigiosa, algo estranho que provoque a cura do surdo-mudo, mas simples gestos humanos, que utilizam elementos humanos. É com a nossa própria humanidade que Jesus nos transforma e nos cura das formas de surdez que não nos permitem compreender a sua Palavra e, consequentemente, dizê-la com a nossa voz e com a nossa vida.

Depois há o último aspecto da jornada de cura e é Jesus olhando para cima e soltando um suspiro, como se dissesse que os elementos materiais não são suficientes, mas precisamos colocar tudo nas mãos de Deus. Este é o significado da oração profunda, que começa com a consciência de si mesmo, do próprio caminho, incluindo as próprias deficiências, para se abrir ao mistério, buscando a vontade do Pai. Isto significa que Deus aparece à nossa vista através da nossa humanidade.

 

sábado, 17 de agosto de 2024

XXI DOMINGO/B

 




(Js 24, 1-18; Sl 33; Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69)

Paulo Cugini

 

      A incompreensão daquilo que Jesus diz aos seus discípulos é o tema do Evangelho de hoje. Um mal-entendido que vem de longe, da dificuldade de dar o salto de qualidade que Jesus propõe, ou seja, de olhar a realidade a partir da dimensão espiritual e interior e abandonar uma visão materialista e instintiva da história. É um caminho fascinante mas, ao mesmo tempo, difícil porque exige uma mudança de mentalidade, de paradigma e de estilo de vida, que só é possível para quem responde pessoalmente ao chamamento do Senhor.

Esta palavra é dura! Quem pode ouvir isso?

Por que a Palavra de Jesus é dura? Existem várias respostas que podem ser dadas. A primeira, a mais simples, refere-se às palavras que precedem o Evangelho de hoje, quando afirmava que: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna”. Há, portanto, uma resistência ao conteúdo literal das palavras usadas por Jesus que, como sabemos, devem ser interpretadas. A carne e o sangue de Jesus são a sua palavra, o seu estilo de vida, que deve ser “comido”, no sentido de assimilar, para que influencie as escolhas quotidianas. Em segundo lugar, é uma discussão dura porque é radical e não permite alternativas. Jesus coloca os seus discípulos e discipulas contra a parede: só existe um caminho que permite entrar agora na vida eterna, e é o caminho proposto pelo Senhor. Isto significa que é preciso escolher e, ao escolher o Senhor, significa abandonar outros caminhos. Depois, há um terceiro nível para o qual o discurso de Jesus parece duro e é a sua reviravolta da perspectiva religiosa clássica. Neste último sentido, de facto, propõe-se sacrificar a vida presente em vista de uma recompensa futura. Para Jesus, porém, a vida eterna começa agora, no momento em que a pessoa adere à sua palavra, a assimila, a “come”, tem a vida eterna, no sentido de que os sinais da eternidade, que são o amor, a gratuidade da vida, a capacidade de perdoar e de ser pessoas misericordiosas começa agora. Este discurso é claramente assustador e difícil para todos os religiosos habituados a guardar méritos para depois, um sistema religioso que permite às pessoas permanecerem quem são, cuidarem da sua vida e apostarem a sua religiosidade, a possibilidade de vida eterna após a morte. Jesus não está interessado em nossas aparências religiosas, que nos tornam belos diante do mundo, mas sim hipócritas diante de Deus.

É o Espírito que dá vida, a carne não serve para nada; as palavras que te falei são espírito e são vida.

     A carne é a vida guiada pela parte instintiva e material da existência e não consegue orientá-la para o amor autêntico, desinteressado e gratuito. A carne orienta a existência para a posse dos outros e das coisas, porque centra a existência humana nos seus próprios interesses. Carne significa egoísmo, alimentado pelo instinto de sobrevivência, que reduz tudo a si mesmo, até mesmo as relações interpessoais. Por isso, para seguir Jesus, para compreender a sua palavra, que nos conduz a um estilo de vida sóbrio, atento aos outros, esquecido de nós mesmos, precisamos fazer escolhas que orientem a nossa existência para o espírito, para a vida interior, para que é ela que guia a nossa carne e não o contrário.

A partir daquele momento muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não o acompanhavam.
Jesus disse então aos Doze: Vocês também querem ir embora?

