mercoledì 11 marzo 2026

ESTUDO BÍBLICO - JOÃO CAPÍTULO 1

 



 

Anotações de Paolo Cugini

 

Prólogo: 1,1-18

Esta passagem é um ato de amor dentro da totalidade do mistério de Cristo. João provavelmente elaborou sobre um hino cristológico preexistente. Esta passagem deve ser lida em paralelo com o prólogo da primeira carta de João.

1-5 : No princípio. Jesus, como Filho de Deus, preexistia a tudo o que existe. O Filho de Deus, a Palavra e a Luz, já estava ao lado do homem em sua luta contra o mal e o pecado, mesmo antes da vinda do Batista. João torna-se profeta e prediz a vitória final de Jesus: e as trevas não o venceram.

6-8: O Batista é informado sobre quem ele era em relação a Jesus e, portanto, qual era o seu papel. Para a comunidade cristã, o Batista veio como uma testemunha, para dar testemunho da luz. Ele não era a luz. Jesus o define como uma lâmpada acesa (5:35), um homem que é luz para os outros, mas que é luz porque a recebe.

9-14: A Luz preexiste à de João. Essa luz tem três presenças significativas:

1.       Ele estava no mundo, aquele mundo que foi criado por meio dEle. O mundo não O reconheceu: talvez haja uma referência à idolatria.

2.       Ele veio ao encontro do seu povo. Uma clara referência à história da salvação do povo de Israel. A Palavra esteve presente ao longo de toda a história do povo. Há uma referência à desobediência do povo judeu à Lei Mosaica e, portanto, à sua incapacidade de acolher Aquele que é a Palavra. Nem todo o Israel rejeitou Cristo.

3.       Ele se fez homem. O Verbo assume a realidade da nossa humanidade e experimenta a nossa fraqueza. Tenda: simboliza mobilidade, usada por aqueles que estão em jornada. A tenda evoca o Êxodo. Portanto, um novo Êxodo está começando. Jesus é o sim de Deus a todas as suas promessas. Há uma referência à experiência pessoal de João: vimos a sua glória: cf. 1 João 1ss.

15-18 : No Filho Unigênito, os crentes têm a possibilidade de conhecer verdadeiramente a Deus. Se ouvirmos Jesus com fé, ele nos tornará verdadeiros filhos de Deus. A linha da catequese de João é a de sua própria experiência: contemplando o homem Jesus, pouco a pouco, penetraremos no mistério de sua divindade. Subiremos com ele da terra para o céu.

Um Homem Enviado por Deus 19-42

Primeiro dia: 19-28: Por que lhe perguntam se ele é Elias? Porque uma das últimas profecias do Antigo Testamento (Ml 3:23) diz respeito ao retorno de Elias. Falar do profeta em certos círculos era como falar do Messias, razão pela qual o Batista afirma não ser o Profeta. Existe uma tradição que sustenta que o batismo era prerrogativa do Messias. Aqui, o Batista diz que seu batismo é uma preparação para o outro.

Segundo dia: 29-34 : assim como o povo de Israel, o Batista não sabia que o Messias já estava presente. Ele sabia apenas que o conheceria pelo batismo (1:33). Somente na narrativa de João sabemos que o Batista "viu". Segundo Marcos e Mateus, é Jesus quem vê, enquanto em Lucas ele permanece em silêncio. Uma vez que viu, o Batista pode dar testemunho.

O que João Batista diz sobre Jesus? 5 afirmações:

a.        Ele é aquele sobre quem o Espírito repousou e permaneceu.

b.       Ele é quem batiza com o Espírito Santo: o Espírito Santo que nos é dado é uma força santificadora e julgadora. Na primeira comunidade, falar do Espírito Santo significa falar daquele que nos capacita a dar testemunho, porque o Espírito nos faz nascer de novo. O Espírito Santo nos transforma, tornando-nos aptos para a missão.

c.        Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo: cf. Is 53:7-12.

d.       Ele é o Filho de Deus: equivalente ao Messias.

e.        Ele é maior do que eu porque existia antes de mim: Jesus não é apenas aquele que vem depois do Batista, mas é também e sobretudo aquele que o precede, de acordo com as ideias do prólogo.

Terceiro dia. 35-42 : "Seguir" é o verbo da vocação, daqueles que pretendem fazer uma escolha de vida: querem tornar-se discípulos do Senhor. A quem procurais? A pergunta indica uma busca prévia. O Mestre não é alguém que apenas transmite conhecimento, mas alguém que ensina um modo de vida. Por isso, é essencial saber onde Ele habita.

Venham e vejam: ver e observar é uma prerrogativa do discípulo (cf. 1 João 1:1).

André: Ele foi o primeiro a anunciar o Messias. André buscou, viu e encontrou — isto é, compreendeu quem é Jesus — e, por essa razão, o proclama.

Quarto dia. 43-51 : Pela primeira vez, ressoa o imperativo: Segue-me! É Jesus quem escolhe e chama. Para convencer-se de que Jesus é o Messias, as Escrituras por si só não bastam: é preciso visão. Por isso Filipe diz a Natanael: Vem e vê.

A comunidade cristã da época de João entendia que Jesus era o templo de Deus. O cumprimento das Escrituras vai além do que era esperado. A realidade sempre supera as promessas.

 

martedì 17 febbraio 2026

AINDA NÃO ENTENDEU?

 




Paolo Cugini

 

 

E ele lhes disse: Vocês ainda não entendem? (Mc 8:21).

