mercoledì 24 dicembre 2025

HOMILIA DA NOITE DE NATAL 2025

 




COMPENSA – MANAUS

 

Paolo Cugini

 

Introdução

1.      A narração é estranha, porque não corresponde aquilo que foi narrado nas leituras das profecias messiânicas do tempo de advento.

Citar textos: Gen 49; Números 24; Is 2,4,9,11. Ger 23.

Séculos de preparação pela chegada do messias, do Salvador e, quando ele chega é como se ninguém estivesse sabendo, ninguém estivesse esperando-o.

2.      Qual é o problema?

É a maneira dele chegar o problema. E, ainda hoje, permanece um problema.  É como se o mundo ficasse surpreso pela chegada deste homem que desapontou todas as expectativas humanas. Ele não é aquilo que nós achamos que seja. Ele não é aquilo que a gente esperava: ele não corresponde às expectativas religiosas. Ele é outra coisa.

3.      A maneira do Mistério se manifestar na noite de Natal é uma indicação de como de agora em diante podemos encontrar o mesmo Mistério.  

A fidelidade ao texto do evangelho deveria provocar uma purificação das nossas pretensões religiosas. A atenção ao evangelho, deveria nos ajudar a sair de uma religião assassina, que mata, que destrói, que acaba com as pessoas. O grande perigo é de passar a vida toda na Igreja pensando de servir a Deus, enquanto, na realidade estamos servindo a nós mesmos.

Ele não veio para estar lá onde nós estamos, mas veio pra nos conduzir fora do nosso ambiente contaminado, viciado.

4.      Por isso a surpresa.

Quem acompanhou com atenção, meditando os textos bíblicos do tempo de advento deve ter ficado muito surpreendido e até constrangido.

Um dato importante da espiritualidade que brota do Evangelho é exatamente isso: se acostumar á surpresa de Deus. Jesus veio para nos sacudir de uma religião aconchegante, a bom mercado, que não custa nada.

5.      O seguimento a Jesus, quando o encontramos, tem um preço alto, muito alto:

a solidão a exclusão, o menosprezo. Por isso quando na nossa vida encontramos pessoas que de uma certa maneira foram excluídas, menosprezadas, afastadas, isoladas, pode ter certeza que naquela situação tem o marco de Jesus.

6.      Consequências:

Jesus não veio para satisfazer às nossas necessidades, sobretudo quando estas são de tipo material; Jesus veio para outros coisas. Ele veio para nos mostrar como uma pessoa criada a imagem e semelhança de Deus, deve viver.

a.                       Estilo sóbrio, simples.

 

b.                      Relações humanas autenticas: Jesus criou laços humanos de profunda amizade, alicerçadas na doação gratuita de si mesmo.

 

c.                       Criou uma comunidade de discípulos e discipulas iguais. Ele não veio para ser bajulado, mas para servir.

domenica 21 dicembre 2025

RETIRO ESPIRITUAL DE ADVENTO DOMINGO 21 DEZEMBRO 2025

 




 

Primeira meditação

 

José: a simplicidade que acolhe o Mistério

Quando José acordou do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara e levou sua esposa para casa (Mt 1:24).

Nunca gostei muito da figura de São José. Austero e silencioso demais, estranho demais. Sempre achei que Maria merecia algo melhor. A tradição, baseada em textos apócrifos, apresenta José como um pai idoso e viúvo de seis filhos (quatro meninos e duas meninas). Nos tempos modernos, ele teria acabado na prisão, acusado de pedofilia, visto que Maria tinha doze anos na época do noivado. Além disso, o silêncio de José no Novo Testamento é surpreendente. O Evangelho de Marcos, que, segundo a tradição, é o mais antigo, não faz nenhuma referência direta a José, e o próprio Jesus é lembrado como filho de Maria. No Evangelho de João, os irmãos e irmãs de Jesus são mencionados, mas nem mesmo um vestígio de José. Somente nos Evangelhos de Mateus e Lucas há alguma referência a José, mas ele nunca fala, ou seja, nenhuma palavra lhe é atribuída. Por que tanto silêncio? Não é estranho? O que está por trás disso?