    A pedagogia de Jesus é interessante: diante da decepção e do abandono de muitos dos seus discípulos, ele não recua, não baixa a guarda, sobretudo, não dilui a sua mensagem tornando-a mais doce e agradável. Ele sabe muito bem que o seu discurso é radical e que muitos dos seus discípulos e discipulas não o compreendem. Os riscos são, no entanto, elevados. Há um novo estilo de vida autêntica que Jesus inaugurou, que manifesta a imagem de Deus com a qual fomos criados e que o nosso egoísmo obscurece. Por isso, Jesus não diminui a força do seu anúncio, porque não procura o número de seguidores, mas aqueles que o Pai chama e que Ele verifica a sua resposta.

Simão Pedro respondeu-lhe: «Senhor, para quem iremos? Você tem palavras de vida eterna e nós acreditamos e sabemos que você é o Santo de Deus

     A simpática resposta de Pietro tem um aspecto positivo e outro negativo. Positivo é o entusiasmo com que Pedro reconhece o facto de um grupo de homens e mulheres terem escolhido segui-lo e, para isso, terem virado a sua vida de cabeça para baixo e ainda estarem dispostos a segui-lo porque reconhecem a bondade da sua proposta. Negativa é a expressão escolhida por Pedro para apontar a identidade de Jesus: o santo de Deus. É, na verdade, um título messiânico que se refere ao messianismo davídico, que vê no futuro messias um rei poderoso que derrotará o inimigo,  neste caso os romanos, o messias que veio a dominar os pagãos, para impor a lei mosaica. É exatamente a expressão que o homem possuído pelo demônio usava, sempre em Cafarnaum e sempre na sinagoga, como lemos em Marcos 4, 31-37. Nada disso pretende ser Jesus, como vimos. A resposta de Pedro abre questões perturbadoras sobre o futuro da viagem que Jesus fará com os seus discípulos até Jerusalém. 

 


quarta-feira, 14 de agosto de 2024

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA

 



(Ap 11,19a; 12,1–6a.10ab; 1Cor 15,20–27a; Lc 1,39-56)

 

 Paulo Cugini

Embora o dogma da Assunção de Maria seja recente (1950: é o último dogma formulado pela doutrina católica), a reflexão sobre este mistério da fé é muito antiga. Na verdade, a literatura apócrifa sobre a Assunção da Virgem Maria ao céu é muito abundante. São cerca de sessenta obras, transmitidas em manuscritos datados do século V em diante e escritas em diferentes línguas: grego, latim, etíope, árabe, arménio, copta, siríaco, eslavo e gaélico. Além disso, a produção sobre o tema em questão durante a época medieval é muito rica, atestada em vários idiomas. Segundo os estudiosos, o início da tradição da Assunção de Maria remonta ao século II d. C. no contexto gnóstico.

A tradição da permanência de Maria em Jerusalém no último período da sua vida é bastante sólida, atestada pelas Escrituras (Jo 19,25; At 1,14; Gl 2,9) e a história baseia-se num facto bastante certo do ponto de vista da crítica histórica. É natural pensar que nos últimos anos da sua vida Maria viveu protegida pela comunidade cristã de Jerusalém, numa das casas que ocupou. Os apóstolos tiveram, então, que cuidar de seu sepultamento com especial atenção, e ela teve que ser sepultada na área funerária de Jerusalém, perto do riacho Cedron, na parte oriental da cidade. Esta área funerária já funcionava no século I, de acordo com escavações arqueológicas recentes.

A elaboração da narrativa do fim da vida de Maria inspira-se e, até certo ponto acompanha, o fim da vida de Jesus, com base nos evangelhos e na tradição cristã, que se desenvolveu posteriormente. Esta é a sequência: um anjo consola Maria em momentos de angústia e tormento antes de sua morte e anuncia-lhe o que acontecerá, assim como um anjo havia consolado Jesus poucas horas antes de sua morte (ver Lucas 22,43-44). Todos os apóstolos, inclusive Paulo, acompanham Maria durante sua morte e sepultamento, o que não aconteceu no caso de Jesus. Maria é acompanhada por três virgens que a auxiliam, assim como Jesus foi acompanhado e vigiado na cruz por três mulheres (. João 19:25). Maria não será vítima de nenhum ataque do demônio e, como aconteceu com Jesus, não cairá nas mãos de Satanás, mas o derrotará protegida pela força divina. Finalmente, Maria é colocada num novo túmulo fora de Jerusalém e no terceiro dia o seu corpo e a sua alma, como no caso de Jesus, são glorificados.