Não deve ter sido fácil para os primeiros discípulos, homens e mulheres, seguir aquele homem de Nazaré. Muitas vezes imaginamos o seu "sim" como um caminho linear, mas a realidade foi de enorme esforço psicológico e espiritual. Eles seguiram Jesus, abandonaram suas redes de segurança, e a distância entre a proposta do Mestre e a sua própria experiência era abissal. Não se tratava apenas de compreensão intelectual; tratava-se de desmantelar todo um universo simbólico construído ao longo de séculos de história.

O legado de um paradigma cultual rígido pesava muito sobre as mentes dos contemporâneos de Jesus. A fé era entendida como um sistema de sacrifícios, prescrições e deveres. Em seu centro, estava a imagem de um Deus exigente, um soberano que não perdoava os transgressores e ameaçava com punição eterna. Nesse contexto, a religião havia se tornado um instrumento de controle social. Os líderes religiosos haviam erguido um muro entre o sagrado (relegado ao templo) e o profano (a vida cotidiana do povo). Esse Deus deformado era, na verdade, um antagonista do homem, uma entidade que servia para justificar a lógica de poder dos senhores do templo. O risco de reduzir Deus a um juiz severo é uma tentação constante na história das religiões.

Jesus irrompe nesse cenário com uma força subversiva. Ele define a compreensão da religião pelos fariseus como fermento ruim, uma massa negativa capaz de contaminar toda a comunidade. Sua resposta não é uma nova lei, mas uma revelação: Deus é Pai e infinita misericórdia. Enquanto o templo impunha preceitos, Jesus abriu caminhos de libertação. Com Ele, a separação entre o sagrado e o profano se desfaz definitivamente. Em Cristo, o sagrado penetra o tempo e a carne: tudo é santificado e nada precisa ser sacrificado. É a vitória da vida sobre a morte e do amor sobre o ódio.

Por que os discípulos tiveram dificuldade em compreender? A resposta reside no que poderíamos chamar de colonização da imaginação. Por muito tempo, eles assimilaram o veneno dos líderes religiosos, confundindo tradições humanas com a Palavra de Deus. Expor essa mistificação foi o ato mais corajoso de Jesus, mas também despertou o ódio das autoridades estabelecidas. Um Deus que perdoa tudo e todos não é adequado para aqueles que buscam subjugar o povo pelo medo.

A misericórdia não é uma mera benevolência barata, mas sim a força que destrói a lógica do poder.

Embarcar na jornada do Evangelho hoje significa aceitar o mesmo sofrimento dos discípulos: o esforço de se despojar da antiga religião do medo e da barganha com o divino. A transição é radical: do Deus-Tirano para o Deus-Amor. Somente aceitando esse despojamento podemos ser revestidos da luz do Mistério da Misericórdia, transformando a fé de uma lista de obrigações em uma experiência de autêntica liberdade.

 

domenica 15 febbraio 2026

HOMILIA SEXTO DOMINGO/A

 




(Eclesiástico 15,16-21; Salmo 118; 1 Coríntios 2,6-10; Mateus 5,17-37)

Paolo Cugini

 

A atenção que Jesus dedica ao tema da lei, crucial para a religião judaica, é significativa. A salvação está, de fato, intimamente ligada à observância dos preceitos do Senhor, e a busca por Deus passa necessariamente por ela. O Salmo 119, que recitamos hoje — e que, como sabemos, é uma meditação profunda e detalhada sobre a lei do Senhor — nos lembra: " Bem-aventurados os íntegros em seus caminhos e que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos e o buscam de todo o coração." O problema surge precisamente nesse nível: tentar obedecer à Lei de coração. O risco, na verdade, é cair no formalismo, na repetição de rituais que não servem a outro propósito senão o de aliviar a consciência, estar em paz com Deus e continuar vivendo a vida como se deseja.

Diante dos homens estão a vida e a morte, o bem e o mal: a cada um será dado o que lhe apraz (Eclesiástico 15:17).

O livro de Sirácide também oferece uma reflexão positiva sobre o significado da Lei de Deus como uma oportunidade para homens e mulheres viverem autenticamente. A possibilidade significa que a Lei de Deus não é imposta, mas apenas escolhida. Essa ideia também está expressa em Deuteronômio, capítulo 30. A lei é apresentada como a bênção de Deus, e sua transgressão como uma maldição. Do lado da Lei está o caminho da vida, enquanto o caminho da transgressão leva à morte. O homem é convidado a escolher entre as duas possibilidades, embora Deuteronômio recomende o caminho da vida: " Hoje invoco o céu e a terra como testemunhas contra vocês: coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolham, pois, a vida, para que vocês e os seus descendentes vivam" (Deuteronômio 30:19). Há, portanto, uma reflexão positiva sobre o tema da Lei de Deus, cuja observância garante aos homens e mulheres a possibilidade de uma vida autêntica, protegida por Deus.

Jesus disse aos seus discípulos: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir” (Mt 5,17).

Ao ler os Evangelhos e as polêmicas de Jesus com os líderes religiosos, percebe-se uma transformação na observância da Lei. A partir do Segundo Templo, a classe sacerdotal ganhou força em detrimento do pensamento profético, e o ambiente religioso passou a enfatizar as práticas externas, perdendo, com o tempo, o significado profundo da Lei. As palavras de Jesus ouvidas hoje visam relembrar o significado autêntico da Lei. A declaração de Jesus, contudo, revela o desconforto dos líderes religiosos com ele, pois percebiam uma espécie de revolução na obediência à Lei Mosaica. É por isso que Jesus faz questão de esclarecer que não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la, ou seja, para explicar o significado profundo da Lei, que não pode ser reduzida à mera observância externa, mas deve alcançar o coração das pessoas. Em outros contextos (cf. Mc 7), Jesus demonstra a subversão das leis por líderes religiosos que substituíram a palavra de Deus por tradições inventadas por eles mesmos, conduzindo o povo não a Deus, mas a si mesmos. O cumprimento da Lei que Jesus veio demonstrar visa restaurar o discurso à sua concepção original, ou seja, como um caminho de salvação para o povo, um caminho que envolve a disposição de mudar o coração, a consciência, para um estilo de vida mais autêntico. Trata-se, portanto, de abandonar uma religião preocupada com as aparências e adotar um estilo de vida que busca a profundidade das escolhas.