 

Ao buscar respostas em textos de outras fontes, como as judaicas, é possível fazer suposições que desmantelam e desconstroem as construções estabelecidas em outros lugares. Pirké Avot 5:23 nos diz que, na tradição judaica, o casamento era marcado para um rapaz aos dezoito anos, enquanto para uma moça, aos doze. Portanto, seguindo essa linha de pesquisa, José era um jovem galante apaixonado por Maria. Sinceramente, prefiro essa versão porque é mais realista e porque, de certa forma, torna a história de Maria e José mais autêntica. Em vez da história de um noivado forçado entre um homem idoso e uma jovem, ela conta uma história imbuída dos verdadeiros sentimentos que constituem nossas histórias de amor. Além disso, pensar em José como um jovem de dezoito anos nos permite compreender melhor a perplexidade de Maria diante da proposta do anjo. Ao escolher a vontade de Deus de se tornar a mãe do Senhor, Maria não fugiu da perspectiva de se casar com um homem idoso, mas fez uma escolha de amor autêntico, vivido de uma maneira diferente e original com seu jovem noivo José. 

Mas não termina aqui. É possível dar outro passo significativo na desconstrução de uma tradição que, para "salvar" a virgindade de Maria, alterou dados históricos que, na realidade, nos legaram um José mais humano e autêntico, conferindo ainda maior valor à figura de Maria. De fato, José é apresentado pela tradição do Novo Testamento como um homem justo, cuja retidão derivava de sua fidelidade à tradição de seus pais. Contudo, refletindo cuidadosamente sobre essa tradição, se José tivesse sido completamente fiel à sua noiva, isso teria sido motivo para o assassinato de Maria. Segundo a tradição do Antigo Testamento, Maria deveria ter morrido porque o filho que carregava não era de seu futuro marido, e José, se tivesse sido justo no sentido de fiel à tradição, deveria tê-la repudiado publicamente. Mas não. Como sabemos, as coisas aconteceram de forma diferente, porque José desobedeceu, rebelou-se contra a lei de seus pais, que queriam que sua futura esposa fosse apedrejada. Naquele exato momento, José ouviu seu coração, seus sentimentos, em vez da Lei, o que ele, um jovem apaixonado, sentia por Maria. E o amor abriu seu coração à misericórdia, deixando de lado o sacrifício, antecipando o que seu jovem filho mais tarde indicaria como o caminho autêntico daqueles que amam o Pai: "Quero misericórdia, mais do que sacrifício". Foi a rebeldia de José que permitiu ao Espírito Santo entrar na história e, assim, nos dar a mãe de quem nasceria o Salvador: Maria. Obrigado, José!

Eu oro e imploro de bom grado a um José como ele: 

 

Ó São José, vós que desobedecestes à Lei dos Padres que queriam Maria apedrejada até a morte.

 

Eu te imploro:

Dá-me forças para me rebelar contra todas as leis injustas.

Ajude-me a rejeitar radicalmente a religião que mata.

Ensina-me, em todas as circunstâncias da vida, a colocar em primeiro lugar, como tu fizeste, o amor pela Lei e o apreço pela tradição.

Imprime em mim a força do Espírito, para que eu não desanime em situações de conflito que pareçam difíceis de resolver.

Ajuda-me, enfim, a olhar para a vida com serenidade e confiança, como um dom maravilhoso de um Pai que deseja de nós, seus filhos, que ajamos na lógica da misericórdia, em vez da obediência cega às tradições, que matam.