A história da Assunção, tal como é relatada nos textos apócrifos dos primeiros séculos da Igreja, não se limita a narrar o fim da vida de Maria, mas também tenta explicar o significado do seu falecimento e a recompensa celeste que mereceu. A narrativa pretende afirmar que Maria realmente morreu (apesar da discussão dos teólogos sobre este ponto) e que ela realmente foi glorificada (a forma também é motivo de debate).

Irmãos, Cristo ressuscitou dos mortos, sendo as primícias dos que morreram (1Co 15.20).

A segunda leitura de hoje quer ajudar-nos a refletir sobre o significado da Assunção de Maria e porque ela é importante no caminho da fé. A Assunção de Maria torna verdadeiro o discurso de Paulo, lembrando-nos na primeira carta aos Coríntios que a ressurreição de Cristo não é um facto isolado, limitado apenas a Ele, mas é “as primícias dos que morreram”. Jesus, portanto, é o primeiro de uma longa série e Maria é o exemplo da verdade do que Paulo afirma. Jesus com sua paixão, morte e ressurreição abriu uma passagem no céu, para que todos aqueles que seguem seu caminho possam entrar. “Ele baixou os céus e desceu”, diz o Salmo 18. Com a sua Ressurreição Jesus não baixou os céus, mas abriu uma brecha para todos aqueles que ouvem a sua Palavra e a põem em prática.

O que nos diz o trecho evangélico desta solenidade sobre o caminho terreno percorrido por Maria, que a conduziu no caminho do seu Filho? Que traços da espiritualidade mariana podemos delinear nestes versículos?

Ele olhou para a humildade de seu servo. O primeiro é este. O Pai olhou para esta menina do povo de Israel, não para a sua grandeza, fama, beleza, mas para a sua humildade. O Pai viu que havia espaço na alma daquela menina para entrar. Maria não procura a si mesma, o seu próprio interesse, mas exclusivamente a vontade do Pai. Ela entendeu que o motivo da sua eleição não vinha de nenhum mérito pessoal, mas exclusivamente do espaço nela criado pela busca constante e diária da vontade do Pai.

sua misericórdia para com aqueles que o temem, de geração em geração. Maria captou a dimensão da misericórdia do Pai, que envolve todos aqueles que O temem, que O procuram. Viver no horizonte do Senhor significa experimentar a sua misericórdia, que se traduz na possibilidade constante de recomeçar apesar das quedas e dos erros. Antes de qualquer censura, há no Pai a oferta feita aos seus filhos e filhas para se levantarem e retomarem o caminho. Ternura, amor, misericórdia, doçura, mansidão: são palavras que falam Dele, do Pai, percebidas apenas por quem O busca com coração sincero em todos os momentos da vida. A misericórdia do Pai produz em quem a recebe um sentimento de paz, que se transmite naturalmente a quantos encontramos ao longo do caminho.

Ele dispersou os orgulhosos nos pensamentos de seus corações; derrubou os poderosos dos seus tronos, exaltou os humildes; saciou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias.

Precisamente porque criou espaço para Deus na sua vida e Deus entrou nela, Maria compreendeu de que lado Ele estava: o lado dos pobres, dos aflitos, dos perseguidos. Só aquele e aquela que abriram espaço ao Senhor, como fez Maria, que se fez pequena e humilde para acolher o amor do Senhor, que ama os pequenos e humildes da terra, podem compreender este facto. Na história da salvação, o Pai sempre interveio em defesa dos pobres, para protegê-los da arrogância dos ricos. Esta escolha é claramente visível em Jesus que: “de rico tornou-se pobre” (2 Cor 9,8) e caminhou pelas ruas da Palestina de forma simples e rodeado de pobres. Neste caminho também há espaço para os ricos que decidem partilhar a sua riqueza. Maria viu esta escolha radical e irrecuperável de Deus realizada no Filho e vivida pela primeira comunidade cristã.