Pois eu lhes digo que, se a justiça de vocês não for muito superior à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus. Vocês ouviram o que foi dito aos antigos… mas eu lhes digo (Mt 5,20-22).

A justiça dos escribas e fariseus visa à observância externa da Lei, ao cumprimento do preceito: essa mentalidade precisa ser superada. Como? Na passagem que nos é dada hoje, são apresentados alguns exemplos que demonstram o passo que devemos dar na observância da Lei. Vejamos o primeiro. Jesus não questiona o mandamento de Moisés: "Não matarás", mas o radicaliza. Há, de fato, uma maneira de matar pessoas, o que fazemos todos os dias quando as ofendemos ou difamamos. Não faz sentido, então, argumenta Jesus, comparecer à celebração para receber a comunhão e ter relacionamentos arruinados na comunidade. Primeiro, resolvamos quaisquer pendências e depois nos aproximemos do altar para receber o Corpo de Cristo, que nos ajuda a viver em comunhão. Mais uma vez, precisamos passar de uma mentalidade legalista, que nos leva a cumprir o preceito, para a assimilação de um novo estilo de vida, que exige disposição para mudar, permitindo-nos ser desafiados pelo Evangelho.

Falemos, em vez disso, da sabedoria de Deus, que é misteriosa, que permaneceu oculta e que Deus estabeleceu antes dos séculos para nossa glória (1 Coríntios 2:7).

A sabedoria que Jesus oferece à humanidade vem do coração de Deus. É, portanto, cristalina, transparente e fala à nossa consciência de tal forma que todos podem compreender sua autenticidade. Diante dessa sabedoria, temos duas opções: ou rejeitá-la e seguir nosso próprio caminho; ou acolhê-la, abrindo espaço para ela em nossos corações, permitindo que transforme nossos hábitos e nos leve de uma vida centrada no egoísmo, que nos fecha em nós mesmos, para uma vida marcada pelo amor livre e altruísta. A escolha é nossa.

 

sabato 7 febbraio 2026

SAL DA TERRA LUZ DO MUNDO

 




Isaías 58,7-10; Salmo 111; 1 Coríntios 2,1-5; Mateus 5,13-16

 

Paolo Cugini

 

No domingo passado, começamos a ouvir o Sermão da Montanha com a passagem das Bem-aventuranças, que podemos chamar de esboço da missão de Jesus. Hoje, continuamos com outra passagem extremamente significativa, que precisa ser plenamente assimilada. Seguir o Senhor significa decidir mudar, não ter medo de deixar de lado nossa identidade presumida. Viver na comunidade que se identifica com o Evangelho significa deixar-nos despir das falsas identidades que assimilamos inconscientemente, para permitir que o Espírito Santo nos redefina. Esse processo de renascimento acontece em comunidade, no relacionamento com irmãos e irmãs, na busca contínua para permitir que o Espírito do Senhor teça a nova veste de uma nova humanidade. Ouçamos, então, duas passagens significativas das leituras de hoje. 

“Se vocês tirarem do meio de vocês o jugo, o dedo acusador e a linguagem perversa, se vocês se dedicarem a ajudar os famintos e a saciar a fome dos aflitos de coração, então a sua luz brilhará nas trevas, e a sua escuridão será como o meio-dia” (Isaías 58:10).

Jesus disse aos seus discípulos: "Vocês são o sal da terra; mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Para nada mais serve, senão para ser jogado fora e pisado pelos homens.
Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada sobre um monte não pode ser escondida. Nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto. Ao contrário, coloca-se no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa." (Mt 5:13-16)

Devemos nos acostumar a ouvir essas palavras não como afirmações genéricas, como máximas dirigidas a quem sabe quem, mas como as palavras de um mestre para seus discípulos, de um pai para seus filhos. Este é o horizonte que nos permite mergulhar em conteúdos que revelam o significado de uma jornada, não de uma doutrina; indicações existenciais, não preceitos moralistas.

Ter um pai assim, um pai que confia o suficiente em você para lhe dizer que você é o sal da terra. Um pai que acredita tanto em você que lhe diz que você é a luz do mundo. O que são essas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos senão a revelação de uma identidade? É Jesus quem revela a identidade deles aos discípulos. Poderíamos dizer que Jesus os preparou precisamente para isso e nada mais: para serem o sal da terra e a luz do mundo. Por um lado, as palavras expressam a consciência de Jesus sobre a bondade da obra que realizou, a obra de formar consciências; por outro, há a sua confiança naqueles que o acompanharam na jornada. Jesus proclama ao mundo que seus discípulos são o sal da terra e a luz do mundo. Ele diz isso porque tem certeza deles, sabe quem são e como o acompanham na jornada.

É o pai, o mestre, que, ao indicar a identidade e o significado de um caminho, expressando com veemência toda a positividade da identidade do discípulo, do filho, mostra simultaneamente as exigências que esse caminho acarreta.

Qual é, então, o conteúdo desta indicação? Sal e luz, terra e mundo.