Amém

 

No fio silencioso da história sagrada, José surge como um homem comum, porém profundamente extraordinário. Sua vida se desenrola pelas ruas empoeiradas de Nazaré, em meio à madeira de sua oficina e ao som discreto das orações, mas em seu coração ele carrega um sonho que transfigura tudo. É um sonho que nasce não da ambição pessoal, nem da busca pela grandeza, mas da escuta humilde e fiel de uma voz que sussurra em seu íntimo. José nos ensina que a presença do Mistério não se impõe com estrondo, mas se revela onde quer que a vida flua, onde quer que sejamos capazes de acolher cada dia como uma dádiva inesperada.

Joseph vive imerso na simplicidade dos pequenos gestos. Todas as manhãs, ele abre sua oficina e suas mãos, marcadas pelo trabalho, movem-se com a sabedoria herdada de seus antepassados. Ele aplaina, serra, prega: o ritmo da transformação da madeira acompanha seus dias. Ele não busca o excepcional, não persegue o sucesso; em vez disso, encontra o extraordinário no ordinário, a beleza no trabalho honesto. Até mesmo a sinagoga, com o calor da comunidade e a voz ancestral das Escrituras, é um lugar de aprendizado e descanso. Joseph sabe que a fé se alimenta da perseverança, que a oração se entrelaça com o trabalho, que a esperança se nutre nos detalhes mais humildes da vida.

Nos dias que se sucedem, sempre iguais e sempre novos, José cultiva a semente da consciência. Cada gesto, por menor que seja, torna-se uma oportunidade para aprender a amar a realidade como ela se apresenta, sem querer moldá-la aos próprios desejos. Sua consciência nasce do silêncio e da escuta: um coração que se deixa educar pelos ritmos da vida, que se abre ao que acontece, sem resistir. É nos detalhes, o pão partilhado, o olhar voltado para Maria, o cuidado com o Menino, que José constrói uma consciência justa, que não se deixa dominar pelo medo ou pela dúvida, mas que se entrega, com simplicidade, à bondade do Mistério que guia todas as coisas.

Acolher o Mistério significa dar espaço ao inesperado, permitindo que a revelação penetre no tecido mundano da vida cotidiana. Joseph faz isso discretamente, sem alarde: não busca sinais extraordinários, deixa-se surpreender pela presença do Mistério nas entrelinhas do dia a dia. Seu sonho não é uma fuga da realidade, mas uma nova perspectiva sobre a própria realidade. Em cada encontro, em cada esforço, ele percebe um eco do Mistério que transforma coisas simples em sinais da eternidade. Assim, o trabalho, o afeto, o sofrimento e a alegria tornam-se lugares de revelação, onde o divino se aproxima e a vida adquire um significado mais profundo.

Ao longo dos séculos, José permanece um exemplo brilhante de alguém que sabe abraçar a vida com um coração livre e grato. Sua justiça não é formalismo, mas a disposição de ser moldado pelo Mistério que se manifesta até mesmo e, sobretudo, nas pessoas mais simples. Sua história nos ensina que a verdadeira mudança não vem por meio de gestos espetaculares, mas sim por meio de uma fidelidade obstinada à realidade, vivenciada como um dom e um dever. Seguindo seus passos, aprendemos que a consciência se forma em gestos cotidianos, que a beleza da vida se esconde na simplicidade e que o Mistério só pode ser encontrado por aqueles que, como José, abraçam cada dia com admiração e confiança silenciosa.

 

Segunda meditação

Eles não tinham filhos. A história de Elisabeth

 

Eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos eram de idade avançada (Lc 1:6).

 O tema da esterilidade perpassa toda a Bíblia e, então, vale a pena abordá-la.

É difícil passar despercebida a esterilidade de todas as esposas dos três primeiros patriarcas, Sara, Rebeca e Raquel, esposas de Abraão, Isaac e Jacó, respectivamente. Esse dado bíblico retomado em outras partes das Escrituras, em vez de indicar que é Deus quem dá vida e não o homem, sublinha que não é o pai que cumpre as promessas. Na verdade, é Deus quem torna Sarah, Rebeca e Rachel capazes de conceber um filho e não seus respeitáveis maridos. O que está em jogo não é tanto a autoria desses homens que, como sabemos, já eram pais por causa da estrutura poligâmica da cultura atual, mas a maternidade das mulheres que Deus escolheu para cumprir suas promessas. Desde o início, a promessa divina relativiza os laços familiares e o relacionamento pai‑filho, rompe a ordem da sucessão patriarcal e funda a casa de Israel através das mulheres, oferecendo-nos uma estrutura igualitária.