Invoquemos, portanto, Maria para que nos ajude todos os dias a viver como Seu Filho e, assim,  passar com Ela, deste mundo da morte, para o mundo da vida.

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

XIXº DOMINGO – TEMPO COMUM/B

 




 

Paulo Cugini

 

Nestes domingos meditamos o capítulo 6 do Evangelho de João, que nos oferece uma reflexão sobre o mistério da Eucaristia, o seu significado mais profundo. É um texto complexo, de difícil compreensão, que exige atenção, vontade de mudar, de questionar. É um texto que nos diz claramente que Jesus, as suas palavras e as suas ações não podem ser lidas e compreendidas simplesmente com um olhar humano horizontal: há algo mais, qualitativamente muito diferente.

Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então ele pode dizer: “Desci do céu”?

Este é o problema: pensar que Jesus é algo que só podemos avaliar do ponto de vista humano. E assim, diante da novidade da sua mensagem, dos seus gestos, do seu estilo, imediatamente o esmagamos em direção ao que conhecemos e reduzimos a novidade ao já dado, ao já conhecido. São as estruturas culturais assimiladas ao longo do tempo, formadas e consolidadas pela força instintiva que molda a realidade e a própria consciência, a ponto de não aceitar nada que possa questioná-la, porque sente a ameaça. A proposta de Jesus de uma comunidade igualitária de discípulos e discípulas, a sua forma de propor a partilha dos bens, a prioridade da vida espiritual sobre a vida material: todas propostas consideradas como uma ameaça às mesmas estruturas religiosas dominadas.

Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer

Confrontado com as objeções dos judeus, Jesus faz esta declaração surpreendente. O encontro com Ele, a compreensão do seu Mistério, não é mero fruto de pesquisas pessoais, de sacrifícios, de jejuns, de artifícios meritocráticos, mas é um dom gratuito do Pai. Estamos, portanto, fora de uma mera busca individual, de uma projeção antropomórfica: há algo mais, que vai além das especulações racionais, dos esforços morais. Há este primeiro nível a aceitar para continuar a discussão, para mergulhar no mistério do Filho que se oferece como alimento para a nossa vida. Isso significa que não é possível compreendê-lo com a lógica humana, mas é uma questão de confiar, de se deixar atrair.

Está escrito nos profetas: “E todos serão ensinados por Deus”. Quem ouviu o Pai e aprendeu com ele vem a mim.

 

Há uma bela indicação do caminho a seguir. Como chegar até Jesus? Como ser atraído pelo Pai para ser conduzido até Ele? A resposta de Jesus é muito clara: ouvir o Pai que falava aos profetas. O Pai que fala nos profetas, que fala na criação, que fala cada vez na história acontece uma experiência de amor, de igualdade, de acolhimento e assim nos sentiremos atraídos por Jesus.

quem crê tem a vida eterna

Confiar em Jesus, na sua palavra, na sua proposta significa deixar-nos moldar por Ele, pela sua palavra, que transforma a nossa existência em amor, que nos ajuda a construir a paz onde há situações de ódio; que nos ajuda a entrar no mundo dos lobos como ovelhas; que nos ajuda a conquistar o mundo não com arrogância, mas com mansidão. Isto é a vida eterna: a participação dos mesmos sentimentos, do mesmo estilo que caracterizou a vida de Jesus, que passou deste mundo de morte para o mundo de vida do Pai.

Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão viverá para sempre e o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo

Jesus se oferece como alimento para nos lembrar que precisamos de um relacionamento diário e constante com Ele se quisermos viver dignamente, fazendo brilhar a imagem de Deus que carregamos. Comer o pão que é Ele significa mastigar todos os dias a sua palavra, para que ela se torne uma nova mentalidade, capaz de influenciar os nossos pensamentos, as nossas escolhas.

Precisamos daquele pão que é Jesus como o ar quando nos damos conta do vazio que temos dentro de nós e que foi formado pelos alimentos pobres que comemos, aqueles alimentos com os quais enchemos a cabeça, mas que nos tornam vazios de sentido e de sentido autêntico. Viver eternamente significa que as escolhas que faremos em nossas vidas como consequência do pão do céu que comeremos diariamente, que assimilaremos, nunca morrerão.