Sal e luz são dois elementos diferentes, mas têm um efeito semelhante. Beneficiam os outros, mas permanecem ocultos. Caminhamos pelas ruas do mundo graças ao sol, mas não pensamos nele nem o observamos. Saboreamos os alimentos que nos nutrem, mas nunca pensamos no sal que lhes dá sabor. Os cristãos, porque não buscam a glória dos homens, mas a glória de Deus, não se interessam pelas aparências: não precisam delas. Quanto mais buscamos as aparências, menos intensa se torna nossa jornada de fé. Cultivar uma espiritualidade de ocultação significa buscar o olhar do Senhor nas coisas que fazemos em nosso dia a dia.

É importante notar que Jesus não valoriza as qualidades individuais de um discípulo ou outro. Não há nada daquela exaltação mesquinha que leva os indivíduos a uma autopercepção distorcida. A indicação está no plural, não no singular: vós sois. Os discípulos são sal e luz quando vivem em comunhão. É a comunidade, em sua jornada pelo mundo, que é um sinal do amor livre e altruísta de Deus, de sua justiça e misericórdia. É a comunidade que é luz no mundo e sal da terra.  

Terra e mundo. Na perspectiva do Novo Testamento, o mundo é a realidade que se opõe a Deus e se constrói autonomamente segundo o seu plano de vida. Ser a luz do mundo significa viver dentro da lógica do Evangelho, que é amor, comunhão e justiça. Ser luz, portanto, não significa espetacularizar a própria existência, mas suportar o ódio do mundo, que se recusa a ser cegado pela lógica do Evangelho. A terra é o espaço onde a vida se desenrola em seu dinamismo cotidiano. Dar sabor à vida diária é a tarefa da comunidade que se identifica com Jesus. Uma comunidade que o é não porque celebra rituais, mas porque vive o que celebra e, ao vivê-lo, torna-se luz para o mundo e sal da terra.

 

mercoledì 4 febbraio 2026

E ficou admirado com a incredulidade deles

 




Paolo Cugini

 

 

E ele não pôde realizar ali nenhum grande feito... E admirou-se da incredulidade deles. (Mc 6:5.6).

 

Escutem, filhos do tempo, pois a poeira que vocês pisam não é o limite do seu destino. Estamos imersos numa era de olhares cabisbaixos, onde o olho da carne se ilude pensando que tudo viu porque mediu, pesou e tocou a matéria. Mas eis que lhes anuncio que o profundo significado da vida reside além daquilo que a mão agarra e o olhar cansa; é um horizonte vislumbrado apenas por aqueles que ousam ultrapassar o véu da carne.

No entanto, eu lhes digo: a profundidade da Mensagem não se revela àqueles que permanecem prisioneiros dos sentidos. Há um sussurro que abala os alicerces do ser, um eco que atravessa os séculos, uma proposta que o Mistério lançou como uma semente ao vento, mas que somente a terra transformada pode acolher. O chamado é para aqueles que têm ouvidos interiores, para aqueles que não se contentam com o pão que enche o estômago, mas anseiam pelo alimento que liberta a alma.

Não se iludam pensando que a visão é um esforço da vontade. O homem e a mulher não sobem a montanha do Espírito apenas com a sua própria força; eles são guiados. É um êxtase doce, uma profunda atração por outra dimensão, como o rio que se entrega obedientemente à corrente do Espírito. Mas cuidado: se o vento sopra para onde quer, a sua tarefa é preparar a casa: limpar o terreno; arrancar os espinhos do egoísmo e do orgulho que sufocam toda a novidade; organizar os caminhos, organizar a sua vida diária para que o Espírito não encontre obstáculos pelo caminho; abrir espaço, pois somente no vazio de um coração purificado o Mistério pode finalmente encontrar um lar.

Não há tempo a perder: o trabalho silencioso, muitas vezes invisível aos olhos do mundo, é o que prepara o milagre do florescimento interior. Chegará o dia, súbito como um relâmpago e silencioso como o amanhecer, em que as escamas cairão dos seus olhos. Nesse momento, você não verá mais apenas notícias, mas história. Reconhecerá a Presença que pulsa no coração dos acontecimentos, a maneira sutil e poderosa com que o Mistério atua através das dobras do tempo. Crer não é uma mera concordância intelectual, mas uma mudança radical de mentalidade; é metanoia. É a passagem da escuridão da separação para a luz da conexão. De espectadores cegos, tornamo-nos atores conscientes na história sagrada que se desenrola.

Quem reconhece o Mistério finalmente compreende o significado último do universo. Verá o que o cego ignora: tudo está interligado. Não há fios isolados na trama da criação. Nessa nova consciência, as barreiras que hoje dividem vocês — nações, línguas, medos — ruirão como paredes de areia batidas pelo mar. Aqueles que enxergam com os olhos do Espírito não podem deixar de colaborar na construção de um reino de paz e justiça, pois reconhecem nos outros a mesma vida que emana do Uno.

Não espere pelo amanhã. O trabalho de purificação começa no silêncio deste momento. Prepare o caminho, pois a vida está revelando sua glória, e somente aqueles que mudaram sua perspectiva poderão herdar sua plenitude. Lembre-se: o futuro se constrói no presente, e o presente é o lugar onde o Mistério se oferece àqueles com o coração desperto e as mãos abertas.