Junto com isso, existe na Bíblia o tema fortemente simbólico da esterilidade do deserto que é transformado em planilha, com rios de água (Is 35; Is 40).

Há um mistério, profundo e silencioso, que permeia a essência da nossa existência: o da esperança que perdura para além dos limites da racionalidade, da fé que ousa acreditar onde tudo parece intransponível. A história de Isabel e Zacarias ergue-se como um farol na noite, dizendo-nos que o impossível pode, de fato, tornar-se possível. É uma história de expectativas consumidas pelo tempo, de desejos sepultados pela poeira do cotidiano, mas também de reviravoltas inesperadas que subvertem todas as previsões humanas. Meditar sobre essa história nos leva a reconhecer o valor inestimável da esperança, capaz de restaurar o sentido e um futuro onde tudo parecia irremediavelmente perdido.

Isabel e Zacarias vivenciam a esterilidade e a velhice, condições que, na cultura da época, representavam o selo definitivo da impossibilidade de descendência, de uma terra sem brotos e de um amanhã sem promessas. Nessa condição, o desespero não é um sentimento passageiro, mas um companheiro silencioso que se insinua nas dobras dos dias e pesa sobre os sonhos. O ventre estéril de Isabel é uma metáfora para todas as situações humanas em que a esperança parece ter deixado de brotar: relacionamentos interrompidos, planos desfeitos, expectativas que se transformam em resignação. A idade avançada deles também representa uma vida que se aproxima do crepúsculo, onde esperar por um milagre parece quase loucura.

Há uma lição sutil e profunda que nos chega com Isabel e Zacarias: a de abraçar a própria fragilidade, aceitar a própria identidade e que ela seja diferente dos outros, de não fugir dos sinais da perda, mas de permanecer neles com coragem. Aprender a conviver com os sintomas da morte, sejam eles solidão, decepção, doença ou vazio, significa permanecer fiel a si mesmo, mesmo quando as circunstâncias parecem nos despojar de toda a esperança. O apego deles à vida, mesmo em tempos de provação, já é um ato de fé: eles não deixam o desespero ter a última palavra, mas continuam a voltar seus corações para aquele Além invisível que pode surpreender.

Elisabeth personifica, com humildade e firmeza, a força silenciosa daqueles que jamais desistem. Sua fé não é ostensiva nem gritada, mas sussurrada dia após dia, numa perseverança que não teme a poeira do tempo. Diante do olhar crítico da sociedade, diante do peso de suas próprias dúvidas, Elisabeth não perde sua dignidade nem a doçura de seu coração. Sua coragem reside em permanecer aberta ao dom, em cultivar a possibilidade mesmo quando tudo indica que ela deveria ser rejeitada. Nela, o milagre da confiança inabalável se realiza, uma luz que arde sob as cinzas do hábito.

De repente, o vento do Mistério agita as cortinas de sua casa: onde antes havia aridez, agora a vida floresce; onde reinava o silêncio, agora ressoa a alegria. O sofrimento de Elizabeth se transforma em canção, seu ventre em um berço de nova esperança. A realização de um sonho impossível não é apenas a satisfação de um desejo pessoal, mas um sinal de que o Mistério da Vida pode surpreender e subverter todas as previsões humanas. A alegria que brota nasce da espera fiel, da vigilância constante mesmo quando a noite parece interminável.