 

sabato 31 gennaio 2026

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

 




 

Sof 2,3; 3, 12-13; Sal 145; 1 Cor 1, 26-31; Mt 5,1-12

 

Paolo Cugini

 

Buscamos o Senhor, mas temos dificuldade em vê-lo. Gostaríamos de segui-lo mais de perto, mas, assim que nos aproximamos, suas palavras parecem estranhas, duras demais. A proposta de Jesus para aqueles que vivem em um mundo de abundância, incitados diariamente a acumular bens, a buscar uma vida confortável, parece verdadeiramente escandalosa, distante demais de nossos modos de sentir e pensar. E assim, nos refugiamos em devoções, em rituais formais, na obediência a preceitos, para que possamos nos considerar seguros, religiosos que merecem o céu pelo que fazem. Isso é o oposto do Evangelho, que ninguém pode presumir merecer, pois só podemos aceitá-lo livremente. Quando isso acontece, iniciam-se caminhos de encarnação, jornadas em que a fé nos leva a viver de uma nova maneira, menos preocupados conosco e com nossos sucessos e mais atentos aos que nos rodeiam. Em última análise, a conversão à proposta de Jesus foi muito bem resumida por Paulo: deixar de viver para nós mesmos e aprender a viver para Deus e para os outros, especialmente os mais necessitados. Este é o significado da relação entre fé e vida, o sagrado e o profano. A fé autêntica em Jesus é aquela que, após acolher o Seu amor, sente o desejo de compartilhá-lo, de fazer escolhas coerentes com o Evangelho que ouvimos. Quando esse processo de renovação interior acontece, deixamos de buscar o culto para nos sentirmos religiosos e bons, e passamos a buscar o reino de Deus, colaborando na comunidade para construir um mundo de justiça, paz e partilha.

Busquem o Senhor, todos vocês, pobres da terra, que cumprem os seus mandamentos; busquem a justiça, busquem a humildade; talvez encontrem refúgio no dia da ira do Senhor. "Deixarei no meio de vocês um povo humilde e submisso" (Sofonias 2:3). 

Há situações que somos convidados a criar se quisermos perceber a presença do Senhor, o seu amor, o seu caminho. Podemos mudar os contextos; podemos escolher. Parece-me que este é o significado da profecia de Sofonias. Há um povo humilde e pobre com quem o Senhor se identifica: cabe a nós decidir quais escolhas faremos para pertencer a esse povo. Essas palavras estão em consonância com o que temos ouvido nos últimos domingos. Há um estilo evangélico feito de sobriedade, simplicidade e essencialidade que é o solo privilegiado para a Palavra de Deus crescer em nós e dar frutos. Se, portanto, desejamos trilhar os caminhos que o Senhor traçou, torna-se importante pensar, refletir, compreender e orar: o que devemos fazer, Senhor, para garantir que pertencemos ao povo humilde e pobre que o Senhor está preparando? Devemos parar de pensar em nossas vidas em termos da busca pelo sucesso, pela segurança material, o que só nos coloca em situações de conflito, tornando-nos cúmplices do mundo de desigualdade tão evidente no Ocidente. O Salmo 145, proposto na liturgia de hoje, confirma o que foi dito acima. Ele é um Deus que está sempre e exclusivamente ao lado dos pobres, dos famintos; está ao lado dos oprimidos, dos que estão em dificuldade, como as viúvas e os estrangeiros. Esta é a justiça de Deus, que não permanece em silêncio diante da injustiça, mas intervém, participa; em suma, toma partido.

“ Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus… Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra ” (Mt 5,3-3).

Uma bela passagem que se torna um bálsamo para todos aqueles que vivenciam a injustiça e a exclusão em primeira mão. Hoje, Jesus diz: Bem-aventurados sois vós que sois oprimidos. Se o mundo vos trata mal, Deus vos consola e está ao vosso lado: podeis contar com Ele. Se sois tão desprovidos de tudo que nem sequer tendes um pedaço de terra para cultivar o sustento da vossa família, e se os ricos e arrogantes tomam tudo, bem, Deus vos dará a terra como herança. Estas são imagens poderosas, e ao mesmo tempo muito belas, que tocam profundamente o coração dos pobres e despossuídos ao longo da história. Esta passagem, porém, também tem algo a nos dizer, pois revela o caminho que devemos seguir e o significado da ação do Espírito Santo em nossas vidas. Leiamos atentamente o texto; de fato, os versículos delineiam as características da humanidade de Jesus: manso, humilde, pacificador, justo e misericordioso. Para todos os que o acolhem, o Espírito Santo reproduz em nós os traços dessa extraordinária humanidade, tornando-nos colaboradores na ação criadora de Deus, que é delicada, não impositiva, mas paciente.

Considerem a vocação de vocês, irmãos: não foram muitos os sábios segundo os padrões humanos, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres (1 Coríntios 1:26). É exatamente isso que Paulo entende. A participação na construção do Reino de Deus não depende de dons particulares ou qualificações específicas, porque é Deus quem opera em todos os que estão disponíveis; é Deus quem transforma o insensato em sábio, o fraco em forte, o nada em uma nova possibilidade de vida. Todos somos chamados a empreender essa jornada: ninguém está excluído. Diante de Deus, todos temos a oportunidade de humanizar nossa existência. Nossa resposta significa uma disposição para nos deixarmos transformar por Ele.

 

sabato 24 gennaio 2026

III DOMINGO DO TEMPO COMUM A

 



 

 

(Isaías 8,23b - 9,3; Salmo 26; 1 Coríntios 1,10-13, 17; Mateus 4,12-23)

Paolo Cugini

Estamos sempre em uma jornada, buscando compreender o Mistério. Há um caminho a ser percorrido, que nos esforçamos para alcançar. O contexto cultural certamente não facilita essa jornada. Somos constantemente pressionados por mensagens que nos levam a valorizar as aparências e, dessa forma, negligenciamos a jornada interior, o cuidado com a nossa consciência. Seria interessante compreender se existe um caminho, um ponto de partida privilegiado, a partir do qual possamos compreender o Mistério que Jesus revelou e que torna possível segui-lo.