Esta história revela a lógica paradoxal do Mistério: o amor manifesta-se precisamente onde as sombras parecem mais densas, a vida brota do deserto, a graça insinua-se nas brechas da nossa vulnerabilidade. A fé de Elisabeth e Zacarias não é obstinação cega, mas uma abertura confiante ao imprevisível. É a luz de um Amor que não pode ser vencido pelas trevas, que transforma a noite em aurora. Esta luz ensina-nos que o significado profundo da vida não é compreendido através de cálculos humanos, mas é revelado àqueles que sabem esperar e acolher.

A história de Elisabeth e Zacarias convida-nos a redescobrir o valor da oração silenciosa, da meditação que mergulha nas profundezas do coração e abre espaço ao Mistério. É na meditação que aprendemos a arte de ouvir o que a vida nos sussurra, de distinguir a voz da esperança do zumbido do medo. A jornada espiritual não é uma fuga da realidade, mas uma imersão mais profunda nela, a ponto de reconhecer um plano maior na teia dos acontecimentos. Rezar é confiar as próprias feridas ao Mistério, meditar é deixar-se moldar pela certeza de que, mesmo quando não se vê, algo já está brotando.

A história de Elisabeth e Zacarias torna-se hoje profecia e provocação: convida-nos a acreditar na possibilidade, a não temer os desertos interiores, a não desistir quando tudo indica que devemos deixar de ter esperança. Num mundo muitas vezes dominado pela eficiência e pela lógica dos resultados, a espiritualidade lembra-nos que a vida floresce precisamente onde aprendemos a esperar, a confiar, a deixar-nos surpreender. Que a coragem de Isabel nos sirva de exemplo: na noite, a luz espera apenas para ser acolhida. E talvez, quando tudo parecer perdido, o Mistério nos surpreenda novamente, permitindo-nos vislumbrar que o impossível é o espaço onde a esperança habita.

 

venerdì 19 dicembre 2025

IV DOMINGO DO ADVENTO ANO A

 




 Is 7,10-14; Sal 23; Rm 1,1-7; Mt 1,18-24

Paolo Cugini

 

 

Neste tempo do Advento que estamos vivenciando, a liturgia nos leva a mergulhar no mistério da vinda do Salvador de uma nova maneira. Ela faz isso, em primeiro lugar, oferecendo-nos as leituras dos profetas que anunciam a vinda do Messias. Ao ouvirmos as profecias messiânicas de Isaías, somos impactados pela beleza das imagens e pela riqueza do conteúdo. Em segundo lugar, a liturgia nos oferece guias que nos conduzem à gruta de Belém para aprendermos a ver o mistério de Jesus com novos olhos, os olhos da fé. Assim, fomos acompanhados por Maria, depois por João Batista e, hoje, por José. A reflexão que proponho não se concentrará na figura de José, mas no conteúdo específico das leituras. Vejamos.

Chegamos ao último domingo do Advento, e a liturgia nos apresenta leituras que devem nos ajudar a compreender algo do mistério de Jesus. O Evangelho deste domingo é uma narrativa da comunidade que, após a Páscoa, relê a história de Jesus e a interpreta. Este trabalho inicial da comunidade conecta o nascimento de Jesus às profecias do Antigo Testamento e, em particular, àquelas profecias messiânicas que traçavam o nascimento do futuro Messias a Davi. Mateus, falando a uma comunidade judaica, tem o cuidado de demonstrar a conexão entre Jesus e as palavras dos profetas. Esta já é uma primeira indicação espiritual muito importante. Para entender e conhecer Jesus Cristo, precisamos pegar a Bíblia e folheá-la. De fato, Mateus diz: " Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito por meio do profeta" (Mt 1,22). A passagem citada pelo evangelista é de Isaías 7,10-14, que ouvimos na primeira leitura. O objetivo é nos ajudar a concentrarmo-nos na história da salvação, que nos fala de um Deus presente no meio da história dos homens e das mulheres e que age dentro dessa mesma história. Trata-se, portanto, de apreender a Sua presença, acolhendo-a com fé, para que também nós possamos embarcar nesta jornada de vida nova.

Paulo também compreende o mistério de Jesus à luz dos textos dos profetas, mas acrescenta algo. Na passagem que ouvimos, Paulo afirma: Deus havia prometido por meio de seus profetas nas Sagradas Escrituras a respeito de seu Filho, nascido da descendência de Davi segundo a carne, e designado Filho de Deus com poder segundo o Espírito de santidade, em virtude da ressurreição dos mortos: Jesus Cristo, nosso Senhor (Romanos 1:1ss). Paulo percebe a dupla origem do nascimento de Jesus. A primeira é segundo a carne e vem da descendência de Davi, assim como havia sido profetizado pelo profeta Natã (2 Samuel 7:14ss) e depois retomado pelos profetas e, de modo especial, pelo profeta Isaías. Paulo intui que, a partir do evento da ressurreição dos mortos, não é mais possível pensar em Jesus meramente como uma pessoa que vem da carne, da história dos homens e mulheres, mas há algo mais. Paulo diz que Jesus foi designado Filho de Deus com poder segundo o Espírito de santidade. Filho de Deus é um título messiânico encontrado apenas no profeta Daniel, um escrito do século III a.C. e, portanto, um dos mais recentes do Antigo Testamento. Este título messiânico é o único que oculta uma origem divina para o futuro Messias. Paulo afirma claramente que essa conexão entre Jesus e o Filho de Deus se deve à ressurreição dos mortos, que se torna o evento central para a compreensão do mistério de Jesus e de sua identidade.

Este segundo aspecto, que acabamos de analisar, leva-nos a uma consideração final. Na passagem do Evangelho de hoje, Mateus fala de cumprimento, no sentido de que os acontecimentos que se desenrolam em torno da vida de Jesus concretizam o que havia sido dito pelos profetas. Ao lermos atentamente os Evangelhos e prestarmos atenção à vida de Jesus, percebemos que, desde o seu nascimento, o cumprimento das profecias não é uma operação matemática: muito pelo contrário. Jesus interpreta as profecias, vive-as e as cumpre à sua maneira. Por isso, as suas ações causam espanto e constrangimento, ao ponto de, como ouvimos no domingo passado, até João Batista, que o anunciou à humanidade, se perguntar: " És tu aquele que havia de vir, ou devemos esperar outro?".

O valor de uma jornada como o Advento reside em nos ajudar a desapegar de nosso conhecimento religioso e abrir espaço para a novidade do Evangelho. A liturgia, portanto, nos ajuda a concentrar nossa atenção em Jesus Cristo, a aprender a conhecê-lo e a seguir não doutrinas vãs, mas a sua Palavra e o seu exemplo.

sabato 13 dicembre 2025

TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO/A

 



Is 35,1-6a. 8a.10Sal 145; Gc 5,7-10; Mt 11,2-11

 

Paolo Cugini

 

 

Nas leituras do terceiro domingo do Advento, permeia o ambiente um sentimento de expectativa, uma espécie de impaciência. Há uma sensação de expectativa por alguém que, em certo ponto, parece quase improvável de chegar, e a espera causa angústia e perda de esperança. O próprio João Batista, que, na passagem que acabamos de ler, está na prisão, participa desse clima geral de tensão, questionando a identidade de Jesus. "És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?" (Mt 11,3). A pergunta de João é rica em significado, expressando e capturando simultaneamente as dúvidas daqueles que seguem o Senhor. Quantas vezes, aliás, nos fazemos essas perguntas ao longo do caminho, especialmente quando o Senhor se encontra no meio do deserto, onde não há como voltar atrás e seguir em frente parece uma jornada sem fim. A dúvida de João Batista é a nossa, e é uma dúvida importante porque expressa a intensidade e a seriedade da jornada na qual as pessoas se dedicam inteiramente a seguir o Senhor.