Ele retirou-se para a Galileia, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, no território de Zebulom e Naftali (Mt 4:12).

Devemos começar pela Galileia. Este é o ponto de partida privilegiado, que abre a mente para o mistério. Enquanto a Judeia possui uma linhagem nobre — o nome, aliás, deriva de Judá, um dos patriarcas —, a Galileia não tem nada de nobre: ​​muito pelo contrário. Os historiadores nos contam que era uma terra habitada por pessoas pobres e violentas, malvistas pelos outros. Foi este lugar que Jesus escolheu para iniciar sua jornada e chamar seus primeiros discípulos. A escolha não é acidental. É possível compreender o Mistério que se manifestou em Jesus escolhendo o ponto de partida correto. A Galileia, indo além da metáfora, indica que, para termos a chance de compreender o Mistério, devemos nos colocar em posição de acolher e, consequentemente, buscar a pobreza evangélica. Habitar na Galileia, habitar na simplicidade evangélica para seguir o Mestre no êxodo rumo à plenitude da vida. Despojar-nos de tudo para nos deixarmos revestir por Ele.

Galileia dos gentios! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; e aos que viviam na região e sombra da morte, resplandeceu a luz.

Para ajudar os leitores a compreenderem o significado do caminho que devem trilhar, o evangelista Mateus cita uma passagem de Isaías, capítulo 8, que fala do contraste entre a luz e as trevas. Que trevas são essas? Trata-se de uma imagem simbólica da religião do templo, estabelecida na época do retorno do povo do exílio na Babilônia e reconstruída em torno do Segundo Templo. É uma religião que medeia a relação com Deus por meio de uma série de preceitos e prescrições, com sacrifícios cultuais que se concentram não em Deus, mas na classe sacerdotal. As trevas consistem na escravidão causada por essa relação doentia com Deus, que mantém homens e mulheres em um estado infantil, sujeitos a uma imensa lista de decretos e prescrições impossíveis de observar e que, consequentemente, criam sentimentos de culpa e uma vida de escravidão. Em meio a essas trevas, Jesus traz a luz do Evangelho, um caminho de libertação da religião dos preceitos, para estabelecer uma nova relação com Deus que, a partir de agora, não é mais um tirano, mas um Pai.

Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo . Entrar no espaço da nova humanidade de amor e justiça trazida por Jesus exige uma jornada de conversão, uma mudança de mentalidade. É o novo Êxodo proposto por Jesus, o novo Moisés. Por isso, o texto diz que Jesus foi a Nazaré à beira-mar : é uma indicação simbólica, referindo-se ao Mar Vermelho, que marcou o momento da passagem do povo de Israel do Egito para Jerusalém, da escravidão para a libertação. Não é, portanto, uma jornada fácil, porque, como Jesus sempre nos lembra, o seu vinho novo do Evangelho não pode ser contido nos odres velhos da religião do templo. O caminho da liberdade proposto por Jesus exige pessoas dispostas a abandonar a velha mentalidade e adotar uma nova. O chamado dos primeiros discípulos que ouvimos na passagem do Evangelho de hoje tem este significado: chamados a entrar no espaço dominado pelo amor do Senhor, pela sua justiça e misericórdia.

Eu vos exorto, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a que todos estejais de acordo e que não haja divisões entre vós; antes, sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer (1 Coríntios 1:10).

O caminho que Jesus propõe não é individual, mas comunitário. É em comunidade, aliás, que aprendemos a amar uns aos outros, que experimentamos o dom do perdão e da misericórdia. É também em comunidade que compreendemos que Deus não faz acepção de pessoas (Atos 10:34) e que nos acompanha de forma acolhedora e inclusiva, como era a proposta específica de Jesus. Seguir Jesus significa, nesta perspectiva, estar disposto a abandonar a mentalidade individualista do mérito, a entrar na lógica da comunhão e da partilha. O amor gratuito do Senhor só pode ser acolhido; não exige sacrifícios especiais nem pequenos gestos a serem conquistados. Acolher o amor gratuito do Senhor gera comunidades acolhedoras e altruístas, dispostas a servir umas às outras, prontas a qualquer momento para curar as divisões que o egoísmo humano pode causar. Como o próprio Jesus dirá no contexto da Última Ceia narrada por João (João 13:34-35), a comunhão, o amor mútuo, é o sinal visível da presença do Senhor Jesus, a identidade da comunidade que se encontra no nome do Senhor. Respondamos, então, positivamente ao seu chamado para segui-lo, prontos a acolher o seu amor gratuito, para construir com ele essa nova humanidade que revela ao mundo o amor infinito do Pai. 

 

mercoledì 14 gennaio 2026

O Mistério reside no silêncio

 


 

Paolo Cugini

 

De madrugada, quando ainda estava escuro, ele saiu e retirou-se para um lugar deserto, e ali orou (Mc 1,35).

 

De onde vinha a força que animava o coração de Jesus? Que fonte secreta alimentava sua serenidade luminosa, sua clareaza nos momentos decisivos, seu jeito gentil de se aproximar das almas perdidas? Havia uma essência, um sopro profundo que o distinguia dos homens: seu estilo era a meditação, uma oração cultivada em lugaraes ocultos, protegida do olhar e do ruído do mundo.

Jesus cuidava de sua alma em silêncio, e foi precisamente ali que o Mistério encontrou sua morada dentro dele, irradiando como uma luz sutil sobre todos que cruzavam seu olhar. Imerso no silêncio, ele se redescobriu, permitindo que os acontecimentos se desenrolassem sem o dominar: o silêncio tornou-se, assim, sua rocha e seu refúgio.