Para nos ajudar em nossa angústia, as palavras do profeta Isaías vêm em nosso auxílio: “Digam aos de coração amedrontado: ‘Coragem! Não tenham medo! Eis que o seu Deus é o seu Deus’” (Isaías 35). Em um contexto de grande tensão e sofrimento, o profeta ampara o povo com a Palavra de Deus, uma palavra que os impulsiona a erguer a cabeça, a não se deixarem enganar pelos pensamentos humanos e a aprenderem a depositar sua fé no que Deus pensa, na obra que Ele está preparando. Dessa perspectiva, a espera é uma dimensão fundamental na jornada da fé, pois a fortalece e a testa. É uma fase muito delicada, porque a esperança pode se deteriorar e se transformar em falta de confiança no plano do Senhor. Quando isso acontece, a pessoa se torna triste, amargurada e deprimida. Por essa razão, o profeta Isaías nos convida novamente a: “ Fortaleçam as mãos fracas, firmem os joelhos vacilantes”. Isaías está confiante de que o povo, para além da situação presente que parece prenunciar apenas coisas negativas, conseguirá contemplar a glória do Senhor. A percepção do que o Senhor está preparando na história se transforma em uma alegria incontida, expressa pelo profeta com estas palavras:

Então os olhos dos cegos se abrirão, e os ouvidos dos surdos se desimpedirão. Então o coxo saltará como a corça, e a língua do mudo cantará de alegria. Haverá um caminho e uma estrada, e lhe chamarão Caminho da Santidade. Por ele voltarão os resgatados do Senhor, e virão a Sião com alegria; alegria eterna resplandecerá sobre as suas cabeças; alegria e regozijo os seguirão, e a tristeza e o choro fugirão.

Há um mundo abalado pela ação de Deus na história, uma ação que se manifesta por meio das ações de homens e mulheres. O que antes parecia impossível agora está se tornando realidade. Os exilados se sentiam para sempre confinados entre os muros de uma cidade estrangeira. Agora, eles vislumbram um caminho através do deserto que leva à cidade de Jerusalém. Tudo o que precisam fazer é partir.

Aprender a confiar na palavra do Senhor é a grande lição deste terceiro domingo do Advento, quando, embora a luz de Cristo ainda não seja visível, já está próxima: tudo o que precisamos é de um pouco de paciência. O apóstolo Tiago também nos lembra disso na segunda leitura, convidando-nos a observar o que acontece na natureza: “ Observem o agricultor, que espera pacientemente pelo precioso fruto da terra, até receber as chuvas da primavera e do outono. Sejam pacientes também e fortaleçam os seus corações, porque a vinda do Senhor está próxima” ( Tg 5,7). Há um fruto que está prestes a nascer, e a sua vinda é certa, porque está na lógica das coisas. É apenas uma questão de esperar, de ter um pouco de paciência, de fortalecer os nossos corações com a esperança da espera. Em última análise, este é um dos significados mais profundos da oração, quando alimentada pela Palavra de Deus: abrir espaço a cada dia para o plano de Deus, alimentar-nos com as Suas imagens contidas nas profecias dos profetas, afastar os medos que surgem de um foco restrito no presente. Embora seja verdade que o Deus de Jesus Cristo se manifeste no tempo, Ele nunca está fechado em si mesmo, mas sempre aberto ao futuro. O Advento nos ajuda a repensar nossas vidas, a sempre colocar cada acontecimento na perspectiva de Deus, que é uma perspectiva de vida e amor.

 

sabato 6 dicembre 2025

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO/A

 



 

Paolo Cugini

 

O tempo do Advento tem sua própria espiritualidade específica, manifestada nas leituras que ouvimos não apenas no domingo, mas também ao longo da semana. A liturgia visa nos ajudar a redescobrir aqueles elementos da caminhada de fé que não foram totalmente assimilados durante o ano que passou e, consequentemente, não se tornaram parte de nossa herança espiritual. No primeiro domingo do Advento, a palavra de Deus nos indicou o objetivo da caminhada daquele que há de vir e, portanto, da caminhada da Igreja: a construção da paz. A presença de Cristo na história é reconhecida onde há paz, onde quer que alguém trabalhe para construir a paz. Foi isso que Jesus fez, e é isso que o Espírito Santo faz na história. O segundo domingo do Advento revela o conteúdo dessa paz; ou seja, explica como o Espírito atua na história para que a humanidade se prepare para viver em paz.

Mais uma vez, o profeta Isaías nos auxilia nesta jornada de compreensão. De fato, no capítulo 11 da primeira leitura, o profeta anuncia que, na era que verá a raiz de Jessé em ação, os contrastes coexistirão, e o faz propondo uma série de imagens extraídas do mundo animal. Há paz quando os opostos, em vez de se repelirem, aprendem a coexistir pacificamente. A ação do Espírito, agindo por meio da palavra do Senhor, opera uma transformação naqueles que a acolhem, que consiste em deixar de considerar o outro como um inimigo a ser combatido. Como sabemos, esta ideia crucial será retomada por Paulo em sua carta aos Gálatas, quando diz : “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos vocês são um em Cristo Jesus” (cf. Gl 3,28). A comunidade cristã torna-se o lugar onde buscamos viver o que recebemos do Espírito, acolhendo os irmãos e irmãs que o Senhor coloca em nosso caminho. Somos chamados, portanto, a ter os mesmos sentimentos uns pelos outros, seguindo o exemplo de Cristo Jesus (Rm 15,5). Na vida da comunidade cristã que acolhe o Espírito do Senhor, o seu estilo, o seu modo de vida, deve ser visível entre os irmãos e irmãs — isto é, a sua humanidade acolhedora, repleta de misericórdia, que dá lugar a todos sem distinção. A espiritualidade típica do Advento, que ouvimos no início do ano litúrgico, convida-nos, portanto, a abandonar a mentalidade religiosa que relega a relação com Deus à esfera da adoração, a abrirmo-nos à perspectiva do amor gratuito de Deus manifestado em Jesus, que exige que aquilo que recebemos gratuitamente se traduza na experiência da comunidade. Ser instrumentos de paz, capazes de entrar nas dinâmicas relacionais para suavizar as tensões, é a atitude exigida daqueles que invocam o Espírito Santo e estão abertos à sua ação.

Para acolher o Espírito do Senhor, precisamos nos preparar, endireitando nossos caminhos e nos esforçando para seguir os passos de Jesus. Isso significa que não basta ouvir a Palavra de Deus ou participar do culto dominical: precisamos viver o que ouvimos. É a isso que o Evangelho de hoje se refere como conversão, anunciada por João Batista, que não apenas a anuncia e exige, mas também dá o exemplo com um estilo de vida austero. João Batista parece dizer à comunidade de fiéis que não basta desejar a mudança, mas que escolhas concretas devem ser feitas para permitir que o Espírito Santo encontre espaço. Por isso, diz-se que João vestia roupas de pelos de camelo e usava um cinto de couro na cintura; seu alimento era gafanhotos e mel silvestre (Mt 3,2), não como uma imitação estéril, mas para indicar a necessidade de fazer escolhas concretas que nos ajudem a diminuir o poder da dimensão material sobre a nossa existência. Dessa perspectiva, o tempo do Advento, como um período em que preparamos o espaço para o Espírito Santo, deve ser um tempo em que fazemos escolhas baseadas na essencialidade e na sobriedade. João Batista nos adverte que não podemos nos apegar a nada para nos defender da mudança. Se desejamos acolher o Espírito Santo, que nos capacita a assimilar os próprios sentimentos do Senhor, incluindo a capacidade de acolher a todos e não fazer distinções, devemos buscar viver em comunidade segundo o Evangelho. É nesse espírito que acolhemos a orientação do segundo domingo do Advento para caminharmos rumo ao Natal, ansiosos por seguir de perto o caminho trilhado por Jesus.