O mistério nasce e se manifesta no silêncio: como o orvalho que cai silenciosamente ao amanhecer, assim a paz se instala naqueles que a buscam nas profundezas. Somente aqueles que ousam parar, aqueles que mergulham no silêncio, podem ouvir a voz que fala à alma, perceber a profundidade da palavra e aguçar o olhar que enxerga além das aparências.

Por isso Jesus escolheu a primeira luz da manhã: antecipou o dia, afastou a escuridão que se insinua em nossos pensamentos e corações. Abandonar a preguiça, lutar resolutamente para levantar antes do amanhecer, é a marca de uma alma que anseia pela luz; adiar o despertar, por outro lado, é sintoma de uma noite prolongada, de sombras que ainda pesam sobre nossos ossos e alma, mantendo-nos acordados e oprimindo nossos corações. Não devemos brincar com a escuridão que nos envolve na noite. Devemos lutar com todas as nossas forças para impedir que ela invada nossos sonhos. Talvez seja por isso que Jesus se dedicava à oração na noite anterior ao sono?

Levanta-te e resplandece! parece sussurrar o Mistério. Só aqueles que mergulham no silêncio ao amanhecer aprendem a proferir palavras que exalam sabedoria; só aqueles que escutam o eco do Mistério podem viver em sua profundidade. É preciso habitar o silêncio para aprender a olhar para o futuro, para não se deixar seduzir pela superficialidade das coisas; devemos fugir do caos, buscando a solidão como quem procura um tesouro escondido.

Esta é uma das maiores tarefas da vida adulta: tornar-se guardião do próprio silêncio interior. Só assim poderemos, como Jesus, ser portadores de uma força silenciosa que não se deixa corroer facilmente pelas tempestades do mundo. A verdade reside no silêncio, e aqueles que souberem escutar o silêncio tornar-se-ão eles próprios uma voz de paz.

 

venerdì 9 gennaio 2026

O mistério não está escondido no céu

 



 

Paolo Cugini

 

 

Assim fala a Voz que atravessa os séculos: não ergam os olhos para o céu em busca do Mistério, pois ele não se esconde entre nuvens inalcançáveis ​​nem se espreita por trás de distâncias abstratas. O Mistério reside nas mãos que se estendem, nos olhares que se cruzam, nos passos que se dão um em direção ao outro sem expectativa. Como o orvalho que cai silenciosamente sobre a terra, assim o Mistério toma forma em gestos simples, no amor que se concretiza entre irmãs e irmãos.

Escutem, então, ó vós que buscais: não são velas acesas, nem palavras repetidas que abrem a porta para o Mistério, mas a capacidade de sair de si mesmo, de acolher aquele que está ao seu lado. Quando vocês deixam seus corações se abrirem sem reservas, então o Mistério se revela, não como um enigma a ser decifrado, mas como uma presença que habita e transforma. Não se afastem: o sagrado os toca todos os dias, na trama sutil dos relacionamentos verdadeiros. Sejam, então, terreno fértil, e o Mistério florescerá e permanecerá dentro de vocês, como uma luz que não conhece o fim.

Falo convosco do âmago pulsante da matéria, não de nuvens evanescentes ou esferas de outro mundo. O Mistério que buscais não está oculto num céu para além do pó e do suor, mas revela-se na carne viva das relações diárias, no toque humilde de mãos estendidas, em olhares que se cruzam sem pretensão. Despertai do sonho ilusório: chega de templos de velas bruxuleantes, chega de orações que lançam os vossos fardos em asas de fumo rumo ao infinito. O véu rasgou-se! Jesus, o Profeta dos profetas, rasgou-o com os seus gestos de amizade, com banquetes partilhados, com o seu acolhimento dos marginalizados. Na sua forma livre, altruísta e humilde de se relacionar, o Mistério fez-se carne, sentou-se à vossa mesa.

O amor mútuo é a porta escancarada para o Mistério. Quando vocês se amam, o Mistério não se manifesta como um lampejo fugaz, mas como uma chama que habita em vocês, que perdura e transforma. Ele floresce quando vocês se desprendem de si mesmos, na jornada em direção ao Outro, ao próximo, ao desconhecido à sua porta. Livremente! Sem cálculos egoístas! Com a humildade da semente que brota na terra. O Outro é o seu templo vivo, a própria condição da sua revelação interior. Nele, nela, o Mistério se instala, porque o amor é o Seu trono invisível.

Esta é a mudança da nova era: do céu para a terra! Não busque o sagrado em estrelas distantes; ele caminha ao seu lado, em seu colega de trabalho, em sua irmã na estrada, em seu irmão ferido. Segunda mudança: da intimidade egoísta, esse refúgio de orações solitárias e projeções vãs, para o relacionamento puro e desinteressado que tece a trama do Reino. Basta de ilusões de mundos infinitos! Cuidado onde pisa, ou você cairá na cegueira do seu ego inflado.

O Mistério não espera pela prostração; ele te chama à ação. Invista nas qualidades dos seus relacionamentos: perdão diário, escuta profunda, serviço incondicional. Abandone as orações que se dissipam como fumaça; faça do seu amor a canção eterna. Assim, o Reino virá não de cima, mas daqui, do seu sim concreto ao Outro. Quem tem ouvidos, que ouça! Quem tem coração, que se manifeste e ame. O Mistério já está entre vocês; revelem-no, ó terras sedentas!

 

mercoledì 7 gennaio 2026

O MISTÉRIO: A ORIGEM DE TUDO

 



Paulo Cugini

 

Filhinhos, vocês são de Deus e já os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo (1 João 4:1).  

Há perguntas que não dão trégua à alma humana, angústias que atravessam gerações como o vento que agita os galhos: "De onde viemos? Qual o sentido da nossa existência?" Essas perguntas são apenas aparentemente simples, pois carregam em si a nostalgia de uma origem perdida, o profundo desejo de retornar ao lar. Todo homem, pelo menos uma vez, se vê contemplando além dos limites do visível, percebendo que a própria vida é uma questão em aberto, um convite a ousar ir além do horizonte do já conhecido.

O mistério, essa presença esquiva que sustenta tudo, revela-se como a fonte universal da qual todo ser extrai a vida. Vivemos imersos em sua essência, como peixes no oceano, muitas vezes alheios à vastidão que nos cerca. Todo o cosmos, com sua harmonia e complexidade, nos fala de uma relação profunda e íntima entre a criatura e sua origem, entre o sopro do universo e o de nossa alma. O mistério não é um enigma a ser decifrado, mas um abraço acolhedor; é a raiz silenciosa que alimenta nossa sede de significado.

Ter consciência de que viemos do Mistério significa reconhecer nossa origem como uma dádiva e um acontecimento. Contudo, na sociedade contemporânea, prevalece uma espécie de ignorância generalizada: vivemos como se tudo fosse fruto do acaso ou do nosso próprio esforço. Esquecemos que a existência emana de uma fonte mais profunda, que nos precede e nos acompanha. Somente aqueles que se deixam questionar pelo Mistério podem descobrir sua verdadeira identidade e não se contentar com as máscaras que o mundo oferece.

Eis a nobre tarefa dos educadores: guiar as vidas jovens ao encontro do Mistério que as habita. Educar não significa preencher recipientes vazios, mas despertar nos outros a questão do que realmente importa. Somente aqueles que vivenciaram suas próprias origens podem acompanhar outros até o ápice dessa descoberta. O educador é, portanto, uma testemunha do Mistério, um viajante que convida os jovens a embarcarem na jornada, a serem guiados pela luz discreta, porém poderosa, que surge no horizonte do ser.

Em contato vivo com o Mistério, o egoísmo se dissolve como névoa ao sol. Surgem o chamado à comunhão e o desejo de colaboração: a consciência de que o eu encontra plenitude somente no encontro com o outro. O Mistério, de fato, não isola, mas une; não fecha, mas se abre à doação mútua. É na redescoberta da unidade com tudo o que existe que o homem cura as feridas do individualismo e responde ao seu chamado mais profundo.

Esta é a tarefa que nos aguarda: retornar às nossas origens, deixar-nos moldar pelo Mistério, despertar em nós e nos outros a vocação à comunhão e à colaboração. Só assim, como sementes que criam raízes em solo fértil, seremos capazes de florescer numa nova humanidade, capaz de forjar relações autênticas e salvaguardar o Mistério que nos precede e nos aguarda.

 

mercoledì 24 dicembre 2025

HOMILIA DA NOITE DE NATAL 2025

 




COMPENSA – MANAUS

 

Paolo Cugini

 

Introdução

1.      A narração é estranha, porque não corresponde aquilo que foi narrado nas leituras das profecias messiânicas do tempo de advento.

Citar textos: Gen 49; Números 24; Is 2,4,9,11. Ger 23.

Séculos de preparação pela chegada do messias, do Salvador e, quando ele chega é como se ninguém estivesse sabendo, ninguém estivesse esperando-o.

2.      Qual é o problema?

É a maneira dele chegar o problema. E, ainda hoje, permanece um problema.  É como se o mundo ficasse surpreso pela chegada deste homem que desapontou todas as expectativas humanas. Ele não é aquilo que nós achamos que seja. Ele não é aquilo que a gente esperava: ele não corresponde às expectativas religiosas. Ele é outra coisa.

3.      A maneira do Mistério se manifestar na noite de Natal é uma indicação de como de agora em diante podemos encontrar o mesmo Mistério.  

A fidelidade ao texto do evangelho deveria provocar uma purificação das nossas pretensões religiosas. A atenção ao evangelho, deveria nos ajudar a sair de uma religião assassina, que mata, que destrói, que acaba com as pessoas. O grande perigo é de passar a vida toda na Igreja pensando de servir a Deus, enquanto, na realidade estamos servindo a nós mesmos.

Ele não veio para estar lá onde nós estamos, mas veio pra nos conduzir fora do nosso ambiente contaminado, viciado.

4.      Por isso a surpresa.

Quem acompanhou com atenção, meditando os textos bíblicos do tempo de advento deve ter ficado muito surpreendido e até constrangido.

Um dato importante da espiritualidade que brota do Evangelho é exatamente isso: se acostumar á surpresa de Deus. Jesus veio para nos sacudir de uma religião aconchegante, a bom mercado, que não custa nada.

5.      O seguimento a Jesus, quando o encontramos, tem um preço alto, muito alto:

a solidão a exclusão, o menosprezo. Por isso quando na nossa vida encontramos pessoas que de uma certa maneira foram excluídas, menosprezadas, afastadas, isoladas, pode ter certeza que naquela situação tem o marco de Jesus.

6.      Consequências:

Jesus não veio para satisfazer às nossas necessidades, sobretudo quando estas são de tipo material; Jesus veio para outros coisas. Ele veio para nos mostrar como uma pessoa criada a imagem e semelhança de Deus, deve viver.

a.                       Estilo sóbrio, simples.

 

b.                      Relações humanas autenticas: Jesus criou laços humanos de profunda amizade, alicerçadas na doação gratuita de si mesmo.

 

c.                       Criou uma comunidade de discípulos e discipulas iguais. Ele não veio para ser bajulado, mas para servir.